Open-access ATIVISMO ACADÊMICO: QUANDO NOSSAS IDEIAS GANHAM CORPO1

SCHOLAR ACTIVISM: WHEN OUR BODIES STAND BY OUR IDEAS

Resumo:

Eu deveria me sentir bem ao receber um prêmio por ativismo acadêmico? Por mais bem-intencionado que seja o reconhecimento do nosso ativismo, ele dilui o sentido do que é ativismo ao destacar uma pessoa só, especialmente acadêmica. O perigo de considerar o ativismo acadêmico como heroico é duplo. Primeiro, ele torna os ativistas excepcionais, insinuando que a sociedade pode confiar em indivíduos excepcionais em vez de valorizar o nosso corpo coletivo. Segundo, glorifica o ativismo de acadêmicos, como se este fosse mais valioso do que o de outros, ao mesmo tempo em que ignora as hierarquias que empoderam e protegem a academia. Em vez disso, sugiro normalizar o ativismo acadêmico, compartilhando a carga com quem está na linha de frente e usando nossos corpos como escudos. É possivel unirnos ao ativismo coletivo que se faz em constelação, valorizar o poder das emoções, e deixar assim que nossas ideias ganhem corpo à medida que nos tornamos acadêmicos ativistas.

Palavras-chave:
Política Incorporada; Ativismo Acadêmico; Corpo Coletivo

Abstract:

Should it feel good to get an award for scholar activism? As well-intentioned the recognition of my activism is, it misses the point of what activism is by singling out one person, especially a scholar. The danger with claiming scholar activism as heroic is twofold. First, it makes activists exceptional, implying that society may rely on exceptional individuals instead of valuing the collective work. Second, it glorifies the activism of scholars, as if it were more valuable than that of others while ignoring the hierarchies that empower and protect academia. Instead, we must normalize scholar activism, sharing the load and using our bodies as shields. We’ll join the work of activism in constellation and value the power of emotions, embodying our ideas as we grow into activist scholars.

Keywords:
Embodied Politics; Scholar Activism; Collective Body

Eu deveria me sentir bem ao receber um prêmio por ativismo acadêmico? Foi o que me perguntei ao subir no palco. Tratava-se de um grande reconhecimento para mim, um reconhecimento inesperado, considerando a origem do prêmio, mas também me parecia injusto. Eu não era melhor do que as muitas outras mulheres que lutaram comigo ao longo dos anos, mas que não estavam lá; as outras Manuelas, Carmens, Ruths e Juanas, cujos corpos indígenas enfrentaram muito mais coisas do que o meu, mas cujos nomes não eram conhecidos por ninguém. Por que eu? O que eu tinha feito era apenas uma fração de todo o trabalho de resistência delas, e eu me beneficiava de uma posição de poder que facilitava a obtenção de resultados. Ser escolhida entre tantas chamou-me a atenção para como é problemático ver algo de heroico no ativismo acadêmico, e me fez pensar em como normalizá-lo.

Soltei um longo “uaaaaaauuuu” ao microfone, expressando minha admiração por ter recebido um prêmio de prestígio como acadêmica ativista excepcional da Associação de Estudos Internacionais, uma área que muitas vezes não se envolve com a vida pública.2 Depois de duas décadas vivendo e aprendendo com minha comunidade quíchua nos Andes equatorianos, de produzir muitos textos jornalísticos e acadêmicos, de ter sido presa e de ter conduzido campanhas presidenciais, vi minhas contribuições e minha peculiar trajetória de vida sendo celebradas pelo meio acadêmico. Quem poderia imaginar que um dia eu estaria fazendo um discurso no lugar que fora o de Angela Davis, Naomi Klein e de David Graeber em São Francisco? Eu jamais teria imaginado.

Custa, e muito, fazer ativismo acadêmico. O sorriso carioca que levo no rosto esconde quão difícil tem sido trilhar esse caminho. Na última década, fui espancada, detida e expulsa do país que chamei de lar. Fui separada à força de meu companheiro e de minha comunidade durante anos de exílio, perdendo meu senso de pertencimento e, às vezes, minha voz. Conheci o medo de ser constantemente seguida, sem saber se eles me estuprariam ou se matariam um membro da minha família para me fazer parar. Fui demitida em retaliação por dizer publicamente o que as pessoas falavam em segredo das autoridades eleitas. Todas essas ameaças e atos de assédio ocorreram apesar de eu ser uma acadêmica estrangeira branca em um país predominantemente indígena do Sul Global. As coisas teriam sido muito mais difíceis se eu não estivesse protegida pelo privilégio branco e por um passaporte brasileiro. Eu estava consciente da interseccionalidade dos privilégios que me protegiam quando eu priorizava as audiências judiciais em detrimento da escrita teórica, quando me empenhava em ações coletivas às custas de minha carreira, de minha situação financeira e até mesmo da minha saúde. Ainda assim, a vida de ativista “reduziu as ilusões a pó”, destruindo qualquer laivo de conforto pessoal e despreocupação. Até mesmo o amor, que antes fora a liga que animava a vida, sucumbiu.

O ativismo pode ser tudo, exceto glorioso. Ele nos desgasta e destrói física e financeiramente. Você passa a ter um colete à prova de balas em vez de um imóvel; você se comunica com seus entes queridos por meio de aplicativos criptografados com mensagens que desaparecem. Um filme que documenta fragmentos ativistas de minha vida não captou a textura do medo – um lado sombrio difícil de se celebrar (La Manuela, 2017). O ativismo é invisível, um trabalho interminável que danifica seu corpo e suas relações afetivas. Ele rouba a infância de nossos filhos, que vivem em nossa ausência e com medo de nos perder. Ele nos faz desejar o conforto acadêmico, seja em forma de férias com a família, cargos efetivos ou simplesmente o prazer de um gabinete com livros.

Eu não estava preparada para isso, em parte porque os custos não são previsíveis e em parte porque tudo simplesmente me aconteceu. Nunca foi uma decisão racional e, para a maioria das pessoas, tampouco é uma opção. Não é algo para se lamentar; simplesmente é. Como acadêmica branca, eu poderia ter olhado para o outro lado, tratando a opressão racializada como um tópico de pesquisa, envolvendo-me com ela como um trabalho acadêmico que se deixa em uma gaveta ao voltar para casa. Mas, para a maioria das pessoas, ela é vida cotidiana, porque aqueles que são racializados não podem vestir uma pele branca nos fins de semana para fazer uma pausa na resistência à opressão. Aprendi isso quando me casei com Yaku, um advogado indígena e defensor da água, que era indígena 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que não podia deixar a pele no armário durante o fim de semana nem deixar o território para tirar férias de verão prolongadas. Não havia pausa diante da indústria mineradora que estava invadindo o território, e sempre havia uma nova ação judicial para criminalizar Yaku ou outros membros da comunidade que precisariam de sua assistência jurídica para não serem esquecidos em uma prisão equatoriana. Era mais do que trabalho diário, era a vida, e, quando me casei com ele, tornei-me membro do corpo coletivo. Meu corpo individual tornou-se parte de um corpo coletivo, como todos nós somos, percebendo ou não, quer sejamos rotulados como brancos, indígenas ou negros, quer assumamos nossas responsabilidades ou não. Aprendi com a experiência – de maneira dura e violenta, mas também com ternura. Isso me destituiu de privilégios, um processo que pode ser profundamente emancipatório porque ensina do que é feito o mundo. Foi transformador de maneira irreversível, porque, uma vez que aprendera, não podia mais desaprender.

Há milhões de pessoas seguindo esse caminho de vida, exaustas e sob ameaça, vivendo quase sem renda. Enquanto escrevo, muitas estão sendo assassinadas por simplesmente tentarem manter suas comunidades vivas. O ativismo é perigoso de onde eu venho: cerca de 80% dos defensores de direitos humanos assassinados no mundo são da América Latina, e um terço deles são indígenas (Front Line Defenders, 2024). Nem todo mundo faz ativismo da mesma maneira; nem todos os corpos são igualmente vulneráveis à expropriação; nem todos os corpos estão na linha de frente. Embora os povos indígenas sejam apenas 5% da população mundial, eles detêm em seus territórios 80% da biodiversidade remanescente no planeta e são quase um terço dos defensores da natureza assassinados em todo o mundo (ver Corntassel; Cheryl, 2012). As mulheres carregam a carga mais pesada, mas são as mais invisíveis (Picq, 2018). Elas sustentam os povos indígenas, que sustentam o bem comum, que sustenta a vida no planeta, mas seu ativismo diário é amplamente ignorado. Quando seus nomes aparecem, raramente é para receber prêmios, e mais frequentemente em listas de defensores mortos, como a que a Global Witness (2023) publica anualmente.

Embora os prêmios acadêmicos muitas vezes estejam entrelaçados com a política, sua proliferação diz respeito à neoliberalização de uma academia que tende a ver as conquistas em termos individualistas. Por mais bem-intencionado que seja o reconhecimento do meu ativismo acadêmico, ele perde o foco do que é ativismo ao destacar uma pessoa, especialmente um acadêmico. O perigo de considerar heroico o ativismo acadêmico é duplo. Primeiramente, isso torna os ativistas excepcionais, o que implica que a sociedade pode depender de indivíduos excepcionais para fazer o trabalho heroico, já que coletivamente não assumimos nossas responsabilidades. Em segundo lugar, glorifica o ativismo dos acadêmicos, dando a entender que é mais valioso do que o de outros e ignorando as estruturas de autoridade que o capacitam e protegem. Em vez disso, precisamos normalizar o ativismo dos acadêmicos, esperando que eles compartilhem a carga com outros ativistas e que estejam à altura de nossas responsabilidades.

Na verdade, meu prêmio diz muito sobre a falta de ativismo acadêmico. Sabemos, pelo menos em parte, por que poucos o fazem: os custos são altos e o reconhecimento é baixo. Os acadêmicos são censurados, punidos e até mortos por suas ideias. O aumento do número de acadêmicos em risco e exilados em todo o mundo é uma prova de que pagamos um preço para pensar. Isso também confirma que a tomada de posição é importante. Centenas de acadêmicos turcos que assinaram a Petição de Paz, exigindo uma solução pacífica para o massacre de civis curdos em 2016, foram acusados de crimes de terrorismo (Butler; Başak, 2017). Do Brasil ao Sudão, os acadêmicos muitas vezes não têm outra opção a não ser engajar-se na vida pública. A Organização das Nações Unidas (ONU) fala de “escolasticídio” (ONU 2024) para se referir aos ataques a acadêmicos e à destruição generalizada da infraestrutura educacional, incluindo os Arquivos Centrais em Gaza (ONU, 2022). Mas mesmo formas menos arriscadas de ativismo em contextos mais seguros do mundo liberal implicam trabalho adicional que não é contabilizado nas carreiras acadêmicas. Algumas pessoas deram início ao trabalho institucional transformador em nossas universidades, contratando acadêmicos do Sul Global em situação de risco e valorizando certas formas de ativismo na vida pública. Aprendi em primeira mão que o ativismo consome tempo, mas não conta créditos para a obtenção de um cargo estável na universidade. Depois de ser detida, fiz parte de um esforço coletivo para fechar um centro de detenção ilegal, o que libertou mais de 100 pessoas no Equador (Arcentales, 2022; Salazar, 2017). Mas isso não é considerado nas classificações de publicações ou para a estabilidade. Tampouco é considerado o marco jurídico internacional que meu companheiro e eu estabelecemos na ONU após oito anos de trabalho invisível para reconhecer formalmente, em lei, o casamento ancestral indígena.3 Para que isso seja considerado, o meio acadêmico precisaria mudar as regras do jogo e, indiretamente, de tudo que significa a prática acadêmica.

Os acadêmicos têm poder, mais do que a maioria das pessoas na sociedade, e poder implica responsabilidades. Temos a responsabilidade de informar, analisar e enfrentar sistemas de poder. É claro que alguns acadêmicos têm mais privilégios do que outros, e nossas várias posições moldam nossas visões de mundo, expandindo ou limitando nossas habilidades analíticas e nosso senso de responsabilidade. No entanto, apesar de nossas percepções e sensibilidades distintas, será que devemos assistir, de nossas mesas de trabalho, ao colapso do patrimônio natural pela extinção em massa, aos níveis sem precedentes de refugiados e à consolidação de regimes autoritários? Qual é o nosso papel na mobilização de ações políticas para resistir à opressão e à despossessão, para restaurar a dignidade humana dos politicamente excluídos?

A prática científica alimenta a ficção de distanciar do mundo o conhecimento. As expectativas de neutralidade, em vez de posicionamento, ainda permeiam a maioria dos campos, apesar das infinitas advertências feministas sobre o conhecimento situado e a impossibilidade de um ponto de vista desencarnado, que surgisse de lugar nenhum (ver Collins, 1990; Haraway, 1988). Esse mito criou uma divisão artificial entre pensadores e as pessoas envolvidas na ação prática, uma fragmentação que contribuiu para o abismo em que nos encontramos agora. Podemos produzir conhecimento teórico sem incorporá-lo? Os acadêmicos não devem se perder na produção de saberes tratando com desdém a práxis; isso não é apenas antiético, mas também leva a resultados equivocados. Nós, comprometidos com o trabalho intelectual, não podemos delegar a outros nossa parte do trabalho físico, emocional e coletivo. Precisamos fazer a nossa parte pelo bem comum e sujar as mãos na realidade confusa da vida pública.

Como? Cada contexto exige respostas diferentes. Aqui estão algumas ideias nascidas de minha própria experiência. Esta reflexão vem de uma ativista que é também acadêmica, que busca entender a intersecção entre produção de conhecimento e engajamento na esfera pública. Não existe modelo, são impressões gestadas no caminhar.

Primeiro, podemos compartilhar esforços para aliviar as comunidades que carregam a maior parte do fardo. O ativismo envolve trabalho interminável e não remunerado, e as pessoas que o sustentam tendem a ser as mesmas ao longo do tempo. Devemos apoiar aquelas que estão na linha de frente, não apenas porque as que estão sendo esmagadas estão ocupadas tentando sobreviver, mas também porque aquilo que esmaga algumas comunidades é o que garante o poder de outras. Como acadêmicos, somos beneficiários de estruturas de poder que forjam a hierarquia de quem é ou não produtor legítimo de conhecimento. Como acadêmicos, temos a responsabilidade de sustentar quem está na linha de frente. Isso significa apoiar suas reivindicações, compartilhar recursos, valorizar seu conhecimento e dedicar poder e tempo a atividades não valorizadas pelo meio acadêmico e que não proporcionam renda, publicação ou promoção. O ativismo acadêmico pode assumir várias formas, desde escrever artigos de opinião que ampliam reivindicações não ouvidas, participar de protestos de rua ou contribuir com relatórios de especialistas para apoiar lutas judiciais – qualquer estratégia que ajude a compartilhar a carga.

Para que isso aconteça, precisamos normalizar o ativismo e redefini-lo como uma responsabilidade acadêmica em vez de um ato heroico. Talvez isso exija a reformulação das regras do jogo, uma vez que as escolhas individuais são definidas por estruturas institucionais que atribuem muito valor às publicações revisadas por pares e pouco valor à prática engajada de um pesquisador. Como destinar tempo para pesquisas com impactos sociais se somos desencorajados a fazer isso? As regras devem incentivar os pesquisadores a se envolverem com o mundo, por exemplo, considerando os pareceres apresentados como amici curae como trabalho acadêmico aplicado. Reconhecer o valor da extensão é um primeiro passo, mas, se as estruturas institucionais não valorizam a ação (que tampouco reprimem), restringem o ativismo dos acadêmicos por meio de normas burocráticas e expectativas profissionais. Isso não significa defender a medição adicional do impacto social de nossa pesquisa para avaliar o mérito acadêmico, nem tornar os sistemas de auditoria ainda mais mais pesados, de modo a favorecer o produtivismo corporativo em detrimento da autonomia universitária e da possibilidade de uso da razão crítica. A própria ideia de métrica pode não ter espaço no ativismo. Em vez disso, ela deve incitar uma grande reformulação do que é considerado produção de conhecimento: como ele é praticado, falado e incorporado, onde e por quem é produzido. A redefinição das métricas tem a ver, em última análise, com a “deseconomização” de nossas formas de interpretar o mundo para permitir a reflexividade e a revalorização das humanidades públicas.

Em segundo lugar, podemos usar nosso corpo como um escudo. Vimos isso acontecer quando os professores dos campi universitários protegeram os alunos, com os próprios corpos, da repressão policial durante os protestos contra o desinvestimento na guerra em Gaza. Um corpo acadêmico tem autoridade, e, como tal, pode ser usado como um escudo para proteger outros corpos mais vulneráveis à repressão. Quando estou nos tribunais equatorianos ao lado de comunidades quíchuas, tanto juízes quanto advogados reparam. Meu corpo na sala de audiências altera o equilíbrio de poder, dando mais autoridade às comunidades indígenas e tornando suas reivindicações mais legítimas ou, pelo menos, respaldadas por autoridade científica. Há muito mais do que uma posição de um indivíduo quando um acadêmico fica do lado dos oprimidos no tribunal, porque ele representa o corpo coletivo da produção de conhecimento científico, que se posiciona por meio do corpo de uma pessoa. É uma verdadeira luta de poder.

Um corpo é um território, com idiomas e fronteiras nacionais, inscrito em sistemas de classes e castas e hegemonias globais. Os corpos brancos são úteis dentro das estruturas racistas; os corpos acadêmicos são úteis nos tribunais e nos protestos de rua. Podemos usar nossos corpos como escudos, ativando os territórios que eles abrangem, sua autoridade e privilégio. Foi isso que fiz em agosto de 2015 durante um protesto nacional contra a reeleição indefinida do presidente do Equador. Yaku, meu parceiro, estava coordenando a Confederação dos Povos Quíchuas do Equador e, quando a polícia o agarrou, eu instintivamente pulei sobre ele, usando meu corpo para protegê-lo dos espancamentos. Usei minha posição de mulher estrangeira branca e acadêmica para protegê-lo. Isso não impediu os espancamentos, que recebi com ele, mas gerou um escândalo. Há uma diferença quando a polícia bate em um corpo acadêmico branco ou em um corpo racializado e colonizado indígena. O espancamento dele não foi um evento, enquanto o meu gerou comoção imediata, chegando à TV nacional e colocando o governo sob os holofotes internacionais. Em sociedades racistas e classistas, é aceitável que a polícia bata em corpos indígenas para que obedeçam, mas não é aceitável espancar um acadêmico branco, que detém autoridade e está acima da polícia na estratificação social do Estado. Ativei as muitas interseções do meu corpo-território em um contexto sociopolítico específico, também usando minha nacionalidade brasileira ligada a uma economia hegemônica para me beneficiar de um consulado com grande poder de barganha e negociar minha integridade física. Nunca nos protegemos sozinhos; os escudos são compostos por nossas relações coletivas.

O que nos leva a um terceiro ponto: nossas constelações. Nossas jornadas individuais são coletivas; criamos conhecimento juntos e sustentamos a teia da vida nos relacionando. Como dizem os quíchuas, “soy porque somos” (sou porque somos). O que um acadêmico pode fazer sozinho se expande exponencialmente em constelação (Simpson, 2017). Depois que fui espancada por proteger meu parceiro em 2015, o governo do Equador revogou meu visto e me deteve por estar sem documentos.4 Eu era um detenta privilegiada, pois era uma acadêmica branca que se beneficiava da presença do consulado brasileiro, que negociava minha segurança física e garantia que mantivesse meu celular comigo o tempo todo. Da prisão, dei entrevistas a veículos de mídia internacionais, articulei apoios e descrevi as condições da cela. Em poucos dias, um grupo impressionante de advogados, acadêmicos, estudantes, jornalistas, ativistas, familiares e amigos uniram forças para me libertar. A mobilização ganhou impulso, com esforços articulados que acabaram não apenas me libertando, mas também mais de 100 estrangeiros detidos. No centro de detenção, os presos conseguiram me passar um papel com seus nomes, denunciando abusos, falta de atendimento médico e ausência de apoio jurídico. Consegui entregá-lo aos meus advogados. Como apenas eu recebia ajuda judicial, eles o repassaram a jornalistas, que o publicaram, desencadeando uma cascata de mobilização pelos direitos dos migrantes, além do meu caso. Advogados e jornalistas apontaram a ilegalidade do centro de detenção: não apenas sua criação nunca havia sido aprovada legalmente, mas também detinha pessoas por estarem sem documentos, apesar de a constituição estabelecer o direito à cidadania universal. Era uma prisão ilegal, que inconstitucionalmente detinha pessoas racializadas (Arroyo, 2021). O centro foi fechado graças a uma mobilização coletiva. Não foi uma pessoa, mas uma constelação de estrelas que fez isso acontecer; uma constelação de presos, advogados e jornalistas, uma constelação que foi ativada pelo corpo branco de uma acadêmica, mas que se mobilizou muito além dela. Nunca se trata de uma pessoa. Não existe um herói. Existem processos coletivos que mudam as estruturas.

As constelações intergeracionais são poderosas. O povo maori de Whanganui sabe disso; eles lutaram pelo rio Whanganui por quase 160 anos até que o governo da Nova Zelândia reconhecesse sua personalidade jurídica (Salmond; Brierley; Hikuroa, 2019). A líder política quíchua Dolores Cacuango é conhecida por dizer isso de forma poética: “somos como paja de páramo, que se la arranca y vuelve a crecer, y de paja de páramo sembraremos al mundo” (Rodas, 2007) (somos como palha de páramo, que volta a crescer, se arrancada, e de palha de páramo semearemos o mundo). Aprendi o que são as constelações intergeracionais por meio da exaustão. Depois de ser expulsa do Equador, passei anos me defendendo nos labirintos burocráticos das organizações internacionais, e acabei perdendo a fé em um fluxo interminável de papelada que parecia não levar a lugar algum. Uma ex-aluna minha que trabalhava na ONU sugeriu que eu levasse o caso ao exame periódico do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) sobre o Equador, mas eu havia desistido. Ela insistiu, oferecendo enviar um de seus próprios alunos com minhas anotações para me representar. O aluno da minha aluna foi ao exame periódico com o apoio de colegas advogados que haviam trabalhado para fechar a prisão; juntos, eles conseguiram uma resolução da ONU. O relatório periódico da ONU recomendou explicitamente que o governo do Equador me deixasse voltar ao país e reconhecesse nosso casamento ancestral. Eles fizeram isso sem mim e continuaram o trabalho que eu tinha iniciado, retomando-o para levá-lo adiante.

As constelações funcionam por meio das emoções, esse é meu quarto ponto. Eu não poderia ter ativado constelações tão poderosas sem elas. As emoções tendem a ser um tabu, quando não são abertamente proibidas na ciência política, meu campo de estudo. No entanto, elas são fundamentais para desencadear a ação política; são a matéria escura que mantém nossas relações, nos leva à ação e sustenta nosso engajamento a longo prazo. Há muito tempo as emoções são fundamentais em meu ativismo acadêmico. Começou com o amor romântico, quando pulei sobre o homem que amava para protegê-lo da violência policial. Durante os anos de exílio, nosso amor se tornou um lugar de resistência, alimentando nossa determinação em reivindicar o reconhecimento legal de nosso casamento ancestral indígena, o que acabou me concedendo um visto de família e criou um precedente jurídico internacional com implicações globais para a autodeterminação das famílias indígenas. Ao longo da jornada, amigos mobilizaram suas associações acadêmicas e reitores de universidades, elaboraram um grande abaixo-assinado e garantiram bolsas de estudo para me proporcionar renda quando perdi tudo. As emoções se transformam em ação, seja raiva ou compaixão, seja medo, desejo ou confiança. As emoções são ferramentas extraordinárias para o ativismo acadêmico.

Por último, mas não menos importante, o ativismo acadêmico é o melhor espaço de aprendizado, a crítica mais honesta, o julgamento que não mente. Se não nos engajarmos no ativismo acadêmico para compartilhar a carga de outros, para protegê-los, para construir constelações ou por pura emoção…… então deveríamos, pelo menos, fazê-lo por curiosidade egoísta. Aprendemos quando defendemos nossas ideias; aprendemos por meio da práxis, quando estamos no mundo (Rodas, 2007). O corpo é o primeiro a aprender; depois, nossas mentes trabalham para encontrar as palavras para expressar aquilo que o corpo já sabe, para articular racionalmente em conceitos e estruturas que chamamos de ciência. O corpo aprende, a mente traduz. Quando nossos corpos defendem nossas ideias, escrevemos o mundo com nossos eles (Wilkinson 2015). Aprendemos por meio de nossos corpos quando entramos no mundo e, nesse processo, escrevemos o mundo com nossos eles. Esse é um dos espaços de publicação intangíveis para métricas e classificações, mas inesquecível para os corpos envolvidos. O mito de uma ciência afastada do mundo deixa de lado nossos corpos e nossa imaginação, que, em última análise, são os primeiros lugares de produção de conhecimento.

Defender as próprias ideias não é uma decisão racional, nem é possível prever seus riscos. Os acadêmicos se tornam ativistas porque a inação não é uma opção, porque o silêncio é cumplicidade, porque não existe neutralidade nem conhecimento desmaterializado. Fazemos isso por nós mesmos, não pelos outros, porque o risco de permanecer como espectador é maior do que o de tomar uma posição, e porque a inação corre o risco de destruir quem somos. Nós nos tornamos acadêmicos ativistas quando assumimos nossa responsabilidade uns com os outros. Nos transformamos porque, como diz Sonia Sanchez em um de seus haikus, “por enquanto não há mais para onde ir” (Sanchez, 2011).

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Maio 2025
  • Aceito
    17 Ago 2025
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