Resumo
O estudo analisou os desafios laborais (profissional e doméstico) enfrentados por profissionais da Atenção Primária à Saúde durante a Covid-19, utilizando abordagem interseccional. Foram realizados seis grupos focais com 42 profissionais, resultando em duas categorias empíricas. "Se vira nos 30 na UBS", revelou a sobrecarga de trabalho especialmente para mulheres. As hierarquias profissionais modificaram as experiências de trabalho. As médicas mantiveram suas funções exclusivas como enfermeiras e agentes comunitárias e assumiram também funções operacionais. "Malabarismo na segunda jornada", destacou o aumento das responsabilidades domésticas para todas as mulheres, independentemente da profissão ou da condição de classe. As articulações entre classe social e gênero mostraram que, no espaço profissional, as diferenças de classe se traduziram em hierarquia; no doméstico, produziram desigualdades na distribuição do cuidado. A crise social e sanitária global não alterou a naturalização de opressões nas relações de gênero e classe.
Palavras-chave
Gênero; Atenção primária à saúde; Covid-19; Trabalho
Abstract
The study analyzed the labor challenges (both professional and domestic) faced by Primary Health Care professionals during covid-19, using an intersectional approach. Six focus groups were conducted with 42 professionals, resulting in two empirical categories. "Turn on a dime at the health unit" revealed work overload, especially for women. Professional hierarchies shaped work experiences. Female doctors maintained their exclusive roles, while nurses and community health workers also took on operational tasks. "Juggling the second shift" highlighted the increase in domestic responsibilities for all women, regardless of profession or social class. The intersections of social class and gender showed that in the professional sphere, class differences translated into hierarchy; in the domestic sphere, they produced inequalities in the distribution of care. The global social and health crisis did not alter the naturalization of oppression in gender and class relations.
Keywords
Gender; Primary Health Care; Covid-19; Work
Resumen
El estudio analizó los desafíos laborales (profesional y doméstico) enfrentados por profesionales de la Atención Primaria de la Salud durante la COVID-19, utilizando un abordaje interseccional. Se realizaron seis grupos focales con 42 profesionales, resultando en dos categorías empíricas. “Arréglatelas como puedas en la UBS” reveló la sobrecarga de trabajo, especialmente para las mujeres. Las jerarquías profesionales modificaron la experiencia de trabajo. Las médicas mantuvieron sus funciones exclusivas, mientras que las enfermeras y las agentes comunitarias asumieron también funciones operativas. “Malabarismo en la segunda jornada” subrayó el aumento de las responsabilidades domésticas para todas las mujeres, independientemente de la profesión o condición de clase. Las articulaciones entre clase social y género mostraron que, en el espacio profesional, las diferencias de clase se tradujeron en jerarquía; en el área doméstica produjo desigualdades en la distribución del cuidado. La crisis social y sanitaria global no alteró la naturalización de opresiones en las relaciones de género y clase.
Palabras clave
Género; Atención primaria de la Salud; COVID-19; Trabajo
Introdução
Nas últimas décadas do século 20 ocorreram mudanças nas posições relativas de homens e mulheres em suas vivências e na compreensão dos papéis de gênero. A ruptura com visões calcadas em base essencialista e biológica acerca da identidade das mulheres e sua análise, com base em uma perspectiva relacional, possibilitou o entendimento do gênero como uma categoria de análise das relações de poder nas sociedades contemporâneas1-3.
O estudo das posições de gênero, em suas conexões com as identidades e opressões, possibilitou evidenciar tensões entre mudanças e permanências de padrões hierárquicos que implicam desvantagens na posição relativa de mulheres tanto na esfera pública quanto na esfera privada1,4.
Nos debates teóricos e no ativismo político, a categoria gênero sofreu críticas por parte de feministas negras e socialistas em relação à suposta universalidade da identidade de mulheres. Essa perspectiva obscurece uma pluralidade de experiências de gênero baseadas em diferentes pertencimentos sociais, de classe, étnicos e raciais1,4.
Diante de propostas mais complexas que buscaram compreender experiências e necessidades das mulheres em suas diferenças, por meio dos sistemas de desigualdades construídos em torno de classe social, etnia, sexualidade, geração, entre outros, o modelo binário masculino-feminino passou a ser questionado e problematizado sob perspectivas atuais1,3,4.
Ferramentas analíticas denominadas interseccionalidades consistem em propostas para problematizar desigualdades situadas em contextos específicos. Segundo Pisciteli3, diversas análises variam entre si mediante conceitos de poder e agência dos sujeitos, entendidas como capacidade de agir sob a influência social e cultural. Crenshaw5 propõe que gênero, classe e raça operam como sistemas de dominação e opressão que, articuladas entre si, determinam identidades construídas por meio dos efeitos da subordinação social. Outras abordagens destacam aspectos dinâmicos e relacionais da identidade social.
Brah6 propõe analisar a diferença, e não o gênero, como categoria analítica. Para ela, construções discursivas em torno da diferença e das distribuições de poder incidem no posicionamento desigual dos sujeitos no âmbito global. Nessa perspectiva, a diferença remete tanto à desigualdade, opressão e hierarquia quanto à diversidade e às formas democráticas de ação política.
Nesse contexto, a pandemia de Covid-19 provocou transformações intensas e abruptas em todas as dimensões da vida social e em escala global7. No âmbito da saúde, a imposição de novos riscos, a insegurança, a acentuação sensível do medo, entre outros fatores, modificaram sobremaneira os modos de gestão da assistência à saúde, o que incluiu setores da Atenção Básica até as políticas públicas, e as formas de cuidados cotidianos e domésticos8.
Na crise sanitária, além das mudanças, contradições sociais se tornaram ainda mais agudizadas1,7. A naturalização da sobrecarga de trabalho enfrentada pelas mulheres e a falta de cuidados que elas receberam evidenciaram uma lacuna na investigação sobre como as intersecções entre gênero, raça e classe social afetaram trabalhadores da saúde.
O objetivo desse estudo é analisar a perspectiva de profissionais da saúde sobre os desafios laborais (profissional e doméstico) enfrentados durante a pandemia por um recorte interseccional.
Método
Estudo com abordagem qualitativa, exploratória, descritiva e analítica, que incorpora a dimensão do significado e da intencionalidade como elementos inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais, para a compreensão das experiências de trabalho dos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) durante a pandemia de covid-199.
O estudo foi realizado no período de setembro a novembro de 2022 em Unidades Básicas de Saúde (UBS) sediadas em São Luís, no Maranhão, cidade dividida em nove distritos sanitários. A cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) é aproximadamente de 60%, com cerca de duzentas equipes. Com uma população estimada de 1.115.932 habitantes em 2023, possui Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,768 e Índice de Gini de 0,536, indicando considerável desigualdade de renda.
As unidades foram selecionadas de forma intencional pelo critério de diversidade de cenário: localização em diferentes distritos sanitários; ser referência (ou não) para atenção às síndromes gripais; ter uma ou mais equipe de saúde da família; localização em zona rural e urbana; contar (ou não) com equipe de saúde bucal; ter obtido diferentes resultados na avaliação externa do 3º ciclo do Programa de Melhoria do Acesso e Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB)9; ter implantado (ou não) o programa Saúde na Hora.
Os gestores foram contatados para agendamento da visita e apresentação dos critérios de seleção dos participantes da pesquisa. Desse modo, todas as categorias de nível superior, técnicos de enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde (ACS), preferencialmente os que estavam em atividade durante a pandemia. Os ACS foram indicados pelo gestor, dois ou três por unidade. Não foram incluídos na pesquisa aqueles que exerciam cargo de chefia, direção e/ou gestão.
Os Grupos Focais (GF) presenciais ocorreram em um único momento em cada uma das seis UBS, em sala reservada pela direção da unidade e em dias e horários pactuados. Aos profissionais foi oferecida a possibilidade de não participar, sem qualquer prejuízo. O total da amostra foi de 42 profissionais.
A equipe de pesquisa foi constituída por seis integrantes, sendo três docentes da área da Saúde Coletiva (médica, cirurgiã-dentista e cientista social), das quais duas possuíam experiência em pesquisa qualitativa e alternaram a coordenação do GF, enquanto a terceira contribuía nas observações da linguagem não verbal dos participantes; e três alunos de Pós-Graduação que se revezavam nas atividades de registro do início das falas para auxiliar a transcrição e a observação.
No início de cada GF, havia uma apresentação da pesquisa e da equipe para os participantes. A seguir, os instrumentos de pesquisa eram apresentados, a saber: questionário de perfil sociodemográfico e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A entrevista coletiva seguiu um roteiro que visava capturar a percepção dos profissionais sobre o seu cotidiano de trabalho e da vida doméstica no período pandêmico e pós-vacina.
Os participantes foram informados de que a participação era voluntária. Houve recusa de um ACS. Em média, cada GF durou 2 horas, totalizando 11 horas e 25 minutos de gravação e 192 páginas de transcrição. Os GF foram gravados, transcritos e codificados por uma única pesquisadora. Para a análise de dados foi utilizada a técnica de Bardin10 de análise do conteúdo na modalidade temática.
Do ponto de vista teórico, a pandemia possibilitou reflexões em torno das articulações entre gênero, cuidado e trabalho em situação de crise. No âmbito da assistência à saúde, o reconhecimento do trabalho estava mais direcionado à atenção hospitalar especializada em detrimento à Atenção Primária. Nessa perspectiva, algumas questões emergiram para guiar a análise das narrativas, a saber: na vida doméstica, as ambivalências quanto ao valor do trabalho, as formas de cuidado, assim como as atribuições de responsabilidade, representaram mudanças ou persistências de papéis de gênero situados em torno da divisão sexual do trabalho? As diferenças entre homens e mulheres ampliaram ou diminuíram desigualdades? As hierarquias de gênero contribuem para moldar padrões afetivos, ocupacionais e outros? Como a abordagem interseccional possibilita articular eixos de opressão, mas também de compromisso, negociação e sofrimento?1,3,4.
Esse estudo se trata de um recorte do projeto “A pandemia da covid-19 e seus efeitos na gestão e na assistência à saúde no SUS”, submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, sob CAAE 35645120.9.0000.5086 e parecer de número 4.234.296, de 25/08/2020.
A fim de garantir o anonimato, os nomes dos participantes foram substituídos por iniciais de sua categoria profissional (M-médico; E-enfermeira; A–ACS; T–técnico de enfermagem; C–cirurgião-dentista; F–farmacêutico) e o número referente à sua posição no GF, seguido do número da UBS. Os entrevistados assinaram o TCLE.
Resultados e discussão
Dos 42 profissionais que participaram dos GF, 39 eram mulheres. A mediana da idade dos participantes foi de 44,5 anos. Desses, 32 residiam com companheiro, oito solteiros e dois divorciados. Dos participantes, 22 se autodeclararam de cor parda, sete de cor preta e 13 de cor branca. Vinte e um profissionais eram ACS, 11 enfermeiros, sete médicos, dois técnicos de enfermagem, um cirurgião-dentista e um farmacêutico. A mediana do tempo de atuação na UBS foi de 13 anos e a categoria profissional que atuava há mais tempo foi a ACS (Tabela 1).
A análise dos GF permitiu compreender as vivências e a relação entre o trabalho e a vida doméstica de profissionais que viveram de perto os momentos críticos da pandemia. Pelos relatos, identificaram-se 2 categorias: “Se vira nos 30 na UBS” – jargão utilizado em programa de televisão como sinônimo da capacidade de se ajustar às novas circunstâncias de modo rápido, criativo e sem muitos recursos – aborda as mudanças ocorridas nas UBS e os desafios da sobrecarga de trabalho, da falta de equipamento, do cumprimento do dever profissional, do medo de se infectarem e disseminarem a doença e do sofrimento pela perda de colegas; e “Malabarismo na segunda jornada” evidencia o aumento do tempo de trabalho somado aos cuidados da casa e da família (sem rede de apoio e escola dos filhos), além da insegurança ocasionada pelo risco de levar o vírus para os familiares e o preconceito que sofriam.
Se vira nos 30 na UBS
Essa categoria destaca como o ritmo acelerado da pandemia, o adoecimento em massa, a alta demanda nas UBS, o estresse, a incerteza e o medo impactaram os profissionais de saúde. As mudanças, no entanto, foram descritas de maneira distinta por profissionais de categorias diferentes.
Somente narrativas de mulheres conformaram essa categoria empírica. As desigualdades relatadas estão relacionadas à articulação entre categoria profissional e cor de pele. As categorias de nível superior têm menos pessoas de cor de pele preta/parda.
A sobrecarga de trabalho estava associada ao desempenho de múltiplas funções, além das responsabilidades habituais. Devido à falta de pessoal, outras funções foram acumuladas pelas enfermeiras, como auxiliar de limpeza, copeira e recepcionista.
Na minha opinião, houve sobrecarga. Eu fui até auxiliar de limpeza, fiz de tudo, fui copeira, eu fui tudo. Eu e as poucas que sobraram. Então, a gente se desdobrava em outros setores. Teve uma época que eu tava na medicação, recepção e tava no controle do banheiro porque eu tinha a chave e não podia deixar ele sujo. (E-3-1)
Na visão da participante médica, a Administração Pública utilizou-se de suspensão de direitos trabalhistas para impor aos profissionais uma ininterrupta atuação, utilizando-se dessa manobra para gerir os recursos humanos durante a crise sanitária.
Não foi dito aqui, mas fomos proibidas de tirar férias e licença, quem já tinha tirado, já tinha autorizado, teve que voltar. Nós ficamos um ano ou dois sem poder tirar férias. (M-3-2)
Compreender a sobrecarga sob uma compreensão multifacetada possibilita incorporar diferentes percepções acerca das condições de trabalho, seja pelas restrições de direito, seja pela exigência de assumir funções diversas naquele momento excepcional.
Essa situação evidencia como a interseção de gênero e categoria profissional resultou em desigualdades específicas: na organização hierárquica do trabalho na saúde, enfermeiras e ACS enfrentaram desafios relacionados ao seu status profissional e condições de trabalho, além da sobrecarga com tarefas extras11,12.
Assim, a intersecionalidade mostra que não é apenas o fato de serem mulheres que determina essa sobrecarga, mas também sua posição dentro das instituições, revelando a complexidade das desigualdades de gênero no ambiente do trabalho13.
Durante a pandemia de Covid-19, determinadas categorias profissionais da área da Saúde foram mais impactadas do que outras. Os ACS e Agentes de Combate às Endemias (ACE) enfrentaram maior dificuldade no acesso a recursos de proteção e insumos de suporte ao trabalho, acentuando o sentimento de medo e insegurança no desempenho de suas atividades laborais14,15.
Paralelamente a isso, profissionais da enfermagem experimentaram jornadas extensas, alta exposição a riscos biológicos e intensificação dos processos de adoecimento físico e mental, em patamares superiores aos observados em outras categorias da rede de saúde16.
As condições de trabalho eram vistas como precárias. Havia falta de equipamentos de proteção individual, o ritmo de trabalho era intenso devido à grande demanda, e o aumento das horas trabalhadas provocaram enorme desgaste físico e potencializaram o risco de adoecimento.
Eu chegava 07:00 da manhã e não tinha hora para sair e pela grande demanda, muitos profissionais acabaram adoecendo. (E-1-3)
Eram momentos de guerra, até porque faltavam os insumos! Era tentar fazer muito com muito pouco e assustada! (M-1-2)
A ênfase na sobrecarga de trabalho está presente nos relatos de médicas, enfermeiras e ACS. A situação descrita como uma “guerra”, destacando a escassez de recursos para realizar o seu trabalho e o medo causado diante da realidade imposta, aparece no relato da profissional médica, embora seu trabalho fosse realizado exclusivamente no consultório, o que a diferencia das outras profissionais.
Na área da Saúde, a medicina ocupa uma posição dominante, relacionada ao reconhecimento do saber legítimo e da autoridade nas decisões clínicas17. Logo, a autonomia médica, além da capacidade de tomar decisões clínicas independentes, abrange a habilidade de sustentar uma posição de domínio dentro do campo da Saúde18.
Essas diferenças apontam uma distribuição de responsabilidades nas equipes de saúde que expressam relações hierárquicas baseadas no reconhecimento da competência nas tomadas de decisão no âmbito da relação médico-paciente19.
O medo manifestado pelas profissionais ultrapassava a preocupação com a própria contaminação, estendendo-se ao risco potencial de transmissão do agente infeccioso a outros pacientes, o que gerava reflexões críticas sobre a qualidade e a segurança da assistência prestada. O temor expresso por médicas de UBS diferentes, localizadas em bairros de classes sociais distintas, revelava, na mesma intensidade, a insegurança e o desconforto que sentiam ao exercer seu trabalho:
Era uma via de mão dupla. Assim como a gente tinha o receio de ser contaminado, as pessoas também tinham o receio, […] a gente acompanhou de perto casos complicados e ao mesmo tempo ter que atender, se proteger de não pegar... aquilo era muito assustador. (M-1-10)
O constante temor relacionado à contaminação pessoal e à transmissão do vírus a familiares foi relatada em pesquisa com enfermeiros20. Foi observado que profissionais de todas as categorias enfrentaram desafios emocionais significativos, como o intenso desgaste emocional, medo de uma iminente contaminação e a sobrecarga de trabalho.
O medo de serem infectadas no trabalho fez essas profissionais contrariarem o que preconiza o vínculo para um cuidado adequado ao se distanciarem do usuário sob a incerteza de uma eventual contaminação pelo vírus. Algumas cumpriam um ritual antes da entrada do paciente na sala, incluindo uso de álcool em todas as superfícies e posicionando a cadeira afastada para manter o distanciamento. Além disso, foi relatado o uso duplicado de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), a saber, duas toucas, duas máscaras, com a expectativa de aumentar as barreiras ao iminente contato com o vírus e, assim, aumentar sua proteção. Em alguns momentos essas profissionais arcaram com os custos dos EPI ou intensificaram a higienização das mãos durante o atendimento de um mesmo paciente, chegando até mesmo a cercear suas necessidades fisiológicas, como ficar horas sem beber água para não tirar a máscara.
Antigamente, a gente falava pro paciente: encosta aqui. Hoje em dia, antes do paciente entrar, coloco a cadeira longe ... e me sentia constrangida. […] Eu botava uma touca plástica por baixo da touca descartável, que eu achava bem impermeável. (M-3-8)
Eu costumava dizer pra minha mãe: ‘Mãe, eu vou pro olho do furacão!’. […] Então, pra mim, todo dia que eu voltava pra casa eu considerava uma vitória. (E-5-3)
Tensão, nervoso de colegas sem máscara trabalhando. Eu cheguei até a discutir com uma porque eu não aceitava e ela queria ficar com a máscara aqui no queixo. (A-5-4)
Embora o medo fosse um sentimento comum entre as profissionais, as estratégias de enfrentamento variaram conforme a categoria profissional. As narrativas da médica, da enfermeira e da agente comunitária de saúde (ACS) revelam experiências distintas no contexto da pandemia.
A médica expressou desconforto com as mudanças nas práticas de segurança, embora tivesse maior controle sobre o ambiente e pudesse impor limites físicos. Em contraste, a enfermeira descreveu sua atuação nas UBS como uma luta diária em meio à superlotação e à exposição contínua ao risco. A ACS destacou conflitos relacionados ao descumprimento das normas sanitárias, evidenciando pouca legitimidade diante de outros profissionais.
Embora os riscos e os cuidados estejam ancorados em contextos que produzem situações concretas de vulnerabilidade, também apresentam uma dimensão simbólica e subjetiva relacionada aos sentidos e percepções atribuídos a essas experiências. A noção de risco é intrinsecamente polissêmica e, por pertencer ao campo das matrizes culturais, assume significados diversos conforme os sistemas simbólicos nos quais é mobilizada21.
A diferença entre os relatos propõe uma reflexão sobre hierarquias, autonomia, condições de trabalho e acesso a recursos durante a pandemia que revelam desigualdades entre profissionais de saúde que atuavam em UBS.
Dall’Ora22 relacionou diversos fatores causadores de sofrimento físico e emocional dos profissionais, destacando: longa jornada e sobrecarga de trabalho; alta cobrança por resultados; baixa autonomia na organização do trabalho; relações de conflito entre a equipe; poucas capacitações; baixa oferta de insumos; e insegurança no trabalho.
Todas as narrativas que abordaram sentimentos como medo e insegurança, além do cansaço e da sobrecarga no cuidado, foram protagonizadas por mulheres. Os homens, embora presentes na pesquisa, não expressaram emoções ou experiências nesse sentindo. A ausência de menção ao sofrimento, o silêncio diante da dor e da vulnerabilidade podem ser compreendidos como resultantes das hierarquias de gênero na modelagem de padrões afetivos masculinos21,23.
Malabarismo na segunda jornada
Essa categoria engloba os efeitos da pandemia na esfera privada, particularmente as repercussões do exercício profissional nas dinâmicas familiares e nas redes de apoio doméstico. Inclui ainda as implicações de gênero na divisão sexual do trabalho e do cuidado, especialmente no que tange à atenção às crianças, aos idosos e pessoas enfermas no ambiente doméstico.
As profissionais de saúde, além de passarem mais tempo em um trabalho exaustivo, tanto físico quanto emocional, também assumiram mais tarefas domésticas e intensificaram o cuidado familiar.
Elas viviam sob intenso medo de transmitirem o patógeno para seu grupo familiar, sobretudo quando residiam com idosos. Para diminuir os riscos, criaram formas de “descontaminação”. Nos GF, as profissionais narravam o que denominavam “rituais de limpeza” que realizavam antes de entrar em casa. Trabalhadoras, de diferentes categorias profissionais, separaram um banheiro para seu uso exclusivo na parte de fora da casa, entre outras estratégias, para evitar o adoecimento da família:
E a pressão que eu ficava era quando chegava em casa, tinha idosa em casa, que era minha mãe, eu tinha que fazer todo aquele ritual de lavar que também me pressionou muito e o sentimento de me culpar se eu passar para alguém. (E-5-3)
Estavam quase me expulsando de casa. Na hora de entrar, eu tinha que entrar pelo quintal, tomar banho, não sei o quê... ninguém queria nem chegar perto de mim! Meu quarto era totalmente isolado; mas foi bem estranho! (M-1-2)
Diante de “pressões” contraditórias entre as responsabilidades ligadas à ética profissional e ao cuidado da mãe idosa, a enfermeira expressa sofrimento e desafios enfrentados durante a pandemia. A análise desse relato pode lançar luz às tensões impostas a um contingente feminino que compõe a força de trabalho em saúde mediante articulação entre eixos de opressão, compromisso e sofrimento.
Flávia Biroli4 argumenta que a divisão sexual do trabalho é um elemento central na produção das desigualdades de gênero. Ela destaca que essa forma de organização do trabalho tem vinculado as mulheres à responsabilidade pelo trabalho de cuidado, tanto no âmbito doméstico quanto no profissional, o que resulta em sobrecarga e limitações à sua autonomia. Como efeito, esse padrão é sustentado por estereótipos de gênero que relacionam atributos construídos como inerentes ao feminino, vinculando-o às noções de cuidado e de uma suposta disponibilidade “natural” para dedicar-se ao outro, aproximando as esferas familiar e profissional1.
O medo de ir para casa e infectar a família foi um dos principais problemas apresentados pelas trabalhadoras de saúde. Perceber-se como um perigo para a família ou um meio de transmissão de uma doença grave e desconhecida criou obstáculos entre as profissionais e seus familiares, a ponto de evitarem troca de carinhos e contato físico com eles.
Eu fiquei com medo de beijar na boca do meu marido, […] falando sério mesmo, eu achava que todo tempo eu estava com covid e ia passar pra ele. (A-3-3)
Para mim, o que me marcou e eu lembrei agora foi ficar sem um abraço três meses, né, três meses sem um abraço, nem a filha que mora comigo tinha coragem de chegar e me abraçar. As outras filhas, os outros filhos, os netos e ninguém me abraçava. Pra mim, foi terrível isso. (M-3-4)
Os estereótipos de gênero reforçam que o cuidado é um atributo feminino e o reconhecimento por esse trabalho (não remunerado) se manifesta na forma de afeto. A recusa ao contato físico revelou que, mesmo cuidando de todos, elas não foram cuidadas1,4.
Somado ao sofrimento causado pela jornada de trabalho estendida e exaustiva, há as responsabilidades com os cuidados no ambiente familiar. Estavam sem rede de apoio, impossibilitadas de contar com empregadas domésticas, sem acesso a creches/escolas e mantendo o distanciamento de familiares, essas mulheres assumiram ainda mais tarefas cotidianas:
Teve o agravante. Assim, a gente teve que dispensar as pessoas que trabalhavam na nossa casa, né, tive que dispensar a minha secretária. Então, além do meu trabalho de vir pra cá eu tinha que fazer o trabalho de casa, que eu não tinha ninguém pra me ajudar! Então, assim, foi uma sobrecarga extra. (E-3-3)
A pandemia de covid-19 atuou como um fator nivelador entre as diversas profissionais mulheres e intensificador das desigualdades já existentes no campo dos cuidados domésticos, impondo uma nova configuração às rotinas femininas. Tanto as mulheres que contavam com o trabalho de empregadas domésticas e se viram obrigadas a dispensá-las24 quanto aquelas que não dispunham desse suporte enfrentaram uma sobrecarga ainda maior, pois ficaram totalmente sem rede de apoio, acumulando as exigências do trabalho profissional com as tarefas domésticas e familiares25,26.
Um estudo identificou que profissionais da saúde que residiam com suas famílias apresentaram maior propensão a níveis de estresse moderados a extremamente altos, especialmente relacionados aos cuidados com os filhos, além de relatarem maior dificuldade em conciliar as demandas do trabalho com as responsabilidades familiares. Na análise ajustada para controle de variáveis de risco, observou-se que médicas tinham quase três vezes mais chances de apresentar indicativos positivos para burnout em comparação aos seus colegas homens27.
A pandemia ampliou desigualdades de gênero no contexto laboral e no âmbito da vida privada deu destaque à divisão desigual do trabalho1,3,4. Conforme os dados coletados na presente pesquisa, 76% das mulheres entrevistadas eram casadas ou viviam em união estável, enquanto todos os homens entrevistados coabitavam com parceiras. Mesmo assim, nenhum deles demonstrou essa dualidade entre vida doméstica e profissional.
Segundo o IBGE (2019), as mulheres dedicam mais tempo ao trabalho doméstico e ao cuidado familiar do que os homens. Entre os que trabalhavam formalmente, as mulheres realizavam, em média, 18,5 horas semanais de atividades domésticas, enquanto os homens dedicavam 10,3 horas28.
Antes da pandemia, dados do IBGE (2019) já indicavam que as mulheres acumulavam mais horas de trabalho doméstico e de cuidado que os homens, mesmo em situações ocupacionais semelhantes. Durante a crise sanitária, essa desigualdade se intensificou. As profissionais entrevistadas relataram um aumento significativo tanto na carga de trabalho profissional quanto nas responsabilidades domésticas.
A despeito da sobrecarga de trabalho, bem como ao aumento da tensão e do medo, essas profissionais sofriam preconceito ao utilizar o uniforme da UBS em espaços públicos. Em seus relatos, havia queixas sobre o descontentamento de vizinhos por compartilhar espaços comuns de condomínios ou prédios residenciais com profissionais de saúde. Profissionais relataram como foi desafiador administrar a reação das pessoas:
[médica relatando sobre comentários de vizinhos] todo mundo comentava: isso é um absurdo e ainda fica entrando em elevador. E o pessoal tinha medo, medo de chegar perto. Olha, eu fiquei aterrorizada. (M-3-5)
Aí, eu vinha e meu marido já estava na porta com o saco de lixo preparado. E os vizinhos me olhando. Nessa pandemia, a sensação que eu tinha era que eu estava suja o tempo todo. (ACS-3-3)
Fora das unidades de saúde, as profissionais eram vistas como uma ameaça à coletividade. A médica e a ACS relataram formas distintas de preconceito durante a pandemia. Os vizinhos viam a médica com desconfiança e medo devido ao seu trabalho. A ACS sentia-se “suja o tempo todo” e por isso adotava medidas extremas de proteção e isolamento, como evitar interações sociais e familiares. O trabalho nas unidades de saúde estava associado à transmissão da doença.
Mary Douglas29, ao discutir as noções de sujeira e pureza como construções simbólicas, associa o “impuro” a uma ameaça às fronteiras sociais e morais. Os profissionais da saúde, antes socialmente valorizados, passaram a ocupar simbolicamente o lugar do “perigo”, pois cruzavam fronteiras entre o “ambiente contaminado” (UBS) e o espaço doméstico e coletivo.
Mesmo com todos os cuidados e medidas de segurança, algumas profissionais foram infectadas e transmitiram a doença aos familiares. Isso afetou de forma significativa as relações interpessoais.
A minha mãe pegou covid, […] e teve meu irmão que entubou que sofre até hoje. Ela não desentubou mais. Está com os dois pulmões comprometidos, nenhum funciona mais, ela respira por aparelhos e agora tão dizendo ... e já tem quase três anos. Isso traumatiza a pessoa, por conta de pensar, de reagir e fica aquela... sou culpada, vão me culpar. (M-3-5)
A responsabilidade pelo cuidado, atribuída às mulheres, está situada além de práticas e técnicas, há um peso moral que inclui a culpa e recai sobre elas, revelando uma assimetria que configura a persistência da desigualdade de gênero25.
Conforme discutido por Rezende30, o medo e a culpa não são apenas respostas individuais a situações de risco, mas experiências emocionais moldadas culturalmente que emergem dentro de contextos sociais específicos.
Essa realidade não fez distinção entre aquelas que ocupavam diferentes posições no mercado de trabalho. Sejam médicas, enfermeiras, ACS, todas vivenciaram o mesmo desafio: equilibrar as demandas extenuantes do trabalho com as exigências do lar e, na maioria das vezes, às custas de sua saúde física e mental. Essa experiência comum reforça como as questões de gênero adentra as diferenças profissionais.
A divisão sexual do trabalho afetou as mulheres de forma ampla e profunda durante a crise sanitária1. Durante a pandemia, mulheres de diferentes classes sociais enfrentaram sobrecarga ao conciliar trabalho profissional e cuidado familiar, embora em contextos distintos.
Limitações e fortalezas do estudo
A coleta de dados ocorreu em 2022 quando a pandemia já estava arrefecida, pois se esperava distanciamento reflexivo e emocional dos profissionais. A imprecisão demonstrada entre os eventos ocorridos na 1ª e 2ª ondas revelaram a permanência de um sofrimento ainda não superado. Por ter sido um evento marcante na vida das pessoas, as narrativas traziam uma carga emocional.
Poucos homens participaram dos grupos focais consoante com o elevado número de profissionais mulheres na APS. A entrevista em grupo pode ter sido um fator inibidor da participação masculina e da manifestação de sentimentos e emoções. O fato de ser uma amostra intencional restringe a generalização dos resultados, porém lança luz sobre a reflexão acerca da divisão de tarefas e a sobrecarga de trabalho das mulheres em relação aos homens durante a pandemia.
A análise sobre a intersecção entre gênero, trabalho e cuidado realizada neste estudo não contemplou a dimensão da raça. Nas entrevistas não apareceram temas identificados como desigualdades ligadas à raça. O foco do estudo foi direcionado para as experiências relacionadas às conciliações, aos conflitos, opressões e compromissos relatados sobre o trabalho profissional e as responsabilidades domésticas na crise sanitária. No entanto, é possível que os conflitos latentes, não ditos, não tenham sido percebidos. Uma análise mais aprofundada sobre a interseção entre gênero e raça pode enriquecer ainda mais a compreensão das experiências vividas por profissionais de saúde.
São fortalezas do estudo a triangulação de categorias profissionais e a inclusão de UBS de todos os distritos sanitários do município, aumentando a variabilidade de situações vivenciadas pelos participantes. O estudo abordou os efeitos da pandemia na vida profissional e privada de trabalhadores da saúde, cobrindo a lacuna que havia na literatura. E, ao privilegiar a APS, esta pesquisa contempla aspectos da pandemia para além das experiências de profissionais em hospitais e UTI.
Considerações finais
A crise social e sanitária provocada pela pandemia de covid-19 produziu mudanças, mas também evidenciou e aprofundou desigualdades em termos de gênero e de classe.
Na Atenção Primária à Saúde, este estudo revelou sobrecarga de trabalho em condições desgastantes nas unidades de saúde em razão do aumento da demanda de atendimento e da escassez de recursos. A análise destacou como a intersecção de gênero e categoria profissional criou desigualdades específicas, como maior exposição ao risco e o encargo de outras tarefas laborais para enfermeiras e ACS, em comparação com as médicas.
Se no âmbito profissional a classe social promoveu uma certa vantagem entre as mulheres, no âmbito familiar, foi o gênero que marcou a desigualdade. Na vida privada, a pandemia exacerbou uma injusta distribuição do cuidado enfrentada pelas profissionais que também assumiram o aumento de trabalho e da responsabilidade pelos cuidados com a casa e familiares.
O estudo revela a necessidade de debates e de políticas que abordem questões sobre cuidado, gênero e classe, pois apesar das conquistas dos movimentos sociais, ainda há entraves à equidade de gênero e à justiça social. Os embates acerca da divisão sexual do trabalho, do cuidado e das responsabilidades atribuídas às mulheres revelam que as desigualdades trazem prejuízos à vida delas, na medida em que as relações sociais se encontram articuladas com base nos eixos de compromisso, afeto, opressão e sofrimento. As desigualdades comprometem significativamente a democracia, pois ela se realiza nos espaços públicos e privados.
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Financiamento
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) - Código de Financiamento 001.
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Alves FLFS, Carvalho RHSBF, Campos DM, Sousa FS, Thomaz EBAF, Alves MTSSB. Interseccionalidades na atenção primária durante a pandemia de Covid-19: trabalho, gênero e classe. Interface (Botucatu). 2026; 30: e240641 https://doi.org/10.1590/interface.240641
Disponibilidade de dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
Referências
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Editado por
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Editora
Stela Nazareth Meneghel https://orcid.org/0000-0002-7219-7178
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Editora associada
Catarina Delaunay https://orcid.org/0000-0001-9679-0681
