Resumo
Este ensaio confronta abordagens da linguagem que têm buscado explicar condições linguísticas em ambientes digitais considerando a digitalização tão somente como um pano de fundo de estruturas ou processos linguísticos já descritos fora desses ambientes. Para isso, discute criticamente dois modelos interacionais reforçados nos estudos da linguagem - o circuito da fala de Ferdinand de Saussure e o modelo interacional de Erving Goffman - e defende o caráter movente do texto interacional inserido numa economia política de textos em infraestruturas digitais coemergentes. Ademais, busca identificar duas ideologias linguísticas articuladas nos modelos e suas formas regulativas, e ainda defende o emprego de um enquadre teórico-metodológico mais preparado para lidar com textos digitais de maneira empiricamente comprometida e criticamente atenta aos desígnios das infraestruturas digitais e do nexo online-offline.
Palavras-chave:
Ambiente digital; Interação; Mobilidade textual
Abstract
In this essay, we confront language approaches that have sought to offer explanations of linguistic conditions in digital settings in considering digitalization only as a background to linguistic structures or processes already described outside these settings. To do this, we critically discuss two interactional models reinforced in language studies - Ferdinand de Saussure's speech circuit and Erving Goffman's interactional model - and we defend the moving character of the interactional text inserted in a political economy of texts in co-emerging digital infrastructures. Furthermore, the essay seeks to identify two linguistic ideologies articulated in the models and their regulatory forms and, in addition, we defend the use of a theoretical-methodological framework more prepared to deal with digital texts in an empirically committed way and critically attentive to the designs of digital infrastructures and the online-offline nexus.
Keywords:
Digital Settings; Interaction; Textual Mobility
Resumen
En este ensayo, confrontamos enfoques lingüísticos que han buscado ofrecer explicaciones de condiciones lingüísticas en entornos digitales al considerar la digitalización solamente como un telón de fondo de estructuras lingüísticas o procesos ya descritos fuera de estos entornos. Para hacer esto, discutimos críticamente dos modelos interaccionales reforzados en estudios del lenguaje: el circuito del habla de Ferdinand de Saussure y el modelo interaccional de Erving Goffman; y defendemos el carácter dinámico del texto interactivo insertado en una economía política de textos en infraestructuras digitales coemergentes. Además, el ensayo busca identificar dos ideologías lingüísticas articuladas en los modelos y sus formas regulatorias, y además, defendemos el uso de un marco teórico-metodológico más preparado para tratar con textos digitales de manera comprometida empíricamente y críticamente atento a los diseños de infraestructuras digitales y al nexo online-offline.
Palabras clave:
Entornos digitales; Interacción; Movilidad textual
1 INTRODUÇÃO
A terceira década do século XXI foi impactada irreversivelmente pelas medidas de restrição de aglomerações em decorrência da pandemia de COVID-19. Se entre 2020 e 2021 os limites aos padrões culturais das atividades cotidianas mais básicas intensificaram a demanda por interações digitais, desde 2022 é possível perceber que essa intensificação impactou as configurações mais ordinárias em nossas vidas. Tais configurações já estavam em transformação, como reconheceram muitos trabalhos da segunda década deste século (Jacquemet, 2019), e essas transformações são mediadas pela ação algorítmica que afeta nosso cotidiano em várias frentes. Considerando isso, Castor Ruiz (2021, p. 4) diz que
a pandemia fez com que o debate sobre o virtual e o real, das décadas passadas, ficasse obsoleto, pois a realidade digital se impõe não mais como algo meramente virtual, senão como uma nova realidade que envolve e captura nossos atos cotidianos. A realidade digital se apresenta quase como o único meio de sobrevivência no mundo presente e futuro que, cada vez mais, se desenha como um mundo governado pelos algoritmos digitais.
Concordamos com o autor no que diz respeito à improdutividade da discussão entre o real e o virtual. A dinâmica digital contemporânea se constitui muito mais em termos do nexo online-offline, que opera no sentido de difundir e diluir recursos de ambientes online em ambientes offline e vice-versa (Blommaert, 2020; Blommaert et al., 2019; Maly; Blommaert, 2019; Ribeiro; Bunning; Bastos, 2021).
Nesse sentido, estudos de textos em ambiente digital enfrentam dificuldades diante da sobreposição de conhecidas características estruturais da interação face a face e características emergentes do ambiente digital, que tanto limitam quanto potencializam a produção linguística online (recursos de gravação de voz e vídeo, de digitação e alteração enquanto se digita, de apagar, capturar tela e encaminhar, de edição, de bloqueio etc.). Diante dos desafios, ao longo dos últimos vinte anos diferentes abordagens têm oferecido possibilidades de explicação das condições de produção linguística em ambiente digital, como a compreensão da linguagem como um sistema adaptativo complexo que ajudaria a explicar o processamento textual nos diferentes ambientes (Paiva; Nascimento, 2009) ou a busca de características estruturais típicas do novo ambiente, das variações dos gêneros e estruturas do discurso de acordo com propósitos específicos ou da escolha de línguas e variedades em relação de diferentes plataformas, práticas e objetivos textuais (Barton; Lee, 2017).
Em alguma medida, uma parte das abordagens busca explicar o funcionamento textual no ambiente digital, mas sem abdicar de certas preconcepções de linguagem, sustentadas por material empírico pré-digital, que tendem a pressupor principalmente que os estudos de textos no ambiente digital seriam capazes de identificar alguma regularidade de estruturas ou processos linguísticos (a depender da epistemologia em jogo), implicando assim algum núcleo homogêneo próprio à linguagem que a tornaria comparável em qualquer ambiente - sendo, portanto, o digital apenas um pano de fundo de estruturas ou processos já conhecidos fora deste ambiente.
Este ensaio visa a discutir criticamente dois modelos de interação consolidados nos estudos da linguagem no ambiente digital e a defender o caráter movente do texto interacional inserido numa economia política de textos em infraestruturas digitais coemergentes. Focar na qualidade processual do texto inserido nas reconfigurações digitais da economia política de textos significa que não basta considerar o ambiente digital tão somente como pano de fundo para o texto produzido digitalmente seguindo regras pré-digitais. Ao contrário, defendemos que é necessário avançar da descrição da estrutura e funcionamento de uma dada plataforma de circulação dos textos para uma discussão crítica comprometida com as condições sócio-históricas das bases extrativistas de dados no Capitalismo 4.01 e dos movimentos dos textos interacionais nesses ambientes digitais sob forte exploração econômica e pressão afetiva (Cesarino, 2022; Faustino; Lippold, 2023). Para isso, defendemos também o emprego de um enquadre teórico-metodológico mais preparado para lidar com textos digitais de maneira empiricamente comprometida e criticamente atenta aos desígnios das infraestruturas digitais e do nexo online-offline (Blommaert, 2015; Blommaert; Maly, 2019; Maly, 2021; Varis, 2016).
Com esses objetivos - o crítico e o propositivo -, procedemos na próxima seção à abordagem dos dois modelos interacionais pré-digitais reconhecidos nos estudos da linguagem - o modelo do circuito da fala e o modelo da interação face a face - e suas formas regulativas, diretamente impactadas pelas infraestruturas de interação digital: a distinção linguístico/extralinguístico e a precedência da copresença na interação. Dedicamos especial atenção aos avanços resultantes de proposições teóricas e metodológicas críticas ao circuito da fala (Agha, 2007; Bauman; Briggs, 2003; Autor, 2013; Pratt, 2013) e à interação face a face (Androutsopoulos, 2013; Collins; Slembrouck, 2009; Jacquemet, 2005, 2019). Nessa mesma seção, procuramos identificar duas ideologias linguísticas articuladas nos modelos e suas formas regulativas. Na terceira seção, a partir de um diálogo interdisciplinar entre contribuições teóricas atentas à linguagem e à digitalização (Cesarino, 2022; Scollon; Wong Scollon, 2003; Scollon, 2003; Wortham; Reyes, 2015), refletimos sobre a atuação das infraestruturas digitais nos movimentos interacionais, desestabilizando ideias de controle sobre fluxos textuais e autonomia do falante, além de indicar participações sombreadas nas interações (Irvine, 1996). Na quarta seção, apontamos como categorias teóricas advindas dos estudos de movimentos textuais nos ajudam a pensar criticamente a noção de “evento” e a compreender as forças em jogo no nexo online-offline nas atuais infraestruturas digitais. Finalizamos com algumas consequências de nosso percurso reflexivo.
2 DOIS MODELOS DE INTERAÇÃO, SUAS FORMAS REGULATIVAS E DUAS IDEOLOGIAS LINGUÍSTICAS CONSEQUENTES
A distinção linguístico/extralinguístico é uma noção muito cara à Linguística moderna (Agha, 2007; Bauman; Briggs, 2003) e regula explícita ou implicitamente as orientações e princípios metodológicos ensinados ainda hoje a linguistas em formação, pois faz parte da fundação dessa disciplina e persiste como base para sua continuidade (Agha, 2007).
No capítulo III da Introdução do Curso de Linguística Geral encontra-se o esquema escolhido por Ferdinand de Saussure (1991[1916]) para reconstituir o que ele determinou como o caminho para se chegar ao domínio da língua, o circuito da fala. Saussure considera que o circuito da fala está completo se há, no mínimo, dois indivíduos, a quem ele nomeia de A e B, como mostra a Figura 1.
Conforme Saussure (1991, p. 43), a fala começa no cérebro de A, onde conceitos se associam psiquicamente a imagens acústicas. Em seguida, acontece um processo fisiológico, em que o cérebro de A transmite um impulso correlato da imagem acústica para o aparelho fonador. Então, a fala se propaga em ondas sonoras até o ouvido de B por um processo físico, e o circuito prossegue em B na ordem inversa (processo fisiológico do ouvido ao cérebro, processo psíquico de associação entre imagem acústica e conceito no cérebro). Isso se repetirá exatamente da mesma forma caso B fale alguma coisa para A.
Neste modelo, Saussure desconsidera como alvo de estudo da Linguística os processos físicos e fisiológicos, e determina que seja objeto de escrutínio apenas o produto psíquico, a língua depositada na mente de cada indivíduo. Esse movimento reducionista de Saussure é chamado por Agha (2007) de extrativista, pois, da totalidade da linguagem, é extraída “a língua”, única fração supostamente cabível de estudo. O resultado é uma “redução metonímica” da linguagem para se alcançar o objeto da Linguística: “é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras manifestações da linguagem” (Saussure, 1991, p. 41).
A Linguística moderna condensada no Curso de Linguística Geral é um desdobramento de princípios modernos e liberais presentes na ciência forjada na Modernidade, repleta de ideias de transparência, objetividade e neutralidade, transferidas tanto para a Linguística em si, quanto para o seu objeto: a língua; e a língua da Modernidade é “transparente, neutra, representacional [e] autônoma” (Bauman; Briggs, 2003, p. 9).
Mary Louise Pratt (2012) é profícua em capturar o espírito liberal presente no diagrama saussuriano: no circuito da fala está o elemento central do liberalismo moderno, o indivíduo. A autora, então, reflete sobre o que está (e não está) representado no circuito: esses dois indivíduos são idênticos, brancos e genericamente masculinos; estão sérios, porém calmos; encaram-se de frente e estão colocados em posição igualitária; não portam nenhuma marca de classe, religião ou origem; vemos apenas suas cabeças pensantes, seus corpos não fazem parte do circuito. Ademais, “a língua opera idêntica e simetricamente entre eles. Somente uma língua está em atuação, e é igualmente compartilhada por ambos” (Pratt, 2012, p. 17).
Permeado de visões individualistas e mentalistas próprias da Modernidade, não é de se surpreender que o modelo saussuriano exclua das possibilidades de estudo da Linguística eventos de fala que extrapolem aspectos não contemplados no próprio modelo, submetidos à disparidade e transfiguração, sujeitos à efemeridade da fala.
Enquanto Saussure se centra em descrever a língua enquanto sistema abstrato e homogêneo, em oposição à fala considerada concreta e heterogênea, sujeita às limitações físico-fisiológicas, ele opera, sem palavras, o performativo durativo das ideologias linguísticas modernas e suas hierarquias corporais (Pinto, 2020, p. 53).
A ideação das cabeças pensantes de Saussure, representantes de indivíduos em situação igualitária e idêntica, é inoperante em eventos “não ideais” de fala, eventos da realidade das interações linguísticas, é inócua diante da desigualdade criada e estruturada pela própria Modernidade (Bauman; Briggs, 2003); é, em suma, ineficaz para lidar com o chamado “extralinguístico”.
A imagem individualista e mentalista do circuito de fala para representar a matéria linguística é corrente nos estudos linguísticos, uma tendência que pode ser considerada infecciosa (Briggs, 2007; Fabrício, 2017). Esse conceito de Charles Briggs (2007, p. 332) é particularmente vantajoso para caracterizar a importância sem tamanho dos ideais presentes no circuito da fala de Saussure: essa ideologia comunicativa “encontra audiências e as localiza social e politicamente”.
A infecciosidade do circuito da fala reverbera, evidentemente, em consequências metodológicas para as pesquisas do campo, reguladas a selecionar o que será aceito como elemento genuinamente linguístico (isto é, o que se encaixa no construto teórico) e o que será rejeitado. O que foi recusado recebe o nome de “extralinguístico”, ou seja, não corresponde à “fração linguística” extraída da linguagem (Agha, 2007), e é imputado a disciplinas conhecidas por não lidarem com o elemento linguístico considerado “puro”, como a Fonética, a Pragmática, a Neurolinguística, a Linguística Histórica, dentre outras. Esse esforço em delimitar restritamente o objeto de estudo acontece, como Agha (2007, p. 221) criticamente analisa, para corresponder à exigência de que
a Linguística deve superar seu ‘método falho’ com a reconstituição de sua unidade como uma disciplina através de uma reconstituição restrita de seu objeto de estudo, com a orientação - epistêmica - de não estudar a linguagem simplesmente, mas de estudar uma fração da linguagem.
Para além de divisões disciplinares, a aceitação irrestrita da língua conforme moldada no circuito da fala acaba por determinar de antemão como a língua deve funcionar no evento de fala, estabelecendo um modelo de interação, ao invés de depender do exame empírico da linguista ou do linguista em atuação. Trata-se de um tipo de prefiguração (Pinto, 2013), isto é, um complexo de crenças falaciosas que sustentam a homogeneização das práticas linguísticas e prefiguram o que acontece ou não acontece nos eventos de fala. Tais crenças não são textualmente assumidas, mas se disfarçam de transparência e neutralidade.
Ainda que amplamente estimado na Linguística do século XX, o modelo criado por Saussure passa por reformulações que acrescentam aspectos originalmente deixados de lado. É o que faz, por exemplo, Roman Jakobson (1974) quando expande tanto o modelo de comunicação quanto o objeto da Linguística designado por Saussure. Jakobson critica a insistência da Linguística em deixar de fora da análise (e do objeto língua) os elementos da Poética. Ele diz: “a insistência em manter a Poética separada da Lingüística se justifica somente quando o campo da Lingüística pareça estar abusivamente restringido, como, por exemplo, quando a sentença é considerada, por certos lingüistas, como a mais alta construção analisável” (Jakobson, 1974, p. 120). Para o autor, todas as funções da linguagem devem ser estudadas, dentre elas a função poética da arte verbal. Nesse sentido, o linguista russo avança o modelo originado em Saussure, enxergando novas possibilidades para a Linguística. Contudo, ele acaba por renunciar ao estudo amplo desses outros aspectos quando se mantém comprometido com o modelo estruturalista.
Naoki Sakai (2009) aplica de maneira muito produtiva o conceito kantiano de ideia regulativa a uma categoria teórica basilar dos estudos da linguagem, a unidade da língua (no seu sentido de vernáculo comum de um determinado povo). Para Sakai, a língua é uma ideia regulativa porque organiza o conhecimento antes mesmo de ser empiricamente verificada. Ou seja, a distinção linguístico/extralinguístico é regulativa do circuito da fala, pois “não se preocupa com a possibilidade da experiência” (Sakai, 2009, p. 73). Como consequência, elementos que extrapolam a língua idealizada conforme o circuito da fala devem ser abandonados em prol da manutenção de seu status.
Além dos avanços de Jakobson (1974), Émile Benveniste (1989) propõe em seu modelo, o aparelho formal da enunciação, questões apagadas do circuito de Saussure. A enunciação, o estabelecimento de relações entre os sujeitos da enunciação e entre os sujeitos e o mundo, é, justamente, a ligação entre a estrutura da língua e o que está exterior a ela, conforme considera Benveniste. Aqui, há rompimento com a ideia de cabeça pensante que articula a língua por si e o estabelecimento do outro, do alocutário, no momento da enunciação. Benveniste, no entanto, ainda considera que a mobilização da língua é, primeiramente, um ato individual de apropriação do aparelho formal pelo locutor. Isso indica que a forma regulativa, mesmo no aparelho formal da enunciação, ainda é a distinção linguístico/extralinguístico.
Distante da influência da forma regulativa dessa distinção, Erving Goffman contribuiu para abranger a compreensão dos fatores envolvidos na interação, rompendo em muitos aspectos com o modelo mentalista e individualista originado em Saussure. Goffman (2013) critica o “modelo rudimentar falante-ouvinte”, centrado numa visão da interação estável.
Desenvolvendo sua crítica dessa estabilidade pressuposta, o autor se propõe a complicar a cena interacional com encaixes e camadas de participação. Alteração de destinatários, alternância de código, alinhamento, posicionamento, postura, projeção, unidade cognitiva mínima, frase ou segmentos prosódicos, continuum entre mudanças evidentes e sutis, delimitação de fase ou episódio - todas essas características podem gerar mudanças no fluxo da interação e, assim, alterar temporária ou definitivamente as participações, o tópico ou o objetivo da interação.
Para isso, ele coloca declaradamente o corpo como base fundamental da interação. Em suas palavras, “nós podemos participar de situações sociais somente se levarmos os nossos corpos e seus elementos conosco” (Goffman, 1983, p. 4). Isso implica uma centralidade da interação face a face em sua argumentação. Ainda que Goffman mencione tecnologias de comunicação disponíveis (telefone, TV), ele coloca peso central na copresença corpórea para a interação. Embora tenha se apartado do individualismo e não centre seu modelo na língua - e, portanto, esteja longe da regulação pela distinção linguístico/extralinguístico - Goffman mantém a necessidade de alguns pré-requisitos para que a interação aconteça de maneira ideal, que ele acredita ser o tipo de interação que deve ser estudada. O foco de análise é a interação face a face, e nesse modelo interacional a forma regulativa é a copresença. Essa forma regulativa restringe os parâmetros de análise num certo padrão interacional, que Jacquemet (2005, p. 260) reconhece como “interações face-a-face, experiência não mediada e proximidade física”, que ignoram a multiplicidade de canais comunicativos simultâneos (face a face e à distância) na produção linguística do século XXI.
Ainda que o modelo de Goffman tenha avançado em termos de reconhecimento da complexidade das estruturas interacionais (Irvine, 1996), ele deu espaço para décadas de estudos concentrados em grupos locais em interações presenciais de pequena escala (Jacquemet, 2005), que, mesmo ampliando nosso conhecimento da interação para muito além do modelo saussuriano do circuito da fala, delimitou as categorias de análise a visões “cultural, linguística e territorialmente uniformes” (Jacquemet, 2005, p. 260).
As críticas aos dois modelos encontram ressonância no debate que diferentes autoras e autores fizeram em torno da concepção de linguagem como uma rede de signos em constante movimento, cujo significado é construído, repetido e transformado pela interação entre diferentes textos e contextos (Derrida, 1990)2. Seguindo a argumentação de Derrida, a linguagem é construída através de um processo contínuo de diferença e repetição que nunca pode ser plenamente fixado ou estabilizado. A própria linguagem nunca pode ser totalmente capturada ou controlada, pois está sempre em movimento e sujeita à mudança (Derrida, 1967).
Esse movimento não é um fenômeno apenas físico, senão também conceitual. O movimento da linguagem desafia as noções estruturalistas de significado que sustentam os modelos interacionais aqui apontados, e qualquer tentativa de apreender o significado só pode ser provisória, uma vez que é constantemente deslocado e alterado por outros significados e interpretações.
Em outras palavras, a linguagem funciona numa lógica de movimento ou num jogo de articulações de différances. Desse modo, os significados não se estabilizam de forma independente ou desarticulada. O movimento observado por Derrida se dá pela força de ruptura que o signo carrega consigo. Essa força permite que o signo - e o texto, conforme acrescentam Michael Silverstein e Greg Urban (1996) - destaque-se de seu contexto. Além disso, Derrida identifica que a iterabilidade (repetição/alteridade), evoca a citacionalidade, a possibilidade de que “todo signo, linguístico ou não linguístico, falado ou escrito (no sentido corrente dessa oposição), em pequena ou grande unidade, pode ser citado, engendrado ao infinito em novos contextos, de modo absolutamente não saturável” (Derrida, 1990, p. 36). Esses fenômenos permitem o movimento da linguagem e, por isso, seu próprio funcionamento.
Como uma de nós sintetizou em outra oportunidade: “força de ruptura, iterabilidade e citacionalidade operam no sentido de voltar nossa atenção ao rastro dos textos, à sua mobilidade, baseando-se no rompimento com uma visão de texto fixo e isolado” (Vallada, 2021, p. 35). Como explica precisamente Irvine (1996, p. 157), um conjunto de signos transformado em texto “carrega os traços da sua história com ele, como as conversações nas quais é repetido proveem novos materiais reportáveis que adicionam à sua significação.”
Até aqui, estávamos atentas a como o circuito da fala saussuriano se desenvolveu sobre concepções modernas de linguagem e ciência, bem como às avaliações que expuseram tais bases modernas e questionaram a validade do modelo para a investigação linguística empiricamente comprometida. Antes de avançarmos no problema da interação digital, gostaríamos de finalizar a seção abordando duas ideologias linguísticas que sustentam essas concepções modernas de linguagem.
A primeira tem a ver com o esquema saussuriano sobre interação como um lugar de encontro de iguais racionais e comprometidos com os propósitos do encontro: duas pessoas absolutamente iguais, praticamente gêmeas, sem nenhum tipo de hierarquia ou diferença visível, falando exatamente a mesma variedade de uma língua, com foco de atenção uma na outra, sem qualquer distração e nenhum tipo de participação externa a este encontro dual (Pratt, 2012). O esquema pressupõe que o objetivo dessa interação é fazer chegar de uma cabeça a outra alguma coisa que estava dentro dela, passando pelos ouvidos e pela boca.
Nesse esquema, chamamos a atenção para dois pontos: o primeiro é o mais antigo na crítica - a interação em par dual é obviamente uma das possibilidades da interação, mas não há qualquer evidência empírica de que seja a mais frequente ou que tenha qualquer precedência social sobre as demais composições da interação. Ao contrário, as interações são organizadas por atividades, ou seja, não se trata de um par dual transmitindo ideias ou pensamentos um para o outro em situação focada e estável, mas de participações diversas definidas pela atividade realizada, seus propósitos e as condições sob as quais são realizadas.
O segundo ponto a destacar é a dependência da atenção focada no esquema de Saussure. A realidade interacional pode ser focada, mas as evidências mostram que a maior parte das interações é fraturada, ruidosa, fragmentada, laminada pelas atividades em curso e desdobramentos em outras atividades, que podem dispersar ou mudar a direção da atenção. É muito possível que uma reunião desses gêmeos saussurianos teriam olhares focados em pontos diferentes e pessoas ouvindo sem querer conversas que nem eram direcionadas para elas, assim como sobreposição de falas e respostas atravessadas.
A segunda ideologia sobre interação tem a ver com a forma textual. O texto interacional é imaginado como uma unidade homogênea e preferencialmente parametrizada pela escrita formal, representada nesse esquema pelos pontos fixos e setas bem traçadas que não deixam nada se perder pelo caminho, nem seguir por outras direções.
Essa ideologia sobre texto interacional também já foi bastante criticada e está mais do que consolidado nos estudos empíricos que a interação constitui textos heterogêneos e multifuncionais. Para nós, interessa enfatizar o caráter movente do texto interacional inserido numa economia política de textos, ou seja, numa dinâmica de transformação dos textos ao longo de seu percurso nos contextos, com sinalizações, negociações e incorporação de avaliações para exame e correção de direção interpretativa.
Agora tomemos esses dois modelos, suas formas regulativas e as duas ideologias linguísticas consequentes e levemos para passear pelos cabos submarinos que ligam megasservidores no “mundo da internet”. Vamos ver o que acontece.
4 INFRAESTRUTURAS DIGITAIS E AÇÃO SOBRE A MOBILIDADE TEXTUAL E INTERACIONAL
Nesta seção, buscamos interrogar como as infraestruturas digitais afetam os parâmetros baseados nos dois modelos que temos usado para compreender as interações. Para isso, indicamos alguns componentes centrais das condições materiais de estruturação da nova ordem interacional digital.
A literatura sobre o tema destaca, desde o início deste século, a intensificação, em diferentes escalas, de mudanças nas formas de interação linguística via novas tecnologias de mídia, que transformam não apenas os padrões de interação entre pessoas conhecidas, mas também as interações entre pessoas desconhecidas de diferentes partes do mundo. O resultado dessas mudanças são heterogeneidade de recursos sobrepostos e configurações inesperadas de práticas linguísticas, que Marco Jacquemet (2005, 2013) chama de práticas transidiomáticas. “As práticas comunicativas multilíngues encontradas na intersecção entre pessoas desterritorializadas e interfaces digitais” (Jacquemet, 2013, p. 202). Como a Coletiva Ciborga destacou em seu guia para iniciantes nos estudos da linguagem em ambientes digitais (Ciborga et al., 2022), essa desterritorialização e suas interfaces digitais, que já vinham em tendência irreversível de crescimento, ganharam nova inflexão em 2020, e agora colocam sérios desafios à explicação do que Goffman (1976) chamava de exigências do sistema e exigências rituais na interação.
Ouvimos ou lemos avaliações diferentes do aumento dessa interação digital. A maior parte das avaliações se restringe a listar vantagens e desvantagens dessas interações em comparação com as interações face a face, de modo que parece que estamos ainda tateando nessa situação, tentando descobrir como sair da armadilha das vantagens e desvantagens em direção a alguma chave de compreensão analítica da complexidade interacional. Será que quando analisamos textos na Internet levamos em consideração as condições dessa produção online ou simplesmente a usamos como um pano de fundo para nomear um novo gênero discursivo ou tipo de texto, ou uma modalidade da interação? Como analisar textos em ambientes digitais? Basta declarar o novo contexto? Basta reconhecer a multimodalidade?
Propomos que busquemos entender algumas condições materiais que configuram o ambiente digital, já que é óbvio o impacto dos fenômenos digitais nos modelos interacionais. Vamos apresentar quatro condições que nos parecem mais relevantes para pensar a linguagem e confrontar os modelos e suas ideologias linguísticas, porque fragilizam suas formas regulativas.
Primeiro, é importante começar lembrando que a Internet que hoje experienciamos não é a mesma que começou nos anos 1990. Se um dia ela serviu para simplesmente publicarmos textos de maneira barata e acessível, desde muitas décadas a Internet é o lugar da mineração e da análise constante de quantidades astronômicas de dados, o Big Data. O que significa que cada ponte que fazemos entre nosso computador e outros nessa rede via sinal digital, ou cada vez que postamos uma foto numa rede social, estamos alimentando esse sistema de mineração e análise de dados. O manejo do Big Data lida com 5Vs: volume, ou seja, uma enorme quantidade de dados; variedade, ou seja, diferentes tipos de dados de diferentes fontes; velocidade, ou seja, a rapidez de produção dos dados; valor, ou seja, a extração de dados significativos; veracidade, ou seja, o grau de confiabilidade dos dados. A definição desses Vs é construída a partir do ponto de vista de quem analisa os dados. E para quê? Basicamente, para gerar publicidade direcionada, seja uma empresa, um candidato eleitoral ou um governo.
Isso leva a uma segunda condição atual da Internet que se mantém invisível para a maioria de nós e é um pressuposto invertido dos dois modelos de interação que tínhamos antes: enquanto os desenhos dos dois modelos interacionais pressupõem o humano como centro da interação, nas atuais infraestruturas digitais “o usuário humano não é o agente, mas o ambiente, para agência de sistemas não humanos” (Cesarino, 2022, p. 89). Essa inversão cria assimetrias e zonas de opacidade entre aquilo que nós, como usuárias, estamos fazendo e os objetivos dos sistemas algorítmicos que coordenam nossas ações online, constituindo uma relação de coemergência entre usuária e arquitetura do ambiente, aquilo que ficou conhecido como affordance.
Por exemplo: por um lado, enquanto usuárias, nós interpretamos nosso “clique” em imagens geradas no Captcha (Completely Automated Public Turing Test to Tell Computers and Humans Apart) como uma ação para garantir a segurança de nosso acesso em determinado site; por outro lado, nosso “clique” é interpretado pelo sistema Google como treinamento para distinguir detalhes de textos em arquivos digitalizados e detalhes de imagens do Street View (Lotkowski, 2017). Em outras palavras, uma dinâmica interna dos algoritmos de segunda ordem (usada para o aprendizado da máquina) organiza nossas ações como usuárias e dita o caminho que devemos tomar.
Uma terceira condição é o colapso da diferença entre domínios semiotizados, com recombinações que levam a desintermediação e reintermediação (Cesarino, 2022). Essa condição se estabelece como uma experiência de i-mediaticidade, quando atribuímos status de realidade a tudo que chega pelos nossos telefones, ou seja, a tudo que “vemos”, supondo um acesso direto aos eventos através de nosso acesso direto à Internet - muitas vezes, reduzida a redes sociais. Essa i-mediatização se caracteriza pela desintermediação e desestruturação da metacomunicação (não há mais nenhum tipo de distinção entre eventos e mediação de eventos). Ela é seguida imediatamente por enquadramentos e reenquadramentos, produzindo assim uma reintermediação com estruturas evidenciais organizadas em torno do “acesso direto”: “Eu vi o vídeo”; “Meu primo me mandou o áudio e dá pra ouvir tudo”; “Um amigo me mandou a portaria e eu li”. Curiosamente, esses processos funcionam perfeitamente em marcha a ré, quando o evento só se torna coeso e experimentado inteiramente ao ser mediatizado digitalmente: “Se não fotografar uma experiência e postar, não aconteceu”.
Por fim, a quarta condição da Internet é o modelo de negócio que predomina nas gigantes da tecnologia: a economia da atenção e a extração de (meta)dados pessoais. A algoritmização do feed de notícias, por exemplo, implementada pela primeira vez em 2006 pelo Facebook, não apenas seleciona o que vamos ver, mas a ordem e o formato de rolagem, de modo a reduzir a fricção e garantir que permaneçamos o maior tempo possível conectadas. Após uma remodelagem, a plataforma Twitter (ou X) conta com duas abas superiores: a primeira tem a função “Para você”, que distribui as postagens de acordo com um algoritmo que não nos mostra posts pelos critérios que supostamente escolhemos (o que talvez seja feito pela segunda aba “Seguindo”), mas usa critérios do próprio ambiente digital para mostrar as postagens com mais potencial de nos manter conectadas e clicando, vendendo nossa atenção a outra empresa que está pagando.
Como diz Letícia Cesarino (2022, p. 98):
Essa incapacidade de nos vermos como ambiente sujeito à influência de agências que operam em planos pós- e pré-individuais não é apenas um obstáculo à análise lúcida dos fenômenos em tela. Ela é parte central desses fenômenos, visto que a eficácia da lógica de influência que fundamenta a atual economia digital (e suas reverberações políticas e epistêmicas) pressupões justamente que os usuários individuais se sintam livres e soberanos. Todavia, quando ‘fazemos nossa própria pesquisa’ online, encontramos a informação que buscamos porque essa informação também está, ativamente, nos procurando.
Diante dessas condições da interação na Internet, como ficamos?
Ainda temos muitas dúvidas sobre por onde seguir a partir daqui. Entretanto, temos certeza de que precisamos começar admitindo explicitamente que não é mais possível separar esses ambientes de interação. Como diz Jan Blommaert e Ico Maly (2019, p. 39):
Vivemos nossas vidas em um nexo online-offline. Essa simples observação nos torna conscientes de que as ações sociais podem ser organizadas, montadas, ‘equipadas’ e distribuídas tanto em espaços online quanto offline; e nos ajuda a perceber que muito do que observamos no modo de ação social [...] foi, pelo menos, condicionado e talvez até possibilitado por infraestruturas online, tanto em termos de atores quanto de topografia.
Os modelos interacionais que discutimos na seção anterior - tanto o modelo esquemático liberal que foi representado pelo circuito da fala do Saussure quanto o modelo da interação face a face de Goffman - estiveram comprometidos, antes de tudo, com a análise de situações imediatas de interação copresencial face a face. Esse compromisso estabeleceu uma configuração analítica espacial e temporal incompatível com o nexo online-offline.
Também temos de admitir que não é possível usar a produção de linguagem online como uma mera expansão de gêneros discursivos, quando estamos lidando com a opacidade de participação nas interações digitais. Quais são as consequências da fatalidade desse nexo? Como a alienação das infraestruturas desse nexo afetam a topografia das ações que praticamos? Por exemplo, no evento icônico no filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019), a primeira ação de despossessão contra a população local é a retirada da cidade no sistema digital de mapas do GPS (online), fazendo desaparecer uma população inteira no ambiente digital antes de começar a caçá-la face a face.
Talvez seja a hora de começarmos a estudar o que significa a algoritmização das cadeias linguísticas e elos interpretativos, ou seja, que limites a arquitetura das plataformas e redes coloca para os processos de constituição dos textos, entendidos sempre como discursos interacionais. Esse tipo de estudo desafiador certamente nos colocaria em diálogo com outras áreas do conhecimento, para entendermos melhor como esses algoritmos funcionam e como afetam a constituição de sentidos, ao limitar o que podemos ver e produzir online, como vemos e produzimos, em que ordem vemos e como produzimos que tipos de conexões. Também poderia nos ajudar a entender qual a dialética constituída pelos limites dos affordances (online) e as condições (offline) de interação, como as condições de atribuição ou negação de autoria pela inteligência artificial.
A aposta moderna liberal no controle racional dos elos interpretativos foi coberta e aumentada pelos algoritmos numa velocidade que dificultou nossa compreensão. Os modelos imaginados de interação dual e face a face são certamente responsáveis pela lentidão da nossa resposta analítica.
É bem ilustrativo que os textos sejam transformados a partir de elos que eram antes barrados por enquadramentos relativamente previsíveis, e agora são reenquadrados a partir dessa desestruturação metacomunicativa. Muitas vezes perguntamos “Como alguém acredita nisso?” ou “Como alguém acha esse raciocínio possível?”, como se o ambiente digital funcionasse com as mesmas exigências de sistema e rituais da interação face a face. O “raciocínio” parece absurdo, pois se trata de cadeias linguísticas com grandes gaps de intervalos processuais dos textos interacionais, saltos metapragmáticos de conexões entre domínios semiotizados antes considerados distintos. O estudo do algoritmo como agente ativo nas cadeias linguísticas e elos interpretativos pode nos ajudar a entender o que muitas vezes interpretamos como “irracionalidade”, mas é o resultado de um participante das sombras da interação (Irvine, 1996) que continuamos sem considerar, subestimando “a era da plataformização na qual agentes humanos e algorítmicos coproduzem realidades digitalmente mediadas” (Scheren et al., 2024, p. 9).
É válido, então, interrogar nossos padrões de análise interacional e duvidar da simples “transferência” de categorias do offline para o online. Isso é muito evidente para as categorias “contexto” e “sentido”. Muitas vezes escutamos que o contexto de interação informa a interpretabilidade da marca linguística, constituindo o sentido. No entanto, a interação digital impulsiona o lugar da marca linguística como âncora que liga quem fala ao mundo social, mas complica bastante essa dinâmica porque a desorganização metacomunicativa no ambiente digital implica uma reorganização simultânea em velocidade, variação e variedade desafiadoras. O caráter movente do texto interacional se torna ele mesmo o centro do debate.
Nesse sentido, as conceitualizações de Derrida sobre o movimento da linguagem são profícuas para a reorientação que buscamos na investigação dos fenômenos da linguagem, considerando, notadamente, o impacto que aspectos cibernéticos (Cesarino, 2022) têm sobre os movimentos ou trajetórias dos produtos linguísticos.
A ideia de que é fundamental analisar através dos eventos semióticos ou discursivos em movimento para compreender os processos sociais não é exatamente uma novidade. Stanton Wortham e Angela Reyes (2015) destacam uma densa produção da primeira década do século XXI que reconhece a urgência de nos movermos para além do evento de fala (speech event). Seguindo as bases metodológicas da Linguística Antropológica, Wortham e Reyes (2015) buscam estender suas análises seguindo os caminhos da viagem de formas linguísticas, enunciados, modelos culturais, indivíduo e grupos através de eventos.
A problemática levantada nessa obra nos ajuda a explicitar que nosso foco nas trajetórias textuais em rede envolve não apenas reconhecer as mudanças de rumo e ramificações decorrentes das infraestruturas digitais nas condições de interação, mas a multiplicidade de práticas linguísticas e não linguísticas envolvidas na definição desses rumos (Budach; Kell; Patrick, 2015; Kell, 2015) e, evidentemente, as forças que participam da constituição das trajetórias em jogo.
Nesse sentido, consideramos urgente a redefinição da categoria “evento” articulada com o status e o funcionamento dos recursos que são considerados como “viajantes” entre eventos. Sabemos que os recursos se movimentam no tempo e no espaço e a direção desse movimento inclui elementos semiotizados e sua legibilidade em cada interação, mas também em cadeias de interações, trajetórias que sinalizam seus movimentos (e, portanto, sua própria interpretabilidade).
Ron e Suzie Scollon (2003, p. 9) argumentam que os elementos semiotizados estão em uma tensão dinâmica entre forças centrífugas pelas quais se distribuem através do tempo e do espaço, e forças centrípetas pelas quais convergem num dado tempo e espaço para formar o agregado semiótico, uma intersecção entre códigos, sistemas de inscrição e sistemas de localização. Essas forças distribuem pedaços dos agregados semióticos em formas materiais transformadas, recortadas e reinseridas em outros agregados - por exemplo, papéis, sons, imagens, repertórios sonoros e escritos; inteiros, em partes, quebrados, fragmentados.
Nas figuras 2 e 3 vemos exemplarmente como a distribuição de pedaços dos agregados semióticos se move conforme o tipo de força, agindo sobre eles para tentar controlar a associação com outros signos, objetos e interpretantes.
De maneira simplificada, podemos prestar atenção à circulação da hashtag #UmDiaNoParque. Na Figura 2, esse trecho de signos está submetido a forças centrípetas: aparece numa faixa produzida em gráfica como peça da campanha; aparece numa faixa feita a mão em papel pardo, manuseada pela criança, cuja presença naquele local indicia o seu “um dia no parque”, assim como os rabiscos na faixa manufaturada indiciam outras pessoas que passaram seu dia no parque, local da fotografia (indiciada pelo olhar da criança que contorce o corpo para mirar quem a fotografa) e daquelas faixas.
Na Figura 3, a hashtag #UmDiaNoParque está submetida a forças centrífugas: aparece numa imagem em página eletrônica, acessível por protocolo HTTPS, buscado por conexão, em geral criptografada, de modo a identificar a identidade virtual de quem acessa o site. Esse tipo de protocolo permite duas práticas cada vez mais comuns: primeiro, que o IP de acesso ao site fique registrado pelo navegador de modo a identificar qual perfil virtual (qual máquina, mas, também, qual humano) realizou aquele acesso; segundo, que o endereço seja copiado e enviado por aplicativos de compartilhamento de conteúdo.
A página eletrônica em questão se conecta a outras páginas usando um mesmo trecho de signos (Um dia no parque 2019) no menu superior da página onde se encontra a imagem; essa nova página remete a um hotsite (página eletrônica temporária focada em algum destaque da página principal) da campanha (https://www.umdianoparque.net/) - e cada movimento de acesso (clique) em cada página nessa rede pode ser seguido como um trajeto único de IP.
Como notamos, as forças variam de acordo com as condições materiais de produção e circulação dos signos, mas certamente não se excluem, já que a criança e a fotógrafa poderiam acessar o site e postar fotos feitas localmente em páginas supralocais com a hashtag #UmDiaNoParque. Além disso, essas observações sobre as duas figuras são apenas exemplares, enquanto elementos que poderiam ser convocados para uma interpretação dessa intersecção de feixes de signos que variam no tempo e no espaço.
Desde Goffman (1974), o enquadre é uma noção usada para explicar os limites de organização da fala como ação, marcar as fronteiras dos tipos admissíveis de gêneros discursivos orais ou escritos e de relações entre participantes para a realização de uma atividade em andamento, limites esses trazidos de intercâmbios sociais - o que inclui tópicos conversacionais, espaço, tempo e as dinâmicas de participação, “o gerenciamento metacomunicativo” (Bauman; Briggs, 1990, p. 75).
Os enquadres não são fixos, como o nome frame originalmente usado por Goffman (1974) poderia sugerir, mas dinâmicos, fluidos, com suas fronteiras mudando no decorrer das interações. A dinamicidade do enquadre é fruto das construções espaciais - “práticas espacializadas” - e, também, das sobreposições temporais que informam a estrutura de participação numa dada interação, atos passados e futuros interseccionados no momento interacional (Irvine, 1996).
Esse entendimento heterogêneo e móvel de enquadre ajuda a promover análises das unidades semióticas iteráveis (textos, signos, imagens em movimento, fragmentos de todo tipo), se entendemos enquadre como efeito de regularidades provisórias de movimentos sutis e variáveis de organização das ocorrências semióticas (token). As ocorrências são instanciações únicas das unidades iteráveis, situadas num lugar particular no espaço e no tempo, como a hashtag #UmDianoParque nas imagens que trazemos acima.
Ocorrências são identificadas como do mesmo tipo (type) relativamente a sua similaridade com outras instanciações únicas (Lyons, 1980). A relação de instanciação (type-token) envolve o reconhecimento da identidade relativa, quer dizer, a similaridade é definida relativamente ao momento do uso linguístico, o nexo pragmático-metapragmático, que modela a interação em “evento” - atribuindo coesão, sequencialidade, propósito de ação - como “uma representação metapragmática dos fatos da indexicalidade”.
Isso significa que o continuum de atividades humanas, contingentes e históricas, é segmentado e alinhado, aproximado ou afastado, de acordo com a identificação relativa de unidades semióticas como parte de uma cadeia prévia e de uma projeção de consequências futuras e sua consequente calibragem metapragmática, ou seja, modelagem metapragmática do evento pragmático regimentada dentro de algum quadro de possibilidades epistêmicas (conhecimento/experiência).
O “evento” no nexo online-offline se torna, assim, o efeito dessa condensação histórica pressupondo e implicando uma cadeia de unidades iteráveis adequadas ou inadequadas, eficazes ou ineficazes, sempre submetida ao dinamismo das infraestruturas e seus participantes algorítmicos das sombras. Ou, para sermos mais precisas, “um pouco adequadas”, “parcialmente eficazes”, “talvez inadequadas”, “neste caso ineficazes” - ou seja, numa gradação avaliativa a ser estabelecida no continuum a cada (re)enquadre no espaço-tempo.
As articulações entre espaço e tempo nas unidades semióticas têm sido sobremaneira transformadas pela infraestrutura digital contemporânea. De fato, as próprias bases modernas da Linguística e da Ciência como um todo são colocadas em crise quando olhamos para a realidade digital de uma maneira crítica.
Como temos procurado demonstrar ao longo de toda esta argumentação, o “evento de fala”, a linguagem ordinária em si, desestabiliza essas noções modernas que perfazem a Linguística. O mundo digital não cria do zero novos desafios para linguistas interessadas no uso empírico da língua, mas, sem dúvidas, os potencializa.
O primeiro passo para estudar os materiais semióticos que se deslocam incessantemente em fluxos (Moita-Lopes; Fabrício, 2018) é abandonar empreitadas determinísticas de pesquisa para que seja possível ver (ou ver primeiro, nos termos de Pratt (2013)) as mediações e infraestruturas digitais e sua causalidade circular, coemergente e não linear (Cesarino, 2022). Afinal, o aparato cibernético cresce em extensão - cada vez mais usuários -, e em capilaridade - relações cada vez mais estreitas entre usuários e dispositivo digital. A digitalização se amalgama a nossas ações, e os algoritmos, que participam a ponto de desestabilizar as estruturas políticas, científicas, midiáticas informacionais etc. não permitem que os modelos interacionais que conhecemos permaneçam ancorados no idealismo antropocêntrico da ciência moderna.
A infraestrutura digital que temos hoje é capaz de inverter a lógica das relações entre humanos e sistemas estruturais: de agentes passamos a ambiente de ação de sistemas não humanos, e nossos passos nas plataformas, nossos metadados, se tornam uma espécie de “mais-valia comportamental” (Cesarino, 2022). Ainda assim, continuamos nos enxergando como indivíduos livres e soberanos sobre os meios digitais, imersas nas formas regulativas dos dois modelos e suas ideologias linguísticas consequentes, algumas vezes considerando como relevante tão somente o significado denotacional daquilo que lemos e compartilhamos (se é ou não fake news, por exemplo), mas ignorando as implicações da infraestrutura digital no nosso próprio acesso ao conteúdo digital.
O alinhamento entre cibernética e humano desestabiliza o circuito de fala e a própria noção de contexto face a face, escamoteada para o campo do “extralinguístico” em grande parte dos paradigmas linguísticos vigentes. Os eventos de fala supostamente isolados, separados por contextos estáticos, fundem-se de forma tão profusa que propiciam um colapso de contextos - isto é, extirpam a separabilidade de um contexto de interação dos demais contextos de interação, diminuindo a possibilidade de o contexto ser presumido mesmo antes da própria interação. Como coloca Letícia Cesarino (2022, p. 118), “o colapso de contextos indica o modo como as novas mídias desestruturam a metacomunicação em nossas sociedades. Sua arquitetura dificulta, ou até mesmo impede,” um olhar metalinguístico arguto das práticas de linguagem correntes aos contextos.
5 CONSEQUÊNCIAS FINAIS
Como vimos, o olhar investigativo moderno sobre as práticas linguísticas, em maior ou menor medida, fundamenta os modelos interacionais desenvolvidos e reformulados durante todo o século XX. Contudo, há certas rupturas que caminham para outras propostas de lidar com a interação linguística. Essas rupturas, porém, ainda se mantêm no percurso de meramente complexificar os modelos disponíveis, e a adição de novas camadas ao modelo não é suficiente para romper de fato com a homogeneidade idealista, individualista e utópica que caracteriza os próprios modelos (Irvine, 1996).
Neste ensaio, seguimos por um outro caminho. Nossa proposta não foi incrementar o modelo de comunicação da Linguística do século XX, mas oferecer mecanismos teórico-metodológicos de reorientação do olhar sobre os fenômenos da linguagem sem a preocupação de oferecer uma revisão ampliada dos dois modelos. A intenção foi, justamente, romper
com as bases mentalistas da Linguística, cuja preocupação é purificar a linguagem de aspectos sociais [e demais questões tratadas como ‘extralinguísticas’], removendo toda materialidade e isolando-a no porto seguro da mente, onde ela pode ser estudada sem intervenções indesejadas. (Vallada, 2020, p. 1165)
Para isso, retomamos uma parte do debate crítico sobre “evento de fala” e os movimentos de texto para olhar como esse debate pode nos informar sobre as condições da interação no nexo online-offline. O reconhecimento dos mecanismos que promovem o movimento de fragmentos textuais (signos, imagens etc.) e os (re)enquadres a cada espaço-tempo visam a promover um vocabulário que dê conta das participações nas sombras condicionadas pelas infraestruturas digitais.
Não há limite necessário para essas contextualizações e histórias discursivas - no sentido de que uma multiplicidade de outros diálogos estão implicados em um disponível. Pela mesma razão, acreditamos, não há limite necessário aos enquadres de participação que podem ser impostos no presente pragmático, fragmentando seus papéis participantes e recombinando-os, num cálculo complexo de papéis mapeados com base em pessoas presentes e ausentes (ou, internamente, por aspectos da personalidade). As laminações intrincadas de papéis participantes, as muitas sombras de conversações que eles refletem e os discursos que eles informam pertencem ao mesmo processo dialógico (Irvine, 1996, p. 157).
Em síntese, se estamos pensando em termos de “movimento” dos textos, talvez a metáfora deva ser levada adiante e implicada nas demais categorias de movimento para se entender como a economia da atenção interpela a direcionalidade, força e aceleração da circulação de “conteúdo”, quando o que interessa na economia da atenção é o engajamento, como diz Letícia Cesarino (2022), indiferente para o algoritmo se a expressão é de amor ou de ódio. Isso porque a infraestrutura e funcionamento sistêmico das plataformas estão desenhados para o modelo do “usuário-ambiente” em que o “clique” é vendido para os verdadeiros clientes, os anunciantes, mais do que para o suposto modelo interacional liberal da “livre expressão das ideias”, tão bem representado pelo circuito da fala de Saussure.
A economia da atenção não é uma externalidade em relação ao funcionamento da linguagem no ambiente digital. Ela é parte da cadeia de produção linguística quando direciona e projeta empuxo para qualquer coisa que gere “clique”, e preferencialmente coisas que gerem cliques constantes.
Enquanto isso, o debate sobre regulação das plataformas gira em torno do apelo contra a censura, com direito a imagens de mordaça e muitas chamadas que apelam para aquele nosso modelo de interação dual racional entre iguais. Isso pressupõe que nossa produção textual no ambiente digital é resultado do mais precioso “algo” dentro de nossa cabeça, e que temos “acesso direto”, desmediatizado, a fatos e eventos nesses ambientes. É certo que o trabalho das empresas de tecnologia para impedir a regulação é parte do projeto de manutenção dessa opacidade de participação em nossas interações digitais.
É justamente por isso que temos de interrogar os parâmetros que usávamos para pensar a interação e buscar alternativas de compreensão da linguagem nesses ambientes. Essas alternativas não apenas podem ajudar a qualificar nossas análises e aprofundar o debate sobre o que está em jogo nas interações e na produção de sentidos em ambientes digitais, mas também podem oferecer outras formas de pensar a própria Internet para além da mais-valia de nossa atenção e das participações opacas dos algoritmos na produção de cadeias linguísticas e elos interpretativos.
REFERÊNCIAS
- AGHA, A. The Object Called “Language” and the Subject of Linguistics. Journal of English Linguistics, v. 35, n. 3, p. 217-235, set. 2007.
- AHEARN, L. M. Language and Agency. Annual Review of Anthropology, v. 30, p. 109-137, 2001.
- ANDROUTSOPOULOS, J. Localizing the Global on the Participatory Web. In: COUPLAND, N. (org.). The Handbook of Language and Globalization. Malden, MA: Blackwell, 2013. p. 203-231.
-
ANTUNES, R. Uberização do trabalho e capitalismo de plataforma: uma nova era de desantropomorfização do trabalho? Análise Social, v. 58, n. 248, p. 512-532, 2023. Disponível em: https://revistas.rcaap.pt/analisesocial/article/view/33535/23430 Acesso em: 7 ago. 2024.
» https://revistas.rcaap.pt/analisesocial/article/view/33535/23430 - BARTON, D.; LEE, C. Methodologies for Researching Multilingual Online Texts and Practices. In: MARTIN-JONES, M.; MARTIN, D. (org.). Researching Multilingualism: Crtical and Ethnographic Perspectives. New York: Routledge, 2017. p. 141-154.
- BAUMAN, R.; BRIGGS, C. L. Poetics and Performance as Critical Perspectives on Language and Social Life. Annual Review of Anthropology, v. 19, p. 59-67, 1990.
- BAUMAN, R.; BRIGGS, C. L. Voices of Modernity: Language ideologies and the politics of inequality. Cambridge: Cambridge UP, 2003.
- BENVENISTE, É. Problemas de Línguística Geral II. Trad. de Eduardo Guimarães et al. Campinas: Pontes, 1989.
- BLOMMAERT, J. Chronotopes, Scales, and Complexity in the Study of Language in Society. Annual Review of Anthropology, v. 44, n. 1, p. 105-116, 21 out. 2015.
- BLOMMAERT, J. et al. Online with Garfinkel: Essays on social action in the online-offline nexus. Tilburg Papers in Culture Studies, v. 229, p. 1-106, 2019.
- BLOMMAERT, J. Political Discourse in Post-Digital Societies. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 59, n. 1, p. 390-403, abr. 2020.
- BLOMMAERT, J.; MALY, I. Invisible Lines in the Online-Offline Linguistic Landscape. Tilburg Papers in Culture Studies, n. 239, p. 38-45, ago. 2019.
- BRIGGS, C. L. Mediating infanticide: Theorizing relations between narrative and violence. Cultural Anthropology, v. 22, n. 3, p. 315-356, 2007.
- BUDACH, G.; KELL, C.; PATRICK, D. Objects and Language in Trans-Contextual Communication. Social Semiotics, v. 25, n. 4, p. 387-400, 8 ago. 2015.
- CESARINO, L. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
- CIBORGA, C. Etnografia digital: um guia para iniciantes nos estudos da linguagem em ambientes digitais. Goiânia: Cegraf, 2022.
- COLLINS, J.; SLEMBROUCK, S. Goffman and Globalization: Frame, Footing and Scale in Migration-Connected Multilingualism. In: COLLINS, J. et al (Org.). Globalization and Language Contact: Scale, Migration, and Communicative Pratices. London: Continuum, 2009. p. 19-41.
- DERRIDA, J. De la gramatologie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1967.
- DERRIDA, J. Limited Inc. Paris: Galilée, 1990.
- FABRÍCIO, B. F. Linguística aplicada e visão de linguagem: por uma INdisciplinaridade radical. Revista Brasileira de Linguistica Aplicada, v. 17, n. 4, p. 599-617, 2017.
- FAUSTINO, D.; LIPPOLD, W. Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. São Paulo: Boitempo, 2023.
- GOFFMAN, E. Footing. In: RIBEIRO, B. T.; GARCEZ, P. M. (org.). Sociolinguística interacional. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2013. p. 107-148.
- GOFFMAN, E. Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience. Boston: Northeastern UP, 1974.
- GOFFMAN, E. Replies and Responses. Language in Society, v. 5, n. 3, p. 257-313, 1976.
- GOFFMAN, E. The Interaction Order. American Sociological Review, v. 48, n. February, p. 1-17, 1983.
- IRVINE, J. Shadow Conversations: The Indeterminacy of Participant Roles. In: SILVERSTEIN, M.; URBAN, G. (org.). Natural Histories of Discourse. Chicago: The University of Chicago Press, 1996. p. 131-159.
- JACQUEMET, M. Transidiomatic practices: Language and Power in the Age of Globalization. Language and Communication, v. 25, n. 3, p. 257-277, 2005.
- JACQUEMET, M. Transidioma and Asylum: Gumperz’s Legacy in Intercultural Institutional Talk. Journal of Linguistic Anthropology, v. 23, n. 3, p. 199-212, dez. 2013.
- JACQUEMET, M. Beyond the Speech Community: On Belonging to a Multilingual, Diasporic, and Digital Social Network. Language and Communication, v. 68, p. 46-56, 1 set. 2019.
- JAKOBSON, R. Lingüística e Comunicação. Trad. de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1974.
- KELL, C. Ariadne’s Thread: Literacy, Scale and Meaning Making across Space and Time. In: STROUD, C.; PRINSLOO, M. (org.). Language, Literacy and Diversity: Moving Words. New York: Routledge, 2015. p. 72-91.
-
LOTKOWSKI, M. You Are Building a Self Driving AI without Even Knowing About it | HackerNoon. Disponível em: https://hackernoon.com/you-are-building-a-self-driving-ai-without-even-knowing-about-it-62fadbfa5fdf Acesso em: 30 jun. 2024.
» https://hackernoon.com/you-are-building-a-self-driving-ai-without-even-knowing-about-it-62fadbfa5fdf - LYONS, J. Semântica. Lisboa: Presença, 1980.
- MALY, I. Ideology and Algorithms. Ideology Theory and Practice, 21 jan. 2021.
- MALY, I.; BLOMMAERT, J. Digital Ethnographic Linguistic Landscape Analysis (ELLA 2.0). Tilburg Papers in Culture Studies, n. 233, 2019.
- MARYNS, K.; BLOMMAERT, J. Pretextuality and Pretextual Gaps: On De/Refining Linguistic Inequality. Pragmatics, v. 12, n. 1, p. 11-30, 2002.
- MOITA-LOPES, L. P.; FABRÍCIO, B. F. “Does the Picture Below Show a Heterosexual Couple or Not?” Reflexivity, Entextualization, Scales and Intersectionalities in a Gay Man’s Blog. Gender and Language, v. 12, n. 4, p. 459-478, 1 jan. 2018.
- PAIVA, V. L. M. de O. e; NASCIMENTO, M. do. Hipertexto e complexidade. Linguagem em (Dis)curso, v. 9, n. 3, p. 519-547, dez. 2009.
- PINTO, J. P. A linguagem nas fronteiras do corpo em movimento: permeabilidade linguística da carne. 2020. 120 f. Tese (Titular) - Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Letras, Goiânia, GO, 2020.
- PINTO, J. P. Prefigurações identitárias e hierarquias linguísticas na invenção do português. In: MOITA LOPES, L. P. (Org.). Português no século XXI: ideologias linguísticas. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. p. 120-143.
- PRATT, M. L. “If English Was Good Enough for Jesus...” Monolinguismo y Mala Fe. Critical Multilingualism Studies, v. 1, n. 1, p. 12-30, 2012.
- PRATT, M. L. Utopias linguísticas. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 52, n. 2, p. 437-459, dez. 2013.
- RIBEIRO, B. T.; BUNNING, L.; BASTOS, L. C. Face, Conflict, and Adaptability in Mediated Intercultural Invitations: Young Adults Navigate Complexities of Ethnicity, Gender, Nationality, and Age. In: SILVA, D. N.; MEY, J. L. (org.). The Pragmatics of Adaptability. Amsterdam: John Benjamins, 2021. p. 191-212.
-
RUIZ, C. B. Algoritmização da vida: a nova governamentalização das condutas. Cadernos IHU ideias, v. 314, n. 19, 2021. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/cadernos-ihu-ideias Acesso em: 30 jun. 2024.
» http://www.ihu.unisinos.br/cadernos-ihu-ideias - SAKAI, N. How do We Count a Language? Translation and Discontinuity. Translation Studies, v. 2, n. 1, p. 71-88, 2009.
- SAUSSURE, F. de. Curso de linguística geral. 16. ed. Trad. de Antônio Chelini et al. São Paulo: Cultrix, 1991.
- SCHEREN, M. L. et al. Métodos mistos para a antropologia digital: um relato de experiência sobre a análise de grupos bolsonaristas na plataforma Telegram. Horizontes Antropológicos, v. 30, n. 68, p. e680407, fev. 2024.
- SCOLLON, R.; WONG SCOLLON, S. Discourses in Place: Language in the Material World. New York: Routledge, 2003.
- SCOLLON, S. Body Idiom in Platform Events: Media Representation and the Hegemony of the Vicarious Conversation. Social Semiotics, v. 13, n. 1, p. 89-102, 2003.
- SILVERSTEIN, M.; URBAN, G. The Natural History of Discourse. In: SILVERSTEIN, M.; URBAN, G (orgs.). Natural Histories of Discourse. Chicago: The University of Chicago Press, 1996b. p. 1-17.
- VALLADA, A. D. Digitalização e a luta pela linguagem. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 59, n. 2, p. 1158-1170, 2020.
- VALLADA, A. D. Inventando a diferença: ideologias linguísticas e história natural dos discursos do novo biologismo. 2021. 97f. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) - Faculdade de Letras - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2021.
- VARIS, P. Superdiverse Times and Places: Media, Mobility, Conjunctures and Structures of Feeling. In: ARNAUT, K. et al. (org.). Engaging Superdiversity. Bristol, UK: Multilingual Matters, 2016. p. 25-46.
- WOOLARD, K. A; SCHIEFFELIN, B. B. Language Ideology. Annual Review of Anthropology, v. 23, p. 55-82, 1994.
- WORTHAM, S.; REYES, A. Discourse Analysis beyond the Speech Event. New York: Routledge, 2015.
-
1
O capitalismo 4.0, ou capitalismo de plataforma, representa a mais recente evolução do sistema capitalista, impulsionada pela Quarta Revolução Industrial e caracterizada pela integração de tecnologias avançadas como inteligência artificial, internet das coisas (internet of things) e sistemas algorítmicos. Essa fase do capitalismo enfatiza a digitalização e a automação de processos, a valorização dos dados como recurso crucial, a interconectividade entre dispositivos e o surgimento de novos modelos de trabalho “novos espaços produtivos, cada vez mais conectados com as plataformas digitais e com o mundo dos algoritmos” (Antunes, 2023, p. 517).
-
2
Para citar apenas alguns dos textos mais conhecidos da mesma época, a última década e virada do século XX para o século XXI: Bauman e Briggs (1990); Woolard e Schieffelin (1994); Silverstein e Urban (1996); Ahearn (2001); Maryns e Blommaert (2002).




Fonte:
Fonte:
Fonte: