Open-access RIVIÈRE, Claude. Les rites profanes. Paris: Presses Universitaires de France, 1995. 261 p.

RIVIÈRE, Claude. Les rites profanes. Paris: Presses Universitaires de France, 1995. 261

Menos pelo fato de Rivière voltar novamente suas atenções para os rituais seculares mas, sobretudo, pela erudição abrangente, pela multiplicidade das manifestações rituais trazidas à cena e profundidade com que são consideradas, sem prejuízo da competência didática, este livro reforça a propriedade da associação do autor com “toda ritologia futura”, feita por Roberto Da Matta, na apresentação da edição brasileira de seu primeiro livro dedicado ao assunto, As liturgias políticas (Rio, Imago, 1989).

A competência didática é dada pela clareza e coerência na exposição de fatos e idéias, juntamente com o plano geral do trabalho.

O trabalho, esquematicamente, compõe-se de três partes: introdução, dez capítulos e conclusões. Consideradas internamente, vê-se que a introdução e cada um dos capítulos são subdivididos de modo pertinente, com os últimos apresentando uma subdivisão para conclusões. Como tudo é tratado de maneira conseqüente e, em muitas oportunidades, em linguagem quase literária, sua leitura é a um só tempo ilustrativa e agradável.

Também é importante registrar que sendo os dois primeiros capítulos teóricos e os oito restantes independentes entre si, realizada a leitura daqueles é possível a leitura isolada e inteligível de cada um destes.

Concluindo a apresentação dos aspectos mais formais do trabalho cabe mostrar os temas de cada capítulo.

O primeiro capítulo apresenta uma abrangente análise crítica das literaturas sociológica e antropológica sobre os rituais profanos e o segundo as concepções do autor sobre estrutura, função e dinâmica dos mesmos.

Os capítulos 3, 4 e 5 consideram o papel dos ritos na formação dos jovens (iniciações, apresentações musicais, vestuário, gestualidade, acrobacias). Os capítulos 6, 7 e 8 enfocam o corpo como suporte e o objeto de ritos em sua apresentação regrada (saudações, boas maneiras, danças, esportes, cerimonial na alimentação). Os capítulos 9 e 10 tratam, respectivamente, de rituais associados aos universos do trabalho (aprendizagem, cultura empresarial) e do lazer (loterias, viagens, teatro). Ocupando-se com tais temas Les rites profanes também da valiosíssima contribuição para a antropologia do cotidiano.

A abordagem em cada capítulo de uma multiplicidade de eventos rituais que por si só atenderia a um dos mais fundamentais princípios da antropologia, qual seja o da comparação, como condição básica para não se cometer o erro de generalizar o particular ou de particularizar o geral, em Les rites profanes a comparação se dá duplamente. Nele considera-se não só eventos rituais distintos como suas manifestações em contextos sócios-culturais igualmente diversificados. Dentre muitos outros, dados do Brasil, dos Estados Unidos, da França, do Tchad, do Togo, muitos levantados diretamente por Rivière, em especial na África, são objetos de arguta análise que inspiram suas teorizações, presente em todo o livro. Inclusive na introdução, onde, mais do que tratar de questões formais, como é prática comum, ele apresenta considerações teóricas sobre questões relevantes como sagrado/profano, ritualização/desritualização e sagrado/modernidade.

Encerrando, julgo da maior conveniência, para melhor situar o leitor quanto às concepções básicas de Rivière sobre a estrutura, função e dinâmica dos ritos profanos, transcrever todas suas conclusões a respeito, com as quais encerra o capítulo 2.

A propósito do rito, acreditar em quê? Suponhamos que o pequeno catecismo que se segue ajude a responder.

1. Metodologicamente, todo o rito, seja profano, seja religioso, pode ser percebido como estrutura de ações seqüenciais, de papéis teatralizados, de valores e finalidades, de meios reais e simbólicos, de comunicações por sistema codificado.

2. Se ele torna visível uma certa ordem e relações sociais, o rito favorece sua renovação tanto quanto sua manutenção, por ser fator de integração identitária, ao mesmo tempo que sublimação de pulsões e ato de instauração de novos laços sociais.

3. Centrado num presente a ser vivido agradavelmente senão intensamente, o rito profano só capta o passado como tradição respeitável e não como arquétipo do futuro. Recorrente, logo legitimador de um passado cultural e pontuação do presente, ele traz também um projeto de dinamização pessoal e social.

4. Não há rito sem negociação com algum Outro, seja presente, seja imaginado, do qual o sujeito parece interdependente em uma situação de controle (relativo) pelos parceiros dos mesmos códigos conhecidos e aceitos para regulamentar o contato. O rito enuncia a ordem da cultura estruturando a experiência individual mesmo no caso de aparente subversão.

5. Exercício de comunicação segundo uma retórica definida, o rito, enquanto linguagem, tem funções denotativa, expressiva, conotativa, fática, estética, metalinguística e posicional.

6. À falta de ser em todos os casos uma liturgia de “seguro compreensivo”, o rito profano, em uma situação de conflito, tende a dar segurança aos participantes na medida em que as eventuais hostilidades são afastadas por um acordo tácito quanto às regras de confrontação a serem respeitadas.

7. Ele traz em si uma energética: aquela da realização de seus fins, tanto quanto a da satisfação de desejos inconscientes, mas sua dinâmica se exprime sobretudo na catalisação das energias individuais em proveito da comunidade mais ou menos restrita na qual ele se exprime. Nisto ele é inegrador.

8. Não obstante, contra-estruturas e contra-poderes o ameaçam de desregulação, de derrapagem, de improvisações às vezes incontroláveis a tal ponto que a perturbação e os transbordamentos repercutem quanto aos efeitos esperados.

9. Todo fenômeno ritual é vivificado por uma carga tripla: a carga cognitiva de recepção de mensagens através de significantes remetidos a significados, a carga afetiva ligada à implicação emocional na participação, a carga conotativa de orientação da ação por manipulação psicológica, adesão revigorada, evolução do processo de negociação, etc.

10. É possível depreender uma lógica do rito? Tudo depende dos critérios utilizados. Existe sobretudo sob o ângulo social uma tipologia de situações; sob o ângulo formal, graus de tensão entre limites e plasticidade, entre realidade e ficção; sob o ângulo da coerência, contradições, ambivalências, intervalos e paradoxos; sob o ângulo lúdico, jogos regulados, jogo de representações e incerteza, às vezes no decorrer do rito, às vezes nos seus resultados.

11. Os gregos acreditavam em seus mitos (religiosos)? Os europeus acreditam nos seus ritos (profanos)? Mais ou menos. Certamente a gente se envolve. Verdadeiramente, a gente se engaja? Uma grande lição da modernidade é a da distância crítica. Eu brinco de crer que você me acredita praticando meu rito de escritura. E se você está neste fim de capítulo, sem dúvida você acredita um pouco no que eu digo, praticando seu rito de leitura incluído nos ritos de lazer. Modo de se confortar mutuamente dando-se a impressão de uma ação não totalmente inútil!

Complementando, saúdo e divulgo com satisfação a edição brasileira deste livro, sob o título de Os ritos profanos, pela Editora Vozes, prevista para outubro de 1996.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996
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