Open-access “Nacionalizar as nossas crianças”: estratégias de controle dos espaços educacionais e a Campanha de Nacionalização (1938-1945) no Distrito de Pirabeiraba, Joinville (SC)

“Nacionalizando a nuestros niños”: estrategias para el control de los espacios educativos y la campaña de nacionalización (1938-1945) en el Distrito de Pirabeiraba, Joinville (SC), Brasil

“Nationalizing our children”: strategies for controlling educational spaces and the Nationalization Campaign (1938-1945) in the District of Pirabeiraba, Joinville (SC), Brazil

« Nationaliser nos enfants » : stratégies de contrôle des espaces éducatifs et Campagne de Nationalisation (1938-1945) dans le District de Pirabeiraba, Joinville (SC), Brazil

Resumo

Este artigo teve como objetivo discutir a Campanha de Nacionalização (1938-1945) no distrito de Pirabeiraba, na cidade de Joinville (SC). O foco de interesse da pesquisa é a relação entre as chamadas associações escolares e a implantação da referida campanha no contexto escolar, bem como seus desdobramentos na comunidade local. Como fonte de pesquisa, foram utilizados relatórios, atas da inspetoria municipal de educação e jornais escolares produzidos por cinco das escolas que compunham a rede municipal de ensino de Joinville. Os materiais encontram-se salvaguardados pelo arquivo histórico da cidade. Os resultados da pesquisa evidenciam a complementaridade entre diferentes associações escolares criadas com o propósito de contribuir para a implementação da Campanha de Nacionalização, utilizando as práticas escolares cotidianas como estratégia de controle dos espaços educacionais.

Palavras-chave:
Campanha de Nacionalização (1938-1945); associações escolares; Pirabeiraba; Joinville

Resumen

Este artículo tuvo como objetivo discutir la Campaña de Nacionalización (1938-1945) en el distrito de Pirabeiraba, en la ciudad de Joinville (SC), Brasil. El foco de la investigación es la relación entre las llamadas asociaciones escolares y la implementación de la mencionada campaña en el contexto escolar, así como sus consecuencias en la comunidad local. Como fuente de investigación se utilizaron informes, actas de la inspección municipal de educación y periódicos escolares producidos por cinco de las escuelas de la red educativa municipal de Joinville. Los materiales están resguardados por el archivo histórico de la ciudad. Los resultados de la investigación destacan la complementariedad entre diferentes asociaciones escolares creadas con el propósito de contribuir a la implementación de la Campaña de Nacionalización, utilizando las prácticas escolares cotidianas como estrategia de control de los espacios educativos.

Palabras clave:
Campaña de Nacionalización (1938-1945); asociaciones escolares; Pirabeiraba; Joinville

Abstract

This article aimed to discuss the Nationalization Campaign (1938-1945) in the district of Pirabeiraba, in the city of Joinville (SC), Brazil. The focus of the research is the relationship between the so-called school associations and the implementation of the campaign in the school context, as well as its consequences in the local community. As research sources, reports, minutes of the municipal education inspectorate, and school newspapers produced by five of the schools that made up the municipal education network of Joinville were used. The materials are safeguarded by the city's historical archive. The results of the research highlight the complementarity between different school associations created with the purpose of contributing to the implementation of the Nationalization Campaign, using daily school practices as a strategy for controlling educational spaces.

Keywords:
Nationalization Campaign (1938-1945); school associations; Pirabeiraba; Joinville

Résumé

Cet article visait à discuter de la campagne de nationalisation (1938-1945) dans le district de Pirabeiraba, dans la ville de Joinville (SC). L’intérêt principal de la recherche est la relation entre les associations scolaires et la mise en œuvre de la campagne susmentionnée dans le contexte scolaire, ainsi que ses conséquences dans la communauté locale. Comme source de recherche, on a utilisé des rapports, des procès-verbaux de l'inspection municipale de l'éducation et des journaux scolaires produits par cinq des écoles qui composaient le réseau éducatif municipal de Joinville. Les documents sont conservés par les archives historiques de la ville. Les résultats de la recherche mettent en évidence la complémentarité entre les différentes associations scolaires créées dans le but de contribuer à la mise en œuvre de la campagne de nationalisation, en utilisant les pratiques scolaires quotidiennes comme stratégie de contrôle des espaces éducatifs.

Mots-clés:
Campagne de nationalisation (1938-1945); associations scolaires; Pirabeiraba; Joinville

Introdução

Durante o Estado Novo (1937-1945), o governo do então presidente Getúlio Vargas implementou a chamada Campanha de Nacionalização, vigente entre 1938 e 1945. Esta atingiu especialmente regiões colonizadas por imigrantes germânicos, onde predominava o uso do idioma alemão, de maneira particular o sul do Brasil. Como exemplo, podem ser citados a cidade de Joinville e o Distrito de Pirabeiraba1, ambos localizados no estado de Santa Catarina (Seyferth, 2003).

Como na época em que a referida campanha foi implantada a língua predominante em Joinville e Pirabeiraba era o alemão, assim como em outras partes do estado de Santa Catarina e do Brasil, a utilização do idioma pelos moradores da cidade e do distrito foi proibida. Embora não tenhamos números exatos acerca da porcentagem de falantes do alemão em Joinville e em Pirabeiraba, Bruhns (1997), ao apresentar as sociedades culturais existentes em Joinville e o impacto da Campanha de Nacionalização sobre elas, fala sobre o predomínio da língua alemã na vida dos moradores de Joinville:

Nos cinemas, as legendas dos filmes exibidos eram em língua alemã; poucos eram aqueles que traziam legendas em português. A partir de 1931, quando passaram a ser exibidos filmes falados, estes também eram em sua maioria em língua alemã. Quando o filme era apresentado em português, a nota do jornal continha esta informação. As associações culturais de teatro apresentavam seus espetáculos em língua alemã, o mesmo acontecia com as sociedades de canto coral. Suas atas eram também redigidas em alemão. Muitos programas de rádio eram em língua alemã, bem como suas músicas (Bruhns, 1997, p. 42).

Outra evidência da abrangência do idioma alemão sobre a população joinvilense é o jornal em língua alemã que circulava em Joinville na época em que foi decretada a Campanha de Nacionalização, intitulado Kolonie-Zeitung. Segundo Herkenhoff (1987), em 1937, o periódico contava com três mil assinantes, contra 250 em 1862, quando de sua fundação2.

Sobre Pirabeiraba, recorda-se aqui que, na escola mantida pela Sociedade Escolar Pedreira, fechada em 1938 em função da Campanha de Nacionalização, embora as aulas fossem ministradas em português, havia uma aula em alemão (Corrêa, 1992, p. 122). Tal situação, além de fornecer evidências acerca da importância do idioma alemão para a comunidade local, conforme Fiori (2003), mostra a falta de verba e a pouca eficácia da política imigratória nacional predominante durante o século XIX em relação a aspectos importantes para os imigrantes germânicos, como a educação escolar3.

Dessa forma, a construção de escolas entendidas como estrangeiras pelo governo brasileiro resultava do esforço dos imigrantes que fundaram as chamadas associações escolares, contribuindo financeiramente para a construção do prédio escolar e a contratação de professores. No caso de Pirabeiraba, a Sociedade Escolar Pedreira foi fundada em 1864 (Corrêa, 1992, p. 122).

Sobre a predominância do idioma alemão entre aqueles que viviam nas regiões colonizadas por imigrantes estrangeiros, como o sul do Brasil, segundo Fiori (2003), havia tolerância por parte do governo brasileiro pela falta de escolas públicas ou privadas com ensino em português que pudessem atender a todos os imigrantes.

Antes da Campanha de Nacionalização, essa intolerância com o idioma alemão havia ocorrido apenas durante a Primeira Guerra Mundial, quando o Brasil se encontrou em estado de guerra contra a Alemanha em função do torpedeamento do vapor Macau (Seyferth, 2003). Nesse contexto, também foi proibida a circulação de publicações em língua alemã, ocorrendo o fechamento das escolas consideradas estrangeiras. Contudo, após a Primeira Guerra, a utilização do idioma alemão e o funcionamento das escolas ditas estrangeiras voltaram a acontecer, situação distinta daquela depois da Segunda Guerra Mundial. A realidade escolar após a Campanha de Nacionalização sinaliza, pelo menos em parte, para o êxito da política educacional implementada pelo governo Vargas.

Durante a Campanha de Nacionalização, escolas locais consideradas estrangeiras, depois de fechadas, deram lugar à construção de escolas consideradas nacionais. Professores foram afastados, pois não foram aprovados em exames que tinham como foco o ensino em português. Tal situação ocorreu em Pirabeiraba, quando o senhor Gustavo Ohde, professor da escola mantida pela Sociedade Escolar Pedreira e também regente do Coral Pedreira e do Coral da Igreja Evangélica, não foi considerado apto ao exercício da docência. O professor não teria sido aprovado nas provas de classificação promovidas pelo governo de Santa Catarina, tendo como justificativa oficial sua dificuldade com a língua portuguesa (Brunken; Krüger, 2014, p. 15).

Em 1938, além de escolas municipais que compunham o chamado quarto distrito escolar, Pirabeiraba passou a contar com o Grupo Escolar Olavo Bilac, construído pelo governo catarinense em 1938, em substituição à escola mantida até então pela Comunidade Escolar Pedreira4, fundada no ano de 1906 (Brunken; Krüger, 2014). Conforme recorda Fiori (2003, p. 18):

Nessas situações, passaram a ocorrer fatos sui generis: na impossibilidade de continuar atuando no campo educacional, as Sociedades Escolares, como responsáveis por escolas particulares, tiveram de aceitar, num contexto de “ato de força”, que as escolas que mantinham fossem transformadas em escolas públicas. E dessa forma, o Estado tomou posse de muitos bens dessas instituições (terrenos, edificações, material didático), instalando, especialmente nas escolas “alemãs”, inúmeros estabelecimentos públicos de ensino - estaduais e municipais.

No espaço da escola, foram implantadas associações escolares, que em conjunto contribuíram para que a nacionalização da língua falada se tornasse um elemento concreto de fato. Contudo, além da substituição da língua alemã pela língua nacional, a língua portuguesa, a escola deveria, entre outras coisas, estimular o amor e o respeito pela pátria e por outros elementos de ordem nacional. Entre tais elementos, encontram-se os símbolos, heróis e datas nacionais, comemoradas regularmente no contexto escolar, conforme evidenciam os jornais escolares produzidos pelas escolas à época da Campanha de Nacionalização.

Entre as associações escolares criadas e efetivadas nas escolas da cidade de Joinville e no distrito de Pirabeiraba durante a Campanha de Nacionalização, encontram-se a Liga Pró-Língua Nacional, a Biblioteca Escolar, o Museu Escolar, o Pelotão de Saúde, o Clube Agrícola, o Caixa Escolar, a Liga da Bondade, o Clube de Leitura e os Círculos de Pais e Mestres.

No processo de pesquisa nas fontes históricas salvaguardadas pelo Arquivo Histórico de Joinville, foram encontradas fontes que se complementam e que subsidiam a análise apresentada neste artigo. As fontes em questão são relatórios da Inspetoria Municipal de Educação dos anos de 1940 a 1945, atas de reuniões com professores das redes municipal e estadual de ensino de 1941 a 1945 e jornais escolares produzidos pelos estudantes das escolas municipais de Joinville no período compreendido entre 1944 e 1945. De forma específica, analisaram-se jornais de cinco escolas localizadas no distrito de Pirabeiraba, na época conhecido pelo nome de Pedreira.

Os jornais escolares produzidos no período analisado trazem dados ainda pouco estudados quando pensamos os recortes locais do interior de Santa Catarina. É o caso, por exemplo, do impacto das políticas educacionais nacionais nas diferentes localidades da região Sul. Percebe-se, nestes espaços, a ação direta da reforma escolar Capanema com foco na formação de uma consciência patriótica e humanística, assim como a influência das políticas nacionais e internacionais implementadas durante a Segunda Guerra, a centralização do Estado, os discursos de enaltecimento à figura do Presidente Getúlio Vargas, dentre outras questões (Costa, 2021). Como se trata de jornais produzidos pelos alunos é preciso tentar distinguir os indícios da intervenção do Estado no âmbito escolar local. Nesse sentido, as datas comemorativas, os desenhos com temáticas nacionalistas, as referências ao aniversário do presidente, os poemas, os temas das matérias e da capa apontam para os direcionamentos nas esferas locais e estaduais, que se alinhavam às políticas impostas pelo Ministério da Educação e Saúde Pública, no âmbito federal.

Entende-se que os jornais escolares diferenciam-se da grande imprensa, que apoiou e ajudou a criar legitimidade para as ações de violência e arbitrariedades cometidas no Estado Novo (Sodré, 1966). No entanto, os jornais escolares não trazem discursos ingênuos, produzidos exclusivamente pelas ideias dos alunos. Mesmo possuindo alcance e atuação diferente da grande imprensa, o material produzido nas escolas deixa claro a intervenção estatal crescente nos diferentes espaços da sociedade.

Ao cruzar as informações decorrentes dos textos escritos pelos estudantes nos jornais com as atas e relatórios anteriormente citados percebe-se que as fontes se complementam, possibilitando identificar os impactos da Campanha de Nacionalização sobre a comunidade escolar local. As reuniões eram promovidas junto aos professores das Redes Estadual e Municipal de Ensino, tendo como pautas principais o compromisso das escolas e dos professores com a nacionalização e a importância da fundação e da manutenção das associações escolares - e, entre elas, dos jornais escolares.

Ao entrecruzar as fontes percebe-se que os jornais tinham uma dupla função. Além de estimularem o amor aos elementos nacionais, eles também serviam como um mecanismo de controle e informação acerca da implementação das ações e medidas relacionadas à Campanha de Nacionalização, tanto no contexto da escola quanto da própria comunidade. Desta maneira, tentou-se abarcar as diferentes esferas de implementação das políticas educacionais, tendo como foco os jornais escolares produzidos nas escolas de Pirabeiraba, Santa Catarina.

A campanha de nacionalização e as associações escolares

Em Joinville, a Campanha de Nacionalização, esteve sob a responsabilidade do 13º Batalhão de Caçadores. Entre as atribuições deste, encontravam-se a fiscalização e prisão daqueles que, no espaço público ou privado, fossem identificados como falantes da língua alemã (Bruhns, 1997).

Uma das ações da Campanha de Nacionalização foi o fechamento da escola mantida pela Comunidade Escolar Pedreira, fundada em 1906 e fechada em 1938 em virtude da Campanha de Nacionalização (Brunken; Krüger, 2014). Fechada a escola local, foi construído no mesmo lugar o Grupo Escolar Olavo Bilac, ainda em funcionamento, sob o nome de Escola de Educação Básica Olavo Bilac.

Além do Grupo Escolar Olavo Bilac, o distrito de Pirabeiraba contava na época com cinco escolas municipais. Com nomes que se referem a localidades ainda existentes na atualidade, as escolas chamavam-se Escola Rio Bonito, Escola da Tromba, Escola Rio da Prata, Escola do Pico e Escola Quiriri. Além do distrito de Pirabeiraba, chamado pela Inspetoria Municipal de Ensino da época de quarto distrito, a rede municipal de ensino era composta de outros três distritos. O primeiro distrito, Joinville, tinha 18 escolas; o segundo distrito, Bananal, 14 escolas; e o terceiro, Corveta, quatro escolas (Joinville, 1940).

A rede estadual de ensino, por sua vez, além do Grupo Escolar Olavo Bilac, tinha outros três grupos escolares na cidade, o Grupo Escolar Rui Barbosa, o Grupo Escolar Germano Timm e o Grupo Escolar Conselheiro Mafra5.

Embora as escolas em funcionamento no período de vigência da Campanha de Nacionalização pertencessem a redes de ensino diferentes, verifica-se por meio da análise das atas de reunião e dos relatórios elaborados pela Inspetoria Municipal de Educação que os professores das referidas redes eram convidados/convocados a participar conjuntamente das reuniões promovidas pelo Departamento Estadual de Educação em prol da implementação da Campanha de Nacionalização no contexto escolar.

Conforme registrado na ata da reunião pedagógica realizada no dia 25 de maio de 1942, “pediu o sr. Inspetor [Casemiro Leopoldo Chociay, do Departamento Estadual de Educação] que os professores, tanto municipais como estaduais auxiliem na obra de nacionalização do ensino” (Santa Catarina, 1942, p. 3).

A ata evidencia de forma escrita a preocupação do Departamento Estadual de Educação com a criação, a implementação e o funcionamento das chamadas associações escolares, haja vista a importância atribuída a elas na Campanha de Nacionalização. No quinto item tratado durante a reunião e registrado com o título de “Associações escolares”, o inspetor escolar recomenda que os professores “devem levar sempre avante as instituições que já estiverem fundadas e tratar de fundar as que ainda faltam” (Santa Catarina, 1942, p. 2).

Entre os registros que constam dos relatórios da Inspetoria Municipal de Ensino no período compreendido entre 1941 e 1945, é possível verificar o afinco dos inspetores da época, os senhores Agenor Schols Maia e Paulino de Bem, em acompanhar o processo de implementação e funcionamento das associações em cada uma das escolas da rede municipal de ensino, confirmando que ele se concretizasse de fato.

De modo especial, observa-se aqui o comprometimento do senhor Paulino de Bem no exercício do seu ofício, relatando mês a mês, com raras exceções, o resultado de suas visitas às escolas, bem como a situação em que se encontrava cada uma das associações citadas anteriormente (Joinville, 1941, p. 24; 1942a, p. 11; 1943; 1944; 1945). Como exemplo do exposto, transcreve-se a seguir trecho do relatório produzido pelo inspetor municipal Paulino de Bem de fevereiro de 1942:

Nacionalizar as nossas crianças, infiltrando-lhes na alma o amor aos nossos costumes, língua e tradições, é o dever dos professores. O Departamento de Educação tendo em vista tudo isso, deu ao professorado os meios para conseguir o fim supra exposto. [...] Esses meios são: um programa de ensino de acordo com o meio ambiente em que vive a criança. E as associações intraescolares, como meios mais preciosos para jogar a criança num futuro mais ameno e para que a mesma possa agir de pôr si, sem embaraços e constrangimentos. Essas instituições são: cooperativa, caixa escolar, jornal, Liga Pró-Língua Nacional, Liga da Bondade, Liga dos Pais e Mestres, Pelotão da Saúde, Museu, Biblioteca e Clube Agrícola (Joinville, 1942a, p.02).

Observa-se que nacionalizar algumas regiões do país passava a ser um dever não só do Estado, mas da instituição escolar e dos professores, auxiliados, por sua vez, por inúmeras associações escolares, cuja finalidade se voltava para a implementação da Campanha de Nacionalização no contexto da escola. Para o Ministro Gustavo Capanema, em uma fala na abertura da I Conferência Nacional de Educação, em novembro de 1941, a finalidade principal da Educação ofertada nas escolas públicas ou particulares era preparar as futuras gerações para “defenderem e protegerem a unidade, a independência e a honra da pátria” (Costa, 2021, p. 261). A educação se ligava fortemente aos interesses do Estado, sendo que a crescente intervenção do Estado era legitimada pelas ameaças provocadas pelo contexto da Segunda Guerra Mundial.

Dessa forma, o conhecimento que muitas vezes liberta o ser humano, dependendo de como é selecionado e de como é ministrado, também pode contribuir para o condicionamento daqueles que aprendem e ensinam, tendo em vista os objetivos inerentes à Campanha de Nacionalização.

Verifica-se durante a Campanha de Nacionalização uma concepção de educação que se aproxima daquilo que Paro (2014) define como “concepção tradicional de educação”, segundo a qual:

O papel do educador, de quem se espera que detenha conhecimento, é o de apresentar ou de expor determinado conteúdo ao aluno que, por sua vez, tem como obrigação esforçar-se por compreender e reter tal conteúdo. (Paro, 2014, p. 21)

Ao contrário, propõe-se aqui, de forma breve, pensar em concepção de educação que extrapole “a concepção tradicional de educação” acima citada, que de acordo com Paro (2014) ainda sobrevive na atualidade entre as concepções que suportam o fazer pedagógico de alguns docentes ou até mesmo de alguns sistemas educacionais. Reforça-se aqui, conforme propõe o próprio Paro (2014), olhar para a educação em seu sentido mais amplo e rigoroso. De acordo com o autor:

Em primeiro lugar, a preocupação da educação tomada num sentido mais rigoroso é com o homem na integralidade de sua condição histórica, não se restringindo a fins parciais de preparação para o trabalho, para ter sucesso em exames ou qualquer outro aspecto restrito da vida das pessoas. Em segundo lugar, e em consequência disso, seu conteúdo é a própria cultura humana em sua incerteza, como produção histórica do homem, não se bastando nos conhecimento e informações, como costuma fazer a educação tradicional. (Paro, 2014, p.26)

Tal concepção, extrapola aquilo que Venera (2007) define como a construção discursiva do homem útil, constituindo-se a educação durante o Estado Novo e a vigência da Campanha de Nacionalização, como,

(...) o caminho para a construção de uma identidade nacional, e as escolas, o mecanismo para a formação de sujeitos úteis que passariam a ser, cada vez mais, subjetivados na medida em que se acentuava o caráter autoritário do regime. (Venera, 2007, p. 40)

No relatório do dia 15 de janeiro de 1941, referindo-se ao ano anterior, o inspetor Agenor Schols Maia relata:

Num total de 81 (oitenta e uma) visitas de inspeção, das quais foram lançados os respectivos termos nos livros importantes. Além dessas, porém, grande número de visitas rápidas foram realizadas, cujo feito foi, apenas, o de fiscalizar o horário escolar estabelecido, verificando, ao mesmo tempo, o aproveitamento dos alunos sua frequência às aulas, as condições materiais das escolas e sobretudo se estava sendo observado o Regulamento do Ensino do Estado e a Campanha de Nacionalização (Joinville, 1941).

Ao expor no relatório os gastos com material escolar adquirido para as escolas mantidas pela Prefeitura de Joinville no ano de 1940, conforme verificado no Quadro 1, fica evidente o comprometimento da rede municipal de ensino de Joinville com a Campanha de Nacionalização, bem como o suporte necessário às celebrações de caráter nacional, como a Semana da Pátria.

Quadro 1.
Gastos com a educação municipal de Joinville (SC) no ano de 1940

Além dos gastos específicos com as comemorações do dia 7 de setembro, observa-se a compra de material didático e de um quadro do então presidente Getúlio Vargas para cada uma das salas de aula.

Retornando às associações escolares, é possível verificar nos relatórios de 1942 a 1945 produzidos pelo inspetor municipal, o senhor Paulino de Bem, a atenção dada ao empenho das professoras das escolas municipais em relação à fundação e manutenção das associações escolares, conforme exposto no trecho apresentado a seguir, presente nos termos de visita à Escola Mista Desdobrada Rio da Prata. Além de examinar o desempenho dos estudantes em aritmética, português, higiene, história e geografia, o inspetor descreve:

A senhorita professora é dedicada à sua causa de instrução primária. Já fundou as seguintes instituições: Caixa escolar, Pelotão da Saúde, Liga Pró-Língua Nacional, Biblioteca e um pequeno Museu em formação e um lugar de honra para a Bandeira Nacional. Louvo a senhorita professora pelo asseio e ordem e disciplina de sua classe e pelo muito que vem tratando em pró da educação dessas pequenas crianças, futuros homens do Brasil (Joinville, 1942a, p. 10).

No mesmo relatório, contudo, no termo de visita à Escola Mista Municipal do Quiriri, localizada no distrito de Pedreira, o inspetor informa que ainda não haviam sido fundados o Pelotão de Saúde, a Liga Pró-Língua Nacional nem o Clube Agrícola, recomendando à professora que as referidas associações fossem fundadas. A mesma orientação está presente também no relatório de 1º de abril de 1942. Ao descrever a visita ocorrida à escola da Tromba, localizada no distrito de Pirabeiraba, em março daquele ano, o inspetor observa que recomendou à professora a fundação da Liga Pró-Língua Nacional e do Pelotão de Saúde (Joinville, 1942b).

No relatório de maio de 1942, o inspetor registra em seu relatório quão árdua é a “missão nacionalizadora” dos professores, considerando que em algumas escolas a maioria dos estudantes falava apenas a língua alemã.

Muito não se pode exigir de professores em certas zonas deste município em que as crianças na sua quase totalidade, dificilmente entendem o português.
O vocábulo da língua pátria é muito reduzido e, daí, a dificuldade na compreensão do que lhe é ensinado.
A criança tem a oportunidade de falar o português somente no recinto escolar, na casa paterna, tudo muda; os costumes e línguas são outros.
Há professores que no início do ano letivo possuíam matrículas de 40 a 45 alunos dos quais 10 a 15 não falavam o português.
Se tais professores conseguirem até o fim do decorrente ano, ensinar a essas crianças a falar o vernáculo, já são dignos de elogios.
Felizmente a Campanha de Nacionalização do Ensino encetada por todos os professores, já obteve e está obtendo bons resultados (Joinville, 1942c, p. 10).

Vê-se aqui que o primeiro passo a ser dado nas escolas para que a Campanha de Nacionalização fosse bem-sucedida era o aprendizado da língua portuguesa, especialmente em regiões de colonização germânica, onde predominava o idioma alemão, caso específico de Pirabeiraba.

Se no relatório de julho de 1942 o inspetor elogia o trabalho das professoras, informando que “do grande número de crianças que desconheciam o idioma Pátrio já se reduziram muito boa porcentagem” (Joinville, 1942d), cada vez mais, conforme os anos passavam, os relatórios do inspetor municipal deixavam claro o alcance da Campanha de Nacionalização no contexto da escola, mormente no que tange ao domínio da língua portuguesa. No relatório geral do ano de 1943, duas páginas tratam especificamente da Nacionalização:

Anualmente viemos observando o número de crianças que, ao entrar na escola não falavam o português, diminui sensivelmente. Em 1943, nas 46 escolas existentes, com uma matrícula de 2.307 alunos, o número dos mesmos que não falavam a língua pátria, atingiu um total de 63 crianças, neste ano, com matrícula de 2421 alunos, encontramos somente o reduzido número de 32.

A pronúncia das crianças que era deturpada: troca dos rr fortes pelo rr brandos, dos “bb” pelos “dd”, dos “ff” pelos “vv” etc. Houve grande aproveitamento neste ponto.

Hoje poderemos afirmar que 70% a 80% dos alunos matriculados já tem a nossa pronúncia brasileira e isso alcançou-se pelas providências tomadas: colocando-se nas zonas, onde mais predominava o elemento de origem alemã, professores genuinamente brasileiras com boa pronúncia de linguagem e verdadeiro espírito de brasilidade (Joinville, 1943, p. 41).

Além da contribuição dos professores no processo de nacionalização dos estudantes por meio do ensino da língua nacional, o inspetor chama a atenção para as associações escolares, afirmando que “a Liga Pró-Língua Nacional, Clube de Leitura e Biblioteca tem sido a causa primordial dos bons resultados obtidos na nacionalização” (Joinville, 1943, p. 42).

As contribuições da escola com a nacionalização dos estudantes extrapolavam os muros escolares, chegando ao lar. De acordo com o inspetor Paulino de Bem:

Hoje, os pais já procuram os professores não só na ocasião da matrícula, mas, também, nas festas e dias úteis, falando a língua portuguesa, si bem que, um tanto arrastada, contudo, isso já é muito, em face do que era nos anos anteriores (Joinville, 1943, p. 42).

Em 1943, ao redigir o relatório geral daquele ano, o inspetor Paulino de Bem, por meio de um quadro demonstrativo, informa numericamente as associações escolares existentes em toda a rede municipal de ensino. Do total de 45 escolas, 11 possuíam a Liga da Bondade, 37 a Liga Pró-Língua Nacional, 30 o Clube Agrícola, 11 o Museu Escolar, 44 o Caixa Escolar, 36 o Jornal Escolar e 20 o Clube de Leitura (Joinville, 1943).

Quando se volta o olhar para a escolas de Pirabeiraba, observa-se que a Escola Quiriri não tinha a Liga da Bondade, o Museu Escolar nem o Clube de Leitura, e a Escola do Pico e a Escola da Tomba não contavam com a Liga da Bondade nem com o Clube de Leitura. A Escola Rio Bonito e a Escola Rio da Prata eram duas das três escolas de toda a rede que possuíam todas as instituições escolares.

Observando que tanto a Escola Rio da Prata quanto a Escola Quiriri estavam situadas em um núcleo de colonização germânica, um distrito, por sua vez, afastado do centro da cidade de Joinville, infere-se aqui a possibilidade da existência de um olhar mais atencioso para a região por conta da preocupação da Campanha de Nacionalização com o chamado “perigo alemão”. De acordo com Seyferth (2003, p. 54), o “perigo alemão” aqui referido está relacionado com a resistência teuto-brasileira à assimilação.

A Campanha de Nacionalização teve como uma das suas principais justificativas o “perigo alemão” no período da Segunda Guerra. Verifica-se que neste período aumentou o número de reuniões com os professores das Redes Estadual e Municipal de Ensino, promovidas pela Inspetoria Estadual de Educação em parceria com a Inspetoria Municipal de Educação, acontecidas mensalmente. Nesse contexto, o principal ponto de atenção era a nacionalização das escolas consideradas estrangeiras, especialmente aquelas localizadas em locais de colonização germânica, na qual se enquadram Joinville e Pirabeiraba (Seyferth, 2003). Em outras palavras, havia a preocupação com a não assimilação dos imigrantes e o surgimento de um Estado dentro de outro Estado, preocupação que, segunda a autora, se mostrava latente já no período imperial, época em que Joinville e Pirabeiraba foram colonizadas.

A preocupação, neste caso, não reside apenas na constituição de colônias estrangeiras numa área sujeita a questões de fronteira, mas também no aumento de uma população avessa à assimilação e, além do mais, protestante (Seyferth, 2003, p. 30).

De acordo com Seyferth (2003), durante a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, temia-se que, com o apoio do Império Alemão, as colônias, consideradas “quistos étnicos”, pudessem desencadear movimentos separatistas tendo em vista os ideais expansionistas da Liga Pangermânica.

A mesma preocupação passou a circundar as regiões de colonização germânica na década de 1930, quando do surgimento do Nacional Socialismo, representado pelo Partido Nazista na Alemanha, e da deflagração da Segunda Guerra Mundial. Ainda segundo Seyferth (2003, p. 55):

O nazismo, da mesma forma que o pangermanismo, tentou subverter o Deutschbrasilianertum, introduzindo nova categoria de identificação étnica. Na versão nazista, os teuto-brasileiros são considerados Volksgenossen (compatritotas) e o Brasil, a sua Gastland (terra de hospedagem). A Volksgemeinschaft nazista, a partir de um critério exclusivamente racial, engloba os 100 milhões de “compatriotas” em todo o mundo, fiéis a herança dos seus antepassados e à sua peculiaridade racial e de sangue. [...] A tarefa dos membros do partido nazista, junto à população teuto-brasileira, era a “regermanização” de um conjunto de pessoas que pertencem ao povo alemão (são Volksdeutschen) e que perderam parte de sua herança germânica.

Desse modo, compreendem-se a estratégia governamental quando da instituição da Campanha de Nacionalização e, sobretudo, sua abrangência sobre a educação ministrada nas chamadas escolas estrangeiras, especialmente aquelas ditas germânicas, considerando aqui que a língua, enquanto vetor cultural, contribui para a manutenção dos elementos culturais pertinentes a determinado grupo étnico. Como enfatiza Seyferth (2003, p. 32):

A escola alemã, por exemplo, foi um elemento crucial para a manutenção da língua alemã nas colônias e, em grande parte, o uso cotidiano do idioma de origem tornou-se o mais eficiente elemento de identificação étnica.

Nesse contexto, a análise dos relatórios da Inspetoria Municipal de Educação do período compreendido entre 1943 e 1945 evidencia o empenho da inspetoria em relação à ampliação do número de associações escolares. Como exemplo dessa afirmação, em 1945, último ano do Estado Novo, 42 escolas mantinham em funcionamento o jornal escolar, a Liga Pró-Língua Nacional e o Clube de Leitura. Os números são superiores àqueles apontados pelo relatório anual de 1943, ano em que a fundação dos jornais escolares é tratada como obrigatoriedade segundo informação repassada aos professores nas reuniões promovidas pelo Departamento Estadual de Educação.

Jornal escolar: evidência concreta da Campanha de Nacionalização no Contexto Educacional

Propõe-se neste item tratar especificamente de uma das associações citadas anteriormente, os jornais escolares. A escolha ocorreu pelo fato de os jornais escolares evidenciarem, entre os diversos assuntos retratados, as instituições existentes nas escolas e como se encontrava o seu funcionamento.

De acordo com o relatório anual de 1943 da Inspetoria Municipal de Educação, o número de escolas existentes era 45, e 36 delas contavam com o jornal escolar em funcionamento. Segundo Fontoura (2013, p. 150), o acervo do Arquivo Histórico de Joinville possui 62 títulos diferentes de jornais escolares produzidos por estudantes de 54 escolas da rede municipal de ensino de Joinville no período de 1944 a 1953. Diante dessa quantidade, propõe-se aqui um recorte da quantidade de jornais escolares a serem discutidos neste artigo. Sendo assim, são utilizados como exemplo cinco jornais produzidos pelas cinco escolas municipais que compunham o chamado quarto distrito, entre 1944 e 1945, conforme Quadro 2.

Quadro 2.
As escolas do distrito de Pirabeiraba, Joinville (SC), e seus respectivos jornais

A análise dos relatórios da Inspetoria Municipal de Ensino, bem como as atas das reuniões promovidas pelo Departamento de Educação Estadual, que reuniam tanto os professores da rede estadual como os da rede municipal de ensino, deixa evidente a importância das associações escolares, entre elas os jornais escolares. Conforme ata da reunião pedagógica de 3 de março de 1943:

Iniciada a reunião, fez o snr. Presidente preleção de ordem geral para conhecimento completo das instituições escolares, pois todas sem exceção, teve por objetivo, preparar a criança para a vida, em seus múltiplos aspectos. [...] falou sobre o Jornal escolar, a obrigatoriedade de um órgão mensal de imprensa em cada escola, sua finalidade e sua remessa em dois exemplares à Inspetoria e ao Departamento de Educação (Santa Catarina, 1943, p. 1).

Como é possível perceber, a criação e manutenção do jornal escolar não eram apenas uma proposta ou sugestão, mas uma obrigatoriedade. Tanto que nos relatórios posteriores ao ano de 1943 se verificou que, do total de 45 escolas, 36 tinham o jornal escolar. No ano de 1944 esse número chegava a 38 e em 1945 a 42 escolas. Embora o número de escolas difira entre os relatórios de 1943 e 1945, observa-se que o número de jornais escolares aumentou, assim como o de outras associações escolares, especialmente a Liga Pró-Língua Nacional e o Clube de Leitura, três associações entrelaçadas entre si. Em 1945, todas as 42 escolas citadas no relatório geral da Inspetoria Municipal possuíam as três associações.

Ao atentar-se às páginas dos jornais e às informações contidas em cada uma de suas colunas, é possível perceber também conteúdos relacionados à celebração de elementos nacionais, como datas, símbolos e heróis. É comum observar em algumas edições homenagens ao presidente da República de então, o senhor Getúlio Dornelles Vargas.

Ao folhear as edições de cada um dos jornais analisados, igualmente, é comum verificar a forma como ocorriam a implantação e o funcionamento de cada uma das associações escolares nas diferentes escolas da rede municipal de ensino, sendo corriqueiro informar as atividades do Pelotão de Saúde e do Clube Agrícola.

Sobre o Clube Agrícola especialmente, algo que chama a atenção nos relatórios da Inspetoria Municipal de Educação é a justificativa da sua importância: por meio dele, “os alunos aprendem a amar a terra cultivando-a” (Joinville, 1944, p. 67). Afinal, nada mais propício em tempo de nacionalização do que estimular o amor pela pátria mediante o cultivo do “torrão brasileiro”.

Não faltavam menções aos festejos de caráter nacional e à sua organização pela comunidade escolar. Como exemplo, podem ser citados os preparativos para a Semana da Pátria, recorrente ano após ano.

Os jornais escolares seguiam diretrizes preestabelecidas, mas diversificavam-se quanto às notícias acerca da comunidade local. Não é raro observar, ao analisar a capa com o título de cada um dos jornais, que estes se relacionavam com elementos de ordem nacional e republicana, bem como com valores inerentes ao discurso estatal predominante durante o Estado Novo, como trabalho e disciplina. Podem ser encontrados títulos como: O Brasil, Brasil, Meu Brasil; O Estado; O Cruzeiro; Meu Torrão; O Labor; Nossa Terra; Pindorama; e Duque de Caxias. Sobre a relação entre os jornais e as demais associações escolares, de maneira específica a Liga Pró-Língua Nacional, recorre-se aqui a Coelho (2000, p. 35):

O Departamento de Educação do Estado recomendava a criação da Liga Pró-Língua Nacional, com núcleos em diferentes estabelecimentos de ensino, tratavam-se de grupos compostos por alunos e professores que tinham conhecimento do idioma português, incumbidos de ensinar a língua às crianças que a desconheciam. A ideia básica era atingir aos pais, forçando assim, a adoção do português como língua oficial.

Retomando mais uma vez a importância da Liga Pró-Nacional, bem como o registro dessa importância pelos jornais escolares, apresenta-se a seguir um recorte do relatório da Inspetoria Municipal de Educação do ano de 1943 evidenciando o entrelaçamento e a complementaridade entre as associações escolares, sobretudo a Liga Pró-Língua Nacional e os jornais escolares:

A Liga Pró-Língua Nacional muito tem contribuído para a nacionalização do ensino. É por meio da Liga Pró-Língua Nacional, que nossos pequenos educandos mantêm um intercâmbio epistolar, entre as escolas e grupos deste município e, também entre os municípios vizinhos.

Manuseando e elaborando os álbuns chegam ao conhecimento de uma forma muito natural, daquilo que é nosso, por meio de fotografias e recortes de revistas e jornais.

Estas três associações [Liga Pró-Língua Nacional, Clube de Leitura e jornal escolar], pela finalidade e assunto, estão intimamente ligadas entre si.

Em geral, os alunos da Liga são os mais capazes para a elaboração do jornal, cujos assuntos são resultantes do trabalho dos Clubes de Leitura.

Os educandos mutuamente aprendem novos vocábulos e corrigem a pronúncia defeituosa dos colegas da classe.

Essas instituições têm sido meio seguro de nacionalizar e ensinar as crianças a falar com correção a língua Nacional.

Em geral, são, os alunos destas que organizam as festas em homenagem à Bandeira Nacional.

No final do presente ano, cada professor apresentou um relatório bem elaborado sobre as associações.

Por ele, realmente podemos observar que há um interesse por parte de todos.

Os jornais que temos em nosso arquivo, bem demonstram o que afirmamos (Joinville, 1943).

O texto supracitado apresenta-se de forma padronizada nos relatórios de 1944 e 1945, e, de acordo com o conteúdo das duas últimas linhas da citação, reforça mais uma vez a importância dos jornais escolares como instrumento que evidencia o êxito da Campanha de Nacionalização no contexto da escola e seus impactos sobre a comunidade escolar, especialmente na substituição da língua alemã pela língua pátria. A redação dos jornais escolares em língua portuguesa deixa claro que a língua já é de domínio dos estudantes, pelo menos daqueles que, conforme evidencia a citação, participavam da Liga Pró-Língua Nacional, do Clube de Leitura e do jornal escolar.

Sobre o conteúdo de cada uma das edições dos jornais, é comum encontrar de forma padronizada em cada uma das edições homenagens aos heróis nacionais referentes a cada mês do ano. Igualmente, é bastante comum deparar com textos de enorme semelhança entre os diferentes periódicos analisados. Quando comparadas edições de um mesmo jornal de anos diferentes, no que tange à homenagem ao herói nacional daquele ano, pode-se pensar que se trata do mesmo texto reproduzido. Todavia, acredita-se que isso não seja mera coincidência, mas sim tenha intencionalidade, por tratar-se de um veículo de imprensa a serviço da Campanha de Nacionalização em ambiente escolar, sendo a repetição da informação um mecanismo pedagógico útil.

Sobre os heróis nacionais de cada mês, em abril se homenageava Tiradentes. No mês de setembro, homenageavam-se D. Pedro I, a Independência do Brasil e a Semana da Pátria. Em novembro, era bastante comum homenagens à bandeira nacional e ao Marechal Deodoro da Fonseca, considerado herói republicano. Já em agosto, dedicava-se uma coluna inteira ao Dia do Soldado e ao Duque de Caxias, patrono do Exército brasileiro.

Fala-se aqui de um ensino de história voltado para o ensino de uma história cujos principais protagonistas são homens, detentores de cargos de destaque em âmbito político, econômico e/ou militar. As pessoas comuns, por sua vez, também aparecem representadas, geralmente envolvidas em atividades desenvolvidas no espaço da escola, como, por exemplo, participando das associações escolares, ou sendo parabenizadas pela passagem de seu aniversário.

Os jornais também se mostram como uma fonte riquíssima quando se objetiva conhecer as condições materiais vivenciadas pelos estudantes e professores diariamente. Como exemplo, pode ser citada a descrição da sala de aula dos estudantes da Escola da Tromba, conforme edição n. 13, ano 2, do jornal Vitória.

A nossa escola é feita de tijolos e dentro dela é pintado de duas cores: azul e branco. A nossa escola é grande e bonita. Possui cinco janelas e duas portas. Tem 25 carteiras para os alunos, uma mesa e duas carteiras para a nossa professora. A mesa está forrada com uma toalha, tem um vaso com flores, um tinteiro, duas canetas e um lápis. Na nossa sala de aula também tem um lindo quadro do Dr. Getúlio Vargas e do Dr. Nereu Ramos. Possui uma estante que serve para guardar os cadernos dos alunos. Tem uma prateleira com os livros da biblioteca e um armário com os medicamentos do Pelotão de Saúde. Ainda tem dois quadros negros nos quais a professora escreve nossos deveres (Pabst, 1944, p. 3).

Os jornais também retratam as solenidades promovidas na escola em homenagem ao aniversário do presidente da República Getúlio Vargas, conforme registrado na edição de abril de 1944 do jornal Avante Brasileiros, da Escola Rio da Prata:

No dia 19 do corrente transcorreu o aniversário natalício do ilustre chefe da nação brasileira, dr. Getúlio Vargas.

Todos os brasileiros festejaram com imenso júbilo esta data.

Em nossa escola, fizemos uma manifestação homenageando o querido chefe.

Nossa professora contou-nos a vida do grande presidente desde sua infância.

O “Avante Brasileiros”, embora tarde, almeja ao dr. Getúlio, as mais sinceras felicitações e roga a Deus que o seu governo seja sempre coberto de glórias (Maier, 1944, p. 1).

Sobre o entrelaçamento entre os jornais escolares e as demais associações escolares, conforme citado anteriormente, era comum o registro nos jornais das atividades das demais associações existentes na escola.

Outra notícia que veiculava nos jornais e merece destaque é a interação ocorrida entre os estudantes das redes municipal e estadual de ensino nos festejos em torno da Semana da Pátria. Como exemplo, pode-se citar a edição de setembro de 1944 do Avante Brasileiros:

No dia 7 de setembro foi comemorada a Independência do Brasil.

Nos reunimos com alunos de outras escolas. Fomos no Grupo Escolar Olavo Bilac para festejarmos esta memorável data. Chegamos lá e logo começou a festa.

Muitos alunos disseram poesias e cantamos.

Houve muita gente assistindo a festa, apesar da chuva que caía.

Depois da festa acabada, foi distribuído lanche a todos os escolares.

Regressamos para casa meio-dia, contentes de termos feito um passeio e também de ter sido festejada com grande entusiasmo a nossa independência (Brüske,1944, p. 2).

Torna-se propício esclarecer que as comemorações da Semana da Pátria não se constituíam em um ato espontâneo de civismo por parte de professores e estudantes. Ao contrário, estavam inseridas em um conjunto de medidas nacionalizadoras a serem introduzidas nas regiões de colonização germânica, geralmente entendidas como “quistos étnicos” pelo Exército brasileiro, responsável pela operacionalização da Campanha de Nacionalização. De acordo com Seyferth (2003, p. 58):

Para os brasileiros em geral e, em especial, para os soldados encarregados da ação nacionalizadora, os núcleos teuto-brasileiros eram vistos como focos de desagregação do espírito nacional e quistos raciais ameaçadores da soberania brasileira. Foram tomadas medidas cívicas, como o serviço militar obrigatório longe das regiões de colonização alemã, a distribuição de textos produzidos pela Agência Nacional, a comemoração obrigatória da semana da pátria, o incentivo ao escotismo, festas e outras atividades programadas pela Liga de Defesa Nacional, entre outras.

Seyferth (2003) enfatiza a ocorrência da Campanha de Nacionalização em outros estados da federação, especialmente no contexto educacional, e observa que a Campanha de Nacionalização estava alinhada em âmbitos nacional, estaduais e municipais.

Nas páginas dos jornais escolares, encontra-se um espaço destinado às relações sociais, sendo comuns homenagens aos amigos da escola e da comunidade. Havia ainda espaço para anedotas e causos, bem como relatos sobre as férias de fim de ano e o recesso de inverno, por vezes referindo-se às saudades da escola e dos amigos.

Ao encerrar a apresentação dos resultados obtidos da análise dos jornais escolares, bem como das citações escolhidas, constata-se que a implementação da Campanha de Nacionalização no ambiente da escola por meio das associações escolares obteve êxito. Especialmente, a Liga Pró-Língua Nacional, o Clube de Leitura e o jornal escolar podem ser consideradas três instituições entrelaçadas entre si. O jornal escolar enquanto produto físico da Campanha de Nacionalização na esfera da escola era encaminhado para o Departamento de Educação como prova viva dos resultados concretos da Campanha de Nacionalização.

Considerações finais

As associações escolares relacionam-se entre si tendo em vista o papel desempenhado por elas durante a Campanha de Nacionalização quanto à nacionalização do ensino, de modo especial nas regiões outrora colonizadas por imigrantes.

Em um período em que falar o alemão se tornou algo proibido por lei, diante da obrigatoriedade do uso da língua nacional, a língua portuguesa, os impactos foram sentidos tanto no espaço privado do lar como nos espaços de caráter público, como escolas, sociedades culturais, igrejas, ruas e comércios. Aprender a língua nacional e utilizá-la cotidianamente passou a ser essencial na busca pela sobrevivência em um contexto em que aqueles ditos “alemães” eram vistos com desconfiança.

As associações escolares funcionaram como instrumentos eficazes no processo de nacionalização do ensino quando observado o contexto da escola, sobretudo o êxito da Campanha de Nacionalização no processo que resultou na utilização cotidiana da língua portuguesa em substituição à chamada língua alemã. Compreendidas enquanto dispositivos práticos no processo de conhecimento e assimilação dos elementos nacionais, as associações escolares contribuíram para o aprendizado e a utilização da língua nacional, reproduzindo, conforme evidenciado nos jornais escolares, o discurso de valorização de elementos de ordem nacional.

Assim, entende-se a língua nacional enquanto vetor cultural. Aprendida e reaprendida cotidianamente no espaço da sala de aula, bem como em eventos, festejos cívicos e, principalmente, associações escolares, contribuiu com o processo de assimilação dos objetivos propostos pela Campanha de Nacionalização por parte dos estudantes e, por conseguinte, de seus familiares, impactando diretamente nos laços culturais dos habitantes de origem germânica, ou seja, em sua germanidade (Seyferth, 2003).

Fica claro, portanto, que dominar a língua nacional, ainda que de forma rudimentar, avalizava a participação nas diferentes associações escolares, de maneira específica na Liga Pró-Língua Nacional, no Clube de Leitura e no jornal escolar, ou ainda nas atividades a que essas associações eram incumbidas de realizar, considerando sempre sua relação com a Campanha de Nacionalização.

De forma mais ampla, a participação nas associações escolares resultava em desdobramentos que iam além dos muros da escola, fazendo dos estudantes vetores da nacionalização, estendendo aos espaços privados, como o lar, por exemplo, os conteúdos apreendidos na escola. Logo, os estudantes contribuíam para que seus familiares, que já não mais se encontravam em idade escolar, na sua maioria falantes da língua alemã, também se apropriassem da língua portuguesa, bem como de conceitos, conteúdos e valores propagados pelo projeto nacionalizador do Estado Novo.

Essa transferência de conhecimento, provavelmente pensada por aqueles que gestaram a nacionalização da escola, também possibilitou àqueles que não dominavam a língua portuguesa até então instrumentalizar-se perante as arbitrariedades praticadas pelos agentes do projeto nacionalizador, com destaque contra aqueles que não faziam uso da língua portuguesa, sobretudo no que se refere ao circular e comunicar-se em espaços públicos, ou ainda proteger-se das más intenções daqueles que se apresentavam favoráveis ao projeto nacionalizador estadonovista.

Ao privilegiar a história nacional, mormente figuras de destaque em âmbitos político, econômico e militar, bem como datas nacionais que se alinhavam com o discurso nacionalista predominante durante o Estado Novo e legitimado pela Campanha de Nacionalização, as associações escolares atuaram como instrumento de legitimação do projeto nacional, o que reverberou também em outros espaços, públicos e privados, especialmente o lar e a família, tornando os estudantes, além de sujeitos, por extensão, mesmo que de forma inconsciente, agentes do processo de nacionalização.

Referências

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  • VENERA, José Isaías. Tempo de Ordem: a construção discursiva do homem útil. Itajaí: Univali Editora, 2007.
  • 1
    Segundo Morriesen (2021), o nome foi mudado para Pirabeiraba após a Segunda Guerra Mundial, com a intenção de evitar confusão com uma cidade em São Paulo chamada Pedreira.
  • 2
    O Kolonie-Zeitung, fundado por Ottokar Dörffel, foi um dos primeiros jornais de língua alemã no Brasil, circulando de 1862 a 1942 (Miranda; Westphal; Meira, 2024).
  • 3
    No caso de Joinville, na maioria das escolas criadas e mantidas no século XIX e no período da Primeira República o ensino era feito em alemão. Um exemplo disso é o relato feito por Manoel Duarte (1917), no jornal O Dia. Em 1916, os dados extraídos do relatório do superintendente do município relativo a 1916 destacam que a cidade, que tinha 38 mil habitantes, contava com “um grupo escolar, tendo anexa uma escola complementar, com uma matrícula de 234 crianças, [...] mais seis escolas isoladas distribuídas pelo interior rural. Essas últimas acusam oficialmente a matrícula de 229 alunos, perfazendo um total de 463 crianças que, no município recebem o ensino feito em português. Há, porém, 47 outras escolas particulares subvencionadas pela municipalidade, além de outras mantidas exclusivamente pelas comunidades coloniais” (Duarte, 1917, p. 3).
  • 4
    De acordo com Herkenhoff (1987), já em 1864, aqueles que colonizaram Pirabeiraba tiveram a preocupação de fundar a Comunidade Escolar Pedreira, arrecadando fundos para a construção de um prédio escolar e pagamento de um professor.
  • 5
    Atualmente, apenas os grupos escolares Olavo Bilac e Germano Timm ainda funcionam enquanto escolas de educação básica.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo

Editado por

  • Editor responsável:
    Eduardo Cristiano Hass da Silva

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Maio 2025
  • Aceito
    18 Jul 2025
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