Open-access Relação entre índice de Apgar e general movements em recém-nascidos prematuros hospitalizados

Resumo

Introdução  O índice de Apgar é o principal indicador de risco imediato ao nascimento no Brasil, e os general movements (GMs) são uns dos marcadores padrão-ouro para desfechos neuromotores. No entanto, não são encontrados estudos que tenham investigado diferenças diretas na qualidade dos GMs em relação ao Apgar.

Objetivo  Analisar se o índice de Apgar se relaciona à qualidade dos GMs em recém-nascidos pré-termo hospitalizados e comparar a presença de fato-res de risco entre aqueles de maior risco e um grupo controle de menor risco.

Métodos  Trata-se de um es-tudo observacional, por análise de prontuários. Foram elegíveis 30 recém-nascidos de 34,80 ± 1,41 semanas gestacionais, hospitalizados em unidade de cuidados intermediários neonatal e divididos em grupo de maior risco (Apgar ≤ 7 no 1º e 5º minuto, peso ao nascer < 2.500 gramas) e grupo controle (Apgar > 7 no 1º e 5º minuto, peso ao nascer ≥ 2.500 gramas). Foram coletados os resultados das avaliações dos GMs pelo método de Prechtl e os fatores de risco segundo o Sistema Único de Saúde.

Resultados  Não houve diferenças entre os grupos em relação aos GMs, porém houve diferenças quanto aos fatores biológicos, sendo que no grupo de maior risco houve maior presença de problemas no par-to, nascimento ou gravidez e icterícia grave.

Conclusão  O índice de Apgar não se relacionou com a qualidade dos GMs nos recém-nascidos pré-termo estudados. Entretanto, houve mais intercorrências gestacionais e peri-natais, além de icterícia grave, no grupo de maior risco, indicando possível relação entre esses fatores de risco.

Diagnóstico precoce; Desenvolvimento infantil; Recém-nascido prematuro; Fator de risco

Abstract

Introduction  In Brazil, the Apgar score is the main indi-cator of immediate risk at birth and general movements (GMs) are the gold standard markers for neuromotor out-comes. However, there are no studies that have investigate direct differences in GM quality in relation to the Apgar score.

Objective  Assess whether the Apgar score is related to GM quality in hospitalized preterm newborns and compare the presence of risk factors in those at high risk against a low-risk control group.

Methods  This is an observational study involving the analysis of medical records. Thirty eligible newborns with a gestational age of 34.80 ± 1.41 weeks, hospitalized in the neonatal intermediate care unit, were divided into a high-risk group (1and 5-minute Apgar score ≤ 7, birth weight < 2,500 grams) and control group (1and 5minute Apgar score > 7, birth weight ≥ 2,500 grams). Prechtl’s GM assessment and risk factor analysis were conducted in accordance with the Brazilian National Health System (SUS in Portuguese).

Results  There were no intergroup differences for GMs, but differences in biological factors were observed, with the high-risk group exhibiting more problems during pregnancy, labor or birth, and severe jaundice.

Conclusion  The Apgar score was not related to GM quality in the preterm newborns studied. However, there were more gestational and perinatal complications and severe jaundice in the high-risk group, indicating a possible relationship between these risk factors.

Early diagnosis; Child development; Preterm newborn; Risk factor

Introdução

Alguns recém-nascidos nascem sob condições que aumentam suas chances de apresentar desfechos clínicos desfavoráveis. Esses lactentes são considera-dos de risco para problemas de desenvolvimento na infância.1,2 Por isso, para a vigilância do desenvolvimen-to de recém-nascidos até o 2º ano de vida, o Sistema Único de Saúde (SUS) recomenda a identificação pre-coce de fatores de risco,3 que podem ser biológicos ou ambientais.1

No grupo dos riscos biológicos estão a prematuri-dade (nascimento antes das 37 semanas gestacionais); peso ao nascer abaixo de 2.500 gramas (baixo peso); problemas na gestação, parto ou nascimento; icterícia grave; casos de deficiência ou doença mental na família; e presença de doenças graves (meningite, traumatismo craniano e convulsões). Os fatores de risco ambientais contemplam a ausência ou pré-natal incompleto; hospi-talização no período neonatal; parentesco entre os pais; e situações de risco (violência doméstica, depressão ma-terna, drogas ou alcoolismo entre os moradores da casa, suspeita de abuso sexual).1,3

Em geral, já está bem estabelecido na literatura que quanto menor a idade gestacional e o peso ao nascer e maior o tempo de hospitalização neonatal, maiores as chances de alterações neurológicas que acarretam problemas em desfechos neuromotores, como altera-ções no desempenho motor e paralisia cerebral.4-6 No entanto, a influência dos demais fatores de risco sobre desfechos neuromotores ainda no período neonatal é pouco investigada.

Além dos fatores de risco, na rotina hospitalar é recomendado o uso de indicadores clínicos de risco neonatal que sinalizam a necessidade de cuidados adi-cionais para minimizar desfechos clínicos adversos.7,8

O índice de Apgar, em particular, é o principal indicador de risco imediato ao nascimento em países em desen-volvimento9 e consiste em um escore de 0 a 10 que re-presenta sinais de anóxia geralmente identificados no primeiro e no quinto minuto de vida do recém-nascido.8 Quanto menores os escores, maiores os riscos de morte e de complicações neurológicas.10,11 Em especial, escores menores do que 7 sinalizam a necessidade de atenção especial, como maior possibilidade de uso de recursos especializados.12

Apesar das complicações neurológicas que podem refletir no índice de Apgar, sua influência sobre desfe-chos neuromotores é um tópico ainda escassamente estudado. Os estudos sugerem que, mesmo com índices baixos, recém-nascidos poderão apresentar resulta-dos normais de desenvolvimento neurolólogico em longo prazo.13,14 Torna-se importante, no entanto, investigar a influência do índice de Apgar em desfechos neu-romotores precoces.

Entre as ferramentas que podem ser utilizadas ainda no ambiente hospitalar para avaliação neuromotora, a avaliação da qualidade dos movimentos generalizados, ou general movements (GMs), pelo método de Prechtl (GMA),15 tem sido considerada padrão-ouro.16-18 Os GMs fazem parte do repertório motor espontâneo e surgem no início da vida fetal, estando presentes até o quinto mês de vida pós-termo. GMs com qualidade normal envolvem todo o corpo em uma sequência de movimentos complexos e com grande variabilidade. Quando os GMs perdem essas características, indicam alterações no funcionamento cerebral.

No período pré-termo e termo, a presença de GMs cramped-synchronized, em particular, caracterizados por movimentos rígidos, onde tronco e membros contraem e relaxam quase simultaneamente e de maneira consis-tente, é um marcador específico para risco de paralisia cerebral espástica.16-18 Além disso, GMs com pobre repertório, que apresentam variabilidade reduzida, sinalizam a necessidade de maior atenção individualizada.18 Por não necessitar de manipulação e por permitir triar recém nascidos de maior risco,15 a GMA é ideal para recém-nascidos hospitalizados, especialmente em locais onde o acesso a exames de alta complexidade é caro e difícil.17

Alguns estudos sugerem que existem associações entre a presença de determinados fatores de risco, incluindo baixo índice de Apgar,19 e alterações na quali-dade dos GMs.19-21 A presença de infecções em recém-nascidos pré-termo (RNPT) com baixo índice de Apgar no primeiro minuto, por exemplo, associa-se a GMs anormais quando avaliados no décimo quarto dia de vida, na idade de termo e com 12-15 semanas pós-termo.21 No entanto, não foram encontrados estudos que tenham investigado diferenças diretas na qualidade dos GMs de acordo com o índice de Apgar.

O presente estudo teve por objetivo principal anali-sar se o índice de Apgar se relaciona à qualidade dos GMs em RNPT que se encontravam hospitalizados. Adi-cionalmente, comparou-se a presença de fatores de ris-co ambientais e biológicos entre RNPT de maior risco quanto ao peso ao nascer e índice de Apgar e RNPT controle. A identificação precoce dessas relações faci-lita a vigilância do desenvolvimento nessa população, permitindo que a intervenção, caso necessária, seja refe-renciada e iniciada no tempo mais oportuno possível.

Métodos

Trata-se de um estudo observacional comparativo, conduzido através da coleta de dados de prontuários e de banco de dados de RNPT que foram hospitalizados na Unidade de Cuidados Intermediários Convencio-nal Neonatal (UCINCo) do Hospital Maria Aparecida Pedrossian (HUMAP), da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, no período de abril de 2019 a junho de 2021. O HUMAP é hospital de referência para gestação de risco no estado.

Foram elencados, a partir do banco de dados da UCINCo, recém-nascidos potencialmente elegíveis, ou seja, nascidos prematuramente (< 37 semanas), sendo excluídos aqueles sem registro de avaliação dos GMs ou que foram a óbito durante a hospitalização. Foram listados em uma planilha do Excel 693 recém-nasci-dos. Destes, 15 foram selecionados por meio de filtros, considerando os seguintes critérios de inclusão além da idade gestacional inferior a 37 semanas: baixo peso ao nascer (< 2.500 gramas), Apgar menor ou igual a 7 no 1º e no 5º minuto de vida, que permaneceram hos-pitalizados na UCINCo e que apresentavam avaliação de GMs entre 35 e 40 semanas de idade corrigida (grupo de maior risco). Para o grupo controle, foram in-cluídos 15 recém-nascidos pareados segundo os mes-mos critérios, porém com peso ao nascer maior ou igual a 2.500 gramas e Apgar maior do que 7 no 1º e no 5º minuto de vida, representando menor risco. A amostra final, portanto, foi constituída por 30 recém-nascidos.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da UFMS (CAAE nº539 34421.6.0000.0021), sendo dispensado da assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido. Os pais/responsáveis haviam assinado, no período de hospitalização dos recém-nascidos, um termo de consentimen-to autorizando as imagens pelo hospital para avaliação dos GMs. Inicialmente, foram coletados dos prontuários e do banco de dados as seguintes informações: data de nascimento, idade gestacional, peso ao nascimento, índice de Apgar, resultados das avaliações dos GMs e fatores de risco ao nascimento.

Foram considerados os fatores de risco presentes na Caderneta de Saúde da Criança do Ministério da Saúde do Brasil/SUS,3 sendo eles: ausência ou pré-natal incompleto; problemas na gestação, parto ou nasci-mento (pré/perinatais); prematuridade; peso ao nascer abaixo de 2.500 gramas; icterícia grave; hospitalização no período neonatal; doenças graves como meningite,traumatismo craniano e convulsões; parentesco entre os pais; casos de deficiência ou doença mental na família; e fatores ambientais como violência doméstica, depressão materna, drogas ou alcoolismo entre os moradores da casa e suspeita de abuso sexual.

As avaliações dos GMs que se encontravam regis-tradas nos prontuários foram realizadas por uma fisio-terapeuta da UCINCo com certificação no método de Prechtl15 e ocorreram entre a admissão e a alta do recém-nascido. Para as avaliações foram realizadas filma-gens dos recém-nascidos, posteriormente armazenadas no banco de dados do Setor de Neonatologia. Conforme instruções do método de Prechtl,15 as filma-gens foram realizadas com um aparelho celular e dura-ram de 1 a 3 minutos. Os recém-nascidos permanece-ram posicionados em supino, apenas de fralda, e tiveram todos os objetos/ninhos/cueiros ao seu redor retirados para possibilitar maior liberdade durante a execução dos movimentos. Não poderia haver qualquer interfe-rência do avaliador e/ou da mãe durante as filmagens, inclusive verbal.

As filmagens foram realizadas após 72 horas de vida, entre 35 e 40 semanas pós-menstrual, que com-preendem o período de GMs pré-termo e termo. Nessa fase, são descritos como movimentos fluentes e elegantes com sequência variável do pescoço, tronco, extremidades superiores e inferiores e sua qualidade pode ser classificada em: a) normal; b) poor repertoire (pobre repertório), quando o recém-nascido não apre-senta variedade de amplitude e velocidade, tornando-se um movimento previsível; c) cramped-synchronized, quando os movimentos são mais limitados, ocorrendo em blocos e não apresentando fluidez; e d) chaotic (caótico), quando os movimentos são bruscos, sem variedade de amplitude e velocidade, sem fluidez, considerados de alto risco para o neurodesenvolvimento.15

Para fins de confiabilidade no presente estudo, todas as filmagens foram novamente assistidas e os GMs avaliados por mais dois observadores independentes certificados. Casos de discordância foram discutidos até a obtenção de 100% de concordância entre os três observadores, incluindo as avaliações originais regis-tradas nos prontuários. O Kappa médio reportado para confiabilidade interobservadores na avaliação global de GMs é de 0.88.15 As reavaliações foram realizadas em condição cega quanto aos grupos.

A análise estatística foi realizada por meio do pro-grama SPPS 23.0, respeitando-se os pressupostos de normalidade (Shapiro-Wilk) e homogeneidade (Levene).

Primeiramente, realizou-se análise descritiva por meio de frequências brutas e proporções para variáveis categóricas (classificação da qualidade dos GMs, presença/ausência dos fatores de risco) e de médias e desvio padrão para variáveis contínuas (dados neonatais). Para comparar os dados neonatais entre os grupos para fins de caracterização da amostra, aplicou-se o teste t de amostras independentes. Para comparar as propor-ções das classificações da qualidade dos GMs (nor-mal, poor repertoire, cramped-synchronized, chaotic) no período pré-termo e termo e a presença/ausência dos fatores de risco ao nascimento entre os grupos (maior risco x controle), aplicou-se o teste de qui-quadrado ou, quando apropriado, teste exato de Fischer.

Adicionalmente, o teste exato de Fischer foi apli-cado para verificar a relação entre índice de Apgar e qualidade dos GMs no período pré-termo e termo independentemente de grupos. O índice de Apgar foi categorizado segundo seus escores no 1º e 5º minuto (0 2 = severamente baixo; 3 5 = muito baixo; 6 7 = moderadamente baixo; 8 10 = alto). Adotou-se nível de significância α de 5% para as análises.

Resultados

A Tabela 1 apresenta as características da amostra. Os lactentes apresentaram 34,80 ± 1,41 (mínimo 32, máximo 36 semanas e 6 dias) semanas de idade gestacional. O grupo de maior risco apresentou valores me-nores de peso ao nascer e de Apgar no 1º e 5º minuto de vida, quando comparado com o grupo controle, em conformidade com os critérios de inclusão.

Tabela 1
Valores médios e desvio-padrão das caracte-rísticas dos recém-nascidos da amostra em cada grupo do estudo

General movements

As categorias de qualidade dos GMs encontradas foram normal, poor repertoire e cramped-syncronized. Não observou-se a presença de GMs caóticos. Não houve diferenças entre os grupos quanto à qualidade dos GMs [X2(2) = 2,14; p = 0,44], no entanto, só houve GMs cramped-syncronized no grupo de maior risco (Tabela 2).

Tabela 2
Comparação dos grupos em relação à qua-lidade dos GMs pela GMA em frequências brutas (f) e proporções (%)

Fatores de risco

Apesar dos fatores de risco serem compostos de dez tópicos na Caderneta de Saúde da Criança do Ministério da Saúde do Brasil,3 três deles não foram en-contrados em nenhum dos grupos estudados (ausência ou pré-natal incompleto, parentesco entre os pais e casos de deficiência ou doença mental na família), e três faziam parte dos critérios de inclusão de um ou de ambos os grupos (prematuridade, peso ao nascer abaixo de 2.500 gramas e hospitalização em período neonatal). Dessa maneira, foram observados e analisados quatro fatores de risco, sendo eles: fatores ambien-tais; problemas na gestação, parto ou nascimento (pré/perinatais); icterícia grave; e doenças graves como me-ningite, traumatismo craniano e convulsões.

Não houve diferença entre os grupos quanto à presença de fatores de risco ambientais [X2(1) = 2,16; p = 0,33] e doenças graves [X2(1) = 0,16; p = 1,00], mas houve diferença entre os grupos quanto à presença de problemas pré/perinatais [X2(1) = 8,57; p = 0,00] e icterícia grave [X2(1) = 5,00; p = 0,03], sendo observada maior proporção desses fatores de risco no grupo de maior risco do que no grupo controle (Tabela 3).

Tabela 3
Comparação entre grupos em relação à presença dos fatores de risco em frequências (f, conta-gem) e proporções (%)

Apgar e general movements

As categorias de qualidade dos GMs não se asso-ciaram com as categorias dos escores de Apgar no 1º [X2(6) = 7,10; p = 0,25] nem no 5º [X2(6) = 5,88; p = 0,85] minuto (Tabela 4).

Tabela 4
Frequências das categorias de general movements em relação às categorias de índice de Apgar (n = 30)

Discussão

O presente estudo investigou se o índice de Apgar se relaciona com a qualidade dos GMs no período neo-natal em RNPT hospitalizados. Em relação à qualidade

dos GMs, a maioria dos recém-nascidos apresentou GMs com pobre repertório. Isto está de acordo com o reportado em outros estudos que relatam que muitos RNPT, em especial os com prematuridade extrema, apresentam pobre repertório de GMs durante seus pri-meiros dias de vida.22,23 Estes estudos apontam, ainda, que alguns recém-nascidos normalizam dentro de algumas semanas,22 enquanto outros normalizam em tor-no da idade equivalente ao termo ou mais tarde.22,24 Os resultados do presente estudo, portanto, podem representar desfechos transitórios.

É interessante que apenas no grupo de maior risco (baixo peso ao nascer e baixos escores de Apgar) houve a presença de GMs cramped-synchronized. Esses GMs são considerados um dos marcadores precoces mais importantes de comprometimento do sistema nervoso central.15 No entanto, a análise estatística apontou que os escores de Apgar no 1º e 5º minutos não se relacio-naram com a qualidade dos GMs. Esses achados se assemelham com o estudo de Wu et al.,25 onde compli-cações perinatais, como hiperbilirrubinemia, baixo es-core de Apgar no 5º minuto, sepse/infecções, entre outros, não foram associadas a GMs alterados aos 2, 3 e 4 meses de idade corrigida. Mallmann et al.26 realizaram um estudo com RNPT e recém-nascidos a termo hospi-talizados e encontraram relação entre GMs anormais e alguns fatores de risco, como nascimento pré-termo, baixo peso ao nascer e hospitalização superior a 30 dias (estes últimos mais presentes nos RNPT).

Possivelmente, a prematuridade em si, que foi um fator de risco controlado entre os grupos no presente estudo, é o principal fator de risco para alterações na qualidade dos GMs. Zahed-Cheikh et al.,27 que investigaram a qualidade dos GMs em RNPT extremos, obser-varam que aqueles com piores classificações tinham relação direta com menor idade gestacional e com mor-bidades pós-natais, tais como doença pulmonar crô-nica e infecções nosocomiais. Porro et al.28 ressaltam a importância de avaliar os fatores neonatais juntamente às trajetórias dos GMs ao longo do tempo, a fim de identificar recém-nascidos de risco para alterações no neurodesenvolvimento, principalmente aqueles que apresentam classificação de poor repertoire no período neonatal.

Neste estudo, foram utilizados os fatores de risco elencados pelo Ministério da Saúde.3 Três dos fatores foram usados como critérios de inclusão de um ou de ambos os grupos estudados, sendo eles prematurida-de, peso abaixo de 2.500 gramas e hospitalização no período neonatal. Dos sete fatores restantes, é inte-ressante que alguns não estiveram presentes, como a ausência ou pré-natal incompleto. Estudos anteriores indicam que este é um importante fator de risco para hospitalização prolongada e óbito,29,30 portanto, sua ausência pode ter favorecido os desfechos encontra-dos no presente estudo. Além disso, os recém-nascidos apresentavam condições clínicas estáveis, o que tam-bém deve ter contribuído para os resultados.

Quanto aos fatores de risco presentes, não houve diferença entre os grupos em relação aos fatores am-bientais relacionados à violência doméstica, depressão materna, drogas ou alcoolismo entre moradores da ca-sa e suspeita de abuso sexual. Por outro lado, houve maior porcentagem de problemas na gestação, parto ou nascimento e icterícia grave no grupo de maior risco em comparação ao grupo controle. Isto sugere que a presença de riscos ambientais pode ocorrer in-dependentemente do peso ao nascer e dos escores de Apgar, mas estes, quando inadequados, podem estar associados à maior presença de outros fatores de riscos biológicos.

Esses achados se alinham com o estudo de Silva et al.,29 onde verificou-se que existe associação entre intercorrências maternas e/ou no parto, menor peso ao nascimento, prematuridade extrema, índice de Apgar abaixo de sete no 1º e 5º minutos e presença de com-plicações clínicas com o RNPT. Estes fatores estavam correlacionados com maior risco de hospitalização e de óbito durante a hospitalização. Desta forma, a as-sociação entre baixo Apgar e baixo peso ao nascer com outros fatores de risco biológicos eleva o risco de tempo prolongado de hospitalização e de óbito.29,30 Moura et al.30 apontam que recém-nascidos internados em unidade neonatal apresentam características mais desfavoráveis, como maior frequência de baixo peso e prematuridade quando comparados aos não hospi-talizados. Por outro lado, Wainstock e Sheiner11 encon-traram associação entre baixos escores de Apgar e internações posteriores por morbidades neurológicas em recém-nascidos a termo, mas não encontraram esta associação em RNPT.

Por fim, é importante recomendar cautela na inter-pretação dos achados do presente estudo. Reconhece-se que a validade externa do estudo é limitada, pois não constituiu uma amostra representativa de lactentes pré-termo hospitalizados. Além disso, foi realizada apenas uma avaliação dos GMs, não sendo possível determi-nar se os desfechos encontrados foram apenas transitórios. É importante salientar, contudo, que a amostra final foi constituída por todos os recém-nascidos que atendiam aos critérios de inclusão a partir de uma lista de quase 700 recém-nascidos hospitalizados em um hospital de referência, o que indica que a amostra pequena é por consistir em um público-alvo bastante específico.

O presente estudo expande o conhecimento sobre as características dos GMs em recém-nascidos hospi-talizados e sobre quais fatores de risco necessitam de maior atenção durante a hospitalização em unidade neonatal. De nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que comparou dois grupos segundo o índice de Apgar. Em estudos futuros seria importante desen-volver uma coorte prospectiva seguindo a trajetória dos GMs para investigar se os resultados observados no período neonatal se modificam.

Conclusão

Em conclusão, os escores de Apgar nos 1º e 5º mi-nutos de vida não interferiram na qualidade dos GMs no período pré-termo e termo em RNPT hospitalizados clinicamente estáveis. No entanto, a presença de baixo peso ao nascer e baixos escores de Apgar asso-ciaram-se à maior presença de fatores de risco bioló-gicos caracterizados por problemas na gestação, parto ou nascimento e icterícia grave nesses recém-nascidos.

Agradecimentos

As autoras agradecem à Coordenação de Aperfei-çoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)/Uni-versidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/MEC) o apoio financeiro Código 001.

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Editado por

  • Editora associada:
    Ana Paula Cunha Loureiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    17 Jan 2024
  • Recebido
    25 Abr 2024
  • Aceito
    13 Ago 2024
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