Resumo
Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado oficialmente o fim da emergência sanitária há aproximadamente dois anos, a presença da Covid-19 segue sendo uma preocupação, principalmente pelos impactos e pelas mudanças profundas provocadas na vida social. Diante disso, faz sentido sugerir que a afirmação categórica do “fim da pandemia” ou “pós-pandemia” deve ser nuançada. Com isso em vista, neste ensaio recuperamos ideias e estudos sobre: 1) os impactos desiguais da pandemia em diferentes cenários; 2) as maneiras de gerenciamento da vida “pós-pandemia”; 3) as controvérsias em torno da existência da “Covid longa”; e 4) os engajamentos de pessoas que vivem numa zona nebulosa de “pós-pandemia”, sentindo as dores e efeitos de sua continuidade no próprio corpo. Para elas, a pandemia da Covid-19 não acabou, tendo em vista que reverbera em lutos e lutas, num entrelaçamento dinâmico entre o passado, o presente e o futuro.
Palavras-chave:
Covid longa; memória; cuidado; Avico
Abstract
Even though the World Health Organization (WHO) officially declared the end of the health emergency approximately two years ago, COVID-19 remains a concern, mainly due to its impacts and profound changes in social life. Given this, it makes sense to suggest that the categorical statement of the “end of the pandemic” or “post-pandemic” should be nuanced. With this in mind, in this essay, we recover ideas and studies on (1) the unequal impacts of the pandemic in different scenarios, (2) the ways of managing “post-pandemic” life, (3) the controversies surrounding the existence of “long COVID”; and (4) the engagements of people who live in a nebulous “post-pandemic” zone, feeling the pain and effects of its continuity in their bodies. For them, the COVID-19 pandemic is not over, given that it reverberates in mourning and struggles, in a dynamic intertwining of the past, the present, and the future.
Keywords:
Long COVID; memory; care; AVICO
Em 1931, Salvador Dalí pintou uma de suas mais famosas obras: La persistència de la memòria. O quadro é marcado pela existência de relógios derretidos, o que pode indicar a fluidez e a mutabilidade da realidade temporal, bem como chamar a atenção sobre como a memória e a percepção são partes da experiência. Os relógios de Dalí não têm nada de precisos; ao estarem deslocados, deformados, derretidos, evocam a experiência subjetiva da temporalidade na relação com a persistência da memória, evidenciando a possibilidade que dimensões de nossa experiência possam problematizar marcadores lineares do tempo e do que muitas vezes chamamos de passado-presente-futuro.
A partir da inspiração de Dalí, podemos tomar o título deste número - Depois da Covid-19 - como uma abertura para interrogações sobre as experiências, práticas, categorias, formas de ativismo, de intervenção e de tratamento, associadas ao que frequentemente é chamado de “pós-pandemia”. A Covid-19 como um fenômeno da experiência excede as narrativas lineares de começo, pico e fim (Segata; Löwy, 2024). Como já escreveram Segata e Löwy (2024) baseando-se no trabalho de Charters e Heitman (2021), o fim de uma pandemia depende muito mais de uma contínua negociação política, ética e social de “níveis aceitáveis”, que permitem a “administração de uma vida social normal” do que da utopia de uma “erradicação biológica” (ver também Rosenberg, 1992). Além disso, as desigualdades associadas às infraestruturas de vida e de saúde e a diversidade dos regimes temporais subjacentes às intervenções biomédicas também problematizam a linearidade de marcadores generalistas associados à pandemia (Das, 2020a; Greco; Graber, 2022).
Soma-se a essas dimensões o próprio conhecimento vivencial dos atingidos pela Covid-19, muitos dos quais têm suas vidas transformadas e biografias reescritas em função da percepção do que tem sido chamado de Covid longa (Segata, 2024) ou mesmo aqueles que expressam uma noção mais difusa, embora cotidianamente presente, de persistência da Covid-19, expressa em relatos de dores e queixas públicas emanadas em redes sociais, elas próprias podendo ser entendidas como potentes meios de uma espécie de cuidado coletivo (Bellinaso, 2025; Schuch, 2023). Importante mencionar também as memórias de luto e as lutas por reconhecimento da doença - e de sua persistência - que o ativismo na área busca não deixar esquecer, através da explicitação de queixas e de sofrimentos, mas também por fortalecimentos e resistências (Segata et al., 2023).
Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado oficialmente o fim da emergência sanitária há aproximadamente dois anos, a presença da doença segue sendo uma preocupação planetária, principalmente pelos impactos e pelas mudanças profundas provocadas na vida social, afetando de maneira desigual as pessoas e os países, em alguns casos abismando as múltiplas violências históricas e estruturais, principalmente nos países do sul global. A afirmação categórica do fim da pandemia ou pós-pandemia deve ser nuançada, visto que os impactos e as mudanças provocadas pela pandemia também podem deixar raízes profundas cultural e socialmente. Como já afirmou Segata (2024, p. 76, tradução nossa): “A pandemia de Covid-19 não se restringe ao vírus, mas também faz parte de uma crise crônica vivida cotidianamente pelas populações marginalizadas.”
Podemos pensar, portanto, em variados efeitos da Covid-19 e em possibilidades de temporalidades abertas e múltiplas (Biehl; Locke, 2017) em relação às vivências da pandemia, coproduzidas a partir de regimes técnico-políticos heterogêneos e de infraestruturas de vida e de saúde variantes. Mais do que a estabilidade dos regimes temporais que determinam linearmente o final da pandemia, evidenciam-se histórias e(m) movimento (Segata et al., 2023), nas quais o inacabado da Covid-19 atualiza-se através de queixas e demandas por reconhecimento. Tais reivindicações da inscrição pública da dor da pandemia, do sofrimento em função de seus males e da resistência ao produzir formas possíveis de vida com a Covid-19 mostram, por outro lado, o próprio trabalho do tempo nas relações e na recriação e reabitação de vidas possíveis (Das, 2020b; Víctora; Schuch; Siqueira, 2021, 2022).
Este número temático de Horizontes Antropológicos, especialmente destinado ao tema, reúne artigos que apresentam debates teóricos e experiências etnográficas de pesquisa que intersectam com essas problemáticas das contínuas negociações políticas, éticas e sociais em torno da pandemia e da pós-pandemia; das desigualdades associadas às infraestruturas de vida e de saúde e da diversidade dos regimes temporais subjacentes às intervenções biomédicas que conformam temporalidades e práticas de gestão distintas da pandemia e da pós-pandemia; e das experiências e dos lutos e lutas daqueles que vivenciam, de uma diversidade de formas, a Covid-19 como um fenômeno da vida que ainda persiste e insiste. Nesse sentido, o anúncio do fim da situação de emergência pandêmica no dia 5 de maio de 2023, por parte da OMS, não significou a finalização das problematizações em torno do tema da pandemia, mas uma abertura para novos questionamentos e investigações sobre a diversidade de suas reverberações. A seguir, discutiremos alguns conceitos e noções que contribuem para formular perspectivas antropológicas sobre o tema e abrir novos e originais pontos de vista sobre o assunto.
A antropologia, a pandemia e a pós-pandemia: dimensões conceituais
Em contrariedade às perspectivas “vírus-centradas” que muitas vezes marcam os debates em torno da pandemia da Covid-19 - e da pós-pandemia -, e das abordagens que buscam definir, em termos universais, o que é o vírus e o que faz o vírus (Rui et al., 2021), os estudos antropológicos têm apontado para a relevância da consideração da pandemia - e da pós-pandemia, consequentemente - como um evento global, sem ser universal. Central para essa caracterização está a noção de escalas, desenvolvida por Segata (2020), o qual destaca a relevância de se considerar a pandemia - e o que também poderíamos chamar de pós-pandemia - simultaneamente em seu caráter global e nas suas dimensões situadas. Como já escreveram Segata et al. (2021, p. 8), contra a noção de universalidade ou homogeneidade de suas materialidades e efeitos, a pandemia é melhor entendida como um evento múltiplo e desigual:
Acontece que o tipo de evento crítico que temos vivido excede a celebração pública da virologia e das categorias que definem as tendências epidemiológicas. A sua escala global não significa universalidade, tampouco justifica a sua homogeneização (Segata, 2020a, 2020b). De forma direta: a pandemia é um evento múltiplo e desigual. Os surtos que a constituem têm intensidades, qualidades e formas de agravo e prevalência muito particulares. Há formas de estabelecer alguns padrões, como, por exemplo, a identificação do agente patógeno e a compreensão da infecção, mas distinções socioeconômicas, culturais, políticas, ambientais, coletivas ou mesmo individuais tensionam a homogeneidade do risco, da vulnerabilidade, da doença e do cuidado “vírus centrado”.
O empenho em privilegiar a particularidade das infraestruturas de vida e de saúde que marcam desigualmente as condições de vida de determinadas populações tem caracterizado boa parte da perspectiva antropológica, a qual enfatiza o interesse nas desigualdades que a pandemia evidencia (Mastrangelo; Segata; Rico, 2020; Matta et al., 2021; Rui et al., 2021). Tais desigualdades referem-se a fatores tais como o acesso diferenciado às políticas de prevenção e saúde, às vulnerabilidades étnico-raciais, de gênero, de classe e de nacionalidade, frente ao risco à doença, bem como aos diferentes regimes temporais subjacentes às intervenções médicas e às negociações políticas, éticas e sociais que inscrevem desigualmente a pandemia nos corpos e nas sensibilidades coletivas (ver, entre outros, Butler, 2020; Castro, 2020; Das, 2020a; Goes; Ramos; Ferreira, 2020; Medeiros; Anjos, 2020; Santos et al., 2020; Schuch et al., 2021; Schuch; Furtado; Sarmento, 2020).
Não é à toa que o conceito de “sindemia”, inicialmente descrito pelo antropólogo médico crítico Paul Singer na década de 1990 (Singer; Clair, 2003; Singer et al., 2017) para o contexto da epidemia de HIV-Aids, foi intensamente mobilizado e, em certos sentidos, atualizado para a compreensão da pandemia (Singer; Rylko-Bauer, 2021). A abordagem sindêmica chama atenção não apenas para a coexistência de determinadas condições que aumentam as chances de adoecimento, mas coloca em destaque as maneiras como certas condições históricas, políticas, sociais e ambientais adversas podem efetivamente promover o “sucesso” de outras situações adversas. Fronteira et al. (2021, p. 3, tradução nossa) argumentaram que no caso da Covid 19:
A epidemia de SARS-CoV-2 sobrepõe-se a doenças endêmicas [malária, esquistossomose, tuberculose, hepatite C, HIV, dengue e outras doenças tropicais negligenciadas] e a doenças sazonais (como a gripe e outras doenças respiratórias), a uma série de determinantes culturais e sociais (medo, estigmatização, racismo, gênero, desigualdades econômicas, desinformação, comportamentos de risco, insegurança alimentar e nutricional, ocupação, clima, exposição a diferentes tipos de poluição, oferta de cuidados de saúde e serviços de assistência social, comportamentos de procura de cuidados de saúde e violência, fornecimento de drogas e comportamentos de dependência) e ao clima e ao ambiente.
No Brasil, por exemplo, há vários trabalhos que destacam os impactos desiguais da pandemia em função do gênero, raça e classe, assim como estudos com perspectivas interseccionais, os quais mostram que a pandemia atingiu brutalmente mulheres e crianças negras e pobres, além de pessoas migrantes. Isso se deu não apenas através da infecção pelo vírus, mas também pela vulnerabilização provocada pela crise sanitária em termos de sobrecarga de trabalho em função das dinâmicas de cuidado doméstico e também da necessidade de geração de renda (Fleischer; Lima, 2020, Lacerda, 2022; Leite, 2020; Pimenta et al., 2021; Scott, 2020). Ou seja, determinantes sociais e infraestruturas de vida problematizam a homogeneidade do risco e as possibilidades de assistência e cuidado. Nesse ponto, é interessante destacar que, embora perspectivas generalistas que se movem em torno da ideia da universalização do risco sempre tenham configurado os debates sobre a pandemia como um fenômeno global (Rui et al., 2021), os estudos existentes sobre uma das reverberações da Covid-19, o que tem sido chamado de Covid longa, destacam a relevância da dimensão de gênero para compreender o fenômeno (Löwy, 2021).
Tais investigações trazem a feminização da Covid longa não apenas para o centro dos debates sobre os reflexos da pandemia na configuração de uma nova entidade nosológica, mas sobretudo para a problematização de suas formas e possibilidades de reconhecimento. Segundo Löwy (2021), a feminização da Covid longa é problemática, na medida em que pode seguir a tendência histórica de desconsiderar as narrativas feitas por mulheres, especialmente aquelas queixas nas quais não se encontram causas definidas, absorvendo-as apenas a partir da classificação de “psicossomáticas”, tal como pode ser traçado na definição original de histeria (Löwy, 2021). Para Löwy (2021), essa tendência de não reconhecimento efetivo de sintomas e perturbações trazidas por mulheres pode ser bem exemplificada quando tomamos o caso da negligência em relação à endometriose. Tais dimensões evidenciam a importância dos condicionantes socioculturais - de gênero, de classe, raciais e étnicos - bem como sua articulação com as próprias “biologias locais” (Lock, 2001) para o reconhecimento e definição das condições patológicas, como a Covid longa.
Ainda nesse interesse de privilegiar a análise das desigualdades e seu impacto nas políticas de saúde, cabe destacar também o emprego, no estudo sobre as experiências da pandemia, da relevante noção de evento crônico agudizado, desenvolvida por Paul Farmer (2012) no cenário da emergência climática do terremoto no Haiti, em 2010. Tal noção foi apropriada na literatura antropológica sobre a pandemia para destacar o papel que as violências estruturais têm na agudização das catástrofes de todo o tipo (Biehl, 2021; Joseph; Neiburg, 2020; Schuch et al., 2021; Schuch; Furtado; Sarmento, 2020). Como já destacou Biehl (2021), a vulnerabilidade estrutural é uma lente crítica que oferece compreensão à propagação desigual de um vírus respiratório que atinge mais gravemente grupos sub-representados. Entretanto, pode também ser eficiente para analisar as dinâmicas pós-pandemia e as negociações ético-políticas e sociais para o reconhecimento de efeitos variáveis não apenas da pandemia, mas também nas formas de vida de determinadas populações vulnerabilizadas depois da Covid-19.
Adiciona-se às desigualdades referentes aos marcadores sociais da diferença aquelas ensejadas e produzidas pelas próprias políticas governamentais de gestão da pandemia e da pós-pandemia. Nessa direção, há uma ênfase significativa de estudos antropológicos nessa área que têm usado os conceitos de biopolitica, de Foucault (2002) e necropolítica, de Mbembe (2006) para caracterizar o engendramento de políticas de vida e morte para determinadas populações, principalmente aquelas mais vulnerabilizadas e submetidas as relações de poder e de dominação. Especialmente significativo tem sido o emprego da noção de necropolítica, que, segundo Mbembe (2006), dirige-se a populações consideradas descartáveis e que abarcam não apenas ações de extermínio direto, mas também negligências estatais, submissões e subjugações de corpos a explorações diversas e a condições de vida precarizadas.
O uso do conceito tem sido realizado na leitura crítica da gestão governamental de dispositivos de saúde e assistência para populações vulnerabilizadas (ver, entre outros, Fernandes, 2020; Schuch et al., 2021; Schuch; Furtado; Sarmento, 2020), mas, sobretudo, para analisar o impacto das respostas governamentais relacionadas com questões ideológicas pautadas por uma necropolítica (Ferreira, 2021; Ortega; Orsini, 2020), bem como para a gestão científica e tecnológica dos experimentos vacinais em nível global, a qual envolveu parcerias entre órgãos públicos e privados, farmacêuticas multinacionais e consórcios multilaterais mediados por organismos internacionais (Castro, 2020, 2021).
No Brasil, a literatura sobre o tema da gestão governamental da pandemia mostra que houve uma expressiva política negacionista que ensejou não apenas uma reatividade frente às políticas de isolamento social, mas também um atraso em relação à política de vacinação, havendo a desmobilização de medidas sanitárias, disseminação de notícias e soluções falsas, como o “kit Covid”, com o incentivo ao uso de medicamentos nada eficazes como cloroquina e ivermectina (Castro, 2020; Ortega; Orsini, 2020; Segata; Segata, 2024). Sem investir na testagem e na vacinação e contrapondo-se tanto aos lockdowns regionalizados quanto aos mais totalizantes, o governo federal brasileiro incentivou a propagação do vírus, numa tentativa de promover a imunidade coletiva e diminuir os impactos à economia do país (Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário; Conectas Direitos Humanos, 2021). Como também escreveram Segata e Segata (2024, p. 55, tradução nossa): “A redução da pandemia a uma guerra tecnocrática entre vírus e mercado - ou a redução ao dilema ‘vida ou economia’ - também foi uma forma de negacionismo e evidenciou o ataque sem precedentes aos direitos humanos no Brasil, promovido pelo governo federal.”
Já no que se refere às análises sobre os experimentos científicos e tecnológicos vacinais, eles possibilitam compreender a existência de uma espécie de divisão entre os países do sul global e os países ricos, que envolve uma distinção entre produção de pesquisas clínicas e o acesso vacinal, já presente em análises de outros contextos sobre experimentações científicas médicas (Petryna, 2009). No caso da pandemia da Covid-19, tal diferenciação tem reflexos importante nas políticas de vida e morte de determinadas populações, especialmente naquelas localizadas entre os países do norte e do sul global e entre os brancos e os negros no Brasil (Castro, 2020, 2021). Como destaca Castro (2021), os modos de produção, experimentação e distribuição de tecnologias médicas configuram diferentes temporalidades e intensidades da pandemia e são elementos centrais do desenvolvimento e do acesso às vacinas. Para a autora, se as desigualdades não forem efetivamente combatidas, os males da pandemia não serão encerrados para todos, com a mesma rapidez e efetividade:
A experimentação de vacinas no Brasil denota como os mecanismos de exploração de grupos populacionais vulnerabilizados em pesquisas médicas sucedem mediante a captura dos processos de experimentação pela lógica do capital (Sunder Rajan, 2007), nos quais desumanizações e mortes vetorizadas pelo racismo tornam-se ativos necroeconômicos do mercado biotecnológico, e os produtos desses dispositivos tendem a ser menos acessíveis àqueles que, de modo mais substancial, vivenciam os riscos envolvidos no seu desenvolvimento (Castro, 2021, p. 85-86).
Acrescente-se o fato de que os efeitos da desacreditação da ciência durante a pandemia não cessaram com a decretação do seu fim pela OMS. Como mostram Falcão et al. (2024), ocorreu uma proliferação acentuada de narrativas antivacinação durante a pandemia. Ainda que essas narrativas não sejam novidade, sobretudo em países europeus e nos Estados Unidos, o fato de elas terem sido propagadas por agentes públicos e profissionais da área médica contribuiu, sobremaneira, para o aumento da hesitação vacinal. No caso do Brasil, os índices exitosos de vacinação alcançados ao longo de décadas de campanhas públicas sofreram um impacto notável depois da pandemia e para além dela, comprometendo a erradicação de algumas epidemias que estavam em vias de extinção e comprometendo os cronogramas de vacinação infantil, cujos efeitos deletérios são por ora imensuráveis.
Essa relação entre as infraestruturas de vida e saúde, acesso às tecnologias médicas e modos de gestão governamental e as temporalidades e intensidades da pandemia é fundamental na análise das experiências, práticas e modos de vida na pós-pandemia. Em acordo com isso, Franch, Carneiro e Maluf (2024) percebem que o anúncio do fim da situação de emergência pandêmica no dia 5 de maio de 2023, por parte da OMS, não significou a finalização das problematizações em torno do tema, mas uma abertura para investigação das diferentes experiências de tempo e de espaço que foram vividas durante a pandemia e também da diversidade de suas reverberações. Dizem as autoras que o próprio tempo sofreu compressões e alongamentos, fundamentalmente por conta do alongamento da experiência da pandemia no Brasil devido à ausência de políticas efetivas de enfrentamento a ela. Essa argumentação está em sintonia com as perspectivas de Greco e Graber (2022), que se referem à própria temporalidade da pandemia como suscetível a variações, levando-se em conta os tipos de cuidado prestado, a materialidade das tecnologias de controle e formas de conhecimento e pelos regimes temporais subjacentes às intervenções médicas. A vivência do tempo está, portanto, profundamente imbricada nos contextos sociais em que se vivenciou a pandemia e se experiencia a pós-pandemia, refletindo desigualdades e sendo estreitamente ligada a marcadores sociais (Franch; Carneiro; Maluf, 2024).
Lutos, lutas e a descida ao ordinário
Outra contribuição fundamental da pesquisa antropológica nesse campo de investigação tem sido, exatamente, o foco nas perspectivas vivenciais, que priorizam a análise das experiências e práticas miúdas e cotidianas, bem como das narrativas e formas de ativismo e mobilização de coletivos (Das, 2020b; Fleischer; Lima, 2020; Schuch; Víctora; Siqueira, 2021; Segata et al., 2023; Segata; Segata, 2024; Víctora; Schuch; Siqueira, 2022). Pode-se dizer que esse foco está em acordo com a proposta de “descolonizar a pandemia” (Biehl, 2021; Segata et al., 2021), o que fundamentalmente implica: de um lado, ir além das perspectivas “vírus-centradas” e dos modelos globais que privilegiam soluções uniformes, com poucas relações com a variedade das realidades locais (Segata et al., 2021). De outro lado, engajar-se criticamente sobre formas de conhecimento e intervenção que reproduzem e invisibilizam mecanismos de exclusão, bem como colocar em evidência formas emergentes de política, de cuidado e de resistência que podem ser mecanismos eficazes de enfrentamento à pandemia (Biehl, 2021) e também na pós-pandemia, na análise de seus efeitos, insistência e persistência.
Contrariamente à narrativa das “grandes escalas” que universalizam o risco (Biehl, 2021), importa aqui realizar um esforço analítico de “descida ao ordinário”, nos termos de Das (1995). Como Víctora, Schuch e Siqueira (2022) colocaram em artigo sobre o tema, o privilégio do cotidiano permite compreender tanto os esforços rotineiros, mas muitas vezes invisíveis e invisibilizados, de manutenção da vida ordinária em face de um evento extraordinário, quanto o funcionamento das infraestruturas cotidianas de cuidado e as maneiras peculiares de imaginar uma vida vivível (Víctora; Schuch; Siqueira, 2022). Estudos sobre a casa como espaço relacional e sua relevância para a saúde pública também se evidenciaram nas análises sobre a pandemia (Biehl; Neiburg, 2021; Joseph; Neiburg, 2020; Neiburg; Joseph, 2021). No Haiti, por exemplo, contrariando expectativas de alto número de infectados, Joseph e Neiburg (2020) destacaram a importância do que foi chamado de “gestão domiciliar” da pandemia e de fatores como o isolamento social, o uso de máscaras e a idade média da população que, em conjunto com a opção mais frequente dos infectados de permanecer em casa ou se tratar através da medicina tradicional, garantiram níveis baixos de incidência da doença.
A casa pode ser vista como um objeto de governabilidade e como um ambiente espacial e moral no qual se constroem aproximações e distanciamentos, relações de familiaridade e de vizinhança. No contexto haitiano, ao contrário de isoladas, as casas estavam sempre em relação, formando configurações de interdependência mútua (Joseph, 2020; Marcelin, 1999). Por outro lado, as atitudes das pessoas haitianas investigadas em seus lares e as práticas cotidianas nesse espaço mostram a importância de serem compreendidas no contexto de redes transnacionais e diásporas. A abordagem etnográfica mostrou a relação entre as pessoas que partiam e as que ficavam, com suas casas, as redes de relações familiares, os laços afetivos, a “casa” e as “configurações de casas” habitadas no contexto das redes dentro das quais elas interagiam. Marcelin (1996, p. 98) define as “configurações de casas” como “redes domésticas construídas na dinâmica da casa e ao redor dela, [que] inserem-se numa dinâmica de redes de casas interligadas umas às outras”.
Ao tomar como foco as casas para analisar a gestão domiciliar da pandemia, as pesquisas não se restringem às estruturas físicas, à arquitetura, à economia doméstica, mas colocam no centro da análise, em diferentes escalas, as relações entre os sujeitos que participam das/nas casas. Isso se faz através da atenção às trajetórias das pessoas que vivem nas casas ou as frequentam, bem como à cultura material dos objetos e às práticas de medicinas tradicionais que circulam entre as casas que fazem parte de uma mesma configuração de casas. A casa, então, pode ser vista “como um processo e não apenas um lugar” (Miller, 2001, p. 9); permite ler e analisar com profundidade as diferentes experiências vividas na pandemia - e, quiçá, contribuir também nas análises da pós-pandemia -, revelando as múltiplas desigualdades e violências. Nas casas as pessoas se cuidam e se autocuidam, revelando, nesse caso, a intrínseca relação entre a casa como objeto de governamentalidade e como espaço de constituição de relações e a problemática do cuidado.
O tema do cuidado e a profusão de literatura antropológica sobre o assunto a partir da emergência da pandemia vem mostrando as complexas negociações relacionais e políticas que envolvem as atividades de manutenção, continuação e reparação do mundo de forma em que se possa viver nele (Fisher; Tronto, 1990; Pimenta, 2024; Reis; Franch, 2022; Schuch; Víctora; Siqueira, 2021). Cabe menção ao emprego do conceito de evento crítico, proposto por Das (1995) na leitura das transformações associadas à pandemia, e a vivência destas no que poderia ser chamado de contexto pós-pandêmico. O conceito de evento crítico visa problematizar a ruptura provocada pelas situações traumáticas e contribuir no estudo de sua assimilação ao cotidiano das pessoas que as vivenciaram. Para a autora, que critica o modelo do trauma para explicar acontecimentos extraordinários marcados pela dor e pelo sofrimento, a maior contribuição da antropologia estaria em reconhecer como a dor é tecida nas teias da vida ordinária através de gestos muitas vezes singelos e sutis, os quais permitem reabitar um outro cotidiano, simultaneamente inscrevendo dores e afirmando novas possibilidades de vida (Das, 1995, 2010, 2020b).
Afirmar possibilidades de vida e de luta em meio aos lutos da pandemia tem sido tarefa do ativismo da área e de indivíduos e grupos que buscam inscrever pública e politicamente a memória de suas dores e experiências com a pandemia, de forma a mantê-la viva como algo inacabado. Análises e engajamentos antropológicos com a Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), no Brasil, feitas por Segata e Segata (2024), bem como projetos de inscrição pública da dor e da luta, como a publicação Histórias e(m) movimento (Segata et al., 2023), têm salientado a importância de dar um “rosto” e uma história para os mortos da Covid-19, de forma a serem mais do que números e continuarem agindo na inscrição pública da Covid-19, de seus efeitos e também de suas continuidades, por exemplo através da noção de “sintomas persistentes” ou mesmo de “Covid longa”. Assim como em outros cenários de ativismo em que os mortos agem e nunca podem ser completamente sepultados (Vianna, 2018), são as histórias encarnadas e dramatizadas por cada pessoa que se descreve como vítima ou familiar de vítima que fortalecem politicamente a Avico (Segata; Segata, 2024). Segundo Segata e Segata (2024), p. 57:
Las narrativas de los asociados se basan en un sentimiento experimentado y compartido colectivamente, como el duelo y los sentimientos que lo envuelven, y que se dirige hacia una acción política solidaria conjunta, como se puede observar desde su logotipo […] que hace referencia a personas de diversos colores y de manos unidas en señal de colectividad, diversidad y tolerancia.
A Avico, no Brasil, não tem apenas trabalhado para produzir uma memória da pandemia, mas também, assim como outros coletivos de ativistas na área ao redor do mundo, para o reconhecimento da Covid longa, uma entidade nosológica emergente pós-Covid-19, com contornos imprecisos e caracterizada por sintomas imprevisíveis e persistentes (Löwy, 2021; Segata; Löwy, 2024). A própria forma de emergência da Covid longa é um indicador da relevância do ativismo dos pacientes, uma vez que a experiência destes desafiava temporalidades e categorias médicas descritivas. As publicações de narrativas de pacientes em redes sociais, como o Facebook, revelam sintomas persistentes, e o que iria ser denominado de Covid longa, desde o primeiro ano da pandemia (Callard; Prego, 2021; Segata; Löwy, 2024). Conforme expõem Segata e Löwy (2024, p. 8):
Na primavera e no verão europeu de 2020, grupos altamente eficientes de ativistas - muitos liderados por acadêmicos ou profissionais de saúde - conseguiram transmitir suas visões sobre os sintomas persistentes e mutantes da covid-19 para os especialistas. No outono de 2021, os ativistas já afirmavam com orgulho que a covid longa, o termo que eles cunharam, provavelmente foi o primeiro transtorno inicialmente definido pelas pessoas que o vivem como condição (Callard; Prego, 2021).
A Covid longa pode ser a primeira entidade nosológica, portanto, emergente a partir do ativismo dos pacientes em redes sociais, elas próprias podendo ser entendidas, nesse caso, como potentes formas de cuidado coletivo, as quais chamam atenção para a importante relação entre dinâmicas de cuidado e políticas de reconhecimento (Schuch, 2023). Entretanto, se a noção de Covid longa e termos associados não são mais novidades, há pouco progresso no entendimento de suas causas, prevenção e tratamento. Além disso, há muito estigma e sentimento de impotência dos pacientes, que navegam em um sistema de saúde fragmentado e não organizado para prestar cuidados centrados no paciente (Phillips; Williams, 2023). Para Löwy (2021), o principal obstáculo para uma definição precisa de Covid longa é a ausência de um diagnóstico de doença, em acordo com a formulação da medicina moderna, que é baseada no conceito de “doenças específicas”. De forma original, os grupos de pacientes estão forçando a existência de “condições baseadas em sintomas” (Löwy, 2021), problematizando aquilo que tem sido descrito como uma injustiça epistêmica, na qual a credibilidade dos pacientes é frequentemente questionada (Segata; Löwy, 2024).
Como é possível verificar, as lutas continuam e mantêm a história da pandemia da Covid-19 aberta. A partir dessa abertura é possível destacar ricos campos de pesquisa antropológica, alguns dos quais foram mencionados neste ensaio: investigações sobre os impactos desiguais da pandemia da Covid-19 em diferentes populações e numa variedade de cenários de vida, estudos sobre as maneiras de gerenciamento do que muitas vezes é chamado de “pós-pandemia”, análises sobre as controvérsias em torno da existência de novas entidades nosológicas, como a chamada “Covid longa”, bem como engajamentos em torno do que acontece com aqueles afetados pela Covid-19 e que vivem numa zona nebulosa de “pós-pandemia”, sentindo as dores e efeitos de sua continuidade no próprio corpo ou no luto pelas vítimas da Covid-19. Para estes, a pandemia da Covid-19 não acabou; ela reverbera em lutos e lutas, num entrelaçamento dinâmico entre o passado, o presente e o futuro. A aposta deste número temático é de que a atenção às dores, memórias, controvérsias e negociações, lutos e lutas, abram espaço para formas analíticas menos homogêneas e totalizantes sobre a pandemia, para suas temporalidades múltiplas e para seus efeitos diversos.
Referências
- BELLINASO, S. Corpo, tempo e diagnóstico: as vivências da Covid-Longa [Capítulo 2 da dissertação de mestrado em Antropologia Social (em andamento)]. Porto Alegre: PPGAS/UFRGS, 2025. Mimeografado.
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