Resumo:
Este artigo de teor histórico e teórico fundamentou-se em uma pesquisa bibliográfica de materiais em português, inglês e russo, focando a relação entre o período do Primeiro Plano Quinquenal soviético (1929-1932), também conhecido como a Grande Quebra stalinista, e sua relação com as reflexões de Vigotski sobre a “crise na psicologia” e a (menos conhecida) “crise na pedologia”, no contexto da rede de iniciativas do autor. As conclusões debatem os efeitos da promoção stalinista das disciplinas práticas, como a pedologia, no campo da psicologia e das ciências aplicadas. Nossa análise mostra que, diante da redução de importância da psicologia na Grande Quebra, não é possível definir claramente se a pedologia ou a psicologia seria a ciência mais geral para Vigotski, que, de forma vacilante, ensaiava um distanciamento em relação a pressupostos de sua psicologia, enquanto os transpunha à pedologia. Entre outras mudanças de suas ideias ontoepistemológicas em relação ao texto “O significado histórico da crise na psicologia”, Vigotski reflete sobre a possibilidade de compartilhamento do objeto científico entre pedologia e psicologia, desde que essas desenvolvessem, sobre ele, diferentes perspectivas. Há, contudo, sinais de sobreposição entre as duas ciências. O resultado de nossa análise esclarece o labirinto de afirmações do autor dotadas tanto de potencial ontoepistemológico para a psicologia e as ciências afins, quanto para a confusão dos leitores contemporâneos, mediando uma leitura materialista dialética do autor em sua gênese histórica que procura apreender a totalidade da obra do autor em sua diversificada e complexa rede de iniciativas.
Palavras-chave:
Vigotski; Pedologia; Psicologia da Educação; História da Psicologia
Abstract:
This historical and theoretical article undertakes a bibliographic review of materials in Brazilian Portuguese, English, and Russian, focusing on the relation between the First Soviet Five-Year Plan (1929-1932), also known as the Stalinist Great Break, with Vygotsky’s reflections on the ‘crisis in psychology,’ and the (lesser known) ‘crisis in pedology,’ in the context of the author’s network of initiatives. The conclusions discuss the effects of Stalinist promotion of practical disciplines (e.g., pedology) in the field of psychology and applied sciences. Our analysis shows that, given the reduced importance of psychology in the Great Break, one cannot clearly determine whether pedology or psychology was the more general science for Vygotsky. He hesitantly attempted to distance himself from the assumptions of his psychology while transposing them to pedology. Among other changes in his ontoepistemological ideas in the text “The historical meaning of the crisis in psychology”, Vygotsky considers the possibility of pedology and psychology sharing a scientific object provided they develop different perspectives on it. There are, however, signs of overlap between the two sciences. Our analysis results clarify the maze of statements by the author that have both ontoepistemological potential for psychology and related sciences and the potential to confuse contemporary readers, mediating a dialectical materialist reading of Vygotsky in his historical genesis that seeks to grasp the totality of his work in its diverse and complex network of initiatives.
Keywords:
Vygotsky; Pedology; Educational Psychology; History of Psychology
Resumen:
Este artículo histórico y teórico se basa en una investigación bibliográfica de materiales en portugués, inglés y ruso para centrarse en la relación entre el período del Primer Plan Quinquenal Soviético (1929-1932), también conocido como la Gran Ruptura, y su relación con las reflexiones de Vygotski sobre la “crisis de la psicología” y la (menos conocida) “crisis de la pedología” en el contexto de las iniciativas del autor. Las conclusiones analizan los efectos de la promoción por parte de Stalin de disciplinas prácticas, como la pedología, en el campo de la psicología y las ciencias aplicadas. Nuestro análisis muestra que, dada la decreciente importancia de la psicología durante la Gran Ruptura, no es posible definir con claridad si la pedología o la psicología era la ciencia más general para Vigotski, quien intentó distanciarse de los supuestos de su psicología, mientras los transponía a la pedología. Entre otros cambios en sus ideas ontoepistemológicas respecto al texto “El significado histórico de la crisis de la psicología”, Vygotski reflexiona sobre la posibilidad de compartir el objeto científico entre la pedología y la psicología, siempre que desarrollen perspectivas diferentes al respecto. Sin embargo, existen indicios de superposición entre ambas ciencias. El resultado de nuestro análisis aclara el laberinto de las afirmaciones del autor, que tienen potencial ontoepistemológico para la psicología y ciencias afines. En última instancia, proponemos una lectura materialista dialéctica del autor en su génesis histórica, con el fin de comprender la totalidad de su obra dentro de su compleja y diversa red de iniciativas.
Palabras clave:
Vygotski; Pedología; Psicología de la Educación; Historia de la Psicología
Introdução: Vigotski e a Grande Quebra
Apresentado ao Ocidente, em 1962, por psicólogos alinhados à chamada “revolução cognitivista”, o bielorrusso Lev Semionovitch Vigotski (1896-1934) integra hoje o rol de clássicos da história da psicologia como o principal propositor da concepção que Talankin (1931/2000), um de seus críticos, batizou de “histórico-cultural”. O resgate de muitos de seus escritos, antes desconhecidos, tem impactado todos os interessados em sua obra. Um movimento sísmico atravessa diferentes estratos da psicologia histórico-cultural conforme se publicam novos (e revisam-se antigos) originais em russo, traduzem-se esses originais, e mesmo contesta-se a autoria de textos publicados, embora até nossos dias não haja pleno acesso da comunidade científica aos arquivos que garantiriam um retrato histórico mais satisfatório do autor (van der Veer, 2024; van der Veer & Yasnitsky, 2011).
Com as novas publicações, percebemos que uma obra materialista dialética de rara complexidade emerge dos escombros do Império Russo no caminho da revolução socialista. No intervalo de dez anos, Vigotski concebeu ao menos quatro projetos de grande envergadura (em alguns casos, concomitantemente): a psicologia da arte, a psicologia geral, articulada de modo triádico1, a pedologia e a defectologia.
Dafermos é certeiro ao observar que “Muitos estudiosos contemporâneos tendem a se concentrar apenas em aspectos ou ideias fragmentadas da teoria de Vygotsky e ignoram outros que estão fora do âmbito de seus interesses de pesquisa” (Dafermos, 2018, p. 55, tradução nossa). Por oportuno, Dafermos segue Gruber e Bödeker ao usar a ideia de rede de iniciativas (network of enterprise) para representar a multiplicidade de projetos vigotskianos. Ciência extinta em todo o mundo, a pedologia foi a única em que Vigotski obteve efetivo reconhecimento na União Soviética até que fosse proibida por decreto em 1936 (Yasnitsky, 2018)2.
Consideramos particularmente desafiador compreender o desenvolvimento aparentemente paralelo e descoordenado desses projetos e suas conexões com a obra de Vigotski no processo revolucionário bolchevique que se estende, para alguns historiadores, até 1928 (Reis Filho, 2003), seguido por um período de mudanças drásticas no decorrer dos dois primeiros Planos Quinquenais (1929-1937) que deram início à ordem staliniana, encerrada com a denúncia dos crimes de Stálin por Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista.
As mudanças foram drásticas o suficiente para que o período correspondente ao Primeiro Plano Quinquenal (1929-1932) fosse chamado de Grande Quebra (velikii perelom), marcando a passagem do partidarismo leninista para o stalinista (Toassa, 2024). Os cientistas vivenciavam um drama marcado por um estado de temor e confusão decorrente das demandas vagas e contraditórias de Stálin. Diretamente ou por meio da ação do Partido, o Secretário-Geral exigia mais cooperação dos cientistas na construção do socialismo, sem especificar por quais meios esse fim seria alcançado (Toassa, 2016). Uma campanha pela praticidade da ciência ganhou momentum. Em cada disciplina, começou-se a falar na busca da significância prática.
Atitudes estatais vacilantes com relação às disciplinas relacionadas à aplicação da psicologia – sem falar da própria pesquisa em psicologia experimental, também encarada com ceticismo – eram comuns em diferentes países. Joravsky (1989) observa, contudo, que uma peculiaridade da União Soviética de Stálin era a ocorrência de violentas flutuações das políticas científicas. Grosso modo, demandava-se criatividade enquanto, paradoxalmente, solapava-se a liberdade criativa mediante mudanças de orientação de projetos experimentais já em curso, ou mesmo pela distribuição de ameaças ou punições aos intelectuais por adotarem caminhos considerados indesejados pelo Partido – ainda que a posteriori3.
Como Vigotski adaptou-se às demandas e rearranjos desse contexto político? Recentes publicações de suas obras, entre as quais inclui-se a conferência traduzida neste dossiê, possibilitam-nos caminhar na direção da apreensão de sua rede de iniciativas como uma totalidade aberta, em desenvolvimento, sujeita a mudanças bruscas e imprevisíveis. Buscamos fazer justiça ao Vigotski histórico ao nos imbuirmos de um presentismo historicista (Teo, 2006), que se recusa a distorcer fatos do passado em função de padrões da ciência contemporânea (ainda que tais fatos contrariem as expectativas atuais), admitindo, contudo, orientar-se pelo interesse presente em continuar a constituição de uma psicologia vigotskiana de base marxista. Para tanto, avançar no debate sobre a pedologia do autor e compreender suas relações com a psicologia se mostra incontornável, pois adotamos a perspectiva de que a pedologia é um projeto relativamente independente de Vigotski, que acaba interagindo com sua psicologia, de forma determinante, para sua concepção marxista acerca da natureza humana. Mas a natureza dessas interações e suas determinações históricas não estão nada claras, havendo mesmo a percepção da existência de uma sobreposição entre os dois projetos: para van der Veer e Valsiner (2001) sua pedologia seria, de fato, uma psicologia infantil.
Nossos estudos mostraram que um enfoque centrado apenas na história intelectual da palestra “Pedologia e psicotécnica” seria insuficiente para explicar a encruzilhada ontoepistemológica do autor, que, de forma bastante particular, não se depara apenas com os desafios impostos por seu objeto – por mais que o autor apresente uma atitude ontológica frente a ele, deixando-se capturar pela própria lógica da realidade investigada (Costa, 2020). Empreendendo uma história social e política da psicologia das reflexões vigotskianas, trabalharemos o texto da palestra “Pedologia e psicotécnica” (1930/2025) em relação com outro artigo pedológico de forte teor ontoepistemológico, “Sobre a questão da pedologia e psicologia” [K voprosu o psikhologii i pedologii], de 1931 (Vigotski, 1931/2007). São materiais de grande interesse histórico sobre uma ciência que gestou reflexões relevantes para a psicologia contemporânea, a despeito do seu precoce desaparecimento.
A situação, contudo, no campo da pedologia era, pelo menos, tão desconfortável quanto no da psicologia: cada qual atravessava sua própria crise, na perspectiva de Lev Semionovitch (sendo o tema da crise na psicologia extensamente avaliado em “O significado histórico da crise na psicologia”, de 1927, doravante, denominado SHCP; ver Vigotski, 1927/1996), sendo significativas as tensões entre grupos de cientistas – fossem eles da mesma área ou de áreas afins. A possível interconexão de ambas as crises no contexto da Grande Quebra, sua relação com o objeto de ambas as ciências, suas fronteiras e suas práticas será o foco de reflexão no presente texto. Optamos por empregar a distinção dialética entre método de investigação e de exposição no decorrer de sua elaboração (Netto, 2011), apresentando diretamente os resultados das discussões e leituras empreendidas em conjunto4.
Quanto à seleção de referências, vale assinalar a significativa escassez de bibliografia sobre as disciplinas psicológicas aplicadas na União Soviética e sua conexão com as políticas científicas no decorrer da Grande Quebra. Por isso, optamos por uma rigorosa, conquanto restrita, seleção de comentadores do tema, os quais destacam-se por sua expertise e amplo reconhecimento em história da psicologia russa e/ou por seu amplo conhecimento da “revolução arquivística” recente, sempre mediados pela leitura em língua russa5. Nosso texto será articulado em torno de uma breve descrição e contextualização histórica da pedologia e psicotécnica, seguindo pelo labiríntico caminho ontoepistemológico das relações entre objeto e grau de generalidade da pedologia frente à psicologia, tópico que nos levará, a seguir, à interpretação de sua relevância prática na União Soviética para Vigotski. Encerrando nossas reflexões, as considerações finais buscarão sintetizar uma análise do percurso e contribuições – além das compreensíveis incongruências – ontoepistemológicas vigotskianas no contexto da Grande Quebra stalinista.
Contextualização/definição: pedologia e psicotécnica
Um fato notável no trajeto de Lev Semionovitch: seu engajamento no campo pedológico se produz antes do formidável impulso que o stalinismo dá às disciplinas que tinham estreita relação com a psicologia (campo predominantemente teórico e experimental). Antes mesmo de se mudar para Moscou em 1924, Vigotski já estudava pedologia, educação e psicologia (van der Veer & Valsiner, 2001).
Em sua época, a psicotécnica e a pedologia classificavam-se como disciplinas aplicadas (ainda que, para Vigotski, a pedologia fosse uma ciência específica, não contida no campo da psicologia aplicada), para as quais criam-se três periódicos em 1928: “Psicologia”, “Pedologia” e “Psicotécnica” (Bauer, 1952). Joravsky (1989) nota como, nos anos de 1920 e início dos 1930, o governo soviético investe muito nessas disciplinas, procedendo à sua posterior extinção alguns anos depois, com uma queda brusca no número de livros a partir de 1932 (Minkova, 2012). Vale notar que essa flutuação do volume de publicações no campo de estudos prioritário de Vigotski espelha-se na obra do próprio autor, que, além do contexto desfavorável, atravessava um intenso período de autocrítica (Fraser & Yasnitsky, 2015), embora, obviamente, a própria extinção de periódicos restringisse as oportunidades de publicação.
O entusiasmo inicial pelas disciplinas aplicadas foi longe a ponto de se acreditar que a ciência psicológica “estava prestes a ser liquidada. Certamente havia sinais apontando nessa direção” (Joravsky, 1989, p. 58, tradução nossa)6. Vemos indícios desta crença nas observações do próprio Vigotski (1931/2007) sobre a existência de uma corrente de pensamento pedológico que pontificava a absorção da psicologia infantil pela pedologia. O periódico “Pedologia” fora integrado ao planejamento quinquenal dos psicólogos, definindo seus objetivos a curto prazo, conforme Aquino e Toassa (2019). O primeiro prefácio de Vigotski ao livro de Leontiev “O desenvolvimento da memória” (1931) detecta a difícil situação da psicologia também em termos científicos7.
Tornara-se lastimável a situação no prestigiado Instituto Estatal de Psicologia Experimental (IEPE), base institucional relevante para o Círculo de Vigotski desde 1924, segundo o próprio autor narra a Luria, em carta datada de 1 de junho de 1931:
O instituto, ao que parece, vai se desintegrar em suas partes componentes. A desordem lá é terrível. Na clínica, pobre G.V.8 — as coisas estão uma bagunça tão completa que simplesmente não há palavras para descrever. Precisamos ficar longe desses institutos. §
(Vygotsky, 1926-1934/2007, p. 33, tradução nossa).
Outros periódicos de psicologia também desapareceram entre 1932 e 1934. O IEPE foi rebatizado em 1930 como Instituto Estatal de Psicologia, Pedagogia e Psicotécnica da Associação Russa de Institutos Científicos de Pedagogia Marxista, sendo Kornílov substituído por Zalkind à frente da direção. Zalkind perdeu seu cargo no ano seguinte, após a primeira onda de críticas aos grandes pedólogos, arrastado pela cascata de ataques stalinistas subsequente à queda de Deborin e de todos que o seguiram (van der Veer, 2020). Essas mudanças fragilizaram a situação de Vigotski no IEPE, o qual deixou de ser sua principal base institucional: nos anos 1930, ele assume diferentes vínculos empregatícios em Moscou, Leningrado e, em menor escala, Kharkov. As crises de tuberculose também contribuíam para a intermitentes interrupções de seu trabalho (Yasnitsky, 2018).
Embora a campanha pela “praticalidade das ciências” já tivesse, em linhas gerais, a fonte e formatação vigente até o fim da era Stálin, fazendo uso de uma violenta retórica que combinava críticas públicas sucedidas por autocríticas dos atingidos, nas quais pouca ou nenhuma reflexão acadêmica efetiva tomava corpo (Toassa, 2016), forças políticas ainda colidiam no que se referia ao papel da pedologia. Bolcheviques de alto escalão, como Lunacharskiy e Krupskaya, acreditavam que a pedologia traria respostas científicas aos problemas educacionais; que deveria haver forte presença dos pedólogos nas escolas etc. As muitas instituições pedológicas no decorrer dos anos 1920 proviam informações para a formulação de políticas e tomada de decisões de instâncias superiores do governo (van der Veer, 2020). Três ministérios – Saúde, Educação e Ferrovias – endossaram a proliferação de institutos pedológicos (Fraser & Yasnitsky, 2015).
Mas o entusiasmo pelas disciplinas supracitadas foi de curta duração. Seu colapso levou à realocação do IEPE dentro da Academia de Ciências Pedagógicas, e, com ele, transpuseram-se os psicólogos, predominantemente, ao campo da educação, no qual tiveram forte atuação até o fim da União Soviética (Shuare, 2016).
Van der Veer (2020) lembra que havia reformadores educacionais e pesquisadores russos acompanhando atentamente os debates internacionais da pedologia (também rotineiramente chamada de pedagogia experimental) desde o seu início, elaborando suas próprias contribuições desde a aurora do século XX, apesar das irregularidades de financiamento que afligiram o Instituto Psicopedológico, fundado por V. M. Biékhterev em 1907. A pedologia também ganhava presença em instituições dedicadas a áreas afins em diversos congressos (Martins & Souza, 2019). Vigotski ingressa no Instituto de Pedologia e Defectologia de Moscou em 1925 (posteriormente renomeado como Instituto de Defectologia), assumindo cargos de professor da área a partir de 1927 (van der Veer, 2020). Profere conferências sobre pedologia, publica o texto inaugural de sua nova psicologia no periódico Pedologuiya9, cujo Comitê Editorial ele passa a compor a partir de 1929.
A metodologia de crítica stalinista estabelecia-se no campo do trabalho intelectual (Krementsov, 1997), atingindo Vigotski pela primeira vez pela via da frente pedológica em 193210 (van der Veer, 2020). Em janeiro de 1931, o Comitê Central condenara o (antes, poderoso) filósofo Abram Deborin por “idealismo menchevique”, não poupando, a seguir, também seus oponentes filosóficos (como Bukharin) – para não falar de Trótski, expulso da União Soviética em 1928 (Toassa, 2016). Um efeito-cascata de ataques dos jovens stalinistas aos principais nomes da pedologia com publicações no próprio campo dos pesquisadores-alvo, levaram-nos à suspeição pública, à perda de cargos e demandou retratação dos que haviam citado esses autores: Basov, Blonskiy, Molozhavyy, Vigotski.
Esses reveses acabavam trazendo caos e imprevisibilidade ao trabalho dos pesquisadores, além de traduzir-se em dificuldades materiais para eles. Yasnitsky (2011) descreve, por exemplo, o revés financeiro que Vigotski atravessou nos anos 1930, quando parte de seus vínculos empregatícios foi cortado devido ao fechamento das instituições nas quais trabalhava, consequência da contínua remodelação das políticas e arranjos institucionais no contexto da Grande Quebra11.
Vigotski escreveu sua primeira contribuição ao campo pedológico, o livro Pedologia da idade escolar (Vigotski, 1928/2020), em 1928, destinado a estudantes de um curso por correspondência. A obra é um dos mais extensos textos dessa ciência escritos e publicados por seu autor, que, apesar de não ultrapassar o modesto objetivo de constituir-se em manual de instrução, trazendo extensos resumos comentados de outros autores (apoiava-se, em ampla escala, nas obras de Blonski), apresenta pela primeira vez muitas das ideias revolucionárias de Vigotski sobre a relação entre pensamento e linguagem. Ele reutiliza muitas passagens dessa obra em diversos textos e engaja-se em outro ambicioso projeto, uma publicação em quatro volumes sobre a pedologia do adolescente (publicados em dois tomos de 1930 a 1931, segundo Veresov & Kellogg, 2022). Assume, nessa época, cargos de maior importância na pedologia, tornando-se professor da área no prestigiado Segundo Instituto Médico de Moscou, onde também encabeça a Faculdade de Pedologia Geral e da Idade. Simultaneamente, torna-se diretor e professor da Faculdade de Pedologia da Infância Difícil do Instituto Pedagógico Estatal de Moscou, além de assumir o cargo de professor de pedologia no Instituto Pedológico Herzen, de Leningrado, em 1931 (van der Veer & Valsiner, 2001).
Dos comentários de Vigotski (1927/1996), depreende-se que a relação entre psicologia e ciências afins fora construída apenas por outras perspectivas filosóficas, não materialistas, sobre o objeto e tarefas daquela. Tal como ele avaliara para o desenvolvimento futuro da psicologia em 1927, também expõe, em 1931, a necessidade de futuras pesquisas históricas, metodológicas e críticas mais meticulosas na pedologia (Vigotski, 1931/2007). Em nossa interpretação, o autor confia na práxis ao considerar que a psicologia não encontraria uma solução pronta, mas sim a atingiria de acordo com seu crescimento e desenvolvimento metodológico. É relevante notar que filosofia e prática se relacionavam de forma central na resposta do autor também à crise da pedologia, crise esta reconhecida tanto por seus defensores quanto por seus detratores (Sá, 2020). Para dela sair, seria necessário um Darwin ou um Galileu (Vygotski, 1931/1997b).
O objeto e o grau de generalidade da pedologia e psicologia
Nesse panorama político (semelhante ao cruzamento de um canteiro de obras com um campo minado) em que se reconstruíam as ciências soviéticas, Vigotski chega a 1930 já tendo acumulado um extenso rol de leituras no âmbito da pedologia, bem como alguma experiência prática – aspectos importantes para seu diagnóstico, agora, de crise nessa ciência (Vigotski, 1931/2007, 1930/2025). Ao tratar desse tema, ele comenta também a crise na psicologia, e, em seu diagnóstico, podemos constatar que as duas crises tinham aspectos em comum (tanto quanto nos é possível aproximar passagens do SHCP, um manuscrito complexo, extenso e rico, com os textos breves e algo desorganizados aqui em análise). Um deles: ambas são crises metodológicas, ou seja, crises profundas, que afetavam as bases filosóficas de ambas as ciências.
Em uma estrutura de ciências humanas, a princípio, organizada em quatro camadas nos anos 1920, desde a filosofia até as práticas sociais, para Vigotski (1930/2025) a pedologia estava em risco de vida no Ocidente e na União Soviética, e apenas uma abordagem materialista dialética poderia salvá-la. O autor reconhece que, no futuro, uma nova ordenação das ciências seria necessária (Vigotski, 1931/2007). Mas como se arranjariam ambas as ciências? O Quadro 1 informa-nos sobre a concepção predominante nos meios científicos nos tempos de Vigotski.
Comparando as ideias de Vigotski (1931/2007, 1930/2025) ao quadro acima, constatamos que o autor defende, explicitamente, uma inversão da posição das duas ciências ao promover a pedologia como ciência mais geral do que a psicologia – ainda que essa tese não se mostre consistente no decorrer desses dois textos. Um exame mais atento sobre a questão do grau de generalidade – ou abstração – nessas diferentes ciências, contudo, nos conduz à tese de que não é possível definir claramente qual é a ciência mais geral para Vigotski, mesmo nesses textos ontoepistemológicos sobre a pedologia – e ainda menos se tomarmos o todo da obra do autor. Isso se deve tanto à falta de uma clara definição do objeto da própria psicologia quanto a uma certa desordem no estado das ciências em reconstrução sob um prisma marxista, problema este identificado pelo próprio autor.
A questão do objeto e dos métodos fazia-se central; Minkova (2012) observa que o objeto da pedologia era um dos mais acalorados debates desse campo. Vigotski busca uma ciência sintética do desenvolvimento, o que condiz com as marcantes preocupações sintéticas e sistêmicas nos anos 1930, momento final de sua obra. O problema do estudo de totalidades, da síntese psíquica – em geral, conspícuo nas suas reflexões sobre personalidade e consciência, dois dos principais candidatos a objeto de sua psicologia – atravessava, também, sua psicologia histórico-cultural, apresentando-se em diversos textos (Kellogg & Veresov, 2019; Vygotski, 1931/1995; Vigotski, 1934/2001; 1912-1934/2022).
A pedologia abordava um objeto existente independentemente da consciência dos cientistas (situação desejável) ou consistia na realização de uma síntese, uma abstração de ordem epistemológica (situação indesejável), por eles realizada a partir de dados da realidade objetiva? Essa é uma das primeiras questões que Vigotski (1931/2007) se faz, inclinando-se à segunda alternativa, exposta no final do texto. Para ser ciência, era necessário à pedologia que seu próprio objeto existisse na realidade objetiva e não fosse um simples objeto ideal “construído de informações científicas na cabeça do pesquisador e relacionado a um único objeto (predmiét) empírico” (Vigotski, 1931/2007, p. 104, tradução nossa). Ou seja, não poderia ser meramente uma somatória de dados, selecionada de modo aleatório, subjetivo. Uma síntese verdadeira deveria ser realizada a partir da própria realidade objetiva, do objeto em suas interconexões. E, sem se definir o objeto da pedologia, era também impossível definir a relação do próprio objeto desta com o das demais ciências, o que se coaduna com seu materialismo de interconexões (Toassa & Moraes, 2024). O teor ontoepistemológico desse debate científico se afirma na própria seleção de termos em russo, pois Vigotski refere-se ao predmiét, geralmente empregado para fazer referência ao objeto de conhecimento da ciência, e não ao obiékt (também sinônimo de objeto), tal como analisado por Bakhurst, que conota uma “objetividade bruta e alteridade, e predmiét tem conotações de um objeto conceitualizado – objeto de investigação, situado em um espaço de intenção e propósito” (Toassa, Kunzler, & Marques, 2020).
Ao final de seu raciocínio, entendemos que psicologia e pedologia podem compartilhar seu objeto e estudá-lo a partir de diferentes perspectivas12 – constituindo-se em alternativa à síntese arbitrária, como mera operação ocorrida na mente do pesquisador. A consequência é de que “o problema da relação da pesquisa pedológica com outras ciências é um problema sobre a relação de diferentes pontos de vista, diferentes abordagens; é principalmente um problema da lógica subjetiva do pensamento científico” (Vigotski, 1931/2007, p. 105, tradução nossa), mas só no caso de ocorrer na realidade objetiva a “pedologia tem o direito metodológico de existir como uma ciência separada”. A falta de um objeto claramente definido e o ecletismo da pedologia eram falhas que municiavam muitos de seus críticos, como observa Sá (2020).
Vigotski assevera que era justamente em suas perspectivas que pedologia e psicologia infantil se diferenciavam, a despeito de poderem compartilhar um certo predmiét (como, por exemplo, a linguagem da criança de três anos). Todavia, o que nos parece particularmente intrigante é sua defesa de que a psicologia infantil também precisava levar em conta o objeto em suas conexões. Se ela o fizesse, qual seria, então, o lugar da pedologia como ciência sintética e sua diferenciação com relação à psicologia? Para emprestar a pergunta de Kellogg & Veresov (2019): “O que significa estudar o desenvolvimento infantil holisticamente a partir de uma perspectiva psicológica e estudar a criança holisticamente a partir da perspectiva pedológica?” (p. xvi).
Pode-se afirmar que, ao tentar reposicionar a pedologia em grau de generalidade frente à psicologia, Vigotski abraça a pedologia como ciência mais geral da criança, ciência de “totalidades concretas” e sintéticas em sua rica complexidade, em perspectiva semelhante à de Ivanovsky (1923), filósofo que rotulava a pedologia como ciência que envolve o todo da anatomia, fisiologia, psicologia das crianças, entre outros aspectos, e cujas palestras ele acompanhara em sua graduação (Dafermos, 2018).
Vigotski (2025) elabora duas posições básicas sobre a relação entre pedologia e psicologia como ciências autônomas. Na primeira posição, afirma que a psicologia infantil alimenta-se da pedologia como ciência mais geral (em nível de generalidade análogo ao da zoologia com relação à biologia), afirmando que a pedologia teria uma função corretiva em relação à psicologia do desenvolvimento (aí tomada, aparentemente, somente a partir da noção de ontogênese) trazendo “o ponto de vista mais amplo do que a própria psicologia” (Vigotski, 1930/2025, p. 3). A segunda posição vai no sentido oposto, partindo da psicologia que, desenvolvendo seus campos com base em outras ciências mais gerais, para além da pedologia (por exemplo, a psicologia étnica baseando-se na sociologia marxista ou na teoria do materialismo histórico), pode, por isso, emprestar muito à pedologia.
Em sua resposta a Netskii, no decorrer da discussão da palestra proferida (Vigotski, 1930/2025), fica claro que, apesar de Lev Semionovitch pensar a psicologia infantil como “disciplina pedológica”, ela não se tornaria, por isso, parte da pedologia. A ideia de interdisciplinaridade entre os campos apresenta-se, pois, de forma tácita em sua exposição, embora, para o leitor contemporâneo, fique a dúvida: por que a pedologia não poderia ir diretamente à sociologia marxista ou à teoria do materialismo histórico ao invés de tomar um atalho para esta pela via da psicologia, já que a psicologia, na problematização do autor, parece ter perdido – ao menos nos textos pedológicos – sua posição de ciência sintética sobre o ser humano?
Nossa impressão sobre a delicada situação da psicologia vigotskiana torna-se ainda mais dramática quando o autor conclui pela não existência de desenvolvimento psíquico autônomo (Vigotski, 1930/2025, p. 18), em oposição às ideias predominantes nos Cadernos de Notas (Vigotski, 1912-1934/2022) e em outras obras. A psicologia precisaria acomodar-se a ciências mais gerais – psicologia zoológica à biologia; a psicologia dos povos à sociologia –, pois “O psiquismo não se apresenta autonomamente desde o início; não se desenvolve em absoluta independência dos materiais do seu portador, como representam para si próprios os realistas” (Vigotski, 1930/2025, p. 9). Esse pressuposto parece mitigar a afirmação sobre a não existência de desenvolvimento autônomo, parecendo resgatar a defesa – razoável epistemologicamente, e bem mais frequente em sua obra – de que teríamos que pesquisar o sujeito em suas relações concretas.
Original em seu tempo, e ainda dotada de vigor em nossa época, essa premissa deixa em suspenso, contudo, o entendimento sobre a forma como o estudo desse desenvolvimento concreto haveria de repercutir na constituição de uma psicologia geral. E nos faz imaginar se Vigotski chegou a cogitar, nos anos adversos do Primeiro Plano Quinquenal, o descarte de sua própria psicologia das funções psíquicas superiores (em grande medida calcada em um método genético-experimental que não priorizava domínios sociais e históricos específicos) ou – o que é mais provável – reformá-la em termos mais concretos, seguindo o movimento de autocrítica claramente esboçado, por exemplo, no que toca à excessiva abstração presente na pesquisa de Leontiev, colaborador de seu Círculo, sobre a memória (Vigotski & Leontiev, 1931/2020). Anos após a sua análise da crise na psicologia, para Vigotski, ela precisava, pois, encontrar um caminho entre as leis gerais que ditavam um “dado desenvolvimento em seu todo” (ver Vigotski, 1930/2025, p. 19) e os diferentes tipos e processos concretos de desenvolvimento, em domínios sociais e históricos específicos, aí incluídas as formas particulares de psicologia – incluindo a psicotécnica, a psicologia comparada etc.
A delicada questão envolvendo as psicologias geral e particulares certamente extrapola o domínio específico das relações com a pedologia: Vigotski não se aprofunda em uma discussão sobre a dialética entre os dois níveis de abstração científica. Mas ele não parecia ter abandonado sua ideia de compor uma “psicologia geral”, à qual continua fazendo referência nesses textos ontoepistemológicos (Vigotski, 1931/2007; 2025). Então, como a pedologia se relacionaria com as psicologias particulares e a psicologia geral?
É mais frequente, nos referidos textos, que Vigotski atribua à pedologia uma preocupação com “a concepção da infância, o problema das idades, a criança e o adolescente em sua integralidade”, e à psicologia (aí tomada, a nosso ver, em seu trabalho experimental, não contemplando as iniciativas clínicas que ele próprio desenvolvia), “o estudo do comportamento e das funções psíquicas superiores”. Quando a pedologia apoia-se no objeto (o comportamento, a psique, especificamente abordando seu desenvolvimento) e no método psicológico, sua interlocução não é, pois, com a psicologia da criança, mas sim com a psicologia geral – tal como ocorre com a anatomia e a fisiologia geral, se o pedólogo interessar-se pela atividade cerebral em suas leis específicas (Vigotski, 2025, p. 11).
Vigotski mostra o quão precária estava essa sua posição sobre o objeto da psicologia frente à pedologia ao qualificar a ideia de psique como atributo espinosano, muito mais abrangente do que suas formas particulares, sendo suas manifestações “reais, constituindo parte da realidade objetiva, mas não como substância” (Vigotski, 1931/2007, p. 107)13. Contudo, essa observação bastante geral sobre a natureza do psíquico mostra-se anômala na base dos textos ontoepistemológicos sobre pedologia, em que várias passagens solapam a autonomia do objeto da psicologia ou o reduzem ao comportamento, às funções superiores, ao intelecto prático etc., sendo que a psique, como atributo espinosano, poderia adquirir um espaço rico e diversificado, para além dos reducionismos por vezes apresentados.
Em outro trecho do “Pedologia e psicotécnica”, Vigotski (1930/2025) tenta emplacar a ideia de desenvolvimento como um divisor de águas entre a psicologia e a pedologia. Em sua resposta a Smirnov, observa que dificilmente os partidários do ponto de vista genético da psicologia admitiriam a condição desta como ciência do desenvolvimento, apesar de o ponto de vista do desenvolvimento ser um princípio obrigatório, por exemplo, para a psicologia abordar a gênese “das formas superiores a partir das inferiores” (1930/2025, p. 18) – desenvolvimento que aparece, pois, como preceito transversal a diferentes ciências, inclusive a anatomia e a fisiologia geral.
Assim, é como se a pedologia, tendo como objeto o desenvolvimento das funções psíquicas superiores de crianças e adolescentes, recorresse à psicologia para buscar leis gerais de desenvolvimento – quando tais leis são, de fato, da alçada da pedologia, pois é nessas idades que ocorre a ontogênese das funções psíquicas parciais, bem como da personalidade e da consciência, pois não vemos Vigotski tratar de desenvolvimento humano após a adolescência (Dafermos, 2018). Seu raciocínio, ao fim e ao cabo, acaba sendo circular, ratificando a ideia de que ele transpunha conceitos da sua psicologia à pedologia.
Podemos lembrar que, em sua psicologia das funções psíquicas superiores, a ideia de desenvolvimento do comportamento conta com dois planos genéticos para além da ontogênese: a filogênese e a história social do comportamento, onde se distribuem diversas leis gerais, como a lei genética geral de desenvolvimento cultural14 (ver Vygotski, 1931/1995). Mas, em suas respostas, ele não descreve esses planos, nem de que modo a psicologia seria necessária para abordagem deles, o que acaba por confundir Smirnov com uma leitura simplificada da natureza do desenvolvimento humano – e também nos intriga, como seus leitores contemporâneos, pois Vigotski parece sacrificar aspectos essenciais de sua psicologia desenvolvida até então, para não falar das contribuições psicológicas que ele desenvolveria ainda nos anos 1930 (por exemplo, nos sexto e sétimo capítulos do livro Michliênie i riétch [Pensamento e linguagem], Vigotski, 1934/2001).
Questão da prática e a necessidade da pedologia (abordagem do objeto)
Um outro paralelo importante a ser traçado entre a situação da psicologia e da pedologia refere-se ao sentido histórico de ambas as ciências; especialmente, ao papel da prática. A partir dele, Vigotski (1930/2025) discute ao longo da sua palestra a relação entre pedologia e psicotécnica/psicologia. É palpável sua preocupação em atestar a importância e a necessidade da pedologia, aspecto indissociável da dramática situação das crianças e adolescentes do país: segundo a Grande Enciclopédia Soviética, em 1927, cerca de sete milhões de crianças em situação de rua vagavam pelas cidades soviéticas (citado por van der Veer, 2020). Como cuidar delas e educá-las, no processo de transição para um socialismo cuja forma e conteúdo futuros estavam ainda em franca disputa? Parece lógica a crença de que a pedologia contribuiria no enfrentamento desses graves problemas sociais, posição hegemônica no partido no final dos anos 1920, com o pleno suporte de ninguém menos do que a viúva de Lênin, Nadezhda Krupskaya (Minkova, 2012), entre outros importantes nomes da cúpula do partido (ver Sá, 2020).
Mais de uma contradição, contudo, foi se apresentando, conforme as ciências aplicadas ganhavam força. Como observa Joravsky (1989), reproduzia-se a meritocracia intrínseca aos instrumentos e medidas ocidentais empregados ou adaptados por pedólogos e psicotécnicos soviéticos, envolvidos com tarefas de classificar indivíduos e destiná-los ao lugar social mais adequado às suas capacidades. De origem europeia ou norte-americana, disciplinas consideradas práticas como a pedologia e a psicotécnica vão colidindo, no decorrer de sua implementação, com os princípios igualitários da Revolução, segregando e excluindo mais do que mediando a participação individual na transformação coletiva. A escolha stalinista por tais disciplinas, sem a correspondente definição de uma agenda socialista clara, acaba por solapar sua reconstrução ontoepistemológica com base tanto na práxis quanto em princípios marxistas, constituindo-se em um encaminhamento violento e autoritário que, a despeito de tratar de problemas sociais urgentes, ignorou amplos debates que envolvessem a representação dos diversos segmentos políticos envolvidos na saúde, na educação e no bem-estar de crianças e adolescentes.
A nosso ver, em um socialismo participativo e igualitário, é necessário que os problemas sociais sejam resolvidos com a mediação de uma práxis unificadora de reflexão e ação decisória colaborativa de diversos atores sociais. Vão se modificando ao longo do tempo as alternativas para a criação de uma psicologia crítica e compromissada com a emancipação do proletariado, mas a teorização crítica envolve basicamente três critérios: o enfoque das dimensões histórico-cultural e sociopolítica de um problema, a mudança como possibilidade de transcender o status quo, e, por fim, a reflexividade (Teo, 2023). Seguindo Freire (2018), Teo observa que a práxis é a atividade crítica da teorização, podendo realizar-se não apenas do “topo para a base” (ou seja, das abstrações para o mundo empírico, da academia ao cotidiano), como também da base para o topo, digamos: instituições científicas/cientistas, partido, comitês focados no problema social específico, proletariado organizado em geral).
Em consonância com esse ideário, Vigotski observa a necessidade de se “criar a própria teoria e, enquanto a criamos, avançamos na prática” (Vygotsky, 1934/2018, p. 484, tradução nossa). Não obstante, todo o desenho do Primeiro Plano Quinquenal atropela esse processo, interferindo no trabalho dos cientistas – e seus desdobramentos nas práticas sociais e políticas – sem conhecê-lo efetivamente. As consequências dessas tensões macropolíticas desdobram-se nas tensões micropolíticas entre os grupos de cientistas, que explodem na forma de um alívio cômico da plateia perante a resposta de Vigotski sobre a possibilidade de a pedagogia “ser engolida pela pedologia” (1930/2025, p. 23). Despertando o riso do público, ele nota o quanto se repetia a pergunta sobre “quem poderia engolir quem”, consequência óbvia do redesenho imprevisível do campo científico.
Em busca de adaptar-se aos novos tempos, ele próprio procurava uma solução conciliatória, acomodando as diferentes ciências (e, consequentemente, cientistas) em sua própria constelação de ciências – como vimos, não sem incorrer em incongruências e mesmo em reajustes nos quais a psicologia perdia espaço, no decorrer dessa transição. Vigotski (1930/2025) mostra-se hesitante em sua exposição a um público com o qual ele tinha pouca familiaridade. Confirmando a existência de motivos para sua cautelosa fala, as perguntas finais expressam o ceticismo dos psicotécnicos com relação ao conteúdo da palestra, cujo sentido, além de ser ontoepistemológico, era permeado de consequências políticas – preparação de quadros, desenho de políticas científicas etc., sobre as quais Vigotski buscava ter voz logo na aurora do Primeiro Plano Quinquenal, como observamos em sua recorrente proposta de criação de centros de estudos pedológicos na União Soviética (Vygotski, 1931/1997b; Vigotski, 1929/2023). Interessante observar que, frente ao pedólogo Vigotski, nenhum dos presentes defende o fim da pedologia, ou a sua irrelevância para o trabalho da psicotécnica, por mais justificadas que fossem essas dúvidas no contexto da exposição como um todo.
Considerações finais
Nosso texto mostrou que Vigotski descreve diversos elementos em comum na crise da psicologia e da pedologia, em especial, a tese de que ambas as crises eram metodológicas, ou seja, crises profundas, cuja resolução dependeria da prática e das reflexões filosóficas. Em suas consideráveis incongruências, podemos perceber que a busca de um entendimento do ser humano como síntese multideterminada, consoante aos pressupostos marxistas, atravessou sua rede de iniciativas, com alta prioridade em seus últimos anos de vida. Em seus dilemas, o pensamento de Vigotski constitui um dos muitos exemplos de como a história da ciência real, como observa Sacks (1995), está longe de se constituir em um processo de contínua evolução, que progride linearmente rumo a um saber mais elevado. Assemelha-se muito mais a um campo fragmentado, que Danziger (1990) compara a um conjunto de prédios que ficaram por terminar.
Ontoepistemologicamente, o “caso Vigotski” é um dos mais complexos e multideterminados da história da psicologia. Seu gênio criativo, enorme capacidade de trabalho e de desenvolvimento de sua própria agenda de pesquisa socialista adaptando-se a condições políticas francamente hostis no decorrer da Grande Quebra stalinista – para não mencionar seu próprio estado de saúde cada vez mais debilitado – lançou-o também no caminho da dúvida e da autocrítica (Fraser & Yasnitsky, 2015), sobrepondo projetos científicos que, devido à sua morte precoce, não chegaram a um estado de resolução e síntese criativa. A dificuldade de explicá-lo também é constatada por Kellogg e Veresov (2019), especificamente, na emergência de configurações teóricas aparentemente não relacionadas, pois “a abordagem semântica e sistêmica da consciência que ele introduz [...] não está obviamente ligada a nenhuma das palestras deste [as Sete aulas sobre pedologia], e, ainda menos, aos seus trabalhos anteriores” p. XV, tradução nossa).
Vale notar que a busca por uma síntese representativa do desenvolvimento individual pela “via pedológica” levantou objeções, mesmo em seu círculo de pesquisadores. Para Galperin (segundo van der Veer & Valsiner, 2001), psiquiatra ucraniano e membro do Círculo de Kharkov, por exemplo, havia risco de ecletismo, e o autor equivocava-se ao visualizar uma ciência da criança como síntese da fisiologia, defectologia, psicologia e pedagogia em torno das ideias de desenvolvimento e de idades. Galperin argumenta ainda que o progresso na ciência se faz por especialização, e não por combinação, sinalizando, com isso, alguns dos vários motivos para o distanciamento que os pesquisadores kharkovitas ligados a Vigotski tomaram em relação à pedologia – e, com relação a ele próprio, já expostos em Toassa (2016). A teoria da atividade, em certa medida gestada por esse coletivo, afastava-se de tal projeto.
Vigotski iniciou seus estudos em pedologia antes do impulso que a Grande Quebra ofereceu às disciplinas aplicadas. Temos, contudo, razões para crer que esse impulso foi decisivo para o avanço de sua própria pedologia (e da concomitante desidratação de sua psicologia), no contexto de sua rede de iniciativas, pois os textos ontoepistemológicos aqui abordados (Vigotski, 1931/2007; 1930/2025) datam dos anos de 1930 a 1931. Em tal ciência, ele encontra um caminho para o estudo do desenvolvimento da criança e do adolescente em sua integralidade, para além do caráter monodisciplinar de sua psicologia. Tal aspecto não desvaloriza seu compromisso com a pedologia, mas tampouco significa que ele tivesse efetivamente desistido de buscar um caminho sintético também para a psicologia, como prova um dos últimos materiais por ele produzido, o capítulo final do Pensamento e linguagem, escrito em 1934, em que vemos sinais da definição da consciência como objeto – ou questão “fulcral” (Vigotski, 1934/2001, p. XIX) – da psicologia, uma totalidade sistêmica, e não apenas a psicologia como estudo das funções psíquicas superiores e do comportamento, tal como ele afirma nos textos pedológicos.
Ao reformar, às pressas, seu ideário sobre o objeto e o método da pedologia e da psicologia, bem como as relações entre essas e outras ciências, Vigotski realiza atos de anexação da segunda pela primeira, mas também mostra progressos significativos em relação à arquitetura de uma ciência do desenvolvimento humano, qualquer que seja o nome que ele lhe atribua.
No final das contas, a ideia de um compartilhamento do obiékt (a criança) e a diferenciação do predmiét (o desenvolvimento da criança como objeto científico em suas interconexões) pela psicologia e pela pedologia parecem demonstrar, involuntariamente, as dificuldades de a pedologia viabilizar-se como ciência. O resultado das reflexões de Vigotski (1930/2025) é demasiado confuso até mesmo para sua plateia. Solitário na dificílima discussão sobre a ordenação das jovens ciências que se constituíam em um espaço intelectual e prático cada vez mais vigiado, e sob a influência da defesa de Ivanovsky (1923) para a constituição das ciências de “totalidades concretas” como predmiéti, ficava difícil a Vigotski estabelecer fronteiras que viessem, a nosso ver, a fundamentar tanto a formação quanto o escopo da atuação profissional dos pedólogos, acusados, por fim, no decreto que proibiu a pedologia em 1936, de solapar a autonomia dos pedagogos (Comitê Central do Partido Comunista da URSS, 2010). Na ordem staliniana, a via do amplo debate público sobre como as ciências poderiam se organizar e contribuir para o desenho de políticas voltadas à solução dos graves problemas sociais estava fechada (especialmente no que tocava aos seus objetivos formativos e ao controle social).
Os textos de Vigotski analisados no presente artigo mostram outras dificuldades emergentes, particularmente na relação da pedologia com a psicologia. Somos tentados a considerar que sua dedicação à pedologia, em parte realizada às expensas das brilhantes e pormenorizadas reflexões para o futuro da psicologia no SCHP, elaboradas em 1927, descreve um movimento algo incoerente, no qual sua psicologia continua a ocupar-se, como antes, de problemas de desenvolvimento – e a considerá-los conforme a idade, apesar de esse ser o predmiét da pedologia. Tanto mais confuso, porque o impulso estatal na direção das disciplinas aplicadas teve vida curta, e os pesquisadores podem ter considerado prudente, naquele momento, construir diferentes opções de sobrevivência nos primórdios da era Stálin (Luria, 1988). A aproximação de Vigotski e Luria com relação à clínica e às ciências médicas é considerada uma opção pelas ciências mais distantes de tópicos controversos.
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» https://www.proquest.com/docview/375440329 - Yasnitsky, A. (2011). Lev Vygotsky: Philologist and defectologist, A sociointellectual biography. In W. E. Pickrein, D. A. Dewsbury, & M. Wertheimer (Orgs.), Portraits of pioneers in developmental psychology (Vol. 7, pp. 105-129). Taylor & Francis.
- Yasnitsky, A. (2018). Vygotsky: An intellectual biography. Routledge.
- Yasnitsky, A., & van der Veer, R. (2016). Revisionist revolution in Vygotsky studies. Routledge.
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Grosso modo, tenho denominado a estrutura da psicologia exposta em Vigotski (1927/1996) triádica, pois articula-se em três níveis: o geral, que refere-se a todos os seres humanos; o particular, a meios sociais/modos de produção particulares; e o singular, a sujeitos singulares (que tendem a ser enfocados em seu meio social imediato) (Toassa & Moraes, 2024). A psicologia da arte poderia figurar como uma das psicologias particulares, mas sua concepção precede a tentativa de articulação exposta em Vigotski (1927/1996).
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Por contar com muitos médicos em suas fileiras, a pedologia foi um dos meios para uma maior aproximação de Vigotski para com a clínica e a medicina. Na companhia de Luria, Lev Semionovitch começa a estudar Medicina em Kharkov (Yasnitsky, 2018), embora não tenha chegado a concluir o curso.
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O caso das expedições de Luria e sua equipe ao Uzbequistão foi, neste sentido, o mais grave choque entre o Círculo de Vigotski e o Partido, enquanto o bielorrusso ainda vivia: buscando compreender os impactos do “experimento social” socialista nas funções psíquicas superiores das populações longínquas da república uzbeque, os autores buscam passar do contexto dos laboratórios de psicologia experimental para a vida real. A iniciativa, contudo, voltou-se contra os pesquisadores, vindo a desagradar o Partido ao produzir resultados que retratavam tais populações de modo distinto da propaganda oficial. Esse complexo caso é melhor analisado em Toassa (2016) e na bibliografias ali expostas.
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As referências clássicas serão identificadas por data de redação, ou, na ausência dessa informação, pela primeira publicação ainda em vida de Vigotski.
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Van der Veer, Dafermos e Yasnitsky são conhecedores da bibliografia da revolução arquivística. Bauer e Joravsky enquadram-se entre os historiadores clássicos da psicologia soviética.
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Importante observar que os alunos de Vigotski eram oriundos dos cursos de pedologia, filosofia e pedagogia, desenvolvendo com ele pesquisas em psicologia, pois os primeiros cursos de graduação em psicologia foram criados apenas nos anos 1950 (Yasnitsky & van der Veer, 2016).
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“Hoje em dia, é comum reclamar das imperfeições e do estado calamitoso da psicologia. Muitas pessoas pensam que a psicologia como ciência ainda não começou e só começará em um futuro mais ou menos distante”. Os prefácios de estudos psicológicos são escritos em tom menor, e ‘Príamo sobre as ruínas de Troia’ (é o que afirma com a mão leve N. N. Lange, que não encontrou analogia melhor para a psicologia moderna) passeia pelas páginas de livros de psicologia (Vigotski, 1931/2005, p. 31, tradução nossa).
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Conforme nota de Puzirei, a “clínica” era a Clínica de Doenças Neurológicas sob a direção de E.K. Sepp. G. V. refere-se a Gita Vasil’evna Birnbaum (Birenbaum) (1903-1952): psicóloga russa que trabalhou em Berlim, sob orientação de Lewin, antes de mudar-se para Moscou e, com Vigotski, organizar experimentos sobre o esquecimento de intenções (ver Vygotsky, 1931/2007).
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“O problema do desenvolvimento cultural da criança”, de 1928 (Vigotski, 2021).
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A primeira crítica pública que focou a pedologia de Vigotski foi “The theory of cultural development in pedology as an eclectic conception with basically idealist roots.”, de Feofanov, em 1932 (Toassa, 2016).
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Falamos do primeiro “surto” de críticas públicas, que criou um ambiente propício ao arrivismo social dos jovens oriundos de classe proletária no qual professores podiam ser investigados e duramente criticados pelos estudantes da própria instituição (caso de Razmyslov, doutorando vinculado ao Partido que se tornou responsável pelo relatório crítico oficial sobre Vigotski, conforme Toassa, 2016).
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Isso se evidencia na problematização realizada sobre o estudo do intelecto prático da criança de determinada idade, a ser melhor explorada no item 3 do presente texto.
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O monismo de Espinosa (1977/2008) compreende a natureza, em seu todo, como substância (que os marxistas costumam interpretar como equivalente à matéria), a qual compõe-se de dois atributos identificáveis pelos seres humanos: pensamento e extensão. Para o filósofo, seríamos modos finitos da substância, compostos pelos referidos atributos. Outros animais também apresentam tal composição, embora difiram da essência humana em sua essência e nos gêneros de conhecimento. De modo geral, contudo, os modos finitos e infinitos compõem-se apenas de extensão, e não de pensamento.
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Nas palavras do autor: “Podemos formular a lei genética geral do desenvolvimento cultural da criança da seguinte forma: cada função no desenvolvimento cultural da criança aparece em cena duas vezes, em dois planos: primeiro no plano social e depois no plano psicológico, inicialmente entre as pessoas como uma categoria interpsíquica, e, depois, dentro da criança como uma categoria intrapsíquica. Isso se aplica igualmente à atenção voluntária, à memória lógica, à formação de conceitos e ao desenvolvimento da vontade” (Vygotski, 1931/1995, p. 150, tradução nossa).
- Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
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Como citar:
Toassa, G., Costa, E. M., & Hazin, I. A. (2026). Uma Quebra e Duas Crises: Labirintos da Pedologia e Psicologia de Vigotski. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303038. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303038
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How to cite:
Toassa, G., Costa, E. M., & Hazin, I. A. (2026). A Break and Two Crises: Mazes of Vygotsky’s Pedology and Psychology. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303038. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303038
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Cómo citar:
Toassa, G., Costa, E. M., & Hazin, I. A. (2026). Una Ruptura y Dos Crisis: Los Laberintos de la Pedología y la Psicología de Vygotsky. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303038. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303038
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Editores responsáveis:
Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira
