SUMÁRIO
Objetivando o conhecimento da composição da Dipterofauna necrófaga e saprófaga, este estudo apresenta o material correspondente às 19 coletas mensais efetuadas entre junho/1984 e dezembro/1985 na Ilha da Marambaia, situada à 23° 05’ S e 44 00’W. Neste período foram coligidas 94 espécies, pertencentes às seguintes 16 famílias: Sarcophagidae (25 espécies); Drosophilidae (33 espécies); Calliphoridae (11 espécies); Muscidae (11 espécies); Stratyomidae (2 espécies); Tephritidae (2 espécies); Tachinidae (1 espécie); Phoridae (1 espécie); Xylomyidae (1 espécie); Lonchaeidae (1 espécie); Sepsidae (1 espécie); Pipunculidae (1 espécie); Dolichopodidae (1 espécie); Ropalomeridae(1 espécie); Asilidae (1 espécie) e Clusiodtdae (1 espécie). Informações adicionais sobre a bionomia e atratibilidade/iscas, das principais espécies, também são apresentadas.
SUMMARY
In order to know the necrophagus and the saprophagus Dipterofauna composition, this study shows the material of the 19 monthly captures fullfilled between june/1984 and december/1985 at llha da Marambaia, situated at 23°05' S and 44°00' W. In this time, 94 species were collected, belonging to the following families: Sarcophagidae (25 species); Drosophilidae (33 species); Cailiphoridae (11 species); Muscidae (11 species); Stratyomidae (2 species); Tephritidae (2 species); Tachinidae (1 specie); Phoridae(1 specie); Xylomytdae(1 specie); Lonchaeidae (1 specie); Sépsidae (1 specie); Pipunculidae (1 specie); Dolichopodidae (1 specie); Ropalomeridae (1 specie); Asilidae (1 specie) and Clusiodidae (1 specie). Aditional informations above the bionomy and atractibility of the main species is also shown.
INTRODUÇÃO
A Ilha da Marambaia (IM) situa-se a 23° 05'S e 44° 00'W, com área aproximada de 42 km2. Liga-se ao continente na região de Guaratiba por uma faixa estreita de 40 km de extensão - a Restinga da Marambaia - cuja origem sedimentar remonta ao Quaternário (BACKHEUSER, 1946).
O relevo varia entre baixada, meia baixada e elevação rochosa, sendo 641 m o seu ponto mais alto (o Pico da Marambaia). Talvez devido à sua privilegiada posição geográfica e ao acesso restrito, decorrente da existência de base militar da Marinha do Brasil, a I.M. conserva importante parcela de restinga e da Mata Pluvial Costeira. Esta última quase totalmente extinta no Estado do Rio de Janeiro. Informações detalhadas sobre a fisiografía e história da região podem ser obtidas em Pereira et al (1990).
Este estudo visa avaliar a composição da dipterofauna integrante daquela região insular, conhecimento básico para posteriores monitoramentos ecológicos e para comparações entre as dipterofaunas de distintos ecossistemas neotropicais.
MATERIAIS E MÉTODOS
Na região de Praia Grande (situada a cerca de 500 m à sudoeste do Porto do CADIM), foram demarcadas quatro linhas paralelas de coleta, distanciadas entre si por vinte metros, partindo cada uma do supra-litoral para o interior da mata secundária adjacente. Cada linha foi composta por cinco pontos de coleta, com intervalos de vinte metros entre um ponto e outro. Em cada ponto de coleta foram dispostas noventa gramas de isca moída sobre jornal no solo. Como iscas, foram usadas: na primeira linha banana; na segunda, vísceras de galinha; na terceira peixe; e na última uma mistura desses três tipos (30 g de cada). As iscas foram colocadas nos pontos uma hora antes do início da primeira coleta da manhã e da tarde.
A captura, por exaustão, foi feita por rêde entomológica durante dois dias/mês. De hora em hora, iniciando-se às 09:00 h (coleta matinal) e a tarde às 13:00 h (coleta vespertina).
Além desse procedimento também foram coletados, em diversas regiões da I.M., frutos em decomposição caídos sobre o solo,como: pitanga (Myrcia rubella Camb.), cacto (Pilososerius arabidae), amêndoa (Terminalia catappa L.) e goiaba (Psidium sp.). Esses frutos, acondicionados em sacos plásticos vedados, foram transportados para o laboratório e retirados os insetos adultos após emergirem.
O material analisado corresponde às coletas efetuadas entre junho de 1984 à dezembro de 1985. Todos esses exemplares foram incorporados à Coleção da Área de Biologia da U.F.R.R.J. e à Coleção de Insetos do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Tabela 1 mostra as 69 espécies identificadas de Dipteros/tipos de iscas, pertencentes às famílias: Sarcophagidae (20 espécies); Calliphoridae (10 espécies); Muscidae (6 espécies); Tephritidae(1 espécies); e Drosophilidae (32 espécies). Além dessas, devido a problemas de identificação e/ou a danos diversos ocorridos nos espécimens, não foi possível a determinação em outros 25 morfotipos coletados, quais sejam: Sarcophagidae - Oxysarcodexia sp. (ban, gal, pei e mis), Hybopygia sp. (gal e mis), Sarcophagula sp. (ban, gal, pei e mis), Euboettcheria sp. (ban e mis) e Nephochaetopteryx sp. (gal, pei e mis); Calliphoridae - Cochliomya sp. (gal); Muscidae - Morelia sp. (ban, gal, pei e mis), Graphomia sp. (ban, gal, pei e mis), Gymnodis sp. (pei e ame), Neomusclna sp. (pei) e morfotipo 1 (ame); Stratyomidae - Merosargus sp. (ban e mis) e morfotipo 2 (ame); Tephritidae - morfotipo 3 (goi e ame); Tachinidae - morfotipo 4 (mis); Phoridae - morfotipo 5 (ban, gal, pel, mis e cac); Xylomyidae - morfotipo 6 (gal); Lonchaeidae - morfotipo 7 (ame); Sepsidae - morfotipo 8 (ban, gal, pei e mis); Pipunculidae - morfotipo 9 (ban); Dolichopodidae - morfotipo 10 (ban e gal); Ropalomeridae - morfotipo 11 (gal e mis); Asilidae - morfotipo 12 (gal); Clusiodidae - morfotipo 13 (cac); e Drosophilidae - Drosophila sp. (ban, gal, pei e mis).
FAMÍLIA SARCOPHAGIDAE
Sarothromyia femoralis - loc. tipo Brasil. Distribui-se pelos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Espécie presente nas quatro estações do ano na I.M., mostrou acentuada preferência pela isca mistura, ainda que também coletada em todos os outros tipos de iscas. As maiores abundâncias foram obtidas nos meses de maio (outono) e novembro (primavera), principalmente no período da tarde.
Pattonella intermutans - loc, tipo América do Sul (Peru), é ocorrente no Brasil desde o Pará até São Paulo. Ocorreu com maior frequência no período da manhã, nos meses de junho (outono) e dezembro (primavera).
Peckia chrysostoma - loc. tipo St Thomas. Distribui-se por toda a América Central e do Sul. Foi coletada com maior frequência nos meses de janeiro e fevereiro (verão).
Oxysarcodexia spp. - gênero típico do Brasil, com distribuição por toda a América do Sul e Central. Na I.M., prefere o período da tarde. No mês de outubro foi coletado o maior número de espécimens deste gênero, pertencentes às espécies: O. angrensis; O. avuncula; O. modesta; O. amorosa; O. timida; O. thornax; O.petropolitana; e O. morretesi.
Argoravinia rufiventris - loc. tipo Brasil. É encontrada na América do Norte (USA), América Central e do Sul, onde ocorre no Peru, Bolívia e Argentina. Foi mais comum à tarde, na isca peixe.
Lipoptilocnema crispina - loc. tipo Rio de Janeiro. Distribui-se também em São Paulo. Foi coletada principalmente no periodo da manhã.
Ravinia belforti - loc. tipo São Paulo. Acha-se distribuida desde Trinidad até a América do Sul (Colômbia, Paraguai e Argentina). No Brasil, ocorre nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. Coletada nos meses de agosto e setembro (inverno), no período da manhã.
Helicobia pilipleura - loc. tipo Rio de Janeiro. Com distribuição pelas regiões Centro-Oeste e Sudeste, foi coletada principalmente nos meses de outubro e dezembro (primavera).
Euboettcheria collusor - loc. tipo Guiana, porém mais amplamente distribuída, desde Trinidad até Bolivia, Argentina e no Brasil, nos Estados do Paraná e Santa Catarina.
E. anguilla - loc. tipo Guiana, distribui-se pela Argentina, Brasil (MT, RJ e SP).
Chaetoravinia almeidai - loc. tipo Estado de Mato Grosso. É encontrada também nos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Coletada na I.M., principalmente na primavera.
Engelemyia inops - Coletada com maior frequência nos meses de maio e junho (outono).
Quanto a atratibilidade das iscas testadas, 88% dessas espécies de sarcophagídeos foram coletadas na isca mistura, seguindo-se as preferências por galinha (68%), peixe (60%) e banana (28%).
FAMÍLIA CALLIPHORIDAE
Chrysomya megacephala - Ocorre gregariamente em carne em decomposição, onde ovoposita intensamente. A espécie também ocorre em outros substratos em decomposição, como frutos. Um maior número de exemplares foi coletado no outono e no inverno, mostrando preferências pelo período da tarde e pela isca mistura.
Cochliomyia macellaria - Distribui-se na região Neártica desde o sul do Canadá até o sul dos EUA, e na região Neotropical desde o México até a Patagônia. Os adultos são atraídos por carne em decomposição e lixo. Também são encontrados forrageando o néctar de plantações, sendo atraídos por plantas que exalam odor de proteínas estragadas, é extremamente abundante em torno de matadouros.
Phormia regina - As larvas desenvolvem-se melhor em carne em decomposição. Os adultos são frequentemente encontrados em inflorescencias de plantas ou pousados em frutos.
Cochliomyia homnivorax - Coletada no mês de junho (outono), no interior da mata, na isca mistura, no período da manhã.
Chrysomya albiceps - Prefere altas temperaturas e umidade. Os adultos são atraídos por vários tipos de alimentos. Foram coletados exemplares com maior frequência no mês de outubro (primavera), no periodo da manhã.
Bufolucilia silvarum - Coletada no inverno e na primavera, somente nos pontos de captura localizados no interior da mata, pela manhã, na isca mistura.
Cynomya mortuorum - De ampla distribuição, ocorre também na região holártica da Europa e na América do Norte. Foi coletada nas iscas peixe e galinha. Estudos de campo mostraram que também são ativamente atraídas por fezes humanas. Somente foi coletada nos meses de julho e setembro (inverno).
Phaenicia cuprina - Habita as partes quentes e secas da África e Ásia. Alguns autores consideram como recente a sua introdução na Austrália e no Novo Mundo. Comumente, é encontrada se alimentando próximo a frutos caídos, flôres e colméias. Foi coletada no mês de setembro (inverno), na isca galinha, no interior da mata.
Calliphora uralensis - Esta espécie é abundante na zona florestal da Eurásia. Ainda que onívoras, as larvas são mais nunerosas em excretas liquidas, particularmente em latrinas e fossas. Os adultos pousam em locais iluminados e ovopositam nos locais próximos às fossas. Foram coletados adultos nos meses de setembro e outubro (final de inverno e inicio da primavera), no interior da mata.
Quanto a atratibilidade das iscas testadas, 73% dessas espécies de califorídeos foram coletadas na isca galinha, seguindo-se as preferências por peixe e mistura (46% cada) e banana (18%).
FAMÍLIA MUSCIDAE
As espécies mais frequentes foram Gymnodia sp. e Pseudotilolepsis nigripoda, as quais mostraram preferencias pelo período da tarde e pela isca peixe dos pontos de captura localizados no interior da mata.
FAMÍLIA TEPHRITIDAE
Ceratitis capitata - loc. tipo Oeste da India. Distribui-se por toda a América Central e do Sul, inclusive no Brasil, onde foi introduzida no final do século passado. Esta família apresenta ampla distribuição geográfica e as espécies podem ser divididas em dois grandes grupos com bases em suas características fisiológicas e ecológicas. A espécie em questão faz parte do grupo das que apresentam mais de uma geração anual, sem diapausa e que se distribui pelas regiões tropicais. Outra espécie desta família ainda não foi identificada.
FAMÍLIA DROSOPHILIDAE
Drosophila moju - Encontrada no Rio de Janeiro, é típica do Norte do Brasil e de distribuição que abrange o Panamá, Costa Rica, Colômbia e Bolívia. Encontrada na isca banana e peixe.
Drosophila mediostriata - loc. tipo Costa Rica. Encontra-se também no Panamá, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Trinidad e Brasil. Coletadas nas iscas banana e galinha e também no fruto amêndoa.
Drosophila montium - O maior número de exemplares desta espécie foi coletado nos meses de março (verão) e junho (outono). A espécie prefere aparentemente o período da manhã, a isca banana e o interior da mata.
Drosophila sturtevanti - loc. tipo Cuba. Tem distribuição restrita à América Central. Foi coletada na I.M. no mês de março (verão), período da manhã.
Drosophila mediosignata - loc. tipo Brasil. Foi coletada principalmente na isca banana.
Drosophila grisiolineata - loc. tipo Bolívia. Encontrada também no Brasil e Colômbia. Também coletada na isca banana.
Drosophila simulans - loc.tipo EUA. Distribui-se pelo México, Chile e Brasil. Foram coletados exemplares na isca banana e nos frutos pitanga e cacto.
Drosophila flavolineata - loc. tipo Costa Rica. Na I.M., foi coletada na isca banana.
Drosophila polimorpha - loc. tipo São Paulo. Encontra-se também na Guatemala, Panamá e Trinidad. Foi coletada na isca banana e nos frutos amêndoa, pitanga e cacto.
Drosophila ararama - loc.tipo São Paulo. Distribui-se por todo o Brasil. Foi coletada nos quatro tipos de iscas.
Grupo Willistoni - Típico do Oeste da índia. A distribuição abrange os EUA, México, Bolívia e Brasil. Mostrou preferência peia isca banana, no período da manhã e pelo interior da mata. Foram coletadas em maior abundância em junho (outono).
Drosophila mirim - loc. tipo São Paulo. Ocorreu com maior frequência em outubro (primavera), à tarde, na isca peixe, na fimbria da vegetação.
Drosophila busckii - loc. tipo EUA. De distribuição cosmopolita, foi coletadda nas iscas banana, peixe e mistura.
Drosophila camargoi - loc. tipo Belém do Pará. Distribuição: Costa Rica, Panamá, Guiana além do Brasil. A espécie foi coletada com maior frequência no mês de março (verão), de manhã na isca banana.
Drosophila neocardini - loc. tipo Amazonas. Além do Brasil, distribui-se também na Colômbia. Coletada na isca banana e mistura.
Drosophila ananassae - Típica das Ilhas Molluca e Amboina. Distribuição: EUA, oeste da Índia, México, Chile, Bolívia e Brasil. Foi coletada nas iscas banana, peixe e mistura, além dos frutos pitanga e amêndoa.
Drosophila fumosa - loc. tipo São Paulo (SP). Distribui-se por todo o Brasil. Coletada somente na isca galinha.
Drosophila mesophragmatica - Distribui-se pelo Peru , Bolívia, Colômbia e Brasil. Foi coletada somente na isca banana.
Drosophila repleta loc. tipo Ilha da Madeira, com distribuição cosmopolita. Foi coletada somente na isca galinha.
Drosophila prosaltans - loc. tipo Brasil (Amazonas e Alto Rio Negro). Distribui-se também pela Colômbia. Coletada na isca banana e nos frutos amêndoa e goiaba.
Drosophila dreyfusi - loc. tipo São Paulo. Distribui-se por todo o Brasil, tendo sido coletada na isca banana e no fruto goiaba.
Drososphila immigrans - loc. tipo EUA. Tem distribuição cosmopolita, sendo coletada somente na isca banana.
Drosophila onca - loc. tipo São Paulo. Distribuí-se por todo o Brasil. Foi coletada nas iscas banana e peixe.
Drosophila bandeirantorum - loc. tipo de São Paulo (SP). Distribui-se também pela Colômbia. Foi coletada somente na isca banana.
Drosophila guaru - loc.tipo de São Paulo (SP). Distribui-se por todo o Brasil. Foi coletada somente na isca peixe.
Drosophila guarani - loc. tipo São Paulo (SP). Também distribui-se por todo o Brasil, tendo sido coletada somente na isca banana.
Drosophila prosimilis - Com distribuição relatada em São Paulo (SP) e Rio de Janeiro, foi coletada no fruto amêndoa.
Drosophila campestris - Encontrada nos estados de São Paulo, Goiás e Bahia, é uma espécie típica dos campos cerrados e caatinga. Foi coletada na isca banana.
Quanto a atratibilidade das iscas testadas, 85% dessas espécies de drosofilídeos foram coletadas na isca banana, seguíndo-se as preferências por outros frutos (33%), peixe (30%) e por galinha e mistura (24% cada).
As abordagens quantitativas sobre as preferências /iscas/época do ano (em prep.), fornecerão subsídios para um maior entendimento sobre a importância da dipterofauna no metabolismo ecossistêmico daquela região insular, bem como permitirão correlações entre as diversidades de ecossistemas litorâneos, principalmente os do Sudeste brasileiro.
AGRADECIMENTOS
Agradecimentos especiais ao Comandante do CADIM (Centro de Adestramento da Ilha da Marambaía - Marinha do Brasil) à época da coleta dos dados, Capitão de Mar-e-Guerra (FN) Sebastião Batistuta, e ao Comando atual , Capitão de Mar-e-Guerra (FN) Carlos Alberto Beda Campos, pela possibilidade da continuidade dos trabalhos.
Somos gratos também aos Professores Dr.Hugo de Souza Lopes (in memoriam), Rita Tíbana (Museu Nacional do Rio de Janeiro) e Cátia Antunes de Mello Patiu (UFRRJ), pela identificação de parte do material.
