Open-access Existe associação da espessura do quadríceps com a capacidade funcional em pacientes com doença renal crônica?

Prezado Editor:

Em artigo publicado recentemente, Costa et al.1 demonstraram a associação da espessura muscular do quadríceps avaliada pela ultrassonografia e o número de repetições no teste sit-to-stand (STS) de 60s (R2 = 0,436; p = 0,037) em pacientes com doença renal crônica (DRC) pré-dialítica. Entretanto, a espessura do quadríceps não apresentou associação com a distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos (TC6M) e com a força de preensão manual1. Esta carta tem então como objetivo discutir alguns achados do estudo de Costa et al.1, considerando nossa experiência com o teste STS e os resultados parciais de um projeto que estamos conduzindo para avaliar a associação de diferentes protocolos do teste STS com o torque muscular do quadríceps em pacientes com DRC em hemodiálise.

No nosso estudo, os pacientes foram submetidos a três protocolos do STS (5 repetições, 10 repetições e 30s) e a avaliação do torque muscular do quadríceps no membro inferior dominante pela dinamometria manual (MMT Lafayette Instrument Company, USA). Foram incluídos até o presente momento 40 pacientes (24 mulheres; 59,7±11,9 anos; 26,6±5,3 kg/m2). Foram criados modelos de regressão linear múltipla para avaliar a associação dos resultados dos testes STS (variável dependente) com o torque muscular, ajustado para idade, sexo e índice de massa corporal. O torque muscular do quadríceps apresentou associação com os testes STS de 5 repetições (R2 = 0,434; B =-0,112; IC =-0,163,-0,061; p < 0,001), STS de 10 repetições (R2 = 0,545; B =-0,245; IC =-0,348,-0,142; p < 0,001) e STS de 30s (R2 = 0,508; B = 0,110; IC = 0,066, 0,153; p < 0,001). Esses resultados parciais sugerem que o teste STS de 10 repetições representou a melhor estratégia para estimar o torque muscular em pacientes em hemodiálise. O teste STS de 60s não foi aplicado nos nossos pacientes, uma vez que esse protocolo está mais associado com a resistência e não com o torque/força muscular2-5.

Apesar de os resultados de Costa et al.1 mostrarem que a espessura muscular do quadríceps avaliado pela ultrassonografia apresentou associação com o desempenho no teste STS de 60s, não foi observada essa relação com a distância no TC6M. Por outro lado, alguns estudos demonstraram que existe associação do resultado do teste STS de 60s com a distância no TC6M e ainda descreveram que o teste STS de 60s pode representar uma alternativa para determinar a capacidade funcional, principalmente se o espaço e tempo forem limitados2-5. Acreditamos, portanto, que os resultados encontrados por Costa et al.1 estão realmente mais associados com as características do teste STS de 60s em avaliar a resistência muscular do que a relação com a capacidade funcional dos pacientes com DRC. A ultrassonografia basicamente permitiu a análise do “volume” e não da “qualidade” muscular pela determinação dos tipos de fibra no músculo quadríceps. Esse fato também pode explicar a falta de associação da espessura do quadríceps com a força de preensão manual.

Portanto, apesar da importância do uso da ultrassonografia para avaliação muscular dos pacientes com DRC, testes funcionais como o STS de 60s e o STS de 10 repetições podem representar mais adequadamente a resistência e a força muscular, respectivamente.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Abr 2022
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2023

Histórico

  • Recebido
    14 Dez 2021
  • Aceito
    22 Fev 2022
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