Open-access FERRETTI, Mundicarmo. Terra de caboclo. São Luís: SECMA, 1994. 148 p.

FERRETTI, Mundicarmo. Terra de caboclo. São Luís: SECMA, 1994. 148

A antropóloga Mundicarmo Ferretti no livro Terra de caboclo traz a público fatos de grande interesse para os pesquisadores das religiões afro-brasileiras. Consegue esta autora nos mostrar um quadro bem amplo e complexo das particularidades, das transformações e dos dilemas por que passam as casas de religião afro-brasileiras do Maranhão, particularmente as que são genericamente conhecidas como pertencentes à linha “Tambor de Mina”. Nesta tarefa, Ferretti dedica uma especial atenção ao “caboclo”, um tipo de entidade espiritual ainda pouco conhecida pelos pesquisadores, e que, de certa forma, ocupa em alguns momentos a centralidade das questões referentes às particularidades da religião afro-brasileira no Maranhão.

O livro é, na verdade, uma compilação de textos produzidos pela autora entre 1986 e 1994 e apresentados em vários simpósios e congressos científicos. Neles se destacam, além dos resultados propriamente ditos das pesquisas de Ferretti, algumas reflexões mais gerais relacionadas às teorias da cultura e que dão o tom dos posicionamentos, em alguns casos assumidamente políticos, da autora.

É fazendo estes tipos de reflexões que Ferretti, no primeiro capítulo, faz um levantamento das diversas formas como a cultura dominante, mesmo demonstrando preconceitos contra a cultura popular, interfere interesseiramente na produção, na manutenção e na manifestação das tradições culturais do povo. A autora denuncia, entre outras coisas, o pouco cuidado que os órgãos governamentais costumam ter lidando com a cultura popular ao arbitrarem quais tradições merecem - sempre em prejuízo de outras - ser incentivadas para representar culturalmente uma determinada região. Da mesma forma, Ferretti denuncia os danos causados por muitos pesquisadores, que, como no caso exemplar das religiões afro-brasileiras, arbitram a maior pureza de tradição de uma determinada modalidade religiosa em detrimento de outras, contribuindo, desta forma, para o enfraquecimento, ou até o desaparecimento, de práticas religiosas populares, já que seus praticantes costumam ser influenciados pelo arbítrio dos pesquisadores letrados. Mas Ferretti, com isso, não está fazendo o discurso do preservacionismo radical e ingênuo, que vê com maus olhos qualquer mudança que ocorra no interior das tradições populares, está, sim, é questionando os danos causados por ingerências externas, que muitas vezes condenam ao desaparecimento de práticas centenárias. Ferretti faz, sim, a defesa da dinâmica própria das classes populares para se ajustarem às mudanças sociais, escolhendo, segundo seus próprios critérios, o que deve ou não modificar, o que deve ou não ser abandonado.

Após considerações desta ordem é que Ferretti passa, então, a se debruçar sobre o objeto privilegiado de seu livro: os caboclos. Utilizando-se de recursos, tais como, revisão bibliográfica, descrições etnográficas, análise de discurso, etc., a autora dedica quatro capítulos à tarefa de tentar desvendar as características do caboclo, suas funções, seus atributos, suas variações dentro das diversas modalidades e terreiros afro-brasileiros. O que resulta desta tarefa é um quadro bastante complexo de referências ao caboclo, que, isoladamente, pouco dizem, mas que, relacionadas entre si, produzem sentidos e imagens.

O que, deste quadro, mais impressiona é o fato do caboclo, apesar de ser um prestativo trabalhador para diversas demandas, possui, desenvolvido sobre si, um conhecimento pouco sistematizado, diferentemente dos vuduns e orixás do Tambor de Mina, e isso tanto dentro dos terreiros como entre os pesquisadores. Não bastasse isso, Ferretti depara-se com o processo de reafricanização, que também atinge os terreiros do Maranhão. Neste processo, que ali parece ser mais o de “nagoização” via influência baiana, o caboclo é muitas vezes escondido do pesquisador, pois representa um sincretismo com a cultura ameríndia cada vez menos desejado. Segundo a autora, a reafricanização em alguns terreiros de São Luís não pode ser feita sem que se abale o prestígio do caboclo e se minimize sua influência.

Apesar disso, o caboclo se mostra vigoroso, no livro de Ferretti, em toda a sua ambigüidade. Ali desfilam caboclos de pena (indígenas), caboclos de pés no chão (de origem popular), caboclos fidalgos (de origem nobre), caboclos estrangeiros (turcos, europeus, paraguaios), etc. Estes, mesmo que incultos, podem ser nobres; mesmo que brincalhões e farristas, exigem respeito à sua autoridade. Imortais e corajosos, eles não incorporam no médium para serem homenageados, mas sim para trabalhar. Ferretti, enfim, com sua descrição bastante detalhada e algo apaixonada dos caboclos do Tambor de Mina maranhense parece estar nos falando sobre a perda para a diversidade cultural afro-brasileira que ocorreria se o caboclo fosse expurgado daqueles terreiros em nome de uma suposta retomada da pureza religiosa.

O questionamento das bases deste processo de reafricanização é, por sinal, tematizado no sexto capítulo. Ali, a autora nos apresenta todo um quadro das diferentes estratégias que têm sido adotadas em diversas áreas da religião afro-brasileira para se buscar uma maior purificação dos sistemas religiosos em questão e as várias transformações que estes processos têm ali desencadeado.

Já no oitavo capítulo, Ferretti nos oferece um panorama atualizado e mais amplo (saindo de São Luís) da situação das religiões afro-brasileiras no Maranhão. Questionando as noções de terreiros de tradição “nagô derivado” e “nagô degenerado”, atribuídos àqueles que se distanciam de algumas tradicionais casas de São Luís, a autora levanta a hipótese de que haveria, naquele estado, múltiplos modelos de terreiro com tradição desvinculada do modelo supostamente original.

Por fim, no último capítulo, Ferretti nos conta um pouco dos dilemas de um pesquisador de religiões afro-brasileiras. Fala-nos, entre outras coisas, sobre como o pesquisador pode se desviar de suas tarefas quando tenta participar mais efetivamente do cotidiano dos terreiros. Também alerta-nos para as conseqüências que a inserção do pesquisador no interior dos terreiros pode desencadear nos sistemas de valores e nas formas de interpretação da realidade ali existentes, pois, muitas vezes, deixa-se para trás uma paisagem modificada pela pesquisa. A tematização desta questão, no final do livro, sintetiza uma obstinação de Ferretti que permeia todo o texto: o profundo respeito da autora pela autonomia da cultura popular.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996
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