Open-access O “esquartejamento intelectual” de Sylvia Serafim: um olhar sobre a produção apagada da assassina do irmão de Nelson Rodrigues

The “Intellectual Dismemberment” of Sylvia Serafim: A Look on the Forgotten Work of the Murderer of Nelson Rodrigues’ Brother

RESUMO

Em 26 de dezembro de 1929, por conta de uma matéria apontando seu suposto adultério, Sylvia Serafim marcou a história da imprensa brasileira ao assassinar Roberto Rodrigues. No entanto, entrou como personagem secundária, coadjuvante na vida de Nelson Rodrigues, irmão de Roberto. Por meio de uma aproximação biográfica e com a formulação de crítica sobre a sua obra inédita, este artigo propõe um retorno à complexidade desta personagem; e trazer luz sobre alguns de seus escritos, esquecidos em função do crime. Olhar para Serafim como uma figura multifacetada permite adicionar camadas heterogêneas sobre um indivíduo até hoje interpretado unilateralmente. Por fim, evidencia-se, também, a atualidade e relevância de seus escritos jornalísticos e políticos, bem como as questões de gênero envolvidas em seu apagamento e desumanização.

Palavras-chave:
Sylvia Serafim; Roberto Rodrigues; Nelson Rodrigues; Fios de prata; literatura feminista

ABSTRACT

On December 26, 1929, motivated by an article pointing to her alleged adultery, Sylvia Serafim made history in Brazilian press by murdering Roberto Rodrigues. However, she entered as a secondary character, a supporting figure in the life of Nelson Rodrigues, Roberto's brother. This article aims to reclaim the complexity of this figure, seeking to demonstrate the tragedy of errors that resulted in the murder, in a brief revisionist exercise to challenge some canonized, unverified data; and shed light on some of her writings, forgotten due to the crime. Viewing Serafim as a multifaceted figure allows for adding heterogeneous layers about an individual traditionally interpreted unilaterally. Lastly, it also highlights the timeliness and relevance of her journalistic and political writings, as well as the gender issues involved in her erasure and dehumanization.

Keywords:
Sylvia Serafim; Roberto Rodrigues; Nelson Rodrigues; Fios de prata; feminist literature

Aproximação biográfica

No dia 26 de dezembro de 1929, o jornal Crítica, de Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, publicou uma matéria de capa intitulada “Entra em juízo nesta capital um rumoroso pedido de desquite”, junto com uma ilustração que mostrava Sylvia Serafim, jornalista e escritora, colaboradora de O Jornal de Assis Chateaubriand, tendo as pernas alisadas. A partir do desquite de Sylvia Serafim com Ernesto Thibau, além de um procedimento médico depilatório que deu errado e acabou por queimar as pernas dela, o jornal elaborou uma narrativa de adultério. A jornalista teria não somente traído o marido com o médico, catalisador do desquite, mas ainda implicava uma traição profissional, já que Ernesto também era médico. Sylvia chegou a saber da publicação e esteve na redação na noite de Natal, solicitando o cancelamento da matéria à Roberto Rodrigues, de quem recebeu a promessa de que ela não seria impressa. Mesmo assim, no dia seguinte, o jornal circulou com a reportagem (ver Figura 1):

Entra hoje em juízo nesta capital um rumoroso pedido de desquite. [...] Há uma grande ansiedade pública em conhecer os motivos da separação do casal Doutor Thibau Júnior. [...] Será o conhecido radiologista Dr. João de Abreu o causador directo da dissolução do lar daquelle seu illustre collega? [...] Mme. Sylvia Thibau, que subscreve as suas chronicas em jornaes e revistas com o pseudonymo de Petitte Source esteve em nossa redacção. (Crítica, 26 dez. 1929).

Figura 1 -
Crítica de 26 de dezembro de 1929 e o suposto adultério de Sylvia Serafim

Impactada com a publicação, Sylvia tentou o suicídio, mas foi impedida por seus pais. Resolveu sair, com a alegação de que precisava pegar ar. Contudo, passou em uma loja no Centro do Rio chamada Espingarda Mineira e comprou um pequeno revólver, com o qual foi para a redação de Crítica. Planejava cobrar explicações e pedir que publicassem uma retratação, mas, por ir sozinha a uma redação repleta de homens para uma situação delicada, achou mais seguro ir armada por precaução. Ao chegar, pediu uma audiência com Mário Rodrigues, que não estava, ou com Mário Filho, que também não estava. Estava Roberto Rodrigues, com quem já havia conversado na noite anterior. Entraram em um gabinete. Quem também estava era o irmão de Roberto, um jovem Nelson Rodrigues de 17 anos, que foi pegar um café enquanto ambos iam conversar em privado.

O que se passou no gabinete entre Sylvia e Roberto jamais foi plenamente esclarecido, e versões conflitantes circularam desde o início. Não há testemunha ou relato sobre o que teria sido dito ali dentro, e versões divergem. Nelson Rodrigues (2016) sustentou que não houve troca de palavras e que o tiro foi imediato. Na verdade, houve pelo menos um breve diálogo entre ambos, mesmo que não se saiba o conteúdo da conversa. Esse detalhe foi central para a defesa, que baseou parte de sua estratégia na ausência de testemunhas diretas durante os instantes cruciais que antecederam o disparo, sustentando a possibilidade de um conflito ou mal-entendido que poderia ter se desenvolvido nesse intervalo. Nos depoimentos, Sylvia afirmou que levara o revólver apenas por precaução e que só disparara após ser ofendida. Em entrevistas ao Diário Carioca (27 dez. 1929) e a O Jornal (27 dez. 1929), disse ter sido humilhada e até insinuou agressão física por parte de Roberto, sempre negando qualquer intenção premeditada. O que emerge dessas versões é menos a possibilidade de alcançar uma verdade definitiva e mais a constatação de como sua imagem foi moldada por narrativas contraditórias, marcadas por disputas políticas, de gênero e de poder. O fato é que o encontro terminou com um disparo de revólver que atingiu o abdômen de Roberto; a perfuração no intestino levou-o à morte três dias depois.

Mário Rodrigues morreria dois meses depois de trombose cerebral, segundo Ruy Castro (1992, p. 94), consequência da depressão causada pela perda do filho. Um jovem Nelson Rodrigues estava na redação e presenciou o assassinato de seu irmão, um trauma que o marcaria por toda a sua vida, conforme ele próprio afirma: “o meu teatro não seria como é, nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto” (LINHA Direta, 2007).

Mais conhecida como assassina, Sylvia Serafim era uma jornalista e escritora feminista (ver Figura 2), filha de um auxiliar de Oswaldo Cruz1 e frequente na alta sociedade carioca. Roberto, por sua vez, era ilustrador, desenhista e amigo de Candido Portinari. Embora a contextualização seja inevitável, a intenção deste artigo é ir além da figura de Sylvia como assassina, como nota de rodapé na vida de Nelson, espaço relegado a ela desde 26 de dezembro de 1929.

Figura 2 -
Sylvia Serafim como a única jornalista em um evento sobre o transatlântico Siqueira Campos.

O episódio rapidamente se converteu em espetáculo público. Os jornais em 1929 e 1930 representam a primeira cisão sobre a autora, cada um apontando sua própria versão de acordo com seus interesses. Personalidades como Bertha Lutz, grupos feministas e progressistas, além de Chateaubriand e seu império midiático, se posicionaram maciçamente a favor de Sylvia, enquanto os Rodrigues insistiam em uma campanha de difamação, empregando seus recursos na tentativa de vingança. Para o primeiro grupo, Sylvia era uma mulher humilhada que apenas defendeu sua honra; para o segundo, a encarnação do mal no mundo. Não sem motivo, seu julgamento recebeu tanta atenção e foi o primeiro a ser transmitido pelo rádio no Brasil. No processo, sua produção intelectual foi apagada por completo.

A repercussão não cessou com sua absolvição nem com sua morte em 1936. O caso foi retomado em crônicas de Nelson Rodrigues e, décadas mais tarde, em obras como O anjo pornográfico (1992), de Ruy Castro. Na ficção, Sylvia passou a ser lembrada quase exclusivamente como “a poetisa assassina”, eclipsando sua produção literária e jornalística. Um levantamento acadêmico recente identificou dezenas de trabalhos que a mencionam apenas como homicida, sem reconhecer sua atuação intelectual.

Sempre reduzida à condição de “assassina do irmão de Nelson Rodrigues” - apagando-se até mesmo o nome de Roberto -, Sylvia Serafim teve a sua obra marginalizada: Ruy Castro (1992, p. 104) a desqualificou como “ginasiana”, juízo contestado por críticos como Wilson Martins (1993), que ressaltou a injustiça da desconsideração, e Carloni (2020), que identificou méritos estilísticos e ironia em seus textos. Autora dos livros Fios de prata, sinfonia da dor (1930), Ramos de coral (1931) e Manual de civilidade (1935), colaborou assiduamente em periódicos cariocas e manteve, em O Jornal, o suplemento dominical Para a mulher no lar, no qual transitava de discussões sobre moda e maternidade a debates sobre política, economia e direitos das mulheres e trabalhadores.

O suplemento coordenado por Sylvia estendia-se por aproximadamente duas páginas e reunia uma diversidade de materiais. Havia textos de sua autoria, colaborações fixas, como a coluna A sciencia da belleza, escrita pelo Dr. Pires Rebello - que transitava de dicas práticas contra acne a considerações filosóficas sobre o conceito de beleza -, além de cartas, poemas e crônicas de leitores, acompanhados por uma profusão de anúncios. O subtítulo “modas, passatempos e ensinamentos úteis” refletia bem esse caráter multifacetado. Um exemplo é a edição n. 3500 de O Jornal (13 abr. 1930), na qual um artigo anônimo sobre diamantes aparecia entre um conto religioso sobre os últimos dias de Cristo e uma resenha literária assinada por Serafim. Em linhas gerais, a publicação não seguia uma lógica unificadora, oferecendo ao leitor uma colagem de temas variados e, muitas vezes, desconexos.

Após a absolvição, Sylvia Serafim não desapareceu da cena pública. Ao contrário, sua participação se intensificou, já que todos os seus livros foram lançados após o crime e sua relação com os movimentos feministas que a apoiaram se estreitou. Nesse período, foi eleita a primeira mulher a integrar a Academia Fluminense de Letras (O JORNAL, 19 mar. 1931) e tomou parte na Revolução Constitucionalista de 1932, o que selaria o resto de seu destino.

No início da década de 1930, envolveu-se com o tenente-aviador Armando Serra de Menezes, com quem teve um filho, Rohny. O romance nasceu em meio à Revolução Constitucionalista de 1932, quando Sylvia acompanhou um grupo de sufragistas a São Paulo. A impossibilidade legal de casar-se no Brasil por estar desquitada levou o casal a planejar uma união no Uruguai, onde as restrições eram mais brandas. Durante esse período, viveram momentos de proximidade e também de instabilidade: ela chegou a residir em um apartamento cedido pelo aviador, mas sofria com suas ausências constantes.

Em 1935, Sylvia e Armando acompanharam uma comitiva de Getúlio Vargas ao Uruguai, onde ela permaneceu na expectativa de oficializar a união, enquanto ele precisou retornar. O projeto, contudo, nunca se concretizou: Armando rompeu o relacionamento e se casou com outra mulher. A partir daí, a vida de Sylvia entrou em espiral. Voltou ao Rio para tirar satisfações sobre o sumiço do pai de seu filho, apenas para descobrir que ele havia casado e se mudado para Curitiba. Partiu atrás dele, mas foi rejeitada. Com isso, tentou tirar a própria vida em um hotel, cortando os pulsos, mas acabou sendo socorrida e sobreviveu. Pouco depois, foi novamente alvo de escândalo: acabou presa sob a acusação de falsificar documentos para ingressar na Faculdade de Direito de Niterói. De acordo com Ricardo Thibau (2023), o diploma falsificado teria sido fornecido pelo próprio Armando, que também teria feito a denúncia responsável por sua prisão. Na madrugada de 27 de abril de 1936, em Niterói, aos 34 anos, Sylvia ingeriu um frasco inteiro de Veronal. Durante a agonia, retirou as ataduras e reabriu os cortes dos pulsos. No dia seguinte, O Jornal (28 abr. 1936) estampou o episódio em tom sensacionalista, publicando fotografias do corpo e até um soneto inédito em homenagem ao filho Rohny. A manchete era contundente: “Não resistindo ao último escândalo em torno de seu nome Sylvia Seraphim abandonou a vida pelo suicídio. A escriptora golpeou fortemente o pulso, após ingerir violenta dose de ‘Veronal’”.

No entanto, antes de nos determos em maior profundidade sobre seus escritos, é necessário mobilizar, mesmo que brevemente, um debate sobre a biografia na área de História. Ao mesmo tempo, as aproximações da micro-história e da história cultural recordam que o estudo de uma vida pode ser heurístico para entender mentalidades, redes e práticas sociais. Essas perspectivas justificam aqui o recorte: o estudo da vida e da obra de Sylvia Serafim serve de lente para compreender tensões de gênero, imprensa e esfera pública no Brasil das décadas de 1920-1930.

Naturalmente, a utilização da biografia enquanto método historiográfico está longe de ser novidade. Mary Del Priore (2009) já ressaltava como o gênero biográfico sempre oscilou entre centralidade e marginalização no ofício do historiador. Se em suas origens a biografia se confundia com a própria narrativa histórica - como em Heródoto e Tucídides, que fundiam relato factual e recursos retóricos -, no século XIX ela foi mobilizada como instrumento de construção da nação, exaltando heróis e monarcas para compor um patrimônio simbólico coletivo. Já no século XX, a historiografia deslocou o indivíduo para segundo plano, produzindo um verdadeiro “eclipse da narrativa” em favor do “fato social total” (Del Priore, 2009).

Contudo, a marginalização da biografia nunca foi absoluta. O gênero retorna com força nas propostas da micro-história de Carlo Ginzburg (2006). Partindo do micro para entender o macro, a biografia passou a ser vista como um formato para compreender épocas e fenômenos em escopo ampliado, mas seguindo um contexto específico. Essa tensão entre literatura e historiografia é fundamental para compreender a renovação contemporânea da biografia histórica: trata-se de um gênero que, longe de ser apenas anedótico ou memorialístico, revela-se capaz de iluminar estruturas sociais a partir da trajetória de um sujeito. Nesse sentido, o estudo da vida e da obra de Sylvia Serafim insere-se nesse movimento de revalorização da biografia como instrumento heurístico: ao recuperar uma voz marginalizada, evidencia-se não apenas a experiência individual, mas também as redes intelectuais, as disputas de gênero e as formas de visibilidade na imprensa do período. Dessa forma, dando continuidade ao trabalho, é pertinente realizar uma digressão sobre o cenário político e literário das mulheres das letras no início do século XX.

A alvorada da literatura escrita por mulheres

Se outrora as mulheres desempenhavam papel fundamental na divisão do trabalho de suas comunidades, com o advento de grandes cidades e o puritanismo, passaram a dispor de muito tempo livre, como lembra Watt (2010, p. 46). Excluídas do trabalho e marginalizadas socialmente, as mulheres de classe média se viram com mais tempo livre do que qualquer outra classe ou setor social nos séculos XVII e XVIII. E, como Watt (2010, p. 168) aponta, não é coincidência, uma vez mais, que na “História da humanidade a severidade sobre as relações sexuais tendeu a coincidir com o aumento da importância da propriedade privada ― a mulher deve ser casta para que o marido possa ter certeza de que seu herdeiro é de fato o seu filho”. Por fim, elas também eram privadas da socialização e do entretenimento típicos dos homens daquela época, o que encorajou a solidão de hobbies individuais, como o romance. Como diz Lady Mary Wortley Montagu, prima de Henry Fielding, sobre a leitura feminina maciça: “Não tenho dúvida de que pelo menos a maior parte deve ser um lixo, bobagens etc. Entretanto servirá para passar o tempo” (Watt, 2010, p. 46).

Em 1792, apenas três anos depois do início da Revolução Francesa, Mary Wollstonecraft publicou o que podemos pensar como o primeiro texto feminista, ou protofeminista: A vindication of the rights of women. Wollstonecraft (1996) vinha de uma família ilustre: era casada com William Godwin, filósofo anarquista, mãe de Mary Shelley (2015), a autora de Frankenstein, e sogra de Percy Bysshe Shelley (2009), autor de Ozymandias, Ode ao vento oeste, Em defesa da poesia e um dos poetas mais ilustres da língua inglesa. Não é coincidência que uma versão inicial do feminismo tenha surgido com Wollstonecraft no final do mesmo século da ascensão do romance.

O individualismo que fomentou o crescimento urbano e o surgimento do romance também levou grupos específicos a questionar o seu status social, entre eles, as mulheres. Alguns anos após o livro de Wollstonecraft, mulheres romancistas começaram a ascender, como Jane Austen, as irmãs Brontë, George Eliot, entre outras. Antes, uma quantidade ainda menor, como Fanny Burney, conseguia alguma repercussão literária atuando como uma espécie de síntese entre Richardson e Fielding (Watt, 2010, p. 317). Ainda assim, a maior parte delas era forçada a publicar sob pseudônimos, já que a literatura feminina ainda recebia ferrenhas críticas na época. Ao contrário das Brontë, que, a despeito de assinarem com pseudônimos femininos, entraram na História da literatura com seus nomes reais, George Eliot foi lembrada por seu pseudônimo, e não como Mary Ann Evans. A própria Mary Shelley foi forçada a publicar Frankenstein sem crédito ao seu nome e com a permissão de Percy, a quem o livro foi inicialmente creditado. Foi só posteriormente, graças ao próprio Percy, que Mary recebeu a devida autoria.

No século XVIII e XIX temos, então, um curioso fenômeno: mulheres eram o maior público leitor, mas isso não era refletido no reconhecimento da produção feminina - embora, segundo Watt (2010, p. 319), quantitativamente, mulheres publicaram mais do que homens no século XVIII. Não apenas a mulher precisava da permissão de seu marido para publicar - como foi o caso de Mary Shelley -, mas o pensamento conservador e patriarcal desencorajava a literatura feminina. Mesmo sendo leitoras maciças, persistia o mito de que mulheres não eram capazes de produzir literatura.

No Brasil, as ideias de Wollstonecraft começam a reverberar no início do século XIX. Nísia Floresta, uma das primeiras autoras brasileiras, traduz e publica o manuscrito em 1832 (Priore, 2004, p. 405). Suas ideias passam a ser difundidas ao ponto de a autora britânica se tornar alvo de ironias masculinas, como em A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. Nele, a emancipação feminina é tratada como uma rebeldia pueril, um jogo lúdico para adolescentes que ainda não descobriram o matrimônio. Floresta e Wollstonecraft, bem como Serafim e tantas outras autoras, se aproximam na defesa que fazem da necessidade de instrução à emancipação feminina, argumentando que apenas a educação poderá fomentar uma igualdade entre os gêneros.

Pouco depois de Floresta iniciar o processo das mulheres nas letras, surge a primeira romancista brasileira. Maria Firmina dos Reis não somente era mulher, como negra, enfrentando dupla marginalização. Publica Úrsula em 1859, romance de teor abolicionista que antecede a abolição em quase meio século e narra a disparidade social de um relacionamento entre um casal branco e um casal negro. É notável como autoras como a própria Reis, mas também, um século mais tarde, Cora Coralina e Maria Carolina de Jesus superaram a ausência de instrução formal para legar obras históricas à literatura brasileira. Enfrentando as adversidades de ser mulher, bastarda, negra, liberal, abolicionista e autodidata, Reis ganhava a vida como professora, uma das poucas carreiras possíveis às mulheres do século XIX (Priore, 2004, p. 410-411).

As mulheres brasileiras também davam os primeiros passos em outra seara literária, ainda no século XIX: o verso. Uma das poetisas pioneiras, Narcisa Amália de Campos, encontrava algum espaço para publicar seus versos em jornais fluminenses, principalmente da cidade em que vivia, Resende. Semelhante ao que ocorreria com Serafim meio século depois, os relacionamentos de Campos foram impactados por suas pretensões artísticas e intelectuais, e seu segundo companheiro a teria deixado por conta disso (Priore, 2004, p. 419). Compartilhava com Reis os ideais liberais, abolicionistas, progressistas e democráticos, tomando como espelho os ideais da Revolução Francesa e a própria arte francesa em si “Longe, bem longe de nós já fica o tempo em que a missão do poeta era cantar nas praças públicas coroado de mirtos e louros, os prazeres do amor e o triunfo das armas. [...] O ideal de nosso século, é a divindade que roubou a França ao abismo: a Liberdade” (Priore, 2004, p. 420).

O ensaio de Virginia Woolf (2005), A room of one’s own (Um teto todo seu), de 1928, trata exatamente dessa questão. A autora cria uma fábula sugerindo que William Shakespeare teria tido uma irmã com a mesma habilidade literária que ele. No entanto, como mulher, ela não teria tido o mesmo nível de estímulo do jovem William, caindo em obscuridade. Misturando realidade e ficção, Woolf mostra que a ausência de literatura feminina não é por inabilidade, mas por pressão das estruturas sociais. Para isso, além da parábola da irmã de Shakespeare, Woolf cria também um narrador alter ego com um nome absolutamente comum, Mary Seton, como que personificando qualquer mulher. O “teto todo seu” (room of one’s own) de que Woolf fala, um espaço pessoal e privado para que se possa refletir e escrever, é essencial à criação artística e intelectual. Com a dependência social e financeira feminina, esse espaço era inexistente.

Um teto todo seu foi gestado alguns anos antes, com um debate público nos jornais entre Woolf e Falcão Afável (Affable Hawk), pseudônimo de Desmond MacCarthy. Affable Hawk havia publicado uma resenha favorável sobre o livro de Arnold Bennett, Our women: chapters on the sex disvord, em que o autor argumenta que a ausência de arte feminina se dá por conta de uma inteligência menor. Woolf, já uma romancista com alguns livros publicados (mas ainda distante de seus principais livros, como Mrs. Dalloway, 2016, ou To the lighthouse, 2013), ousou questionar as teses de ambos os autores, insistindo que tal ausência se dava, na prática, por ausência de instrução formal - o principal argumento que apareceria posteriormente em Um teto todo seu.

Por ironia, embora se considerasse um “feminista convicto”, Hawk argumenta que “as mulheres são inferiores aos homens em capacidade intelectual, especialmente no tipo descrito como criativa. Certamente, este fato é evidente a qualquer pessoa” (Woolf, 1996, p. 21). Para reforçar sua ideia, propõe uma lista dos 50 maiores autores da literatura, da pintura, da ciência, da crítica ou da música global, sugerindo que uma lista predominantemente masculina (na época) comprovaria tal superioridade. O fato de que tal lista, se feita na época, seria constituída quase exclusivamente por homens europeus e estadunidenses é retomado com sarcasmo por Woolf, crítica do etnocentrismo pseudocientífico sugerido por Hawk. Continua o autor:

Embora seja verdade que uma pequena porcentagem das mulheres seja tão inteligente quanto os homens inteligentes, o intelecto é uma especialidade masculina. Algumas mulheres, indubitavelmente, são muito inteligentes, mas em menor grau que Shakespeare, Newton, Michelângelo, Beethoven, Tolstoy. A capacidade intelectual média das mulheres também parece significativamente menor. Se o intelecto de um homem inteligente, mas não especialmente inteligente, fosse transferido para uma mulher, ela se tornaria imediatamente uma mulher muito inteligente, e acredito que o mesmo aconteceria com a sua capacidade de organização: Uma mulher com as habilidades de Henry Ford seria uma das maravilhas do mundo. (Woolf, 1996, p. 22).

Para Hawk, a preponderância social masculina seria decorrente e comprovação da suposta inteligência maior. Indo além, as mulheres desejariam a submissão social e intelectual. No entanto, fosse por esse caminho, seria um silogismo lógico entender que as emancipadas, sufragistas e feministas em geral se destacariam intelectualmente, dado que rejeitam a submissão que o autor entende como consequência (Woolf, 1996, p. 23). Não é, no entanto, o que escreve o resenhista, que sugere que os avanços progressistas desses grupos ideológicos em longo prazo não alterariam a distribuição social de poderes - ponto que, à luz da História, não se concretizou.

Uma semana depois, Woolf (1996, p. 26) respondeu tanto Hawk quanto Bennett, chamando atenção para o lento, porém progressivo, crescimento da participação social e intelectual da mulher. Como lembra, cada século que passa produz mais artistas, cientistas e intelectuais, o que evidencia a não existência de efeitos biológicos sobre a inteligência, mas sociológicos. Termina, com ironia, sugerindo se esse crescimento feminino não seria, segundo os argumentos de seus opositores, evidência então de uma diminuição no intelecto masculino, e se a Primeira Guerra não corroboraria isso (Woolf, 1996, p. 27).

A tréplica de Hawk explicita o seu ponto de vista liberal. Sem incorrer no anacronismo de implicar um argumento meritocrático antes da existência do conceito em si, sempre foi comum aos liberalismos a ideia de que a sociedade premia os mais talentosos, de forma que Hawk não hesita em lançar mão disso. Para corroborar sua tese da inferioridade das mulheres, sugere que mulheres talentosas deveriam ser capazes de superar barreiras sociais e políticas, desenvolvendo prodígios para entrar na sua referida lista fictícia dos “50 maiores gênios” (Woolf, 1996, p. 30). Lembra, para isso, da origem humilde de alguns grandes nomes das ciências e das artes na História, como Newton ou Herschel, concluindo que “não importa quão desfavoráveis tenham sido as condições de vida das mulheres no passado, não foram mais desfavoráveis do que aquelas vencidas pelos vários homens de capacidade intelectual extraordinária. [...] elas parecem não se igualar aos homens que são melhores em tudo” (Woolf, 1996, p. 31). O incômodo com o apelo biológico de Hawk geraria, em Woolf, o embrião da fábula de Judith Shakespeare, a irmã tão talentosa quanto William, mas privada das mesmas oportunidades sociais e relegada ao esquecimento, como aparece em Um teto todo seu.

Woolf (1996, p. 45) reforça que, para uma mulher se tornar escritora, ela precisa antes matar o anjo do lar (angel in the house). Ou melhor, precisa superar as limitações sociais que se impõem sobre o seu gênero, visto como preso às atividades domésticas. Precisa, inclusive, superar as formas com que essas limitações se manifestam em autocensura. Logo, os grilhões sociais se manifestam não só em aspectos como dificuldades financeiras da emancipação, mas também sobre a condescendência com que a literatura feminina era tratada, mesmo entre as próprias mulheres. Como diz: “É extremamente mais difícil matar um fantasma que uma realidade. [...] Matar o Anjo da Casa era parte das tarefas de uma escritora (Woolf, 1996, p. 45).

Um ano depois de Um teto todo seu, em 1929, Sylvia Serafim traz argumentos parecidos em seu artigo A mulher na literatura. Nele, Serafim rejeita os argumentos conservadores de que haveria pouca literatura feminina devido a uma suposta inabilidade literária das mulheres - ou até mesmo por menos inteligência, para os mais extremados. Um crítico brasileiro apontado pela autora, por exemplo, chegou a afirmar que “nada parece mais com uma página escrita por uma mulher do que outra página escrita por outra mulher” (Serafim, 1930). Ela compara o literário ao desnudar-se e argumenta que a parca produção feminina era devida à mesma razão pela qual o desnudar-se literal era controlado. Em suma, a pressão social pelo recato também impactava a produção literária, devido ao seu caráter íntimo.

Fosse em artigos dispersos por jornais e revistas como Fon-Fon, Selecta, Para-Todos, Gazeta de S. Paulo, ou em seu suplemento no O Jornal, Para a mulher no lar, Serafim mesclava temáticas espinhosas à época com poemas, crônicas e discussões sobre estética feminina, relacionamentos e moda. Para tal, empregava pseudônimos diversos de acordo com a temática de cada artigo. Às vezes assinava com seu nome, outras como Petite Source, Borboleta Azul, Maripoza Doirada ou Cinderela (sobre a qual também escrevia sobre moda), conforme a conveniência do tema. O suplemento ocupava de duas a quatro páginas, contando sempre com trabalhos de Serafim, uma coluna sobre estética chamada A ciência da beleza, assinada por Dr. Pires (uma mescla entre saúde e estética que tratava, por exemplo, sobre tratamentos de cravos e vitiligo), cartas dos leitores (e, por vezes, poemas e crônicas dos leitores), anúncios (muitos anúncios), entre outros materiais. Parte das colunas não eram fixas, mas sumiam e retornavam conforme a conveniência. Como será visto na próxima seção, os artigos de Serafim levantavam temas atuais e relevantes, como emancipação feminina e direitos dos trabalhadores.

Os escritos de Sylvia Serafim

Realizar uma análise inédita das narrativas da autora significa conceder novas facetas a uma mulher imortalizada apenas por um assassinato - que, como visto aqui, esteve longe de ser simples. Os três livros que ela escreveu, assim como seus artigos sobre feminismo, o feminino e comunismo, caíram na obscuridade. Resgatá-los e dissecá-los, além de mapear, coletar e catalogar a sua produção, é fundamental para compreender não somente essa autora, mas as dinâmicas de gênero da época e mesmo a historiografia política e jornalística do Brasil. Promover um retorno sobre a sua produção esquecida significa apontar sua relevância intelectual, jornalística, política e historiográfica.

Indo além, não é simples encontrar os livros de Serafim hoje em dia, dado que nunca foram reeditados. Todavia, a autora disponibilizou fragmentos deles nos jornais da época. Algumas das crônicas de Fios de prata, sinfonias da dor (ou Fios de prata, symphonia da dor, no original), aparecem em seu suplemento no O Jornal (ver Figura 3). Após um ano de busca em sebos do Rio de Janeiro e de São Paulo, encontrei este livro em um sebo em Brasília, na Livraria Pindorama. Nada barato, por estar na estante de livros raros e nunca ter sido reeditado. Em excelente estado, o nome de Sylvia, curiosamente, aparece grafado como “Silvia Serafim”. Na prática, ao longo da pesquisa descobrimos diversos materiais com grafias distintas; em alguns como Sylvia, outros como Silvia, ou ainda Seraphim e Serafim. Também aparece assinado com seu principal pseudônimo, Petite Source.

Figura 3 -
Capa de Fios de prata

Infelizmente não fui capaz de encontrar uma edição de Ramos de coral. Uma foi vendida em 2020 em um leilão. Entrei em contato, mas não consegui encontrar o comprador. Ricardo Thibau, um dos netos de Sylvia, afirma que tinha uma edição, mas que a emprestou no final do século XX para duas pesquisadoras que demonstraram interesse no tema, mas que nunca retornaram o livro. Outro neto, que preferiu não se identificar, diz que viu o livro vendendo em um sebo uma vez, também cerca de duas décadas atrás, mas que optou por não comprá-lo, pois desejava distância da história.

Manual de civilidade foi encontrado na Biblioteca Nacional. Ao contrário de Fios de prata, encontrado em um sebo, e de Ramos de coral, localizado em um leilão - ainda que não tenha sido possível adquiri-lo -, Manual de civilidade jamais surgiu em oferta pública. A única forma de acesso foi por meio de consulta em biblioteca, o que permitiu sua digitalização. Embora seja um material rico - não somente por ser um dos poucos livros escritos pela autora, mas também por se tratar de um curioso manual de etiqueta escrito por uma assassina -, o espaço e foco deste trabalho não permitem um mergulho sobre seu conteúdo, o que deverá ser feito em outra oportunidade. Ainda assim, foi preciso pelo menos sinalizar a sua existência.

O arquivo de Sylvia, aparentemente montado por ela própria, se mantém em bom estado de conservação, ainda que com pequenas marcas do tempo. Com quase cem anos desde que foi montado, apenas a lateral se desprendeu, assim como alguns pequenos fragmentos da capa. As páginas estão amareladas, como não poderiam deixar de estar pelo tempo decorrido. Vale ressaltar também sua extensão, tanto em altura quanto em quantidade de páginas, ainda que apenas cerca de um terço esteja coberto por trabalhos. A capa vinho, com alguns detalhes em preto, possui ainda uma mancha esbranquiçada e marcas que parecem de copos ou taças, possivelmente apoiados sobre ela em algum momento.

Há ampla disponibilidade de fontes nunca analisadas sobre o caso, sejam de Sylvia, sejam sobre Sylvia. Seria impossível cobrir todas no espaço curto de um artigo, de modo que a análise que aqui se desenvolve privilegiou uma breve abordagem sobre seus escritos, nunca antes discutidos na academia. Assim, dentre os trabalhos que a própria Serafim distribuiu e organizou em um álbum (ver Figura 4), foram tomados como objetos de debate alguns de seus artigos que permanecem mais relevantes no contemporâneo em termos políticos, principalmente sobre a pauta de gênero.

Figura 4 -
Capa do álbum montado por Sylvia

As fontes obtidas foram catalogadas e organizadas em uma planilha, dividida em seções de acordo com o tipo - bibliográfica, jornais da época, produção artística, etc. Junto ao arquivo pessoal inédito, a Hemeroteca da Biblioteca Digital dispõe de vasto material, largamente utilizado neste trabalho, principalmente quanto a outros trabalhos de Serafim e aos jornais sobre ela.

Por mais que um processo lento, nos últimos cinco anos se fez muito mais sobre a obra de Sylvia do que nos noventa anos anteriores, conforme surgem trabalhos como este e Mulheres tecendo o tempo, de Karla Carloni (2020). Até então, Sylvia era sempre apenas a assassina. Diversas teses, dissertações, sem falar das obras artístico-culturais, trazem a jornalista cristalizada nessa função. Em O anjo pornográfico, Ruy Castro diz que a produção literária de Sylvia é fraca, mas limita esse comentário a apenas uma linha do livro.

Embora esquecida hoje, Serafim tinha algum nome na época. Recebeu prêmios, viajou pelo país dando palestras e era presença constante nos grandes jornais. Um desses prêmios foi em um renomado concurso de A Noite, em 1929, ano do assassinato (Matos, 2022). Curiosamente, mesmo que também publicasse lá com alguma frequência, o veículo foi um dos que mais a atacaram durante o julgamento, possivelmente pela proximidade dos Marinho com os Rodrigues.

Ainda assim, não é claro como Sylvia conseguiu influência suficiente para receber um suplemento em um grande jornal ou como exatamente começou a sua trajetória intelectual. Muitos dados de sua biografia permanecem nebulosos, principalmente os 25 anos que antecedem a sua colaboração na imprensa. Podemos pensar apenas em hipóteses: sua circulação social pode ter sido facilitada pela posição do pai e do ex-marido, ambos médicos de renome, mas não há registros que expliquem sua relação com Chateaubriand nem a origem de seu suplemento, lacuna que futuras pesquisas precisarão esclarecer. Estudos anteriores, como os de Carloni (2020) e Barros (não publicado), não oferecem respostas para esse ponto, e mesmo os descendentes da escritora desconhecem como tal vínculo se estabeleceu.

De toda forma, sua obra recebia críticas e comentários frequentes na imprensa da época. Contudo, revelavam também a persistência dos papéis tradicionais de gênero. Nas críticas à sua obra, são comuns exaltações à sua aparência física, mesmo entre aqueles que elogiavam a sua escrita ou agudeza crítica. Um exemplo marcante aparece na Gazeta de São Paulo de 24 de abril de 1929, quando, ao apresentar o artigo O divórcio escrito por ela, o jornal destacava que “Petite Source é o pseudonymo de uma das mais altas intelligências femininas do Rio de Janeiro [...] observadora profunda e erudita de todas as questões que se agitam em nosso meio”. O elogio, entretanto, vinha acompanhado de uma barreira implícita: a ênfase no gênero, que a classificava como destaque apenas entre as mulheres, e não como parte das grandes mentes da época. Esse recurso retórico era recorrente em textos masculinos, como em As virtudes domésticas, de Heitor Lima (O Jornal, 25 maio 1930), no qual ele ressaltava as ideias de uma “intelligência feminina” sobre o divórcio. Assim, mesmo sob elogios, permanecia a marca da diferenciação, que a afastava de um reconhecimento pleno e reforçava formas sutis de exclusão.

A “Nova Mulher” ocupa parte do espaço de Serafim nos jornais. Em mais de um artigo, ela trabalha a temática e a ideia da “mulher moderna” como sinônimo de emancipada. Em A Vanguarda, a jornalista retoma os argumentos de outra intelectual, Elora Possolo, em um artigo publicado em O Globo alguns dias antes - vale lembrar, então, um jornal sem sequer uma fração da relevância que hoje possui. Possolo, bem como Serafim, rejeitam a associação repetida ad nauseam da Nova Mulher como uma mulher desprovida de beleza, incapaz de casar-se e, por isso, feminista. Argumento que é aplicado não sobre Serafim após o assassinato - a quem mesmo os opositores de Crítica admiravam e comentavam a beleza -, mas a suas apoiadoras em geral, como assinalado em um artigo de um jovem Jorge Amado (1930). Nele, Amado declara que as mulheres que apoiavam Sylvia eram “histéricas moças feias”.

Serafim principia seu artigo refletindo não apenas sobre a injustiça e esvaziamento de tal classificação, mas também sobre o conceito inócuo de “mulher moderna” como sinônimo de feminista. Como lembra, “mulher moderna”, na prática, é qualquer mulher sua contemporânea, mesmo a mais casta. Utilizar “modernismo” como método de acusação revela mais sobre o reacionarismo do emissor, como rejeição ao atual, do que sobre o receptor. Um esvaziamento do conceito de moderno e feminismo:

Porém, certos termos e denominações existem aos quaes succede o mesmo que as palavras pronunciadas nos encantamentos e bruxarias da macumba. [...] Mulher moderna se tornou, por aberração da linguagem corrente, synonimo de feminista, e feminista, pelo mesmo processo de alambique mágico significa mais ou menos criatura perdida. (Serafim, s.d.).

Do que se trata, afinal, emancipar-se? Emancipação, de acordo com o Dicionário Michaelis, é sinônimo de “alforria” ou “independência”. Sinônimos que revelam a essência da palavra: liberdade individual. Emancipação, para Serafim, significa a liberdade de tomar suas próprias escolhas e aceitar as consequências que produzem. Emancipação feminina implica no fim da ideia da mulher como posse masculina, como objeto, dando início ao seu tratamento como ser humano. Não é liberdade irrestrita, mas a liberdade da possibilidade, de poder ser e exercer a individualidade.

Marx (2010) fala em emancipação judaica em Sobre a questão judaica, enquanto Bruno Bauer fala em emancipação dos alemães em geral. Independente da querela que se segue entre esses dois intelectuais, a emancipação a que se referem implica liberdade para esses indivíduos exercerem e serem quem são. Contudo, Bauer afirma que judeus só seriam emancipados na Alemanha caso rejeitassem o judaísmo, colocando o germanismo em primeiro plano - na prática, reforçando uma oposição binária e maniqueísta, como se ambas as identidades fossem excludentes, um princípio comum ao antissemitismo e que depois seria reutilizado no Nazismo. Fosse por este caminho interpretativo, seria como afirmar que mulheres somente poderiam ser emancipadas se rejeitassem a sua feminilidade. Algo que, na verdade, argumentavam os antifeministas da época, quando diziam que as feministas eram masculinizadas e ressentidas. Recurso padrão de quem está no topo da hierarquia social de poder para deslegitimar pautas de grupos minoritários, em prol de uma suposta unidade. A proposta de Serafim em diversos de seus artigos é exatamente rejeitar essa intriga, lembrando que uma feminista é mulher como qualquer outra.

Sua posição antirreacionarismo transparece em sua defesa da “vanguarda” e se torna ainda mais evidente pela lamentação que emprega sobre a reação que qualquer ideia ou posição inovadora recebe. Ao lançar mão de imagens de Cristo e Tiradentes, Serafim busca demonstrar como a reação é implacável, como as vanguardas têm sido ridicularizadas desde sempre, incluindo as feministas e sufragistas, e como essa reação tem sido empregada sobre a Nova Mulher. Não que se compare a Cristo, seria uma leitura apressada, mas usa sua figura para demonstrar que a História é feita de ação e reação, em uma “estultice monótona”, e o esquartejamento literal apenas deu lugar a um “esquartejamento intelectual” (Serafim, s.d.). É potente sua utilização da imagem de esquartejamento para tratar do silenciamento sobre a intelectualidade feminina.

As comparações de Serafim não terminam nesse ponto. Em seu estilo repleto de referências literárias, utiliza um fragmento de Os miseráveis, de Victor Hugo (2013), descrevendo a Batalha de Waterloo como alegoria à batalha que as mulheres enfrentavam para o reconhecimento artístico e intelectual. Colocando-se como mártir, usa da alegoria para lançar-se às gerações futuras, como se seu “esquartejamento intelectual” (Serafim, s.d.) semeasse o solo para o florescimento de gerações futuras de feministas. Essa ode reaparece em Feminista (Serafim, 26 maio 1929), quando descreve que o sacrifício de sua geração de feministas permitirá a ascensão e estabilidade de suas filhas e netas, da mesma forma que as pautas de sufrágio no Brasil cresciam graças às mães e avós.

Um artigo de Sylvia Patrícia, A columna heroica, também compilado no álbum e homenageando sua homônima, dá continuidade ao artigo anterior ao utilizar a mesma alegoria: “Waterloo, a morna planície, é a vida e a coluna heroica não é de soldados que vão em busca de glória, é de mulheres que vão em busca de liberdade” (Patrícia, s.d.). Também como Serafim, coloca as feministas da década de 1930 como mártires para o futuro: “Tudo quanto agora semeais com a vossa inteligência e o vosso talento com o vosso coração e vossa alma, só as gerações futuras hão de colher. [...] Mas não importa! Faremos a ponte heroica e sobre nós, tarde ou cedo, o resto da humanidade há de passar!” (Patrícia, s.d.).

Sobre Sylvia Patrícia, é preciso abrir um parêntese. Após o envolvimento com o futuro Brigadeiro Armando Serra Menezes, Serafim acabou se afastando do grupo de feministas com quem era ligada, que enxergaram seu vínculo com um militar como espécie de traição da causa. Ironicamente, Serafim o conheceu enquanto estava de passagem por Resende e a caminho de São Paulo para protestar a favor do sufrágio feminino, junto com uma caravana de feministas. O romance terminaria em tragédia para a jornalista, que acabou sua vida distante de todos. Segundo Ricardo Thibau (2023), em seu enterro, além da família, apenas três pessoas compareceram. Uma delas, Sylvia Patrícia.

Na argumentação de Serafim não abundam apenas referências literárias, mas também históricas. Se os exemplos que toma de Tiradentes e Cristo podem parecer extremos, na sua visão sobre ação/reação, também não deixa de trazer exemplos mais recentes e mais voltados para o seu objetivo direto. Lembra a autora que as primeiras estudantes da Universidade de Edimburgo foram desligadas após campanha masculina, bem como Janne Chauvin, formada em Direito, mas proibida “o accesso aos tribunaes em nome da dignidade da justiça. [...] um attentado ao pudor... Masculino!” (Serafim, s.d.). As primeiras mulheres a ambicionarem matar o anjo do lar mobilizaram intensa campanha desfavorável do poder instituído, que reagiu ao mínimo arranhão em seu status quo:

Na Allemanha e na Suíssa, em torno das primeiras mulheres que ambicionaram ser mais do que costureiras ou parteiras, brotou uma ardente polêmica, entre homens cultos e eminentes, sobre se a mulher tinha ou não capacidade para estudos superiores, de accordo com o na, menor em média, ao que parapeso da massa encephalica feminice, do que a dos cérebros masculinos. (Serafim, s.d.).

Uma de suas principais pautas, como já referido, era a emancipação. Nesse sentido, em mais de um artigo, Serafim insiste, inclusive no título, que a emancipação feminina deve vir por dois pilares: educação e trabalho. Somente a mulher instruída pode ser de fato livre, e ela reforça que liberdade não é, necessariamente, exercer trabalho intelectual (ou mesmo braçal, fora do doméstico), mas ter a possibilidade de fazê-lo. Isto é, conceder a escolha. Há mulheres que preferem permanecer como anjo do lar, e não há problema nisso. A questão é a ausência da escolha em fugir deste destino.

O trabalho, meio de emancipação já deixa claro em seu título sua pauta. Uma vez mais, reforça a desumanização e esvaziamento que recaiu sobre o conceito de “emancipada”, ou “feminista”, ou ainda “Nova Mulher”. Esvaziando a riqueza e heterogeneidade dessas classificações, a ofensiva conservadora deslocou para o mesmo bojo qualquer mulher que encarnasse, mesmo minimamente, a posição de transgressora. Desde a revolucionária ou sufragista, até mesmo uma adolescente que rejeita a autoridade paterna, passando pela mulher que se relacionava fora do casamento, qualquer pequeno arranhão ao padrão feminino já era tachado como emancipada ou feminista: “E os homens se riem de umas, desprezam as outras, odeiam estas...” (Serafim, s.d.).

Neste cenário, a emancipação por meio do trabalho surge como esperança para um esboço de independência. Se outrora a mulher era extensão das propriedades masculinas, com o trabalho ela adquire os meios de sua subsistência, tornando-se verdadeiramente livre. Serafim (s.d.) vai além: o trabalho feminino favorece também os homens, ao tornar as relações mais “orgânicas”, a saber, as mulheres permanecem em um relacionamento por escolha, não por ausência de opções e dependência financeira: “a obtenção dos recursos pecuniários é o primeiro passo para a alforria. Como se pode julgar emancipada aquella que depende do favor alheio para uma simples sahida, a mais insignificante compra?”.2 Mas o trabalho só virá com a instrução, o ponto mais básico e repetido dos argumentos de Serafim.

De acordo com Ricardo Thibau (2023), o temor de ser reduzida a escritora de assuntos domésticos impulsionou Sylvia a investir em pautas políticas. Já com relações com o feminismo e com o socialismo, passou a colaborar com A Esquerda, aproximando-se da Aliança Liberal e de Getúlio Vargas, em sintonia com a linha editorial de Chateaubriand em O Jornal. Nesse período, chegou inclusive a realizar uma entrevista com o Ministro do Trabalho do governo Vargas.

Independente do assassinato, e das relações complexas que ele envolve, é imprescindível o retorno da obra de Serafim, ainda mais considerando a permanência de sua relevância no contemporâneo. Dialogar com seus escritos é evidenciar que Serafim foi muito mais do que apenas uma assassina, e iluminar a necessidade de tratá-la como figura complexa e multifacetada.

Considerações finais

Sylvia Serafim não foi uma assassina insana e cruel, como canonizado nas narrativas rodrigueanas, mas uma mulher múltipla que se envolveu em uma tragédia de erros e teve a sua intelectualidade “esquartejada”. Resgatar sua produção, uma vez mais, não significa inocentá-la do assassinato, mas apontar as áreas cinzentas que foram ignoradas por um século e evidenciar a sua relevância tanto historiográfica quanto contemporânea. Revisitar documentos primários, como seu arquivo ou seus descendentes, é desafiar um cânone que, senão é falso, ao menos é parcial. Através dessa reavaliação crítica, o trabalho tentou oferecer uma visão mais complexa e contextualizada de Sylvia Serafim, ampliando nossa compreensão de sua vida e legado.

Para falar dos escritos de Serafim, foi preciso lançar mão de um debate sobre a origem do romance e sua relação com o público leitor feminino. Embora possa parecer destoar de seus escritos ou de sua biografia, o referencial teórico ilumina o processo de crescimento da literatura feminina, tópico caro a Serafim. A intenção era revelar a conexão íntima entre o surgimento do romance e o avanço das mulheres na literatura. A discussão entre Woolf e críticos como Affable Hawk revela não apenas as barreiras sociais enfrentadas pelas mulheres, mas também a resistência e a luta por espaço na esfera literária e intelectual. Essas vozes, como a de Sylvia Serafim, persistem em desafiar estereótipos e limitações, abrindo caminho para uma representação mais justa e igualitária na literatura.

O estudo dos escritos de Sylvia Serafim revela uma faceta inexplorada de uma mulher frequentemente reduzida a um único evento trágico. Suas obras e artigos, mergulhados na obscuridade, não só resgatam a figura de uma autora esquecida, mas também proporcionam dados valiosos sobre as dinâmicas de gênero da época, a política e o jornalismo no Brasil. Sua abordagem sobre a emancipação feminina, enfatizando a importância da educação e do trabalho, transcende o tempo, oferecendo reflexões pertinentes mesmo nos dias atuais. O retorno e a compreensão integral da intelectualidade de Sylvia Serafim são cruciais para desvendar não apenas a trajetória dessa autora, mas também para iluminar questões essenciais sobre a condição feminina e a luta por liberdade e igualdade.

Referências

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Notas

  • 1
    Sylvia era filha de Augusto Serafim da Silva, médico influente, auxiliar de Oswaldo Cruz na campanha contra a febre amarela no Pará. Também integrou a Diretoria de Saúde Pública do Rio de Janeiro. Dessa forma, pela profissão de seu pai, sabe-se que Sylvia nasceu em uma família da alta burguesia carioca. Fora isso, não há muitas informações disponíveis sobre ele, além de ter tentado a guarda de Rohny, terceiro filho de Sylvia, nos tribunais após o falecimento da filha (Augusto ainda viveria por cinco anos depois dela). Sobre sua mãe, há ainda menos registros: existe uma foto dela na revista Careta ao lado de Sylvia, então com quatro anos de idade, e sabe-se apenas que seu nome era Alcira Maurel da Silva. A própria Sylvia sofre com a escassez de dados sobre a vida que antecedeu o crime. Em resumo, o pouco que se descobriu relata que sua trajetória escolar começou no Externato Pitanga, em Copacabana, seguida por um breve período no Externato Sion. Entre 1914 e 1916, estudou como interna no Colégio Sacré-Coeur de Marie, voltado para jovens da elite carioca. Um relatório do jornal A Batalha (n. 210, 23 ago. 1930) a descreve como educada “à moda antiga, nunca andando só ao tempo de solteira”. Nesse colégio foi contemporânea de Elsa, futura esposa de Roberto Rodrigues, embora em turmas diferentes. Mais tarde, ingressou na Escola Normal, mas interrompeu os estudos após a mudança da família para Petrópolis. Em 1919 ficou noiva e, dois anos depois, em 14 de novembro de 1921, casou-se com Ernesto Thibau, com quem teve dois filhos, Mauro e Cláudio, vivendo em um palacete na Tijuca.
  • 2
    Conforme detalhado no artigo Reticências: pós-memória e reconstrução nos Schargels/Szargels (Schargel, 2019), mesmo quase duas décadas depois da publicação deste artigo de Serafim, as mulheres dependiam de aprovação de seu marido para poder adquirir bens simples, como uma máquina de costura, ou mesmo para trabalhar.
  • Financiamento
    A pesquisa que resultou neste artigo contou com financiamento da FAPERJ (Proc. 260006/005941/2025).
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editoras-chefe:
    Ana Carolina de Carvalho Viotti e Karina Anhezini de Araujo
  • Editor Associado:
    Pablo Oller Mont Serrath

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Abr 2025
  • Aceito
    23 Ago 2025
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Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho Faculdade de Ciências e Letras, UNESP, Campus de Assis, Av. Dom Antônio, 2100, 19806-900, Tel: +55 (18) 3302-5800, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, UNESP, Campus de Franca, Av. Eufrásia M. Petráglia, 900, 14409-160, Tel: +55 (16)3706-8700 - Assis/Franca - SP - Brazil
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