O ambiente estava festivo e afetivo, pois o nosso encontro para realizar esta entrevista se deu durante o 2º Aquilombar, no dia 16 de maio de 2024, em Brasília, evento realizado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) que reuniu Quilombos de todo o país para compartilhar manifestações artísticas e saberes ancestrais, além de reivindicar direitos historicamente negados pelo Estado brasileiro. Escolhemos uma sombra de árvore e fizemos uma roda de compartilhamentos com o Mestre Naldinho.
Arnaldo de Lima, mais conhecido como Mestre Naldo ou pai Naldinho, é uma importante liderança do Quilombo Custaneira, que fica localizado no município de Paquetá, PI, na região do Centro-Sul, no semiárido. Mestre Naldinho é um dos coordenadores nacionais da CONAQ no estado do Piauí e da Coordenação Estadual das Comunidades Negras Rurais Quilombolas - CECOQ.
A entrevista a seguir explora os elementos do repertório religioso, artístico e cultural que Mestre Naldinho incorpora em sua trajetória, além de apresentar uma crítica contundente às dinâmicas internas das organizações quilombolas das quais faz parte e aos pesquisadores que realizam estudos nos Quilombos. Na construção das perguntas, na realização da entrevista, na sua transcrição e edição, participaram as quilombolas Rosiene Santos (Quilombo Kalunga, GO), Shirley Pimentel (Quilombo Pedra Negra da Extrema, BA), Ana Cláudia Matos (Quilombo Mumbuca, TO), Gessiane Ambrósio (Quilombo da Rasa, RJ), Maria Páscoa Sarmento (Quilombo Barro Alto, PA) e Rita Lopes (Quilombo Rio Preto, TO). O diálogo também se entrelaça com os elementos do Cerrado, os pássaros, o vento, as árvores, o sol, os encantados e o som dos carros de um centro urbano onde a entrevista foi realizada. Nossa principal referência bibliográfica se sustenta em nossa ancestralidade, todos os quilombos e todas as pessoas que vieram, estão conosco e ainda virão. É uma referência de caráter existencial. Para alguns, este texto pode parecer conter erros ortográficos, mas as autoras decidiram manter a forma “Quilomboguês”, parafraseando Lélia Gonzalez (2020) ao se referir à maneira como a população negra se expressa no Pretoguês.
Quilombolas: Nos fale um pouco sobre o senhor. Quem é o Mestre Naldinho?
Mestre Naldinho: Eu sou Mestre Naldo. Arnaldo de Lima, mais conhecido como Mestre Naldo, Pai Naldinho, da comunidade quilombola de Custaneira, no município de Paquetá, no estado do Piauí, no centro-sul do Piauí. Sou nascido aos onze do onze de setenta e seis, mas no meu documento está onze do doze de setenta e sete. Sou filho do meu pai Oxóssi. Sou zelador de santo da Casa de Guerreiro Caboclo de Oxóssi, com os guias de encanteria Caboclo de Couro. Meu pai de cabeça é Lourenço Légua. Sou puxador de São Gonçalo. Sou cantador de Lezeira, de Reisado, de São Benedito, Samba de Cumbuca, de São Gonçalo. Sou puxador Incelência e tirador de visita. Rezo visita desde os meus 12 anos, desde os meus 9, 10 anos eu já respondia e cantava Incelência com as mulheres aqui. Eu tenho essa missão no meio da comunidade. Círculo por vários municípios aqui na região fazendo esse trabalho, essa missão. Eu tenho orgulho da minha cultura. O meu maior tesouro, a minha maior riqueza é poder cantar, poder sustentar, é poder manter viva, é poder repassar essa cultura tão forte que traz para o nosso povo uma educação para a vida. É uma satisfação sempre encontrar com pessoas nossas que buscam estar levando todas as informações de vida, todas as informações de educação social, ambiental, cultural para esse estado brasileiro. Eu acho que isso se faz necessário.
Quilombolas: O Nêgo Bispo falava que ele ensinava falando e o senhor ensinava cantando. O que isto significa? O senhor pode contar um pouco mais sobre isto?
Mestre Naldinho: O Nêgo Bispo, ele nasceu com a virtude do dom da oralidade. Ele vivenciou com todos os mais velhos e aquilo ali, toda a força ancestral de ensinamento, contribuiu na vida dele, passando essas energias de ensinar. Pra fala, pra tudo, em qualquer conversa, ele garantia falando. Nós, em nossos quilombos, temos pessoas que, muitas vezes, você vai falar, falar, e eles não entendem na fala. Mas se você falar cantando, eles entendem. Então, pra mim, cantar é uma forma de me comunicar com os meus, comunicar com a natureza e comunicar com o sagrado. O nosso povo tem todo esse universo dentro da comunidade. Tem pessoas que aprendem de uma forma, que aprendem de outra, mas que todo mundo aprende. E esse cantar, para mim, é ensinar duas vezes. Porque na fala vai a fala e vai a melodia, vai o tom ali dentro. Nossos mais velhos diziam para nós que quem reza cantando estava rezando duas vezes. Aí eu, para fazer de uma vez só em duas, aprendi a cantar.
Hoje [no Aquilombar] o Tambor de Crioula do Maranhão começou e os meninos puxaram uma cantiga de couro. Eu já tinha puxado uma mais cedo com eles, aí ele me chamou. Tinha ali seu Tensi, seu Inácio e outros bem mais velhos e me passaram o tambor e eu dei conta. Lá na Custaneira não tem Tambor de Crioula, mas como tudo que é cantado, por onde eu tenho passado, me agrega, eu guardo dentro da memória. Porque o aprender cantado é interessante. O aprender cantado, quem nunca aprendeu a ler e a escrever, aprende o saber cantado. Porque nós não canta só uma vez, nós canta no dia a dia, na vida da comunidade, na luta. Nós canta no nascer de uma criança, nós canta no preparar a terra, nós canta no colher, nós canta no plantar, nós canta no nascer e no morrer. Canta, canta, canta, que esse canto encanta e as pessoas aprendem.
Quilombolas: Mestre Naldinho, como é que se deu teu engajamento, teu envolvimento com o Movimento Quilombola?
Mestre Naldinho: O envolvimento com o Movimento Quilombola se deu a partir da participação das reuniões das comunidades eclesiais de base. A gente fazia parte e em [19]99 a gente se junta, se encontra no Grito da Terra, com Rosalina, com Nêgo Bispo, e ali nasce esse convite para participar dessa luta quilombola. Negros sempre fomos, nascemos negros e sempre fomos tratados como negros, mas não tinha o nome quilombo ainda, era comunidade de pretos. Os negros de Custaneira, os negros do Morrinho, era assim que era tratado, porque esse saber quilombola não tinha chegado pra nós, essa identificação. E no dia, na primeira oportunidade que tivemos, a gente já engaja dentro dessa luta. A gente já fazia essa luta pela forma que era tratada dentro das comunidades, com discriminação, com intolerância. Porque, embora sendo parte da comunidade eclesial de base, nós já era de terreiro. Nós não separamos. Lá tem a capela e tem o terreiro. Nós reza na capela, vem bater tambor no terreiro. Bate tambor no terreiro, sobe pra rezar na capela. Pra nós isso é normal. O povo que chega de fora, algum católico catequizado, às vezes ignora, aí é problema dele.
Quilombolas: O que é esse católico catequizado?
Mestre Naldinho: É aquele que é doutrinado dentro da igreja a fazer simplesmente o que o padre manda. E nós não faz o que padre, nem bispo, nem papa manda. Nós faz aquilo que pra nós é bom. Porque às vezes o que eles mandam não é bom pra nós. E aí nós vamos fazer? Aquilo que é bom pra nós é o que nós faz. E nós bota ele na roda. E não consegue nos encaixar. E tem hora que pra ele segurar de pé, eles têm que ir beber na fonte da nossa fé, porque se não for, não segura.
Tinha um que era missionário, estava já pra ser pastor, e ele começou a andar lá na comunidade. E aí, com uns três meses que ele começou a andar na comunidade, ele entregou o ministério dele e foi pro terreiro. E olha, com dois filhos pequenos, tinha um salário da igreja, e nós não demos nada a eles, só a roça pra trabalhar. Tinha uma moto pra andar montado, e aí eu dizia: “agora vai andar de pé, que eu não vou carregar tu no ombro.” (risos).
Quilombolas: E qual é o significado dessa expressão musical e corporal que é dançar a Leseira e Pisa na fulô na sua vida e na sua religiosidade?
Mestre Naldinho: É comunicar com nossos ancestrais e com a natureza através do canto, da melodia e da dança. Então, é uma comunicação. Nós reza a novena e dança a Leseira. O padre celebra a missa e dança a Leseira junto com nós. Então, não dá pra ter nenhum ato religioso dentro da comunidade sem ter a Leseira, sem ter o samba, porque é o complemento. Se assim não fizermos, ficou incompleto. O complemento de tudo é tocar o tambor. Porque essa Leseira, cada cantiga, ela traz a presença de nossos ancestrais. E sem a presença deles, nós não estamos completos.
Quilombolas: Como as novas gerações lidam com essas tradições do Quilombo Custaneira?
Mestre Naldinho: Olha, as novas gerações do Quilombo Custaneira me deixam orgulhoso hoje. Eu tenho uma irmã, uma negra muito bonita, e aí ela saiu para a cidade para estudar - a única que teve a oportunidade de estudar para fazer um curso. Nós só foi para aprender a ler - lá ela teve o filho de um médico, casou-se com ele, dois filhos. Ele tá fazendo medicina em Arcoverde, mas esse menino é ogã do terreiro. A filha mais nova tá estudando também, mas já é médium batizada do terreiro. Tô dizendo isso porque até esses meninos que tiveram uma cultura dividida, que é a cultura da mãe e a cultura do pai, o que prevaleceu pra eles foi a cultura da mãe, que é a do quilombo. Então, é só para dizer que as duas pessoas que podiam ter um distanciamento eram esses dois, mas são dos mais envolvidos. Eu tenho uma menina agora de 1 ano, vai fazer 2 anos em outubro, todo dia tem que ir pra casa de mamãe, pra mamãe cantar. O refrão de várias músicas, ela canta. Ela acorda cantando. Na televisão não tem que estar botando aquele desenho que hoje as mães, pra não ter trabalho com os filhos, bota na frente de uma televisão e deixa lá. Não. Ela quer assistir o Reisado, a Leseira, ela quer dançar. Então, a vivência, por ter logo lá, todo santo dia, numa roda de conversa, nós fala da importância da Leseira. Todo final de semana tem Leseira, tem São Gonçalo, tem Reis, tem samba e toda semana tem o terreiro. Então, no dia do terreiro, finaliza o terreiro com a roda. Então, é a vivência, é o dia a dia que faz com que fortaleça. Algumas comunidades lá no estado do Piauí estão na memória, não tem mais. Por quê? Porque a televisão chegou e aí eles trocaram a importância da roda de conversa pela novela. Foram fazer roda de conversa com as novelas, aí distanciam.
Quilombolas: Na tua opinião, o que as trajetórias das comunidades tradicionais quilombolas têm a nos ensinar e têm a ensinar para o mundo?
Mestre Naldinho: A vivência do dia a dia das comunidades, o valor cultural que eles cultuam e zelam até hoje. Toda essa luta pelo conhecimento, pelo reconhecimento, é importante que a academia, que a sociedade brasileira conheça o que é ser uma comunidade em comunidade, o que é ser uma comunidade de comunidade. É um grupo de pessoas que vive a irmandade, o respeito, a união, a partilha. Então, tudo isso precisa ser ensinado porque a gente não tá conseguindo ter isso mais hoje nas grandes cidades.
Quilombolas: Eu queria saber se a sua comunidade já é titulada, como anda a luta pelo território, como é que está esta questão?
Mestre Naldinho: A nossa comunidade, ela é feiticeira. O território, em alguns estados, não vai conseguir com facilidade porque o governo não quer. Toda dificuldade é de quem está no poder. Então, o Nêgo Bispo se sentou com a gente e eu dizia para ele: “Nêgo Bispo, está a compra de terra!” Nós botemos nos fazendeiros que tinham próximos, para vender a terra e compremo pelo banco. Se nós não pagar, nós não ia brigar com o fazendeiro, ia brigar com o Estado. Seria uma briga menos sangrenta. Não tinha sangue, assim como outros. Assim fizemos e deu certo. Estamos acabando de pagar. Porque o Estado estava comprando a terra. Os fazendeiros lá não estavam dentro. A gente sabia que a existência nossa lá dava garantia de direito. Mas não dá garantia de documento. E sem dar garantia de documento, o que isso vai ter validade pra nós? Assim como aconteceu com mãe Bernadette e outros aí. Não é pra dizer pro povo ter medo de lutar, não. É pra ser feiticeiro. Se no seu espaço dá pra fazer isso, passe a briga pro Estado. Ao invés de você brigar com o fazendeiro, briga com o Estado. Aí assim fizemos e conseguimos. Então, pra nós o território é de nossa garantia. O feitiço é tudo isso que você faz. Eu tô fazendo isso. Então o que nós fizemos foi um feitiço. E esse feitiço foi o maior feitiço que a comunidade já fez. Nós temos feito outros feitiços lá que a gente não vai dizer (risos).
Quilombolas: Nós, quilombolas, estamos na academia defendendo nossa existência também pelas escrituras. A pergunta agora é qual a sua orientação para a realização de pesquisas nos nossos territórios e segredos?
Mestre Naldinho: Então, nós recebemos vários pesquisadores dentro da comunidade. Eles, às vezes, saem da comunidade achando que tá sabendo de tudo da comunidade. Mas nós só diz aquilo que nós pode dizer. Nós só diz aquilo que não vai ter nada de implicação no que vai ser divulgado. Mas nem tudo a gente diz. Outro feitiço. Então o que eu digo para os quilombos é ter sempre esse cuidado de saber quem está pesquisando, o que está pesquisando e onde vai divulgar o que foi pesquisado. Então isso é preciso, que nós quilombola não levemos pela emoção e já mostramos tudo. Temos que dizer, é importante as pesquisas para as comunidades, desde quando o pesquisador seja humano e volte para dentro da comunidade e também traz dentro da sua pesquisa a defesa do que o quilombo tá precisando e faça valer isso.
Então, dentro da comunidade a gente domina as cantigas de Leseira, Samba de Cumbuca, Reisado, São Gonçalo, São Benedito, Tambor de Crioula e somos de Umbanda e Candomblé e católico. Bendito, sei mais de 200 benditos. Eu rezo para os santos que já foram consagrados e que ainda vão consagrar e nós rezamos tudo.
Quilombolas: O senhor falou agora sobre uma questão que a gente chama, dentro dos estudos sociais, de politeísmo. Tem a Umbanda, tem o Candomblé, tem os Benditos, tem o São Benedito... E Nêgo Bispo falava que nós somos também povos politeístas. E o que significa, então, para você transitar, caminhar, entre a igreja católica e o terreiro e entre todas essas outras religiões e modos de crer e ter fé?
Mestre Naldinho: Olha, aquilo que não é contra nós, desde quando não seja contra, é por nós. Então, dentro das comunidades não se conhecia a missa. O povo ia dentro da igreja batizar um menino e quando ia se casar. Era a vivência deles com a igreja. Com a comunidade é novena, é devoção. Então lá é uma comunidade que tem uma devoção. Então isso pra mim fortalece essa vivência com todas as rodas que a gente faz. Uma roda na novena. Novena pra nós é uma roda onde se junta todos pra rezar, festejar e celebrar aquele santo. Então, pra nós da comunidade, todo momento que a gente vive durante as festividades é um fortalecimento, é empoderamento pra nós. Mais uma vez eu digo, isso é pra nós, o outro vive do seu jeito, pensa do seu jeito, e aí, desde quando, que o jeito de pensar, o jeito dele viver não venha querer menosprezar a gente. Porque cada um sabe o valor do que tem pra você. Você sabe qual é o valor do que você tem lá na sua casa, na sua comunidade pra você. E eu sei o que é de valor pra mim. Então eu sei o valor do São Benedito pra mim. Porque eu cantar pra São Benedito, eu tô cantando com o Nego Francilo, eu tô cantando com Chicuta, e isso é trazer vivo os nossos ancestrais em nossa memória. Porque o nosso povo, como diga Nêgo Bispo, eles não morrem, eles deixam de estar aqui fisicamente conosco, mas espiritualmente, em cada cântico, até num feijão que Cota fazia, o jeito dela fazer o feijão é diferente. No dia que nós fazemos um feijão parecido com o dela, “esse feijão aqui só Cota fazia”. Então ela está comendo feijão conosco também e nós estamos comendo feijão com ela. É isso. Nêgo Bispo tá sempre no meio de nós. Toda vez que nós... Eu cantei no dia que ele morreu. Deu uma crise. Aí depois deu aquele vento. Aí eu parei de chorar. Bispo não quer que a gente chora direto. Chorar faz parte, mas direto não. Não pode. Aí eu fiz o cântico. [cantando] “Eu vi o vento ventar. Eu vi o vento ventar. Saravá pra Nêgo Bispo. Ele é Exu do Vento, Nêgo Bispo é mojubá”. Batizamos o Exu do Vento. Ele é o Exu do Vento! E ele vai trabalhar em nossos terreiros. Nós vamos dar comida para o Exu do Vento no nosso terreiro. Então, [cantando] “Eu vi o vento ventar, eu vi o vento ventar. Ele é Exu do Vento, nego o Bispo é Mojubá. Ele é Exu do Vento, Nêgo o Bispo é Mojubá”. Então, faltou uma estrofazinha assim, mas é isso gente. Mas aí me sustentou. No dia do sétimo dia dele, nós sambamos, dançamos, bebemos cachaça, que eu quase morri de beber lá. Bebi mais ele, é assim. Então é isso. Nós bebemos o morto, nós fazemos uma festa, nós comemos. E é comendo e dizendo que ele gostava de fartura, era disso. O povo quilombola é um povo diferenciado, não existe. O povo resistente, o povo feiticeiro, o povo macumbeiro, tudo isso é feitiço que nós faz.
Quilombolas: O que significa esse saber viver? Esse saber viver dentro do nosso território e fora do território?
Mestre Naldinho: O que é esse saber viver? Esse saber viver, pra mim, é eu trazer de tudo o que o dia me oferece, eu receber tudo isso com amor e com satisfação. Eu não querer hoje o que eu posso ter amanhã, porque eu não estou sabendo viver. Em vez de eu estar vivendo hoje com o que eu tenho hoje, eu estou sofrendo, pensando o que é que eu vou ter amanhã. Não sei se amanhã eu estou nem aqui. Então saber viver é viver o aqui e agora com satisfação, com alegria, com prazer. Hoje aqui está bom. Agora, o que é não saber viver? É estar aqui agoniado e ainda ter uma agenda aqui e lá. Nem estar aqui, nem estar lá. Você tem que estar aqui e sentir aqui, e que esse momento é aqui, o momento lá, aí a sociedade rebota tudo isso pra pessoa. Eu não tenho agenda, não ligo pra negócio de agenda. Quem é a agenda pra me dominar? Quem faz o tempo e a hora é eu. E pronto! Agora eu sou obrigado, eu cumpri a agenda, por que os outros cumprem? Eu chego na hora que der pra chegar. Vou chegando de mansinho e vou ocupando meu lugar. Chego na hora que der pra chegar. E pronto. Eu vou sofrer com isso? De jeito nenhum.
Nesse momento as sentições vieram mais fortes e todas que estavam na roda da entrevista choraram.
Quilombolas: Mestre Naldinho, qual o recado que o senhor tem para os antropólogos não quilombolas e agora também um recado para os(as) quilombolas antropólogos(as)?
Mestre Naldinho: Rapaz, eu não tenho lidado muito com esse nível de pessoa dentro da comunidade. Mas quero dizer que dentro das nossas comunidades nós já temos muito antropólogo. Já tem muito. É entender que quando vai chegar lá, pra falar com esse povo, é procurar quem são esse povo que já faz isso, para não ir entrevistar um ou outro sem ter a parceria, sem ter a permissão de quem já é antropólogo que está lá dentro da comunidade, fazendo isso há tempo. Então, é não entrar em nenhum espaço sem observar quem já está lá dentro. Em poucas palavras, estou dizendo isso. Porque muitas vezes acho que dentro da comunidade não tem um antropólogo, dentro da comunidade não tem um historiador, dentro da comunidade não tem um médico. E tem, lá tem o médico, lá tem o professor, lá tem o historiador. Não estão eles com o currículo escolar, com o diploma escolar, mas tá lá fazendo muito bem isso na prática. Então, dentro da nossa comunidade, eu digo isso. Eu estava numa novena de São João, aí rezei a novena toda de cor, cantei os benditos, ofereci. E aí, quando terminei, um jovem foi apresentado pela comunidade e ele pediu pra falar. Era um médico que tinha acabado de se formar. E ele se exibiu: “Sou médico, estou aqui pra cuidar de vocês. Me formei na capital, de lá podia ter ido mais pra frente, mas estou aqui porque penso em vocês”. Pensando na política. E ele em pé do meu lado. E eu só tinha dito, louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, e o povo também louvaram e amém. Quando ele terminou de falar, eu digo, “opa, eu quero falar”. O senhor é médico e eu também sou. Respeito e devemos respeitar o fundamento acadêmico, mas exigimos o respeito de nossa vivência, de nosso aprendizado, de nossa cultura e de nossa história. E eu ainda sou mais do que o senhor. Porque o senhor consulta um paciente, isso em voz alta pra todo mundo, e passa uma receita. E eu consulto e já passo é o remédio que eu mesmo sei fazer. Então é essa autoestima que todas as comunidades quilombolas têm que zelar. Tem que fazer com que essa história de chegar uma pessoa dentro de um quilombo e só achar... O povo vai sofrendo quando vão para a comunidade. “Ih, jogou para um quilombo, oh meu Deus, é sofrido isso, aquilo outro”. É nada. Nossos quilombos são rico de sabedoria, rico em tudo. Nós não somos pobres, não. Nunca fomos. Se nós não comemos os enfeites que eles comem aqui, é porque nós temos a consciência de que muito enfeite que tem aqui não é bom, não é saudável. É isso.
Quilombolas: Isso é a mais verdadeira verdade, mestre. Mestre, a gente tá aqui num momento político, num movimento quilombola. Mas antes de existirem esses movimentos, essas entidades representativas, existir a CONAQ, existir a Associação Quilombola, nós sempre tivemos as nossas lideranças dentro dos nossos territórios. Quilombo é anterior a tudo isso. Mas boa parte dessas lideranças tradicionais estão fazendo a passagem para a ancestralidade e novas lideranças estão se formando. Quais são as suas expectativas para esse movimento quilombola, essas novas lideranças? Como é que o senhor enxerga essa situação?
Mestre Naldinho: Eu vejo uma preocupação. Porque a nova liderança que estão formando não carrega com ela o saber ancestral. Por exemplo, chama a CONAQ e, de toda a cúpula da CONAQ que está aí, que eu faço parte no meu estado, mande eles cantarem ou fazerem alguma coisa. De 20 conaquianos que tem aí, se tiver é dois que sustenta um cântico na oralidade. Isso é bom? Se eles da CONAQ não têm essa garantia, não carrega esse saber ancestral, eles vão ensinar pra quem? Aí as outras lideranças que vêm, todas vêm porque se formou, porque tem isso e aquilo outro, mas não tem o maior saber que é o pertencimento, o ligamento com a ancestralidade. Os encontros nacionais tinham mais cultura. Cadê agora? Era um grupo saindo e outro entrando. Não parava o tambor. Eu estou observando isso. No outro Aquilombar teve mais apresentação. Eu fiquei, assim, triste, porque quando os senhores começaram a cantar, de manhã, quando eles cantaram o tambor, um menino que me conhecia chamou e pediu para eu cantar. E aí eu peguei o microfone e ninguém me pediu mais. Cantei até a hora de parar. O que eu sabia eu cantei, o que eu não sabia eu inventei na hora e foi tudo cantado. Inventado e tudo. Mas depois que eu saí, eu digo: “Cadê os grupos? Cadê os grupos?”. Então, a cultura é a nossa identidade. Um ato como esse, ela tem que estar ali tocada todo o tempo. Tem que estar se preocupando em comer não. A cultura também enche a nossa barriga. A gente nem sente fome estando na roda do tambor. Então, eu tenho essa preocupação no futuro. Hoje, o Nêgo Bispo se foi. Bispo tinha um sonho de Norberto ficar um mês comigo, o neto dele. Toda vida ele dizia, no encontro de terreiro ano passado ele levou, “Olha, Naldinho, Norberto tem que passar um mês contigo. Porque depois que ele passar um mês, ele vai querer passar mais. Então ele tem que ficar junto de ti pra aprender”. Joana já me ligou! “Naldo, Norberto, nas férias, já tá de bolsa arrumada, que vai pruntá tu”. Cumpri o pedido de Bispo. Isso é bonito. Não foi com ele vivo, mas vai. Então isso é muito bonito. Mas pra pensar como Joana, são poucos os que pensam. Infelizmente são poucos. Então é isso. Eu tenho essa preocupação.
Mãe Bernadette, ela tinha um desejo de nós fazer uma revista. Eu e ela. Pedi recurso à Conaq, nós sentemos com algumas pessoas da Conaq para fazer uma revista sobre os primeiros socorros dentro de uma comunidade. As rezas de imediátra, que é de dismentidura, que é de espinhela, dor de cabeça, sol, sereno, dor causada num lugar. Essas rezas assim, básicas. E nós sentemos e aí ela se foi. Quem da comunidade dela sabia dessas rezas? Ninguém. Pois nós sentemos, eu e ela, pedimos a Biko. “Ó, meu filho, você tá vendo? Tá vendo? Olha, eu e o Naldinho, vamos fazer as rezas”. De duas palavras a reza de dor de intrusidade. Você pega, tá com a dor no peito pras costas? Pega o chinelo esquerdo [fazendo o gesto], aí reza em cruz, “Deus é o sol, Deus é a lua, Deus é a flor da claridade. Larga fulano e vai pro mar, dor da intrusidade”. Reza três vezes, reza um Pai Nosso, uma Ave Maria, Salve Rainha, oferece Nosso Senhor do Desterro para desterrar, tirando do corpo, da carne, dos ossos, do sangue daquela pessoa aquela mazela. Então é isso. E aí a gente, cadê? Eu tenho vontade, mas...
Desmentiu o pé? A pergunta: “o que que eu coço?” A pessoa responde: “carne quebrada, nervo tosto, nervo rendido, nervo esfiapado, esse mesmo é o coço. São Fustuoso, Ave Maria Cheia de Graça. Fui em Roma e encontrei com São Damião. São Damião Solda, São Fustuoso Cosme. Esse mesmo é o coço, São Fustuoso, Ave Maria Cheia de Graça”. Benzeno. Aí pergunta de novo. Com uma pedrinha de carvão apagada ou com três torrãozinhos, três carvão, três torrão ou três caroços de milho. Rezando de um a um, costurando aqui e tudo. Depois joga no fogo. Então é isso. O povo diz: “ah, que não pode ensinar que fica fraca”. Fica fraca é se morrer e levar tudo. Aí não fica fraca não, vai acabar. Nós fazemos esse ano [2024], 7, 8 e 9 de junho, o oitavo Encontro de Terreiro Quilombola dentro do quilombo Custaneira. Vem gente de todo canto. Durante o dia, discussão. O que é o terreiro? Onde eu encontro um terreiro? O que o terreiro traz de benefício para a comunidade? Qual é o empoderamento que o terreiro traz aos seus religiosos? Quem é de terreiro? O povo acha que ser de terreiro é só quem tem um espaço que bate tambor, e não é. Onde, em qualquer quilombo, onde se encontra um griô que reza, ali é um terreiro. Ali são tudo prática de nosso saber ancestral de matriz africana. Então o terreiro não é só o tambor. Quem é de terreiro nessa pergunta? É a pessoa que sabe lidar com a natureza, que sabe fazer as garrafadas. Ele é um mestre, ele tem um saber ancestral. E no terreiro, a folha é pro banho, a casca é pro remédio, é pro banho também. Enfim, toda a natureza, ela é necessária para poder fazer todos os rituais de um terreiro. Um terreiro que não tem acesso à natureza, aí hoje a religião de matriz africana é de todo mundo. Aí a pessoa que tem um terreiro em cima de um prédio desse “é de matriz africana”. Aí hoje é assim, bota um terreiro, o terreiro começa de chão batido, vai arrumando condição, aí vai sofisticando esse terreiro. Quando cuida que não, o terreiro já tá lá em cima, no derradeiro andar. Cadê a essência da terra? Nosso trabalho é nessa desconstrução desse povo que vem manchando a religião de matriz africana. Religião de matriz africana não é isso aí não. Religião de matriz africana é aqui ó [apontando para o chão] terra, é as folhas, é o sagrado, está aqui. Quem é Xangô? É a pedra. Quem é o Oxóssi? É a mata. Aí em cima de um prédio desse aí diz que tá com caboclo, tá com orixá, tá com isso e aquilo outro. Só fantasia. O terreiro de matriz africana é um gasto que você precisa ver. Nossos pretos velhos vestiam roupinha de saco, amarravam a cabeça e iam bater tambor, rapaz. É assim. Agora, hoje, o sistema tá fazendo toda essa mudança e perdendo a força. Perde a força.
Quilombolas: O Nêgo Bispo nos disse que o que ele ensinava no falar o senhor ensinava no cantar. Como são as artimanhas do ensinar cantando? O senhor pode dar um recado pra gente cantando?
Mestre Naldinho: Posso. [cantando] “Eu quero ver, eu quero ver, eu quero ver. Eu quero ver como é que vai fazer. Eu quero ver se você não se mexe, meu irmão, quero ver quem se mexe por você. Eu quero ver se você não se mexe, meu irmão. Quero ver quem se mexe por você. Tem muita gente que da vida não se importa. Que esse mundo pode até se revirar. É um engano, ele entra pelo cano, quem não luta esse ano no outro tem que lutar. Eu quero ver, eu quero ver, eu quero ver, como é que vai fazer. Eu quero ver se você não se mexe, meu irmão, quero ver quem se mexe por você.”
