Open-access DA ALEMANHA AO INTERIOR DA AMAZÔNIA: UM PROJETO DE FORMAÇÃO ESCOLAR CONFESSIONAL

DE ALEMANIA AL INTERIOR DE LA AMAZONIA: UN PROYECTO EDUCATIVO ESCOLAR CONFESIONAL

FROM GERMANY TO THE INTERIOR OF THE AMAZON: A CONFESSIONAL SCHOOL EDUCATION PROJECT

DE L'ALLEMAGNE A L'INTERIEUR DE L'AMAZONE: UN PROJET D'EDUCATION SCOLAIRE CONFESSIONNELLE

Resumo

Objetivamos discutir sobre o projeto de formação escolar confessional implementado pela Igreja Católica de vertente alemã na Amazônia, sobretudo na região conhecida como Vale do Juruá, da qual faz parte, entre outros, o município de Cruzeiro do Sul/Acre. Realizamos uma pesquisa documental a partir da análise de fontes do acervo do Instituto Santa Teresinha, em Cruzeiro do Sul, Acre. Como referencial, apoiamo-nos em autores que discutem sobre história transnacional e circulação de modelos de ensino. Os resultados endossam, a partir da história transnacional e da circulação de modelos de ensino, a influência das ideias pedagógicas trazidas da Alemanha pelos religiosos da Igreja Católica que migraram para o Vale do Juruá. Nesta região, ocorreu a montagem de uma rede de escolas confessionais que ofereciam diferentes níveis e modalidades de ensino e que faziam circular ideias e modelos pedagógicos vindos de espaços europeus, por exemplo.

Palavras-chave:
Escolas confessionais; Modelos pedagógicos; Circulação de ideias

Resumen

Nuestro objetivo es debatir sobre el proyecto de formación escolar confesional implementado por la Iglesia Católica de tendencia alemana en la Amazonía, sobre todo en la región conocida como Valle del Juruá, de la que forma parte, entre otros, el municipio de Cruzeiro do Sul/Acre. Realizamos una investigación documental analizando fuentes del acervo del Instituto Santa Teresinha, en Cruzeiro do Sul, Acre. Como referencia, utilizamos autores que discuten la historia transnacional y la circulación de modelos de enseñanza. A partir de la historia transnacional y de la circulación de modelos de enseñanza, los resultados avalan la influencia de las ideas pedagógicas traídas de Alemania por los religiosos de la Iglesia Católica que emigraron al interior de la región amazónica, en el estado de Acre, especialmente en el Valle del Juruá. Se creó una red de escuelas confesionales, que ofrecían diferentes niveles y tipos de enseñanza y hacían circular ideas y modelos pedagógicos procedentes de Europa, por ejemplo.

Palabras clave:
Escuelas confesionales; Modelos pedagógicos; Circulación de ideas

Abstract

We aim to discuss the confessional school education project implemented by the German branch of the Catholic Church in the Amazon, especially in the region known as Vale do Juruá, which includes, among others, the municipality of Cruzeiro do Sul/Acre. We carried out documentary research by analyzing sources from the collection of the Santa Teresinha Institute in Cruzeiro do Sul, Acre. As a reference, we relied on authors who discuss transnational history and the circulation of teaching models. Based on transnational history and the circulation of teaching models, the results endorse the influence of the pedagogical ideas brought from Germany by the religious of the Catholic Church who migrated to the interior of the Amazon region, in the state of Acre, especially in the Vale do Juruá. A network of confessional schools was set up, offering different levels and types of education and circulating pedagogical ideas and models from Europe, for example.

Keywords:
Confessional schools; Pedagogical models; Circulation of ideas

Résumé

Nous souhaitons discuter du projet de formation scolaire confessionnelle mis en œuvre par l'Église catholique allemande en Amazonie, notamment dans la région connue sous le nom de Vale do Juruá, dont fait partie, entre autres, la municipalité de Cruzeiro do Sul/Acre. Nous avons mené une recherche documentaire en analysant les sources du fonds de l'Institut Santa Teresinha de Cruzeiro do Sul, dans l'État d'Acre. Nous avons utilisé comme référence des auteurs traitant de l'histoire transnationale et de la circulation des modèles d'enseignement. Les résultats montrent que, sur la base de l'histoire transnationale et de la circulation des modèles d'enseignement, il existe une influence des idées pédagogiques apportées d'Allemagne par les religieux de l'Église catholique ayant émigré dans la région amazonienne, en Acre, notamment dans la vallée de Juruá. Un réseau d'écoles confessionnelles a été créé, offrant divers niveaux et types d'enseignement et diffusant des idées et des modèles pédagogiques d'origine européenne, par exemple.

Mots-clés:
Écoles confessionnelles; Modèles pédagogiques; Circulation des idées

Introdução

O estudo tem como objetivo discutir sobre o projeto de formação escolar confessional implementado pela Igreja Católica de vertente alemã no interior da Amazônia, na região conhecida como Vale do Juruá, da qual faz parte, o município de Cruzeiro do Sul/Acre - polo geográfico, econômico e cultural desta região. Pretendemos ampliar a discussão sobre a história transnacional e a circulação de modelos de ensino, a partir da percepção da influência das ideias pedagógicas trazidas da Alemanha pelos religiosos da Igreja Católica, que migraram para o Vale do Juruá.

Entre os anos de 1897 e 1917, vários missionários católicos evangelizaram em solo acreano. Contudo, na região do Vale do Juruá tivemos o predomínio de padres franceses e alemães, da chamada Congregação do Espírito Santo - primeira congregação a atuar nesta região. Estes missionários, nos primeiros tempos de colonização, viajaram pelos rios realizando trabalhos catequéticos, mas como as áreas povoadas eram dispersas e espalhadas pelos grandes rios e igarapés, a presença desses religiosos foi pouco percebida pela população local (Souza, 2002). Apenas no ano de 1917, os religiosos espiritanos se instalaram definitivamente em Cruzeiro do Sul, de modo que a ação destes se intensificou a partir de 1931, quando foi criada a Prelazia do Alto Juruá, com sede no município de Cruzeiro do Sul, transformada em Diocese no ano de 1987. Durante este período, muitas outras congregações, de nacionalidades diversas, se juntaram aos espiritanos no território acreano, com destaque para a Congregação Dominicana de Santa Maria Madalena de Spira, vinda diretamente da Alemanha (Bezerra, 2010; 2015).

Com a chegada das irmãs dominicanas em Cruzeiro do Sul, a Igreja Católica de origem alemã intensificou suas ações na região, implementando uma rede de instituições e de serviços de natureza diversa, com acentuado destaque ao campo educacional. Estas instituições criadas no município de Cruzeiro do Sul e na região do Vale do Juruá, para além da confessionalidade que atendiam, contribuíram com a circulação transnacional da educação, uma vez que estes missionários alemães importavam para a região acreana sua cultura, seu modelo escolar e suas ideias pedagógicas.

Dessa feita, esse estudo parte da seguinte problemática: que projeto de formação escolar confessional foi implementado pela Igreja Católica de vertente alemã na região do Vale do Juruá, na Amazônia brasileira? Para alcançar nosso objetivo, bem como responder à questão problematizadora, desenvolvemos um estudo ancorado na pesquisa documental.

As fontes analisadas fazem parte do acervo do Instituto Santa Teresinha, localizado no Município de Cruzeiro do Sul (Acre) e foram selecionadas por demonstrarem a circulação de ideias nas escolas confessionais criadas pelos religiosos alemães. Foram elas: o livro História das Filiais Brasileiras de Santa Maria Spira, denominado de Livro das Crônicas ou Livro de Ouro; Livreto: Assim começou... Instituto Santa Teresinha - 1937, Regimento Interno, Estatuto, cartas e ofícios.

As fontes selecionadas foram analisadas à luz dos autores utilizados no referencial teórico que discutem história transnacional da educação e circulação de ideias pedagógicas, entre eles: Medeiros Neta (2023) , Medeiros Neta; Assis (2022), Vera; Fuchs (2021) , Vinão Frago (2007), entre outros.

A ênfase para a análise se deu, principalmente, conforme Vera e Fuchs (2021) , na perspectiva das histórias institucionais ao considerar a circulação de modelos e currículos escolares e na perspectiva de redes ao abordar “[...] a interconectividade dos sujeitos sem o aproveitamento de uma base empírica forte que pode dar à rede, ou ao seu estudo, um poder explanatório” (Vera; Fuchs, 2021, p. 11).

Esse processo possibilitou aprofundar os estudos sobre a circulação de ideias pedagógicas e os intercâmbios estabelecidos no movimento de importação e transnacionalidade da educação, direcionado pela ação educativa dos religiosos católicos, sendo a maioria, de nacionalidade alemã.

Embora existam produções sobre escolas alemãs e o modelo de formação implementado nestas instituições, estes se concentram, especialmente no Sul do Brasil, a exemplo da pesquisa de Bechler; Silva (2019) . No entanto, o presente estudo se volta para a região norte no intento de demonstrar que muitos aspectos sobre as instituições confessionais criadas por religiosos alemães na Amazônia acreana, ainda vociferam por estudos que demonstrem a influência destes missionários no processo educativo e formativo da região, evidenciando como as ideias pedagógicas por eles colocadas em práticas, circulavam e transitavam das escolas confessionais para as demais escolas e que redes de sociabilidades estes religiosos mantinham.

Essas questões direcionaram a reflexão que desencadeou neste texto, que se encontra organizado em duas seções: na primeira, situamos o Vale do Juruá, que se constitui como o locus de nosso estudo, demonstrando como a região se constituiu e o papel da Igreja Católica nesta constituição. Na segunda, apresentamos, por meio da análise das fontes documentais, as ações dos missionários católicos nesta parte da Amazônia acreana, se voltando para seus projetos educativos.

Situando a Região: Locus da Pesquisa

O Vale do Juruá, região do Estado do Acre banhada pelo Rio Juruá, hoje é composta por oito municípios: Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Feijó, Tarauacá e Jordão. No início da formação do Estado, a região ganhou o nome de Departamento do Alto Juruá, cuja sede era o município de Cruzeiro do Sul.

De acordo com Neves (2002) , até meados do século XIX, a região era desconhecida de boa parte da população brasileira e era considerada um “vazio geográfico” pelas autoridades do estado. Ainda assim, era povoada por muitas etnias indígenas. Contudo, a partir das últimas décadas do século XIX, milhares de pessoas vindas de várias partes do Brasil e do mundo, desceram os rios ocupando a região e estabelecendo seringais (locais de produção da borracha).

Em poucos anos, decorrente da produção da borracha amazônica em grande escala, este espaço (e os povos nativos que o habitavam) recebeu milhares de pessoas de nacionalidades diversas, que foram atraídas pela promessa de enriquecimento rápido. Se, nesse processo de colonização, por um lado ocorreram muitos conflitos pela posse da terra e das riquezas locais com as comunidades tradicionais que ali residiam, - de modo que etnias indígenas tradicionais foram perseguidas ou nacionalizadas-, por outro lado, como resultado deste processo, a região adquiriu uma riqueza cultural ocasionada pelas várias interações culturais que presenciou.

Os nordestinos foram dominantes nos tempos iniciais de ocupação do território acreano. Segundo Pessoa (2007) , a maioria destes nordestinos eram católicos e se dedicavam às atividades ligadas à produção da borracha, trabalhando como seringueiros (empregados dos seringais) ou seringalistas (donos dos seringais). Além dos nordestinos, também vieram, imigrantes estrangeiros de várias nacionalidades, que se dedicaram a atividades, igualmente diversas. Os portugueses trabalharam como empresários, comerciantes ou gerentes de seringais; os sírios e libaneses atuaram, prioritariamente, como regatões (comerciantes ambulantes que viajavam de barco pelos rios, vendendo seus produtos). Estes traziam uma tradição cultural e religiosa muçulmana, porém, como a cultura preponderante na região amazônica era a católica, muitos negavam sua fé islâmica e comungavam com o catolicismo; aqueles de origem judaica atuaram, especialmente, como comerciantes ou funcionários públicos.

Entre os anos de 1900 e 1950, verificou-se a presença de pessoas de origem italiana, grega, norte-americana e alemã no Acre e no Vale do Juruá. De acordo com Souza (2002) , relatos de viajantes que navegaram pelos rios, antes de seu desbravamento deste espaço territorial, ou seja, no início do processo de colonização, dão notícias da presença de missionários da Igreja Católica.

Os imigrantes alemães, sobretudo religiosos católicos, tiveram uma presença marcante também em outras regiões do país, a exemplo de Santa Catarina, onde participaram do progresso e do desenvolvimento econômico e cultural daquele espaço. Bechler; Silva (2019) no estudo denominado Livros didáticos como textos de memória: notas sobre narrativas da imigração alemã em livros didáticos de história regionais, destacam as narrativas sobre a imigração alemã em livros didáticos regionais sobre Santa Catarina, publicados entre 1920 e 1994.

Com o declínio da produção da borracha, após a segunda guerra mundial, o Vale do Juruá viveu mudanças nas relações econômicas e culturais e novos intercâmbios foram impostos. A urbanização se intensificou e muitas famílias deixaram os seringais, deslocando-se para as cidades em busca de melhores condições de sobrevivência. Além disso, segundo Ianni (1981) , no decorrer das décadas de 1940 e 1970, a região presenciou mais uma fase de imigrações com a vinda de fazendeiros e pecuaristas de estados como São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e outros que, incentivados pelos governos militares que viam neste espaço a saída para a urbanização desenfreada nos grandes centros do país.

Decorrente da interação entre estes grupos étnicos, esta parte da região amazônica tornou-se um espaço multicultural que compõe uma identidade cabocla e híbrida, reinventada no interior da floresta, na luta pela sobrevivência e pela valorização social, econômica e cultural.

A escola como parte desta realidade, também se constituiu sob o signo da multiculturalidade, visto que, a exemplo dos religiosos alemães, ao mesmo tempo em que os imigrantes transmitiam os costumes e valores próprios da sua cultura, eram incitados a adaptar seu habitus à realidade local, para que assim se instituísse um modelo escolar capaz de dialogar com estas muitas culturas que dividiam o mesmo espaço (Bezerra, 2010; 2015).

Como demonstramos na introdução deste estudo, a presença de religiosos da Igreja Católica nos rios da Amazônia está registrada desde o final do século XIX. Todavia, tais ações apresentavam caráter esporádico e itinerante uma vez que, apenas de tempos em tempos, grupos de padres e irmãos viajavam pelos rios e povoados evangelizando e catequizando a população ribeirinha. No entanto, no ano de 1931, com a criação da Prelazia do Alto Juruá, a Congregação do Espírito Santo estabeleceu-se definitivamente em solo acreano.

No ano de 1937, chegaram da Alemanha três freiras da Congregação Dominicana de Santa Maria Madalena para endossar a ação iniciada pelos espiritanos. A Congregação Dominicana tinha como carisma a educação, de modo que suas ações se voltaram especialmente para o campo educacional.

Nesse contexto, as primeiras instituições escolares implementadas no Vale do Juruá, desempenharam um papel relevante na consolidação da região e na preparação cultural da população. Assim, dada a história de formação deste espaço, a multiculturalidade se sobressaiu em vários campos: seja na arquitetura, na alimentação, na economia ou na cultura em geral, vemos as contribuições nordestina, indígena, alemã e muitas outras.

Nesse contexto, os missionários católicos se tornaram pioneiros na profissionalização da sociedade cruzeirense ao instalar oficinas de aprendizagem em mecânica, de marcenaria, de marchetaria, de ferraria, de olaria, etc. Além disso, implementaram várias pastorais e movimentos voltados para a defesa dos direitos dos menos assistidos, como os indígenas, os seringueiros, sem-terra, crianças, doentes, órfãos, hansenianos, idosos e outros.

Em termos de educação formal, inicialmente, investiram em escolas confessionais que ofereciam da educação infantil ao ensino médio. Atendiam, sobretudo, aos filhos da alta sociedade e da classe média cruzeirense com um modelo escolar sustentado na disciplina e em princípios morais e cristãos, baseados no catolicismo.

A Igreja Católica não apenas criava, mas também organizava e dirigia sua rede escolar. Porém, a partir do ano de 1977, teve início um acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE/AC) com a qual firmou um convênio de funcionamento e de manutenção de suas escolas. A experiência foi compreendida pela igreja local como bem-sucedida, e várias escolas e jardins de infância que foram construídos pela Prelazia do Alto Juruá/Diocese de Cruzeiro do Sul, deixaram de totalmente confessionais, e se tornaram conveniadas1. No Quadro 1, enumeramos as escolas criadas pelas Igreja Católica.

Quadro 1 -
Escolas Confessionais da Região do Vale do Juruá

Analisando o Convênio da Diocese com SEE/AC, que instituiu as escolas Conveniadas, notamos que a Diocese era a responsável pela indicação do gestor da instituição conveniada e pela manutenção das instalações físicas. À SEE/AC competia a contratação dos funcionários para atuar na instituição, além do fornecimento de material didático, escolar e de secretaria, bem como o repasse de uma verba à Diocese, como taxa de aluguel do imóvel.

A primeira instituição que passou por este processo foi a Escola São José, uma das mais tradicionais e antigas do município, fundada e inaugurada no dia 19 de março de 1948 pelo Bispo da Prelazia do Alto Juruá, Dom José Hascher. Foi a segunda instituição de educação formal criada pela Prelazia e funcionou, inicialmente, como Seminário Menor para a formação de jovens vocacionados, num prédio que depois se tornou a sede das oficinas de aprendizagem da Diocese. Funcionando desde 1956 no atual prédio, começou a receber alguns alunos externos, a partir do ano de 1964, mas ainda continuava com o internato até 1974. Sua direção esteve a cargo dos espiritanos até 1968, quando chegaram à cidade os Irmãos Maristas que então assumiram a direção. Apenas no ano de 1975 passou a receber meninas, funcionando com o ensino fundamental completo.

De acordo com o Projeto Político Pedagógico da Escola São José, esta foi se tornando cada vez mais onerosa para a Diocese, visto que a maioria de seus alunos não pagava a mensalidade regularmente. E foi assim que surgiu a ideia de tornar a escola conveniada com a SEE/AC. Esse processo foi bem-sucedido e, hoje, a maioria das escolas da Diocese são conveniadas, o que fez com que o poder público assumisse a centralidade do processo escolar local, que nos anos iniciais de fundação do município de Cruzeiro do Sul, ficava a cargo da Igreja Católica.

Porém, a ação educacional da Igreja Católica não ficou restrita ao município de Cruzeiro do Sul; ao contrário, se estendeu para outros municípios do Vale do Juruá, como é o caso de Mâncio Lima e de Porto Walter. Em Mâncio Lima, a Igreja Católica fundou, no ano de 1941, o Colégio São Francisco, como demonstramos no quadro acima. Inicialmente, este Colégio foi entregue à direção dos Padres espiritanos. No ano de 1982, sob a determinação do bispo da Diocese, a escola passou a ser administrada pelas Irmãs Dominicanas de Santa Maria Madalena. O Colégio foi criado com o intuito de oferecer o ensino primário, de 1ª a 4ª série aos alunos que viessem de comunidades distantes, mas acabou atendendo a todos os que procuravam a escola, uma vez que naquela época era difícil o acesso à educação no município de Mâncio Lima. A partir de 1976, a escola iniciou com uma turma de 5ª série e em 1979 formou a primeira turma de 8ª série, tornando-se a primeira escola a oferecer ensino fundamental regular completo no município. Atualmente, expandiu suas ações e oferece até o Ensino Médio.

No ano de 1954, duas Irmãs Dominicanas - uma de nacionalidade brasileira e outra alemã, que inclusive não dominava totalmente a língua portuguesa - foram enviadas à Vila Porto Walter-AC. Dois anos depois, no ano de 1956, construíram um internato que recebeu o nome de Joana d’Aza, em homenagem à progenitora de Domingos de Guzman. A instituição foi implementada com a finalidade de tornar-se um espaço para abrigar jovens que residiam nos seringais/zona rural e que desejavam estudar na Vila, mas que não possuíam familiares que as acolhessem. O atendimento se ampliou com o passar dos anos e a demanda também, de modo que, em situações adversas, as freiras receberam muitas órfãs da cidade e meninas dos municípios de Marechal Thaumaturgo, Cruzeiro do Sul-AC e até mesmo da capital Rio Branco. Chegaram a aceitar, inclusive, uma interna do Tipisca/Peru, certamente encaminhada pelas freiras dominicanas que desenvolviam missão no Peru.

Nessas circunstâncias, o Internato logo se tornou uma instituição com reconhecimento pela sociedade local e que deu uma contribuição para ampliar a trajetória escolar de mulheres. A escolarização formal das internas era realizada na escola pública existente na Vila, de forma que a ida das internas à escola era sempre acompanhada por uma religiosa que lecionava na instituição. O Internato de Joana d’Aza fechou suas portas no ano de 1994 e hoje funciona como uma hospedaria.

Com o mesmo objetivo - o de acolher jovens dos seringais e oferecer uma oportunidade escolar e de ensinamento bíblico e católico - havia sido criado no ano de 1940 o internato de Cruzeiro do Sul. De acordo com o Livro de Crônicas do Convento, a motivação foi o fato de o Instituto Santa Teresinha receber jovens dos seringais, que não tinham onde morar, sendo que algumas eram órfãs e outras não possuíam familiares na cidade. O número de alunas internas aumentava automaticamente, ao passo que a Escola era reconhecida pela tradição e status. Segundo o documento, esse número cresceu mais ainda quando foi fundado o Curso Normal Regional de Cruzeiro do Sul, sendo que, em determinado momento, o Internato chegou a contar com setenta e duas internas. As freiras chegaram a receber, a pedido do Governador do Território do Acre, até alunas órfãs vindas da capital. O Internato só deixou de funcionar no final do ano de 1971.

A atuação dos religiosos alemães, longe de se limitar ao campo missionário-religioso, alcançou destaque em várias esferas, especialmente no sistema formal de escolarização. Com esta finalidade, nos propomos a discutir o modelo de escola confessional implementado por estes religiosos na região, na tentativa de contribuir com o aprofundamento dos estudos sobre as ideias pedagógicas, a transnacionalidade da educação e os intercâmbios estabelecidos no processo de importação destas ideias pedagógicas.

Como destaca Medeiros Neta (2023) , um estudo neste campo vasto e diverso nos leva à compreensão das formas como são implementados e direcionados os processos educativos, nos possibilitando entender sobre a difusão do conhecimento e as interações entre os sistemas educacionais, na perspectiva da educação em sua dimensão nacional e transnacional.

Para Vera e Fuchs (2021) , a difusão de conhecimento pedagógico é “provavelmente a forma mais comum em que a pesquisa sobre história transnacional da educação aparece’’ (p. 11). Certamente, como deixam entender os autores, nem sempre aqueles que experimentam os modelos educativos (ou que são formados por um conhecimento pedagógico que foi importado de outros países) têm clarividência de seu caráter transacional, como certamente era o caso da população do Vale do Juruá, que abraçou tal modelo, mesmo que o período político fosse de extremo nacionalismo.

Sobre a história das ideias pedagógicas e como estas moldam os modelos escolares e as práticas educativas, ressalta-se que:

Desde os filósofos da Antiguidade até as teorias contemporâneas, as ideias pedagógicas influenciaram diretamente as práticas educativas, moldando as formas como a educação foi organizada e transmitida ao longo da história. Dada sua relevância, a história das ideias pedagógicas e das práticas educativas se constitui, portanto, um campo vasto e diverso que nos permite compreender as diferentes formas pelas quais foram concebidos e conduzidos os processos educativos ao longo dos séculos (Medeiros Neta, 2023, p. 2).

O estudo sobre a circulação de ideias pedagógicas nas escolas confessionais do município de Cruzeiro do Sul e região traz diversificadas “possibilidades de investigação no campo da história da educação sobre ideias pedagógicas a partir da história transnacional da educação’’ (Medeiros Neta, 2023, p. 1) nos direcionando a compreender a transnacionalidade da educação, através das histórias institucionais, das redes e dos processos de difusão, de apropriação e dos impactos dessas ideias pedagógicas nos modelos de ensino.

Assim, no que diz respeito à história transnacional da educação, podemos ressaltar que o uso dessa perspectiva, seja a partir dos eixos de histórias institucionais ou redes, nos permite “[...] descrever fenômenos que transcendem a escala nacional, ainda que não tenham sido percebidos como transnacionais por aqueles que os experimentaram’’ (Vera; Fuchs, 2021, p. 4).

Muitos aspectos deste modelo escolar foram trazidos da Alemanha por meio da cultura e da formação escolar ou profissional dos religiosos, embora não possamos deixar de evidenciar que os missionários da Igreja Católica também adaptaram suas práticas, saberes e modelos à realidade e demandas locais e isso facilitou o processo de assimilação por parte do alunado e da população em geral. Desse modo, na seção seguinte, aprofundamos a discussão sobre as ações dos missionários católicos nesta região, evidenciando alguns dos projetos educativos por eles implementados.

As Ações dos Missionários Católicos na Amazônia Acreana e seus Projetos Educativos

É no contexto de desassistência do poder público ou de inaptidão administrativa, que se inseriu o Instituto Cultural Orfanológico Santa Teresinha/IST - uma instituição criada pela Prelazia do Alto Juruá, no ano de 1938, na tentativa de minimizar os efeitos da ausência de políticas públicas voltadas à escolarização da população. O art. 11 do Regimento Interno, afirma que a Entidade mantenedora do Instituto é a Prelazia do Alto Juruá e que a direção da escola ficava a cargo das irmãs dominicanas de Santa Maria Madalena. O art. 13 do mesmo documento estabelece que o “o corpo docente é constituído por elementos pertencentes à Congregação das dominicanas, como ainda por outros professores, que a diretoria julgar por bem contratar”2.

A partir da iniciativa de fundação do Instituto Santa Teresinha (mas não só dela), a Igreja Católica no Vale do Juruá exerceu uma autoridade na constituição da cultura escolar. O Instituto desenvolveu, inicialmente, suas atividades voltadas à educação das crianças órfãs. Posteriormente, o Bispo da Prelazia sentiu necessidade de ampliar as ações da Escola e criou um projeto que favoreceu as demais crianças e jovens da cidade, fundando o curso primário chamado “Escola Felisberto Peixoto”.

Na administração das Irmãs Dominicanas, o Instituto Santa Teresinha, se fortaleceu como uma instituição dedicada à formação feminina católica. Segundo o seu primeiro Estatuto, a Escola foi fundada “sob a proteção de Santa Teresinha, patrona da Escola e sob os auspícios do Reverendíssimo Senhor Vigário da paróquia” e destinava-se à “educação de Órfãs e em geral da mocidade feminina e de menores até a idade de 18 anos3”.

O patrimônio do Instituto era constituído por esmolas, doações, legados e todas as formas de aquisição permitidas por lei. Como uma instituição confessional e filantrópica, o Estatuto (1940) esclarecia ainda que “as Órfãs e meninas das famílias reconhecidamente pobres” seriam admitidas gratuitamente; aquelas que dispuserem de recursos”, pagariam “a mensalidade de 100$000 reis”. O Instituto oferecia também “aulas para alunas externas e semi-internas”. As semi-internas, pagavam “mensalmente 60$000 reis” e as externas pagariam “30$000 de mensalidade”4.

Ainda sobre a manutenção da instituição, encontramos um relatório5 onde se especifica que a Instituição foi criada em 08 de outubro de 1938, correspondendo às necessidades de amparar a mocidade feminina da Prelazia do Alto Juruá, dando uma sólida educação moral, religiosa e cívica. Pelo presente relatório, a finalidade primordial do Instituto era “educar as meninas órfãs, como também aquelas desamparadas ou abandonadas ou reconhecidamente pobres que vivem pelas casas alheias”.

De acordo com o relatório, o Instituto “mantinha uma escola doméstica com cursos de cozinha, lavanderia, prendas, cortes e costuras, desenho e pintura, sob a competente direção de uma Irmã diplomada”. Eram também ministradas às alunas noções de agricultura no campo experimental da Prelazia. O documento destaca que eram recebidas meninas entre “6 e 18 anos de idade, principalmente das classes mais pobres e abandonadas”. Mas admitia-se alunas “de famílias remediadas como pensionistas porque não há outro estabelecimento nos limites da Prelazia onde possam receber uma melhor educação”.

Porém, para que o curso primário do Instituto Santa Teresinha conseguisse se manter em funcionamento, foi preciso investir ainda na formação dos professores uma vez que, na época, o município de Cruzeiro do Sul e região do Vale do Juruá não dispunha de profissionais qualificados para atuarem nesta área. A solução visualizada foi implementar, em prédio anexo ao Instituto Santa Teresinha, o Curso Normal Regional de Cruzeiro do Sul - o primeiro curso de formação de professores do município e das localidades vizinhas. A iniciativa de criar, no ano de 1947, este curso de formação docente foi decisivo para os novos rumos que a Instituição iria tomar. (BEZERRA, 2024).

De acordo com o Regimento Interno do Curso6, o Curso Normal Regional foi fundado com a finalidade específica e primordial de formar professoras para o ensino primário e seu objetivo era oferecer à juventude uma formação integral, preparando-a para o perfeito conhecimento de seus deveres para com Deus, a Igreja e a Pátria.

Conforme Bezerra (2024) , compreendemos que o modelo de ensino colocado em prática nesta instituição dava ênfase à formação de alunas obedientes aos preceitos da sociedade que, teoricamente, estavam focados na pátria, em Deus e na Igreja. No primeiro Estatuto do Instituto Santa Teresinha (1940) afirma-se que “para a educação intelectual, o Instituto adotará o programa oficial do Estado, juntando-lhe a instrução religiosa católica. Essa assertiva é reafirmada em várias outras fontes, como em um Relatório da Escola enviado a SEE/AC, onde ressalta que “as internas recebiam ensino elementar conforme os programas oficiais. O Credo é o Católico Apostólico Romano”7. No art. 9 do Regimento Interno, encontramos informações sobre o modelo de ensino utilizado na instituição. O documento afirma que “o Instituto Santa Teresinha tem por fim ministrar o ensino primário e normal dentro do plano geral estabelecido pelo Ministério da Educação e Cultura. Embora o documento destaque que a escola seguia o plano geral estabelecida pelo Ministério da Educação e Cultura, no caso específico do Curso Normal, dava ênfase “a educação solidamente cristã”, voltada à “formação integral da personalidade feminina” que “estava destinada a desempenhar um papel benéfico na família e na sociedade, seja como dona de casa e educadora dos próprios filhos, seja como dirigente de uma escola e educadora do povo”8.

Nesse entorno, a educação oferecida no Curso tinha por objetivo contribuir com a formação de uma mulher que era predestinada a ocupar os papéis, igualmente predeterminados de acordo com os preceitos da sociedade da época. Esses papéis “benéficos na família e na sociedade” giravam em torno da função de dona de casa, mãe de família, professora ou dirigente de escola. Isso significava uma limitação quanto à formação oferecida e quanto às possibilidades profissionais que se abriam às mulheres.

Ainda assim, o Curso Normal Regional de Cruzeiro do Sul, se tornou fundamental na qualificação dos professores, proporcionando uma nova fase na organização da educação local. Este Curso foi, sem dúvida, um dos mais importantes legados dos religiosos alemães para o município de Cruzeiro do Sul e estado do Acre pois, durante décadas, os professores formados nesta instituição foram encaminhados para as demais escolas da região, levando e fazendo circular os modelos de ensino e de educação aprendidos por meio da ação pedagógica e formativa dos religiosos católicos de origem alemã.

Dada a inexistência de qualquer outra iniciativa pública ou privada voltada para a formação docente no Vale do Juruá até aquele momento, o Curso Normal Regional tornou-se, em pouco tempo, tradicional e conceituado em todo o Estado, não só no âmbito da preparação profissional, mas da cultura geral.

Percorrendo a história da implementação do Instituto Santa Teresinha e da Escola Normal de Cruzeiro do Sul, vemos que a longa tradição destas instituições e seu alcance na escolarização local, sobretudo, no que diz respeito à formação de professores, se deve a uma lacuna deixada pelo poder público quanto à organização da escola laica.

Embora, como anunciamos anteriormente, estes religiosos tenham investido em uma ampla rede de escolas e de outras instituições de caráter formativo, uma de suas principais ações foi a implantação do Instituto Santa Teresinha e da Escola Normal de Cruzeiro do Sul. Ambos fizeram parte do projeto missionário e catequético maior, implementado pela Igreja Católica, de vertente alemã, no Vale do Juruá.

Estas duas instituições, demonstram o poder da interferência da Igreja Católica na região, evidenciando a circulação de ideias pedagógicas, os diálogos e as trocas culturais entre o catolicismo de vertente alemã, o estado e a cultura local no período que abrange das décadas de 1940 a 1970.

Foi no Curso Normal Regional que os professores do município foram formados e se constituíram como docentes com saberes impregnados do caráter religioso católico. (BEZERRA, 2024). Assim, este curso constituiu-se no berço da formação docente escolarizada, formando durante muitas décadas os docentes que atuaram nas escolas primárias em Cruzeiro do Sul e nos municípios vizinhos e posteriormente, nas escolas secundárias que foram sendo implementadas. Nessa direção, conhecer os materiais didático-pedagógicos que circulavam na Escola Normal Regional de Cruzeiro do Sul e no Instituto Santa Teresinha, bem como em outras escolas confessionais da região é imprescindível para a historiografia educacional da região. Sobretudo, no que diz respeito às relações que a Escola manteve com as políticas nacionais de formação docente e com os modelos de ensino e de educação que estiveram em voga em outras regiões do país e em outros países, como a Alemanha e que circularam por meio das viagens pedagógicas e dos intercâmbios que os religiosos alemães mantinham.

Na visão de Vidal e Paulilo (2003) , no período das décadas de 1930 e 1940, o Brasil presenciou mudanças relevantes nas políticas educacionais e tais mudanças envolveram a participação de intelectuais. Estes, a partir de vertentes diversificadas, pensavam projetos, programas e direcionamentos para a educação nacional, pautando-se pela necessidade comum de criar um sistema de ensino modelar, moderno e que abarcasse boa parte da população em idade escolar.

Na senda deste movimento nacional, no Vale do Juruá, em especial no município de Cruzeiro do Sul, foi possível notar o investimento que a Igreja Católica fez na formação de professores com a inauguração do Curso Normal Regional. Por meio desse curso, que contribuiu sobremaneira com a ampliação do nível de escolarização da população local, estes religiosos - sobretudo as freiras dominicanas que dirigiam o Instituto Santa Teresinha e a Escola Normal Regional -, se constituíram como produtores e transmissores culturais, transitando em âmbitos nacionais e internacionais.

Através de viagens, mas especialmente, por meio de trocas de materiais pedagógicos, entraram em contato com os métodos de ensino desenvolvidos em outros espaços e assim, mantiveram proximidade com ideias pedagógicas e com modelos de educação que circulavam no meio nacional e internacional.

Nesse encaminhamento, vamos ao encontro das afirmações de Viñao Frago (2007, p. 16) quando assinala que as viagens “educam, mesmo que seja para abrir ao viajante uma realidade diferente da sua. Mas umas educam mais que outras, ou de forma diferente”. Neste caso, são compreendidas como viagens pedagógicas aquelas que têm ou tinham como foco o entendimento dos processos escolares, dos modelos e ideias pedagógicas.

“A circulação das ideias e dos modelos e práticas pedagógicas se dava no movimento das viagens tanto no âmbito nacional como no âmbito internacional, mas também através das publicações de revistas e livros’’ (Medeiros Neta, Assis, 2022, p. 228) e, ainda, por meio dos intercâmbios e redes de sociabilidades, mantidas por variados tipos de correspondências.

A título de exemplo, destacamos a interação com os preceitos da Escola Nova pela via dos educadores católicos, evidenciada por meio de fontes encontradas nos arquivos do Instituto Santa Teresinha e da Escola Normal Regional9. Analisando estas fontes foi possível antever que a ideias pedagógicas que circulavam no meio educacional dos grandes centros econômicos e culturais do país, penetravam nas práticas e saberes da Escola, por meio da direção das freiras alemãs da Congregação dominicana. E assim fica evidente que estas educadoras trocavam correspondências com intelectuais de renome nacional, como é o caso de Alceu Amoroso Lima, que teve o seu pseudônimo, Tristão de Athayde, dado à Biblioteca do Instituto Santa Teresinha (Ver Figuras 1 e 2). Por meio das fontes, podemos dizer que as freiras conheciam os movimentos educacionais, as obras e influência dos seus líderes, principalmente, daqueles ligados ao campo do ensino católico.

Figura 1 -
Ofício remetido pela Direção do Instituto Santa Teresinha a Alceu Amoroso Lima

Figura 2 -
Carta-resposta de Alceu Amoroso Lima ao Instituto Santa Teresinha

O Ofício remetido pela Direção do Instituto Santa Teresinha a Alceu Amoroso Lima (Figura 1) e a Carta-resposta de Alceu Amoroso Lima ao Instituto Santa Teresinha (Figura 2) demonstram não apenas a transportação de ideias pedagógicas de outras regiões do país para o interior do Acre, mas também a influência e o alcance desse movimento de renovação educacional que atingiu escolas confessionais nas mais remotas regiões, até no interior da floresta amazônica. Demonstram ainda como o Instituto Santa Teresinha e a Escola Normal Regional de Cruzeiro do Sul comungavam com práticas de contornos nacionais evidenciadas “no cultivo do civismo e da fé exagerada na obra de formação da juventude católica, vendo-a como uma espécie de vocação divina” (Bezerra, 2010), tão característico do período nacionalista, como assim podemos ler nos trechos selecionados a seguir:

A Biblioteca [...] em nosso humilde Estabelecimento irá desempenhar um papel radicalmente católico e brasileiro, mesmo em meio destas longínquas paragens de ‘inferno verde’ para o que - perdoe-nos - contamos com o auxílio de V. Excia., que nos vai brindar com alguns exemplares de seus primorosos trabalhos, grande e urgente obra de formação da nossa juventude [...]10.

É com sumo prazer e honra que recebo a comunicação de que meu nome foi dado a Biblioteca do Educandário Santa Teresinha, com o que as dominicanas levam a palavra de fé e cultura aos brasileiros do longínquo Acre. Creia V. Revma, que são provas de generosidade como esta que nos estimulam a prosseguir na obra de apostolado intelectual, para o qual a Providência se serviu chamarmos [...]11.

A carta de Alceu de Amoroso Lima demonstra que este intelectual estava de viagem para o exterior. Esse trânsito de ideias sempre foi comum no Brasil, uma vez que “os educadores [...], pelo que nos confirmam as pesquisas, sempre se valeram das viagens e dos contatos estabelecidos com seus pares de outros lugares para fazerem intercâmbio de ideias e de modelos pedagógicos” (Assis; Medeiros Neta, 2022, p. 215). Para conceituar, utilizamos a definição de Viñao Frago (2007) que diz que as viagens pedagógicas podem ser de natureza diversa, como aquelas por iniciativa própria, por missão governamental ou até mesmo por uma situação de exílio.

Sobre as viagens pedagógicas que as freiras dominicanas fizeram da Alemanha à cidade de Cruzeiro do Sul e quanto aos objetivos destas viagens, buscamos informações no Livro de Crônicas do Convento e em registros obtidos das cartas de autorização destas viagens. Como destacamos no parágrafo anterior, as primeiras três freiras chegaram no final do ano de 1937 e vieram para o município exatamente com a finalidade de se dedicar aos processos escolares.

Essa viagem primeira marcou a abertura da Congregação Dominicana: a imigração de seus membros para fora de seu país. E ainda 1937, alguns dias depois, outras três religiosas também saíram em missão, e assim, muitas outras viagens desta natureza ocorreram a partir daquela data. A tentativa era continuar evangelizando, mesmo com a perseguição nacionalista e religiosa, a guerra que se avultava e o fantasma do nazismo.12

A política nacionalista e as proibições decorrentes desta política tinham sido os motivos da autorização da saída das freiras dominicanas da casa Provincial na Alemanha. Em um trecho do Livro de Crônicas, a Irmã que narra a viagem afirma que “quando nossas escolas na Alemanha foram fechadas pelos Nacionalistas, prontificou-se em ir as Missões”, as Irmãs Adelgundis Becher (formação: professora, assumiu o cargo de superiora do grupo), Athanasia Weber (formação: professora), Disiboda Strasser (formação: enfermeira). Em outro trecho, do documento, fala-se das experiências interrompidas que estas freiras professoras tinham na Alemanha, apontando que “depois da primeira profissão, Irmã Athanasia lecionou na escola pública, nos edifícios de Santa Madalena, até que o nacionalismo fechou as escolas das irmãs”.

Durante a segunda guerra mundial, as três freiras enviadas a Cruzeiro do Sul ficaram enclausuradas no município, sem poder manter contato com seus familiares ou com a Congregação. Quando, finalmente, depois da guerra foram e chegaram cartas, madre Ambrósia, superiora do Convento das dominicanas escreveu em julho de 1946, pedindo o retorno urgente à Alemanha das duas freiras sobreviventes, pois uma havia falecido no ano de 1945 ao cuidar de doentes acometidos de febre tifoide. Na carta, a superiora fala das dificuldades que a Congregação vivia na Alemanha no pós-guerra e diz: “filhas, não podemos mandar auxílio para vós, não temos Irmãs, devemos e queremos abrir escolas na Alemanha, voltem a pátria”.

A Irmã Athanasia lamentou a ordem de retorno com a seguinte frase: “desistir após oito anos de árduo trabalho para Deus, o próximo e os homens indigentes, iguala-se a um holocausto”. E, por um tempo, as duas freiras não falaram daquela carta. Todavia, em obediência, pensaram em fazer as malas. Ainda assim, os trabalhos no Instituto Santa Teresinha prosseguiram como se nada estivesse acontecendo e para o ano escolar de 1946, as matrículas foram realizadas contando com um número cada vez maior de alunas. As Irmãs ouviram falar da fome na Alemanha e mandaram, sobre Organizações caritativas da Suíça e da Dinamarca, pacotes com alimentos que pagaram com o dinheiro que pouparam. Em janeiro de 1947, veio da Madre Ambrósia uma “notícia alvoroçante: podeis ficar. Irmã Relindis, mandará auxílio do Peru, pois vós podereis formar professoras, o que agora é vedado a nós na Alemanha”. Irmã Relindis disse: “Cruzeiro do Sul é a primeira estação fundada de Santa Maria Madalena como missão. Ela deve continuar a existir”.

De acordo com o Livro de Crônicas, foram então enviadas mais duas irmãs, ambas tinham partido da Alemanha em 1937 para o Sul do Brasil, mas estavam desenvolvendo a missão no Peru. Elas chegaram em Cruzeiro do Sul em abril de 1949 e ajudaram no internato, mas infelizmente não se adaptaram ao clima do Acre e voltaram para o Peru. Em 1949, chegaram padre Walter Morais e padre Cristovão Arnaut. Estes tinham concluído os estudos em Portugal e foram ordenados sacerdotes em Tefé, sendo em seguida, enviados a Cruzeiro do Sul para contribuir com a obra formativa exercida pelas Dominicanas e assim, assumiram aulas na quinta série, no curso de Admissão e no curso Normal Regional. No mesmo ano, chegaram mais duas Irmãs da Alemanha.

Seguindo o documento, em dezembro de 1951, irmã Adelgundis e irmã Athanasia se preparam para uma visita na Alemanha. Era um projeto importante. Não foram somente para passar a saudade, tratava-se de relatar as experiências de antes e depois da guerra. Durante tal época as relações foram cortadas, também com os familiares mais próximos. Outro sério problema, que elas precisavam resolver era a pergunta pela continuação da obra missionária em Cruzeiro do Sul, “pois na Alemanha faltavam forças para a reconstrução das escolas” que haviam sido fechadas. Ou seja, a permanência da Congregação no município de Cruzeiro do Sul, mesmo tendo sido autorizada pela superiora, continuava sendo uma questão discutida no interior da Congregação, uma vez que a província das dominicanas e toda a Alemanha, sofria duras penas com o pós-guerra.

Em um trecho do Livro de Crônicas, a Irmã lista as dificuldades enfrentadas, tais como: algumas das professoras tinham partido para o Peru e Brasil; os pedidos de envio de freiras para outras cidades foram negados; os terrenos e edifícios onde anteriormente funcionavam as escolas dominicanas haviam sido vendidos, inclusive em Gemund/Eifel, onde localizava a sede da Congregação; as outras filiais foram sustentadas com sacrifício; as irmãs mais novas deveriam continuar seus estudos. Após listar as fragilidades da continuidade da obra missionária em Cruzeiro do Sul, a freira diz: “Nessa situação era necessário mais do que grande coragem para pedir irmãs”, mas ainda assim “algumas irmãs mostraram entusiasmo e boa vontade [...]”.

A Irmã Adelgundis, que ocupava o cargo de diretora do Instituto Santa Teresinha, retornou para Cruzeiro do Sul em fevereiro de 1952 a fim de se fazer presente no começo do ano escolar, porém, Irmã Athanasia permaneceu na Alemanha. Não se sabe exatamente o motivo, mas quem sabe esta tinha dúvidas sobre a continuidade da missão. No Livro de Crônicas, diz que: “o conselho geral refletiu bastante” sobre esta questão, mas foi mantida a decisão da superiora e a atividade das dominicanas no município de Cruzeiro do Sul ganhou reforços. No mês de abril de 1952, foram liberadas mais três irmãs para Cruzeiro do Sul: as irmãs M. Angela Schneider, Beata Bohlen e Diana Marz. Não eram professoras formadas e experimentadas, “porém tinham uma formação concluída como naquele tempo era possível”: uma enfermeira, uma jardineira e uma costureira. E juntamente com essas três, Athanasia também retornou.

Registrou-se no Livro de Crônicas que, essa viagem foi mais tranquila do que da primeira vez em que veio ao Brasil. Chegaram de navio ao Rio de Janeiro de onde aguardaram o avião da FAB para seguir ao seu destino. No documento, afirma-se que com a chegada das quatro freiras e mais da Irmã Relindis vinda do Peru, eram então sete freiras dominicanas no município de Cruzeiro do Sul: Irmã Adelgundis, Athanasia, Relindis, Rosa, Diana, Beata e Ângela. A freira que naquele momento narrava o documento, ressalta a sua estranheza com o lugar, destacando que as paredes do colégio eram de tijolos, dentro de tábuas, e tudo coberto de palha: “Com uma certa curiosidade e cautela, enfrentamos o novo, também com abertura e prontidão de adaptarmo-nos [...]. Éramos diferentes em idade, formação e antecedências. Com boa vontade, iniciamos o processo de adaptação”.

Depois destas, localizamos registro de outras viagens de Irmã Adelgundis com o mesmo destino em 1960/1961, 1966/1967, 1969, 1972/1973, 1978/1979 e, por fim, em 1980, quando retornou de vez à Alemanha. Quanto à Irmã Athanasia, temos registros de viagens em 1967 (03.04 a 07.07), 1971/1972, 1976 e em 1981, quando também mudou-se de vez para a Alemanha.

Além das viagens, destacamos a troca de materiais, como mais uma possibilidade de fazerem circular as ideias pedagógicas entre regiões e países diversos. Ao observar a história do Curso Normal Regional, vemos que este foi criado exatamente no período em que o Brasil instituiu sua política do livro didático, consolidando a legislação sobre as condições de produção, importação e utilização desse impresso nas escolas do país. Em diálogo com essa política nacional, o Instituto Santa Teresinha e a Escola Normal de Cruzeiro do Sul, foram, paulatinamente, adquirindo e se aproximando do acervo pedagógico que circulava em outros espaços.

As fontes levantadas, evidenciam que, no decorrer da década de 1950, a Biblioteca do Instituto Santa Teresinha, denominada de Tristão de Athayde - pseudônimo de um dos principais nomes do movimento de renovação católica, Alceu de Amoroso Lima - foi enriquecida com livros, dicionários, bíblias, manuais e revistas, adquiridos por meio de doações e de compras. As doações vieram de órgãos como o Instituto Nacional do Livro, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos/INEP, a Companhia Melhoramentos de São Paulo, a Diretoria do Departamento de Educação e Cultura do Acre e a Coordenação da Companhia Nacional de Educação Rural/CNER. Além disso, a escola fez a assinatura de um relevante periódico, denominada Revista do Ensino.

Segundo Bastos (2002, p. 151), a imprensa pedagógica é “um dispositivo de orientação - intelectual e moral - do magistério [...]”. Constitui-se, desse modo, num “dos dispositivos privilegiados para forjar o sujeito/cidadão [...]” e, nesse sentido, é “portadora e produtora de significados”. De acordo com a autora, a imprensa “constitui verdades, ao incorporar e promover práticas que legitimam alguns conhecimentos em detrimento de outros, produz e divulga saberes que homogeneizam [SIC], modelam e disciplinam seu público-leitor” (Bastos, 2002, p. 152).

Como afirmamos anteriormente, a ação dos religiosos católicos no Vale do Juruá, não se resumiu ao investimento no Instituto Santa Teresinha e no Curso Normal Regional. Ao contrário, as instituições por eles implementadas ofereciam desde educação infantil até o ensino médio, baseando-se em métodos de ensino considerados modernos - apesar da ênfase dada à questão humanística - por meio de um currículo clássico e literário. A disciplina escolar era sustentada por rígidos princípios morais e cristãos, emanados dos professores, que boa parte era pertencente às ordens religiosas católicas que atuavam na região, especialmente as dominicanas e os espiritanos.

Quanto aos intercâmbios e às redes de sociabilidade sustentadas pelos religiosos alemães, embora estas fossem dificultadas pela distância geográfica do Vale do Juruá e pelo isolamento decorrente da ausência de transportes aéreos e terrestres na região, encontramos evidências de que as redes de sociabilidade destes religiosos não eram estritamente municipais, porque a Igreja é uma instituição internacionalizada e, como tal, os religiosos não ficaram isolados no Vale do Juruá. Ao contrário, transitavam em âmbitos nacionais e internacionais, deslocando-se do Acre para outros estados brasileiros e para a Alemanha, superando assim, as fronteiras nacionais.

Observamos que através de viagens e da troca de materiais pedagógicos estes religiosos, entravam em contato com os métodos e modelos desenvolvidos em outras regiões, que transportavam para as escolas confessionais por eles gestadas, garantindo o movimento de importação de ideias pedagógicas.

Considerações Finais

Os processos de constituição de modelos educativos, as formas de apropriação, de circulação de ideias pedagógicas e os sujeitos que a partir destes modelos foram formados e formaram outros tantos, são possibilidades promissoras de pesquisa, pois trazem indícios sobre o modelo atual de ensino e de educação de uma determinada coletividade. As vozes silenciadas do passado, devem ser ouvidas no presente em função da possibilidade de construção de um futuro mais promissor para os processos educativos.

Neste estudo analisamos o projeto de formação escolar confessional implementado pela Igreja Católica de vertente alemã na Amazônia, sobretudo na região do Vale do Juruá a partir das ideias pedagógicas em voga nas instituições confessionais criadas por estes missionários. Ademais problematizamos como estas ideias circularam na região e influenciaram na construção de modelos próprios alicerçados nos princípios confessional-católico.

Assim, no artigo discutimos aspectos como: o papel da Igreja Católica da montagem de uma rede de escolarização nesta parte da Amazônia, a história da formação docente local, a escolha da região do Vale do Juruá como locus de implementação desta rede confessional escolar, a articulação com a política regional, os diálogos e intercâmbios que estes religiosos mantiveram com intelectuais do campo educativo para fazer circular as ideias pedagógicas.

Estes aspectos anteriormente indicados, confirmam nosso argumento inicial de que a Igreja Católica de vertente alemã foi a principal articuladora de um modelo de formação escolar confessional implementado na região do Vale do Juruá e, por meio deste, fez circular ideias pedagógicas importantes para a organização do ensino na região.

Este modelo escolar, embora apresentasse uma raiz na Alemanha, uma vez que parte dos missionários católicos que atuaram neste espaço eram de nacionalidade alemã, ainda assim, as freiras dominicanas que estiveram à frente das duas principais instituições católicas criadas no Vale do Juruá (o Instituto Santa Teresinha e a Escola Normal Regional de Cruzeiro do Sul) mantinham intercâmbios com educadores do movimento escolanovista, como demonstramos por meio das fontes. Além disso, vemos similaridades nos aspectos pedagógicos e curriculares do modelo de formação direcionado pelas freiras dominicanas com outras escolas congêneres do mesmo período. Como exemplo, destacamos a ênfase nos trabalhos manuais, nas atividades práticas e nos aspectos morais e religiosos da formação.

Concluímos que a organização pedagógica das escolas confessionais da região do Vale do Juruá sinaliza o movimento transnacional da educação, o qual envolveu uma orientação de matriz católica, de vertente alemã, mas que também se relacionava com a pedagogia liberal direcionada pelos educadores que defendiam a escola laica. No entanto, muitos outros aspectos sobre esse estudo precisam ser ampliados, o que somente será possível com a continuidade da pesquisa.

Referências

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  • 1
    A partir do ano de 2025, uma reconfiguração para estas escolas foi planejado, por meio de um novo Convênio, através do qual algumas das escolas criadas pela Igreja Católica, se tornarão Diocesanas.
  • 2
    Regimento Interno do Curso Normal Regional de Cruzeiro Do Sul, do Instituto Santa Teresinha. Documento sem data, mas os indícios apontam que se trata do 1º Regimento do Curso.
  • 3
    Estatuto do Instituto Cultural Orfanológico Santa Teresinha, 1940
  • 4
    Estatuto do Instituto Orfanológico Santa Teresinha, 1940.
  • 5
    Relatório do Instituto Cultural Orfanológico Santa Teresinha. [S. d.].
  • 6
    Regimento Interno do Curso Normal Regional de Cruzeiro Do Sul, do Instituto Santa Teresinha.
  • 7
    Relatório do Instituto Orfanológico Santa Teresinha, [S. d.].
  • 8
    Regimento Interno do Curso Normal Regional de Cruzeiro do Sul do Instituto Santa Teresinha, [S.d.], mas os indícios apontam que se trata do 1º regimento do Curso.
  • 9
    1-Ofício remetido pela Direção do Instituto Santa Teresinha a Alceu Amoroso Lima. Cruzeiro do Sul/Acre, 01 de junho de 1949; 2-Carta/resposta de Alceu Amoroso Lima ao Instituto Santa Teresinha. Rio de Janeiro/RJ, 12 de agosto de 1949.
  • 10
    Ofício remetido pela Direção do Instituto Santa Teresinha a Alceu Amoroso Lima. Cruzeiro do Sul/Acre, 01 de junho de 1949.
  • 11
    Carta/resposta de Alceu Amoroso Lima ao Instituto Santa Teresinha. Rio de Janeiro/RJ, 12 de agosto de 1949.
  • 12
    Sobre o itinerário de viagens das freiras dominicanas a Cruzeiro do Sul (Acre) ver DOI: 10.5281/zenodo.13891441, disponível em:https://uploads.knightlab.com/storymapjs/51dd1df41c0d60e649a7029cd972a667/irinilda-bezerra/draft.html.
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Editado por

  • Editora Responsável:
    Patrícia Weiduschadt

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Mar 2025
  • Aceito
    05 Nov 2025
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