Open-access Maternidade e entrega do filho em adoção: dores e preconceitos

Maternity and child delivery in adoption: pain and prejudice

Maternidad y entrega del hijo en adopción: dolores y prejuicios

Resumo

Historicamente, à mulher coube cuidar do lar e prole. Tal ideal patriarcal, ao colocar a maternidade como natural e fonte de plenitude, contribui para o imaginário de preconceitos sobre as genitoras que entregam o filho em adoção. Com o objetivo de compreender as vivências destas diante da doação, foi realizada pesquisa qualitativa de mestrado, entrevistando três mulheres que entregaram o filho em adoção judicialmente. Percebeu-se que elas representam o ser mulher fazendo distinção entre honra e perdição, evidenciam o ideal da boa maternidade, sofrendo por não se enxergarem como honradas ou boas mães; diferenciam abandono e entrega, considerando este um ato de amor. Porém, a entrega é acompanhada por dores, causadas pela separação do filho e pelos motivos que levaram à decisão, que são silenciados pelo medo do julgamento social. Refletir sobre tais dores e o preconceito social da entrega do filho em adoção possibilita pensarmos a oferta de acolhimento para essas mães.

Palavras-chave:
maternidade; entrega; abandono; adoção; preconceitos

Abstract

Historically, the woman has taken care of the home and offspring. This patriarchal ideal, that places motherhood as natural and source of completeness, contributes to the imaginary of prejudices about the mothers who give their children in adoption. Aiming to understand their experiences about the donation, a qualitative research was conducted in master’s degree, interviewing three women who delivered the child in Court of Justice. It was observed that they represent being woman as a distinction between honorable and lost woman, they also represent the ideal of good motherhood, suffering for not see themselves as honorable or good mothers; they distinguish abandonment and delivery, considering this an act of love. But the delivery comes with pains, caused by the separation of the child and by the motives that led to the decision, which are silenced by the fear of social judgment. Reflecting these pains and the social prejudice about the delivery of a child in adoption enables to think about the offer proper for these mothers.

Keywords:
maternity; delivery; abandonment; adoption; prejudices

Resumen

Las mujeres se han ocupado del hogar y de la descendencia en la história. Este ideal patriarchal que situa la maternidad como algo natural y como fuente de plenitud, contribuye a los prejuicios sobre las madres que dan el niño en adopción. Con el fin de comprender sus vivencias frente a la entrega, se realizó una investigación de maestría cualitativa que entrevistó a tres mujeres que entregaron a su hijo en adopción por medio de los tribunales. Se notó que se distinguien entre una mujer honorable y una considerada perdida, mostrando el ideal de la buena maternidad y a sufrir por no verse como madres honorables o buenas; diferencian entre abandono y entrega, considerándo el último un acto de amor. Sin embargo, la entrega si acompaña de dolores, provocados por la separación del niño y los motivos que llevaron a la decisión, que son silenciados por el miedo al juicio social. Reflejar tales dolores y el prejuicio social del parto del niño en adopción nos permite pensar en la oferta de cuidados para estas madres.

Palavras-chave:
maternidad; entrega; abandono; adopción; prejuicios

Introdução

Cotidianamente, o fenômeno do abandono é presente, sendo percebido em matérias jornalísticas de mães que deixam seus filhos recém-nascidos na rua. Mas essa prática tornou-se ato condenável apenas a partir da Idade Média, permeado por dogmas religiosos, que tentaram reprimir os abandonos e criaram estratégias, como a Roda dos Expostos, para receber as crianças entregues, tentando conter o alto número de abandonos (SOEJIMA; WEBER, 2008).

Essa condenação tem razões históricas que afetaram a construção do ser mulher na sociedade, baseada em teorias científico-biológicas, na religião, especialmente de base Cristã, no patriarcado e no neoliberalismo, que impõe subalternidade às mulheres. Dessa forma, construiu-se a dominação legitimada da mulher (Tedeschi, 2018). Pelo fato de possuir o aparato biológico para gestar (Barbalho, 2015), com a construção da noção de família e infância, ocorrida no séc. XVI (Ariès, 1981), e com a ascensão do Cristianismo na Idade Média, normalizou-se o ideário de que a mulher deve ser responsável pelo lar e pelos filhos. Deve, portanto, ser boa mãe, pela naturalização do instinto materno. Com isso, surgiu o mito do amor materno, ideal de que toda mulher tem o desejo de ser mãe e deve fazê-lo para atingir a completude (Badinter, 1985).

Porém, a entrega do filho em adoção é prevista em lei, e as mulheres que expressam tal desejo deve ser encaminhadas à justiça da infância e juventude sem constrangimentos, como expresso nas leis 12.010/2009, 13.257/2016 e 13.509/2017. Contudo, ainda é frequente, na realidade brasileira, a mãe entregar o filho diretamente a uma família, abandoná-lo na maternidade ou em locais de risco, por vezes pouco após a saída dos hospitais. Do mesmo modo, é comum ouvir relatos de, ao expressarem sua vontade nas maternidades, essas mulheres serem repudiadas e julgadas, até pelos profissionais de saúde, o que prejudica que a entrega seja feita como prevista em lei (Faraj et al., 2016). Especificamente sobre a ação destes profissionais, é preciso considerar também a desigualdade na relação dentro de uma lógica social patriarcal, que culmina também em violências institucionais e de gênero (Cruz; Espíndula; Trindade, 2017).

Acerca disto, Butler (2021) apresenta uma conexão entre não violência, compromisso ético e igualdade. Paralelamente, a violência está atrelada à desigualdade. Logo, afere-se que a violência é permeada pela compreensão de que alguns corpos merecem melhor tratamento do que outros e isso surge nas relações profissionais, levando a violências institucionais, e nas relações interpessoais, levando a violências contra mulheres. No contexto de atendimento de saúde, por profissionais que deveriam cuidar e assumir o compromisso ético e permanente, as violências institucionais e de gênero contra mulheres que gestantes ou puérperas que expressam o desejo pela entrega voluntária deveriam, portanto, ser combatidas. Mas os relatos e a literatura apontam para sua perpetuação.

O fenômeno da entrega das crianças para a adoção é um tabu que também se reflete na baixa produção acadêmica sobre o assunto. A maior parte da literatura acadêmica se volta para a institucionalização infantojuvenil e adoção/família adotiva, ficando a família biológica e, especialmente, a genitora de lado (Fonseca, 2012; Freitas, 2014; Valentim; Cortez, 2014; Fernandes et al., 2011).

Alguns fatores podem vulnerabilizar as mães quanto à entrega do filho para a adoção, como a ausência do pai da criança e a falta de apoio familiar (Fonseca, 2012; Menezes; Dias, 2011; Motta, 2001; Soejima; Weber, 2008). Elas comumente são vistas como desalmadas, desnaturadas, loucas, sendo marginalizadas e excluídas (Leão et al., 2014; Menezes; Dias, 2011; Motta, 2001; Porto, 2011). No Brasil impera o caráter punitivo em relação a elas, e o próprio termo “abandono” carrega muitas conotações negativas e pejorativas (Fonseca, 2012; Menezes; Dias, 2011), enquadrando todas as histórias de abandono e doação em um mesmo conjunto.

A partir do reconhecimento da necessidade de se compreender as razões que levam uma mãe a entregar o filho em adoção, e suas vivências, rompemos com a visão essencialista e estereotipada desse fenômeno e construímos este escrito partindo dos resultados de uma pesquisa de mestrado. Este artigo, portanto, visa discutir a necessidade de se olhar para o fenômeno da entrega voluntária em adoção, a partir do diálogo com as categorias temáticas trazidas por nossas participantes da pesquisa, refletindo sobre o estigma que essas genitoras possuem diante da possibilidade de expressar suas dores.

Método

Participantes

Realizou-se uma pesquisa qualitativa. Objetivou-se compreender a vivência das mulheres que entregaram o filho em adoção, a fim de encontrar subsídios para o acolhimento dirigido a elas. Para tal, especificamente, se investigou a concepção das participantes da pesquisa sobre ser mulher e ser mãe, suas motivações para a entrega, os sentimentos envolvidos nesta, a repercussão da deliberação para suas vidas e a existência ou não de um processo de luto. Foram entrevistadas três mulheres que entregaram o filho em adoção junto à Vara da Infância e Juventude (VIJ). A participação era voluntária e o contato com elas se deu através de suas chegadas à VIJ para a realização da entrega voluntária, assim como através do contato com um grupo de adoção existente na cidade em que ocorreu a pesquisa, que recebia também essas mulheres. Contudo, destaca-se a dificuldade no aceite da participação, notando-se que a maioria temia ser julgada ou preferia não falar sobre o assunto, tendo em vista o sofrimento que isso lhes causava. Assim, a pesquisa foi realizada com três que consentiram na participação.

Para uma pesquisa dessa natureza, o número reduzido de participantes não é um empecilho, já que seu objetivo é desvelar os sentidos e significados que os sujeitos atribuem às suas vidas e relações (Minayo, 2017), fundindo o horizonte dos interlocutores, aqui pesquisador e colaboradoras, chegando-se, assim, a alguma compreensão (Gadamer, 2002).

Nossas participantes foram: Pagu, Frida Kahlo e Simone de Beauvoir (nomes fictícios). Pagu, na época da entrevista, tinha 23 anos, católica, em união estável, estudou até o 3º ano do Ensino Fundamental, dona de casa, tinha quatro filhos e entregou o caçula, na época recém-nascido. Frida Kahlo, 32 anos, solteira, católica, estudou até o 5º ano do Ensino Fundamental e trabalhava como profissional do sexo, era usuária de drogas, teve três filhos, dos quais a mais velha fora entregue aos seus pais, um foi entregue diretamente a uma família e o terceiro foi entregue junto à VIJ. Simone de Beauvoir tinha 49 anos, separada, católica, estudou até a 7ª série do Ensino Fundamental e trabalhava como empregada doméstica. Dos cinco filhos, entregou uma à VIJ há 25 anos.

Instrumentos

Foram utilizados, como instrumentos, a Entrevista Narrativa, que visa o aprofundamento da fala do sujeito (Minayo, 2008), com o uso de cena projetiva. Esta trata-se de uma ferramenta que pode resultar em mobilização e expressão de sentimentos latentes e de difícil expressão, não presentes no discurso verbal (Moraes, 2014; Minayo, 2008). Consiste na criação de um enredo ficcional, com uma pergunta disparadora ao final. No âmbito dessa pesquisa, ao final da entrevista narrativa, foi aplicada a cena, através de uma descrição oral de uma mulher que optava pela entrega voluntária do filho em adoção. Após essa apresentação, questionava-se à participante como ela a mulher da cena poderia estar se sentindo com a decisão, quais razões poderiam tê-la levado a essa escolha e como ficaria a vida dela após a entrega.

Na Entrevista Narrativa, partiu-se da questão disparadora “Como foi para você doar seu filho?”, havendo questões subsequentes com o intuito de trazer maior riqueza de detalhes, aprofundando pontos abordados ou outros não trazidos no discurso da participante da pesquisa. Assim, tais questões complementares visaram atender os objetivos da pesquisa. Ao final, como apresentado anteriormente, era utilizada a cena. Desse modo, visava-se que as participantes pensassem em como essa mulher se sentiria, o que a motivaria para a entrega, quais os sentimentos em relação a esta e como estaria sua vida após o ato. Os recursos projetivos são importantes, nesse caso, por permitir tanto a aproximação com temas delicados (Minayo, 2008) quanto por possibilitar elaboração e ressignificação de vivências com cargas emocionais intensas.

Procedimentos

A pesquisa seguiu as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos do Conselho Nacional de Saúde 466/2012 em todos os seus aspectos. Foi submetida e aprovada junto ao Comitê de Ética e Pesquisa da instituição acolhedora no qual o Programa de Pós-Graduação é vinculado sob parecer de número 1.053.713. As entrevistas ocorreram em locais previamente combinados com as participantes da pesquisa, tendo sido gravadas e posteriormente transcritas.

Análise de dados

A pesquisa teve como referencial teórico-metodológico a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer. Para Gadamer, a hermenêutica tem como tarefa o milagre da compreensão, desvelando o sentido das ações humanas (Gadamer, 2002). A “fusão de horizontes” entre pesquisadora-participantes possibilitou que suas falas e reflexões, mediadas pela entrevista narrativa com o uso de cena, e articulação com a literatura sobre os temas, gerassem a descoberta das seguintes categorias temáticas que serão apresentadas e discutidas: 1- Ser mulher: entre a perdição e a honra; 2- Ser mãe é tudo de bom; 3- A decisão: quando querer não é poder; 4- A distinção que carrega o afeto; 5- O conforto em outros filhos; 6- Sobre o reencontro: a esperança e o não desejo; 7- A invisibilidade da dor que permanece.

Resultados e discussão

A partir da análise das narrativas, apresentamos as categorias temáticas.

Categoria 1 - Ser mulher: entre a perdição e a honra

As nossas participantes, ao serem indagadas quanto aos significados sobre ser mulher, trouxeram dois aspectos: a honra e a perdição. A mulher honrada é representada pela dona de casa, dedicada ao esposo e filhos, livre de comportamentos sexuais vistos social e historicamente como incorretos (para as mulheres), como ter vários parceiros, ter relações sexuais fora do casamento, entre outros. O contrário seria a perdição, ser da rua.

Como pode ser visualizado, para elas, à mulher cabem duas opções: se perder na rua ou ser dona de casa. O primeiro, valorado negativamente, e o segundo tido como ideal. A impureza surge nos momentos de ir para festas, de estar na rua com profissão ligada ao sexo, de usar drogas. Já a honradez está na santificação do lar, em ser dona de casa ou ter trabalhos dignos em ambientes puros. Se estiver fora do lar, deve ser apenas em atividades laborais tidas como dignas (Patias; Buaes, 2012; Porto, 2011).

A sexualidade feminina sempre foi um tabu, especialmente a partir da intervenção da Igreja, que incutiu a noção, que toda as mulheres devem seguir, de só poder ser exercida para fins reprodutivos, com amor e parceiro fixo (SEVILLA et al., 2016). Ao acreditarem que romperam com a honradez, por suas profissões, comportamentos ou por terem entregado o filho em adoção, não percebem que ser mulher é também poder exercer diferentes papéis, podendo agir como desejam e não como se espera socialmente que uma mulher aja. Exemplo disso, é poder exercer sua sexualidade da forma que quiser, poder escolher entre ter filhos ou não, etc.

Quadro 1
Ser mulher: entre a perdição e a honra

Categoria 2 - Ser mãe é tudo de bom

Historicamente, a mulher foi definida pela maternidade, sendo esperado dela cuidado e bondade para com os filhos, e por possuir o aparato biológico de gestar criou-se o imaginário de instinto materno (Freitas, 2014). Esta noção culminou com a criação do mito do amor materno, que impõe que toda boa mãe e mulher se sente realizada com a maternidade, sendo a dedicação aos filhos uma característica inerente a todas (Badinter, 1985). Isso reflete a assimetria entre os gêneros feminino e masculino (Porto, 2011), tornando o pai ausente na criação dos filhos, e a mulher restrita ao ambiente doméstico (Barbosa; Rocha-Coutinho, 2012). Ainda que tenha havido avanços sociais, a maternidade ainda é um ideal de plenitude.

Quadro 2
Ser mãe é tudo de bom

Ser mãe para elas envolve o ideal de maternidade suficientemente boa, refletido nas falas sobre amar e cuidar do filho, e não maltratar. Como Aching e Granato (2016) afirmam, a imagem da mãe suficientemente boa é criada socialmente a partir de expectativas voltadas a essa mulher-mãe, e os cuidados básicos para com as necessidades dos filhos incidem diretamente sobre o ser boa mãe. Em oposição, há a mãe ruim. Para nossas participantes, o bater e se drogar ilustram o que seria a mãe ruim.

O mesmo esforço empreendido em “santificar a mãe admirável” fora também empregado em “fustigar a que fracassava em sua missão sagrada” (Badinter, 1985, p. 272). Assim, a mulher é única e exclusivamente culpada por tudo de ruim que acomete o filho, especialmente em casos de abandono e adiamento/negação do exercício da maternidade (Badinter, 1985; Freitas, 2014; Motta, 2001; Porto, 2011). Esse discurso da santificação da mãe coloca a maternidade como paraíso a ser atingido (Patias; Buaes, 2012), devido à valorização social e histórica da mulher apenas enquanto mãe (Melo; Corradi-Webster, 2016).

Nessa direção, para nossas participantes, não exercer a maternidade por escolha é um exemplo de mãe ruim. Porém, há maneiras de se redimirem, como por exemplo, ao não maltratarem os filhos ou se desintoxicarem para estar com eles. Ou seja, exercer a maternidade, por mais que um papel que traz muitas culpas, ao mesmo tempo pode ser um meio de se chegar à purificação diante das perdições que carregam.

Categoria 3 - A decisão: quando querer não é poder

No Brasil, o abandono e entrega de filho em adoção estão fortemente ligados à ilegalidade do aborto, a questões econômicas e sociais e à pressão familiar (Freitas, 2014), bem como ao desconhecimento de que a entrega é permitida por lei. O perfil revela que essas mulheres são jovens, vivem ciclos de abandono, tem baixa escolaridade, não têm apoio da família/ pai da criança e vivem em contexto de pobreza (Leão et al., 2014; Menezes; Dias, 2011), que, embora não se deseje com isso criminalizar a pobreza e colocá-la como impeditivo para se criar filhos, (Freitas, 2014), é inegável que é um fator que pesa para a decisão, assim como o desejo da mulher também deve ser.

É relevante explicar que entrega voluntária em adoção e abandono infantil são atos distintos, ainda que tenham, comumente, motivações semelhantes. Contudo, a entrega voluntária é prevista e garantida em lei, enquanto o abandono pode ensejar em punições para quem o comete. Mas nota-se que, no senso comum, ambos são tidos como sinônimos, inclusive por conta do desconhecimento acerca da legislação sobre a entrega. Nossas participantes também trazem essa distinção, conforme será visto na categoria 4.

Fonseca (2012) aponta que a maioria das crianças aptas para adoção vem de contextos de miséria. Mas autores como Leão et al. (2014) também destacam, como motivadores da decisão, a vulnerabilidade social e emocional, a falta de apoio familiar, ausência do pai e as violências sofridas pela mulher e pelos filhos. Todos estes são percebidos nas falas das participantes da pesquisa. Esse desamparo social e o ciclo vicioso por terem sido, muitas vezes, abandonadas por suas famílias, gera um caráter transgeracional sobre a entrega (Martins et al., 2015; Soejima; Weber, 2008), levando a que ciclos de repetição de uma mesma situação se repitam em diferentes gerações de uma mesma família, como se marcasse a história familiar daquelas pessoas.

Especificamente em Frida Kahlo, o uso de drogas surgiu como mais um fator para a entrega. Martins et al. (2015) destacam como influenciador da decisão tanto a dependência química quanto outros transtornos psicológicos e psiquiátricos. Melo e Corradi-Webster (2016) ainda apontam a imagem negativa que mulheres usuárias de drogas criam sobre si mesmas, a partir dos discursos sociais, em relação ao seu exercício da maternidade.

Diante de todas essas motivações e contextos, a entrega se constitui para elas como possibilidade de ofertar um futuro melhor para os filhos, que elas acreditam que não poderiam dar.

Quadro 3
A decisão: quando querer não é poder

Categoria 4 - A distinção que carrega o afeto

Nas falas de Frida Kahlo e Simone de Beauvoir, percebemos a distinção feita entre termos Entrega e Abandono, que demonstra o afeto que elas carregam. Aqui, abandono é valorado negativamente, ato no qual não há ligação entre mãe e filho, enquanto na entrega para a adoção há conexão afetiva entre os dois, e esta surge como alternativa ao abandono e a outros atos, como o aborto.

Quadro 4
A distinção que carrega o afeto

Menezes e Dias (2011) e Faraj et al. (2016) apontam que o termo abandono é associado ao não acolhimento, desinteresse, desamor, enquanto a doação há a preocupação com a preservação e bem-estar do filho. Nesse sentido, temos que o termo abandono carrega um peso pejorativo e reducionista, pois não abrange a característica de que algumas mulheres entregam o filho visando o bem maior deles (Motta, 2001), estigmatizando a genitora.

Siqueira e Faraj (2020) destacam que o amor materno pode ser expresso de diferentes formas, inclusive através da entrega voluntária, mas como esta não é vista socialmente como um ato de amor, às mulheres é negado a possibilidade de recusar a maternidade.

Categoria 5 - O conforto em outros filhos

As participantes Pagu e Frida Kahlo já tinham outros filhos e a presença destes foi importante para suas vidas após a realização da entrega, indicando que eles serviram de apoio e consolo, um conforto em relação às dores provocadas quando da entrega do outro filho em adoção.

Quadro 5
O conforto em outros filhos

Motta (2001) aponta ser comum, em casos de entrega, um comportamento de intenso apego aos demais filhos, beirando a superproteção. E Menezes e Dias (2011) refletem a figura simbólica do filho doado. Portanto, entendemos que se voltar para a figura dos demais filhos é um meio encontrado por elas para amenizar a dor da ruptura a partir da entrega e as marcas que este ato pode suscitar.

Categoria 6 - Sobre o reencontro: a esperança e o não desejo

Identificamos que nossas participantes almejam o reencontro com o filho que foi entregue. Nessa possibilidade reside também o desejo do perdão, que traria, assim, a redenção pelo ato. Isso dá indícios, também, das dores silenciadas e das marcas que a entrega deixou. A fantasia com o reencontro se torna, então, um recurso no enfrentamento à dor gerada pela entrega do filho.

Motta (2001) afirma que o sentimento que fica após a entrega de um filho em adoção é a dor da separação, mesmo que as mulheres estejam certas de sua decisão. Elas não demonstram conforto e serenidade com o ato da entrega. Em nossas participantes da pesquisa, percebemos a existência da dor e da culpa. Para elas, a possibilidade de um reencontro futuro com os filhos seria um meio para conseguirem o desejado perdão e, consequentemente, a redenção pelos seus atos (de entrega voluntária em adoção). Ou seja, não ter informações sobre a criança após a entrega agrava a dificuldade que têm em lidar com essa situação, e, ao não se ter informações reais, abre-se espaço para preencher a necessidade de ter tais informações com fantasias.

Quadro 6
Sobre o reencontro: a esperança e o não desejo

Frida, por sua vez, já havia entregado dois filhos, e compartilhou dos desejos de reencontrar e não reencontrar. Entregou o mais novo, sobre o qual ela versou mais fortemente ao longo de sua entrevista (e a quem ela se referiu em todos os eixos temáticos citados, expressando a dor da entrega, a distinção entre entrega e abandono, as concepções de mãe e mulher, suas motivações) e uma filha mais velha, sobre a qual a experiência da entrega trouxe diferentes sentimentos.

Para ela, a experiência de entrega desta filha trouxe menos dor, por ter trazido, também, um alívio, já que entregou a filha pouco após o parto, e não conviveu com ela além do período gestacional.

[Sobre a filha, que hoje tem 9 anos, que entregou para adoção] Foi mais aliviante, porque eu já tinha arrumado o casal, não tive tanta tristeza, pois de lá mesmo [maternidade] já entreguei ao casal [...] Nela eu não penso muito não. Eu rejeitei muito ela quando ela estava na minha barriga. Eu não a queria. Não foi que nem ele [filho que entregou em adoção], que eu tive amor pela barriga. Ela, até depressão pós-parto eu tive. Assim que a tive, mandei a médica botá-la bem longe de mim, porque eu não queria nem vê-la. Ela vem me ver, me chama de ‘mainha’1… Não tenho apego (Frida Kahlo).

Primeiramente, é importante destacar que relações familiares frágeis, com modelos de vinculação delicados, podem gerar dificuldades em vinculações futuras (Fernandes et al., 2011), algo perceptível em Frida ao longo de sua entrevista.

Além disso, esta filha foi entregue momentos após sair da maternidade, o que fez com que ela não passasse algum tempo com a criança, não convivesse e se relacionasse com ela, não a maternando. Nessa direção, Castro Valente e Peretto (2013, p. 73) defendem que a maternagem é “vinculação de qualidade de alguém que tenha a função do cuidar e de uma criança a ser acolhida”, sendo algo relacional, e não apenas algo ocorrido em função da possibilidade de gerar. E a maternagem não foi algo vivido por Frida nessa experiência.

Ainda, como Elias (2012) destaca, saber a quem a criança foi um entregue é uma maneira de aliviar a dor, pois se sabe, assim, o destino dela, podendo garantir, no imaginário da genitora, que ela esteja bem e protegida. Destaca-se também os sintomas de depressão trazidos por ela que, como Leão et al. (2014) apontam, é comum a relação entre decisão de entrega e questões de saúde mental, havendo ambivalência nos sentimentos acerca do ato da entrega.

Com isso, reforçam-se os cuidados que as mulheres que pensam em entregar o filho ou optam por fazê-lo devem ter. E pensar a possibilidade de uma vivência de entrega na qual a genitora traz outros sentimentos além das dores, é importante também para que esses casos não sejam legitimados com julgamentos, mas sim experiências distintas e individuais que possuem histórias e contextos diferentes em cada caso, mesmo para uma mesma pessoa.

Sobre isso, a Lei nº 13.509 (Brasil, 2017), que dispõe sobre a entrega voluntária em adoção, aponta que a autoridade judiciária, de posse de relatório de sua equipe técnica, poderá encaminhar a gestante ou mãe para acompanhamento na rede de saúde e de assistência social. Nota-se com esta pesquisa que esse encaminhamento deveria ser garantido e pactuado com toda a rede (sistema de justiça, de saúde e de assistência social) como uma política pública estabelecida.

Categoria 7 - A invisibilidade da dor que permanece

A entrega, para nossas participantes, foi marcada por vários tipos de sofrimentos. Elas destacam, como intensificador da dor, os julgamentos das pessoas sobre a decisão delas, que surgem por elas romperem com o imaginário feminino da maternidade, sendo tidas como mulheres monstro (Barbosa, 2011).

Para Martins et al. (2015) e Leão et al. (2014), a mulher que entrega o filho em adoção está à mercê de julgamentos negativos, que agravam suas dores. Valentim e Cortez (2014) lembram que, durante a gestação, quando a mulher menciona a possibilidade da entrega, a reação pode variar entre incentivo e repúdio, mas, ao concretizar o ato, resta apenas a condenação moral. Por conta disso, é comum que elas escondam sua escolha e dores. E, além das dores dos julgamentos, há aquelas geradas pela própria entrega, que ao serem silenciadas podem fazer com que elas não reconheçam um possível processo de luto.

O luto pode ser compreendido como uma etapa comum e dolorosa frente à perda de algo ou alguém (Lemos; Cunha, 2015). Para as mulheres que entregam o filho, o silenciamento da dor surge pela vergonha e culpa que elas podem carregar pelo ato, além do temor das condenações (Barbosa, 2011; Motta, 2001), fazendo com que elas possam não reconhecer suas dores como parte de um enlutamento ou possam não se sentir autorizadas a vivenciá-los. No início das entrevistas, era possível notar o quanto elas ocultavam e fugiam de suas dores, seja por silenciá-las ou por não as reconhecerem. Mas aos poucos encontraram segurança para se permitirem senti-las.

Quadro 7
A invisibilidade da dor que permanece

As três dão indícios de vivência de um luto não autorizado, que é um silenciamento perante o ato não aceito socialmente e que, por ter sido uma decisão delas, elas não dão espaço para essa dor (Motta, 2001; Elias, 2012). Elas nos trazem as inquietações, traduzidas por uma vida sem paz, por uma dor no coração. Elias (2012, p. 90) aponta que essas mulheres “não esquecem logo a criança e tudo o que lhes aconteceu”, reforçando que quando a perda ou a dor não são reconhecidas, o processo de luto é dificultado. Assim, “habitam um espaço de fronteiras” (Barroso; Therense; Damásio, 2018, p. 77), ao ficar à mercê da assistência ao qual têm direito e da (in)justiça social que vivenciam. Tudo isso reforça a necessidade de acolhimento, social e também através de políticas públicas, na área da saúde e da assistência social, pois a entrega é permeada por dores, ainda que invisíveis à primeira vista.

A necessidade deste acolhimento é ilustrada na seguinte fala:

Ela fica com trauma [a mulher grávida que entregou o filho em adoção]! Eu vou ficar com trauma para o resto da minha vida, porque mesmo que ele esteja sendo bem tratado, está bem-criado, não foi jogado no lixo, mas a mulher sofre, porque se apega muito ao filho (Frida Kahlo - fragmento da cena, grifos nossos).

Butler (2021) nos lembra que o direito à igualdade não é individual, nem deve ser confundido com direito à tratamento igual, e dessa forma, parte de uma reinvindicação global com estruturas organizadas para combater as vulnerabilidades e violações por vezes criadas pela própria sociedade. Se entendemos que tudo que foi apresentado aqui advém, também, da construção do ser mulher dentro de uma lógica patriarcal e violenta, é obrigação de todos e do Estado dar condições para que essa situação seja cuidada.

Considerações finais

A entrega do filho em adoção é um ato carregado de dores. Dor pela decisão, por não poder permanecer com o filho, nem poder ofertar uma possibilidade de futuro a eles. Dor que permanece após a entrega, tanto pelo ato quanto pelas condenações sociais. E o estereótipo de desalmadas e desumanas, como essas genitoras comumente são taxadas, não dá conta de abarcar tais dores, tão profundas e marcantes na vida delas.

Todo esse julgamento e silenciamento têm raízes históricas, devido ao fato de à mulher sempre ter sido imposto o lugar de ter que amar a maternidade e seu filho incondicionalmente. Mesmo com os avanços sociais e maior participação da mulher no mercado de trabalho, ainda se espera que ela se torne mãe. Não só isso, mas uma boa mãe.

E as que postergam isso, ou negam a maternidade, são questionadas e condenadas. A própria Psicologia, historicamente, contribuiu para essa concepção universal e normalizadora da mulher enquanto mãe, a partir das teorias que reforçam o vínculo mãe-filho sem considerar o contexto de construção desse pensamento. É inegável a importância dessas teorias, mas descontextualizá-las ou colocar o peso do desenvolvimento infantil apenas na mulher pode ser perigoso, tendo em vista que desconsidera o desenvolvimento humano como sendo multifatorial assim como deixa de lado o peso do patriarcado na história da mulher.

Além disso, esse aspecto histórico-cultural e social relega a responsabilidade toda sobre a mulher, ficando o pai/genitor alheio aos julgamentos, tanto nos casos de postergação, quanto nos casos de opção pela não maternidade, até os casos de aborto e de entrega voluntária. Ressalta-se que este último é previsto em lei, mas ainda assim, a mulher que opta por este ato é rechaçada. Portanto, a entrega é perpassada por tabus, preconceitos, estereótipos, silenciamentos e dores.

É preciso que essas mulheres falem sobre esse sofrimento, é preciso que haja espaços de acolhimento, que deem visibilidade às dores, pois a entrega pode gerar sentimentos que, sem o devido acompanhamento e escuta, podem intensificar e trazer mais dificuldades do ponto de vista psicológico e social. Do mesmo modo, é preciso discutir mais amplamente esse fenômeno, tanto academicamente quanto socialmente, havendo maior divulgação e conscientização do direito da mulher de poder entregar o filho em adoção, podendo buscar a justiça para tal sem prejuízos.

Este acolhimento deve ocorrer tanto pelos profissionais, que lidam diretamente com a demanda, mas também em nível social, havendo uma reflexão sobre o estigma que fora criado e o lugar que a mulher e a maternidade ocupam em nossa sociedade. Apenas assim poderemos ressignificar nosso olhar permeado por preconceitos dado em direção às mulheres que entregam o filho em adoção.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Repositório Institucional da UFRN e pode ser acessado em https://repositorio.ufrn.br/jspui/handle/123456789/21860

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  • 1
    Expressão nordestina, comumente expressada para se referir carinhosamente à “mãe”.
  • Como citar este artigo:
    ABNT OLIVEIRA, Laura Damásio; SILVA, Geórgia Sibele Nogueira da. Maternidade e entrega do filho em adoção: dores e preconceitos. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e28139, 2026. https://doi.org/10.22409/n56hss79APA Oliveira, L. D., & Silva, G. S. N. (2026). Maternidade e entrega do filho em adoção: dores e preconceitos. Fractal, Rev. Psicol., 38, e28139. https://doi.org/10.22409/n56hss79

Editado por

  • Editora responsável pelo processo de avaliação:
    Cláudia Castanheira de Figueiredo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Fev 2019
  • Revisado
    29 Jul 2023
  • Revisado
    16 Out 2024
  • Aceito
    06 Fev 2026
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