Resumo
O lançamento de Esaú e Jacó nos Estados Unidos, com tradução de Helen Caldwell, insere-se em um contexto peculiar: as políticas da época da Guerra Fria, o fenômeno da recepção dos romances de Jorge Amado, o desconhecimento do público daquele país da realidade dos seus vizinhos do Sul e, em algum momento, também o chamado boom da literatura latino-americana. Como essa conjuntura histórica enforma ou não a versão de Caldwell? Como suas opções de tradução, bem como os problemas que elas suscitam, iluminam a obra de Machado, fazendo com que esta repercuta o mundo contemporâneo de capitalismo avançado e de dominação geopolítica? Ao procurar responder a essas perguntas, este artigo reflete sobre as constantes (re)atualizações da ficção machadiana, bem como sobre suas permanentes conexões históricas.
Palavras-chave:
Recepção; transferências culturais; Machado de Assis
Abstract
Helen Caldwell’s translation of Machado de Assis’s novel Esaú e Jacó in the United States is set in an interesting context: American politics during the Cold War, the phenomenon of the reception of Jorge Amado’s novels in that country, the ignorance of the public in the U.S. about the reality of its southern neighbors and, at some point, the so-called boom of Latin American literature. How does this historical context shape Caldwell’s version, or not? How do her translation choices, as well as the problems they raise, illuminate Machado’s work and make it resonate with the contemporary world of advanced capitalism and geopolitical domination? In attempting to answer these questions, this article reflects on the constant updating of Machado’s text and its responses to history.
Keywords:
Reception; cultural transfer; Machado de Assis
Helen Caldwell inicia o texto introdutório à sua tradução de Esaú e Jacó (1965, p. 5) com um (por) aqui e agora (now [...] hereabouts), ao salientar que comédia “parece estar morta ou em um coma profundo”. Na comédia representada pelo romance de Machado de Assis não haveria para ela realismo “viril” (red-blooded), mulheres nuas, respiração ofegante nem quaisquer “perversões sexuais estranhas”. No original: “Now, when comedy hereabouts appears to be dead, or in a profound coma, it is a mistake, perhaps, to bring forth this work of mirth from another age, another language, another hemisphere (1965, p. 5).”
Trata-se de um preâmbulo curioso, não apenas pela nota entre semifeminista e puritana, mas ainda porque ao menos, momentaneamente, reatualiza Machado com aquilo que o romance falharia em fornecer a um mercado editorial porventura sequioso por outro tipo de produto. Chama a atenção sobretudo a ironia de Caldwell em pensar sua tarefa como um possível “erro”, por trazer à luz uma obra radiante “de outra época, de outra língua e outro hemisfério”.
Se os Estados Unidos estavam vivendo, nos anos 1960, um período de maior liberdade sexual e de oposição ao conservadorismo político da década anterior, o fato é que a nota parece aludir a um fenômeno paralelo, mais relacionado ao mercado editorial e à recepção da literatura brasileira e latino-americana. Um fenômeno que põe Machado em uma posição bastante peculiar, aparentemente em desacordo com o momento histórico e, ao mesmo tempo, quero pensar, como produto dele.
A conjuntura está na raiz do boom latino-americano, algo de que Machado parece beneficiar-se, mas por uma via que podemos chamar de excêntrica. Estudos como o de Hélio Guimarães (2023, p. 15) e Deborah Cohn (2023, p. 20) qualificam sua presença nos Estados Unidos da década de 1960 como “estranha” ou “anômala”, fruto de “história ligeiramente diferente”. Guimarães está pensando na inserção de Machado em um grande grupo editorial como a Farrar, Strauss and Giroux e Cohn, na peculiaridade de sua recepção nos EUA.
Afinal, em 1921, o autor já fora apresentado de forma tímida ao mercado de língua inglesa, com a tradução de três de seus contos em uma coletânea idealizada por Isaac Goldberg1. Mas o grande impulso veio nos anos 1950 pelas mãos do editor Cecil Hemley, proprietário da Noonday Press. No curto intervalo entre 1952 e 1954, Hemley publica, salienta Guimarães, três de seus romances, vertidos por três tradutores diferentes: Epitaph of a Small Winner, de William Grossmann (título para a tradução das Memórias póstumas de Brás Cubas, que Grossmann havia lançado no Brasil como The Posthumous Memoirs of Braz Cubas, no ano anterior), Dom Casmurro, traduzido por Helen Caldwell e Philosopher or Dog? (Quincas Borba), por Clotilde Wilson.
Embora Dom Casmurro tenha marcado a estreia no mercado editorial de Helen Caldwell, a tradutora vinha debruçando-se sobre o autor desde a década anterior. Na correspondência recolhida por Guimarães, entre ela e Hemley, vemos que desde seu primeiro mergulho no romance, dez anos antes, essa professora de Letras Clássicas na Universidade da Califórnia não apenas lera e relera os escritos de Machado que fora capaz de obter (tanto “os coligidos quanto os que permaneceram inéditos”), como vasculhara as “centenas de livros, artigos, ensaios, monografias” sobre o autor. Em 1948, ela escreve a Augusto Meyer, então diretor do Instituto Nacional do Livro, perguntando sobre a prometida bibliografia sobre Machado de Assis e, em 1950, produz um artigo para o International Colloquium on Luso-Brazilian Studies, advertindo os pesquisadores sobre a necessidade de se realizarem “estudos acadêmicos sobre Machado de Assis” (Guimarães, 2019, p. 113-141).2
Parte da investigação de Caldwell sobre Dom Casmurro iniciou quando ela começou a duvidar da “própria sanidade” ao perceber que, com raríssimas exceções, nenhum crítico brasileiro sequer apontava a ambiguidade central ao romance, derivada dos assaltos por vezes bastante sutis de Machado à autoridade do narrador. Como bem observou Roberto Schwarz (1997, p. 11), Caldwell, que em 1960 viria a publicar o resultado de sua investigação em The Brazilian Othelo of Machado de Assis, pôs a descoberto “o artifício construtivo da obra, a ideia insidiosa de emprestar a Otelo o papel e a credibilidade do narrador”.
Caldwell (2002, p. 162) pode ter-se apegado a detalhes superficiais da intriga e mesmo a pontos que beiram a superintepretação, como o suposto trocadilho entre “a palavra inglesa ‘Moor’ e a sílaba intermediária de ‘casmurro’”, por exemplo, mas sua tese de fato viria a desafiar a leitura mais estreita de certa crítica machadiana. Mesmo assim, talvez não tenha recebido o reconhecimento devido, nem na época, nem por alguns estudiosos até hoje. A leitura de Abel Barros Batista em “O legado Caldwell ou o paradigma do pé atrás” (1994), por exemplo, não é muito abonadora. E Guimarães lembra, a propósito, que “O Otelo brasileiro” levaria mais de 40 anos para ser publicado no Brasil, sendo que pouco mais do que ela escreveu foi vertido para o português.
Além de Dom Casmurro e Esaú e Jacó, Caldwell transpôs Memorial de Aires (1972) Helena (1984) e vários contos (The Psychiatrist and Other Stories, com Grossmann, 1963). Ela escreveu igualmente introduções para todos os romances que traduziu (o dedicado a Dom Casmurro figuraria apenas no relançamento do livro pela University of California Press, em 1966) e também para A mão e a luva (The Hand and the Glove, tradução de Albert I. Bagby Jr., para a University Press of Kentucky, 1970). Ademais, lançou em 1970, pela University of California Press, Machado de Assis: The Brazilian Master and his Novels, onde, de modo celebratório, sugere que a obra de Machado não era mais desconhecida nos Estados Unidos e que o número de leitores vinha aumentando no hemisfério norte.
Guimarães (2017, p. 180) lembra que Eugênio Gomes rechaçou a leitura de Caldwell, em geral, e a “excessiva ênfase às conotações simbólicas”, em particular, um pouco por causa da ausência de “entranhadas vivências brasileiras” (ela só conheceria o país em 1961), algo que pode ser dito a respeito de Hemley, que também duvidou da exegese alinhada à palavra do narrador.3 Curiosamente, David Grossmann, que residira no Brasil, jamais confrontou a versão do bacharel atormentado. No fundo, uma confusão entre a figura do autor e o estatuto do narrador, paradigma que vinha sendo posto em xeque na tradição anglo-americana desde o século XIX por escritores como Henry James e Joseph Conrad. Por aqui, porém, o desmentido esbarrou não apenas na noção do narrador como porta-voz do autor, como ainda na autoridade do primeiro como representante da oligarquia nacional. No que nos interessa, a falta (de vivência) de um estrangeiro parece ter-lhe emprestado um olhar mais arguto para aquilo que, embora hoje seja difícil não notar, também nunca havia se furtado à vista.
Uma questão de segurança nacional
Mas voltemos ao boom. A despeito da data de lançamento de Esaú e Jacó nos Estados Unidos, seria precipitado, como vimos, associar a atividade de Caldwell diretamente a esse período de renovado interesse pela literatura latino-americana. Na realidade, a brasileira não costuma ser, salvo marginalmente, relacionada ao fenômeno, ainda que Neil Larsen (1995, p. 73-78) tenha proposto uma resposta diferente para o “excepcionalismo brasileiro”, ponderando se Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, lançado em 1962 nos Estados Unidos, não deveria ser considerado o primeiro romance do “boom”.4 Mesmo nesse caso, o interesse de Caldwell se inicia ainda durante a Segunda Guerra e sua primeira incursão mais sistematizada nos estudos e na tradução de Machado se dá no pós-guerra. Além disso, enquanto vertia Dom Casmurro, já vinha desenvolvendo a investigação que daria luz posteriormente ao Brazilian Othello, a qual teve de ser interrompida por causa do trabalho de tradução. Assim, em termos de contexto histórico, a gênese de seu trabalho está menos ligada ao boom do que às consequências da Política da Boa Vizinhança.
Contudo, não podemos esquecer que, após um breve desinteresse mais direto do governo americano quanto às relações hemisféricas com o fim da guerra, já em 1950 funda-se a organização anticomunista Congresso pela Liberdade Cultural (Congress for Cultural Freedom), secretamente estabelecido e mantido pela Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency, CIA), que patrocinou, entre outras iniciativas, a revista Encounter, editada por Stephen Spender, e os Cuadernos por la liberdad de la cultura, organizada por Julián Gorkin. Esta última revista teve, ao longo de dez anos, colaboração de intelectuais de prestígio como Octavio Paz e Jorge Luis Borges. Sua versão nacional, chamada Cadernos Brasileiros, lançada posteriormente em 1959, contou com a presença, entre os membros de seu conselho editorial, de Adonias Filho, Celso Cunha, Cassiano Ricardo, Érico Veríssimo, Mário Pedrosa, Manoel Bandeira e Eugênio Gomes, sendo Afrânio Coutinho seu principal articulador intelectual e artístico (Franco, 2002, p. 29-35; Ridenti, 2018, p. 351-373). Em 1966, o Congresso subsidiaria ainda, de forma oculta, o periódico Mundo Nuevo, que até 1968 foi editado por Emir Rodríguez Monegal (Cohn, 2006, p. 142).5
1959 é um ano importante, em razão da Revolução Cubana. Movidas por interesses políticos e econômicos, as ações na região se devem a uma série de agentes, como o Departamento do Estado norte-americano, a CIA e a Fundação Ford. Um nome, porém, chama a atenção, por causa de seus negócios e prolongado interesse na América Latina: Nelson Rockfeller. O empresário esteve por trás de algumas importantes ações da época da Política da Boa Vizinhança (Franco, 2002, p. 25), como coordenador do Escritório de Assuntos Interamericanos (Office of Inter-American Affairs). Mais tarde, entre 1960 e 1966, a Rockfeller Foundation subsidiou uma ação decisiva: concedeu 225 mil dólares ao programa de tradução da Associação das Editoras Universitárias Americanas (Association of American University Presses, ou AAUP), uma verba a ser distribuída ao longo de cinco anos (Cohn, 2006, p. 144).
Até então, a publicação de literatura da América Latina, incluindo o Brasil, era um empreendimento esporádico e sujeito a prejuízos, resultado de iniciativas pontuais como da Alfred A. Knopf, Inc., que se firmaria como grande nome do setor, e da Noonday. A meta da AAUP era o fornecer subsídio externo para as traduções e, com isso, gerar um interesse no mercado capaz de tornar as editoras universitárias autossuficientes em termos comerciais. Como outros programas dos anos 1950 e 1960, apoiava os produtos culturais desses países, o que indiretamente colaborava com os interesses norte-americanos de aprofundar o controle político e econômico sobre eles. Segundo Cohn (2006, p. 141), por trás desses projetos, desde o Congresso pela Liberdade da Cultura, residia a crença liberal de que a maior compreensão da produção cultural de outros países beneficiaria “diretamente a segurança nacional”.6
De certa forma, portanto, ainda que tangencial, a publicação da obra de Machado de Assis, especificamente Esaú e Jacó, encaixou-se nessa política. O romance serviu para propagar a literatura latino-americana nos Estados Unidos, sendo um dos títulos beneficiados com a verba de aproximadamente 3 mil dólares, granjeada pelo programa de tradução da AAUP. Vale acrescentar que o programa subsidiou 105 títulos, ao longo de seis anos, sendo The Psychiatrist and Other Stories (1963) outra obra de Machado aprovada pelo programa. Ainda que a ênfase primordial residisse na literatura em língua espanhola, a AAUP lançaria também Vidas secas, publicado como Barren Lives, pela University of Texas Press, em 1965 (Cohn, 2006, p. 144-47). Um pedido de renovação, feito em fevereiro de 1966, no total de R$ 240 mil dólares, acabou sendo recusado pela Rockfeller Foundation.
Cohn (2023, p. 10) ressalta que, com a exceção de uma biografia de Cortés (Cortés: The Life of the Conqueror by his Secretary, de Francisco López de Gómara, que, com arrecadação de R$ 14.800,00, obteve o modesto ganho de US$ 1.301,00), todas as demais obras publicadas pela University of California Press e University of Texas Press, por meio da AAUP, tiveram “prejuízo líquido”. Segundo ela, a iniciativa acabou não cumprindo sua ambição mercantil, sobretudo porque não agiu sobre outras etapas do processo editorial, como o agenciamento e promoção, ao contrário do que fizeram outros projetos mais bem-sucedidos posteriores, como o da Fundação Interamericana de Artes (Inter-American Foundation for the Arts, IAFA) e sobretudo o do Centro de Relações Interamericanas (Center of Inter-American Relations, CIAR), sendo o romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (1970), o grande exemplo de sucesso deste último. Em especial, as obras difundidas pela AAUP não receberam cobertura adequada da imprensa. Com uma exceção.
O mal-entendido
Cohn (2006, p. 153): “Houve apenas uma obra literária publicada pelo programa de tradução da AAUP que recebeu uma publicidade comparável àquela fornecida aos títulos do CIAR: Esaú e Jacó (1965), de Machado de Assis, colecionou resenhas de 19 periódicos, incluindo publicações populares como o New York Times, New Yorker, Newsweek, Saturday Review e a Time”. Como ela e Guimarães e argumentam em 2023, o caso de Machado veio respaldado pelo histórico da década anterior e pela iniciativa da Noonday. Com efeito, os três romances publicados (Memórias póstumas, Dom Casmurro e Quincas Borbas) já haviam ganhado resenhas tanto na Time quanto no New York Times. Com isso, o nome de Machado passou a ser associado quer à ideia de mestre das letras, quer ao Brasil, quer a ambos, como mostram algum dos títulos dos artigos: “A Masterpiece from Brazil” (NYT, July 13, 1952) e “Skeptic from Brazil” (Time, July 21, 1952), para Epitaph of a Small Winner; e “Brazilian Loser” (Time, May 18, 1953), para Dom Casmurro. A relação salta aos olhos no nome da biografia escrita nessa época por José Bettencourt Machado, Machado of Brazil: The Life and Times of Machado de Assis, Brazil’s Greatest Novelist, obra resenhada por William Grossman no New York Times (“A Master of Irony”) em 22 de novembro de 1953.
Assim, se a tradução de Machado se beneficiou de algum modo de iniciativas que embalaram o nascimento do boom, ele não era propriamente produto do boom. Em primeiro lugar, não se tratava de um autor contemporâneo, como Cortázar ou Garcia Márquez, nem alcançou o nível do que Cohn (2023, p. 12) chama de “best-sellerismo”, típico do movimento. Em segundo, não se podia, em seu caso, protestar ignorância (ou ao menos a completa ignorância) do público norte-americano sobre a literatura dos seus vizinhos latino-americanos, uma incultura bem expressa por meio da frase de William H. Gass (1987, p. 35): “Nada havia lá antes, e então Boom!”.
Tornando à afirmação inicial de Caldwell, talvez ela não estivesse se referindo tanto (ou não apenas) aos novos tempos mais liberais, representados pelos anos 1960 em geral, mas a um tipo de literatura então em alta , marcada pelo desconhecimento e provincianismo do público estadunidense e decorrente de estereótipos vinculados à literatura latino-americana.
Em 1962, Gabriela, Cravo e Canela viera a público nos Estados Unidos, com tradução de William Grossman e James L. Taylor como Gabriela, Clove and Cinnamon. Independentemente de Larsen estar certo ou não em sua hipótese sobre o pioneirismo do romance de Amado na perspectiva do boom, o romance de fato se firmou como grande best-seller brasileiro e o maior, vindo da América Latina, até Cem anos de solidão. E, a despeito de suas qualidades na representação histórica e política, o padrão de consumo tendia a reduzir a obra ao exotismo, às normas do machismo da tradição patriarcal e à exploração da sexualidade da mulher negra subalterna. Segundo Lowe e Fitz (2007, p. 19), o impacto da recepção crítica anglo-americana desinteressada por questões de política, história, sociologia ou economia “contribuiu para uma séria incompreensão (serious misunderstanding) de um grande número de obras complexas provenientes de culturas bem diferentes da América Latina”.
Caldwell contrapõe assim a incompreensão ou mal-entendido (misunderstanding) real a um suposto “erro” (mistake), o de traduzir Machado, porque o livro parecia não se conformar ao padrão requerido pelo mercado. Pelo contrário, a ênfase do autor na filigrana, na ironia e humor sutis, na ambivalência, nas camadas de sentido profundo que desestabilizam e põem em julgamento o da superfície, não seria o que se esperava da literatura latino-americana naquele momento, naquele país (now e hereabouts).
Mas o que esses dados contextuais e da possível intencionalidade da tradutora têm a ver com a sua versão? Poderíamos alegar que nada, até mesmo em confronto com outros de seus trabalhos. Tanto o louvor, aliás, quanto as críticas que se dirigem a ela relacionam-se em geral com sua alardeada fidelidade.7 A busca pela precisão a leva a fazer largo uso de latinismos ou de palavras de origem latina. John Gledson (2013, p. 35 e 36) é um dos que a censuram pelo procedimento, escudando seu argumento no uso dos vocábulos germânicos, que ele costuma eleger na tradução de Machado, por lhe conferir maior coloquialidade. E, de fato, quando lemos o Esau and Jacob, de Caldwell, muitas vezes temos a sensação de que vamos acompanhando o original com uma espécie de película flutuante que dele adejou, uma transposição muito exata, sutil e requintada, quase que palavra a palavra, não raro respeitando até a ordem sintática, a despeito dos padrões mais usuais da língua inglesa.
Estamos longe de assegurar que o efeito da prosa de Machado sobre seu leitor, na versão inglesa de Caldwell - cujo resultado é bastante sofisticado, além de louvável por seu rigor, cuidado e delicadeza - seja o mesmo daquele de quem a lê no original. A tradutora também tem seus defensores, como Gregory Rabassa e Alberto Bagby Júnior. O último, curiosamente, é um dos poucos a destacar que Caldwell “nem sempre é fiel ao texto” (Babgy Jr, 1989, p. 42). Com exceção da observação de que Caldwell estaria “de algum modo sob o domínio da linguagem original” (“somewhat in thrall to the original language”), Patai (1999, p. 91, 93 e 95) abona a tradução, descrita como fiel e precisa. Por isso, causa surpresa quando Caldwell contraria o costume logo no início do trabalho e traduz a famosa expressão “cousas futuras” por “things fated to be”.8
Vale notar que a mais recente tradução de Elizabeth Lowe (2000, p. 3) dá “things of the future”, que parece preservar a maior maleabilidade semântica da expressão machadiana. As cousas do futuro dizem mais respeito, afinal, àquilo que se dá no ou se liga ao futuro do que necessariamente ao que está fadado ou destinado a acontecer futuramente. Poderíamos, por outro lado, dizer que Caldwell enfatiza um dos sentidos presentes na cena e no romance, com uma elite condenada aos círculos infernais recorrendo a videntes e centros espíritas, que o narrador procura emendar por meio da tradição greco-latina e cristã: pítia, sibilas, profetas.
Mas, se as palavras “destino”, “destinar”, “predestinado” são recorrentes na narrativa, não devemos esquecer a conhecida censura machadiana a toda sorte de determinismos em voga na época, dos sociais aos religiosos. O caráter sentencioso da expressão de Caldwell parece menos congenial ao tom satírico (ou do humor, como ela prefere) para o trato da matéria, em consonância com Memórias póstumas e Quincas Borba, por exemplo. Assim, o complemento “fated do be”, que ela matiza pouco depois com o mais explicativo “to be in the future” (Capítulo 4) e, adiante, simplesmente “to be” (118), pode representar uma piscadela da especialista que, como vimos, acerta no diagnóstico, mas quem sabe engessa um pouco a gama estilística e sugestiva presente no original.
A expressão “cousas futuras” acomoda-se, ainda, ao plano das nossas (in)determinações históricas: ao passado colonial e ao futuro do capitalismo financeiro e de monopólio, ao que desse futuro já se entrevia no passado e ao que do passado permanece no futuro. De todos os romances machadianos, talvez este seja aquele em que a dialética do passado e do futuro mais se apresenta como peça integral da composição. Vemos constantemente, sobretudo, o modo como o concurso do chamado progresso e da tecnologia contribui para a manutenção da velha ordem oligárquica. As forças novas aliadas ao capital se anunciam ainda embrionariamente logo no início, sendo o caso do irmão de almas o mais evidente. Não admira que ele depois se arvore a pretendente de Flora, filha da antiga oligarquia, o que parece reforçar o nosso ponto, embora, devamos confessar, Machado habitualmente descortine um cenário sempre mais complexo da realidade brasileira. O exemplo mais rematado da prosperidade se dá, de todo modo, no capítulo 73, “Um Eldorado”.
O encilhamento como boom
O futuro parece configurar-se completo ali, na esteira da bolha do encilhamento, ainda que este no fundo revele, na fissura, a vertigem do passado colonial (“Nasciam as ações a preço alto, mais numerosas do que as crias da escravidão, e com dividendos infinitos”). A versão de Caldwell, com raras liberdades, na qual em geral se evidenciam soluções interessantes,9 é, como se espera, precisa e fiel, com uma exceção: justamente a palavra “encilhamento”, transladada como “boom”.
“Boom” é ao mesmo tempo mais genérico e explosivo, sonoro e terminal, literalmente bombástico, do que “encilhamento”. Trata-se de um vocábulo cujo uso, nessa acepção, revela-se mais recente. Algumas fontes, como a segunda edição do Random House Unabridged Dictionary, por exemplo (Flexner, 1993, p. 240) dão o início do século XX, 1910-15, o que denunciaria um anacronismo, enquanto outros, como o Barnhart (1988, p. 106) atribuem o novo emprego à década de 1870. Thorstein Veblen, porém, afeito a neologismos, clichês e slogans, não usa o termo em seu Theory of the Leisure Class (1994), cuja primeira edição é de 1899.10 Sobre o vocábulo, William Gass (1987, p. 34), defende a ideia de que se trata de um termo ligado intrinsecamente à ideologia e ao comportamento do seu país: “A palavra ‘boom’ é uma palavra norte-americana, a ideia ‘boom’ é uma ideia norte-americana; a atitude ‘boom’ é uma atitude norte-americana”. Assim, se “boom” está fortemente ligado ao contexto da tradução, “encilhamento” é mais específico, datado e hoje quase catacrético. Se atualmente poucos se lembram que ele deriva do verbo encilhar, no sentido de apertar as cilhas, de arrear o cavalo para montá-lo, o sentido original é base para alegoria apresentada no capítulo, que inicia com as suntuosas carruagens à espera da gente Batista e prossegue com as centenas delas que parecem brotar do chão, comparadas pelo narrador aos corcéis das rapsódias homéricas.
Em sua introdução a Brazilian Tales, Isaac Goldberg (1921, p. 17) não traduz o termo ao mencionar o romance O encilhamento, de Taunay, explicando-o como “onda de especulação que varreu a Argentina e o Brasil”. Caldwell poderia tê-lo conservado em português, como faz com o ambivalente “cabocla”, ou indicado o significado em soluções híbridas, como propôs por exemplo com “castle Rock, Morro do Castello” (Morro do Castelo), “copy of the Dogma of the Immaculate Conception” (registo da Conceição), “some old copper vintens” (alguns vinténs antigos) ou “the Rio Branco law of free birth” (Lei Rio Branco). O mais perto que se aproximou de apagar o sentido original ocorreu quando trocou “caderneta na Caixa Econômica” por “savings account” (Machado de Assis, 1965, p. 5, 6, 12, 24 e 31, grifos meus).
Tanto “cabocla” quanto “encilhamento” se aproximam daquilo que Barbara Cassin (2013, p. 2) chamou de “intraduzível”, concepção que não diz respeito ao que não se pode traduzir, mas àquilo que “não cessamos de (não) traduzir” [“c’est plutôt ce qu’on ne cesse pas de (ne pas) traduire”]. Para Cassin, o intraduzível sucede quando a tradução se aproxima do fracasso. Ou quando fracassa e cria um problema. Por isso, continuamos a (não) traduzir. Em lugar do tradicional conceito do adaequatio, da semelhança e unidade (que guardaria em si um viés imperialista, do latim ao francês, do inglês ao mandarim), o interesse está em refletir sobre a diferença, a particularidade e a pluralidade. Como o Vocabulário das instituições indo-européias, de Émile Benveniste, ela procura atualizar as “redes [réseaux] nas quais a palavra se insere” e “compreender como uma rede funciona em uma língua, relacionando-a às redes de outras línguas” (Cassin, 2013, p. 1 e 2). Politizando o conceito, Emily Apter (2010, p. 196, 198) pensa no intraduzível como uma prática e um método, inclusive de um tipo de literatura comparada atenta para os riscos trazidos por algumas consequências da World Literature em um mundo globalizado; uma cartografia segundo a qual podemos pensar geopolíticas de leitura, um modelo de especulação em “filologia política” e de “decifração móvel” (“political philology” e “mobile decipherment”, grifo da autora). Apter (2013, p. 28 e 34):
O Dicionário dos intraduzíveis: Um vocabulário das filosofias, de Barbara Cassin, produz uma abrangente cartografia intelectual sem um paradigma global hegemônico [...] Dá origem a uma concepção de literatura comparada como disciplina que deriva sua raison d’être da constante atualização e revisão dos vocabulários de referência cultural [...] O livro se presta a uma cartografia linguística que permite que o comparativismo literário seja mais sensível para a geopolítica de mundos literários à medida em que eles ocorrem em tempo real.
Pode parecer estranho à primeira vista, mas traduzir Machado conduz muitas vezes à acepção mais vulgar do intraduzível. É o que pensou Grossman, por exemplo, quando disse a Otto Schneider, em entrevista para o jornal A Manhã (11 de maio de 1952), que verter Memórias póstumas foi como “traduzir o quase intraduzível” (ApudHatje-Faggion, 2017, p. 58). Por que Caldwell não deixou o termo na língua de partida? Por que não acrescentou um pequeno qualificador, como quando se referiu à lei Rio Branco, na língua de chegada? Claro, o público com quem sua tradução dialogava entendeu de imediato o significado de “boom”, que lhe soava novo quando conectado à ideia de rápido crescimento econômico, enquanto, aos ouvidos dos leitores de Machado, o neologismo encilhamento já estivesse sumindo (“Certo, não lhe esqueceste o nome, encilhamento”). Em especial, como bem lembra Angel Rama (1984), boom, naquele momento, liga-se ainda a um fenômeno de marketing, de vendas, como o que será logo depois associado à literatura latino-americana.
Se Rama estiver certo, o boom da literatura latino-americana durou de meados dos anos 1960 ao início da década seguinte, mas suas fronteiras são difusas. Como precisar um fenômeno cujo entendimento, incluindo a propagação do próprio nome, ocorre no curto espaço de tempo entre seu auge e o anúncio de sua extinção? De um fenômeno, aliás, cujas raízes políticas não só remontam à Revolução Cubana, mas também aos movimentos de vanguarda do início do século passado? E, por trás do que o boom revela da descoberta tardia dos produtos engendrados pelos países do hoje chamado Sul Global, não devemos esquecer que, como fenômeno da sociedade de consumo, ele se apoia na antiga dinâmica de um comércio internacional de forças desiguais, em um modo de produção respaldado pela ignorância histórica da cultura dos dominadores situados no centro do sistema capitalista com relação à cultura periférica dos dominados.
A discussão é longa e vasta. Para resumi-la de algum modo, podemos nos valer das “Conjecturas sobre a literatura mundial” [Conjectures on World Literature]. Franco Moretti (2013, p. 49-52) parte ali das análises de Antonio Candido, Roberto Schwarz (“também nas Letras a dívida externa é inevitável”, diz o último em Ao vencedor das batatas, 2000), sobre a literatura brasileira; Itamar Even-Zohar (“em geral, a literatura-alvo sofre interferência da literatura-fonte, que a ignora por completo”), sobre a literatura hebraica; Jale Parla (“os primeiros romancistas turcos combinam formas narrativas tradicionais com os exemplos dos romances ocidentais”), sobre a literatura turca; Ato Quayson (“O primeiro romance daomeano, Doguicimi [...] é interessante como experimento que realoca a literatura oral africana na forma de um romance francês”), sobre a literatura da África ocidental, entre outras. Ele mostra como essas leituras arrostam a concepção tradicional da ascensão do romance como um modelo exclusivo do centro do capitalismo. Assim, diante da imensa maioria de casos, Moretti (2013, p. 53) defende que o modelo distintivo do romance prevê um “ajuste” [compromise] entre o dado local, periférico e a forma estrangeira, metropolitana: “bem, eles [os romances espanhol, francês e inglês] não são de jeito nenhum a regra, mas a exceção. Eles vêm antes, sim, mas não são típicos. A ‘típica’ ascensão do romance se dá com Krasicki, Kemal, Rizal, Maran - não com Defoe”.
Nada disso, porém, explica por que Caldwell usa “boom” para traduzir “encilhamento” pois, afinal, ela não parece estar defendendo (ou imaginando) que Machado deva ser incluído no rol de escritores latino-americanos, cuja introdução no grande mercado internacional se associa de algum modo às maquinações da indústria de massa, mesmo que, como vimos, a busca por sua inserção nos Estados Unidos vá aos poucos, ainda que de forma tortuosa, acompanhando a trilha de tal fenômeno11. Produto de um erro retórico ou não, Esaú e Jacó insere-se nesse contexto. No entanto, o uso do termo, ainda que impreciso, chama a atenção justamente para a ideia de desequilíbrio entre centro e periferia, bem como o prestígio e o desprestígio das línguas em função de fatores geopolíticos e econômicos. Por curioso que possa parecer, essa é justamente uma das tópicas do capítulo, um motivo que surge estranhamente encaixado na descrição da opulência econômica, desvario monetário e fanfarrice generalizada.
Se recordarmos bem, para introduzir a ideia do dinheiro (e, depois, das carruagens) brotando do chão ou caindo do céu, o narrador recorre ao Cândido, de Voltaire. Antes, contudo, fica indeciso entre Cândido ou Cacambo, ao evocar o índio retratado em O Uraguai, de Basílio da Gama, e que também é o nome do criado com quem o protagonista da obra do francês viaja para a América do Sul, onde conhecem o Eldorado. O resultado é que a imortalidade abraçou o personagem de Voltaire, não de Basílio da Cunha: “... e a ironia do filósofo venceu a doçura do poeta. Pobre José Basílio! Tinhas contra o assunto estreito e a língua escusa. O grande homem não te arrebatou Lindoia, felizmente, mas Cacambo é dele, mais dele que teu, patrício da minha terra.”
Cacambo é do outro, do falante da antiga língua imperial. Nem o assunto de nossa terra interessa à metrópole, nem nossa língua, por subalterna, é conhecida. O doce poeta é vencido e esquecido. Como teria dito Agostinho (de Machado, não o filósofo): “em francês pode ser que fique ainda melhor”.
Consciente desse desequilíbrio, Caldwell se empenha para que Machado, ao contrário de Gama, possa aproveitar o novo interesse dos norte-americanos pelos países de “outro hemisfério”. Em seu “afã missionário” de fazer Machado entrar em cada lar (Guimarães, 2023, p. 118), ela sabe que a arma é a tradução, ainda que desconfie da inadequação de levar, para aquele público, o fundo e a forma dos romances de Machado, a profundidade de sua comédia sutil, sem nudez nem fetiches sexuais - ou, ao menos, não os ostensivos. Como interessar os leitores do boom por aquele outro boom?
No fim das contas, Machado estaria acima e além do boom. De certo modo, na acepção de Caldwell, ele problematizaria se não o boom propriamente, ao menos o interesse de certo público leitor, cujo apetite por exotismo, narratividade caudalosa, proezas sexuais varonis, choques e emoções baratas vinha se amiudando nos últimos anos e estabeleceram a necessidade daquilo que o boom, em parte, viria a suprir. Se Jorge Amado pode ser considerado protótipo para os escritores latino-americanos que impulsionariam o mercado editorial, Machado talvez possa ser pensado como sua antítese. A outra face da moeda que, no entanto, opera na chave dialética que não deixa de lado nem o boom nem sua matriz vanguardista. Peça excêntrica em um período histórico peculiar, que envolve tanto a ansiedade anticomunista quanto a busca por domínio tecnopolítico e econômico norte-americano advindo da Política da Boa Vizinhança e da Guerra Fria, Machado ou o interesse por ele pode “ter lançado algumas das bases”, como sugere Cohn (2023, p. 20), para a publicação “de outras obras latino-americanas traduzidas nos anos seguintes à Revolução Cubana”. Se estiver certa, trata-se sem dúvida de uma das mais insuspeitas reencarnações do Bruxo do Cosme Velho.
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Não se aplica.
Agradecimento
À professor Krista Brune, pela acolhida em State College/PA.
Referências
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1
Uma versão online do texto se encontra na biblioteca do Project Gutenberg: https://bit.ly/4khah8a.
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2
A bibliografia de Machado de Assis seria publicada por Galante de Souza em 1955.
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3
O artigo de Gomes no Correio da Manhã, intitulado “Que Há Num Nome”, saiu em 9 de julho de 1960. Trata-se de continuação de “A simbologia de ‘Dom Casmurro’”, publicada no mesmo jornal em 25 de junho.
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4
Sobre as relações da literatura latino-americana e a Guerra Fria, ver Searching for Recognition: The Promotion of Latin American Literature in the United States, de Irene Rostagno (1997) e The Decline & Fall of the Lettered City: Latin American and the Cold War, de Jean Franco (2002).
-
5
Para uma discussão sobre a atuação da CIA na Europa nesse período, ver os ensaios de Gabriel Rockhill em Philosophical Salon (“The CIA Reads French Theory”, 2017, “Foucault, Anti-Communism & the Global Theory Industry”, 2021) e Monthly Review (“The Myth of 1968 Thought and the French Intelligentsia”, 2023).
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6
Cohen se baseia em Michael Bérubé [“American Studies without Exceptions”, PMLA 118 (1), p. 103-13, 2003], que diz que a Guerra Fria fez com que os produtos do alto modernismo, como o expressionismo abstrato e a música dodecafônica, fossem “considerados vitais para a segurança nacional” (Apud Cohen, 2006, p. 141).
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7
Zelo reforçado zombeteiramente pela tradutora quando ela declinou o convite da Knopf para transpor Guimarães Rosa para o inglês, alegando que seria “mulher de homem só”. (Guimarães, 2019, p. 118.)
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8
Aqui e nos trechos extraídos da versão de Caldwell empregamos a primeira edição da obra lançada nos Estados Unidos (1965). Para o original, seguimos a introdução e notas de Hélio Guimarães (2012), salvo pelo possível arcaísmo deliberado de Machado, “cousas futuras”.
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9
Como “sprang forth” para “nasciam”, que acentua a acepção de corrente irresistível, de jorro, capturando, penso, um significado oculto de “brotar” (em “o dinheiro brotava do chão” e “nossas carruagens brotavam do chão”), adiante traduzido, desta vez mais literalmente, por meio da variante “spring out”.
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10
A respeito do estilo de Veblen ver, de Clare Virginia Eby, “Thorstein Veblen’s Style: The Substance of Rhetoric” (International Journal of Politics, Culture, and Society, v. 6, n. 4, p. 521-532, 1993).
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11
Guimarães (2023) descreve ainda a sobrevida de Machado na University of California Press. Ver também: “The Reception of Machado de Assis in the United States during the 1950s and 1960s”, de Earl Fitz (2009) e “Looking to the South: Many Americas”, de August Frugé (1993).
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Aprovação no comitê de ética:
Não se aplica.
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Contexto de pesquisa:
Parte do estudo foi apresentado e discutido em 2024 no Encontro Intermediário do Grupo de Literatura Comparada da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll), organizado pela professora Ana Lígia Leite e Aguiar, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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Financiamento:
O presente trabalho deriva de estágio de pesquisa na Universidade do Estado da Pensilvânia (State College, EUA), realizado no início de 2023 graças ao apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo/FAPESP (processo 2022/07643-3).
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Preprint:
O artigo não é um preprint.
