RESUMO:
A avaliação da força muscular na população pediátrica possibilita comparar indivíduos saudáveis e com alguma condição de saúde, estabelecer metas de recuperação, acompanhar os resultados das intervenções e a evolução ao longo do tempo, além de permitir monitorar a progressão de carga e o nível de treinamento. O teste do esfigmomanômetro modificado (TEM) é uma técnica que pode ser usada para mensurar a força muscular isométrica dessa população. O objetivo do estudo foi reunir e produzir uma síntese dos estudos que utilizaram o TEM para mensuração da força muscular de crianças e adolescentes, identificando os grupos musculares e as propriedades de medida investigados e os protocolos aplicados. A busca foi realizada nas bases de dados MEDLINE, EMBASE, PEDro, SciELO e LILACS. Foram selecionados estudos originais, revisados por pares, publicados até setembro de 2021, que avaliaram a força muscular isométrica com o uso do TEM em crianças e adolescentes com idade entre 0 e 19 anos. Um total de 1.610 estudos foram obtidos na busca, sendo 17 elegíveis. Destes, 12 estudos (70,6%) foram realizados com população mista, e cinco (29,4%), somente com crianças e adolescentes. Os grupos musculares mais avaliados foram os adutores de quadril (47,1%) e preensão palmar (29,4%), com predominância do esfigmomanômetro não adaptado (47,1%) e pré-insuflação de 20mmHg (47,1%). Apenas seis estudos (35,3%) avaliaram as propriedades de medida do TEM. Conclui-se que existem poucos estudos voltados à população pediátrica, o que dificulta padronizar a aplicação do TEM na prática clínica, apesar de o instrumento ser de fácil acesso e manuseio.
Descritores
Adolescentes; Crianças; Força muscular
ABSTRACT:
Evaluating muscle strength in the pediatric population allows comparing healthy and affected individuals, establishing recovery goals, tracking the results of interventions and the evolution over time due to health conditions, as well as monitoring load progression and level of training. The Modified Sphygmomanometer Test (MST) is a technique used to measure isometric muscle strength in this population. The objective of the study is to gather and synthesize studies that used MST to measure the muscular strength of children and adolescents, identifying the muscle groups, measurement properties investigated, and the applied protocols. Bibliographic search was conducted on the MEDLINE, Embase, PEDro, SciELO, and LILACS databases. Original, peer-reviewed studies published up to September 2021 that evaluated isometric muscle strength using MST in children and adolescents aged 0 to 19 years were selected. A total of 1,610 studies were identified, and 17 were considered eligible. Of these, 12 studies (70.6%) were conducted with a mixed population and five (29.4%) with only children and adolescents. The most evaluated muscle groups were hip adductors (47.5%) and handgrip (29.4%) with a predominance of the non-adapted sphygmomanometer (47.1%) and 20mmHg pre-insufflation (47.1%). Only six studies (35.3%) evaluated MST measurement properties . In conclusion, there are few studies aimed at the pediatric population, which hinders the standardization of MST application in clinical practice, despite being easy to access and handle.
Keywords
adolescents; children; muscle strength
RESUMEN:
La evaluación de la fuerza muscular en la población pediátrica permite comparar a individuos sanos con alguna condición de salud, establecer metas de recuperación, monitorear los resultados de las intervenciones y la evolución en el tiempo, además de monitorear la progresión de la carga y el nivel de entrenamiento. La prueba del esfigmomanómetro modificado (TEM) es una técnica que se puede utilizar para medir la fuerza muscular isométrica de esta población. El objetivo de este estudio fue recopilar y producir una síntesis de los estudios que utilizaron la TEM para medir la fuerza muscular en niños y en adolescentes, identificando los grupos musculares, las propiedades de medición investigadas y los protocolos aplicados. La búsqueda se realizó en las bases de datos MEDLINE, EMBASE, PEDro, SciELO y LILACS. Se seleccionaron estudios originales, revisados por pares, publicados hasta septiembre de 2021, que evaluaron la fuerza muscular isométrica con el uso de TEM en niños y en adolescentes de entre 0 y 19 años de edad. Se obtuvieron un total de 1.610 estudios en la búsqueda, de los cuales 17 fueron elegibles. De estos, 12 estudios (70,6%) se realizaron con una población mixta, y cinco (29,4%) solo con niños y adolescentes. Los grupos musculares más evaluados fueron los aductores de la cadera (47,1%) y agarre de palma (29,4%), con predominio del esfigmomanómetro no adaptado (47,1%) y preinflado de 20mmHg (47,1%). Solo seis estudios (35,3%) evaluaron las propiedades de medición de TEM. Se concluye que existen pocos estudios centrados en la población pediátrica, lo que dificulta la estandarización de la aplicación de TEM en la práctica clínica, a pesar de que el instrumento es de fácil acceso y manejo.
Palabras clave
Adolescentes; Niños; Fuerza muscular
INTRODUÇÃO
A força muscular está diretamente relacionada à qualidade de vida e à funcionalidade dos indivíduos1. Déficits de força muscular podem causar limitações nas atividades de vida diária e restrições na participação social, uma vez que esse atributo físico é necessário para a realização adequada de várias atividades, tais como: alcance e manipulação de objetos, deambulação, atividades de autocuidado e laborais2. Na população de crianças e adolescentes, a força muscular é indispensável para o desenvolvimento motor adequado e está diretamente relacionada a um bom prognóstico em saúde3. Portanto, a avaliação da força muscular na população pediátrica é fundamental para o diagnóstico funcional e a prescrição de um plano de intervenção apropriado na reabilitação fisioterapêutica4.
Para auxiliar no treinamento de força e na reabilitação, é indispensável a utilização de instrumentos adequados e acessíveis para realizar avaliações. Com a avaliação da força muscular é possível comparar indivíduos saudáveis e com alguma condição de saúde, estabelecer metas de recuperação e reabilitação, acompanhar os resultados das intervenções e a evolução ao longo do tempo, além de monitorar a progressão de carga e o nível de treinamento5. Portanto, é necessário conhecer as evidências sobre o uso de um instrumento de avaliação da força muscular para que ele seja utilizado na prática clínica.
O teste do esfigmomanômetro modificado (TEM) é um método alternativo que vem sendo utilizado atualmente para mensurar a força muscular. Trata-se de um teste que engloba as vantagens do teste muscular manual e do dinamômetro portátil, fornecendo medidas objetivas com baixo custo6. O TEM é usado para medir a força muscular isométrica utilizando um esfigmomanômetro aneroide convencional7. Esse instrumento é portátil, de fácil manuseio e manutenção e frequentemente acessível aos profissionais de saúde6. O TEM já demonstrou adequadas propriedades de medida ao ser utilizado na avaliação da força muscular de adultos e idosos saudáveis, indivíduos com artrite reumatoide, pós-acidente vascular encefálico (AVE) e doença de Parkinson8-13.
Duas revisões sobre o uso do esfigmomanômetro na mensuração da força muscular já foram descritas na literatura6,14. Souza et al.6 investigaram o uso do TEM para avaliação da força muscular de diferentes grupos musculares e populações e mencionaram as propriedades de medida que já foram estudadas. Nessa revisão, foram identificados apenas dois estudos que utilizaram o TEM para avaliar a força de preensão manual de crianças15-16. Já Toohey et al.14 investigaram as propriedades de medida do TEM para mensurar a força isométrica dos músculos do quadril de diferentes populações, como idosos internados, atletas de futebol e estudantes saudáveis. Os autores dessa revisão identificaram apenas três estudos que utilizaram o TEM para avaliar a força dos músculos do quadril de adolescentes17-19. Portanto, os resultados obtidos nessas duas revisões não permitem extrair informações precisas sobre o uso do TEM na população de crianças e adolescentes, pois não tiveram como foco a população pediátrica e não envolveram os termos em que se faz referência a essa população nas estratégias de busca. Além disso, é preciso atualizar o corpo de conhecimento a respeito do TEM, visto que a última revisão disponível foi publicada em 2015. Assim, considerando a importância da mensuração da força muscular na população pediátrica e as vantagens da utilização do TEM na prática clínica3,2,8, torna-se necessário um estudo aprofundado sobre a utilização desse teste para avaliação da força muscular de crianças e adolescentes. Portanto, o objetivo deste estudo é reunir e produzir uma síntese dos estudos que utilizaram o TEM para mensurar a força muscular de crianças e adolescentes. Dessa forma, será possível identificar os grupos musculares já estudados, os protocolos utilizados para uso do TEM, as propriedades de medida investigadas nessa população e as lacunas existentes sobre o tema, a fim de direcionar novas pesquisas na área de reabilitação.
METODOLOGIA
Desenho do estudo
Este estudo é uma revisão sistemática, realizada seguindo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). Esta revisão sistemática foi registrada no PROSPERO sob o protocolo CRD42021230195.
Estudos elegíveis
Foram incluídos estudos originais, revisados por pares, realizados com crianças e adolescentes com idade entre 0 e 19 anos, que avaliaram a força muscular isométrica com o TEM. Também foram incluídos estudos que integraram parte dessa população em sua amostra. Excluíram-se os estudos que utilizaram o esfigmomanômetro para aferir pressão arterial, e não para mensurar a força muscular, assim como a literatura cinzenta (resumos publicados em eventos, teses, dissertações, etc). Não houve restrição quanto ao delineamento do estudo, data ou idioma de publicação.
Fontes de dados e estratégias de busca
A busca por estudos foi realizada nas bases de dados MEDLINE (via PubMed), EMBASE, PEDro, SciELO e LILACS. Elaborou-se uma estratégia de busca para ser utilizada na MEDLINE envolvendo descritores relacionados ao instrumento utilizado (esfigmomanômetro) e a população (crianças e adolescentes) (ver apêndice deste artigo). Essa estratégia foi adaptada para ser utilizada nas outras bases de dados.
Seleção dos estudos
Após a busca nas bases de dados eletrônicas, dois avaliadores independentes procederam à seleção dos estudos publicados até setembro de 2021. Após a exclusão das duplicatas, seguiu-se para a seleção dos estudos, que foi dividida em três etapas. Na primeira etapa, os avaliadores analisaram os títulos de todos os estudos encontrados com a busca eletrônica e, em seguida, foram excluídos aqueles que não atenderam aos critérios de inclusão estabelecidos. Na segunda etapa, foram lidos e analisados os resumos dos estudos selecionados na etapa anterior e excluídos aqueles que não atenderam aos critérios de elegibilidade. Na terceira etapa, os avaliadores fizeram a leitura completa dos estudos selecionados nas etapas anteriores.
As referências dos artigos incluídos e as revisões prévias foram analisadas e usadas como uma fonte adicional para identificar outros estudos de interesse. A decisão da inclusão dos estudos na revisão foi realizada após discussão e consenso entre os dois avaliadores.
Extração de dados
De cada estudo selecionado foram extraídas as seguintes informações: data de publicação; desenho de estudo; número de participantes, em conjunto com a caracterização da amostra (idade, sexo e índice de massa corporal); grupos musculares avaliados; protocolo utilizado para avaliação da força muscular; tipo de esfigmomanômetro utilizado (adaptado ou não adaptado); e propriedades de medida investigadas (validade, confiabilidade e responsividade).
Para avaliar a magnitude do coeficiente de correlação intraclasse e do coeficiente de correlação de Pearson, utilizou-se a classificação de Munro et al.20. No caso de correlações significativas entre as variáveis, a magnitude da correlação foi classificada como: muito baixa≤0,25; baixa=0,26-0,49; moderada=0,50-0,69; alta=0,70-0,89; e muito alta=0,90-1,00.
Avaliação da qualidade dos estudos
Para a avaliação da qualidade metodológica dos estudos, utilizou-se o Consensus-based Standards for the Selection of Health Measurement Instruments (COSMIN), que visa melhorar a seleção de instrumentos de mensuração de resultados, tanto na pesquisa quanto na prática clínica, desenvolvendo ferramentas para a seleção do instrumento mais apropriado. O COSMIM avalia nove propriedades de medida, agrupadas em três domínios: confiabilidade, validade e responsividade21,22. No domínio confiabilidade, avaliam-se consistência interna, confiabilidade teste-reteste, intra e interexaminadores e erro de medida21,22. No domínio validade, avaliam-se validade de constructo (validade estrutural e teste de hipóteses), validade de critério e validade de conteúdo21,22. Cada propriedade de medida conta com quatro a 18 itens para serem avaliados e pontuados em uma escala de classificação de quatro pontos22. A pontuação mais baixa recebida em um item consiste na classificação geral da qualidade metodológica da propriedade de medida analisada. A qualidade metodológica de cada propriedade de medida foi, então, classificada como excelente, boa, razoável e fraca, seguindo os critérios do COSMIN23.
RESULTADOS
As buscas eletrônicas obtiveram um total de 3.284 estudos. Após a remoção das duplicatas (n=555), restaram 2.729 estudos. Em seguida, na seleção com base nos títulos e resumos, 51 estudos foram considerados potencialmente elegíveis. Após a análise dos textos completos, restaram 11 estudos que preencheram os critérios de elegibilidade, sendo os demais excluídos, com a razão de utilizarem o esfigmomanômetro para aferir a pressão arterial, e não para mensurar a força muscular. Realizou-se uma busca manual ativa na lista de referência dos estudos incluídos, e mais seis foram rastreados, totalizando 17 estudos. A Figura 1 apresenta o fluxograma de busca e seleção dos estudos.
Dos 17 estudos incluídos, 12 (70,6%)10,17-19,24-31 foram realizados com população mista (crianças/adolescentes e adultos) e cinco (29,4%)15-16,32-34 apenas com crianças e adolescentes (0 a 19 anos). De forma geral, a idade das amostras variou entre 6 e 65 anos, e nos estudos que relataram o sexo dos participantes (n=15) houve predomínio do sexo masculino (n=12; 80%). Treze estudos (76,5%) foram realizados com indivíduos saudáveis 16-19,24-25,27-32,34, sendo que cinco (n=5; 38,5%) incluíram atletas de rúgbi ou basquete e voleibol, e os demais eram não atletas (n=8; 61,5%). Três estudos (17,6%) envolveram indivíduos com diferentes condições de saúde: portadores de atrofia muscular espinhal (n=1; 33,3%)33 e artrite reumatoide (n=2; 66,7%)15-16. A Tabela 1 apresenta as características dos estudos incluídos.
Para avaliar a força muscular, oito estudos (47,1%)17-19,27-28,30,32,34 utilizaram o equipamento sem nenhuma adaptação, quatro estudos (23,5%) 10,16,24-25 fizeram uso da adaptação da bolsa, e outros quatro (23,5%),10,26,29,31 adaptação da braçadeira. Apenas o estudo de Soares & Riedel25 reportou o uso de esfigmomanômetro neonatal (método da bolsa). Dois estudos (n=2; 11,8%)15,33 não forneceram informações sobre as adaptações do equipamento. Em relação à pré-insuflação do esfigmomanômetro, sete estudos (41,2%)17-18,27,29-30,32,34 utilizaram a pressão inicial de 10mmHg, oito estudos (47,1%)10,16,19,24-26,28,31 20mmHg e dois estudos (11,8%)15,33 não forneceram essa informação.
Os grupos musculares avaliados foram: adutores de quadril (n=8; 47,1%)17-18,27-30,32,34; preensores palmares (n=5; 29,4%)15-16,24,26,31; abdutores de quadril (n=2; 11,8%)19,29; pinça polpa a polpa e lateral (n=2; 11,8%)25-26; flexores e extensores de quadril (n=1; 5,9%)19; extensores de joelho (n=1; 5,9%)10; flexores, extensores, abdutores, rotadores internos e externos de ombro (n=1; 5,9%)19; e pinça trípode (n=1; 5,9%)25.
Houve grande variabilidade nos protocolos utilizados para avaliação da força muscular com o TEM. O número de repetições foi reportado em 11 estudos (64,7%)10,15-17,24,26-27,30-32,34 e variou de uma a três repetições. O tempo de repouso entre as repetições foi reportado em oito estudos (47,1%)16-17,19,24,29,32,31,34 e variou de 15 segundos a cinco minutos. O tempo de contração durante o teste foi reportado em sete estudos (41,2%)10,15,24,27-30 e variou de dois a dez segundos. Onze estudos (64,7%)10,16-19,24,26-28,30,32 reportaram a familiarização do participante com o teste, e apenas dois (11,8%)16,26 descreveram o fornecimento de estímulo verbal durante o teste.
Do total de 17 estudos incluídos na revisão sistemática, seis (35,3%)10,17,18,19,24,29 avaliaram alguma propriedade de medida do TEM. Três (17,6%) estudos avaliaram a validade de critério concorrente, comparando as medidas do TEM com as medidas fornecidas por um método de cargas10 e pela dinamometria portátil24,29. Os três estudos (100%) reportaram que o TEM apresenta adequada validade de critério concorrente, cuja magnitude variou de alta a muito alta. Cinco estudos (29,4%)17,18,19,24,29 avaliaram a confiabilidade intraexaminadores do TEM e reportaram resultados adequados, com a magnitude variando de moderada a muito alta. Três estudos (17,6%)10,18,29 avaliaram a confiabilidade interexaminadores do TEM e reportaram resultados adequados, com a magnitude variando de alta a muito alta. A Tabela 2 apresenta os resultados dos estudos que investigaram as propriedades de medida do TEM.
A Tabela 3 apresenta a avaliação da qualidade metodológica dos estudos pelo COSMIN. A qualidade metodológica dos estudos que investigaram as propriedades de medida do TEM variou de fraca a excelente10,24,29,17,18,19.
DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão mostraram a escassez de estudos envolvendo o uso do TEM para avaliação da força muscular de crianças e adolescentes. Observou-se que os adutores de quadril e os preensores palmares foram os grupos musculares mais avaliados. Houve grande variabilidade nos protocolos utilizados para o uso do TEM nessa população. Entre os estudos que investigaram as propriedades de medida do TEM, foi possível observar coeficientes de correlação intraclasse significativos, com magnitudes variando de moderada a muito alta. No entanto, ao investigar a qualidade metodológica desses estudos, notou-se que a maioria foi classificada como fraca a razoável.
A maioria dos estudos incluídos utilizou o TEM em crianças e adolescentes sem nenhuma condição de saúde. A investigação do uso do TEM em outras populações que apresentam déficit na força muscular, como crianças com doenças neurológicas (paralisia cerebral, síndrome de Down, doenças neuromusculares, entre outros) pode ser útil para tomada de decisão clínica e acompanhamento da evolução do tratamento. É importante ressaltar, também, que a força muscular é fundamental em crianças e adolescentes que praticam ou pretendem ingressar em algum esporte ou atividade física, tendo um grande papel no desempenho esportivo. A força muscular está relacionada à velocidade de execução de habilidades técnicas e à estabilização das articulações em várias atividades esportivas, auxiliando na prevenção de lesões35. Assim, testes de força muscular têm sido comumente utilizados no esporte com o objetivo de fornecer valores normativos (perfil atlético), detecção de talentos, distinção entre diferentes níveis de desempenho ou avaliar adaptações ao treinamento3,36. Além disso, a progressão de carga, recomendada durante os programas de treinamento de força de crianças e adolescentes37, pode ser mais assertiva quando norteada pelos resultados dos testes de força. Nesse sentido, uma melhor compreensão da utilização do TEM como instrumento para avaliação de força na população pediátrica para essa finalidade seria muito benéfica.
Apenas dois estudos incluídos nesta revisão foram realizados com amostra envolvendo exclusivamente crianças15,16. Estes foram publicados há mais de 20 anos e não avaliaram nenhuma propriedade de medida do TEM para essa população. Esse resultado demonstra a lacuna da literatura em relação ao uso do TEM em crianças, incluindo a investigação de suas propriedades de medida nessa população. A avaliação da força muscular de crianças é um importante marcador de saúde, sendo fundamental para um desenvolvimento motor adequado e a execução das atividades funcionais3. Portanto, torna-se necessária a condução de estudos futuros utilizando o TEM na avaliação da força muscular nessa população.
Em relação à adaptação do TEM, observou-se um predomínio do uso do esfigmomanômetro sem nenhuma adaptação. A ausência de adaptação aumenta a aplicabilidade clínica do teste, pois reduz os custos e tempo de aplicação. Estudos com indivíduos adultos já demonstraram que o TEM pode ser utilizado sem adaptação, com adaptação da bolsa e da braçadeira38. Em crianças, o esfigmomanômetro adaptado pode ser uma alternativa mais fácil para estabilizar o equipamento, dado o menor tamanho do instrumento e pelo fato de ser aplicado sobre membros também pequenos39. No entanto, não há estudos investigando qual a melhor adaptação do TEM para avaliar crianças e adolescentes.
Cinco grupos musculares de membros inferiores foram avaliados nos estudos incluídos: extensores de joelho10; flexores e extensores de quadril19; abdutores de quadril19,29; adutores de quadril17,18,27,28-30,32,34. Trata-se de grupos musculares importantes para o gesto esportivo e para a realização de atividades funcionais, tais como a marcha, subir e descer escadas, correr e saltar40. No entanto, observou-se a ausência de avaliação de outros grupos musculares de membros inferiores que são essenciais para a funcionalidade dos indivíduos, como flexores plantares; dorsiflexores, flexores de joelho e rotadores externos de quadril. Os flexores plantares (sóleo, gastrocnêmio medial e lateral) estão associados à velocidade e à geração de força articular durante a marcha41. Desse modo, esses grupos musculares necessitam de maior foco e, consequentemente, de um método de avaliação mais adequado, o que não foi visto nos estudos selecionados, ressaltando a necessidade de novas pesquisas nessa área.
Sete grupos musculares de membros superiores foram avaliados nos estudos incluídos: preensores palmares15-16,24,26,31,33, pinças25-26, flexores e extensores de ombro, abdutores de ombro e rotadores internos e externos de ombro19. Trata-se de grupos musculares importantes na execução das atividades de vida diária dos indivíduos. A mensuração da força de preensão palmar fornece um índice objetivo da integridade funcional dos membros superiores, além de ser importante na aplicação clínica de avaliação da incapacidade, resposta ao tratamento e avaliação da capacidade de um indivíduo em realizar as atividades de vida diária, como alcance e manipulação de objetos42. Portanto, é imprescindível que uma avaliação adequada dessa musculatura seja realizada, podendo ser usada no ambiente clínico como uma ferramenta para estabelecer um prognóstico funcional, evolução e eficácia de um tratamento4. O estudo de Priosti et al.43 correlacionou o desempenho funcional e a destreza manual com a força de preensão palmar em crianças com síndrome de Down. Também mostrou que as atividades de autocuidado (manusear talheres, escovar os dentes, desembaraçar os cabelos, usar o banheiro, tomar banho, entre outras) estão relacionadas à força de preensão palmar.
Nesta revisão, observou-se ausência de estudos que investigaram o uso do TEM na avaliação de outros grupos musculares de membros superiores, como flexores e extensores de cotovelo e punho. De acordo com Carvalho44, a força muscular dos flexores e extensores de cotovelo é importante para atividades cotidianas, como sustentação do próprio peso corpóreo, alimentação e higiene pessoal, contribuindo para o desenvolvimento e a manutenção da qualidade de vida das crianças. Os estudos de Evans et al.45 e Lacourse46 abordam a importância da força de extensores de cotovelo na independência funcional de indivíduos cadeirantes com acometimentos neurológicos, mostrando que essa musculatura é fundamental à realização de transferências e mobilidade na cadeira de rodas. Por isso, também são importantes estudos que possam investigar a avaliação da força muscular desse segmento corporal com o uso do TEM.
Não foram identificados estudos que avaliaram a força muscular do tronco em crianças e adolescentes. Déficit de força dos músculos do tronco pode impedir o indivíduo de desempenhar várias atividades funcionais, como se sentar, alcançar objetos, sustentar-se na posição de pé, entre outras47. Os músculos do tronco são fundamentais para o controle postural antecipatório e criam uma base estável para o movimento dos membros em crianças48. Por isso, também são importantes estudos que possam investigar a avaliação da força muscular desse segmento corporal com o TEM.
Houve uma falta de padronização do protocolo de uso do TEM na avaliação de crianças e adolescentes. Observaram-se diferenças nos posicionamentos, locais de estabilização, tempo de contração e número de repetições empregado para obtenção das medidas. Estudos com indivíduos adultos pós-AVE já identificaram que apenas uma repetição, após familiarização, é suficiente para obter as medidas de força muscular usando o TEM8,11-12. Porém, não há estudos que investigaram o número de repetições recomendado ao avaliar a força muscular de crianças e adolescentes. Para guiar os clínicos em sua prática, é necessário investigar qual o melhor protocolo a ser utilizado na avaliação dessa população com o TEM.
Os estudos que investigaram as propriedades de medida do TEM em adolescentes demonstraram adequadas validade e confiabilidade do teste ao ser utilizado na avaliação de adolescentes. Entretanto, ao analisar a qualidade metodológica dos estudos utilizando o COSMIN, observou-se uma baixa qualidade metodológica. Dessa forma, os resultados de validade e confiabilidade do TEM nessa população devem ser analisados com cautela, visto a baixa qualidade dos estudos que fizeram essa investigação. A explicação para a classificação ruim dos estudos que avaliaram confiabilidade foi o tamanho da amostra. Dessa forma, é necessário que novos estudos, com amostra mais ampla, sejam conduzidos para investigar as propriedades de medida do TEM envolvendo a população de crianças e adolescentes.
As buscas deste estudo foram conduzidas em cinco bases de dados eletrônicas, e referências adicionais foram incluídas por meio de busca manual. Ainda assim, é possível que algum estudo relevante sobre a temática não tenha sido incluído nesta revisão. Vale destacar, também, que a inclusão apenas de artigos originais, revisados por pares, pode ter excluído outros trabalhos sobre o TEM na população de interesse. Entre eles, destaca-se o estudo de Drumond39, realizado com crianças e adolescentes entre 6 e 19 anos, que investigou as propriedades de medida do TEM para avaliação de força muscular em membros inferiores e encontrou confiabilidade adequada, com magnitudes de moderada a muito elevada. Por se tratar de uma dissertação de mestrado, os resultados desse trabalho não foram incluídos nesta revisão.
A maioria dos estudos incluídos envolveu populações mistas (crianças/adolescentes e adultos), o que torna necessário analisar com cautela os resultados referentes às propriedades de medida investigadas nesses estudos. Dada a variabilidade nos protocolos utilizados para uso do TEM na população pediátrica, não foi possível estabelecer uma padronização da técnica. Apesar disso, as informações reunidas podem servir de guia para novos estudos na área.
CONCLUSÃO
Há uma escassez de estudos sobre o uso do TEM na população pediátrica. Além disso, observou-se uma grande variabilidade dos protocolos utilizados, o que dificulta uma padronização para o uso da técnica. Poucos estudos investigaram as propriedades de medida do TEM na população de crianças e adolescentes, e a maioria apresenta baixa qualidade metodológica. Apesar de o TEM ser de fáceis acesso e execução, seu uso na população pediátrica precisa ser mais bem explorado.
APÊNDICE
Estratégia de busca elaborada para a MEDLINE (Pubmed)
[INSTRUMENTO]
sphygmomanometer
“modified sphygmomanometer”
“sphygmomanometer modified”
“adapted sphygmomanometer”
“manometer method”
“modified manual sphygmomanometer”
“modified sphygmomanometer dynamometer”
#1 OR #2 OR #3 OR #4 OR #5 OR #6 OR #7
[POPULAÇÃO]
children
child
childhood
kids
boys
girls
infant
young
adolescent
teenager
teen
youth
student
high school”
“secondary school”
“middle school”
“elementary school”
“primary school”
#10 OR #11 OR #12 OR #13 OR #14 OR #15 OR #16 OR #17 OR #18 OR #19 OR #20 OR #21 OR #22 OR #23 OR #24 OR #25 OR #26
28. #8 AND #27
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Os resultados parciais do projeto foram apresentados no 22º Seminário de Pesquisa e Extensão da UEMG, realizado em novembro de 2020.
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Fonte de financiamento:
Nada a declarar
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Registro do projeto no PROSPERO sob o protocolo CRD42021230195.


