Open-access Contemporaneidade e metodologias de ação: uma abordagem crítica em pesquisa

Contemporaneity and action methodologies: a critical approach in research

Contemporáneo y metodologías de acción: un enfoque crítico en la investigación

Resumo

Um desafio colocado para a Psicologia Social consiste em acompanhar as transformações da contemporaneidade compreendendo, de modo crítico, os efeitos éticos e políticos que elas precipitam no cotidiano das populações. O presente artigo tem por objetivo abordar metodologias de ação capazes de intervir em duas esferas: na produção de conhecimento e na transformação social. Para tanto, o estudo teórico foi dividido em três momentos: primeiro, aborda a relevância dos avanços técnicos e tecnológicos para a contemporaneidade; em seguida, destaca as mudanças sociocognitivas que tais tecnologias introduzem no cotidiano; e, por fim, problematiza as condições necessárias para colocar as metodologias de pesquisa em movimento. Ao final desta trajetória, acumulamos argumentos para sublinhar a relevância de promover mundos habitáveis para os seres vivos em sua coexistência. Para tanto, cabe considerar a pluralidade de enfrentamentos em relação aos valores vigentes, mantendo uma abertura vital para engendrar relações transformadoras que potencializem a vida.

Palavras-chave:
metodologias; psicologia social; cotidiano; subjetividade; transformação social.

Abstract

A challenge to Social Psychology is to accompany the transformations in contemporary times including, critically, the ethical and political effects on the daily life of the people. This article aims to address action methodologies able to intervene in two spheres: in the production of knowledge and social transformation. For both, theoretical study was divided in three moments: first, addresses the relevance of technical and technological advances to contemporary; then, it highlights the changes that these technologies introduce in socio-cognitive in everyday life; finally, discusses the conditions necessary to put in motion research methodologies. At the end of this trajectory, we accumulate arguments to underline the relevance of promoting habitable worlds for living beings in their coexistence. To this end, it is necessary to consider the plurality of challenges to prevailing values, maintaining a vital openness to generate transformative relationships that enhance life.

Keywords:
methodology; social psychology; subjectivity; social transformation.

Resumen

Un desafío para la Psicología Social es mantenerse al día con las transformaciones contemporáneas, comprendiendo críticamente los efectos éticos y políticos que estas generan en la vida cotidiana de las poblaciones. Este artículo busca abordar metodologías de acción capaces de intervenir en dos ámbitos: la producción de conocimiento y la transformación social. Para ello, el estudio teórico se divide en tres partes: primero, se analiza la relevancia de los avances técnicos y tecnológicos para la sociedad contemporánea; segundo, se destacan los cambios sociocognitivos que dichas tecnologías introducen en la vida diaria; y, finalmente, se problematizan las condiciones necesarias para la puesta en práctica de metodologías de investigación. Al final de este recorrido, se acumulan argumentos para subrayar la importancia de promover mundos habitables para los seres vivos en su coexistencia. Para ello, es necesario considerar la pluralidad de desafíos a los valores predominantes, manteniendo una apertura vital para generar relaciones transformadoras que mejoren la vida.

Palabras clave:
metodologías; psicología social; vida cotidiana; subjetividad; transformación social.

Introdução

O mundo contemporâneo mostra-se cada vez mais complexo e imprevisível. A chamada globalização produz efeitos impetuosos nas organizações societárias mundo afora, impelida, por sua vez, por um desenvolvimento técnico e tecnológico produtor de possibilidades inconcebíveis poucas décadas atrás. Tal situação, porém, é vivida de modo bastante distinto entre diferentes populações, tendo em vista a diversidade do conjunto social e os acontecimentos que, ao emergirem, desafiam as organizações sociais, exigindo ações contundentes de populações e governos. Essa situação foi amplamente exposta na pandemia por COVID 19 que marcou o início da terceira década do século XXI (Gil, 2025).

Além das diversidades inevitáveis de uma população mundial que alcança a casa dos sete bilhões de habitantes, seja no âmbito da cultura, etnia, gênero ou orientação sexual, o quadro de desigualdade socioeconômica que se alcançou é único na história, determinando possibilidades de apropriação e desfrute das novas técnicas e tecnologias agudamente desiguais. Segundo Piketty (2013), a diferença de renda entre ricos e pobres ampliou expressivamente nas últimas décadas, e embora o mundo globalmente produza mais riqueza do que nunca, com um PIB (Produto Interno Bruto) em torno de 55 trilhões de dólares, o Banco Mundial, em relatório de 2016, referente aos dados de 2013, aponta que quase 800 milhões de pessoas vivem ainda em situação de extrema pobreza, com renda de até 1,9 dólar por dia (World Bank Group, 2016). No cenário brasileiro, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, a renda média dos brasileiros mais ricos cresceu mais em um ano do que a dos 40% mais pobres. Ainda que haja uma demarcação clara da disparidade na concentração de renda, o IBGE (2024) informa que o rendimento per capita dos 40% da população com menores rendimentos no país atingiu, em 2023, o maior valor da série quando analisada historicamente.

Recentemente, a denominada OXFAM, descrita em seu site oficial como “uma organização da sociedade civil brasileira, sem fins lucrativos e independente, criada em 2014 para a construção de um Brasil com mais justiça e menos desigualdades” (Oxfan, 2024a), publicou um relatório que indica uma situação mais alarmante: “A riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo aumentou 114% desde 2020, enquanto que a de 5 bilhões de pessoas diminuiu no mesmo período” (Oxfam, 2024b). O relatório ainda alerta: “4 dos 5 bilionários brasileiros mais ricos aumentaram em 51% sua riqueza desde 2020; ao mesmo tempo, 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres” (Oxfam, 2024b). Compreender a complexidade destas contradições, cujos efeitos sociais mostram-se alarmantes na contemporaneidade, é crucial para uma Psicologia Social crítica que tem como alvo contribuir para a promoção de condições mais virtuosas e encantadoras à vida de incontáveis cidadãos que são social e politicamente excluídos do acesso a direitos.

O objetivo do presente estudo teórico consiste em problematizar como as metodologias de pesquisa e ação em Psicologia Social podem se posicionar de maneira ao mesmo tempo crítica e sensível diante dos acontecimentos sociais que são por ela identificados e colocados em análise. Cabe esclarecer que, metodologicamente, as argumentações sustentadas neste estudo se fundamentam em uma revisão crítica de literatura, por meio da qual se busca identificar e analisar estratégias que podem ser utilizadas para entrar em contato com os temas-campos tomados aqui em apreciação e que envolvem a interface dos avanços tecnológicos, das mudanças sociocognitivas e das metodologias de pesquisa. Para tanto, o estudo foi dividido em três momentos. Primeiramente, será analisado como a técnica e a tecnologia, que estão em circulação na contemporaneidade, cooperaram para difundir inúmeras possibilidades de potencializar a vida no planeta e, ao mesmo tempo, restringem-se a grupos específicos. Na segunda parte, será traçado um diagnóstico sobre as maneiras como o avanço tecnológico ora em curso refaz os contornos da subjetividade contemporânea colocando em evidência novas relações sociocognitivas. A terceira parte, inspirada no cenário descrito nas duas primeiras partes, visa evidenciar como a produção de conhecimento em Psicologia Social, na sua vertente crítica, coloca em ação a dupla pesquisador-participante, atribuindo a ambos, a coautoria da produção de conhecimentos. Serão explicitadas, então, algumas condições de possibilidade para colocar em ação o verbo pesquisar.

O estudo justifica-se, portanto, por colocar em evidência a conexão imperativa entre teoria e prática trazendo como contribuição diferencial uma perspectiva de produção de conhecimentos realizada no cerne do capitalismo avançado que, por ser díspar e multifacetado, demanda uma análise crítica, também multifacetada, sobre sua produção e socialização, destacando seus diferentes construtores. Por fim, já nas considerações finais, teremos condições de afirmar os ganhos de uma abordagem metodológica que se afilia as dimensões ética, estética e política da existência.

A técnica e a tecnologia a serviço de quem?

Santos (2010) considera que para compreender quaisquer sociedades é preciso considerar o estado das técnicas e o estado da política. Ambos são fatores inseparáveis. Diz ele: “As técnicas são oferecidas como um sistema e realizadas combinadamente através do trabalho e das formas de escolha dos momentos e lugares de seu uso. É isso que faz a história” (Santos, 2010, p. 23). Há, portanto, um uso político das técnicas e das tecnologias. Em meio à dinâmica das correlações de força atualizadas em cada sociedade, negocia-se, não sem conflitos e tensões, as formas de sua aplicação prática. Nas sociedades capitalistas, amplamente hegemônicas atualmente, as técnicas e tecnologias são comumente empregadas na ampliação da mais valia nos processos de trabalho, fazendo com que a produção de riqueza real se torne menos dependente do tempo e da força do trabalho vivo. O efeito dessa decisão está na concentração das técnicas e tecnologias, cada vez mais marcada, nas mãos dos proprietários dos meios de produção. Dussel retoma Marx que, já no século XIX, nos Grundrisse, dizia:

[...] à medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza real se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho empregado... O próprio movimento não se acha por sua vez em relação com o tempo de trabalho imediato gasto na sua produção, mas depende antes do estado geral da ciência e do progresso da tecnologia (Marx, apudDussel, 2000, p. 191).

Além da ampliação da mais valia, o advento das tecnologias digitais e de informação proporcionou o desenvolvimento de um sistema de técnicas com poder de conexão sem par na história, promovendo a criação de redes sociotécnicas de alcance planetário, cujo efeito é a viabilidade do acesso e ingerência, mediatos e imediatos, em quaisquer partes do planeta (Castells, 2024). No mundo empresarial, organizações espalhadas em diversos lugares do globo, conectam-se em rede, articulando suas várias filiais, dentro e fora de seu país de origem, além dos fornecedores e clientes ou potenciais clientes, a elaborar planos de ação e produção a cada instante (Boltanski; Chiapello, 2009)

No campo dos processos de trabalho, tarefas pesadas e repetitivas podem ser executadas por máquinas ditas inteligentes, dirigidas por sistemas operados digitalmente em ritmo consonante à demanda do mercado em cada momento, proporcionando as condições para a redução da rigidez hierárquica nas divisões de trabalho e maior autonomia aos trabalhadores para a execução de suas atividades (Castells, 2024). Tais inovações tecnológicas propiciam, ainda, produção de riquezas como nunca na história, gerando as condições para redução ou mesmo eliminação da miséria num futuro próximo. Permitem, por fim, conexão em tempo real entre centenas de milhões de pessoas localizadas em uma diversidade de lugares, podendo comunicar-se e intercambiar informações dos mais variados assuntos e de múltiplos interesses. Na perspectiva de Castells (2024, p. 32):

las empresas de internet que funcionan como compañías multimedia tienden a ser mucho más grandes que las compañías de medios tradicionales, incluidas ahora en su mayoría en redes multimedia ancladas alrededor del poder tecnológico y financiero de las compañías de internet.

Acrescido a esse cenário, as inovações trazidas pela denominada Inteligência Artificial (IA) dão uma nova tonalidade às relações humanas na sua interface com a produção. Gil (2025) é um dos pensadores contemporâneos que enfrenta a problemática da IA adotando uma perspectiva crítica. Em suas palavras:

A revolução que assim se prepara desenvolver-se-á, essencialmente, em três planos, económico, político e cultural, que se cruzam num ponto: a inteligência artificial. A sua função é obter a sujeição das massas aos desígnios económicos, políticos e culturais. Trata-se de moldar as subjectividades e os desejos da população de forma a obter uma adesão colectiva, sem recorrer, se possível, à força policial e a outros meios repressivos” (Gil, 2025, p. 1).

Comemorada nos diferentes pontos do planeta, as inovações de técnicas e tecnologias engendradas pela IA tendem a desconsiderar politicamente o tipo humano que ela coloca em produção e que se mostra, nas palavras de Gil (2025, p. 1), amplamente filiado à “uma ideologia anti-woke (autoritária, conservadora e respeitadora dos antigos valores religiosos, patriarcais e ‘nacionais’)”. Tal cenário, na análise do autor, abre espaços e estratégias para “manipulação generalizada da informação” (p. 1), reconfigurando uma sociedade disciplinar, agora mais espontânea e disposta a desejar mais e mais tecnologia.

Outro ponto a ser considerado é que a emergência e disseminação das técnicas e tecnologias digitais favorecem a tendência de imaginar o planeta como uma grande aldeia global, como já idealizava McLuhan (2001) - uma aldeia global que pode forjar uma revolução estética, promotora de maior consciência das heterogeneidades e diversidades culturais, já que acessadas e intercomunicadas dia a dia por meio das redes de comunicação; uma revolução estética também nos processos laborais, uma vez que os trabalhadores poderiam laborar mais autonomamente e criativamente, e em tarefas mais qualificadas; além de uma revolução social, eliminando ou, ao menos, reduzindo expressivamente o enorme número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza.

Estaríamos, então, em um período histórico no qual passa a ser materialmente viável a composição de uma tecnodemocracia (Lévy, 2010), onde todos poderiam interagir mutuamente formando um grande coletivo cosmopolita? Um tempo histórico no qual as alteridades poderiam ser reconhecidas social e politicamente, e não desqualificadas e violentamente invisibilizadas como têm sido desde longa data? Ou estaríamos, inversamente, em momento no qual o pensamento abissal (Santos; Meneses, 2010) vem sendo mais e mais instigado como reação à diluição das identidades e à fragmentação e liquefação de inúmeras instituições sociais? No qual um novo espírito do capitalismo (Boltanski; Chiapello, 2009) matura e enreda nos processos de subjetivação um discurso de competitividade cada vez mais individualizado, dividindo as perspectivas de vida em meras dicotomias, como incluído versus excluído, nós versus eles?

As respostas para tais questões são bastante complexas, pois tudo isso parece estar ocorrendo simultaneamente. Práticas de xenofobia, homofobia, racismo e preconceitos diversos irrompem por cantos e recantos do planeta apoiadas, muitas vezes, até mesmo por governos mediante políticas públicas discriminatórias (Žižek, 2017). Também corrente é o crescente número de pessoas sem mais expectativas de empregar-se a não ser em atividades precárias com graus intensivos de exploração pelo capital ou no âmbito do trabalho informal. Isso amplia ainda mais as desigualdades e as tensões sociais, resultados da implantação generalizada dos princípios do neoliberalismo nas últimas décadas. Ainda assim, o humano segue aderente aos valores dominantes idealizados e intangíveis. Como assinala Santos (2024, p. 25): “a ficção mais comum é a do moderno ser humano quando sai de casa de manhã para dominar o mundo”. Que expectativa de domínio é essa e onde ela se depara com seus limites?

É nessa direção que, simultaneamente, mobilizações e movimentos sociais cosmopolitas, multiculturais e democráticos se fazem presentes, anunciando perspectivas de crescimento real de sociabilidades ainda incipientes. Sistemas alternativos de produção, com relações de trabalho democráticas, horizontais, autogestionárias, onde todos participam efetivamente do planejamento e execução dos processos de produção e venda, distribuindo igualitariamente os resultados do trabalho coletivo, anunciam também sua existência, mesmo que em número reduzido em relação às organizações capitalistas hegemônicas (Castells, 2024).

Formas distintas de apropriar-se politicamente das possibilidades oferecidas pelas novas técnicas e tecnologias, desdobram-se em construções sociais igualmente distintas. Que novas disposições sociais teremos no futuro é uma questão em aberto. Nesta seara estão assentados desde os graves problemas ambientais que crescentemente se pronunciam (Stengers, 2015) até a miserável condição de bilhões de pessoas que margeiam pequenas, mas poderosas ilhas por onde deságua, ordinariamente, vasta riqueza, desigualmente apropriada e dividida, as quais anunciam aos quatro cantos as fábulas de um sistema que efetivamente deu certo (Souza, 2017; Mansano; Lima, 2017). Mas para quem? Para o reduzido número dos ganhadores, ecoam.

Novas tecnologias e transformações sociocognitivas

A criação e disseminação das novas tecnologias informacionais e digitais na sociedade contemporânea, por sua vez, merecem uma análise mais detida. Denominadas por Lévy (2010) como tecnologias intelectuais, elas vêm promovendo - e exigindo - mudanças expressivas na experiência sociocognitiva de cada habitante do planeta, e nas possibilidades do fazer pesquisa. Outras formas de conceber o conhecimento e de pensar são produzidas em meio às interações com essas novas tecnologias, à medida que concedem outras lentes e artefatos para apreender e agir no entorno social, fomentando novas metáforas e linguagens de mediação com o mundo e com cada um de nós no mundo; fomentando novas ontologias. A viabilidade inédita para promover simulações digitais, como ensaios programáticos para produção de modelos de intervenção sobre a realidade, permite um rearranjo epistemológico, no qual cada vez mais as concepções representacionistas da verdade, que a concebem como entidade a-histórica, são passíveis de ser desconstruídas (Žižek, 2017). Autoras como Haraway (2023) e Barad (2007), por exemplo, têm inspirado pesquisas e intervenções que colocam em diálogo as práticas de investigação com estratégias de difração, dando valor ao caráter transformador do conhecimento, sua capacidade de difratar e transformar nosso conhecimento da realidade e o primordial contato com a natureza nessa produção. Mais do que a repetição e acumulação de conhecimento, em busca da “santa verdade”, o conhecimento científico volta-se, aqui, para oferecer versões plausíveis da realidade.

Congruente com isso, a noção que vivemos sobre o tempo se relativiza. Além da transmissão instantânea de informações, cria-se como evento possível a presentificação de passado e futuro. Nas palavras de Castells (1999, p. 486), “uma colagem temporal em que não apenas se misturam gêneros, mas seus tempos tornam-se síncronos em um horizonte aberto sem começo, nem fim, nem sequência”.

Da mesma forma, o espaço também sofre modificações profundas. Tradicionalmente, espaço é compreendido como o cenário geográfico no qual ações sociais se dão e cujas dimensões são demarcadas pela presença de pessoas que compartem sentidos e tempo. Espaço e tempo, então, são interdependentes, à proporção que as ações sociais são localizadas no âmbito das relações face a face. Adverte Giddens (1991), porém, que nas sociedades contemporâneas,

O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico; isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a ‘forma visível’ do local oculta relações distanciadas que determinam sua natureza (Giddens, 1991, p. 27).

Diante disso, alerta Santos (2024), nossas relações com o mundo são radicalmente alteradas; configuram-se então como local-global e não mais local-local, como outrora. Explicando melhor, cada lugar é agora virtualmente mundial, pois nele presentificam-se e se articulam elementos sociotécnicos procedentes do espaço-mundo. Afirmar que cada lugar é virtualmente mundial, porém, não pressupõe que todos os lugares se tornam homogêneos e similares; pelo contrário, cada microlugar se singulariza à medida que a comunhão que cada qual mantém com o mundo se delineia em uma dialética de tensões, conflitos e negociações constantes, cujas resultantes são momentâneas e únicas, suscitando e desatando diversidades (Santos, 2024; Spink, 2008). Afinal, desde os frankfurtianos e os pós-estruturalistas, sabe-se que os processos históricos são descontínuos, tortuosos, com idas e vindas, impondo convivências conflituosas, mas também complementares entre agrupamentos e discursos sociais cujas organizações cultural, sociocognitiva, sociotécnica, bem como sua localização na divisão social do trabalho, são bastante diversas, conquanto coexistam no mesmo mundo e na mesma época.

Distintamente do que proclamam os gurus da globalização que gritam em coro um discurso único sobre a atualidade, a sociedade contemporânea é desenhada por diversidades, singularidades e desigualdades vastas marcadas, por seu turno, por níveis diferentes de poder e enfrentamentos. Como alerta Santos (2008, p. 29): “O espaço se globaliza, mas não é mundial como um todo, senão como metáfora”, pois não há um espaço global, quem se globaliza são as pessoas nas relações sociais em seus cotidianos localizados. Sendo assim, o que de fato ocorre, argumenta Santos (2008), são espaços hegemônicos e não hegemônicos, assim como temporalidades hegemônicas e não hegemônicas. Os espaços hegemônicos são os nós compostos por atores sociais que interconectam redes de relações e intercâmbios, cujas práticas sociais tendem a regular e modelar a sociedade, colonizando mais ou menos os múltiplos e heterogêneos espaços não hegemônicos. As temporalidades hegemônicas são as temporalidades dos fluxos controlados, ditadas pelo grande capital que, através de meios tecnocientíficos, rompem fronteiras deslocando-se com liberdade por onde descortina potencialidades de ampliação dos lucros. As temporalidades não hegemônicas são mais lentas, expressam e recebem afetos, sendo materializadas por múltiplos e diversificados atores hegemonizados, cuja velocidade e possibilidade de deslocamento variam conforme a força política, econômica e o potencial estratégico que possuem.

Consonante com o argumento da desconexão das noções de tempo e espaço no sistema-mundo contemporâneo, Virílio (apudMorais, 2002) denuncia o processo de radicalização desse fenômeno, destacando a velocidade como o novo motor da história. Para ele, a velocidade incorpora-se nas consciências através do paradigma máquina; paradigma resultante do uso hegemônico que se faz das técnicas e tecnologias, tornando-o referência naturalizada nas sociabilidades contemporâneas. “Exigimos velocidade das máquinas e dos corpos; corpos velozes, dinâmicos, aptos a atender às vicissitudes do capital” (Virílio, apud Morais, 2002, p. 45), diz. Descreve, assim, uma nova forma materializada de corpos dóceis ao capital, corpos ágeis, rápidos e flexíveis como as máquinas digitais! A velocidade então, para o autor, é o lado velado da violência da exploração dos corpos, e da produção e distribuição desigual dos usos hegemônicos das técnicas e tecnologias contemporâneas. Nas suas palavras:

Comumente se diz que o poder está vinculado à riqueza. Em minha opinião, está, acima de tudo, vinculado à velocidade; a riqueza vem depois. Claro que é verdade que o poder precisa de meios, que adquire esses meios através do entesouramento, da exploração ou de ambos, mas as pessoas esquecem a dimensão dromológica do poder. [...] Aquele que tem a velocidade tem o poder porque é capaz de adquirir os meios, o dinheiro (Virílio, 1984, apudMorais, 2002, p. 46).

No limite, o império da velocidade poderá desdobrar-se na dissuasão irrefletida da construção autônoma das singularidades dos sujeitos, na aceitação alienada e acrítica das normatizações postas intersubjetivamente nos processos de subjetivação, cujo fundamento medular é a reprodução, multiplicação e concentração do capital financeiro. Poderá também desdobrar-se no transpolítico que, em suas palavras, “é o início do desaparecimento do político na rarefação da última provisão: a duração. Democracia, consulta, bases do político, requerem tempo. A duração é própria do homem; ele está inscrito nela” (Virílio, 1984, apudMorais, 2002, p. 47). A transpolítica, assim, será a morte da possibilidade da política baseada no diálogo, na dialética das trocas democráticas de argumentos, ideias e interesses, na democratização de uso dos espaços, porque invadida pela supervelocidade dos fluxos digitais de informação das técnicas e tecnologias colonizadas pelo capital. Resistir à transpolítica e, portanto, repolitizar o tempo, os espaços, as técnicas e tecnologias e seus respectivos usos, bem como as relações sociais nos mais diversos cotidianos é condição necessária prenunciada pelo autor para barrar os totalitarismos da globalização financeira. Como pensar metodologias de pesquisa e ação em um campo social tão diversificado, móvel e transitório? É o que abordaremos na próxima seção.

Metodologias de ação: as condições de possibilidade para pesquisar e intervir

Se a vida em sociedade implica um processo em construção mediante o qual, no cotidiano das relações sociais, histórica e espacialmente situadas, as pessoas coletivamente a materializam por meio de saberes que utilizam para descrever, dar sentidos e agir no mundo. Se for algo que se realiza nas relações entre pessoas e pessoas, pessoas e coisas, pessoas e máquinas, máquinas e máquinas em um movimento em fractal frenético, tecendo partes heterogêneas e múltiplas em uma rede tensa e sem fim, cuja organização e materialização são em grande parte imprevisíveis e em constante mutação (Lévy, 2010). Se cada lugar, nos dias de hoje, é virtualmente mundial (Santos, 2008, 2010; Giddens, 1991), uma vez que nele se fazem presentes elementos e artefatos do espaço-mundo, arranjando-se e se rearranjando de modo singular. Se é, por sua vez, no lugar onde vivem as pessoas, as quais se globalizam nas relações sociais cotidianas, é também em cada lugar que se materializa o complexo social, com suas tensões, conflitos, negociações, coerções e possibilidades, sentidos e materialidades hegemônicos e contra-hegemônicos em um fluxo contínuo de eventos variados em ritmo frenético, configurando-se como um caleidoscópio vivo, complexo, heterogêneo e produtor, em cada momento, de novos e singulares desenhos sociotécnicos (Spink, 2008).

É nesse sentido que elencamos, nesta seção, o que chamamos, inspirados em Foucault (2004), as condições de problematização para construir conhecimentos comprometidos com os lugares e com seus agentes sociais. Diz Foucault (p. 112) que a “transformação de um conjunto de complicações e dificuldades em problemas para os quais diversas soluções tentarão trazer respostas é o que constitui o ponto de problematização e o trabalho específico do pensamento”. Cada interrogação levantada nesse processo mantém-se em contato com as demais, traçando uma rede de intervenção por meio da qual pesquisadores e participantes são convidados a se colocar, explorando ângulos diferentes e, com isso, tornando a pesquisa um processo de produção multifacetado de si e do outro. Quais as condições para mantermo-nos nessa perspectiva crítica de produção de conhecimentos e práticas?

1. O lugar como instância de materialização do todo social

Essa primeira condição implica conceber o lugar como ente vivo, de cuja ebulição do social vai assumindo instáveis e cambiantes formas, capturadas e colonizadas em grande parte pelos centros hegemônicos (mas não sem resistências). Tal perspectiva o coloca como espaço privilegiado de ação para uma Psicologia Social crítica, que não se exime de posicionar-se politicamente no jogo de poder que está posto. Uma Psicologia Social que, mais do que buscar descortinar verdades essenciais e generalizáveis do seu fenômeno de estudo e intervenção, procura somar forças no sentido de problematizar relações de opressão e desconstruir ideologias que dão sustentação a tais relações, as quais naturalizam o pensamento abissal e hegemônico.

Isto implica orientar-se por uma epistemologia problematizador, que “confronta a monocultura da ciência moderna com uma ecologia de saberes” (Santos; Meneses, 2010, p. 53). Ecologia porque reconhece a pluralidade dos saberes e valores, pluralidade dentro da qual o saber da ciência é um entre vários, que em meio às relações sociais fundem-se, tensionam-se, negociam concepções e novos questionamentos que orientam ações individuais e coletivas.

Considerar a multiplicidade nos saberes, fazeres e valores, porém, exige uma atenção ético-política para que não caiamos nas armadilhas de um pluralismo agonista, no qual distintos agentes confluem na consecução de certa forma política de estruturar o campo valorativo no qual se desenvolve a investigação (Montenegro; Tarrés, 2003). Neste sentido, os saberes e valores que promovemos e que, em dado momento, podem devir hegemônicos, são apenas um momento pontual em uma tradição de constante relação agônica entre posições. Uma perspectiva agonista enfatiza a importância de nossa posição na produção e transformação dos valores na investigação. Estamos, ao fim e ao cabo, “na barriga do monstro”, e é desde esta barriga que se definem os valores que delineiam como se realizará a investigação. Enquanto situadas no campo, o como e o para quê de nossa investigação não podem desligar-se do nódulo concreto a partir do qual geramos conhecimento. Com efeito, a ética e a política são situadas, e a legitimação de nossa ação ético-política não pode desligar-se de uma ação de poder que busca a reprodução ou deslocamento das forças que constituem o campo (Foucault, 2004). Trata-se de uma barriga colonizada por um capitalismo cognitivo que se apropria da ética e da política da investigação para protocolizá-la mediante regras rígidas. Uma investigação que está dirigida para os aspectos que a sociedade considera relevante; sociedade, por sua vez, atravessada por um hedonismo consumista que acredita que a investigação relevante é a que consegue altos níveis de citações. O espelhismo narcísico da transformação valorativa alimenta a sensação de haver chegado ao ápice de, por exemplo, uma investigação feminista quando estamos ao ponto de sucumbir no inverno da “ideologia de gênero”.

Tanto a exclusão antagonista, como a inclusão agonista, busca o estabelecimento absoluto ou temporal de uma hegemonia que exclui ou meramente tolera a possibilidade da diferença. O estabelecimento de uma hegemonia valorativa se consegue por meio de um exercício de ventriloquismo que nos situa como vozes legítimas para nos apropriarmos das múltiplas posições valorativas que podem transitar em uma prática ética e política da investigação. Esta última culminaria necessariamente o estabelecimento de uma superioridade moral sobre outras formas e objetivos de investigação? Pensar uma prática ético-política que situe como eixo a diferença, porém, implica o reconhecimento de outras formas de fazer, além de objetivos políticos que não podem subsumir-se à própria posição. Parafraseando Haraway (1999), podemos defender valores situados que se desprendam da necessidade de uma hegemonia ética e política. No entanto, como é possível desenvolver uma investigação eticamente responsável e politicamente progressista e crítica sem cair no relativismo cultural? É o que abordaremos na próxima seção.

2. O contato direto com a população e a conversa fluida

A prática de investigação positivista tende a desenvolver um processo de colonização do campo para mostrar-se como o agente que investe de voz a pessoa investigada. Se a investigação é um evento relacional, sua conclusão pressupõe seu encerramento. Uma queixa recorrente de participantes silenciados na investigação refere-se a pouca voz que têm sobre quando inicia e quando termina a relação de pesquisa. Os implícitos desta relação carregam certas formas de extrativismo que colonizam e expulsam formas de vida para inseri-las nos circuitos do atual capitalismo cognitivo. Instala-se, desse modo, uma assimetria relacional na qual os participantes exercem sua resistência ao negar participar da investigação ou exigir contrapartidas. O apelo a uma voz “divina” (fetichização do método científico, por exemplo) ou a um consenso valorativo alheio à relação com o fenômeno estudado geram posições dissimétricas que comportam relações paternalistas ou meramente contratuais. A presença da biodiversidade nas pesquisas e práticas é preciosa e coopera para combater uma hegemonia valorativa que usa os participantes silenciados da investigação como objetos que a naturalizam.

Considerar o caráter relacional da investigação permite levar em conta simultaneamente ética e política, a forma e a orientação da relação. Ao mesmo tempo, as articulações são imprevisíveis, não permitindo, assim, a confortável estabilidade política das práticas investigativas. Situar a investigação na dimensão relacional implica considerar as múltiplas formas que a relação toma, as reorientações que elas precipitam no processo e sua necessária imprevisibilidade e difração (Santos, 2024).

Consonantes com isso, Spink (2008) mostra-se crítico ao tradicional uso dos roteiros de entrevistas ou observação pré-estabelecidos, visto que impõe invariavelmente certa distância às pessoas. Tal atitude limita compreensão das redes de relações e das teias de sentidos que cotidianamente são construídas e reconstruídas no lugar, embora possamos ter a sensação confortável de maior objetividade e segurança no processo de investigação e análise com essas ferramentas. O corpo demandado para a pesquisa é aquele capaz de se tornar vulnerável ao encontro, capaz de afetar e ser afetado pelo campo-tema de forma a extrair dele elementos afetivos que não necessariamente são acessíveis pela razão e pelos roteiros. Há um não saber nesse corpo que, muito distante de uma avaliação desqualificadora do saber científico certeiro e das expectativas mercadológicas tão disseminadas, torna-se a condição para uma “efetiva problematização” (Foucault, 2004, p. 232) do encontro com o outro na pesquisa e na intervenção.

3. O mergulho nas singularidades do campo-tema

Se a investigação consiste na difração do conhecimento, pensar em uma prática ética de transformação dos saberes demanda pautar-se por conexões. Conexões que pressupõem, como alerta Spink (2008), um mergulho no lugar, de modo a pesquisar no cotidiano, e não o cotidiano. Com essa abertura é possível reconhece a pluralidade nele presente, suas teias de sentidos, as singularidades e diferenças. Isso ocorre à medida que se participa das ações que se desenrolam nos espaços de convivência, nas idas e vindas das pessoas, das conversas, das intimidades, das tensões, encontros e negociações, do fluxo de ações e saberes diversos. E todo esse processo ocorre sem renunciar a uma relação orientada politicamente que reconheça a imprevisibilidade desta relação. Uma perspectiva centrada na relação dissolve, ademais, uma importante controvérsia ético-política, visto que “falar de” e “falar com” não carrega maiores problemas relacionais. Distinto é quando “falamos por”, quando tomamos decisões que afetam as formas de vida de outras pessoas, especialmente quando se trata de vozes socialmente apagadas ser, portanto, uma voz reconhecida em nosso campo de conhecimento.

A investigação, então, pode se dar em meio à ação, cujo caminho e estratégias a seguir são definidas, redefinidas e decididas no dia a dia das interações no lugar, em combinação com os agentes sociais, junto a quem aprendemos, desaprendemos e reaprendemos saberes constantemente. Nesse sentido, a população pesquisada não pode ser uma fonte meramente respondente às perguntas e aos objetivos previamente traçados por pesquisadores. Ela assume um estatuto de agente ativo e co-partícipe de todo o processo. E isso envolve desde a delimitação dos objetivos da pesquisa, dos lugares a serem observados, das ações necessárias, das discussões dos achados parciais ou finais, até as maneiras como o relatório conclusivo será compartilhado, além do programa de intervenções a ser realizado, quando conjuntamente entendido como necessário. Há, assim, um duplo saber sendo construído quando falamos de uma Psicologia Social crítica comprometida com a transformação social: aquele que atende às exigências da academia com seus rigores conceituais e metodológicos, os quais são condição para o avanço e compartilhamento dos saberes com os pares; mas também um saber por meio do qual pesquisador e participante se fazem sujeitos no encontro, tecendo discursos e práticas acerca do problema que foi colocado em pauta. A importância dessa dupla produção é crucial, tendo em vista a dimensão política da pesquisa em Ciências Sociais e Humanas (Stengers, 2023); a autora lembra que, nessa perspectiva, cabe “aceitar o experimento do encontro” (p. 25) com as afetações e sentidos que deles emanam.

É nesse sentido que o corpo do pesquisador, com sua potência para afetar e ser afetado, entra no campo das pesquisas. Distante da exigência de uma neutralidade advinda da modernidade, que concebe os participantes da pesquisa e da intervenção como meros objetos a serem desvelados pelo saber legitimado da academia, o que ganha importância nesta abordagem metodológica é a implicação do pesquisador com o problema em pauta. Afinal, quais sensações, afetos e sensibilidades são suscitados por esse encontro? Como o tema afeta o pesquisador ao ponto de se tornar um campo a ser investigado?

4. Afetar e ser afetado: a falácia da neutralidade

A dimensão transformadora que está na base das metodologias de ação implica um envolvimento político com o tema a ser desenvolvido. Por política, compreendemos algo que se realiza em ato, nas práticas cotidianas dos encontros sociais e que, por isso mesmo, provoca a emergência da diferença e da polêmica em seus mais variados matizes. Rolnik (2023, p. 36) assinala:

Insurgir-se nesse terreno implica que se diagnostique o modo de subjetivação vigente e o regime de inconsciente que lhe é próprio, e que investe como e por onde se viabiliza um deslocamento qualitativo do princípio que o rege. Sem isso, a tão aclamada proposta de reapropriação coletiva da força criadora como profilaxia para a patologia do presente não sairá do laboratório das ideias.

Considerar a existência de uma prática viva na pesquisa, que perturba e desestabiliza seus agentes colocando em curso novos modos de subjetivação, torna-se ponto de partida deixar-se afetar por aquilo que não conhecemos de antemão, tendo em vista nosso distanciamento concreto do campo. Esse não saber é a condição para entrarmos em contato com a população, seus desejos, divergências e anseios. Ganha relevância, assim, a vulnerabilidade do pesquisador ao encontro: uma vulnerabilidade por meio da qual é possível deixar-se afetar pela existência viva do outro, ainda que essa existência coloque em xeque uma série de valores já consolidados e naturalizados. É precioso, nesse sentido, estranhar o familiar, estranhar as explicações que já estão cristalizadas e devidamente organizadas em uma formatação. Tal estranhamento é condição para detectar as singularidades que emergem no encontro, dando-lhes espaço de expressão. Isso coloca ao pesquisador a tarefa de “estar inventando modos de existência, através dos quais ele mesmo é reinventado” (Rolnik, 1995, p. 56).

Nesse contato vivo com a diferença, a abertura para acolher os estranhamentos, as rupturas e as interferências trazidas pelo olhar do outro ganha cena. Fazer desse conjunto de afetos díspares o próprio objeto de análise a ser desdobrado e explicado por ambos (pesquisador e participante) culmina na coprodução de saberes. Pesquisar, portanto, é estranhar o que está consolidado, deixar-se afetar pela diferença incômoda e abrir canais de conversação para que outras perspectivas, muitas vezes desestabilizadoras, entrem no campo da produção de saberes. Trata-se de estar vulnerável ao diferente e acolher o “não saber o que fazer” como um aliado da produção de conhecimento e de intervenção.

Conjugar o verbo pesquisar, na complexidade da existência contemporânea que aqui estamos analisando, pressupõe seu desdobramento em outros verbos que lhe são complementares, tais como agir, intervir, resistir e transformar. Assim, quando um pesquisador imerge no campo-tema e se implica com sua análise, ele necessariamente está criando possibilidades de repensar a situação investigada a partir de outros ângulos, criando espaço para expressão das diferentes vozes e imagens (Rolnik, 2023). E essa multiplicação de olhares pode acontecer tanto na esfera multidisciplinar (na qual áreas de conhecimentos distintas são convidadas a participar da investigação) quanto na participação efetiva dos sujeitos participantes das pesquisas (que trazem seu cotidiano intensivo para debater). A cada um dos partícipes da pesquisa cabe dirigir a conversação e o olhar para aquilo que os toca, colocando em curso processos de sensibilização, problematização e compreensão do vivido: múltiplos olhares, múltiplas leituras possíveis.

No curso dessa coprodução é como se conquistássemos o que Rolnik (1995, p. 59) chama de uma “estranha amizade”, uma “aliança entre estranhos” que juntos vão construindo um novo território. A produção de conhecimento envolve, portanto, processos de criação. Estes, uma vez compartilhados, também podem ser compreendidos em sua dimensão política, uma vez que passam a produzir efeitos sobre a vida em comum. Assim, para além da produção de conhecimento, tão fundamental para o avanço da ciência Psicologia, cabe colocar os partícipes da pesquisa a falar sobre o vivido e fazer do discurso uma prática viva, que já não pode ser confundida com a mera palavra. A pesquisa torna-se intervenção a cada vez que seus participantes dizem: “nunca parei para pensar nisso”. Esse “nunca” pode desencadear um exercício que sai da mera representação e abre espaço para experimentação do vivido, acolhedor do estranho e do diferente.

O caráter indissociável da relação entre pesquisa e intervenção está no fato de que, ao analisar os conteúdos díspares emergentes no processo, os partícipes se produzem como sujeitos, uma vez que colocam o vivido e o teórico para operar em conjunto no cerne da experiência. Isso porque nem sempre é possível dizer, relatar; por vezes o encontro chega ao limite da palavra e exige tempo para que a experimentação possa ser explorada em sua dimensão não dizível, mas intensiva. Essa operação compõe algo inédito: algo que não estava nem exclusivamente na teoria nem exclusivamente nos dados da experiência, mas que é construído tendo no intervalo do encontro, sendo esta a condição de possibilidade para o exercício do pensamento.

Considerações finais

Exploramos, neste estudo, o desenvolvimento de uma perspectiva ético-política, percorrendo as perspectivas normativa, consensual, agônica, afetiva e relacional. Apesar da hegemonia da perspectiva agônico-consensual e de nossa preferência ético-política para a perspectiva relacional, cometeríamos um ato equivocado se defendêssemos que a perspectiva relacional é inerentemente melhor que as outras. Em lugar de uma lógica binária que nos situa na necessidade de uma hierarquia de territorialidades excludentes (feminino/masculino, negro/branco) entendemos que a política relacional nos constitui em espaços borrados nos quais distintas categorias coexistem em posições fronteiriças e embates políticos.

À investigação social cabe orientar-se no sentido de promover mundos habitáveis para os seres vivos em sua coexistência, bem como para vidas e posições de sujeito excluídas das atuais formas de domínio social. A investigação social pode, nesse sentido, voltar-se para difratar as formas hegemônicas de conhecimento e transformar os consensos valorativos que tendem a sustentar relações assimétricas e opressivas. Cabe, contudo, considerar a pluralidade e os enfrentamentos necessários em relação aos valores vigentes, mantendo uma abertura vital para engendrar relações transformadoras que potencializem os seres vivos com os quais coabitamos.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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  • Como citar este artigo:
    ABNT:MANSANO, Sonia Regina Vargas et al. Contemporaneidade e metodologias de ação: uma abordagem crítica em pesquisa. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e10080, 2026. https://doi.org/10.22409/e163e210 APA: Mansano, S. R. V., Lima, A. B., Pujol-Tarrés, J., & Martínez, M. M. (2026). Contemporaneidade e metodologias de ação: uma abordagem crítica em pesquisa. Fractal, Rev. Psicol., 38, e10080. https://doi.org/10.22409/e163e210
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Editado por

  • Editora responsável pelo processo de avaliação:
    Cláudia Castanheira de Figueiredo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Jul 2018
  • Revisado
    27 Ago 2025
  • Revisado
    04 Set 2025
  • Aceito
    26 Jan 2026
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