O dossiê Comunidades Afro-diaspóricas e Trabalho resulta de um esforço coletivo de antropólogas e antropólogos que realizaram pesquisa em momentos distintos nos últimos 15 anos, e depararam-se com a potência conceitual do trabalho e de suas relações vitais - socioeconômicas, cosmológicas e cosmopolíticas, familiares e comunitárias - na América Latina e no Caribe contemporâneos. Peru, Colômbia, Haiti, Jamaica e Porto Rico são os contextos em que as etnografias foram conduzidas.
Os estudos sobre as comunidades afrodescendentes representam hoje um campo consolidado na antropologia Latino-americana e do Caribe. Entre esses estudos, o trabalho tem sido uma temática destacada e através da qual a antropologia vem indagando as formas como essas comunidades constroem suas vidas, mais ainda ao levar em conta que se trata de experiências relativas a situações de precariedade social e processos históricos de colonização e escravização. A indagação sobre escravidão e trabalho, ou sobre o legado da escravidão, têm sido uma constante nas pesquisas. Vale mencionar Eric Williams, historiador de Trindade e Tobago, que no clássico livro Capitalismo e Escravidão, publicado pela primeira vez em 1944, fruto de sua tese de doutorado defendida na Universidade de Oxford, argumentou, com base em pesquisa rigorosa, que a escravidão negra nas plantations das Américas - um complexo de exploração do trabalho e produção econômica para o comércio atlântico - foi central na formação do capitalismo industrial na Inglaterra, entre os séculos XVIII e XIX. A tese de Eric Williams, datada da primeira metade do século XX, enquanto contribuição historiográfica original, teve incidência decisiva nas pesquisas conduzidas no amplo campo dos estudos caribenhos, que prosperou entre 1950 e 1960 (Scott 2004), e na antropologia do Caribe.
No que se refere à antropologia do Caribe, é justamente no enfoque sobre as economias da plantation, os modos e relações de trabalho produzidos aí e em suas brechas - quintais, monte, terras de uso comum usadas na produção de excedente e na comercialização em feiras pelas mulheres afro-caribenhas -, e sobre a emergência de campesinatos no período pós-escravidão - entendido menos como “categoria tipológica”, e mais como “processo” (Mintz 2010 [1979]:1) que floresceu a obra de Sidney Mintz. O antropólogo estadunidense, a partir dos anos 1950, engaja-se em um amplo projeto de pesquisa em Porto Rico,1 e, depois, passa a se dedicar a estudos antropológicos e históricos na “região do Caribe”, a qual, nas palavras de Michel Rolph-Trouillot (2018 [1992]), antropólogo haitiano com quem Mintz compartilhou reflexões e escritos, se configura como uma “fronteira aberta” da nossa disciplina. Para Mintz, a discussão sobre a emergência de campesinatos no Caribe se articula a configurações espaço-temporais caracterizadas por suas singulares histórias, estruturas de classe, padrões de uso da terra, populações e ritmos, ainda que tais configurações indicassem a existência de sociedades de “um certo tipo geral” (Mintz 2010 [1979]; Cunha 2011). Como já dito, Mintz, inicialmente realizou pesquisa antropológica com trabalhadores rurais (debatendo a proletarização) em Porto Rico, e, posteriormente, a partir dos anos 1970, elabora uma discussão que retorna as histórias particulares da plantation para descrever e refletir acerca da formação de campesinatos. O que o autor buscava discutir ao fazer esse recurso a tempos e lugares específicos? Quais são as consequências analíticas disso? Por ora queremos responder que este dossiê é em grande medida inspirado pelo legado teórico e metodológico deste autor, e que será possível para os leitores e as leitoras perceberem o peso de sua obra nos artigos que seguem.
Na antropologia, o conceito de trabalho é analisado de forma ampla e variada, considerando não apenas a produção econômica, mas também as dimensões sociais, culturais e simbólicas que o envolvem e contribuindo para a compreensão de como o trabalho se relaciona com identidades, práticas culturais, cosmologias, relações de poder, criação de formas contemporâneas de perpetuação da desigualdade (por exemplo, o trabalho informal), e com formas de agência que possibilitam garantir o presente e/ou planejar o futuro. Inclusive nas situações de grande exclusão sócio racial, as etnografias demonstram, como também argumentou Sidney Mintz (2010), que o trabalho pode ser retratado como uma maneira de dar sentido à vida, uma fonte de orgulho e de realização da autoestima para os sujeitos. Neste dossiê pretendemos contribuir na compreensão de como se configuram as relações de trabalho para comunidades afrodescendentes, analisando os modos como os sujeitos experimentam, percebem e significam suas atividades laborais.
Alguns dos trabalhos aqui referidos destacam como a informalidade do trabalho, as condições laborais, as redes de solidariedade e economias inventivas revelam estratégias existenciais e coletivas, muitas vezes criando espaços de resistência cultural e de renda pessoal, familiar e sua redistribuição. Enfocam a intersecção entre raça, classe e gênero, analisando como essas categorias se interconectam à experiência do trabalho. Ou seja, pensar o trabalho, desde as etnografias aqui apresentadas, é adentrar em um universo complexo através do qual é possível examinar questões fundamentais para nossa disciplina: ancestralidade, relações raciais, racismo, relações de gênero, classe social, religiosidade, migração, família, globalização, comércio e noções de pessoas. Deste modo, o dossiê constitui um conjunto de dados etnográficos diversificados que sugerem refletir não somente como as pessoas trabalham, senão as diferentes formas em que partilhamos o trabalho como modo de nos fazermos pessoas, construindo as relações com quem já o fez, e o mundo - presente e por vir - daqueles que fazem parte e poderão fazer.
Entre as temáticas abordadas neste dossiê temos mulheres palenqueras que vendem doces e empreendem “pequenas” migrações; campesinatos negros peruanos e seu trabalho com a terra nas proximidades da antiga fazenda; comerciantes rastafaris que constroem seu self através da venda e consumo de certos alimentos; o trabalho ritual de pessoas dominicanas que migraram a Porto Rico como forma de levantar seus sustentos e os de suas famílias e gerar sua força vital; mães haitianas comercializam para manter suas famílias e gerem a circulação e a distribuição no espaço doméstico e público de mercadorias e outros bens. Apresentam-se desta forma diferentes formas e conceitos de trabalho como um projeto transversal do dossiê, tendo o comércio como um importante fio que atravessa as etnografias.
Iniciamos o dossiê com o estudo de Carlos Eugenio Reyes Gálvez que tem por Los palaneros de Chacupe. Memoria de una hacienda, pesquisa realizada na comunidade rural afro-peruana de Capote, situada na região costeira do norte do Peru. O artigo explora a história e a memória da comunidade afroperuana de Capote. A análise centra-se nos palaneros, trabalhadores rurais que se identificam como peões e residentes da antiga hacienda Chacupe. Com o tempo, muitos se tornaram proprietários de pequenas parcelas de terra. O texto analisa suas experiências e memórias, destacando o “tempo do patrão”, uma época em que grandes proprietários de terra dominavam a região. A hacienda, uma instituição de monocultura, foi central na produção de açúcar e arroz, utilizando mão de obra escrava e, posteriormente, trabalhadores assalariados. A reforma agrária do século XX transformou esse cenário, levando à criação de cooperativas agrícolas e, eventualmente, ao parcelamento das terras. Hoje, os desafios enfrentados pelos descendentes dos palaneros incluem a gestão de recursos hídricos limitados e a pressão de grandes investidores sobre as terras. A etnografia destaca a importância da memória coletiva e das práticas de resistência e cooperação entre os trabalhadores rurais.
O artigo seguinte de Fernando Vieira de Freitas, No-boss but the I-man: O comércio de alimentos e a construção da noção de pessoa entre os Rastafári Bobo Shanti na Jamaica, explora a noção de “pessoa correta” entre os Rastafári Bobo Shanti nesse país, destacando a relação entre o comércio de alimentos I-tal e a construção dessa identidade. A venda de produtos alimentícios, incluindo cannabis, por comerciantes Bobo Shanti, articula duas dimensões centrais: a autonomia do trabalho, associada à ideia de trabalho sem chefe, e a dieta I-tal, que enfatiza alimentos naturais e não processados. A construção da “pessoa correta” é um processo complexo que envolve práticas laborais e alimentares, refletindo como os Bobo Shanti vivem o Rastafarianismo. O artigo também aborda como as relações de gênero influenciam a corporalidade Rastafári, destacando a ausência das mulheres no comércio e as restrições impostas a elas, especialmente em relação à alimentação e à participação em rituais. A pesquisa sugere que, enquanto o trabalho autônomo é central para os homens, as mulheres são mais associadas ao cuidado doméstico, refletindo uma divisão de papéis baseada em interpretações religiosas e culturais.
O artigo subsequente, de autoria da Alline Torres Dias da Cruz, Trabalhar os Mistérios: parentesco, dom e pagamento entre imigrantes da República Dominicana em Porto Rico, explora as complexas relações entre imigrantes dominicanos e os espíritos do vodu, adentrando no universo dos “mistérios”. A etnografia revela que, para essas pessoas, o engajamento com os mistérios é visto como um dom herdado dos antepassados, mas que requer um compromisso diário que vai além dos laços familiares. As práticas espirituais, como acender velas e oferecer alimentos aos espíritos, são formas de fortalecer tanto os humanos quanto os espíritos, criando uma reciprocidade vital. O artigo discute como essas práticas se entrelaçam com transações comerciais, onde o pagamento monetário pelos serviços espirituais é essencial, destacando a complexidade das relações entre dom e mercadoria. A relação entre trabalho e mistério é fundamental aqui, oferecendo pistas para a compreensão do trabalho em universos contemporâneos.
Notas sobre a gestão do comércio, da casa e do sangue no Haiti central, de autoria de Felipe Evangelista Andrade Silva, aborda a gestão do comércio, da casa e do sangue no Haiti central, com foco em mulheres comerciantes em uma vizinhança rural no Plateau Central. A etnografia explora as conexões entre atividades comerciais e redes de parentesco e vizinhança. O sistema de comércio haitiano é dividido entre circuitos de exportação e comércio interno, com destaque para o papel das mulheres no comércio de alimentos e produtos têxteis de segunda mão, conhecidos como “pèpè”. As mulheres, especialmente as “machann” e “madanm sara”, desempenham papéis centrais na economia popular, enfrentando desafios como a escassez de capital e a necessidade de crédito. A gestão dos recursos domésticos e comerciais é complexa, envolvendo práticas de compartilhamento e estratégias para evitar que o dinheiro “estrague”. A maternidade e a gestão do sangue são temas centrais, com ênfase na importância da consanguinidade e na mobilidade das crianças como parte da formação pessoal e social.
O último capítulo do dossiê, de Maíra Samara de Lima Freire, “Levanté mis hijos, mi mamá me levanto”: o comércio de doces das palenkeras, centra-se no trabalho das mulheres de Palenque de San Basilio, território negro habitado por descendentes de cimarrones, localizado no município de Mahates, no estado de Bolívar, no Caribe Colombiano. Foca as mulheres negras que comercializam doces e frutas como seu principal sustento econômico familiar. Na intersecção entre raça, classe e gênero, a autora analisou como essas categorias afetam a experiência do trabalho que impactam suas oportunidades no mercado de trabalho e em suas experiências cotidianas. O investimento etnográfico revela como as mulheres negras utilizam o deslocamento e a circulação por diversas cidades colombianas e países fronteiriços como estratégia de geração de renda. O comércio de doces, além de ser uma tradição transmitida entre gerações, é uma forma de resistência e protagonismo social, permitindo que as palenqueras sustentem suas famílias e invistam na educação dos filhos. O artigo também discute as dificuldades enfrentadas com o racismo e as condições extenuantes de trabalho, ressaltando o exercício dessas mulheres em sua busca por autonomia no comércio e a importância da gestão eficaz dos recursos para o sustento familiar.
Finalizamos este texto de apresentação agradecendo aos/às autores/as, pareceristas ad hoc e à equipe editorial da Revista Mana a colaboração e o engajamento para a realização deste trabalho coletivo.
Referências
- CUNHA, Olivia. 2011. “Multiple effects: on themes, relations, and Caribbean compositions”. Review: A Journal of the Fernand Braudel Center, 34 (4):391-405.
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MINTZ, S. W. 1978. “Was the Plantation Slave a Proletarian?”. Review (Fernand Braudel Center), 2 (1):81-98. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/40240791
» http://www.jstor.org/stable/40240791 - MINTZ, S. W. 1988. Taso: trabajador de la caña San Juan: Ediciones Huracán.
- MINTZ, S. W. 2010. O poder amargo do açúcar: produtores escravizados, consumidores proletarizados 2ª edição revista e ampliada. Recife: Editora Universitária UFPE.
- SCOTT, David. 2004. “Modernity that predated the modern: Sidney Mintz’s Caribbean”. History Workshop Journal, 58: 191-2010.
- TROUILLOT, Michel Rolph. 2018 [1992]. “A região do Caribe: uma fronteira aberta na teoria antropológica”. Afro-Ásia, 58:197-232.
- WILLIAMS, Eric. Capitalismo e Escravidão 2012 [1944]. São Paulo: Companhia das Letras.
Nota
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1
“Cañamelar: the subculture of a rural sugar plantation proletarian” foi publicado como capítulo de livro em Steward, Julian et al. (1956) The People of Puerto Rico, e deriva da tese de doutorado inédita de Sidney Mintz, defendida em 1951, na Columbia University. Publicado originalmente em inglês, sob o título Worker in the Cane, em 1960, a edição em espanhol deste livro foi lançada pela Colección Clásicos Huracán em 1988, quase 30 anos depois.
