Open-access Geotecnologias na análise de áreasde risco hidrológico em centros urbanos: estudo de caso em Campina Grande (PB)

Geotechnologies in the analysis of hydrological risk areas in urban centers: a case study in Campina Grande, PB, Brazil

RESUMO

O crescimento urbano desordenado intensifica os problemas de drenagem e alagamentos em cidades brasileiras, sobretudo em regiões semiáridas com infraestrutura insuficiente. Este estudo analisou a malha urbana de Campina Grande (PB), considerando dados entre 2010 e 2023, com os objetivos de mapear áreas de risco hidrológico e compreender os fatores que potencializam a ocorrência de alagamentos. Para isso, foram empregadas técnicas de geoprocessamento e de sistemas de informação geográfica, incluindo a extração automática da rede de drenagem, a aplicação de densidade kernel para identificar áreas críticas, o uso de modelos digitais de elevação para avaliar o relevo e a análise de uso e ocupação do solo, com destaque para áreas de preservação permanente. Os resultados indicaram que a ocupação irregular e a impermeabilização excessiva do solo ampliam o escoamento superficial e a vulnerabilidade a eventos extremos. Concluiu-se que a integração de geotecnologias ao planejamento urbano representa um instrumento fundamental para orientar políticas públicas, fortalecer a gestão da drenagem e reduzir os riscos hidrológicos em cidades do semiárido.

Palavras-chave
geoprocessamento; drenagem urbana; risco hidrológico; Campina Grande; Paraíba; semiárido

ABSTRACT

Unplanned urban growth intensifies drainage and flooding problems in Brazilian cities, particularly in semi-arid regions with insufficient infrastructure. This study analyzed the urban area of Campina Grande, Paraíba, Brazil, considering data from 2010 to 2023, with the objective of mapping hydrological risk areas and understanding the factors that exacerbate flooding events. Geoprocessing techniques and Geographic Information Systems (GIS) were applied, including the automatic extraction of the drainage network, kernel density estimation to identify critical areas, digital elevation models to assess topography, and land use and land cover analysis, with an emphasis on Permanent Preservation Areas (PPAs). The results revealed that irregular occupation and excessive soil impermeabilization increase surface runoff and urban vulnerability to extreme hydrological events. It is concluded that integrating geotechnologies into urban planning is a fundamental tool to support public policies, strengthen drainage management, and reduce hydrological risks in semi-arid cities.

Keywords
geoprocessing; urban drainage; hydrological risk; Campina Grande; Paraíba; semi-arid region

INTRODUÇÃO

Inundações e alagamentos urbanos configuram problemas recorrentes em cidades brasileiras, com impactos sociais, econômicos e ambientais cada vez mais expressivos. Esses eventos são agravados pelo adensamento populacional, pela ocupação desordenada do solo e pela deficiência dos sistemas de drenagem, além de se intensificarem diante das alterações nos regimes pluviométricos associadas às mudanças climáticas. Conforme Tominaga, Santoro e Amaral (2009), a expansão urbana em áreas inadequadas ampliou a exposição de populações vulneráveis aos desastres, e Tucci (2008) aponta que a maioria dos municípios carece de estrutura para gerir adequadamente as águas pluviais.

Campina Grande (PB) exemplifica essa realidade, com registros frequentes de alagamentos em pontos críticos da malha urbana, como no cruzamento entre as avenidas Assis Chateaubriand e Almeida Barreto. Esses episódios resultam da conjugação entre relevo desfavorável, impermeabilização excessiva e deficiências na infraestrutura de escoamento. Diante disso, destaca-se a necessidade de instrumentos técnicos que permitam diagnosticar, prever e mitigar tais ocorrências.

Embora existam estudos relevantes sobre drenagem urbana e riscos hidrológicos em diferentes regiões brasileiras (Tucci, 2007; Duarte; Santos; Castelhano, 2021), ainda são limitadas as análises integradas que utilizam geotecnologias em cidades do semiárido. Nesse contexto, a combinação entre variabilidade pluviométrica, urbanização desordenada e fragilidade da infraestrutura de drenagem torna o centro urbano dessas regiões especialmente vulnerável, exigindo metodologias capazes de articular dados hidrológicos, geoespaciais e socioambientais em uma perspectiva abrangente.

Este estudo analisou Campina Grande com base em dados do período de 2010 a 2023, empregando técnicas de geoprocessamento e sistemas de informações geográficas (SIG), para identificar e mapear áreas urbanas com maior propensão a alagamentos. Os objetivos foram avaliar a vulnerabilidade hidrológica da cidade, evidenciar os fatores que potencializam a ocorrência de eventos críticos e oferecer subsídios técnicos ao planejamento urbano, contribuindo para políticas públicas voltadas à mitigação de riscos e à adaptação climática no semiárido.

REFERENCIAL TEÓRICO

A suscetibilidade a alagamentos e inundações em áreas urbanas decorre da interação entre processos hidrometeorológicos, formas de uso e ocupação do solo e a capacidade (ou deficiência) dos sistemas de drenagem. Em contextos de urbanização acelerada, a impermeabilização das superfícies reduz a infiltração, eleva o escoamento superficial e tensiona a infraestrutura existente, ampliando a frequência e a severidade de eventos de alagamento (Tucci, 2005; 2008; Botelho, 2017). Paralelamente, a ocupação de áreas ambientalmente sensíveis — margens de cursos d’água, planícies de inundação e fundos de vale — agrava a exposição de grupos vulneráveis (Tominaga; Santoro; Amaral, 2009).

É útil distinguir, de início, alagamentos de inundações. Os alagamentos resultam do acúmulo temporário de água por insuficiência da micro e macrodrenagem urbana, com forte influência da impermeabilização e do desenho viário. Já as inundações decorrem do transbordamento de cursos d’água, atingindo várzeas e planícies adjacentes (Tucci, 2007; Duarte; Santos; Castelhano, 2021). Em ambas as situações, a dinâmica espacial do evento depende de declividade, da conectividade da rede de drenagem e de obstruções estruturais, motivo pelo qual análises integradas com geotecnologias têm se mostrado particularmente eficazes, sobretudo em domínios naturais onde a organização do relevo e da drenagem estrutura o funcionamento hidrológico da paisagem (Ab’Sáber, 2003).

Os SIG consolidaram-se como plataforma para integrar dados espaciais e alfanuméricos, permitir análises multivariadas e produzir mapas de suscetibilidade e risco com maior precisão (Inpe, 2006). Em estudos urbanos, técnicas como extração automática de rede de drenagem por meio de modelos digitais de elevação (MDE), mapeamento de bacias e sub-bacias (por exemplo, hierarquias tipo Strahler e codificação Pfafstetter) e produtos derivados (fluxo acumulado, direção de fluxo, preenchimento de depressões) são rotineiramente empregadas para compreender a organização dos escoamentos (Strahler, 1957; França et al., 2024). A qualidade do MDE e o pré-processamento (por exemplo, fill sinks) condicionam os resultados e, portanto, devem ser explicitados metodologicamente.

No plano temático, a literatura recente tem destacado dois eixos relevantes ao ambiente urbano:

  • parâmetros morfométricos e topográficos (declividade, hipsometria, convergência de fluxo), que auxiliam a identificar setores de concentração do escoamento e potenciais gargalos na drenagem;

  • uso e cobertura do solo, pois a expansão da mancha urbanizada e a redução de áreas permeáveis aumentam a razão escoamento/chuva e deslocam hotspots de alagamento (Palácio; Oliveira; Meireles, 2021; Garcia; Alixandrini Júnior, 2022; França et al., 2024).

A combinação desses eixos, quando associada a registros observacionais (Defesa Civil, mídia local, campanhas de campo), tende a melhorar a capacidade preditiva e a robustez das validações.

Métodos espaciais e estatísticos agregam poder analítico à cartografia temática. A densidade Kernel, originalmente formulada como técnica de estimação não paramétrica (Silverman, 1986), vem sendo aplicada para identificar hotspots de eventos (ou de elementos da rede) ao transformar distribuições discretas de pontos em superfícies contínuas de densidade. Em estudos urbanos, a Kernel é útil para reconhecer concentrações de conexões de drenagem e/ou ocorrências reportadas de alagamentos, permitindo inferir padrões de intensificação do risco (Nery et al., 2020; Dias et al., 2021; Guirra; Paranhos Filho, 2024). A escolha de parâmetros (função, raio/banda) deve ser compatível com a escala urbana e com a densidade de registros disponíveis, sob pena de super ou subsuavização.

Outro vetor conceitual relevante é o papel das áreas de preservação permanente (APPs) ao longo de cursos d’água, cujas funções ambientais — contenção de processos erosivos, proteção de matas ciliares e regulação de escoamentos — se conecta diretamente à mitigação de inundações (Brasil, 2012b; Ackermann; Samora, 2020). Em contextos urbanos, a supressão de vegetação e a impermeabilização de canais favorecem picos de vazão e transbordamentos. Estudos recentes reforçam que delimitar e monitorar APPs com geotecnologias subsidiam decisões de ordenamento e apontam prioridades de restauração ecológica e de soluções baseadas na natureza (Maia, 2022; Scottá et al., 2024).

No semiárido brasileiro, a variabilidade intra e interanual da precipitação, com quadras chuvosas concentradas e eventos intensos em curtos períodos, potencializa a resposta hidrológica rápida em meios urbanizados. Em cidades como Campina Grande, a combinação de regime pluviométrico irregular, relevo ondulado e ocupação desordenada eleva a exposição a alagamentos, exigindo abordagens que articulem clima, morfometria, uso do solo e desempenho da drenagem (Aesa, 2009; 2019–2023; Palácio; Oliveira; Meireles, 2021). Nesse cenário, produtos recentes de uso e cobertura (por exemplo, ESA WorldCover) e MDEs de melhor qualidade integrados a fluxos SIG contribuem para diagnósticos mais granulares e comparáveis entre setores intraurbanos (Zanaga et al., 2021; França et al., 2024).

Por fim, a literatura converge em três direções aplicadas:

  • padronização de termos e elementos cartográficos para interpretação inequívoca (figura/tabela/quadro; unidade, Sistema de Referência de Coordenadas, fonte de dados);

  • integração de dados observados (Defesa Civil, histórico de ocorrências) à modelagem espacial para validação independente;

  • síntese analítica que compare resultados locais com achados de outras cidades, permitindo posicionar o caso em um gradiente regional e orientar políticas urbanas (infraestrutura verde/azul, recuperação de APPs, permeabilidade do solo, requalificação de sistemas de micro e macrodrenagem) com base em evidências (Palácio; Oliveira; Meireles, 2021; Garcia; Alixandrini Júnior, 2022; França et al., 2024).

MATERIAIS E METODOS

Caracterização da área de estudo

O município de Campina Grande tem área de 591,66 km2 e está localizado no interior do estado da Paraíba, na Região Nordeste do Brasil, a aproximadamente 120 km da capital, João Pessoa. Suas coordenadas geográficas são 7°13’19.20” S e 35°53’20.40” O. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), a população do município é de 419.379 habitantes, com densidade demográfica de 708,82 habitantes/km2. Campina Grande é a segunda maior cidade da Paraíba e a maior do interior do estado, ocupando o 55º lugar no ranking populacional do país. Entre os censos de 2010 e 2022, houve acréscimo de 36.808 habitantes, representando crescimento médio de 13,95% no período (Figura 1).

Figura 1
Crescimento populacional de Campina Grande, Paraíba (1970–2023).

O crescimento populacional em Campina Grande intensifica os efeitos da urbanização desordenada, ampliando pressões sobre a infraestrutura urbana e os serviços públicos essenciais. Como afirma Santos (1993), esse processo no Brasil produz segregação socioespacial, deslocando populações de baixa renda para áreas de risco sem infraestrutura, o que perpetua ciclos de pobreza e vulnerabilidade. Em Campina Grande, dados do IBGE (2011) indicam que 2.721 pessoas viviam em setores sujeitos a inundações, enxurradas e deslizamentos, evidenciando a desigualdade socioespacial e seus impactos negativos. Esse cenário, associado à expansão urbana recente, reforça a relação entre adensamento populacional, impermeabilização do solo e aumento da suscetibilidade a eventos hidrológicos extremos.

Precipitação em Campina Grande (PB)

As precipitações em Campina Grande apresentam significativa variabilidade interanual, com média aproximada de 875 mm/ano, segundo dados da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa, 2019–2023) para o período de 2019 a 2023. A Tabela 1 sintetiza os totais anuais e os meses de maior e menor ocorrência de chuvas, evidenciando a predominância de volumes mais expressivos entre março e julho, enquanto os menores índices se concentram entre setembro e novembro. Essa sazonalidade, associada à crescente irregularidade pluviométrica e à ocorrência de chuvas intensas em curtos intervalos de tempo, acentua os riscos de alagamento, sobretudo em áreas com drenagem insuficiente ou ocupação irregular (Marengo; Bernasconi, 2015; IPCC, 2022).

Tabela 1
Precipitação anual (mm), mês mais chuvoso e mês mais seco em Campina Grande, Paraíba (2019–2023).

De acordo com o Relatório Anual sobre a Situação dos Recursos Hídricos no Estado da Paraíba (Aesa, 2009), o início da quadra chuvosa é regulado principalmente pela atuação da zona de convergência intertropical, que exerce forte influência sobre o comportamento pluviométrico regional. Alterações nesse sistema atmosférico, potencializadas pelas mudanças climáticas, reforçam a urgência de políticas urbanas adaptativas voltadas à mitigação de riscos hidrológicos (Marengo et al., 2020).

A Tabela 1 confirma a concentração das chuvas no período de março a julho, responsável por cerca de 70% do total anual, enquanto os menores índices se concentram entre setembro e novembro. Essa sazonalidade evidencia o caráter irregular do regime pluviométrico regional, típico do semiárido nordestino, e explica a alta vulnerabilidade de Campina Grande a eventos de alagamento em curtos intervalos de tempo.

Bacias hidrográficas

Campina Grande está inserida na bacia hidrográfica do Rio Paraíba, cuja rede de drenagem é composta do rio principal e de seus afluentes, incluindo rios, riachos e córregos que desempenham papel fundamental no escoamento superficial. Para delimitar as bacias no perímetro urbano, foi aplicado o método de codificação Pfafstetter, adotado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Essa técnica padronizada permite identificar e hierarquizar bacias hidrográficas por meio de um sistema numérico que diferencia sub-bacias em relação ao rio principal, possibilitando subdivisões em diferentes escalas de análise. No Brasil, a ANA adaptou o método de forma a facilitar o planejamento e a gestão de recursos hídricos, o que explica sua ampla utilização em estudos hidrológicos e ambientais. No presente estudo, a aplicação da codificação Pfafstetter foi essencial para identificar as sub-bacias urbanas e estruturar a análise da rede de drenagem em Campina Grande (Figura 2).

Figura 2
Delimitação das sub-bacias hidrográficas urbanas de Campina Grande (PB), obtidas pelo método de codificação Pfafstetter.

As ottobacias de nível 6, delimitadas pelo método Pfafstetter, permitem identificar unidades menores de drenagem em uma rede hierárquica, oferecendo maior precisão para análises locais. Em Campina Grande, essa abordagem auxilia na avaliação das sub-bacias urbanas e na compreensão dos padrões de drenagem, contribuindo para a identificação de áreas críticas sujeitas a alagamentos.

Altimetria

A área urbana de Campina Grande apresenta variação altimétrica significativa, com altitudes entre 447 e 637 metros (Figura 3). Essa diferença de elevação influencia diretamente o escoamento superficial e a dinâmica da drenagem, fatores que, associados ao crescimento urbano e à impermeabilização do solo, agravam a ocorrência de alagamentos e inundações. Observa-se que as áreas mais elevadas tendem a concentrar fluxos em direção às regiões mais baixas, onde se formam pontos de acúmulo de água, especialmente durante episódios de precipitação intensa.

Figura 3
Hipsometria no perímetro urbano de Campina Grande (PB).

A hipsometria de Campina Grande evidencia que as áreas de menor altitude concentram maior vulnerabilidade a alagamentos durante episódios de precipitação intensa. A interação entre essas condições altimétricas e a expansão urbana desordenada intensifica os riscos hidrológicos, reforçando a necessidade de planejamento integrado da drenagem e de políticas de controle do uso do solo.

Relevo

A classificação do relevo pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, 1999), baseada na declividade (Quadro 1), em conjunto com o mapa de declividade urbana (Figura 4), mostra que Campina Grande se insere predominantemente em relevo ondulado, típico do agreste paraibano. Essa configuração, formada por colinas e vales, condiciona a dinâmica da drenagem ao estruturar microbacias e áreas de maior declividade, que podem acelerar o escoamento pluvial e, em determinadas situações, intensificar os riscos de alagamentos e inundações.

Quadro 1
Classes de relevo segundo a declividade (%).
Figura 4
Declividade no perímetro urbano de Campina Grande (PB).

A relação entre relevo e drenagem urbana é decisiva para a ocorrência de alagamentos. Áreas com declividade acentuada favorecem o escoamento acelerado, enquanto regiões planas tendem a acumular água. Associada à impermeabilização crescente do solo, a configuração ondulada do relevo impõe desafios adicionais à gestão hídrica e à infraestrutura de drenagem urbana.

Uso e ocupação do solo

A análise do uso e ocupação do solo é fundamental para compreender as transformações do território e identificar áreas urbanizadas, zonas verdes e regiões de ocupação desordenada. Neste estudo, foram utilizadas imagens do Projeto ESA WorldCover (Zanaga et al., 2021), com resolução espacial de 10 metros, derivadas dos satélites Sentinel-1 e Sentinel-2. Essas informações permitiram elaborar um mapa detalhado do uso e da ocupação do solo de Campina Grande (Figura 5), possibilitando avaliar a dinâmica espacial local e os impactos das atividades humanas sobre o território, além de subsidiar estratégias de planejamento urbano voltadas à mitigação de áreas suscetíveis a alagamentos e inundações.

Figura 5
Uso e ocupação do solo em Campina Grande (PB).

O uso inadequado do solo e a ocupação irregular em áreas urbanas intensificam os problemas de drenagem e alagamento em Campina Grande. A impermeabilização crescente eleva a intensidade e a frequência dos eventos de alagamento, configurando um ciclo de expansão urbana descontrolada e infraestrutura insuficiente. A integração entre planejamento urbano e mapeamento das áreas de risco é fundamental para mitigar esses impactos.

Pontos de alagamentos e inundações frequentes no perímetro urbano

A pavimentação e a ocupação urbana desordenada intensificam a impermeabilização do solo, reduzindo a infiltração da água da chuva e provocando acúmulo em vias e terrenos. Em Campina Grande, os alagamentos são frequentes, sobretudo durante a estação chuvosa, quando ocorre a maior parte da precipitação anual (Figura 6). A deficiência do sistema de drenagem, aliada à insuficiência de infraestrutura, agrava esses eventos, resultando em inundações localizadas (Figura 7). A topografia do município e o adensamento urbano descontrolado aumentam os riscos, especialmente em áreas de alta densidade populacional e infraestrutura precária.

Figura 6
Alagamento em via urbana de Campina Grande (PB) causado por deficiência do sistema de drenagem agravada pela topografia.
Figura 7
Inundação em Campina Grande (PB) decorrente de sobrecarga no sistema de macrodrenagem e ocupação irregular às margens de curso d’água.

A Defesa Civil disponibilizou uma lista com ruas e áreas afetadas por alagamentos (Quadro 2) e inundações (Quadro 3) utilizada como base para validar os resultados deste estudo. A integração dessas informações com os dados geoespaciais aprimora a precisão na identificação das áreas de risco e reforça a credibilidade das conclusões. Essa abordagem permite comparar as áreas mapeadas nas análises com os registros reais de ocorrências, fortalecendo a consistência dos resultados obtidos.

Quadro 2
Áreas de inundações em Campina Grande (PB), classificadas por nível de risco.
Quadro 3
Áreas de alagamento frequente em Campina Grande (PB).

As áreas de inundações foram classificadas pela Defesa Civil com base no nível de risco, variando entre médio e alto. Esses locais incluem comunidades e bairros vulneráveis cuja infraestrutura de drenagem é insuficiente, agravando os impactos das chuvas intensas. A identificação dessas áreas é crucial para priorizar intervenções e mitigar danos.

Os pontos de alagamento frequente registrados pela Defesa Civil se concentram em ruas e avenidas de grande circulação, refletindo tanto a insuficiência da drenagem urbana quanto a pressão exercida pelo adensamento populacional e pela impermeabilização do solo. A recorrência desses eventos em locais estratégicos da malha viária reforça a necessidade de intervenções estruturais e de políticas de gestão territorial que priorizem a melhoria da infraestrutura de escoamento.

Técnicas utilizadas

A sequência metodológica apresentada na Figura 8 demonstra a integração entre aquisição, tratamento e análise de dados geoespaciais. A sistematização das etapas garantiu a reprodutibilidade dos procedimentos, além de assegurar a consistência nos resultados obtidos. Esse encadeamento metodológico foi decisivo para identificar as áreas urbanas vulneráveis, permitindo combinar técnicas de modelagem hidrológica, análise espacial e validação empírica com registros da Defesa Civil.

Figura 8
Sequência metodológica aplicada na análise geoespacial de alagamentos e inundações.

Esse fluxo metodológico foi fundamental para integrar diferentes técnicas de análise espacial e hidrológica, permitindo a identificação precisa das áreas urbanas vulneráveis e a validação com registros da Defesa Civil.

Importação de dados

A primeira etapa do projeto consistiu na importação dos dados para o software QGIS 3.34.0, Prizren. A qualidade das informações utilizadas impacta diretamente a precisão das análises subsequentes. Entre os conjuntos de dados integrados, destaca-se o perímetro urbano de Campina Grande, disponibilizado pelo Observatório de Campina Grande (2021), que reflete mudanças recentes na malha urbana e permite maior precisão na identificação de áreas potencialmente afetadas por inundações.

Também foram incorporados os pontos e áreas de inundações registrados pela Defesa Civil em 2023, fundamentais para a identificação das zonas mais vulneráveis, por indicarem ocorrências históricas de eventos hidrológicos. Para complementar a análise, utilizaram-se ainda as bacias hidrográficas codificadas pela ANA, classificadas segundo o método de Otto Pfafstetter no nível 6 (ottobacias), o que possibilita maior detalhamento e hierarquização da rede de drenagem.

A integração desses diferentes conjuntos de dados possibilitou uma análise abrangente das condições urbanas e ambientais de Campina Grande, permitindo identificar padrões de vulnerabilidade e subsidiar estratégias de mitigação de riscos e de planejamento urbano sustentável.

Aquisição de imagens de satélite

A aquisição dos MDE foi realizada por meio do plugin OpenTopography DEM Downloader, integrado ao QGIS 3.34.0. Essa ferramenta permitiu a importação direta de dados altimétricos com resolução espacial de 30 metros, provenientes do projeto SRTM, amplamente utilizado em estudos de drenagem urbana e hidrologia (Farr et al., 2007; Brooks et al., 2019). Os MDE constituem a base para a extração de informações topográficas, como altimetria e declividade, fundamentais para a análise do escoamento superficial.

A utilização dos MDE possibilitou identificar áreas suscetíveis a inundações e avaliar a influência das intervenções urbanas sobre o ciclo hidrológico local. Ao associar esses dados a técnicas de geoprocessamento, foi possível aprimorar a compreensão da dinâmica de drenagem em Campina Grande, fornecendo subsídios para o planejamento urbano e a gestão ambiental (Valeriano, 2008).

Reprojeção da imagem

Após a aquisição dos MDE, foi realizada a reprojeção dos dados para o sistema de referência EPSG:31985, correspondente ao SIRGAS2000 / UTM zona 25S. Essa etapa foi essencial para garantir o alinhamento espacial de todos os dados utilizados no projeto, permitindo a integração e sobreposição correta das diferentes camadas no QGIS.

A reprojeção é uma prática consolidada em análises geoespaciais, visto que os conjuntos de dados frequentemente apresentam sistemas de coordenadas distintos. O ajuste das projeções evita distorções e assegura a precisão das análises subsequentes, influenciando diretamente a qualidade dos resultados (IBGE, 2015; Longley et al., 2015).

Correção do modelo digital de elevação

A correção do MDE foi realizada por meio do algoritmo fill sinks (Wang; Liu, 2006), disponível no software SAGA, integrado ao QGIS. Esse algoritmo é projetado para preencher depressões espúrias no MDE de forma hierárquica, assegurando a continuidade do fluxo hídrico (Wang; Liu, 2006; Conrad et al., 2015). A presença de depressões não tratadas pode comprometer a modelagem hidrológica, gerando interpretações equivocadas dos padrões de drenagem e afetando a simulação de escoamento.

A etapa de correção é crítica para a qualidade dos resultados, pois um MDE hidrologicamente consistente é condição indispensável para a análise de risco de inundação e para o planejamento urbano. Ao reduzir incertezas na representação do relevo, esse procedimento oferece maior confiabilidade à identificação de áreas propensas a alagamentos e subsidia a adoção de medidas preventivas adequadas.

Extração de drenagem

Após a correção do MDE, foi realizada a extração da rede de drenagem utilizando o algoritmo channel network and drainage basins, disponível no módulo hidrológico do software SAGA. Esse procedimento permite a identificação dos cursos d’água e suas interseções, além de possibilitar a subdivisão das bacias hidrográficas com base no fluxo acumulado (Jenson; Domingue, 1988; Conrad et al., 2015).

A extração de drenagem constitui uma etapa fundamental para compreender a dinâmica do escoamento superficial, oferecendo informações essenciais sobre a direção e a conectividade do fluxo hídrico. Esses dados subsidiam a gestão hídrica, o planejamento urbano e a avaliação de riscos associados a inundações, ao permitir a delimitação de áreas mais suscetíveis a eventos hidrológicos extremos.

Análise dos espaciais avançadas

A análise espacial foi conduzida em duas etapas complementares, de modo a reforçar a robustez e a validação dos resultados obtidos. A primeira etapa consistiu na aplicação da técnica de estimativa de densidade Kernel (Kernel density estimation — KDE) sobre os pontos de conexão da drenagem, permitindo identificar áreas de maior concentração de eventos potenciais de inundação (Silverman, 1986; Bailey; Gatrell, 1995).

Na segunda etapa, a rede de drenagem extraída foi associada aos pontos de alagamento registrados, possibilitando avaliar a correspondência entre os resultados do modelo hidrológico e as ocorrências empíricas. Essa integração permitiu validar a eficácia do método e revelou a relação direta entre a infraestrutura de drenagem e a recorrência de inundações. A abordagem adotada reforça a utilidade das análises espaciais como suporte ao planejamento urbano e à gestão de riscos hidrológicos.

Mapeamento Kernel

A KDE é um método estatístico de suavização espacial proposto inicialmente por Rosenblatt (1956) e Parzen (1962), posteriormente consolidado por Silverman (1986) e amplamente difundido em análises espaciais por Bailey e Gatrell (1995). A técnica permite transformar pontos discretos em uma superfície contínua de densidade, evidenciando padrões de concentração e áreas críticas. No presente estudo, o método foi aplicado para gerar um mapa de densidade dos pontos de conexão da rede de drenagem em Campina Grande, possibilitando a identificação de setores urbanos mais vulneráveis a alagamentos.

Na aplicação, utilizaram-se como camada de entrada os pontos de drenagem, por representarem locais estratégicos de convergência dos fluxos hídricos. O raio de influência adotado foi de 500 metros, definido em função da escala urbana e do comportamento esperado do escoamento superficial. Para a forma do Kernel, optou-se pela função quártica, por atribuir maior peso aos pontos próximos e suavizar gradualmente a influência dos mais distantes.

O resultado foi configurado para representar valores contínuos de densidade, destacando áreas com maior potencial de acúmulo de água durante eventos de chuva intensa. Essa visualização espacial facilitou a identificação de setores prioritários para intervenção, contribuindo para a mitigação de riscos hidrológicos e para a formulação de estratégias de gestão urbana mais eficazes.

Áreas de preservação permanente

A consideração das APP constitui etapa essencial para o planejamento urbano e a gestão ambiental. De acordo com o Código Florestal Brasileiro (Brasil, 2012b), as APPs ao longo dos cursos d’água têm a função de preservar a vegetação ciliar, proteger a qualidade da água e regular o escoamento superficial. Para rios com largura de até 10 metros, a faixa mínima de proteção estabelecida é de 30 metros em cada margem.

No presente estudo, aplicou-se um buffer de 30 metros sobre a rede hidrográfica extraída, a fim de simular as faixas marginais de APP e avaliar sua sobreposição às áreas urbanizadas. Essa análise permite verificar situações de ocupação irregular em áreas legalmente protegidas, contribuindo para a mitigação de riscos de inundações e para a formulação de estratégias de ordenamento territorial.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Extração da drenagem

A extração de drenagem em áreas urbanas apresenta desafios significativos por causa das modificações antrópicas, como redes artificiais de drenagem, pavimentação e edificações, que podem alterar ou ocultar os cursos naturais. A qualidade da resolução dos dados, aliada às variações hidrológicas sazonais, também influencia a precisão do processo. Por esse motivo, é necessária a utilização de dados atualizados e de metodologias que considerem a dinâmica urbana e hidrológica, assegurando maior consistência aos resultados (Tucci, 2008).

No presente estudo, a extração das drenagens foi realizada em dois níveis de detalhamento: nível 3, que contempla drenagens menores e de maior precisão local, e nível 5, que evidencia os principais canais e fluxos de maior volume. Essa diferenciação permitiu a subdivisão das bacias hidrográficas com base no fluxo acumulado, além de revelar a configuração dos cursos d’água, incluindo rios, córregos e canais principais, identificados automaticamente com base nas depressões topográficas.

A análise do mapa resultante (Figura 9) evidencia que os pontos de alagamento e áreas de inundação se concentram, sobretudo, nas ottobacias 758.228 e 75.229 (Figura 2), em trechos de drenagem classificados como nível 5, correspondentes aos canais principais e às drenagens superficiais de maior volume. Verificou-se ainda que parte desses pontos está localizada na faixa de 30 metros correspondente às APP, o que reforça a sobreposição entre ocupação urbana e zonas legalmente protegidas.

Figura 9
Mapa de análise da drenagem em Campina Grande (PB).

Nem todos os trechos analisados podem ser caracterizados como rios, pela ausência de atributos hidrológicos típicos, como fluxo perene ou leito bem definido, entretanto essas áreas apresentam expressivo potencial de escoamento superficial em razão da alta conectividade com drenagens de nível inferior, especialmente as de nível 3. Apesar do fluxo reduzido, essas drenagens funcionam como contribuintes para sistemas de maior porte, somando-se às drenagens de nível 5. Essa integração entre diferentes níveis resulta no aumento do volume e da velocidade do escoamento, evidenciando a relevância dessas áreas para a dinâmica hidrológica do terreno. Consequentemente, as faixas de 30 metros adjacentes a essas drenagens se configuram como zonas de alta vulnerabilidade a alagamentos e inundações, sobretudo diante das deficiências da drenagem urbana existente.

A análise geomorfológica proposta por Strahler (1957) introduziu a hierarquização dos cursos d’água como método fundamental para identificação e mapeamento automático de drenagens, assegurando a representação contínua do fluxo hídrico. Embora clássico, esse estudo mantém sua relevância por fornecer os alicerces conceituais que sustentam metodologias contemporâneas, incluindo aquelas aplicadas na avaliação de vulnerabilidade a inundações.

Mais recentemente, França et al. (2024) destacaram a importância do uso de técnicas avançadas e automatizadas na extração de redes de drenagem, especialmente em projetos de engenharia urbana, por proporcionarem maior precisão na validação das linhas de drenagem e melhor adaptação às diferentes escalas de análise. No presente estudo, a incorporação dessas abordagens na extração da drenagem de Campina Grande foi decisiva para identificar áreas críticas e estruturar uma base de dados espacial robusta, capaz de subsidiar a análise hidrológica e a gestão do risco de inundações.

Análise de densidade Kernel

A aplicação da análise de densidade Kernel sobre os pontos de conexão da rede de drenagem em Campina Grande permitiu identificar áreas críticas suscetíveis a alagamentos. A técnica, consolidada como ferramenta de análise espacial, transforma distribuições discretas em superfícies contínuas de densidade, evidenciando padrões de concentração (Silverman, 1986; Bailey; Gatrell, 1995). No presente estudo, utilizou-se a função de núcleo gaussiano com raio de influência de 500 metros, o que possibilitou a suavização dos dados e a identificação de regiões de maior risco hidrológico.

O mapa resultante (Figura 10) foi representado por uma rampa de cores que varia de tons claros a escuros, destacando em vermelho e laranja escuro as áreas mais críticas. Esses locais correspondem a setores com elevada concentração de pontos de drenagem e maior intensidade de escoamento superficial, resultado da acumulação de drenagens de menor ordem (nível 3) que contribuem para a formação de drenagens de maior porte (nível 5). O cruzamento desses resultados com os pontos de alagamento fornecidos pela Defesa Civil de Campina Grande (2023) confirmou que a maioria dos eventos se concentra nas áreas classificadas como críticas, validando a eficácia da metodologia na identificação de regiões urbanas vulneráveis.

Figura 10
Mapa de densidade Kernel dos pontos de drenagem em Campina Grande (PB).

A análise dos pontos de alagamento vai além da simples sobreposição espacial. Os registros históricos mostram que, em Campina Grande, os alagamentos não estão apenas associados à densidade de drenagens, mas também a interferências humanas significativas, como a impermeabilização do solo, a ocupação desordenada e a ausência de sistemas de escoamento adequados. Áreas urbanizadas com alta concentração de edificações e pavimentação tendem a apresentar menor capacidade de infiltração, redirecionando o fluxo hídrico para as regiões de maior intensidade de drenagem identificadas no mapa Kernel. Essa dinâmica é reforçada pelas características topográficas locais, que favorecem o acúmulo de água em pontos críticos.

O mapa de densidade Kernel também revelou padrões de transição em áreas de risco, cujas tonalidades variam de laranja escura para vermelho, indicando zonas de intensificação do escoamento. Esses padrões são fundamentais para compreender a progressão dos fluxos hídricos no contexto urbano e evidenciam a necessidade de intervenções específicas em setores críticos. A metodologia aplicada, ao possibilitar a visualização detalhada das áreas vulneráveis, mostra-se valiosa para apoiar gestores urbanos na priorização de medidas de mitigação, como a ampliação da infraestrutura de drenagem e o ordenamento das ocupações urbanas.

Assim, a análise de densidade Kernel demonstra sua relevância ao integrar precisão técnica e representatividade espacial, oferecendo subsídios sólidos para a formulação de estratégias de gestão ambiental e de planejamento urbano mais eficazes, como evidenciado em estudos recentes (Faria et al., 2020; Nery et al., 2020; Dias et al., 2021; Guirra; Paranhos Filho, 2024).

Validação dos dados

A validação dos dados consistiu em correlacionar os pontos de alagamento registrados pela Defesa Civil com as áreas de maior densidade de drenagem identificadas neste estudo. Essa integração confirmou a consistência dos procedimentos adotados, tanto na extração da rede quanto na análise de densidade Kernel, evidenciando os setores críticos representados nos mapas como áreas de maior vulnerabilidade.

Todavia, é necessário reconhecer limitações nos dados da Defesa Civil, como a subnotificação de eventos e a imprecisão espacial em determinados registros. Essas falhas já foram destacadas pela Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Brasil, 2012a), que ressalta a necessidade de aprimorar os sistemas de monitoramento e registro de desastres no país. Tais lacunas podem comprometer a representação integral da dinâmica dos alagamentos, sobretudo em áreas menos monitoradas ou de baixa densidade populacional.

Nesse contexto, a incorporação de práticas de ciência cidadã surge como estratégia complementar para enriquecer a base de dados. Estudos recentes apontam que a participação comunitária no registro de ocorrências amplia a confiabilidade das análises e fortalece a gestão de riscos (Mendonça; Souza; Dutra, 2021). A integração entre informações oficiais e dados coletados pela população contribui para diagnósticos mais precisos e fundamenta medidas preventivas mais eficazes (Brasil, 2021).

A inclusão das APPs também reforçou a validação, ao demonstrar que parte dos pontos de alagamento ocorre em faixas de proteção de 30 metros. Embora destinadas à preservação da vegetação ciliar e ao controle do escoamento superficial, essas áreas são frequentemente ocupadas ou impermeabilizadas, ampliando a vulnerabilidade hidrológica e comprometendo a drenagem natural.

De forma geral, a utilização de geoprocessamento e SIG mostrou-se eficaz para a análise espacial detalhada dos riscos. Tais ferramentas constituem uma base técnica sólida para apoiar políticas públicas de mitigação e prevenção de desastres, reafirmando sua importância na organização territorial e no monitoramento de áreas críticas (Câmara et al., 2001).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo evidenciou a aplicação do SIG como ferramenta estratégica para o planejamento urbano e a gestão ambiental, demonstrando como métodos geoespaciais avançados contribuem para a análise de riscos hidrológicos em contextos urbanos. A abordagem geoespacial adotada permitiu integrar múltiplos dados e identificar áreas críticas de alagamento e inundações em Campina Grande, oferecendo subsídios concretos para políticas públicas de mitigação.

Apesar da eficácia da metodologia, algumas limitações devem ser consideradas. A base de dados da Defesa Civil, embora essencial, apresenta lacunas relacionadas à subnotificação de eventos e à precisão espacial, especialmente em áreas periféricas. Como consequência, análises como a densidade Kernel, que dependem da qualidade dos insumos, podem ter sua confiabilidade comprometida. Nesse sentido, destaca-se a importância do aprimoramento contínuo das bases de dados e da incorporação de múltiplas fontes de informação. O engajamento da população por meio de práticas de ciência cidadã pode enriquecer significativamente os registros, ampliando a representatividade e a precisão das análises.

A aplicação de técnicas como a densidade Kernel se mostrou eficaz na identificação de hotspots de risco e na visualização das dinâmicas de escoamento superficial, contudo análises mais robustas poderiam ser alcançadas mediante a incorporação de séries temporais e sazonais detalhadas, capazes de capturar variações climáticas e eventos extremos. Nesse sentido, recomenda-se o desenvolvimento de modelos preditivos dinâmicos que integrem variáveis como mudanças climáticas e expansão da impermeabilização do solo, permitindo previsões mais adaptativas sobre o comportamento da drenagem urbana.

Os resultados também reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à adaptação urbana perante os riscos hidrológicos. Medidas estruturais, como a criação de zonas de retenção e a requalificação da infraestrutura de drenagem, devem ser associadas a soluções baseadas na natureza, incluindo a recuperação de áreas verdes e o fortalecimento da permeabilidade do solo. Além disso, as APPs, muitas vezes ocupadas irregularmente, foram identificadas como zonas críticas, o que reforça a urgência de estratégias de proteção e restauração para reduzir riscos e melhorar o equilíbrio ecológico.

O avanço na aplicação de SIG requer ainda a capacitação de profissionais e a ampliação da infraestrutura tecnológica. O uso de sensores remotos, modelagem tridimensional e sistemas de monitoramento em tempo real representam caminhos promissores para aprimorar a precisão das análises e ampliar a capacidade de resposta diante de desastres naturais.

Para pesquisas futuras, recomenda-se o desenvolvimento de estudos longitudinais que acompanhem a evolução da vulnerabilidade urbana ao longo do tempo, incorporando as transformações no uso do solo, o crescimento populacional e os efeitos das mudanças climáticas. A integração de novas fontes de dados, como imagens de satélite de alta resolução e tecnologias emergentes, pode potencializar os resultados alcançados e consolidar metodologias replicáveis em outros contextos urbanos.

Em síntese, a utilização de SIG e técnicas de análise espacial avançada, como a densidade Kernel, representa um avanço significativo no diagnóstico e na gestão de riscos urbanos. A qualidade e a atualização contínua dos dados são condições indispensáveis para assegurar a eficácia das análises. O estudo aqui desenvolvido estabelece uma base metodológica sólida para futuras investigações e para a formulação de políticas públicas mais eficazes, adaptativas e sustentáveis, capazes de mitigar os riscos de alagamento e promover cidades mais resilientes.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o presente estudo estão disponíveis mediante solicitação razoável ao autor correspondente.

  • Financiamento:
    nenhum.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    30 Jun 2025
  • Aceito
    20 Out 2025
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