Open-access A produção tecnocientífica do vírus e da doença zika: riscos e insegurança no campo da saúde

The technoscientific production of zika virus and zika disease: risks and insecurity in the health field

Resumo

Discute-se a produção tecnocientífica do vírus e da doença zika e alguns desdobramentos para o campo da saúde. Foram analisados artigos sobre o zika publicados entre 1952 e 2014. A partir disso, foram coletados e organizados os elementos dos enunciados científicos em sequência lógico-temporal. Caracterizaram-se três momentos epistêmico-discursivos de constituição do zika: objeto experimental, objeto epidemiológico e objeto emergente. Destacou-se, no percurso constitutivo, o papel central e paradoxal do desenvolvimento tecnocientífico, pois, à medida que se produziram conhecimentos e técnicas mais especializadas e avançadas para a investigação do vírus e da doença, criaram-se formas mais detalhadas e complexas de compreendê-los e mais riscos e insegurança para o campo da saúde.

Palavras-chave
Vírus zika; Doença zika; Riscos; Insegurança; Tecnociência

Abstract

This article discusses the technoscientific production of the zika virus and disease and some implications for the health field. Articles on zika published between 1952 and 2014 were analyzed. The elements of scientific statements were collected and organized in a logical-temporal sequence. Three epistemic-discursive moments in the constitution of zika were characterized: experimental object, epidemiological object, and emergent object. In this constitutive trajectory, the central and paradoxical role of technoscientific development was highlighted. As more specialized and advanced knowledge on and techniques for the virus and disease investigation were produced, more detailed, complex ways of understanding them were created, composing a scenario of greater risks and insecurity for the health field.

Keywords
Zika virus; Zika disease; Risks; Insecurity; Technoscience

Quando ocorreu a epidemia de doença zika no Brasil, em 2015, a literatura científica relatava os riscos a ela ligados e a seu agente etiológico, um vírus de mesmo nome. A pergunta que norteou a pesquisa aqui apresentada foi, então, como, quando e de que forma esse patógeno e essa enfermidade se tornaram um risco à saúde? Parte-se da teoria da modernização reflexiva, que compreende os riscos da modernidade como construções sociocientíficas produzidas pelos êxitos do processo de modernização (Giddens, 1991, 1997; Beck, 1997, 2011), para construir o percurso de evidenciação desse risco.

Identificou-se, a partir da análise dos artigos sobre o vírus e a doença zika, três momentos epistêmico-discursivos. Primeiramente, o vírus e a doença se constituíram como objetos experimentais, resultado de inúmeros experimentos com humanos e não humanos realizados em Entebbe, Uganda. Posteriormente, tornaram-se objetos epidemiológicos, um vírus arbovirótico e uma enfermidade de populações africanas, e, por último, tornaram-se objetos emergentes, com o surgimento de casos e epidemias em vários continentes.

Constata-se que o desenvolvimento tecnocientífico é o aspecto central de formação desses três momentos, pois, à medida que se produziram técnicas mais especializadas e tecnológicas de identificação e caracterização do vírus e da doença zika, produzindo-se mais conhecimentos e formas mais complexas de compreendê-los, paradoxalmente, produziu-se também um aumento dos riscos à saúde das populações. Dessa forma, conformou-se um cenário no campo da saúde1 norteado, por um lado, por conhecimentos mais detalhados e específicos sobre o vírus e a doença e, por outro, pelo aumento da produção de riscos em saúde.

Depois da apresentação das características desses três momentos epistêmico-discursivos, suas transformações e relações com o desenvolvimento tecnocientífico, mais especificamente, biomédico, este artigo discute o paradoxo explicitado, evidenciando as relações entre o aumento dos riscos e uma das matrizes de produção e avanço do conhecimento tecnocientífico, a fragmentação dos corpos dos seres vivos e seu inerente processo de abstração sobre as complexidade dos seres vivos no meio socioambiental.

Abordagem teórico-metodológica

Há uma relação de constituição mútua entre ciência e sociedade moderna. O que quer dizer que, se, por um lado, a produção de conhecimento científico é produto histórico-social e porta em si múltiplas dimensões e mediações da sociedade na qual é gerado,2 por outro, constitui os objetos científicos e emite enunciados sobre eles, ordenando e modificando a sociedade e as suas relações sociais. É a reflexividade da sociedade moderna, nos termos de Giddens (1991, p.45), que “consiste no fato de que práticas sociais [modernas] são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre as próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter”.

Na modernidade, os conhecimentos científicos e tecnológicos passaram a organizar as formas e relações sociais, em contraposição à tradição, aos hábitos e rituais que tinham essa função em tempos pré-modernos (Giddens, 1991, 1997).

Nessa dinâmica entre ciência e sociedade modernas, a ciência se transformou. Pelo menos desde o século XX, tornou-se tecnociência, mistura de ciência pura e aplicada; de ciência e técnica, com fins de resolução prática das demandas da sociedade industrial moderna (Luz, 2014). A tecnociência é a forma contemporânea de produção de ciência, e, reflexivamente, ordena e transforma as relações e práticas sociais entre sujeitos, entre instituições e entre estas e aqueles, enquanto também ordena e transforma a si mesma.

Nesse movimento, a sociedade também se transformou, passando da sociedade industrial moderna à sociedade de risco (Beck, 2011). Se naquela as preocupações sociais básicas se direcionavam à criação de condições para a proteção da sociedade diante das carências materiais e das ameaças da natureza (intempéries naturais, fome, frio, doenças etc.), nesta, na de risco, as preocupações com os riscos produzidos pelo progresso tecnocientífico assumiram a centralidade (Beck, 2011). Ou seja, em relação aos riscos da sociedade industrial, os modernos empreenderam práticas e políticas de desenvolvimento tecnocientífico que acabaram por criar, além de condições de superação das ameaças, novos problemas e novos riscos.

Assim, os riscos surgidos atualmente são particularmente distintos dos anteriores, daqueles sobre os quais a sociedade industrial se debruçava, em razão da sua constituição tecnocientífica. É pela aplicação reflexiva do conhecimento tecnocientífico que algo se torna um risco; quer dizer, o risco é uma construção social e tecnocientífica. O reconhecimento do risco depende da capacidade humana de identificá-lo e mensurá-lo, em alguma medida. Se a tecnociência identifica algo como risco, é na articulação desse conhecimento com uma rede de produção de percepção de risco que este poderá se tornar uma preocupação social, que mobiliza grupos e políticas sociais (Beck, 2011; Ianni, 2018).

É dentro desse breve quadro teórico que se retoma a pergunta: como, quando e de que forma o vírus e a doença zika se tornaram um risco à saúde?

Para respondê-la, foram analisados os artigos científicos sobre o vírus e a doença zika publicados entre 1952, o primeiro deles, e 2014, antes da emergência da doença no Brasil. Nesse período foram publicados 68 artigos, dos quais 26 compõem esta análise. Eles foram identificados na base de dados Web of Science, pelos descritores “zika” e/ou “zika vírus”.

Os artigos são documentos históricos que expressam as abordagens epistêmicas de seus autores, historicamente situados, e descrevem suas práticas de produção de enunciados científicos (Minayo, 2014). Deles foram coletados e organizados os seguintes elementos: título, ano de edição, revista científica, tipo de estudo, pergunta de partida do estudo, ponto de chegada do estudo, conclusão do estudo e procedimentos e técnicas utilizados.

Amalgamando-se os elementos extraídos dos artigos em uma sequência lógico-temporal, estabeleceu-se uma linha histórica de enunciados científicos que compõem três conjuntos de artigos, denotando três momentos epistêmico-discursivos distintos de constituição do zika. O primeiro conjunto de artigos, publicados entre 1952 e 1970, aproximadamente, discorre sobre o zika como um objeto experimental; o segundo abrange os publicados entre 1970 e 1990, que discorrem sobre o zika como um objeto epidemiológico; e o terceiro, dos publicados entre 1990 e 2014, discorre sobre o zika como um objeto emergente.

A partir dessa periodização e caracterização, discutem-se o aumento dos riscos em saúde e sua relação com a fragmentação dos corpos no desenvolvimento tecnocientífico.

Misturando macacos, mosquitos, vírus e humanos: zika como objeto experimental

Os artigos pulicados entre 1952 e 1970 discorrem sobre os experimentos laboratoriais desenvolvidos em Entebbe, Uganda, na África, no Instituto de Pesquisas de Febre Amarela de Uganda (IPFA). Paralelamente às pesquisas sobre febre amarela desenvolvidas no instituto, aconteciam pesquisas para identificar patógenos desconhecidos ou, ainda, para o “isolamento de vírus filtráveis de mosquitos capturados em Uganda” (Dick et al., 1952a, p.509).3 Entre 1937 e 1947 foram realizados experimentos que identificaram dez vírus diferentes, entre eles o zika (Dick et al., 1952a; Dick, 1953). Os resultados foram publicados em Dick et al. (1952a, 1952b).

A técnica experimental utilizada era o teste de proteção. Essa técnica permitia identificar a presença ou ausência de anticorpos em amostras de soro de humanos e de não humanos. Misturava-se o soro que se queria analisar com soluções de determinados vírus e, depois, injetava-se essa mistura em um animal experimental. Se o animal morresse ou apresentasse alterações de comportamento, indicava para os cientistas que o soro não possuía anticorpos, estava desprotegido, inferindo-se que o corpo, humano ou não humano, de onde provinha a amostra nunca havia entrado em contato com aquele vírus presente na solução. Se não morresse, indicava que a amostra tinha anticorpos, que o animal estava protegido e, portanto, já teria tido contato com aquele vírus (Löwy, 2006). A identificação do patógeno é feita de forma indireta, observando-se o comportamento de um animal infectado experimentalmente diante de uma solução contendo um determinado vírus.

O vírus zika foi identificado por meio da aplicação desse teste, seguindo um protocolo experimental usado nas pesquisas de febre amarela do IPFA. Primeiramente, o vírus foi identificado em uma amostra de soro de um macaco experimental rhesus,4 denominado macaco 766, que estava alocado em uma plataforma de madeira, na copa de uma árvore, na floresta Zika. Esse macaco apresentou elevação de temperatura, e uma amostra de seu soro foi retirada e testada. Depois, o teste de proteção foi aplicado em mosquitos capturados na mesma floresta. As amostras analisadas foram obtidas pelo processamento experimental dos mosquitos, que consistia em os colocar no freezer à temperatura de 4ºC, depois triturá-los, centrifugá-los e filtrá-los, obtendo-se daí o que se pode denominar um suco de mosquito (Dick et al., 1952a).

Ambas as amostras, do macaco 766 e do suco de mosquito, foram injetadas, separadamente, via intraperitonial e intracerebral, em camundongos laboratoriais.5 Os camundongos que tiveram o preparado injetado no cérebro adoeceram, indicando aos cientistas que existia um vírus nas amostras, que foi denominado zika, em referência à floresta de onde se obtiveram as amostras. Nos termos do artigo, “um agente transmissível filtrável foi isolado dos cérebros dos camundongos doentes” (Dick et al., 1952a, p.510).

As amostras também foram injetadas via subcutânea em macacos experimentais rhesus que não adoeceram, mas, de acordo com os cientistas, produziram anticorpos contra o vírus zika, chamados de anticorpos neutralizantes, que foram usados no teste de neutralização. Com base no teste de proteção, o de neutralização permitia ao cientista identificar se havia (ou não) vírus em determinada amostra. Uma solução com anticorpos neutralizantes do patógeno era injetada em camundongos juntamente com a amostra desconhecida. O não adoecimento daqueles camundongos indicava aos cientistas que os anticorpos tinham sido capazes de neutralizar o patógeno, podendo-se, portanto, inferir que o vírus zika estava presente na amostra (Dick et al., 1952a).

Depois de identificado o vírus zika, os cientistas se interessaram em saber se ele infectava humanos, quais seus possíveis hospedeiros e se o vírus estava presente nos tecidos dos camundongos infectados. Para responder a essas dúvidas continuaram a manipulação experimental, submetendo amostras de soros humanos ao teste de neutralização a fim de verificar a presença de anticorpos contra o patógeno. Além disso, infectaram outros animais, tais como coelhos, porquinhos-da-índia e macacos selvagens, com a solução de vírus zika obtida dos experimentos com o macaco 766 e com o suco de mosquito para saber se eles se infectavam e se poderiam ser hospedeiros do vírus (Dick et al., 1952b).

A partir dos conhecimentos e das técnicas produzidos nos experimentos com o vírus zika,6Macnamara (1954) relatou um caso clínico de infecção humana pelo patógeno. A suspeita prévia era de que fosse um caso de febre amarela, mas foi rejeitada depois da aplicação do teste com anticorpos neutralizantes contra o vírus.

Ansiando por “explorar completamente os resultados da infecção por zika” (Bearcroft, 1956, p.442), relatou-se um experimento de infecção de um humano, voluntário, com uma solução obtida da injeção intracerebral de camundongos com o soro do caso descrito por Macnamara (1954). O humano adoeceu e, depois, seu braço foi exposto à picada de mosquitos para verificar se eles poderiam se infectar e contagiar camundongos por picada (Bearcroft, 1956).

Simpson (1964) e Filipe et al. (1973) relataram casos de adoecimento pela autoinfecção de cientistas na manipulação laboratorial do vírus zika.

Para responder à dúvida sobre o hospedeiro do vírus zika, Weinbren et al. (1958) relatou experimentos de teste de proteção com mosquitos coletados na floresta Lunyo, em Entebbe, para a análise da presença do vírus. O suco de mosquitos foi injetado em camundongos, macacos rhesus e coelhos.

Haddow et al. (1964) relataram experimentos de teste de proteção com mosquitos e outros animais, tais como roedores, macacos e esquilos, coletados na floresta Zika entre 1961 e 1963, a fim de saber se eles seriam potenciais hospedeiros do vírus zika.

Como se verifica, o vírus zika se constituiu – e foi constituído – como vírus potencialmente patogênico por um conjunto de práticas científicas experimentais que misturaram humanos e não humanos. De enunciados científicos que relataram a identificação do patógeno por meio de experimentos de manipulação de cobaias e posterior observação de sinais e sintomas nos seus corpos – primeiro pela alteração de temperatura do macaco rhesus 766 que estava alocado para pesquisa na floresta Zika e, depois, pela alteração de temperatura de camundongos experimentais injetados com suco de mosquito coletados também na floresta – outros enunciados foram produzidos a fim de responder às dúvidas dos cientistas sobre os hospedeiros do vírus zika e as infecções em humanos. Dúvidas que se situam dentro da episteme da medicina tropical, que buscava nos trópicos relações causais entre um parasito, um inseto e o ser humano (Löwy, 2006), o que se verifica ainda no registro de que seis dos nove artigos publicados entre 1952 e 1970 foram divulgados na revista Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene.

Nesse primeiro momento, os artigos não relatam o vírus zika como um problema médico ou de saúde, expõem-no como mais um vírus, entre outros identificados nas práticas experimentais, potencial agente de infecção humana que poderia causar uma doença. Vírus e doença zika são objetos de experimentos diversos, de manipulação de múltiplas combinações entre macacos, mosquitos, vírus e humanos para obter respostas às dúvidas científicas geradas nos experimentos para pesquisar patógenos desconhecidos.

Identificando um vírus patogênico, uma doença e um risco: zika como objeto epidemiológico

Os artigos publicados de 1970 a 1990 discorrem sobre o vírus e a doença zika como um agente etiológico e uma enfermidade, respectivamente. A infecção pelo vírus passou a ser relacionada a um quadro patológico, uma doença, de mesmo nome, transmitida por um mosquito, sendo enquadrado dentro do grupo das arboviroses, nomenclatura advinda da expressão em inglês arthropod-borne virus (vírus transmitidos por artrópodes).

Nesse segundo momento, o zika tornou-se um objeto epidemiológico, uma doença objeto de análise da epidemiologia. Foram observados nos artigos, considerando os marcos do discurso da epidemiologia propostos por Ayres (2011), os três aspectos que constituem a identidade epistemológica do discurso epidemiológico, a saber: a dimensão coletiva das doenças, seu controle técnico e a confecção de análises quantitativas que fundamentem a apreensão e a intervenção na dinâmica das doenças. Consoante esses aspectos, observou-se ainda o uso repetido de termos do jargão epidemiológico – prevalência, incidência, área endêmica, monitoramento da circulação viral e risco de epidemia – e de associações e correlações estatísticas visando obter relações de risco. Os temas dos artigos desse período abordam as condições geográficas – clima, vegetações, relevo – que poderiam determinar infecções por arboviroses nas populações africanas.

As análises de amostras populacionais procedem em razão e por meio da aplicação de outra técnica experimental que passa a aparecer nos artigos, a soroimunológica. Essa técnica permitia simplificar e ampliar as testagens de soros, podendo incluir diversos tipos virais e amostras em uma mesma análise. Ela consistia em produzir laboratorialmente antígenos (moléculas virais infectantes) e anticorpos (moléculas orgânicas produzidas pelos organismos contra os antígenos) por meio da injeção cerebral de soluções virais em camundongos e aderi-los a pequenas superfícies plásticas, de cerca de 1 a 2cm, que recebiam o soro suspeito de conter antígenos ou anticorpos do vírus zika para a análise. A ligação (ou não) entre antígeno e anticorpo podia ser visualizada a olho nu na superfície plástica. Com a aplicação dessa técnica produziu-se uma classificação viral baseada no tipo de antígeno (moléculas capazes de induzir a produção de anticorpos) de superfície do vírus que se ligava a determinado anticorpo presente em superfície plástica. O vírus zika foi incluído no grupo B, ou seja, um patógeno que possuía uma molécula de superfície denominada antígeno B e que se ligava ao anticorpo B.

Os elementos do discurso epidemiológico e a configuração da doença zika como arbovirose do grupo B causada pelo vírus zika podem ser verificados em diversos artigos. Por exemplo, Robin et al. (1975) descrevem uma enquete sorológica de arbovírus na qual foram analisadas 899 amostras de soro de crianças de até 14 anos de diversas regiões de Serra Leoa. Relatou-se ainda que as concentrações de anticorpos nas amostras humanas foram correlacionadas às características da vegetação – floresta, savana – da região de onde provinham as amostras. Foi realizada também uma prospecção entomológica, com a coleta de larvas de mosquitos e de mosquitos adultos nos arredores de casas e escolas da população daquela localidade a fim de se obter o Índice de Breteau (IB),7 que indica risco de surto de doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Robin et al. (1975, p.254-255) concluíram que,

de uma maneira geral, podemos dizer que os arbovírus são pouco ativos em Serra Leoa e que a prevalência deles varia de uma zona para a outra ... Encontramos na zona Oeste e Sul uma zona de fraca atividade: essa zona corresponde à floresta. A Leste e Norte, uma zona de atividade bem mais marcada: é uma zona plana e de savana.

Jan et al. (1977) relataram uma enquete sorológica de arbovírus realizada em duas províncias do Gabão, analisando 1.279 amostras de soro humano para verificar a presença de antígenos de arbovírus do grupo A e B. Os resultados foram correlacionados com as características étnicas dos grupos humanos e com as características da vegetação: “A escolha das zonas da enquete foi feita em razão das considerações étnicas e climáticas (da floresta tropical à savana arbustiva do Planalto Batéké)” (p.141).

Fagbami (1979) relatou uma investigação soroepidemiológica realizada em comunidades do estado de Oyo na Nigéria para determinar o padrão de infecção por zika entre os nigerianos. Foram analisadas amostras de 10.778 humanos. O autor concluiu que: “Embora a infecção clínica pelo vírus zika seja leve, a alta prevalência de imunidade na Nigéria tem algum significado epidemiológico” (p.217).

Saluzzo et al. (1981, p.490) relataram uma “enquete sorológica sobre a prevalência de certas arboviroses na população humana do Sudoeste da República Centro-Africana” para saber “sobre a importância da circulação de arbovírus e sua natureza”. Foram analisadas 459 amostras provenientes de quatro diferentes regiões, e os resultados relacionados às características do clima e da vegetação dessas regiões. Concluiu-se que a incidência de arboviroses entre a população humana nessa região é relevante, especialmente na região de savana pré-floresta.

Observa-se que os artigos desse período se utilizam dos pressupostos e métodos da epidemiologia para conhecer a dimensão do risco da infecção por arbovírus nas populações africanas, entre eles o vírus zika. Prevalência e incidência, como se sabe, são medidas da frequência de uma doença em uma população, ferramentas estatísticas para calcular o risco. Os artigos expressam que há risco.

A investigação sobre o risco ocorreu pela aplicação da técnica soroimunológica, ou seja, pela identificação de anticorpos contra arbovírus em amostras, e, a partir dela, fizeram-se inferências sobre os fatores geográficos que estimulam ou inibem as infecções arboviróticas nas populações e as correlações estatísticas entre as concentrações de anticorpos de amostras com as características do relevo, vegetação e clima de onde foram colhidas essas amostras.

Depreende-se das análises que os artigos apresentam o vírus e a doença zika como objetos epidemiológicos. Eles se tornam um risco à saúde das populações africanas; um risco que foi identificado por meio da tecnociência e que deve ser controlado a fim de se evitar a doença. Para isso, os cientistas realizam o monitoramento da circulação dos arbovírus e buscam conhecer os fatores geomorfoclimáticos que condicionam as infecções.

Manipulando e identificando genes: zika como objeto emergente de risco global

Os artigos publicados entre 1990 e 2014 discorrem sobre o vírus e a doença zika como objetos emergentes, corolário da identificação de casos de doença zika fora da África, da inserção deles no grupo das doenças infecciosas emergentes e do seu monitoramento global.

Essas características decorreram do uso de técnicas genéticas e moleculares, aquelas ligadas à manipulação experimental de genes e suas unidades. A técnica usada foi o RT-PCR (do inglês, reverse transcription polymerase chain reaction), que consiste na utilização de uma sequência de segmentos de material genético, sintetizados em laboratório, complementares à sequência dos segmentos de material genético que se quer identificar em certa amostra. Se pareados, esses segmentos são replicados em um tubo de laboratório e, então, quantificados. Essa sequência passa a constituir uma identidade do organismo, viabilizando sua identificação em amostras. Essa técnica foi “considerada mais rápida e sensível do que os usuais testes de identificação viral” (Pierre et al., 1994, p.94). Com ela tornou-se possível realizar análises mais detalhadas e específicas em uma quantidade grande de amostras e para diferentes tipos virais, ao mesmo tempo, fornecendo condições para o monitoramento global do vírus e da doença.

Com a aplicação dessa técnica, o vírus zika passou a ter outra classificação, baseada no tipo de material genético. Ele foi inserido no grupo dos flavivírus, aqueles que possuem material genético do tipo RNA de fita simples. Também a partir dessa técnica foram registradas epidemias de doença zika, pois amostras do material genético de pacientes suspeitos foram enviadas para laboratórios de referência que tinham os conhecimentos técnicos e as condições materiais para a realização desses experimentos.

A primeira epidemia de doença zika registrada pela literatura científica ocorreu em 2007, no estado de Yap, na Micronésia,8 ilha do Pacífico, na época com pouco mais de sete mil habitantes. Os artigos de Lanciotti et al. (2008), Duffy et al. (2009) e Hayes (2009) relatam que, primeiramente, a epidemia foi considerada como dengue, tendo em conta manifestações clínicas e aplicação dos testes sorológicos. Meses depois desses registros, as amostras foram enviadas ao Laboratório de Diagnósticos de Arbovírus no Centers for Disease Control and Prevention (CDC), EUA, e submetidas à técnica de RT-PCR que identificou material genético do vírus zika nas amostras, levando à conclusão, a posteriori, de que o vírus tinha sido o agente causador da epidemia de Yap.

Os artigos desse período também registram casos pontuais de doença zika, todos identificados pela aplicação de técnica de RT-PCR. Foy et al. (2011) relataram um caso da enfermidade em cientistas americanos que viajaram para o Senegal, retornaram sintomáticos e foram diagnosticados com doença zika. Heang et al. (2012) relataram uma ocorrência em 2010 em uma criança do Camboja. Kwong et al. (2013) relataram um caso de zika em um viajante que retornou da Indonésia para a Austrália, e Tappe et al. (2014) em um viajante que retornou da Tailândia para a Alemanha.

Nos artigos desse período, o vírus e a doença zika foram inseridos no grupo das doenças infecciosas emergentes. Aparecem os termos arboviroses emergentes ou viroses emergentes, e alguns dos artigos são publicados na revista Emerging Infectious Diseases9Hayes (2009), Lanciotti et al. (2008), Foy et al. (2011) e Heang et al. (2012).

Constata-se, portanto, que os artigos apresentam o vírus e a doença zika como objetos emergentes, tanto porque “emergem” como casos e epidemias em diversas partes do globo como porque são colocados no grupo das doenças infecciosas emergentes. São constituídos como um risco global em razão de os experimentos evidenciarem casos de doença zika fora da África, indicando que o vírus e a enfermidade estavam se espalhando. Em Duffy et al. (2009, p.2541-2542), em um dos artigos que relata o primeiro registro de uma epidemia de doença zika, em Yap, essa menção é explícita:

Apesar de a maioria dos pacientes ter tido doença moderada, ‘os médicos e os oficiais de saúde pública devem estar atentos ao risco de expansão da transmissão do vírus da zika ... porque o vírus se espalhou para fora da África e Ásia’, ele deve ser considerado um patógeno emergente (destaque no original).

O campo da saúde é interpelado de forma global a lidar com o espalhamento do vírus e a doença zika, ao vigiar as suas emergências. Em Heang et al. (2012, p.350) mencionou-se que o “estudo foi financiado pelo Departamento de Defesa Global de Vigilância e Sistema de Resposta contra Infecções Emergentes do EUA, uma divisão do Centro de Vigilância Sanitária das Forças Armadas”.

Destaca-se ainda que a detecção das emergências de casos de doença zika de forma global foi possível devido ao uso da técnica de RT-PCR, que possibilita usar fragmentos do material genético dos corpos dos seres para fazer diagnósticos, tanto no momento de surgimento de um caso suspeito como a posteriori, a partir de amostras que foram armazenadas há tempos.

Pode-se dizer que o risco é incrementado nesse momento. Da inexistência social e científica, o vírus e a doença zika passaram a um risco local, de infecção viral e doença zika em populações africanas e, depois, a um risco global, que demandou ações e intervenções prático-políticas mais amplas do campo da saúde.

A fragmentação dos corpos e a transformação do conhecimento sobre o vírus e a doença zika

A constituição do zika em três momentos epistêmico-discursivos distintos procede em razão e por meio do desenvolvimento tecnocientífico, tendo como uma das matrizes a fragmentação dos corpos dos seres vivos.

Explica-se. No momento do zika como objeto experimental, a técnica científica utilizada foi o teste de proteção, que consistia em revelar a presença ou ausência de anticorpos em amostras de soro de humanos e não humanos, misturando-as com o soro possivelmente infectado com vírus e injetando essa mistura em um animal experimental. A manipulação de macacos, mosquitos, vírus e humanos produziu parâmetros laboratoriais e inscrições que identificavam aos cientistas – que buscavam patógenos desconhecidos – um novo vírus, o zika. Os cientistas se perguntaram se o vírus zika seria uma ameaça à saúde humana. A injeção de soluções consideradas virais em humanos levou os cientistas a inferir que sim, o patógeno podia infectar humanos e gerar neles doença com quadro sintomático leve.

Os cientistas, então, perguntaram-se qual era a dimensão da ameaça; quais populações eram infectadas por esse vírus. Com o desenvolvimento e a aplicação de técnicas soroimunológicas foi possível analisar uma quantidade maior de amostras em um único experimento, permitindo mais rapidez nas análises de amostras populacionais. Essas técnicas dispensaram, em grande medida, o uso de animais vivos nos experimentos (macacos ou camundongos) utilizando apenas fragmentos de seus corpos, tais como células e moléculas orgânicas (antígenos e anticorpos).

Essas células, por exemplo, são produzidas na forma de linhagens celulares; ou seja, num conjunto de células criadas laboratorialmente pela manipulação dos corpos dos seres vivos, humanos ou não humanos, para adquirir a capacidade de se proliferar indefinidamente para poder, então, ser usadas como mímeses do que aconteceria nas células de um ser vivo inteiro. Robin et al. (1975), Fagbami (1979) e Saluzzo et al. (1981) utilizaram linhagens celulares de glóbulos vermelhos obtidas de ganso, e Jan et al. (1977), células PS obtidas de rins de porco.

A fragmentação dos corpos dos seres vivos, humanos e não humanos, em células e moléculas orgânicas, facilita a movimentação e a manipulação dos materiais experimentais e amplia o número de amostras analisadas em um único experimento, tornando mais rápida a geração de resultados, quando comparados aos experimentos que utilizam animais experimentais.

Essa forma experimental constitui a base para o segundo momento epistêmico-discursivo de constituição do zika. Ela expande os conhecimentos sobre o zika, tornando-o um objeto epidemiológico; um vírus patogênico que causa doença em populações africanas e, ainda, uma arbovirose do grupo B.

O processo de fragmentação dos corpos dos seres vivos se aprofunda com o desenvolvimento e a aplicação das técnicas genéticas e moleculares. São técnicas que utilizam apenas o material genético dos seres vivos nos experimentos; prescindem dos seus corpos e até de suas células, e, portanto, de qualquer tempo de desenvolvimento biológico inato. Quando se usam animais vivos ou mesmo culturas de células é necessário esperar o tempo dos processos biológicos para que se possam criar, no laboratório, parâmetros e inscrições de identificação. Com as técnicas genéticas e moleculares, essa espera não é necessária.

Assim, foi com a aplicação dessa técnica que o que era uma epidemia de dengue em Yap foi tornada uma epidemia de doença zika; o que era o vírus zika do grupo B passou a ser o vírus zika do grupo dos flavivírus; o que estava restrito às populações africanas passou a emergir em outros continentes, como na Ásia, na América e na Europa. A aplicação dessas técnicas produziu outros enunciados científicos sobre o vírus e a doença zika; outros conhecimentos, transformando uma infecção viral de humanos em uma enfermidade de um risco localizado e, depois, em um risco à saúde global.

Fragmentação e abstração na produção de riscos

Como se constata na produção tecnocientífica do vírus e da doença zika, com a fragmentação dos corpos dos seres vivos, os processos biológicos – e suas interações com o meio socioambiental – são colocados, gradativamente, à parte, passando para o predomínio daqueles que ocorrem nos frascos e tubos. Na mistura de células, moléculas, materiais genéticos e substâncias – fragmentos que não sentem dor, não respondem, não resistem (Beck, 1995) – com ferramentas estatísticas (nexos causais, associações, correlações), porcentagens e probabilidades, são produzidas inúmeras possibilidades, inferências sobre as condições de riscos a que estão sujeitos os corpos, suas situações de saúde e/ou doença, individuais e populacionais. Fragmentos que, pretensamente, falam por um todo amplo e complexo (o ser humano no meio socioambiental). Essa é uma das formas pelas quais a tecnociência avança, fragmentando e circunscrevendo as interações dos seres vivos àqueles processos manipulados nos experimentos.

O discurso do risco da epidemiologia traz em seu bojo os avanços dos métodos tecnocientíficos, como discute Ayres (1997). O autor periodiza esse discurso em três fases – (1) epidemiologia da constituição, 1872-1929; (2) epidemiologia da exposição, 1930-1944; e (3) epidemiologia do risco, 1945-1965 – e mostra que, desde a fase de exposição, as análises epidemiológicas passaram a auferir caráter de latência e virtualidade, culminando no discurso do risco, propriamente dito, na fase da epidemiologia do risco.

Ayres (1997) menciona que a inclusão, nas análises epidemiológicas, de métodos estatísticos, cálculos de probabilidades (de risco) e associações determinísticas do adoecimento de populações consolida o discurso do risco. Assim, a ênfase passou a ser colocada na dimensão especulativa do conhecimento sobre os processos saúde/doença, produzindo a virtualização do objeto epidemiológico, nos termos do autor. A chance de adoecer é cada vez menos conteúdo – corpo orgânico doente – e mais cálculo; menos processo que se configura no corpo (e nos seus sintomas), e mais uma forma de estabelecer nexos causais (Ayres, 1997).

Essas formulações coadunam com o processo de fragmentação dos corpos e de abstração que forjam o desenvolvimento tecnocientífico que produziu o vírus e a doença zika. Primeiro o uso de animais e cobaias produziu conhecimento sobre o vírus e uma possível doença causada por ele; depois, com a utilização de células e moléculas orgânicas, os cientistas identificaram a enfermidade nas populações africanas e o risco do espalhamento; e, por último, com material genético dos seres vivos, produziram-se conhecimentos sobre o espalhamento do vírus e a doença zika para continentes além-África, tornando o zika um risco à saúde global. Os riscos foram se ampliando à medida que novos conhecimentos foram sendo gerados, a partir da contínua fragmentação dos corpos e das abstrações sobre as complexidades dos seres vivos no meio socioambiental.

Os riscos identificados são, portanto, riscos produzidos por esses processos. O que não quer dizer que não sejam riscos reais. Pelo contrário, essa tem sido a forma fundamental de atuação da tecnociência no campo da saúde na etapa contemporânea da modernidade. O que se pode denominar tecnociência biomédica que sob saberes biológicos mobiliza instituições e práticas de saúde a eles associados (Ianni, 2018) e em que, podemos dizer, o

corpo humano [e não humano] e seus ‘elementos constitutivos’ – membros, órgãos, tecidos, ossos, fluidos etc. – configuram cada vez mais a matéria-prima da produção de novas substâncias medicamentosas, de novas terapêuticas, de práticas de transplante inter-humano e interespécies, de exercício e experimentação tecnológica, de inoculação de micro-organismos etc. (Ianni, 2018, p.208).

Ou seja, temos nessa tecnociência biomédica matéria-prima suficiente para a produção de práticas e políticas no campo da saúde.

Paradoxo da produção de conhecimentos e riscos no campo da saúde

Para afastar a escassez material e os perigos da natureza, tendo no horizonte uma existência mais segura e previsível, de mais riqueza e controle sobre o mundo natural e social, os modernos criaram mecanismos de controle e organização de coisas e pessoas baseados na racionalidade científica e tecnológica e na resolução de problemas sociais, a partir da experimentação, dos cálculos e modelos matemáticos.

A aplicação social do conhecimento produzido traria maior segurança em relação à natureza; mais proteção aos indivíduos e às populações ante a vulnerabilidade em que se encontravam em tempos pré-modernos, segundo Giddens (1991). Nos termos do autor, ‘uma ordenação e reordenação reflexiva’ das relações sociais à luz das contínuas entradas (inputs) de conhecimento” (p.25).

O campo da saúde é um dos produtos da modernidade. Nasceu na modernidade europeia, especificamente, seguindo Foucault (1982), entre o final do século XVIII e início do XIX, quando preservar a saúde dos trabalhadores passou a ser importante para o poder político-econômico-burguês diante da necessidade de preservação e proteção da força de trabalho contra os efeitos da acumulação capitalista. De forma geral, o campo buscava identificar, por meio do conhecimento tecnocientífico, padrões nos adoecimentos e elementos que explicassem sobre a saúde e a doença das populações, a fim de subsidiar a elaboração de práticas e políticas de intervenção para a proteção da saúde (Ayres, 2011).

Assim, foi no horizonte da proteção à saúde que se moldou a institucionalização e a expansão global dos sistemas de vigilância e assistência em saúde e do seu constitutivo aparato de produção de conhecimentos tecnocientíficos – em diferentes momentos da modernidade e de diferentes formas ao redor do globo (Ianni, 2018).

Identificar ameaças e riscos à saúde das populações e elaborar práticas e políticas para afastar esses riscos foi se constituindo como o cerne das ações do campo da saúde. Desde aquelas ligadas à higiene pública – medidas de quarentena, sanitização urbana, campanhas de vacinação –, passando por aquelas ligadas à vigilância sanitária e epidemiológica – análises de situações de saúde (locais, regionais e/ou globais) –, até aquelas ligadas à medicina preventiva – rastreamento de doentes, diagnósticos e tratamentos precoces e campanhas de prevenção de doenças e de conscientização e educação em saúde.

Todas essas ações, políticas e práticas, foram produzidas em consonância com os desenvolvimentos tecnocientíficos de seu tempo. Em maior ou menor grau e a depender do momento histórico, essas políticas e práticas modularam (e modulam), reflexivamente, as relações dos indivíduos e das populações com o adoecimento, com a morte, com os seus corpos e com os outros corpos e seres vivos.

Ocorre que, segundo Giddens (1991, 1997), desde o final do século XX – período que o autor denomina alta modernidade ou modernidade tardia –, o ideário moderno de controle e proteção tem produzido também o seu contrário, ou seja, insegurança e descontrole. Incertezas geradas na contínua produção tecnocientífica.

O mundo social [moderno] tornou-se, em grande parte, organizado de uma maneira consciente [tecnocientificamente], e a natureza moldou-se conforme uma imagem humana, mas [na alta modernidade] essas circunstâncias, pelo menos em alguns setores, criaram incertezas maiores – a despeito dos seus impactos – do que jamais se viu (Giddens, 1997, p.77).

Segundo o autor, o aprofundamento da reflexividade tem colocado os modernos sob constante risco. A produção de conhecimento gera novos conhecimentos e também mais dúvidas e a necessidade de mais produção de conhecimento, repondo continuamente a dúvida. Dessa forma, o passado é constantemente reformulado pelo novo conhecimento produzido no presente. Um conhecimento tido como correto e verdadeiro hoje, com a aplicação de mais conhecimento, pode-se tornar incerto, obsoleto ou mesmo incorreto amanhã, e, assim por diante, numa dinâmica de mais conhecimentos, mais dúvidas e percepção social e científica de aumento dos riscos e insegurança (Giddens, 1991, 1997). “Estamos em grande parte num mundo que é inteiramente constituído através do conhecimento reflexivamente aplicado, mas onde, ao mesmo tempo, não podemos nunca estar seguros de que qualquer elemento dado deste conhecimento não será revisado” (p.46).

Assim, paradoxalmente, a produção de mais e mais conhecimentos acaba não sendo capaz de prover percepção de segurança, pelo contrário, gera insegurança, incerteza – “a reflexividade da modernidade subverte a razão pelo menos onde a razão é entendida como ganho de conhecimento certo” (Giddens, 1991, p.46).

No campo da saúde, o tema dos alimentos parece exemplar. Facilmente se pode enumerar uma gama de alimentos que, em certo momento, foram considerados prejudiciais à saúde humana e, em outro momento, foram reconduzidos à condição de alimento saudável, e vice-versa: ovos, carnes gordurosas, embutidos, carboidratos e gorduras em geral etc. Outro aspecto que podemos enfatizar no tema dos alimentos diz respeito às contínuas modificações legais quanto aos tipos químicos e às quantidades de agrotóxicos considerados seguros à saúde humana. Também os alimentos transgênicos constituem outro aspecto do problema. Criados em laboratório para ter vantagens nutricionais e/ou de produção, em oposição aos alimentos não transgênicos, são hoje fonte de risco quanto à ingestão e produção. Assim, as expectativas modernas de produção de alimentos “abundantes, seguros e saudáveis”, com a aplicação tecnocientífica, deram azo à produção de mais riscos.

Na descrição dos três momentos epistêmico-discursivos de constituição do vírus da zika podem-se destacar a lógica de proteção à saúde e a produção de risco e insegurança. Primeiramente, do zika como objeto experimental, constituído dentro do modelo da medicina tropical e dos experimentos com animais da floresta e de cobaias. Nesse momento, o vírus zika passa da inexistência social e científica à existência, tornando-se um objeto científico e provocando novas perguntas nos cientistas, por exemplo, sobre o seu hospedeiro e sobre a possibilidade de infectar humanos.

No segundo momento, o zika se torna um vírus da família dos flavivírus, uma moléstia das populações africanas e um risco à saúde dessas populações. Já no terceiro momento, o vírus e a doença zika se tornam um risco global, um objeto científico emergente identificado em diversos países fora do continente africano. Essa constatação sugere aos cientistas que o vírus e a doença zika estão se espalhando, o que mobiliza ações de vigilância e monitoramento dos centros de referência relativo às doenças infecciosas, tal como o CDC.

Ou seja, à medida que os estudos sobre o vírus e a doença zika avançaram, os riscos relativos a eles escalonaram, tomando dimensões cada vez maiores, passando de um vírus desconhecido a um vírus patogênico e, depois, de uma enfermidade de risco localizado para uma doença de risco global. Podemos dizer, junto com Giddens (1991, 1997), que a percepção de controle e segurança foi sendo diminuída no percurso desses três momentos, paradoxalmente, ao aumento de conhecimentos sobre o vírus e a doença zika.

Considerações finais

Os conhecimentos produzidos sobre o vírus e doença zika, ao longo desse percurso, desde sua constituição como objeto experimental até o estágio de objeto emergente, parecem ter tido baixo impacto no controle e/ou manejo – ou, no mínimo, um impacto aquém do esperado pela produção tecnocientífica biomédica – da epidemia de doença zika no Brasil em 2015.

Aqui, a moléstia se apresentou com um perfil fisiopatológico e epidemiológico bastante distinto do que a literatura relatava: “A doença suscitou uma série de anseios, em virtude dos enigmas que ainda pairavam em torno de sua transmissão, patofisiologia e correlação com a microcefalia que acometia bebês de mulheres infectadas pelo vírus na gravidez” (Silva, 2017, p.872).

Bueno et al. (2017), a partir de um debate com Ilana Löwy e outros pesquisadores, ressalta a dimensão da incerteza quando se fala em doença e vírus zika hoje. O vírus parece ter efeitos diferentes em diferentes populações, com infecções verticais de consequências diversas. Destaca ainda a insuficiência de soluções técnicas baseadas em técnicas moleculares e genéticas. Lopes (2021), resenhando livro de Ilana Löwy sobre a zika no Brasil, ressalta a constitutiva incerteza presente na história dessa epidemia e “nossa ignorância sobre os enigmas que a circulação desse vírus ainda deixa em aberto na atualidade” (p.620).

Sabe-se, com relação às doenças infecciosas, que parte importante do campo da saúde tem colocado esforços na identificação e no monitoramento de vírus patogênicos e das doenças por eles causadas, em nível global, a partir de técnicas genéticas e moleculares, padrão ouro dos procedimentos experimentais. O uso dessas técnicas conforma esquemas e quadros nosológicos de nomenclaturas que são esmiuçadas a subtipos genéticos. De um lado, produzem-se mais conhecimentos que reificam classificações de doenças e vírus; de outro, os riscos aumentam, novos tipos e subtipos virais surgem. “A proteção diminui à medida que aumenta o perigo” (Ianni, 2018, p.95).

Assim, ao mesmo tempo que as técnicas genéticas e moleculares fornecem mais conhecimento sobre riscos a que estamos expostos, mais inseguros parece que estamos em relação ao mundo microbiano.

Beck (2011) alerta para o fato de que a dinâmica da produção de riscos e das transformações por eles geradas tem se dado de forma sub-reptícia, por dentro das práticas e perspectivas modernas que não cessam de avançar e se atualizar. Ou seja, ainda que os paradoxos da modernidade, mediados pela produção tecnocientífica dos riscos, emerjam aqui e acolá, ganhando cada vez mais visibilidade e intensidade, ainda é a perspectiva moderna de progresso que condiciona o desenvolvimento tecnocientífico – e nela está o campo da saúde (Ianni, 2018).

Se, por um lado, o campo da saúde percebe os problemas decorrentes dos riscos produzidos tecnocientificamente e atua, por exemplo, em políticas de prevenção quaternária, diante da necessidade de prevenir “os riscos da identificação tecnocientífica dos riscos” – ou seja, os excessos de prevenção e tratamento que resultam em situações de hipermedicalização, excessos de diagnósticos e novos tipos de sofrimento –, por outro lado, o campo da saúde se mantém aderido às formas e noções modernas de cuidado e proteção à saúde, produzindo contínua e majoritariamente uma tecnociência biomédica desatenta aos efeitos contraditórios dos conhecimentos produzidos (Ianni, 2018).

A tecnociência biomédica caminha com tal intensidade, que chega mesmo a constituir-se como a utopia de uma saúde perfeita (Sfez, 1996), desdobrando-se no desejo de construção de corpos sem defeitos, que não adoecem nem envelhecem, e de um mundo sem micróbios. Sfez (1996) enfatiza o papel das técnicas genéticas e moleculares na produção de abstrações sobre os processos biológicos e sociais que fomentam essa utopia e usa a expressão “doenças virtuais” para designar doenças que são produzidas por essas técnicas.

Assim, considerando o estágio contemporâneo de reflexividade da modernidade, na produção tecnocientífica incessante de riscos, faz-se premente uma reflexão crítica sobre o desenvolvimento tecnocientífico biomédico e os seus efeitos na constituição de parâmetros e pressupostos norteadores para o campo da saúde.

Agradecimentos

Não houve financiamento.

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NOTAS

  • 1
    Denomina-se campo da saúde, especificamente, o campo da saúde pública. “[Um] campo político, de serviços, de produção científica e tecnológica; um campo que articula ciência e técnica, tecnologias e práticas, políticas e conhecimento, desta forma conformando a sociedade” (Ianni, 2018, p.132).
  • 2
    O campo de pesquisas denominado science studies, caudatário, em grande-angular, da sociologia da ciência, tem produzido trabalhos que evidenciam as dinâmicas culturais e sociais envolvidas nas políticas, nas práticas e nos resultados científicos.
  • 3
    Essa e as demais citações de língua inglesa têm tradução livre.
  • 4
    Os macacos rhesus são animais criados e domesticados em laboratório para ser utilizados como cobaias em experimentos e usados, desde o final da década de 1920, como modelos experimentais para predizer uma infecção por febre amarela. Julgava-se que os macacos se comportavam de forma similar aos humanos, quando desenvolviam quadros febris e patológicos, diferentemente de outros animais como chimpanzés, macacos africanos locais e porquinhos-da-índia, que não desenvolviam doenças mediante as infecções experimentais (Stokes et al., 1928).
  • 5
    Experimentos com camundongos levaram os cientistas a inferir que esses animais também eram susceptíveis à infecção experimental pelo vírus da febre amarela, tal como o macaco rhesus, mas por injeção intracerebral. O uso de camundongos seria uma vantagem para o modelo de predição, pois os camundongos eram mais baratos e de manipulação experimental mais fácil do que os macacos rhesus (Theiler, 1930).
  • 6
    Dick et al. (1952a, 1952b) relataram diversos outros procedimentos experimentais. Por exemplo, a obtenção de soluções de diferentes concentrações de anticorpos, processos de adaptação do vírus aos camundongos, testes com diferentes filtros para a obtenção dos sucos de mosquitos, diferenciação das espécies de mosquitos coletadas e combinações experimentais com essas diferentes espécies, entre outros. De acordo com os objetivos da pesquisa, os procedimentos explicitados são os mais importantes para identificação do vírus zika.
  • 7
    Valor obtido da divisão entre a quantidade de larvas de insetos encontrados nas habitações humanas pesquisadas e a quantidade de habitações vistoriadas.
  • 8
    A literatura científica registra outra epidemia de zika ocorrida na Polinésia Francesa em 2013, mas as publicações aparecem apenas em 2016 em estudos retrospectivos com as amostras colhidas na época do surto. Como os artigos analisados para esta pesquisa compreendem o período de 1952 a 2014, a epidemia na Polinésia Francesa não foi contemplada no presente estudo.
  • 9
    Revista criada pelo CDC em 1995, expressando também a emergência desse tema na agenda de pesquisa global.
  • Preprint:
    Não foi publicado em repositório de preprint.
  • Dados da pesquisa:
    Não estão em repositório.
  • Avaliação por pares:
    Avaliação duplo-cega, fechada.
  • Conflito de interesse:
    Não houve conflito de interesses na realização do presente estudo.

Disponibilidade de dados

Não estão em repositório.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2024
  • Aceito
    20 Dez 2024
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