Open-access MONTE-MÓR, Patrícia; PARENTE, José. Cinema e antropologia: horizontes e caminhos da antropologia visual. Rio de Janeiro: Interior Produções, 1994. 112 p.

MONTE-MÓR, Patrícia; PARENTE, José. Cinema e antropologia. : horizontes e caminhos da antropologia visual. Rio de Janeiro: Interior Produções, 1994. 112

Durante a I Mostra de Filmes Etnográficos, em 1993, no Rio de Janeiro, realizaram-se quatro seminários: “Filme Etnográfico e Documentário”, “Cinema e Povos Indígenas”, “Antropologia e Cinema: Questões de Linguagem” e “Mercado Audiovisual e Ciências Sociais”. Da transcrição e publicação desses seminários resultou o livro Cinema e antropologia.

Essas quatro conversas formam, de fato, uma boa visão do estado da discussão sobre a chamada antropologia visual no Brasil. Os participantes tinham experiências muito distintas: antropólogos “clássicos”, antropólogos com experiência de assessoria a filmes, antropólogos-cineastas, cineastas, museólogos. A transcrição, literal, tem a lógica de uma conversa, onde um assunto puxa outro, aproxima e afasta-se do tema da mesa em andamento, retoma-se o tema da mesa anterior, generaliza-se, propõem-se programas, oferecem-se depoimentos pessoais, enfim, conversa-se sobre filmes, digamos, “com cara de” etnográficos.

Melhor do que tentar resumir cada discussão, talvez seja apontar algumas das polêmicas mais fortes, citando os polemistas e seus exemplos. Não é um modo muito sistemático de apresentar o livro, mas é fiel a ele.

O que é um filme etnográfico? Para Clarice Peixoto, antropóloga com doutorado em Antropologia Visual e realizadora de filmes, é um resultado a posteriori da pesquisa de campo, na qual a câmera participa com direitos iguais aos do bloco de notas ou do gravador, não só submetida aos famosos imponderáveis, mas tendo a obrigação de registrá-los. Os recursos audiovisuais são uma arma a mais de uma antropologia que se entende como constituída pelo trabalho de campo e faz questão de expor as cicatrizes desse trabalho. Filme etnográfico é aquele que é montado a partir de imagens tomadas pela câmera participante do aqui e agora do campo.

Já José Inácio Parente, cineasta que trabalha em colaboração com antropólogos, acha que essa posição é um purismo ou “inibição” que impede os antropólogos de narrar o que realmente importa, o espírito da coisa. Ele dá como exemplo um ritual que filmou, onde, entre outros atos, matava-se um carneiro. Não foi possível fazer a tomada da morte do animal. O que deveriam fazer? Ele acha (e foi essa a solução encontrada) que a montagem da morte de um outro carneiro qualquer em nada desmerecia o realismo da narração do ritual. Para Parente pouco importa se a caçada à foca do Nanook é feita de imagens “reais” ou não. O que importa é a fidelidade ao modo que os esquimós caçam a foca. Mas Clarice Peixoto diz sentir-se “traída” por esses expedientes de montagem. Aliás, para ela, Jean Rouch não é um antropólogo, mas alguém que realiza ótimos “filmes-espetáculos” (orientados por uma concepção narrativa, e não pelos imponderáveis do campo).

Outro tema polêmico foi o da linguagem, o modo de narração. André Parente, psicanalistas e realizador de filmes, citando Deleuze e argumentos psicanalíticos, defendeu a idéia da narração fílmica como “um ato de fabulação, capaz de exprimir o devir dos personagens […] uma afirmação do real como novo”. Isso se daria graças ao “documentário ser a arte do encontro [“que transforma profundamente autor e expectadores”, diz ele noutra parte], sob a condição desse encontro ser a revelação de algo que está por vir”. O seu exemplo é o filme Moi, un noir, de Jean Rouch (ele diz pouco se importar se Rouch é ou não antropólogo), onde um ator-narrador-personagem narra na terceira pessoa, a posteriori, suas próprias ações, inventando na hora o que diz, contradizendo o que é mostrado, abalando as identidades estabelecidas. Bela Feldman, citando Thompson e Raymond Williams, respondeu dizendo que no seu filme Saudade, sobre uma comunidade de imigrantes, tentou outro caminho: “para além de um encontro de subjetividades ou da dissolução da objetividade e da subjetividade, julgo que temos que dar um passo adiante e tentar entender as representações simbólicas e as práticas culturais no contexto da economia política”. Assim, teoricamente orientada, organizou a narração de seu filme opondo as práticas culturais domésticas constitutivas das noções de espaço e de tempo (cultivo de hortas, fabricação de vinho) às vividas na disciplina do trabalho industrial.

Ambos pretendem que seu trabalho tenha relevância política. Parente aposta no poder desconstrutivo do seu filme. Feldman pretende ser uma “tradutora de códigos culturais”, e que seu filme seja um instrumento de educação comunitária.

Quanto a “Cinema e Povos Indígenas”, Eduardo Viveiros de Castro oferece um retrato da discussão da mesa quando diz:

me pergunto se existe alguma coisa em comum quando se fala de cinema e povos indígenas […] entre vídeos sobre índios, por índios para índios, por brancos para índios, por índios para brancos […]. Hoje é cinema etnográfico […] cinema etnográfico se torna uma expressão meio vaga, que cobre coisas inteiramente heterogêneas. Hoje está na moda dizer que ficção e realidade são a mesma coisa.

Esses foram somente alguns dos pontos tocados no debate, nada mais do que um trailer, um convite ao acompanhamento da conversa na íntegra. Mas talvez o mais interessante ainda esteja por ser feito: mapear todas essas polêmicas e situá-las dentro (ou fora) das diferentes tradições antropológicas.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    1995
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