| 1ª estrofe |
Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te o coração do companheiro. |
Afirmação do amor do poeta à esposa, junto a seu túmulo, e a promessa de sempre visitá-lo. |
O casal Machado e Carolina viveu por quase 35 anos em uma relação notoriamente reconhecida como feliz. Em entrevista para o jornal O Globo, em 2008, a sobrinha-bisneta de Carolina, Ruth Leitão de Carvalho Lima, afirmou que após a morte de Carolina: "Ele deixou tudo como era em casa. E sempre almoçava e jantava com dois pratos à mesa". |
| 2ª estrofe |
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs um mundo inteiro. |
Afirmação do amor de ambos, apesar das dificuldades da vida, numa relação "apetecida". |
Parte da correspondência entre o poeta e Carolina nos mostra os valores que alicerçavam a relação do casal: "Depois... depois, querida, ganharemos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti. Escreve-me e crê no coração do teu Machadinho". |
| 3ª estrofe |
Trago-te flores – restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados. |
O ritual de levar flores, "restos arrancados", como uma das poucas maneiras possíveis ao poeta para demonstrar seu amor e sua saudade. |
O ritual de afeto ao oferecer flores pode ser notado durante o período de convivência do casal. Uma carta de Machado endereçada a Carolina, datada de 2 de março, sem registro do ano, nos mostra o carinho do poeta para com sua esposa: "Obrigado pela flor que me mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma". |
| 4ª estrofe |
Que eu, se tenho nos olhos mal feridos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos. |
Em sua tristeza, o poeta se declara morto para sua realidade, assim como Carolina. Questiona que, se ainda possui pensamentos, eles são, todos, para momentos do passado. |
Em carta endereçada a Joaquim Nabuco, datada de 20 de novembro de 1904, Machado declara: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo". Na mesma carta, mais adiante, resume sua condição à época: "Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará". |