Resumo
Este estudo buscou analisar a produção de conhecimento da pós-graduação em Educação Física no Brasil sobre as ginásticas de competição por meio das teses e dissertações. Para isso, realizamos uma busca pelas produções diretamente em bancos de dados, como o Portal Domínio Público, o Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES e nas Bibliotecas Digitais das instituições de ensino responsáveis pela oferta dos programas de pós-graduação stricto sensu. A amostra contou com 64 estudos. Os resultados destacam a centralização das Regiões Sul e Sudeste na produção de conhecimento sobre as ginásticas competitivas. A ginástica artística e a ginástica rítmica são as mais pesquisadas. Observamos com maior frequência as pesquisas qualitativas (f=39), direcionadas à subárea pedagógica (f=21) e sociocultural (f=13). Com base nesses dados, identificamos lacunas em temas e modalidades ginásticas que demandam investimento na produção de conhecimento para que seja possível impulsionar mais significativamente o desenvolvimento dessas modalidades no país.
Palavras-chave
Educação de Pós-Graduação; Ginástica; Bibliometria; Educação Física e Treinamento
Abstract
This study aimed to analyze the knowledge production of postgraduate studies in physical education in Brazil regarding competitive gymnastics through theses and dissertations. To achieve this, we conducted a search for productions directly in databases such as the Public Domain Portal, the CAPES Theses and Dissertations Catalog, and in the Digital Libraries of educational institutions responsible for offering stricto sensu postgraduate programs. The sample comprised 64 studies. The results highlight the concentration of knowledge production on competitive gymnastics in the South and Southeast regions. Artistic gymnastics and rhythmic gymnastics are the most researched. Qualitative research (f=39), focused on pedagogical (f=13) and sociocultural (f=21) subareas, was observed more frequently. Based on these data, we identified gaps in gymnastics themes and modalities that require investment in knowledge production to significantly boost the development of these modalities in the country.
Keywords
Postgraduate Education; Gymnastics; Bibliometrics; Physical Education and Training
Resumen
Este estudio examinó la producción de conocimiento de la posgrado en educación física en Brasil sobre las gimnasia de competición a través de las tesis y disertaciones. Para ello, realizamos una búsqueda de producciones directamente en bases de datos como el Portal del Dominio Público, el Catálogo de Tesis y Disertaciones de CAPES y en las Bibliotecas Digitales de las instituciones responsables de ofrecer programas de posgrado stricto sensu. La muestra consistió en 64 estudios. Los resultados resaltan la centralización en el Sur y Sudeste en la producción de conocimiento sobre las gimnasia competitivas. La gimnasia artística y la gimnasia rítmica son las más investigadas. Se observó con mayor frecuencia la investigación cualitativa (f=39), enfocada en las subáreas pedagógicas (f=13) y socioculturales (f=21). Identificamos lagunas en temas y modalidades de gimnasia que requieren inversión en la producción de conocimiento para impulsar significativamente el desarrollo de estas modalidades en el país.
Palabras clave
Educación de Posgrado; Gimnasia; Bibliometría; Educación Física y entrenamiento
1 INTRODUÇÃO
O universo da ginástica pode ser entendido com base na proposta dos campos de atuação apresentada por Souza (1997), que classifica as ginásticas como demonstrativa, de condicionamento físico, de conscientização corporal, fisioterápica e de competição. Este último campo contempla todas as modalidades competitivas e entre elas, estão as regulamentadas pela Federação Internacional de Ginástica (FIG): a ginástica artística (GA), a ginástica rítmica (GR), a ginástica acrobática (GAcro), a ginástica de trampolim (GT), a ginástica aeróbica (GAer) e o parkour.
Nesse cenário, como demonstram os portais de notícias, o Brasil vem conquistando relevância internacional nas últimas décadas, especialmente pelos resultados obtidos na GA e GR em etapas de copas do mundo, campeonatos mundiais, Jogos Pan-americanos e Jogos Olímpicos (Castro, 2023; Pereira; Dillon; Romera, 2023; Vacchioli, 2023). Atualmente, estas modalidades são as mais difundidas e ocupam um lugar de destaque nas produções científicas nacionais (Oliveira et al. 2021; Pereira; Andrade; Cesário, 2012). Dada a importância das ginásticas competitivas no cenário nacional, se faz necessário estabelecer reflexões críticas sobre as relações entre a produção científica e o desenvolvimento das modalidades ginásticas de competição no Brasil.
No universo acadêmico-científico é amplamente discutido a relação entre teoria e prática, bem como é consensual que a origem, o desenvolvimento e a realização da teoria ocorrem na prática, enquanto a prática encontra seus fundamentos de existência e transformação na teoria (Antunes, 2008; Barros et al., 2020; Souza, 2001). Compreendemos que o campo científico se apresenta como um caminho indispensável para diagnosticar e descrever as demandas do contexto esportivo e propor fundamentação, discussão e inovação para seu o desenvolvimento. Dessa forma, conforme alertam Viveiros et al. (2015), é importante refletir sobre a existência ou não da transferência do conhecimento científico para a prática.
Ao adentrarmos a produção de conhecimento científico em Educação Física no Brasil, percebemos a sua forte relação com o desenvolvimento da pós-graduação stricto sensu no país. Lüdorf e Castro (2017) descrevem os programas de pós-graduação como celeiro dos estudos que promovem inovação, aprofundamento de tópicos centrais para o campo da Educação Física e o repensar de práticas e intervenções. Desse modo, a produção de conhecimento na área da Educação Física no Brasil tem sido modificada pelo aumento quantitativo e qualitativo dos programas de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado (Breschiliare et al., 2021; Tani, 2016). Ademais, esse processo formativo também fomenta a produção científica, uma vez que faz parte do percurso acadêmico a posterior veiculação dos resultados de teses e dissertações no formato de artigos em periódicos científicos.
Considerando a importância e configuração da produção científica promovida, em sua maioria, no cerne dos programas de pós-graduação em Educação Física (PPGEF) no Brasil, algumas investigações já se propuseram a analisar a presença da ginástica em teses e dissertações. Esses trabalhos são pertinentes porque, a partir de suas análises e avaliações, podemos identificar o que vem sendo produzido em uma determinada localidade do país (Lima et al., 2016b), em uma modalidade ginástica específica (Nunes; Moraes; Marchi Júnior, 2021) ou em um contexto de intervenção particular (Oliveira; Barbosa-Rinaldi; Pizani, 2020). Contudo, a falta de uma análise aprofundada, articulada e atual, dificulta o entendimento de quais são as tendências, os avanços e os limites das produções sobre ginásticas de competição nos PPGEF no Brasil. A constante atualização desse panorama é imprescindível para os debates acadêmicos, grupos de pesquisa e pesquisadores da área, lançando um olhar para o caminho trilhado e para as necessidades futuras do campo interventivo.
Portanto, este estudo tem como objetivo analisar a produção de conhecimento da pós-graduação em Educação Física no Brasil sobre as ginásticas de competição por meio das teses e dissertações. Mediante essa análise, buscamos detalhar um panorama que contemple o fluxo e volume de estudos ao longo dos anos, a relação entre os programas e as modalidades ginásticas, as características metodológicas, as subáreas de pesquisa e os principais temas investigados.
2 METODOLOGIA
Como método para conduzir o estudo, adotamos o estudo do tipo documental. Como fonte de dados, recorremos às teses e dissertações produzidas no período de 1980 até 2020 nos PPGEF do Brasil. O recorte temporal estabelecido se justifica pela consolidação dos programas de pós-graduação no Brasil a partir da década de 1980 (Brach et al. 2012) e pela necessidade de visualização do panorama amplo e atualizado.
Inicialmente, realizamos uma busca pelas produções diretamente nos seguintes bancos de dados: Portal Domínio Público, Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES e nas Bibliotecas Digitais das instituições de ensino superior responsáveis pela oferta dos programas de pós-graduação stricto sensu. Atualmente no Brasil, existem 36 cursos de pós-graduação em Educação Física em nível de mestrado e doutorado (CAPES, 2023). A produção foi coletada em 31 deles, visto que em cinco não foi possível em função da sua criação ser recente e não ter nenhuma produção disponível até a data da busca.
Após a busca das teses e dissertações em Educação Física, optamos por elaborar um banco de dados próprio visando explorar um mecanismo de busca que pudesse facilitar a organização e localização das produções1. Assim, todas as teses e dissertações dos PPGEF foram baixadas e organizadas por pastas de acordo com as instituições de ensino superior de origem e os anos de publicação (totalizando 7693 estudos). De forma complementar, todas essas produções foram catalogadas em uma planilha com auxílio do software Microsoft Excel, contendo informações como: título do estudo, autor, ano de publicação e programa de pós-graduação.
A partir dessa planilha foi possível realizar a seleção de teses e dissertações que tematizaram a área da ginástica por meio da busca pelas palavras-chave no título das produções: “ginástica”, “ginásticas”, “gímnica”, “gímnicas”, “gímnico”, “gímnicos”, “ginasta”, “ginastas”, “ginástico” e “ginásticos”. Após a seleção pelos termos específicos, encontramos 130 estudos da área da ginástica2. Depois disso, realizamos a leitura dos títulos e resumos dessas produções para selecionar apenas as que tratassem do campo de atuação das ginásticas de competição (totalizando de 66 estudos). Por fim, realizamos a exclusão das produções que não tivessem o texto disponível na íntegra, constituindo uma amostra final de 64 estudos. O detalhamento do processo pode ser visualizado na Figura 1.
Diante da amostra final, a caracterização do panorama das teses e dissertações considerou os seguintes aspectos, definidos a priori: (1) volume de produções por ano, (2) instituição de ensino superior de origem do PPGEF e modalidades ginásticas investigadas, (3) local de origem dos estudos e locais de coleta de dados, (4) desenhos metodológicos dos estudos (abordagem, procedimentos de coleta e públicos investigados), (5) predominância de subáreas de pesquisa de acordo com as instituições de ensino superior, (6) frequências das palavras-chave empregadas nos estudos e (7) mapa de coocorrência das palavras-chave.
Para a elaboração do mapa de coocorrência recorremos a análise proposta pelo software de análise bibliométrica VOSViewer (versão 1.6.20). Nos demais dados, utilizamos a técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2016) e a estatística descritiva. Com relação as subáreas de pesquisa, utilizamos a categorização apresentada no estudo de Oliveira et al. (2021), que classifica as produções da pós-graduação nas categorias: biodinâmica, atividade física e saúde, estudos socioculturais, estudos pedagógicos, estudos psicológicos, gestão e políticas do esporte e lazer, aprendizagem e controle motor e formação profissional. Em cada subárea, destacamos exemplos de unidades de significado que representassem os temas dos estudos.
O processo de definição amostral das teses e dissertações e de extração dos indicadores analisados seguiram os procedimentos de revisão por pares. Deste modo, dois pesquisadores realizaram os mesmos procedimentos buscando um consenso entre o corpo de dados.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
O fluxo e o volume de teses e dissertações por ano produzidas nos programas de pós-graduação em Educação Física no Brasil estão ilustrados na Figura 2. A partir dessa representação, percebemos que a partir da 2010 está concentrado o maior número de produções.
O aumento do quantitativo das teses e dissertações ao longo do tempo é evidenciado também por estudos que mapeiam a produção científica na Educação Física de forma geral (Bracht et al., 2012; Lüdorf; Castro, 2017). Este processo é guiado, sobretudo, pelo expressivo aumento quantitativo de programas de pós-graduação no Brasil e fomento à pesquisa científica (Wiggers et al., 2015; Tani, 2016).
A Figura 3 apresenta a relação entre as modalidades ginásticas tematizadas nos estudos e a instituição de ensino superior de origem do PPGEF. Ao todo, 16 programas de pós-graduação foram identificados com produções sobre ginástica de competição, oriundos das seguintes universidades: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), programa associado da Universidade Estadual de Maringá e Universidade Estadual de Londrina (UEM-UEL), Universidade Estadual Paulista (UNESP), Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), Universidade São Judas Tadeu (USJT), programa associado da Universidade Federal de Viçosa e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFV-UFJF), Universidade de Brasília (UNB), Universidade Católica de Brasília (UCB), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e programa associado da Universidade de Pernambuco e Universidade Federal da Paraíba (UPE-UFPB).
Percebemos cinco modalidades ginásticas sendo temas das teses e dissertações (GA, GR, GAcro, GAer e roda alemã). Dentre elas, a GA e a GR ocupam uma posição privilegiada no quantitativo de produções quando comparadas às outras modalidades. Visto que teses e dissertação são geralmente difundidas por meio de artigos científicos, esse cenário também é percebido por autores que investigaram a tematização da ginástica em periódicos nacionais (Carbinatto et al., 2016). Assim, a elevada quantidade de estudos sobre GA e GR, quando comparada às demais ginásticas, parece semelhante à tradicionalidade dessas modalidades no território brasileiro. Destacamos a importância da produção de conhecimento em modalidades entendidas como menos tradicionais, uma vez que o processo científico pode atuar como um facilitador na compreensão das necessidades e na proposição de ferramentas para o desenvolvimento dessas diferentes práticas competitivas.
A partir desses dados, observamos que São Paulo é o estado com o número mais elevado de programas de pós-graduação que tematizaram as ginásticas de competição (UNICAMP, USP, UNESP, UNIMEP e USJT) e entre as modalidades estudadas nas teses e dissertações de PPGEF desse estado, a GA é a mais frequente (f=19). Por outro lado, identificamos que a maioria dos PPGEF das instituições localizadas no Sul do país, como é o caso da UFRGS, UFSC, UDESC e UEM-UEL, tendem a produzir estudos sobre a GR (f=16). A articulação desses dados nos leva a observar uma tendência nos programas de pós-graduação produzirem constantemente estudos sobre as modalidades ginásticas com mais destaques nas Regiões em que as instituições de ensino se localizam. Por exemplo, o estado de São Paulo tem uma atuação expressiva no cenário nacional da GA e revelou diversos atletas que representaram o Brasil em competições internacionais (Lima et al., 2016; Vargas; Souza; Capraro, 2023). Já nos estados da Região Sul, sobretudo Santa Catarina e Paraná, são reconhecidos pela formação de atletas da GR (Antualpa; Paes, 2013; Barbosa-Rinaldi; Martinelli; Teixeira, 2009). Ademais, é preciso considerar que as diferentes práticas ginásticas constituem respectivos subcampos esportivos, a partir de suas características, histórico e trajetória esportiva, bem como há um habitus atinente às especificidades das modalidades, conforme verificado por Paz, Souza e Barbosa-Rinaldi (2018), no caso da GR.
Ao direcionarmos nosso olhar para a distribuição geográfica das instituições de ensino superior em que os estudos foram realizados e os locais em que foram coletados os dados (quando ocorreram em território brasileiro), reforçamos um cenário de centralização da produção de conhecimento da área nas Regiões Sul e Sudeste do país (Figura 4). Apenas um estudo realizou a coleta de dados fora do Brasil, ocorrendo na Alemanha3.
Morosini (2009) destaca que o número de programas de pós-graduação de diversas áreas no Brasil parece enfrentar limitações relacionadas à distribuição geográfica e às condições econômicas e sociais, estabelecendo uma diferença significativa no número de programas e na qualidade deles. A dessemelhança visível na figura 4 não é uma novidade, haja vista que há mais de uma década Manoel e Carvalho (2011) indicaram a predominância de PPGEF nas Regiões Sul e Sudeste do Brasil. Para além de destacarmos essa realidade, para que haja um equilíbrio regional dos programas junto ao desenvolvimento da produção científica, deve ser reforçada a necessidade de recursos humanos e dedicação desses agentes. Para tanto, é imperativo que políticas públicas sejam alavancadas no sentido de auxiliar e estimular a superação dessa discrepância no cenário da pós-graduação brasileira (Gamboa; Chaves; Taffarel, 2007).
No caso das ginásticas de competição, podemos inferir que a centralização desse tema de pesquisa nas instituições de ensino das Regiões Sul e Sudeste esteja associada também às condições de desenvolvimento esportivo nesses locais. Alguns fatores nos ajudam na compreensão desse cenário, como por exemplo: a presença de federações com maior número de clubes filiados e a presença de clubes responsáveis pela formação de atletas que representaram e representam o país em competições internacionais (Antualpa; Paes, 2013; Nakashima et al., 2018; Oliveira; Bueno; Lima, 2023). Além disso, considerando uma perspectiva histórica, foi na Região Sul que a ginástica se introduziu no Brasil, dando um destaque inicial para o estado do Rio Grande do Sul (Publio, 2005; Oliveira, 2010; Sagawa, 2011). Entretanto, esses dados nos acendem um alerta sobre emergência da expansão da produção científica para outras Regiões do país como um contributo para processo de massificação das ginásticas de competição em todo o território nacional.
Com relação aos desenhos metodológicos das teses e dissertações, a Tabela 1 (na próxima página) reúne os dados relativos à abordagem de pesquisa, os procedimentos utilizados para a coleta de dados e participantes dos estudos (quando existiam), de acordo com as informações declaradas pelos autores em suas respectivas produções.
Observamos que a maior parte das teses e dissertações (60,9%) não adotam como prioridade a representação numérica ou estatística dos dados investigados, utilizando abordagens qualitativas. De forma complementar, alguns dos procedimentos frequentemente utilizados para responder as perguntas de pesquisas desse tipo são: condução de entrevistas, aplicação de questionários, análises documentais e observações. A importância desse tipo de abordagem é debatida por Günther (2006) ao inferir que o caminho da pesquisa qualitativa satisfaz a necessidade de resolver problemas complexos, permitindo enxergar a realidade e construir teorias para explicar as relações existentes.
Os dados obtidos sobre os participantes de pesquisas com seres humanos nas teses e dissertações ressaltam a presença majoritária de atletas e treinadores entre os públicos investigados. De fato, esses são os protagonistas do contexto competitivo. Contudo, entendemos a necessidade de compreender o campo das ginásticas de competição nos seus múltiplos ecossistemas, incorporando figuras importantes desse ambiente para as investigações científicas, como por exemplo, a presença e suporte de pais/responsáveis, dirigentes e gestores esportivos. Deste modo, será possível aproximar ainda mais o conhecimento científico produzido nas universidades aos desafios impostos na prática diária do ambiente esportivo.
Na Tabela 2 estão sintetizadas as informações relativas às subáreas de pesquisa em que as teses e dissertações se enquadram, bem como exemplos de temas de pesquisa e distribuição das subáreas em cada instituição de ensino superior.
Ao contrário do que parece ser uma tendência na produção de conhecimento científico da Educação Física, em que a subárea da biodinâmica prevalece entre os estudos (Manoel; Carvalho, 2011; Corrêa; Corrêa; Rigo, 2019; Frasson; Molina Neto; Wittizorecki, 2019), quando olhamos para as ginásticas de competição existe um predomínio da subárea da pedagogia. Esses dados nos direcionam para a reflexão de como as ginásticas de competição se apresentam com uma dinâmica própria na produção em programas de pós-graduação, rompendo com a tradição evidenciada na Educação Física. Com isso, nos questionamos sobre a oportunidade que pesquisadores da área das ginásticas de competição possuem para disseminar em território nacional os saberes produzidos, uma vez que no Brasil a maioria dos periódicos científicos com os estratos superiores no Qualis da área 21 direciona o seu escopo para tópicos relacionados à biodinâmica (Corrêa; Corrêa; Rigo, 2019).
A partir desses dados, também podemos perceber a existência de algumas tendências de subáreas entre os programas de pós-graduação. A exemplo, a UNICAMP e USP têm os números de produções mais concentrados na subárea da pedagogia, enquanto a UFRGS distribui o maior número de suas produções entre as subáreas da biomecânica e da psicologia. Esse ponto pode também ser explicado pela expertise e interesse dos docentes efetivados nessas instituições de ensino, contribuindo para o direcionamento de qual perspectiva um fenômeno será investigado (Leite Filho; Martins, 2006).
Nos chama atenção a carência de estudos sobre ginásticas competitivas em determinadas subáreas, sendo que as com menores números de produção são: psicologia (f=7), formação profissional (f=6), aprendizagem e controle motor (f=3) e gestão e políticas públicas (f=2). A baixa quantidade de teses e dissertações a partir de vieses específicos das subáreas citadas aponta para diversas problemáticas potenciais, como: (1) limitações na compreensão e desenvolvimento do conhecimento gímnico, o que pode resultar em lacunas no entendimento de questões complexas para o pleno desenvolvimento das ginásticas competitivas; (2) comprometimento da qualidade e eficácia das intervenções esportivas, uma vez que a escassez de pesquisas que considerem as diferentes áreas pode representar barreiras significativas para o acesso a recursos atualizados e baseados em evidências e (3) impactos negativos na formação profissional e elaboração de políticas públicas, que são imprescindíveis para o fomento das ginásticas de competição, além de ser a base para intentar uma formação de treinadores de qualidade.
Nossa reflexão também vai ao encontro das discussões de Viveiros et al. (2015) sobre como esses conhecimentos podem (ou não) estar subsidiando a prática de profissionais envolvidos com essas modalidades competitivas. Alguns estudos já tematizaram, por exemplo, as relações de treinadores esportivos com as ciências do esporte (Reade; Rodgers; Hall, 2008; William; Kendall, 2007). De acordo com William e Kendall (2007), treinadores e cientistas do esporte possuem a mesma percepção de importância e aplicação das pesquisas científicas. Entretanto, os treinadores destacam a carência de uma divulgação e comunicação científica mais acessível, além de lacunas entre as necessidades da prática e o que é tradicionalmente pesquisado (Reade; Rodgers; Hall, 2008; William; Kendall, 2007).
A Tabela 3 apresenta as palavras-chave e as frequências com que aparecem nos estudos. Destacamos que em oito pesquisas não foi possível localizar as palavras-chave, possivelmente por serem produções mais antigas e ainda não contarem com uma padronização na inserção de descritores.
As palavras-chave, empregadas para representar o corpo da pesquisa com precisão, se apresentam de forma bastante diversificada, visto que foram identificadas 129 termos distintos. A GA é a modalidade mais frequente entre as palavras-chave, se considerarmos que ela é representada pelos termos: “ginástica artística” (f=19), “ginástica artística feminina” (f=4) e “ginástica artística competitiva” (f=1), somando 24 representações nas teses e dissertações. A maioria das palavras-chave foram empregadas apenas uma vez no corpo de estudos analisados (f=105). Se por um lado a contagem das palavras-chaves proporciona uma compreensão quantitativa dos dados, identificamos a relevância desses termos com base em interrelações com a visualização de similaridades (Van Eck; Waltman, 2010). Deste modo, a Figura 5 destaca o mapa de coocorrência das palavras-chave elaborado pelo software VOSViewer.
Das 129 palavras-chave identificadas, 26 delas tiveram relações com, pelo menos, cinco outras palavras-chave (representando conexões mais fortes). Os termos “ginástica”, “ginástica artística” e “ginástica rítmica”, predominantes em números de ocorrência, ocupam os círculos maiores no mapa. A partir desses destaques, é possível analisarmos algumas das relações estabelecidas com diferentes palavras-chave.
A palavra-chave “ginástica”, presente em nove estudos, por ser um termo genérico, se relaciona com inúmeros outros com vários outros, tangenciando com termos que representam: (1) as subáreas investigativas, como “formação profissional”, “pedagogia”, “gestão do esporte”, “treinamento esportivo”, “psicologia do esporte”; (2) os métodos utilizados no estudo, a exemplo da “história oral” e “pesquisa-ação”; (3) os objetos de estudo em questão, como a “periodização do treinamento”, “arquitetura muscular”, “lesões esportivas”, “aprendizagem”, “estudo e ensino”, “gênero”, entre outros e (3) outras modalidades ginástica, em especial investigações que combinam a GA e a GR.
Ao verificarmos as duas modalidades em destaque, a GA e a GR (47 e 46 relações com outras palavras, respectivamente), é interessante localizarmos termos que se relacionam a ambas, como “arbitragem”, “esporte na escola”, “história da ginástica”, “formação profissional”, “motivação”, entre outros. Tais temáticas também são evidenciadas em estudos como o de Carbinatto et al. (2016), a partir da revisão artigos científicos sobre ginástica.
Especificamente relacionado à GA, destacam-se os termos “alto rendimento”, “atleta”, “docência universitária”, “história da ginástica” e “Educação Física escolar”. Relacionado à GR, é possível evidenciar os termos “saberes profissionais”, “pedagogia do esporte”, “avaliação”, “habitus”, entre outros. Esses dados reforçam a presença da GA e GR na pesquisa científica brasileira por meio de diferentes vertentes temáticas, em detrimento de outras ginásticas, como a GAcro, GT, GAer e o parkour. Deste modo, apontamos a necessidade de incentivar o fortalecimento teórico que contemple as demais modalidades e a pluralidade de aspectos passíveis de investigação.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Frente ao objetivo proposto, de analisar a produção de conhecimento da pós-graduação em Educação Física no Brasil sobre as ginásticas de competição por meio das teses e dissertações, guiamos o debate a partir do fluxo e volume dos estudos ao longo dos anos, da relação entre os PPGEF e modalidades ginásticas, desenho metodológico, subáreas de pesquisa e temas investigados.
Seguindo a dinâmica da produção científica no Brasil, percebemos um aumento expressivo de teses e dissertações com a temática das ginásticas competitivas, embora o número seja tacanho frente à produção total na área da Educação Física. Esses estudos têm sido conduzidos prioritariamente a partir de PPGEF localizados nas Regiões Sul e Sudeste do Brasil. Em linhas gerais, a GA e a GR também são tematizadas com uma frequência significativamente maior. Entendemos que o desequilíbrio regional e das modalidades ginásticas precisa ser vencido para possibilitar avanços no conhecimento científico e aplicação prática em diferentes localidades do país, contribuindo com o desenvolvimento esportivo no Brasil.
Na relação entre as subáreas investigativas e PPGEF, há uma quebra de paradigma se compararmos ao campo científico da Educação Física como um todo, no qual há o predomínio de produções no âmbito da biodinâmica. Em nossa amostra, a subárea pedagógica prevaleceu. A carência de estudos em determinadas subáreas, como a psicologia, formação profissional, aprendizagem e controle motor e gestão e políticas públicas denota a existência de lacunas no conhecimento acadêmico. Por conseguinte, compreendemos que isso pode refletir em impactos negativos na formação de profissionais, na prática profissional, no desempenho de atletas e no desenvolvimento de políticas públicas eficazes para o desenvolvimento do campo da ginástica competitiva.
Entendemos que o presente estudo apresenta limitações por sua característica metodológica. Assim, indicamos que o panorama da produção científica dessa área pode ser aprofundado ao considerar as relações entre as teses e dissertações e a divulgação científica para o campo prático, por meio de artigos, conferências, conteúdos em redes-sociais etc. Além disso, escutar a perspectiva de diferentes agentes como, por exemplo, treinadores, gestores, árbitros e pais, sobre as contribuições da ciência para as modalidades ginásticas em que estão inseridos pode favorecer o processo de elucidação de demais lacunas científicas.
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1
O banco de dados das produções PPGEF no Brasil é resultado de um projeto maior que investiga o corpo de conhecimento da área. Considerando as demandas de manutenção, atualmente o corpo amostral desse banco de dados contempla as teses e dissertações publicadas até janeiro de 2022 (data da última atualização). Optamos pela delimitação temporal de 2020 neste estudo pelo fato de que, muitas vezes, as teses e dissertações levam meses para se tornarem disponíveis nas bases de dados e repositórios institucionais. Além disso, as produções do ano de 2021 foram impactadas pela pandemia de COVID-19. Assim, mesmo que o banco de dados tenha sido atualizado em 2022, esse espaço temporal nos dá margem para garantir um cenário mais fidedigno dos estudos que foram defendidos no ano de 2020 e que podem ter sido disponibilizados na internet meses depois.
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2
Como área da ginástica consideramos os estudos em todos os campos de atuação propostos Souza (1997) e que tenham alguma das palavras-chave de busca presentes nos títulos.
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3
É importante considerar que em alguns casos, um único estudo pode ter realizado a coleta de dados em mais de uma localidade.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
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COMO REFERENCIAR
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga *, Elisandro Schultz Wittizorecki *, Mauro Myskiw *, Raquel da Silveira **Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.






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