Open-access Desenvolvimento de tromboembolismo venoso e seu impacto em adultos hospitalizados com covid-19: revisão sistemática rápida

Resumo

A associação entre a covid-19 e distúrbios de coagulação é discutida desde o início da pandemia, de modo que, passados 4 anos, é importante sistematizar as descobertas e evidências encontradas até o momento. O objetivo do estudo foi revisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis sobre a relação entre a covid-19 e o desenvolvimento de tromboembolismo venoso. Foi realizada uma revisão sistemática rápida, com a busca conduzida em duas bases de dados eletrônicas, e incluídos artigos de revisão sistemática que avaliaram a associação entre a covid-19 e o desenvolvimento de tromboembolismo venoso, como trombose venosa profunda ou embolia pulmonar. Os estudos apontaram que pacientes hospitalizados por covid-19 apresentam maior risco de desenvolver tromboembolismo venoso, especialmente os internados em unidade de terapia intensiva. Valores de Dímero D elevado e o sexo masculino também foram associados a maiores riscos.

Palavras-chave:
covid-19; SARS-CoV-2; trombose; tromboembolismo venoso; trombose venosa profunda; embolia pulmonar

Abstract

The association between COVID-19 and coagulation disorders has been discussed since the onset of the pandemic. Four years into the pandemic, it is crucial to organize the findings and evidence accumulated thus far. The objective of this study was to review and synthesize the available scientific evidence regarding the relationship between COVID-19 and development of venous thromboembolism (VTE). A rapid systematic review was conducted by searching two electronic databases, selecting systematic review articles that assessed the association between COVID-19 and development of VTE, such as deep vein thrombosis (DVT) or pulmonary embolism (PE). The studies indicated that hospitalized COVID-19 patients are at greater risk of developing VTE, especially those admitted to intensive care units (ICUs). Elevated D-dimer levels and male gender were also associated with increased risks.

Keywords:
covid-19; SARS-CoV-2; thrombosis; venous thromboembolism; deep vein thrombosis; pulmonary embolism

INTRODUÇÃO

Estudos datados de 2020, início da pandemia de covid-19 – declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março daquele ano –, já discutiam sobre distúrbios de coagulação, especificamente a hipercoagulação, observada em pacientes internados em razão da doença1. Além dos achados clínicos mais comuns (febre, tosse e fadiga), essas pesquisas descrevem alterações em exames laboratoriais (marcadores hemostáticos como Dímero D, fibrinogênio e tempo de tromboplastina parcial ativada, por exemplo) e aumento nos índices de letalidade, observando-se a ocorrência de eventos trombóticos como a coagulação intravascular disseminada, a trombose venosa profunda e o tromboembolismo pulmonar1,2.

Quando se fala em coagulação, deve-se levar em consideração a tríade de Virchow, que associa a trombose a três fatores de risco: lesão endotelial, estase sanguínea e hipercoagulabilidade3. A coagulação é ativada por fatores intrínsecos e extrínsecos, e a fisiologia da coagulação é regulada por três mecanismos anticoagulantes: sistema antitrombina, sistema ativador da proteína C e inibição da via do fator tecidual4.

Uma infecção sistêmica pode provocar disfunção nos mecanismos de coagulação e, em conjunto com a resposta imunológica gerada, desencadear eventos endoteliais que impactam a hemostasia5, como o dano endotelial, um dos fatores que compõem a tríade de Virchow4.

Publicações científicas apontam o tromboembolismo pulmonar como uma das potenciais complicações da covid-19, tanto por causa da elevação nos níveis de citocinas inflamatórias quanto em função de taquiarritmias e bradiarritmias1,2,6. Um evento trombótico como a embolia pulmonar pode ocasionar instabilidade hemodinâmica significativa, levando a desfechos clínicos graves, como a parada cardiorrespiratória, se não tratado adequadamente7,8. Além disso, embora menos frequentes, casos de trombose arterial também são observados e contribuem para a morbimortalidade associada à covid-19, agravando ainda mais o prognóstico desses pacientes9.

Em vista disso, é importante compreender e acompanhar os avanços nas pesquisas ao longo dos últimos 4 anos no que tange aos efeitos vasculares de uma infecção como a da covid-19, visando contribuir para a prática baseada em evidências, tanto sobre a doença em si quanto sobre as respostas do organismo a patógenos novos. Dessa forma, esta revisão teve como objetivo identificar e sintetizar as evidências científicas de estudos que avaliaram a associação entre a ocorrência de covid-19 e o desenvolvimento de tromboembolismo venoso (TEV) como um dos possíveis desfechos dos distúrbios de coagulação.

MÉTODOS

Foi realizada uma revisão sistemática rápida até dezembro de 2023 para mapear estudos que tenham avaliado a associação entre a ocorrência de covid-19 e o desenvolvimento de eventos tromboembólicos como embolia pulmonar (EP) e trombose venosa profunda (TVP), seguindo a metodologia para revisões sistemáticas de Cochrane10, adaptada para um delineamento rápido11. Os resultados estão reportados conforme a ferramenta Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) 202012.

A revisão rápida é um tipo de revisão sistemática desenvolvida em um espaço de tempo mais curto, adotando atalhos metodológicos que permitem maior agilidade na conclusão e, ao mesmo tempo, tendo impacto mínimo na qualidade da pesquisa11. Com relação aos atalhos escolhidos para a revisão que será apresentada, suas possíveis limitações estão descritas na Tabela 1.

Tabela 1
Atalhos escolhidos e seus impactos esperados nesta revisão como pontos limitantes da metodologia de revisão rápida.

A revisão visou responder à seguinte pergunta: qual o impacto da covid-19 no número de casos de tromboembolismo venoso em indivíduos adultos hospitalizados? Essa pergunta foi elaborada com base no acrônimo PECO: P (população), indivíduos adultos hospitalizados; E (exposição), covid-19; C (comparador), não especificado; O (outcome/desfecho), casos de tromboembolismo venoso.

O protocolo da revisão foi elaborado e publicado antes do início da pesquisa bibliográfica e está registrado e disponível na plataforma Zenodo14.

Critérios de elegibilidade

Para selecionar os estudos, foram definidos os seguintes critérios de inclusão: artigos de revisão sistemática de estudos que tenham investigado a associação entre ocorrência de covid-19 e desenvolvimento de TEV, como TVP e EP, em pacientes adultos e hospitalizados, publicados em inglês, espanhol ou português a partir de 2020, início da pandemia.

Já os critérios de exclusão foram: publicações que não fossem artigos científicos originais de estudos primários de estudos de caso e revisões não sistemáticas. Foram excluídos também estudos que tratam da covid-19 ou de distúrbios de coagulação, mas que não avaliaram sua associação, ou estudos que tratam da coagulopatia de forma ampla (sem foco em TEV) ou que tenham realizado análise post mortem.

Estratégia de busca e seleção dos estudos

A busca foi realizada nas bases de dados eletrônicas PubMed e Biblioteca Virtual da Saúde (BVS). Inicialmente, foi elaborada uma estratégia de busca para a PubMed, posteriormente adequada à BVS. Para elaborar a busca, foram utilizados termos do vocabulário controlado de cada base, juntamente com sinônimos e palavras-chave combinados entre si com operadores booleanos, conforme os grupos de termos previamente descritos no acrônimo PECO. As estratégias completas por base podem ser conferidas no Material suplementar.

Os resultados das buscas nas bases de dados foram gerenciados pela ferramenta Rayyan15, utilizada para as duas etapas de seleção do estudo: 1) triagem por leitura de título e resumo; e 2) confirmação da elegibilidade a partir da leitura na íntegra dos estudos. Essas etapas foram realizadas de forma independente por uma dupla de revisores que dialogaram para chegar a um consenso nos casos de conflito.

Extração de dados

Os dados dos estudos selecionados foram extraídos por um revisor, enquanto outro checava-os em uma planilha previamente elaborada.

Segundo a Diretriz de Tromboembolismo de 20223, o desfecho de interesse (distúrbios na coagulação sanguínea, no caso do TEV, devido ao estado de hipercoagulabilidade) pode ser avaliado de diversas formas, preferencialmente combinadas entre si: avaliação clínica, exame de imagem (ultrassonografia vascular com Doppler), aplicação do escore de Wells et al.16 e/ou nível sérico de Dímero D (produto da degradação de fibrina). Sendo assim, dos estudos que relataram algum método de avaliação da coagulabilidade sanguínea, este foi extraído para ser devidamente registrado em tabela. Assim, não foi necessário excluir estudos apenas pela medida utilizada.

Diferenças entre o protocolo inicial e o estudo final

Para aprimorar os achados ao longo da revisão, algumas mudanças foram feitas em relação ao protocolo: 1) mudanças nos critérios de inclusão e exclusão, optando-se por incluir apenas revisões sistemáticas; 2) restrição dos desfechos de interesse (distúrbios de coagulação), que podem ser diversos, para TEV apenas, abrangendo a TVP e a EP.

Avaliação da qualidade metodológica

Para analisar a qualidade metodológica das revisões, foi utilizada a ferramenta Assessing the Methodological Quality of Systematic Reviews (AMSTAR2)13. A análise foi realizada por um revisor e validada por um segundo revisor. Essa ferramenta avalia a qualidade metodológica das revisões sistemáticas incluídas neste artigo, identificando os domínios que implicam a ocorrência de vieses de pesquisa e relatando os resultados dessas revisões.

RESULTADOS

Foram identificadas inicialmente 886 publicações e, após a etapa de seleção com base nos critérios de elegibilidade, 17 artigos foram incluídos no estudo para análise e interpretação dos resultados17-33. As etapas de seleção dos estudos são apresentadas no fluxograma da Figura 1.

Figura 1
Fluxograma da revisão com número de estudos identificados, incluídos e excluídos por etapa, conforme modelo PRISMA 202012.

Entre as 17 revisões sistemáticas, 13 (76,47%) apresentaram metanálise. A incidência de TEV foi avaliada em 10 revisões (58,82%), enquanto seis (35,29%) investigaram a prevalência de TEV e uma (5,88%) a fisiopatologia do TEV em relação à infecção por covid-19. No total, 15 estudos abordaram TVP e EP, enquanto um abordou apenas TVP e um outro apenas EP. A população de todos os estudos compreendeu pacientes adultos e hospitalizados, em leito de UTI, de enfermaria ou em ambos. As principais características dos estudos incluídos estão descritas na Tabela 2.

Tabela 2
Características dos estudos incluídos após extração de dados.

Em relação ao Dímero D, 12 estudos (70,58%) apontaram uma associação entre níveis elevados desse marcador e o risco de desenvolvimento de TEV em casos de covid-19, indicando que os pacientes com TEV apresentaram níveis mais altos17,19-23,25,27,29,30.

Ainda, cinco estudos (29,4%) indicaram que há maior risco de TEV como complicação da covid-19 para indivíduos do sexo masculino18,19,22,25,29.

Além disso, três estudos (17,64%) sugeriram que uma triagem sistemática com uso de exames de imagem para investigação de TEV é fortemente indicada, pois identifica complicações que podem passar despercebidas apenas com a avaliação clínica28,32,34.

Por fim, 15 estudos (88,23%) comprovaram que o risco de desenvolvimento de TEV é mais elevado para pacientes de UTI em relação aos pacientes hospitalizados fora da UTI, embora o risco também aumente para este grupo17,19-22,24-32,34.

DISCUSSÃO

Entre os distúrbios de coagulação conhecidos, a resposta inflamatória da covid-19 manifesta principalmente o estado de hipercoagulabilidade, que tem como um de seus desfechos o TEV5. Sendo assim, este estudo concentrou-se nesse desfecho, estudando especialmente a EP e a TVP.

A covid-19, doença infecciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2 e responsável pela pandemia de 2020 a 2023, gerou impacto mundial na saúde pública, e muitas questões sobre sua fisiopatologia e desdobramentos ainda não foram respondidas. Sabe-se que a doença causa, sobretudo, manifestações respiratórias e, de forma secundária, manifestações cardiovasculares, como a coagulopatia. Além disso, cada vez mais estudos têm provado sua forte relação com eventos tromboembólicos decorrentes de distúrbios de coagulação gerados pelos mecanismos da resposta inflamatória34.

A fisiopatologia da covid-19 envolve uma série de eventos complexos que ocorrem no organismo em resposta à infecção pelo vírus, como a resposta inflamatória, que inclui a liberação de citocinas pró-inflamatórias, como interleucina-6 (IL-6). Em alguns casos, essa resposta inflamatória pode ser exacerbada, o que leva a uma condição conhecida como “tempestade de citocinas”, que está associada a complicações graves35. Além disso, o vírus pode causar lesões às células endoteliais que revestem os vasos sanguíneos, o que contribui para a ativação do sistema de coagulação e pode resultar em trombose vascular. Esses eventos levam ao estado de hipercoagulabilidade, frequentemente observado em indivíduos acometidos pela doença36.

Nesta revisão, foram identificadas evidências de outras revisões que apontam o TEV como uma condição que ocorre em uma proporção significativa de pacientes hospitalizados com covid-19. A manifestação é claramente mais comum em pacientes internados em UTIs, o que se justifica por esse tipo de paciente atender aos três critérios da Tríade de Virchow, além de muitas vezes estar sujeito à imobilidade por períodos prolongados. Contudo, foi possível observar, por meio dos achados dos estudos selecionados, que pacientes fora da UTI também estão expostos aos riscos.

É válido mencionar que a obtenção de dados durante uma pandemia apresenta grandes desafios. No caso da pandemia de covid-19, devido à sua natureza emergente e de rápida propagação, houve a necessidade de gerar informações de forma rápida para guiar decisões clínicas, o que resultou em um ambiente de pesquisa científica acelerado e produtivo. Entretanto, devido às tantas limitações da época, como as restrições sanitárias, falta de recursos e diferentes condutas adotadas, a condução de estudos clínicos foi afetada, resultando em uma maior dependência de dados secundários. Como resultado, muitos dos dados disponíveis durante a pandemia foram obtidos de estudos observacionais e registros hospitalares, o que, apesar de valioso, pode introduzir vieses e limitar a interpretação dos resultados.

Limitações do estudo

Os achados desta revisão corroboram a literatura atual em relação ao objeto de estudo. Entretanto, ainda há muitas lacunas no conhecimento acerca do tema e da própria fisiopatologia da covid-19. Destacamos que a adoção do atalho metodológico de limitar a busca a apenas duas bases de dados, embora não seja esperado, conforme descrito na Tabela 1, pode ter impactado na existência dessa lacuna. Ainda que existam muitos estudos primários acerca do tema, esses podem estar sendo pouco abordados em revisões de literatura.

Ressalta-se que nenhuma das revisões incluídas e avaliadas apresentou uma qualidade metodológica alta, conforme verificado com a ferramenta AMSTAR213. Dessa forma, os resultados e considerações levantados devem ser usados com atenção, uma vez que a qualidade metodológica baixa ou criticamente baixa das revisões aponta para possíveis vieses na descrição dos achados.

Esta revisão não avaliou a mortalidade e nem os possíveis tratamentos das condições abordadas, focando exclusivamente nos resultados intra-hospitalares. Futuras pesquisas poderão investigar os efeitos a longo prazo e o manejo da covid-19 associada ao TEV. Outra limitação relevante deste estudo é que a maioria dos artigos incluídos são de 2020 e 2021. Lembramos que o critério de inclusão desta revisão rápida foi incluir publicações de revisões sistemáticas, o que, por um lado, não indica a falta de estudos primários realizados sobre o assunto, mas instiga a necessidade de se realizar revisões de literatura sobre o tema, a fim de termos mais sínteses de evidências científicas disponíveis.

Contribuições para a prática clínica

A partir dos achados, sugere-se realizar trabalhos de revisão que incluam um comparador, como “paciente de UTI sem covid-19 versus paciente de UTI com covid-19”, para refinar os dados. Sugere-se também a elaboração de um instrumento para avaliação de risco de TEV direcionada ao paciente com covid-19 em UTI.

A continuidade na investigação do tema e a publicação de achados relacionados são essenciais para que a temática continue contribuindo para a sociedade e para os profissionais da saúde interessados no tema.

CONCLUSÃO

A partir das evidências científicas disponíveis, considerando-se a baixa disponibilidade de estudos secundários e sua baixa qualidade metodológica, identificamos e sintetizamos três pontos principais quanto a associação de quadros de covid-19 e desenvolvimento de TEV: primeiro, que a incidência de eventos tromboembólicos (TVP e/ou EP) como uma complicação associada a quadros de covid-19 é alta em adultos hospitalizados, uma vez que esse quadro desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica no corpo, que pode muitas vezes acarretar distúrbios de coagulação, como hipercoagulabilidade e lesão endotelial, especialmente em pacientes de UTIs, que estão expostos a mais fatores de risco, como imobilidade e lesão endotelial associada a dispositivos vasculares. Segundo, que níveis de Dímero D elevados são comumente encontrados em pacientes graves, sendo esse um indicador de mau prognóstico por estar associado a maior risco de complicações tromboembólicas. Terceiro, que é necessária maior atenção ao rastreio de TEV em pacientes hospitalizados com covid-19 utilizando marcadores laboratoriais como o Dímero D e exames de imagem, e, se adequado, profilaxia antitrombótica conforme as diretrizes, a fim de prevenir complicações.

Material Suplementar

Este artigo acompanha material suplementar.

Tabela suplementar 1.

Tabela suplementar 2.

Este material está disponível como parte da versão online do artigo na página https://doi.org/10.1590/1677-5449.202400731

  • Como citar: Rocha AP, Sanchez JG. Desenvolvimento de tromboembolismo venoso e seu impacto em adultos hospitalizados com covid-19: revisão sistemática rápida. J Vasc Bras. 2025;24:e20240073. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202400731
  • Fonte de financiamento: Nenhuma.
  • O estudo foi realizado nas dependências da Associação Beneficente Síria (Hcor), São Paulo, SP, Brasil, como parte do trabalho de conclusão de residência multiprofissional.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Jun 2024
  • Aceito
    29 Out 2024
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