Open-access A erosão da empatia do estudante de Medicina: um estudo de 4 anos em uma universidade federal

The erosion of empathy in medical students: a four-year study at a federal university

La erosión de la empatía de los estudiantes de medicina: un estudio de 4 años en una universidad federal

Resumo

Este estudo, em sua quarta etapa, avaliou a empatia em estudantes de Medicina da Universidade Federal de Alagoas por meio de abordagens quantitativa e qualitativa. A Escala Jefferson de Empatia Médica (JSPE-S) foi aplicada anualmente, revelando queda progressiva na participação dos estudantes e redução dos escores médios de empatia ao longo do curso. Nos grupos focais virtuais, processados pelo software Iramuteq, identificou-se discurso mais objetivo e seletivo com ênfase na relação médico-paciente e na aplicação consciente da empatia. A busca de artigos no SciELO e PubMed foi realizada a fim de embasar a discussão, sem constituir revisão sistemática formal. Os resultados apontaram declínio contínuo no interesse dos estudantes e nos níveis de empatia, fenômeno já observado anteriormente. Reforça-se, assim, a necessidade de estratégias pedagógicas que promovam a empatia durante a formação médica dado seu papel central na humanização do atendimento.

Palavras-chave
Empatia; Educação; Medicina


Abstract

The fourth stage of this study evaluated empathy among medical students at the Federal University of Alagoas using quantitative and qualitative approaches. The Jefferson Scale of Empathy (JSPE-S) was applied annually throughout the course, revealing a progressive decline in student participation and a reduction in average empathy scores. Online virtual focus groups processed using Iramuteq revealed a more objective and selective discourse, with an emphasis on the doctor-patient relationship and the conscious application of empathy. A search was performed in SciELO and PubMed for articles to support the discussion; however, this study does not constitute a formal systematic review. The results showed a continuous decline in student interest and empathy levels. This phenomenon has been observed by previous studies, reinforcing the need for pedagogical strategies that promote empathy during medical training, given its central role in the humanization of care.

Keywords
Empathy; Education; Medicine


Resumen

Este estudio, en su cuarta etapa, evaluó la empatía de estudiantes de Medicina de la Universidad Federal de Alagoas por medio de abordajes cualitativos y cuantitativos. La Escala Jefferson de Empatía Médica (JSPE-S) se aplicó anualmente, revelando un desplome progresivo de la participación de los estudiantes y reducción de los puntajes medios de empatía durante el curso. En los grupos focales virtuales, procesados por el software Iramuteq, se identificó un discurso más objetivo y selectivo, con énfasis en la relación médico-paciente y en la aplicación consciente de la empatía. Se realizó la búsqueda de artículos en SciELO y PubMed con el fin de servir de base a la discusión, sin constituir revisión sistemática formal. Los resultados señalaron una baja continua en el interés de los estudiantes y de los niveles de empatía, fenómeno ya observado anteriormente. Se refuerza de tal forma la necesidad de estrategias pedagógicas que promuevan la empatía durante la formación médica, considerando su papel central en la humanización de la atención.

Palabras clave
Empatía; Educación; Medicina


Introdução

A relação médico-paciente é o pilar da ciência médica contemporânea, sendo o alicerce da maioria das pesquisas que envolvem a saúde nas últimas décadas e refletindo a evolução contínua das abordagens de cuidado ao longo do tempo. Dentro desse contexto, a empatia emerge como um recurso crucial, desempenhando um papel vital na capacidade do médico de compreender e se conectar com o paciente. Dessa forma, a empatia, definida como a habilidade de compreender e compartilhar os sentimentos de outra pessoa1, é um fator determinante na construção de um vínculo terapêutico efetivo que pode melhorar a adesão ao tratamento e a satisfação do paciente2,3.

Inicialmente, Hojat et al.4 distinguiram dois tipos principais de empatia: a cognitiva, que envolve a compreensão intelectual do ponto de vista do paciente, e a afetiva, que implica uma conexão emocional mais profunda, na qual o médico compartilha os sentimentos do paciente. A eficácia de cada tipo na prática clínica é objeto de debate acadêmico, demonstrando a complexidade da interação humana no ambiente médico. E, embora a empatia seja amplamente valorizada, é importante notar que seu excesso pode levar a desafios importantes dentro da prática médica, como a exaustão emocional dos profissionais de saúde e a potencial distorção do processo terapêutico2,5

Historicamente, o ensino médico brasileiro, desde a criação do primeiro curso de Medicina em 1808, tem passado por diversas reformas influenciadas por diferentes correntes de pensamento, desde os princípios biologicistas e mecanicistas até uma visão mais holística e interdisciplinar da saúde6. A contemporaneidade trouxe um foco renovado na importância da empatia e da humanização no atendimento, refletindo uma mudança na abordagem educacional e na prática clínica7. No entanto, apesar das mudanças, estudos recentes indicam que os níveis de empatia entre estudantes de Medicina tendem a declinar a partir do terceiro ano do curso, sugerindo uma possível deficiência na formação acadêmica e na integração de habilidades interpessoais8.

A crescente adoção de metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), e as recentes alterações nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) têm implicações significativas para a formação dos futuros médicos9,10. A implementação dessas abordagens visam a uma educação mais centrada no paciente e mais integrada às realidades práticas do cuidado, porém a efetividade dessas mudanças na promoção da empatia ainda requer uma avaliação aprofundada.

É válido salientar que esta pesquisa é baseada no estudo “The Devil Is In The Third Year: A Longitudinal Study Of Erosion Of Empathy In Medical School” de Hojat et al.8, que observou a corrosão da empatia dos estudantes de Medicina estadunidenses a partir do terceiro ano do curso. Entretanto, deve ser lembrado que esse foi proposto em um país de cultura, economia e relações interpessoais com dinâmicas diferentes do Brasil. Devido às diferenças históricas, sociais e culturais do país em relação aos Estados Unidos, a formação de relações interpessoais entre os estudantes de Medicina pode influenciar nos níveis de empatia e, consequentemente, na relação médico-paciente. Assim, surgem questões relevantes, como a existência de algum obstáculo exclusivo brasileiro no processo educacional que dificulta o desenvolvimento da empatia nos futuros médicos, bem como as diferentes medidas que devem ser adotadas para formar profissionais mais altruístas. Também é importante analisar o perfil subjetivo dos estudantes de Medicina no Brasil e como a vivência universitária pode influenciar isso.

Nesse cenário, o presente artigo, que foi baseado no estudo de Hojat et al.8 e em investigações anteriores realizadas por Monteiro et al.11, representa a culminação de uma pesquisa longitudinal de quatro anos sobre a empatia dos estudantes de Medicina na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Este trabalho teve como objetivo analisar os índices de empatia ao longo da formação médica e detalhar sua evolução entre os estudantes, identificando possíveis deficiências na formação e fornecendo recomendações para melhorar a integração da empatia no currículo médico. Para isso, realizou-se um estudo descritivo na etapa quantitativa com coleta de dados por meio da aplicação da Escala Jefferson de Empatia Médica (JSPE) e, na etapa qualitativa, houve a formação de Grupos Focais (GF) com discussões orientadas por perguntas motivadoras e com posterior análise de dados auxiliada pelo software iRaMuTeQ.

A JSPE-S aborda os três principais fatores psicométricos associados à empatia, sendo eles “Cuidado compassivo”, “Tomada de perspectiva” e “Capacidade de se colocar no lugar do paciente”. O fator psicométrico “Tomada de perspectiva” corresponde ao domínio central da empatia médica e exige um esforço ativo e racional para compreender a experiência vivida pelo paciente. O domínio do “Cuidado compassivo”, por sua vez, refere-se ao componente afetivo da empatia, avaliando a atitude do médico ao demonstrar preocupação genuína e sensibilidade em relação ao bem-estar do paciente. Já o fator “Capacidade de se colocar no lugar do paciente” é considerado como domínio complementar aos dois anteriores, pois trata da identificação emocional que extrapola a compreensão cognitiva. Esse fator avalia a habilidade do médico de se imaginar na posição do paciente, reconhecendo as diversas dimensões emocionais e pessoais envolvidas.

Assim, por meio da aplicação do questionário JSPE-S, composto por vinte itens, esses fatores foram avaliados utilizando-se uma escala do tipo Likert, graduada de 1 a 7. Posteriormente, as pontuações individuais dos participantes foram somadas, permitindo o cálculo da média empregada na análise quantitativa descritiva do estudo.

O estudo proposto não só contribui para a discussão acadêmica sobre a importância da empatia na prática médica, mas também oferece insights valiosos para a formulação de estratégias pedagógicas que possam promover uma formação mais completa e humanizada, refletindo os avanços na educação médica e na prática clínica.

Metodologia

Inicialmente, esta foi uma pesquisa longitudinal qualiquantitativa descritiva dividida em quatro etapas — uma por ano — e submetida à Plataforma Brasil para aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Ufal em 2019, sob número 09805119.7.0000.5013, sendo renovado anualmente. A pesquisa foi concluída após quatro ciclos com suporte de bolsas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), e focou em acompanhar alunos do 1º e 2º períodos do curso de Medicina da Ufal que iniciaram o curso em 2018 e 2019. A investigação foi conduzida em três fases principais a cada ciclo realizado.

A primeira fase envolveu a aplicação da Escala Jefferson de Empatia Médica — Versão para Estudantes (JSPE-S), adaptada para o contexto brasileiro. O questionário foi disponibilizado digitalmente por meio do Google Forms, permitindo uma coleta anônima dos dados. A escala contém vinte perguntas avaliadas em uma escala de 1 a 7 com base na Escala Likert (7 = concordo fortemente, 1 = discordo fortemente). Para minimizar o viés de resposta condescendente — ou seja, a tendência dos participantes de responder consistentemente de forma positiva (ou negativa) —, o questionário foi projetado com dez itens formulados de maneira positiva e dez de forma negativa, cujas respostas são invertidas na pontuação.

Cada pergunta está associada a um dos três fatores psicométricos: “Cuidado compassivo” (assertivas 1, 7, 8, 11, 12, 14, 18 e 19); “Tomada de perspectiva” (assertivas 2, 4, 5, 9, 10, 13, 15, 16, 17 e 20); e “Capacidade de se colocar no lugar do paciente” (assertivas 3 e 6); e o Escore Global de Empatia é calculado com base nesses fatores8. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi enviado junto com o questionário e assinado digitalmente pelos alunos durante a aplicação. Cada participante recebeu uma cópia digital do TCLE e de suas respostas ao questionário. No total, 87 alunos das turmas analisadas responderam à versão brasileira da JSPE-S.

Portanto, sabendo que, conforme exposto por Van Manen12 e Takaki13, muitas pesquisas na área de educação médica confundem empatia com outros fenômenos psicológicos de contágio emocional, faz-se necessário um aprofundamento qualitativo para a interpretação de dados quantitativos, pois é um fenômeno pouco explorado ou conhecido pela comunidade científica. Assim, na segunda fase, foram formados Grupos Focais (GF) para realizar uma avaliação qualitativa dos níveis de empatia dos estudantes. Os grupos foram divididos por gênero e turma, sendo realizados em momentos diferentes para evitar influência de respostas.

É válido salientar que no primeiro ciclo da pesquisa os GF ocorreram com dez participantes e de modo presencial; entretanto, posterior à pandemia, os encontros passaram a ocorrer mediante plataforma On-line Google Meet, com a quantidade de 4-6 participantes, conforme embasamento científico para realização de grupos remotos14. Os integrantes de cada GF foram selecionados randomicamente com o auxílio de um sorteador digital; já os pesquisadores foram previamente divididos entre moderadores (responsáveis pela interação e pelo diálogo com os participantes do GF) e os observadores (com a função de perceber as expressões e reações dos colaboradores no momento de resposta das perguntas) de forma pré-selecionada na etapa de formulação do plano de trabalho da pesquisa.

A terceira fase envolveu a análise do discurso, do conteúdo e da lexicometria dos GF, além da avaliação dos resultados da escala. A análise dos Grupos Focais foi realizada processando as transcrições, que foram gravadas durante as sessões, utilizando o software IRAMUTEQ em sua versão 0.7 Alpha. Ferramentas como “Nuvem de Palavras” e “Análise de Similaridade” foram empregadas para identificar a frequência dos termos usados pelos participantes e para explorar as relações entre esses termos. A análise dos dados da JSPE-S consistiu na organização e no processamento das respostas fornecidas pelos estudantes no questionário, sendo realizada mediante as médias da escala Likert de cada grupo, bem como foram divididas em seus respectivos domínios. Essa etapa final com o cálculo das médias foi realizada com o auxílio do software Microsoft Office Excel 365.

A pesquisa de artigos científicos atualizados e relevantes foi conduzida nas plataformas “Scielo” e “Pubmed”, utilizando os descritores “Empatia”, “Estudantes de Medicina” e “Medicina”, além da operação booleana “and” para combinar esses termos. Foram selecionados apenas artigos em português e inglês, com preferência para publicações entre 2015 e 2023. No entanto, artigos publicados entre 2009 e 2014 também foram considerados, especialmente devido ao fato de que o trabalho que fundamenta esta pesquisa foi publicado em 2009.

Por fim, foi feita a análise dos dados obtidos com o arcabouço anterior do presente estudo, avaliando a evolução dos níveis quantitativos da JSPE-S e da análise de discurso das turmas com o passar dos anos para, então, comparar com o que se tem na literatura atual sobre a temática.

Resultados e discussão

A adesão à pesquisa pelos alunos estudados apresentou queda importante na etapa atual, na qual foram coletadas 49 respostas ao questionário quantitativo, demonstrando redução da participação quando comparada aos anos anteriores analisados. No primeiro ano da pesquisa, obtiveram-se cem respostas; no segundo, 97 estudantes contribuíram; e, no terceiro, esse número caiu para 76. Desse modo, a quantidade de respostas da quarta etapa foi a menor observada em todo o projeto, o que corrobora uma progressiva perda de interesse na continuidade da pesquisa por parte do grupo analisado, seja por falta de identificação com a temática estudada e pouco tempo livre seja por desconhecimento acerca da importância do projeto.

Entre os principais motivos para a recusa de participação — tanto na parte quantitativa quanto na qualitativa — foi percebida uma diminuição da credibilidade dada à pesquisa pelos alunos (entende-se credibilidade como dúvidas na relevância do objeto de estudo), desinteresse sobre o assunto pesquisado e falta de tempo disponível para as atividades previstas devido ao ciclo de internato dos estudantes, corroborando o que a literatura aponta sobre as recusas às pesquisas15,16. Esses fatores foram percebidos ao longo das 4 etapas da pesquisa — os alunos mostraram-se cada vez mais distantes do entendimento da importância da pesquisa em educação médica, o que se configura como um bom objeto de estudos futuros sobre o acadêmico de Medicina e sua relação com a formação científica no Brasil.

Ademais, além da baixa adesão no questionário quantitativo, houve também dificuldade de comprometimento com a parte qualitativa, visto que apenas 15 estudantes aceitaram participar dos GF, sendo nove do gênero masculino e seis do feminino. Com o desbalanço tanto de gênero quanto entre as turmas, houve dificuldade em cumprir com o objetivo de formar os GF com o número mínimo de quatro participantes, conforme respaldado na literatura14,17. Para seguir de acordo com o proposto, tornou-se necessária uma busca ativa pelos estudantes, visando aumentar os interessados em seguir para a etapa qualitativa da pesquisa. Desse modo, apesar da dificuldade inicial, mantiveram-se 15 participantes na etapa qualitativa da pesquisa.

No âmbito dos dados quantitativos, a análise acerca da empatia entre estudantes de Medicina revela uma tendência de declínio ao longo dos anos de Graduação. Inicialmente, o escore global médio de empatia dos estudantes do 1º ano (Etapa 01) da Ufal foi de 120,99 pontos, um valor consideravelmente superior ao obtido por Hojat et al.8, que era de 115,1 pontos. Essa diferença destaca uma variação significativa nas medidas de empatia entre os estudantes da universidade brasileira e os da Jefferson Medical College. O escore médio de empatia dos estudantes de medicina da Ufal mostrou uma variação ao longo dos anos, demonstrando uma redução gradual na média geral.

A pesquisa analisou isoladamente o escore médio de empatia e os três fatores psicométricos — “Cuidado compassivo”, “Tomada de perspectiva” e “Capacidade de se colocar no lugar do paciente” — entre as duas turmas escolhidas, sendo a Turma 1 e a Turma 2 referentes aos semestres 2019.1 e 2018.2, respectivamente.

Observando o escore médio de empatia da JSPE da Turma 1 (Figura 1), o grupo masculino apresentou as seguintes pontuações ao longo dos quatro anos iniciais da Graduação em Medicina: 117,08 (Etapa 01); 117,88 (Etapa 02); 118,59 (Etapa 03) e 112,86 (Etapa 04). Já o componente feminino da mesma turma apresentou as seguintes pontuações: 123,45 (Etapa 01); 121,28 (Etapa 02); 118,70 (Etapa 03) e 120,08 (Etapa 04). Concomitantemente, o grupo masculino da Turma 2 apresentou as seguintes médias (Figura 2): 120,59 (Etapa 01); 121,74 (Etapa 02); 114,91 (Etapa 03) e 117,27 (Etapa 04). A parcela feminina do mesmo grupo apresentou, durante o mesmo período, os seguintes escores: 122,85 (Etapa 01); 122,64 (Etapa 02); 120,73 (Etapa 03) e 118,50 (Etapa 04). Finalmente, a média geral dos estudantes de Medicina em cada ano foi, respectivamente: 120,89; 120,88; 118,23 e 117,17 pontos.

Figura 1
Gráfico referente ao escore médio de empatia da Turma 1 nos quatro primeiros anos da Graduação.
Figura 2
Gráfico referente ao escore médio de empatia da Turma 2 nos quatro primeiros anos da Graduação.

Dessa forma, em relação ao escore médio de empatia, identifica-se uma diminuição nos níveis de empatia entre os grupos feminino e masculino na Turma 1. Ao comparar a Etapa 01 com a 04, no grupo feminino houve um decréscimo de 3,37, e no masculino, 4,22 pontos. Na Turma 2 vê-se também um comportamento de declínio diante da mesma comparação, sendo no feminino uma redução de 4,35 pontos entre a fase inicial e final da pesquisa, e no masculino, 3,32 pontos. No entanto, é válido ressaltar que apesar de a Turma 2 ter demonstrado uma variação menor dos níveis de empatia entre os homens ao serem comparados com o grupo das mulheres em todas as etapas, tal grupo demonstrou um escore médio de empatia inferior ao público feminino.

A análise comparativa entre as Turmas 1 e 2, considerando as quatro etapas do estudo longitudinal e os três fatores psicométricos da JSPE-S, revela tendências consistentes de declínio nos escores médios de empatia ao longo da formação médica (Tabela 1). Apesar de ambas as turmas apresentarem perfis semelhantes, alguns contrastes importantes emergem, sugerindo efeitos combinados da trajetória curricular, da vivência acadêmica e, possivelmente, de características próprias de cada grupo.

Tabela 1
Fatores psicométricos da Turma 01 (T1) e Turma 02 (T2), divididos por gênero com o decorrer das etapas das pesquisas (E01, E02, E03, E04).

O fator Cuidado compassivo demonstrou relativa estabilidade ou discreto incremento ao longo do tempo, especialmente na Turma 1, em contraste com a tendência mais oscilatória da Turma 2. Entre os estudantes do gênero masculino, a Turma 1 apresentou aumento de 43,13 (Etapa 01) para 45,92 (Etapa 04), enquanto a Turma 2 variou entre uma queda intermediária (43,58 na Etapa 03) e posterior elevação (48,45 na Etapa 04). Entre as mulheres, ambas as turmas exibiram incremento mais evidente ao final, com destaque para a Turma 1, que atingiu 50,92 na Etapa 04 — o valor mais alto observado nesse fator. Assim, a relativa estabilidade do Cuidado compassivo ao longo das etapas sugere que, embora outras dimensões da empatia sofram declínio, o componente comportamental permanece amparado por um processo formativo que valoriza modos adequados de se portar diante do paciente, sustentado por normas institucionais e por práticas de supervisão que reiteram a importância do acolhimento e do respeito na relação clínica6.

O fator Tomada de perspectiva apresentou declínio progressivo em ambas as turmas, confirmando tendências já descritas na literatura internacional4. Na Turma 1, observa-se queda mais acentuada entre as mulheres, de 64,43 (Etapa 01) para 61,17 (Etapa 04), enquanto a Turma 2 apresentou estabilidade relativa, embora também com redução final. Entre os homens, a diminuição foi contínua nas duas coortes: de 62,52 para 58,05 na Turma 1 e de 63,57 para 60,27 na Turma 2. Esse padrão reflete uma possível influência do aumento da carga cognitiva e das exigências técnicas dos anos clínicos, nos quais a atenção dos estudantes se desloca para os desempenhos técnico e diagnóstico em detrimento das dimensões interpretativas e relacionais da prática médica.

O fator Capacidade de se colocar no lugar do paciente foi o que apresentou o declínio mais expressivo entre todos os avaliados, em ambas as turmas e em ambos os gêneros. Essa queda é observada sobretudo entre os homens da Turma 1, cujos valores passaram de 11,91 (Etapa 01) para 8,46 (Etapa 04). Entre as mulheres dessa mesma turma, a redução também foi significativa, de 13,57 para 8,00. Na Turma 2, apesar de valores iniciais ligeiramente inferiores, a tendência foi similar: queda contínua nas quatro etapas. Esse padrão reforça a hipótese defendida por Hojat et al. e outros autores de que a empatia de natureza afetiva tende a ser a mais vulnerável ao desgaste emocional e às pressões institucionais da formação médica. Os dados também sugerem que o contato prolongado com cenários de sofrimento, carga excessiva de trabalho e vivências potencialmente estressoras podem reduzir a capacidade dos estudantes de manter envolvimento emocional intenso com o paciente, o que aparece como um possível mecanismo.

Na análise qualitativa, as discussões dos grupos focais revelaram diferenças nas palavras mais frequentemente utilizadas. As falas foram concentradas na relação médico-paciente, com predominância dos substantivos “pessoa”, “paciente”, “empatia” e “empático”, o que demonstra conhecimento, por parte dos participantes, da importância de uma abordagem médica empática e centrada no paciente. No âmbito dos verbos predominantes, observou-se uma prevalência significativa de “entender”, “saber”, “acreditar” e “conseguir”, em detrimento de verbos especulativos como “achar”, que prevaleceram em etapas anteriores (Figura 3). Isso indica uma mudança para uma abordagem mais assertiva e confiante nas discussões, refletindo maior convicção e segurança dos participantes em suas percepções e conhecimentos sobre a relação médico-paciente e a importância da empatia no cuidado médico.

Figura 3
Exemplo de nuvem de palavras da Turma 1, grupo masculino, durante as quatro etapas. <xref rid="f01" ref-type="fig">Imagem 1</xref> representando a primeira etapa, <xref rid="f02" ref-type="fig">Imagem 2</xref> representando a segunda etapa, <xref rid="f03" ref-type="fig">Imagem 3</xref> representando a terceira etapa e <xref rid="f04" ref-type="fig">Imagem 4</xref> representando a quarta etapa.

Ademais, os debates entre os grupos de estudantes foram notavelmente diretos e centrados em um número restrito de temas principais. Essa mudança contrasta com as etapas anteriores, nas quais as discussões apresentaram caráter mais variado e abrangente, permitindo uma análise mais complexa e multifacetada dos temas, o que pode ser notado em meio às análises de similaridade com o passar das etapas (Figura 4). Nessa figura, é perceptível que, nas imagens A e B, o diagrama de similaridades exibe uma estrutura mais ramificada; os nós (que representam palavras, conceitos e temas) formavam uma rede densa, o que indica que os estudantes, por vezes, exploram a relação médico-paciente com base em múltiplas perspectivas e ângulos. Em contraste, as imagens C e D evidenciam uma simplificação progressiva e um maior foco temático, e as discussões concentram-se em um núcleo restrito de conceitos principais com poucas ramificações periféricas. Dessa forma, observa-se uma maturação do foco de pensamento com aprofundamento em conceitos-chave, a fim de refletir maior segurança e convicção; porém, também pode ser evidenciada uma simplificação errônea da complexidade inerente à relação médico-paciente e ao construto da empatia, podendo estar sendo negligenciada por uma visão mais utilitarista da empatia.

Figura 4
Exemplo de análise de similaridades da Turma 1, grupo masculino, durante as quatro etapas. Imagem A representando a primeira etapa, Imagem B representando a segunda etapa, Imagem C representando a terceira etapa e Imagem D representando a quarta etapa.

Entretanto, corroborando as observações de Jobling e Alberti18 em seu estudo fenomenológico londrino de 2022 — igualmente baseado nos estudos de Hojat et al.8 —, os nossos discentes, embora tenham reportado um engajamento discursivo menos intenso nos GF ao longo dos anos, não manifestaram uma percepção de declínio empático. Eles relataram, em vez disso, uma transição para uma aplicação mais seletiva e consciente da empatia, direcionando-a para contextos e vivências que julgavam mais oportunos. Essa estratégia, a qual foi chamada de “dosímetro empático” por um dos participantes, sugere um amadurecimento da percepção sobre os impasses e barreiras inerentes à formação profissional. Dessa forma, os alunos demonstraram maior consciência das complexidades e sentimentos controversos envolvidos na construção de um saber altruísta, ao mesmo tempo que valorizavam as experiências que propiciavam uma autopercepção aguçada da realidade vivenciada pelo paciente.

Ademais, a participação dos estudantes na pesquisa apresentou uma queda significativa ao longo dos anos, com uma redução na adesão aos questionários e aos grupos focais. A menor adesão na quarta etapa sugere uma perda progressiva de interesse, possivelmente devido à falta de identificação com o tema, à rotina acadêmica intensa ou ao desconhecimento da importância do projeto. Essa diminuição na participação também impactou a qualidade das discussões e a aleatoriedade dos participantes, refletindo uma redução na empatia observada na literatura.

Por fim, os ambientes clínicos marcados por pressão de tempo, sobrecarga de trabalho e aumento da carga horária dificultam a expressão empática, pois aumentam o estresse e reduzem oportunidades para reflexão e interação significativa com os pacientes19,20. Isso está em consonância com o curso natural da Graduação médica que aumenta a responsabilidade, a carga horária e a demanda física e mental dos acadêmicos que, em seus últimos anos como acadêmicos, enfrentam o internato médico e, em carga-horária extraoficial, os estudos para aplicação da residência médica — criando, assim, um ambiente de pressão psicoemocional e causando impactos negativos em sua relação com os pacientes, que, por vezes, passam a ser apenas objetos de estudo.

Considerações finais

Conclui-se que a pesquisa revelou uma redução dos níveis de empatia entre os estudantes de Medicina da Universidade Federal de Alagoas, e as mudanças foram mais perceptíveis pela longitudinalidade da pesquisa e pelo acompanhamento por tempo prolongado, o que está em consonância com a literatura-base. Observou-se que as discussões dos estudantes nos GF se tornaram mais objetivas e menos prolixas ao longo das etapas da pesquisa, como também o interesse deles em participar da pesquisa diminuiu em relação aos anos anteriores. Desse modo, é relevante salientar que as discussões acerca das implicações desse decréscimo representam um campo que merece maior aprofundamento. Adicionalmente, o contato com os estudantes para participação nos grupos e preenchimento dos questionários revelou-se mais desafiador em relação ao ano anterior, suscitando questionamentos sobre a influência do meio virtual ou sobre as mudanças comportamentais esperadas durante essa etapa da formação acadêmica.

  • Financiamento
    Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).
  • Barbosa CMM, Soares AER, Canuto AMM, Gomes BUM, Rocha GBS, Monteiro LN, Braga BP. A erosão da empatia do estudante de Medicina: um estudo de 4 anos em uma universidade federal. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250091 https://doi.org/10.1590/interface.250091

Disponibilidade de Dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2025
  • Aceito
    14 Jan 2026
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