Open-access Motivos de Abandono da Carreira dos Karatecas da Seleção Brasileira

Dropout Factors in the Careers of Karate Athletes in the Brazilian National Team

Los Motivos del Abandono de la Carrera en los Karatecas de la Selección Brasileña

Resumo:

Com o objetivo de analisar os motivos que acarretam o abandono da carreira internacional dos atletas da Seleção Brasileira de Karatê, este estudo adotou uma abordagem de métodos mistos e coletou dados de 47 ex-atletas que fizeram parte desse grupo na categoria sênior. Os participantes responderam a um questionário estruturado com perguntas fechadas e uma pergunta aberta sobre grau de influência dos motivos de abandono da carreira de atleta da Seleção Brasileira. Os dados quantitativos foram analisados por meio de modelos de regressões ordinais multiníveis bayesianos e os dados qualitativos por meio da análise temática. Verificou-se que os motivos que mais influenciaram a saída da Seleção Brasileira foram questões financeiras, dificuldades de conciliação das carreiras e insegurança profissional. Os dois principais temas que emergiram dos comentários dos participantes foram a “falta de uma gestão profissional” e “falta de reconhecimento”. Com base nos resultados, verifica-se a necessidade de uma reestruturação das condições presentes no meio esportivo para que os atletas se sintam seguros em relação à sua carreira e possam performar com excelência.

Palavras-chave:
Esporte; Aposentadoria; Transição

Abstract:

This study analyzes dropout-related factors in the international career of athletes from the Brazilian Karate team. Adopting a mixed methods approach, the study collected data from 47 former athletes from the Brazilian Karate team, senior category. Participants answered a structured questionnaire with closed questions and one open question about the degree of influence of the dropout factors for retiring from their career as Brazilian team athletes. Quantitative data were analyzed using Bayesian multilevel ordinal regression models, and qualitative data using thematic analysis. Factors that most influenced the dropout of the Brazilian athletes included financial issues, difficulties in balancing careers and professional insecurity. Two main themes emerged from participants’ comments: “lack of professional management” and “lack of recognition.” From the results emerges a need to restructure the present conditions in the sporting environment so that athletes feel secure in their career and can perform with excellence.

Keywords:
Sport; Retirement; Transition

Resumen:

Con el objetivo de analizar los motivos que llevan al abandono de la carrera internacional de los atletas de la selección brasileña de Karate, este estudio adoptó un enfoque de métodos mixtos y recolectó datos de 47 ex atletas de la selección brasileña de Karate, categoría sénior. Los participantes respondieron a un cuestionario estructurado con preguntas cerradas y una pregunta abierta sobre el grado de influencia de los motivos de abandono de la carrera de un deportista en la selección brasileña. Los datos cuantitativos se analizaron mediante modelos bayesianos de regresión ordinal multinivel; y los datos cualitativos, mediante análisis temático. Se encontró que los motivos que más influyeron en la salida de la selección brasileña se debieron a cuestiones financieras, dificultades para conciliar carreras e inseguridad profesional. Los dos temas principales que surgieron de los comentarios de los participantes fueron la “falta de gestión profesional” y la “falta de reconocimiento”. Con base en los resultados, parece que existe la necesidad de reestructurar las condiciones presentes en el ambiente deportivo para que los atletas se sientan seguros en relación con su carrera y puedan desempeñarse con excelencia.

Palabras clave:
Deporte; Jubilación; Transición

Influência dos motivos de abandono da carreira dos karatecas da seleção brasileira

O karatê tem sua origem em um extenso processo multicultural, mas está profundamente enraizado nas tradições e filosofias japonesas, sendo uma das artes marciais mais praticadas em todo o mundo (Lawton & Nauright, 2019). A inclusão do karatê nas Olimpíadas de Tóquio, de 2020, representou uma oportunidade histórica, ampliando ainda mais a visibilidade global da modalidade. A inclusão do karatê como esporte olímpico resultou na possibilidade de respaldo financeiro pelo Comitê Olímpico Brasileiro, entretanto o karatê brasileiro ainda carece de recursos, gerando insegurança financeira e possíveis aposentadorias precoces entre os atletas (Amaral & Mazzei, 2021). Ressalta-se que o suporte financeiro é considerado uma das bases para o alcance do sucesso esportivo internacional (De Bosscher, 2018), devendo ser adequadamente gerenciado.

Assim como em todo esporte, o alcance do alto rendimento esportivo no karatê exige anos de dedicação e treinamento, o que pode ser obtido por meio de vários caminhos de desenvolvimento. A trajetória de formação é única para cada atleta, com desafios variados ao longo do caminho (Ryba et al., 2015). Adicionalmente ao percurso de formação esportiva para o alcance do alto rendimento, manter-se nesse patamar representa um desafio constante, que pode contribuir para o esgotamento ou até mesmo o abandono da modalidade (Soares & Carvalho, 2023). Ressalta-se que o abandono se refere a atletas que interromperam sua participação em um esporte durante um período específico de competições ou que realmente encerram o ciclo como atleta, não almejando voltar ao alto rendimento (Butcher et al., 2002; Fraser-Thomas et al., 2008).

Apesar dos notáveis avanços nas ciências do esporte, medicina esportiva e psicologia do esporte ao longo do tempo, diversos fatores cruciais continuam a impactar a jornada de atletas profissionais (John et al., 2019). Um dos fatores que pode ser determinante para o abandono esportivo do alto rendimento são as lesões, cuja gravidade pode estar intrinsecamente relacionada a desafios físicos, psicológicos, cognitivos e emocionais (Wylleman, 2019). Adicionalmente, o planejamento financeiro e necessidade de apoio também são fatores determinantes para o abandono esportivo do alto rendimento (De Bosscher et al., 2015).

O esporte, longe de ser apenas o desenvolvimento das capacidades físicas, está profundamente conectado às relações que o atleta possui nos contextos de desenvolvimento, permeando dimensões pessoais, sociais, culturais e profissionais (Lima, 2018). A influência dos colegas de treino, treinadores e família sobre o abandono dos atletas pode ser significativa e crucial, desempenhando um papel importante no comprometimento esportivo e na motivação para continuar frequentando o mesmo ambiente de treino, considerando as desafiadoras jornadas de treinamento de longo prazo (Soares & Carvalho, 2023). Além disso, intervenções eficazes por parte dos treinadores ao longo da carreira dos atletas são cruciais para otimizar o desenvolvimento e desempenho, prevenindo o abandono esportivo (Camiré et al., 2020). Destaca-se ainda o papel dos pais na manutenção da carreira desportiva (Gould et al., 2006), a necessidade de considerar os fatores ambientais na trajetória esportiva (Li et al., 2014), bem como a importância de uma equipe multidisciplinar que forneça suporte em várias áreas, abrangendo os aspectos físicos e mentais dos atletas (Li et al., 2014).

Portanto, considerando a importância de se investigar os motivos de abandono esportivo, a carência de estudos sobre abandono esportivo em modalidades emergentes ao conceito de modalidades olímpicas e a necessidade de se investigar atletas de representação nacional que estão no mais alto rendimento, este estudo teve como objetivo analisar os motivos que acarretam o abandono da carreira internacional dos atletas da Seleção Brasileira de Karatê.

Método

Este estudo, de natureza descritiva-exploratória de métodos mistos (Thomas et al., 2015), foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade do Extremo Sul Catarinense (nº 6.276.173).

Participantes

Fizeram parte do estudo 47 ex-atletas da Seleção Brasileira de Karatê, da categoria sênior, que abandonaram a categoria após 2013. Como critérios de inclusão, era necessário: a) ter integrado a Seleção Brasileira na categoria sênior; e b) ter abandonado após 2013. A categoria sênior foi escolhida por ser a principal em rendimento esportivo profissional. O ano de 2013 foi estabelecido, pois as informações dos participantes constam no site da Confederação Brasileira de Karatê (CBK) a partir desse ano.

A partir da identificação dos participantes no site da CBK, os pesquisadores entraram em contato através das redes sociais, apresentaram-se e explicaram os objetivos e solicitaram um e-mail para comunicação oficial. Após a identificação, os objetivos e pressupostos da pesquisa foram compartilhados com os potenciais participantes. Nenhuma informação sobre instituições ou organizações foram coletadas, sendo o foco da pesquisa exclusivamente no atleta. Os participantes foram voluntários, consentiram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Aqueles que optaram por não participar não foram incluídos na pesquisa.

Instrumentos e procedimentos

Para a coleta de dados, foi elaborado um questionário para mensurar os motivos de abandono da Seleção Brasileira de Karatê (Quadro 1). Este questionário foi desenvolvido com base nos pressupostos teóricos acerca dos motivos de abandono da carreira esportiva (Soares & Carvalho, 2023), fundamentando-se no Modelo Holístico da Carreira Atlética (Wylleman, 2019). O questionário é composto por 13 itens independentes, ou seja, cada item representa um motivo de ter abandonado a carreira esportiva. Sumariamente: o item 1 está relacionado aos colegas de treino; o item 2, ao treinador; o item 3, às organizações esportivas; o item 4, ao apoio financeiro; o item 5, ao suporte familiar; o item 6, às jornadas de treino; o item 7, à conciliação da carreira; o item 8, à insegurança profissional; o item 9, à motivação; o item 10, à estrutura física; o item 11, à falta de tempo para lazer/vida social; o item 12, à equipe multidisciplinar; e o item 13, a lesões. O questionário foi elaborado utilizando uma escala categórica de 1 (não influenciou nada) a 6 (influenciou muito). Além disso, ao final, incluiu-se uma pergunta aberta e não obrigatória: “Gostaria de acrescentar mais algum motivo que te influenciou a abandonar a seleção?”.

Após a definição dos itens, o questionário foi submetido a uma subamostra de atletas de karatê para conferência quanto à compreensão da escrita dos itens, bem como à relevância de cada item. Os atletas participantes dessa fase não foram incluídos na amostra final. Com base nas análises e avaliações da subamostra, foram feitos ajustes nas nomenclaturas para facilitar a compreensão, e adicionou-se uma questão sobre a influência de lesões no abandono. Após esses ajustes, considerou-se que o questionário estava adequado para aplicação na amostra principal. O questionário foi disponibilizado online através do Google Forms, dividido em dois blocos de perguntas: informações sociodemográficas e o questionário específico.

Quadro 1
Questionário sobre motivos de abandono da Seleção Brasileira de Karatê

Análise dos dados

Modelos de regressão ordinal multiníveis bayesianas foram utilizados para estimar as probabilidades de respostas acerca dos motivos de abandono ajustados pelas características individuais dos participantes. Foi usada a função de distribuição cumulativa padrão para nos permitir mapear as probabilidades cumulativas. Primeiramente, ressalta-se que os modelos multiníveis são os mais indicados, pois consideram a natureza hierárquica dos dados (Gelman & Hill, 2007). Adicionalmente, a necessidade de se considerar o uso de modelos ordinais se justifica pela própria estrutura do questionário, pois as respostas dos participantes (variável dependente) são em categorias ordinais. Apesar dessas variáveis não serem métricas, pesquisadores comumente as analisam como métricas, o que pode causar interpretações distorcidas. Por fim, os métodos bayesianos consideram os parâmetros como variáveis aleatórias e estimam a distribuição de probabilidade com base nos dados disponíveis e nas informações de distribuição prévia que medem a incerteza sobre os parâmetros (McElreath, 2015).

As interpretações dos presentes modelos são expressas em unidades de desvio padrão (magnitudes de efeito). As categorias de referência são fixadas como “um” e as interpretações dos tamanhos de efeito padronizados são baseadas nessas categorias. A literatura reconhece que a interpretação de tais efeitos não é imediatamente óbvia. Assim, os resultados são plotados para ter uma interpretação métrica natural (Bürkner & Vuorre, 2019). Diferentemente do método frequentista, o método bayesiano não faz uso do “p-valor”, que, portanto, não será visto. As interpretações são realizadas de acordo com os intervalos de confiança e das interpretações gráficas.

Anteriormente à análise, o banco de dados foi ajustado para a estrutura de um banco de dados longitudinal. Assim, cada participante (id) ficou com 13 entradas no banco de dados e o banco de dados geral com 611 entradas de respostas. Para estimar as probabilidades de respostas, foi considerada a resposta acerca dos motivos de abandono como variável de interesse ajustada pelas variáveis de id, itens, sexo (feminino e masculino), lesão (sim e não), faixa etária (< 30 anos e ≥ 30 anos), idade agrupada que saiu da seleção (< 25 anos e ≥ 25 anos), idade agrupada que entrou na seleção (< 18 anos e ≥ 18 anos), horas de treino semanal (< 20 horas e ≥ 20 horas), escolaridade (< ensino superior e ≥ ensino superior) e tempo de representação na seleção brasileira (< 5 anos, 5-9 anos e ≥ 10 anos).

Para regularizar as estimativas, foram utilizadas distribuições normais a priori pouco informativas, seja para os efeitos de nível de população (0, 10) ou para efeitos a nível de grupo (0, 1). Duas cadeias de Markov com 4 mil iterações foram utilizadas, bem como mil iterações iniciais para garantir a convergência das cadeias. Os modelos foram implementados utilizando a linguagem de programação (R Core Team, 2018) e por meio do pacote “brms” (P. Bürkner, 2017). Além disso, foi utilizado o pacote “ggplot2” (Wickham, 2016) e “tidybayes” (Wickham, 2014) para visualização gráfica dos dados.

Para análise dos dados qualitativos, foram aplicados os procedimentos de análise temática propostos por Braun e Clarke (2006; 2019). Inicialmente, foram lidas inúmeras vezes as respostas dos participantes para reconhecimento, familiaridade e interpretação dos dados. Sequencialmente, iniciou-se a geração da codificação inicial. Após geração dos temas emergentes, eles foram compartilhados com outro pesquisador para conferência das temáticas. Os parâmetros utilizados foram baseados nos motivos de abandono da carreira esportiva (temas considerados a priori) (Soares & Carvalho, 2023) e temas que emergiram das falas (temas a posteriori). Com os temas inicialmente definidos, iniciou-se uma nova leitura das respostas para possíveis refinamentos. Definida a codificação dos temas, uma nova leitura foi iniciada para confirmação, reajustes ou exclusão das respostas dentro das temáticas. Para garantir a integridade metodológica, a fidelidade ao assunto e sua utilidade para atingir os objetivos da pesquisa foram o foco de todo o processo de pesquisa (Levitt et al., 2018).

Resultados

É apresentada na Tabela 1 a análise descritiva dos participantes. Participaram do estudo 47 (25 mulheres) ex-atletas da Seleção Brasileira de Karatê da categoria sênior, sendo 23 com idade inferior a 30 anos. Quanto ao tempo na seleção brasileira, 15 tinham menos de cinco anos e cinco tinham mais de 10 anos representando-a. Do total, 27 entraram na seleção antes de seus 18 anos, 22 saíram da seleção antes dos seus 25 anos, 30 treinavam até 20 horas semanais, e 17 não tiveram lesão durante o período na seleção brasileira. Quanto à escolaridade, apenas 8 não tinham ensino superior completo.

Tabela 1
Análise descritiva dos participantes.

Sequencialmente, a Figura 1 apresenta as probabilidades de respostas acerca dos motivos de abandono dos ex-atletas da Seleção Brasileira de Karatê por item do questionário. As estimativas dos intervalos de confiança (95%) são apresentadas na Tabela 2. Verifica-se que as questões 1, 2, 5, 6, 10, 11, 12 e 13 apresentam probabilidades de respostas elevadas para “não influenciou nada” (1), enquanto as questões 4 (financeiro), 7 (conciliação das carreiras) e 8 (insegurança profissional) apresentaram probabilidades de respostas mais elevadas para “influenciou totalmente” (6). Por outro lado, as questões 3 (organizações esportivas) e 9 (motivação) tiveram probabilidades de respostas semelhantes em relação a “não influenciou nada” e “influenciou totalmente”.

Figura 1
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1-Q13) de abandono dos ex-atletas da Seleção Brasileira de Karatê

Tabela 2
Estimativas (95% de intervalo de confiança) dos motivos de abandono da seleção brasileira de Karatê.

Quando analisada a probabilidade de respostas considerando o sexo, horas de treino semanal, idade agrupada, idade que entrou na seleção, idade que saiu da seleção, lesão e tempo de representação da seleção, verifica-se que tais critérios não apresentam alterações de respostas entre os agrupamentos por variável e entre variáveis, mantendo-se as probabilidades similares ao que é apresentado na Figura 1. As variáveis são apresentadas também nos Gráficos de 1 a 7.

Gráfico 1
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando o sexo.

Gráfico 2
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando as horas de treino semanal.

Gráfico 3
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando a faixa etária.

Gráfico 4
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando a idade agrupada que entrou na seleção.

Gráfico 5
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando a idade agrupada que saiu da seleção.

Gráfico 6
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando a se tiverem lesão ou não.

Gráfico 7
Probabilidades de respostas acerca dos motivos (Q1 - Q13) de abandono dos ex-atletas da seleção brasileira de Karatê considerando o tempo agrupado de representação da seleção.

Considerando a análise dos resultados qualitativos, do total dos 47 participantes que responderam aos itens do questionário, 31 responderam à pergunta aberta. A temática que mais se destacou foi a “falta de recursos financeiros”, sendo apontada por 14 participantes, a exemplificar pela resposta do participante 20:

O maior motivo foi a falta de incentivo financeiro mesmo. A estrutura que eu estava inserida na época não me permitia viver financeiramente bem só do esporte. Isso acabou gerando muita insegurança e dependência financeira de outras pessoas. Consequentemente não estava bem psicologicamente para continuar nesse cenário, o que acarretou na minha decisão de saída do esporte.

O participante 31 também ressaltou a importância do suporte financeiro:

Um dos principais motivos que me levou a sair do karatê foi a falta de apoio financeiro. Para poder representar o país em viagens internacionais, tinha que sair do próprio bolso as viagens, eram caríssimas, como eu não tinha apoio e estrutura familiar para pagar as despesas, vivia batendo na porta de empresas, eram super desgastante as centenas de “nãos” que recebia.

A segunda temática que emergiu foi “falta de gestão profissional”, sendo mencionada por cinco dos participantes que responderam à questão aberta. Esse tema pode ser exemplificado pelo participante 9, quando comenta “Falta de profissionalismo na gestão da estrutura da seleção brasileira foi um dos fatores decisivos”, e pelo participante 10, quando diz “Falta de respeito, falta de clareza nas decisões da CBK, corrupção na formação da seleção. Apadrinhamentos de atletas de determinados estados”.

Sequencialmente, o terceiro tema que emergiu foi “falta de reconhecimento/valorização do atleta”, sendo mencionado por quatro participantes. Exemplo desse tema é o relato do participante 1:

A falta de estrutura e valorização do esporte. Infelizmente o karatê do Brasil ainda é um esporte extremamente amador e com pouca valorização ao atleta, além disso o não reconhecimento aos atletas mais jovens e investimentos para plano de carreira, sendo um grupo fechado (panela) de atletas beneficiados pela confederação em diversos fatores fizeram com que eu procurasse outro caminho na minha carreira esportiva.

Outras temáticas emergiram isoladamente, como a insegurança futura, paternidade/maternidade, lesão e desgaste físico e mental, apresentadas a seguir, respectivamente:

Motivo principal foi a falta de perspectiva quanto ao futuro. Depois que lutei os jogos Panamericanos e vi a realidade de que em outros países o Karatê era muito mais valorizado. Me senti na obrigação de iniciar minha carreira profissional. (Participante 15)

Realmente o que mais influenciou a minha saída de todo circuito para permanecer na seleção brasileira, foi que com a vinda da minha filha ao mundo, fez com que eu focasse mais nas aulas do que propriamente nos treinos, pois a responsabilidade de manter tudo em ordem fez com que eu abandonasse de vez os tatames no cenário nacional e internacional. (Participante 28)

Risco de lesionar novamente e isso atrapalhar minha trajetória profissional. (Participante 29)

O desgaste físico e mental contou bastante para isso, algumas coisas dentro do esporte foram desanimadoras para minha decisão em sair, principalmente a falta de empatia, falta de respeito como atletas. Muitas pessoas acham que ser atleta é um mar de rosas, mas sabemos que não é e o quanto é difícil se manter lá. (Participante 22)

Discussão

O objetivo deste estudo foi analisar os motivos que acarretam o abandono da carreira internacional dos atletas da Seleção Brasileira de Karatê. Nossos resultados apontam que a falta de recursos financeiros, a dificuldade em conciliar outras atividades, como estudo ou trabalho, e a insegurança futura foram determinantes para muitos participantes abandonarem a seleção brasileira. No entanto, não foram identificadas variações substanciais quando se consideraram as características individuais dos participantes. Adicionalmente, os dados qualitativos reforçaram a influência do suporte financeiro e da gestão das organizações e adicionaram a falta reconhecimento/valorização como atleta.

O suporte financeiro e os patrocínios desempenham um papel crucial na carreira de qualquer atleta de alto rendimento (Ramos et al., 2023). No contexto brasileiro, em que os recursos são limitados, muitos atletas enfrentam dificuldades para custear treinamentos e competições, o que pode inviabilizar sua permanência no cenário esportivo de elite (Viana et al., 2024). Um marco significativo para o karatê brasileiro foi sua inclusão no quadro de modalidades olímpicas. Como resultado, a CBK começou a receber repasses de verbas direcionadas aos esportes olímpicos pelo Comitê Olímpico Brasileiro, o que levou a um considerável aumento em sua capacidade de investimento, embora ainda esteja longe do ideal (Amaral & Mazzei, 2021; Mazzei et al., 2014). Nosso estudo destaca essa questão, demonstrando que o apoio financeiro foi um fator determinante para o abandono da carreira por parte dos ex-karatecas da seleção brasileira. Apesar disso, o Programa Bolsa-Atleta, do Governo Federal, tem apresentado aumento substancial em seu orçamento e na distribuição de bolsas (Almeida et al., 2024).

Estudos anteriores realizados no Brasil também apontam para a relevância da falta de suporte financeiro em outras modalidades esportivas, como basquetebol, remo, natação e ciclismo (Ferreira et al., 2020; Reis et al., 2014; Santos Neto, 2016; Sousa, 2010). Além disso, destacam que a insegurança financeira vai além do contexto esportivo, afetando a vida pessoal dos atletas, que muitas vezes recebem apenas ajuda de custo, sem garantias de moradia adequada, treinamento adequado ou remuneração justa. Essa situação pode gerar uma insegurança financeira considerável, pois, mesmo alcançando alto desempenho esportivo, os atletas nem sempre são reconhecidos e remunerados adequadamente (Lima, 2018). Todo esse contexto pode suscitar uma intensa sensação de desvalorização, tanto pessoal quanto profissional, o que se torna uma barreira significativa para os atletas que aspiram a continuar na modalidade.

Wylleman (2019) enfatiza a importância da segurança financeira para os atletas, destacando a necessidade de adquirir competências e habilidades para garantir futuras oportunidades de emprego. Nesse contexto, muitos atletas consideram a obtenção de um diploma acadêmico como uma forma de mitigar as preocupações relacionadas à insegurança financeira e profissional, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento de competências (Aquilina, 2013; Ryba et al., 2015). Além disso, é importante ressaltar que muitos atletas enfrentam a necessidade de complementar sua renda por meio de outras atividades profissionais (Ryba et al., 2015). Essa dupla carreira, embora possa proporcionar uma melhor preparação para o futuro, pode ser desafiadora e, por vezes, insustentável ao longo do tempo, por conta do desgaste físico e psicológico dessa dupla formação (Quinaud et al., 2022). Em nosso estudo, essa dificuldade em conciliar atividades como estudo, esporte e trabalho recebeu as pontuações mais altas em termos de influência total no abandono da seleção brasileira. Portanto, as respostas indicaram uma forte relação entre a insegurança futura, tanto financeira quanto profissional, e o abandono da carreira esportiva devido a outras necessidades, destacando a complexidade das questões enfrentadas pelos atletas.

Curiosamente, observou-se que a maioria dos ex-atletas não atribuiu influência à questão relacionada ao abandono devido às longas jornadas de treino. Isso é surpreendente, pois seria de se esperar que o intenso cronograma de treinos desempenhasse um papel relevante, especialmente para aqueles que optaram por uma dupla carreira. A literatura também indica que essas longas jornadas de treino e competição, aliadas às grandes exigências e expectativas do alto rendimento ao longo do tempo, podem levar os atletas à perda de motivação e, consequentemente, ao abandono da prática esportiva (Baron-Thiene & Alfermann, 2015). Por outro lado, o seu espírito competitivo, a vontade de continuar a treinar, a paixão e perseverança, o prazer, a forte autoconfiança e/ou os seus sentimentos de sucesso são suscetíveis de manter os atletas de elite envolvidos em suas modalidades esportivas e motivados a treinar mais no intuito de performar melhor (Wylleman, 2019).

Também não foram atribuídas altas probabilidades de abandono devido à falta de reconhecimento pelos pares (colegas de treino/equipe). Esse dado é um fator positivo, pois está intrinsecamente relacionado às questões afetivas que o atleta tem com a modalidade e que englobam dimensões pessoais, sociais, culturais e profissionais (Lima, 2018) e que poderiam levar ao abandono esportivo. No que diz respeito à falta de reconhecimento de treinadores, também não apresentou influência substancial para o abandono dos ex-caratecas da seleção brasileira, sobressaindo as respostas no sentido de que não influenciaram em nada na decisão. De acordo com Soares e Carvalho (2023), para maximizar o desenvolvimento e o desempenho dos esportistas, são necessárias intervenções dos treinadores ao longo do progresso na carreira dos atletas para assim evitar esse abandono do desporto. A presença de um treinador especialista com um histórico de orientar atletas para o mais alto nível de desempenho pode ser um estímulo ambiental altamente facilitador, embora insuficiente, para que alguns atletas atinjam níveis de desempenho de elite (Johnson et al., 2006).

Existe a possibilidade de que um desejo e características inerentes do atleta, como a eficácia de seu relacionamento interpessoal e a resistência a cargas físicas de trabalho elevadas, fazem com que o atleta adquira competência que possibilitem a coordenação dos diferentes contextos, resultando em sua permanência na carreira esportiva de rendimento (Johnson et al., 2008). Essas mesmas características podem fazer com que o atleta sinta que, mesmo que não tenha estrutura física/equipamentos adequados de treino, tempo para lazer e uma equipe multidisciplinar, esses motivos não são aptos a influenciar o abandono da carreira esportiva de alto rendimento. Entretanto, ressalta-se a necessidade de equipe multidisciplinar ao longo de toda a carreira para auxiliar em diversas áreas com os cuidados dos aspectos físicos e mentais dos atletas (Li et al., 2014). De acordo com a literatura, 70% a 80% dos atletas de elite aposentados apresentam problemas como alcoolismo e abuso de substâncias, depressão aguda, distúrbios alimentares, confusão de identidade, diminuição da autoconfiança e até mesmo tentativa de suicídio (Wylleman, 2019).

Assim como os treinadores, também se destaca o papel dos pais na manutenção da carreira desportiva (Gould et al., 2006). Nesse sentido, e corroborando com os achados desta pesquisa, o papel dos pais parece ser um fator que não influencia no abandono, podendo na verdade ser um fator de permanência e suporte. A estrutura familiar pode influenciar na participação esportiva. Entretanto, segundo Gould e colaboradores (2006), os pais colocavam grandes expectativas nos filhos e davam muita importância para a vitória.

Já no caso das organizações esportivas, verifica-se que muitas organizações no Brasil são gerenciadas por pessoas que não possuem formação em gestão esportiva ou experiência relevante (Quinaud et al., 2019), o que, segundo os dados deste estudo, podem conduzir ao abandono esportivo. Entretanto, altas probabilidades foram verificadas em ambos as respostas, seja de “não influenciar nada” ou de “influenciar totalmente”. No âmbito nacional, apenas algumas entidades de prática e de administração de certas modalidades apresentam organizações claramente mais profissionalizadas e desempenham um papel marcante no cenário econômico, apesar de organizações esportivas mundiais já utilizarem o conceito de gerir os seus recursos em busca de seus objetivos (Mazzei et al., 2015).

A falta de motivação para os ex-atletas teve uma certa influência, podendo ser classificada como respostas semelhantes dos pesquisados. O comprometimento e o envolvimento em tarefas altamente exigentes, como a prática deliberada, exigem que os atletas sejam altamente motivados, e tal realização pode determinar o desempenho das atletas em níveis mais altos ou mais baixos de participação esportiva juvenil, ou mesmo levar ao abandono (Soares & Carvalho, 2023).

Por fim, o risco de lesões pode ser uma questão fundamental e determinar a continuidade ou não da carreira dos jovens jogadores na profissionalização (Soares & Carvalho, 2023). Conforme as respostas obtidas, não indica probabilidade elevada no abandono esportivo do karatê. Por vezes, não é a lesão o problema direto de abandono, mas seu reflexo na saúde física e psicológica do atleta (Wylleman, 2019).

Considerações finais

Esta pesquisa objetivou analisar os motivos que acarretam o abandono da carreira internacional dos atletas da Seleção Brasileira de Karatê. Tendo em vista a alta probabilidade de respostas “influenciou totalmente” dos motivos relacionados a falta de apoio financeiro, dificuldade em conciliar atividades (estudo, esporte e/ou trabalho) e insegurança futura financeira/profissional, apresentam como possíveis causas do abandono dos karatecas da seleção brasileira.

As forças deste estudo estão não somente na amostra estudada, mas também no método analítico e nas potencialidades de aplicação prática, como a utilização dos presentes resultados no aprimoramento das políticas de gestão e organização das instituições esportivas. Este estudo auxilia para melhor entendimento de onde se deve aprofundar, em meio acadêmico, a fim de compreender os danos que causam esses problemas. Sendo assim, sugere-se para futuros estudos aprofundar as análises em cada um dos possíveis motivos de abandono da carreira esportiva, bem como acompanhar ao longo do tempo os atletas durante suas carreiras até seu momento de abandono ou término.

Apesar das potencialidades descritas, o estudo apresenta limitações. O número reduzido de participantes do estudo faz com que os resultados não possam ser extrapolados para contextos análogos. Além disso, por ser um estudo retrospectivo transversal, ele apresenta um cenário estático sobre os conteúdos abordados, bem como limita-se às memórias dos participantes da pesquisa.

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Disponibilidade de dados:

os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.https://doi.org/10.1590/1982-3703003285248

  • Como citar:
    Pereira, C. Z, Lima, A. B., Farias, J. M., & Quinaud, R. T. (2026). Motivos de Abandono da Carreira dos Karatecas da Seleção Brasileira. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e285248. https://doi.org/10.1590/1982-3703003285248
  • How to cite:
    Pereira, C. Z, Lima, A. B., Farias, J. M., & Quinaud, R. T. (2026). Dropout Factors in the Careers of Karate Athletes in the Brazilian National Team. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e285248. https://doi.org/10.1590/1982-3703003285248
  • Cómo citar:
    Pereira, C. Z, Lima, A. B., Farias, J. M., & Quinaud, R. T. (2026). Los Motivos del Abandono de la Carrera en los Karatecas de la Selección Brasileña. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e285248. https://doi.org/10.1590/1982-3703003285248

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Abr 2024
  • Aceito
    28 Jan 2025
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