Open-access REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DOS PRETOS-VELHOS PARA UMBANDISTAS E SIMPATIZANTES1

REPRESENTACIONES SOCIALES DEL PRETOS-VELHOS PARA UMBANDISTAS Y AMIGOS

RESUMO

Os Pretos-velhos são entidades na Umbanda, conhecidos como espíritos de negros africanos escravizados, atuando no atendimento às pessoas que vão aos terreiros, em busca de auxílio para problemas variados. Objetivou-se analisar a estrutura da representação social dos pretos-velhos na Umbanda para seus fiéis e simpatizantes. Trata-se de estudo descritivo-exploratório, qualitativo, à luz da abordagem estrutural da Teoria das Representações Sociais. Realizado virtualmente por meio do Google Forms®, com 202 umbandistas ou simpatizantes da religião, captados através da técnica Snowball, via compartilhamento de link por WhatsApp, no período de 6 a 11 de novembro de 2020, que responderam a questões de perfil sociodemográfico e três evocações livres em resposta ao termo indutor ‘Preto-velho na Umbanda’. Os dados sociodemográficos foram analisados por estatística descritiva e os relativos às evocações por análise prototípica e de similitude. Os resultados apresentam a estrutura da representação nas dimensões conceitual, prática, afetiva-atitudinal, imagética e de ação humana, cujo provável núcleo central é composto pelos elementos ‘amor, sabedoria, caridade e psicólogo’. Assim, os Pretos-velhos são compreendidos como entidades sábias, carinhosas, amorosas, empáticas, cuidadoras, acolhedoras, que ensinam resistência e resiliência na vida, com atuação semelhante aos profissionais da psicologia, podendo ser reconhecidos como psicólogos da umbanda. Sua representação para este grupo reside na imagem do negro escravizado, de características mais cristianizadas, defensor da moral cristã, como a paciência, a humildade e a caridade que, em conjunto com todo o contexto, possibilitam reforçar a ação humana da fé e da esperança na vida.

Palavras-chave:
Representação social; umbanda; espiritualidade

ABSTRACT. Pretos-velhos are entities in Umbanda, known as the spirits of enslaved black Africans, working to assist people who go to terreiros in search of help for various problems. The objective was to analyze the structure of the social representation of pretos-velhos in Umbanda for their faithful and sympathizers. This is a descriptive-exploratory, qualitative study, in the light of the structural approach of the Theory of Social Representations. Conducted virtually through Google Forms®, with 202 Umbanda umbandists or religious sympathizers, captured through the Snowball technique, via sharing a link via WhatsApp, from November 6 to 11, 2020, who answered sociodemographic profile questions and three free evocations in response to the inducing term ‘Preto-velho in Umbanda’. Sociodemographic data were analyzed using descriptive statistics and those related to evocations using prototypical and similarity analysis. The results present the representation structure in the conceptual, practical, affective-attitudinal, imagery and human action dimensions, whose probable central core is composed of the elements love, wisdom, charity and psychologist. Thus, Pretos-velhos are understood as wise, caring, loving, empathetic, caring, welcoming entities who teach resistance and resilience in life, acting similarly to psychology professionals, and can be recognized as umbanda psychologists. His representation for this group resides in the image of the enslaved black man, with more Christianized characteristics, defender of Christian morals, such as patience, humility and charity that, together with the whole context, make it possible to reinforce the human action of faith and hope in life.

Keywords:
Social representation; umbanda; spirituality


RESUMEN

Los pretos-velhos son entidades en Umbanda, conocidos como los espíritus de los negros africanos esclavizados, que trabajan para ayudar a las personas que van a los terreiros en busca de ayuda para diversos problemas. El objetivo fue analizar la estructura de la representación social de los pretos-velhos en Umbanda para sus fieles y simpatizantes. Se trata de un estudio cualitativo, descriptivo-exploratorio, a la luz del enfoque estructural de la Teoría de las Representaciones Sociales. Realizado de forma virtual a través de Google Forms®, con 202 umbandistas o simpatizantes religiosos, captados a través de la técnica Snowball, mediante enlace compartido vía WhatsApp, del 6 al 11 de noviembre de 2020, quienes respondieron preguntas de perfil sociodemográfico y tres evocaciones libres como respuesta a la inducción término ‘Preto-velho na Umbanda’. Los datos sociodemográficos se analizaron mediante estadística descriptiva y los relacionados con las evocaciones mediante análisis prototípico y de similitud. Los resultados presentan la estructura de representación en las dimensiones conceptual, práctica, afectivo-actitudinal, imaginario y acción humana, cuyo probable núcleo central está compuesto por los elementos amor, sabiduría, caridad y psicólogo. Así, los Pretos-velhos son entendidos como entidades sabias, solidarias, amorosas, empáticas, solidarias, acogedoras, que enseñan resistencia y resiliencia en la vida, actuando de manera similar a los profesionales de la psicología, pudiendo ser reconocidos como psicólogos de la umbanda. Su representación para este colectivo reside en la imagen del hombre negro esclavizado, con rasgos más cristianizados, defensor de la moral cristiana, como la paciencia, la humildad y la caridad que, junto a todo el contexto, permiten reforzar la acción humana de la fe y esperanza en la vida.

Palabras clave:
Representación social; umbanda; espiritualidad

Introdução

A Umbanda é uma religião cuja fundação e origem traduzem-se em questões controversas devido à sua formação de caráter histórico, social e cultural, tendo relação nas grandes mudanças surgidas no final do século XIX e início do século XX. Nesse período, surgem fatos marcantes da nossa história, como a abolição da escravatura, a urbanização da sociedade, a Proclamação da República e o fim da escravidão (Ortiz, 1999).

Decerto, os relatos que intentam identificar a fundação da umbanda perpassam inúmeras narrativas de cultos com a presença dos espíritos da umbanda, inclusive, em épocas anteriores ao marco (séc. XIX) assumido por muitos pesquisadores. Tal perspectiva pode ser encontrada em diversas obras sobre a umbanda e suas raízes, de características plurais e que, por vezes, se aproximam ou distanciam, principalmente, com relação ao surgimento da religião, conforme contribuições de Negrão (1996), Birman (1985), Brown (1985), Carvalho e Bairrão (2017) e outros.

Contudo, independentemente de quais narrativas ou marcos temporais utilizados para reconhecer o surgimento da religião, segundo Negrão (1996), a umbanda é considerada por seus adeptos uma religião genuinamente brasileira, em razão de acompanhar a formação étnica da nação, resultando no sincretismo advindo dos cultos afro-aborígene-cristão; logo, tem sua matriz negra, ladeada pela indígena e europeia. Baseia-se na possessão e culto aos espíritos, transformando grupos sociais marginalizados em símbolos religiosos, tendo sua memória preservada e valorizada mediante reparação psicológica para os fiéis (Bairrão, 2003).

Para Lopes (2003, p. 70), a palavra Umbanda trata-se de um vocabulário decorrente do ‘quimbundo’ e do ‘umbundo’, cujo significado é a “[...] arte do curandeiro, magia, ciência médica, medicina”. Silva e Scorsolini-Comin (2020), por sua vez, apontam que estes terreiros são buscados pelas pessoas para tratarem questões diversas, incluindo as de adoecimento por múltiplas causas, ficando, principalmente, sob a competência dos trabalhos de cura empenhados pelas entidades conhecidas como caboclos e pretos-velhos.

Os pretos-velhos são, então, responsáveis pelas consultas às pessoas que procuram os terreiros de umbanda, uma vez que se apresentam como referência para o cuidado, cujo enfoque psicológico e emocional, é facilmente reconhecido pelos praticantes e simpatizantes da religião (Lages, 2019). São reconhecidos como espíritos de negros africanos escravizados e ancestrais, com suas características de destaque, como a humildade, a bondade e a paciência (Dias & Bairrão, 2011), mas também tendo a eles vinculadas, memórias de insurgência, rebeldia e luta pela liberdade, em função daqueles que não cederam à total submissão e obediência, fugindo de seus senhores (Dias & Bairrão, 2014).

Deste modo, torna-se relevante conhecer o pensamento social do grupo em questão acerca dos pretos-velhos na Umbanda, pela construção simbólica e religiosa de fins práticos de cuidado e alicerçados no resgate histórico-cultural de formação brasileira, à luz da Teoria das Representações Sociais (TRS), a qual, segundo Moscovici (1978, p. 78), refere como “[...] uma modalidade de conhecimento particular, que tem por função a elaboração de comportamento e a comunicação entre os indivíduos, explicando assim os aspectos da vida cotidiana”.

A representação social (RS) do preto-velho por umbandistas e simpatizantes da religião permite resgatar questões importantes de conformação da religiosidade brasileira, inclusive de cuidado em saúde, em face de seu notório reconhecimento pelos adeptos da religião e, principalmente, por conceder espaço e oportunidade de reparação social e histórica. No passado, marginalizado e submetido a condições desumanas, hoje respeitado nos terreiros de umbanda enquanto entidade de saber. A representação se origina no cotidiano dos fiéis, nas conversas dentro e fora dos terreiros (Sá, 2015), e no trato com essas entidades, conformando o pensamento social do grupo e, consequentemente, seus conhecimentos, práticas e comportamentos compartilhados no meio religioso e na sociedade.

Sendo assim, considera-se que o presente estudo enseja contribuições no campo do conhecimento teológico, nas Ciências Humanas e na saúde, ampliando os horizontes de pesquisa e favorecendo a observação de fenômenos de cunho religioso que podem interferir na saúde e na maneira como os indivíduos a compreendem, por exemplo, como retrata Scorsolini-Comin (2014) em seu estudo, em que ofertou apoio psicológico em um terreiro de umbanda na forma de plantão psicológico, de maneira aliada às consultas espirituais.

Portanto, uma vez assumido o potencial religioso dos comportamentos, práticas e crenças acerca do preto-velho e da forma como a Umbanda entende o processo saúde-doença, justifica-se investigar as RS do grupo para descrever a sua estrutura e conhecer os fundamentos que conferem aos pretos-velhos reconhecimento no contexto do cuidado. Assim, é imperioso indagar qual a RS dos pretos-velhos na Umbanda e de que forma interfere na vida e/ou na saúde de seus fiéis e simpatizantes. Por esta razão, o objetivo geral da investigação foi analisar a estrutura da RS dos pretos-velhos na Umbanda para seus fiéis e simpatizantes.

Método

Trata-se de pesquisa descritivo-exploratória, qualitativa, delineada sobre o referencial teórico-metodológico da abordagem estrutural da TRS (Abric, 2003). O acesso aos participantes se deu por meio da técnica Snowball, com o convite para participação sendo feito por meio do compartilhamento do link referente ao instrumento de coleta pela Plataforma Google Forms, partindo dos autores (umbandistas e simpatizantes), residentes no município do Rio de Janeiro, via WhatsApp. Os primeiros compartilhamentos foram, então, destinados aos membros dos terreiros de convívio dos pesquisadores que, em seguida, encaminhavam o link para seus contatos de perfil semelhante, e assim sucessivamente.

A técnica Snowball, também conhecida como bola de neve, refere-se à amostragem, do tipo não-probabilística, muito utilizada em estudos qualitativos, alcançando participantes ou grupos que, naturalmente, são difíceis de captar ou, até mesmo, não muito conhecidos (Bockorni & Gomes, 2021). Além disso, o Google Forms é um aplicativo oriundo de uma planilha do Google Drive, integrado ao Gmail, que permite a criação e compartilhamento de questionários on-line (Mota, 2019).

Para tanto, os critérios de inclusão dos participantes foram: ≥18 anos à época da coleta, identificar-se como umbandista ou simpatizante da religião e ter tido contato ou frequentado terreiros de Umbanda. Foram excluídos 20 respondentes, ao constatar que eram duplicatas geradas pelo relatório do forms. Importa salientar que a pesquisa se deu em momento de pandemia, em que a maioria dos terreiros estavam com suas atividades presenciais suspensas, restando a possibilidade da coleta virtual. Além disso, justifica-se a seleção do público-alvo pelo conhecimento e contato direto com os pretos-velhos em meio a sua prática religiosa. Por se tratar de um estudo de representações sociais, é imprescindível que o objeto representacional tenha relevância social e seja importante para o grupo social investigado (Sá, 1998).

Desta forma, ao receberem o convite via link do forms, foram apresentadas, incialmente, todas as informações relativas à pesquisa e presentes no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), para que os participantes tomassem ciência e estivessem de acordo com a coleta. Após o consentimento, a pesquisa prosseguiu com a seção de caracterização dos participantes com sete variáveis (sexo; idade; raça/cor autodeclarada; onde reside; escolaridade; tempo de prática umbandista; e o que é na Umbanda: por exemplo, médium, consulente, simpatizante ou outro).

Posteriormente, foi iniciada a técnica de evocação livre de palavras. Assim, após as variáveis acima mencionadas, seguia-se a seguinte solicitação: ‘Escreva 3 palavras que vêm imediatamente a sua cabeça com relação à expressão: Pretos-velhos na Umbanda’. Trata-se de uma técnica associativa, em que é fornecido um estímulo ao participante por meio de um termo indutor previamente definido, seguindo os critérios de interesse do estudo pelo pesquisador, que visa conhecer os conteúdos e a estrutura representacional relativa ao fenômeno social (Oliveira & Gomes, 2015). Assim, as evocações livres possibilitam acessar o pensamento social do grupo sobre determinado objeto (Wolter et al., 2022).

Destarte, responderam à pesquisa 202 participantes no período de 6 a 11 de novembro de 2020. Em seguida, os resultados foram exportados em forma de planilha do Microsoft® Office Excel for Windows 2016, o qual permitiu o tratamento dos dados de caracterização, por meio de suas frequências relativas e absolutas, além da padronização das evocações com a criação do dicionário de termos evocados.

Após a padronização dos termos, foi formatado o corpus em Microsoft® Office Word for Windows 2016 para ser inserido no Software Esemble de Programmes Permettant l’analyse des Evoctions (EVOC) 2005 que, por sua vez, calculou a frequência de evocação de cada palavra, bem como a média ponderada de posição de evocação e, assim, também calcular a média das ordens médias ponderadas de evocação (Rang) que, em conjunto, permitiram a análise prototípica da RS com a construção do Quadro de Quatro Casas, o qual distribuiu os elementos em quatro quadrantes, obedecendo frequências e Ordem Média de Evocação (OME) (Oliveira & Gomes, 2015).

Salienta-se que tais parâmetros foram determinados pelos pesquisadores, após a tentativa de aplicação da Lei de Zipf, a qual gerou quadrantes vazios para discussão e, portanto, foi descartada com vistas a alcançar os elementos e a organização interna da RS (Brandão, 2021).

Prosseguindo à descrição da estrutura da RS, foram utilizados os elementos evocados constituintes do Quadro de Quatro Casas para a análise de similitude, proposta por Flament (1986), por meio do cálculo de coocorrência, isto é, a observação da evocação de pelo menos dois elementos do Quadro por um mesmo participante, expressa pelo índice de similitude, ressaltando os mais altos, assim como a maior quantidade de ligações entre eles.

A confecção da árvore máxima de similitude apresentada graficamente mediante as conexões estabelecidas (Pecora & Sá, 2008) foi realizada com a participação de 163 dos 202 participantes iniciais e com menor índice de 0,03, definido pelos pesquisadores para uma demonstração gráfica organizada e sem excessos. Desta forma, concebe-se um melhor entendimento a respeito da possível centralidade desta RS (Pecora & Sá, 2008).

Destaca-se ainda que a presente investigação respeitou todas as orientações e normativas éticas de pesquisas envolvendo seres humanos, conforme Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Portanto, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), com nº de parecer consubstanciado 4.380.513 e de Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) n° 31050020.0.00005282.

Resultados e Discussão

Os participantes do estudo foram majoritariamente mulheres (65,35%), na faixa etária de 29 a 39 anos (33,66%), brancas (55,94%), residentes no estado do RJ (90,10%), com destaque para o município do Rio de Janeiro (52%), com ensino superior completo (50,50%), umbandistas há pelo menos cinco anos (32,67%) e declaradas médiuns na Umbanda (88,61%). O perfil é semelhante aos resultados de Spezani et al. (2020). Além disso, Morais (2020) destaca que, no que tange à religião Umbanda, suas características simbólicas são fortemente partilhadas pelos cariocas através do conjunto formado pela identidade, pelas suas crenças e por seus valores.

Soma-se a isto, o fato de mais da metade dos participantes se autodeclararem brancos, podendo ser explicado pelo resgate à constituição histórico-religiosa da Umbanda no Brasil, mais especificamente na região sudeste, devido ao objetivo de reconhecimento enquanto religião genuinamente brasileira por parte de algumas lideranças religiosas à época, percorrendo um movimento de embranquecimento por aproximar-se do espiritismo dito kardecista, ao passo que afastava-se da imagem do negro africano que deu origem às macumbas cariocas (Morais, 2019; Ortiz, 1999).

Com relação ao maior nível de escolaridade e, levando-se em consideração o período em que a pesquisa foi realizada (2020), bem como o espaço em que a maioria de seus participantes estão inseridos (Rio de Janeiro), os resultados demonstram um cenário diferente do encontrado por Negrão (1996), em suas pesquisas realizadas por mais de duas décadas, com foco em São Paulo. Àquela época e cenário, Negrão (1994) atribuía aos Pais de Santo graus de instrução baixos e pouco interesse em estudos políticos, culturais ou profissionais, seguindo iniciativas de estudo somente em seu universo religioso. A presente pesquisa demonstra um perfil de participantes diferente, os quais têm tempo médio de Umbanda baixo e mais da metade possui ensino superior completo, alguns, inclusive, com pós-graduação completa. Tais achados são corroborados por Brandão (2021). Portanto, trata-se de uma outra realidade, um outro tempo e um outro espaço de concentração da comunidade religiosa.

Quanto ao que se compreende por médium na Umbanda, Campelo e Monteiro (2017, p. 115) consideram “[...] aquele que serve de intermediário entre os espíritos e os seres humanos [...]”, ou seja, indivíduos e guias e/ou entidades, a exemplo dos exus, caboclos, pretos-velhos e outros, que se manifestam em seus médiuns por meio da incorporação, cujo objetivo é a prática da caridade. Caridade esta que, provavelmente, como bem apontado por Negrão (1994), é absorvida da moralidade cristã de influências kardecistas, sobretudo no Rio de Janeiro, a partir da década de 20, com a institucionalização da religião por adeptos do kardecismo, de classe média, e afeitos, principalmente, aos caboclos e pretos-velhos.

No que tange à técnica de evocações livres, foi contabilizado um total de 606 palavras, sendo que destas, 100 foram diferentes. Desta forma, adotou-se como frequências mínima nove e média 18, além da média das OMEs, também conhecida como Rang, 2,1, para a construção do Quadro de Quatro Casas, conforme apresentado no Quadro 1.

Quadro 1
Quadro de Quatro Casas referente às evocações ao termo indutor ‘Preto-velho na umbanda’

Observa-se que, em atenção ao termo indutor ‘preto-velho na Umbanda’, o Quadro 1 demonstra como provável núcleo central da RS, os cognemas ‘amor, sabedoria, caridade e psicólogo’, expressos no Quadrante Superior Esquerdo (QSE), relativos à frequência média ≥ 18 e Rang < 2,1. No que tange à zona de contraste, localizada no Quadrante Inferior Esquerdo (QIE), verificam-se ‘carinho, conselheiro e orientação’, com as frequências mínimas ≥ 9 e médias < 18 e Rang < 2,1. Em atenção às periferias, observam-se ‘humildade, acolhimento, ter-fé e paz’ constituindo a primeira periferia, no Quadrante Superior Direito (QSD), os quais obedeceram à frequência média ≥ 18 e Rang ≥ 2,1; por fim, ‘respeito, esperança, cuidado, gratidão e proteção’ apresentam-se na segunda periferia, ou seja, Quadrante Inferior Direito (QID), cujas frequências mínimas foram ≥ 9 e médias foram < 18, além do Rang ≥ 2,1.

Conforme assevera Abric (2003), mais importante que identificar os elementos que estruturam uma RS é conhecer a sua organização interna, pois mediante a posição que o elemento ocupa no Quadro de Quatro Casas, reconhece-se a sua importância, em maior ou menor grau, para o grupo investigado, e possibilita-se diferenciar duas RS relativas a um mesmo termo indutor. Ademais, permite-se observar as dimensões representacionais apontadas por Moscovici (1978), como a de informação/conceito, a atitudinal e de campo de representação/imagem e outras baseadas na análise empírica pelo pesquisador.

Considerando-se ainda que o núcleo central de uma RS possui as funções de gerar (confere sentido), organizar (unifica os elementos) e estabilizar a representação, percebe-se que os cognemas pertencentes ao sistema periférico se organizam ao redor dele e ganham sentido mediante a influência dos seus elementos (Abric, 2003).

Assim, é possível afirmar que ‘amor, sabedoria, caridade e psicólogo’ são os elementos mais importantes da RS para os umbandistas, em função de comporem o provável núcleo central, o qual reúne cognemas de maior frequência e menor OME, bem como possui características de ser consensual, rígido, coerente, definidor da homogeneidade do grupo, vinculado à memória coletiva, histórica e social deste, resistir às transformações e ser pouco sensível ao contexto imediato, organizando e conferindo significado à RS (Abric, 2003).

Com relação ao sistema periférico, Abric (2003, p. 38-39) aduz que é onde estão os elementos mais acessíveis, concretos e vivos da RS, correspondendo às funções de “[...] concretização, regulação, prescrição de comportamentos, proteção do núcleo central e personalização [...]”. É, portanto, flexível, evolutivo, sensível ao contexto imediato, assume integração de experiências ao nível individual e aceita a heterogeneidade do grupo, permitindo adaptação à realidade objetiva e diferenças de conteúdo.

Verifica-se, então, que ao observar as funções dos sistemas central e periférico, assim como o conjunto dos seus elementos, a RS centra-se em cinco dimensões empíricas: conceitual, prática, afetiva-atitudinal, imagética e de ação humana. Além disso, destaca-se que os elementos presentes na zona de contraste reforçam a RS, por não demonstrarem um subgrupo com cognemas contrastantes aos demais e, principalmente, relativos ao núcleo central.

Em face da análise dimensional dos elementos, a dimensão conceitual concentra elementos presentes na literatura para descrever os pretos-velhos: ‘sabedoria, humildade, acolhimento, conselheiro e orientação’. A dimensão prática demonstra, dentre muitas outras, como os pretos-velhos trabalham na umbanda: ‘caridade e cuidado’. A dimensão afetiva-atitudinal demonstra-se por sentimentos: ‘amor, paz, carinho, respeito e gratidão’. A imagética retrata a analogia entre profissionais psicólogos em função dos elementos presentes na dimensão conceitual, somada à ideia de proteção espiritual, presente no imaginário dos adeptos: ‘psicólogo e proteção’. E a de ação humana refere-se ao que o preto-velho estimula para os fiéis da umbanda, a título de comportamento e enfrentamento diário de vida: ‘ter fé e esperança’. Portanto, sob esta ótica, é possível aprofundar e discutir a RS, baseando-se em sua organização interna e dimensional.

Lages (2019) considera os pretos e as pretas-velhas na Umbanda como velhos e velhas sábios, acolhedores, caridosos, curadores e dotados de conhecimentos específicos sobre plantas medicinais, com destaque para a sua capacidade de ajudar e acolher as pessoas em suas necessidades e seus momentos de fragilidade, principalmente justificando-se tal competência pela sua história, seu passado de sofrimento devido aos anos de escravidão e subjugação, pois aprenderam com suas experiências de vida a superar as adversidades. Acrescenta-se ainda, que o contexto social, político e religioso da Igreja Católica fez com que o preto-velho fosse simbolizado por seu comportamento cristianizado, com virtudes similares às dos Santos, como a resignação, paciência, ‘humildade, caridade e bondade’.

Por outro lado, Dias e Bairrão (2014) reforçam que na sacralização das histórias de vida dos pretos-velhos também constam na memória e no imaginário social do brasileiro aqueles escravizados rebeldes e insurgentes, o que não parece subsidiar a representação dos pretos-velhos para o grupo social investigado, mas que, ainda assim, é relevante de ser apontado, contrariando generalizações e reduções acerca de sua existência na Umbanda, tão plural, diversificada e dinâmica.

No mesmo sentido, Maia e Ferreira (2019) compreendem o preto-velho como o escravo domesticado, haja vista serem passivos, pacíficos, submissos, domados, subjugados, ao passo que também pode-se considerar o termo ‘doméstico’ frente ao que se entende por lar, proteção, aconchego, abrigo e sustentação, configurando um caráter simbólico de natureza cultural e psicossocial para esta entidade. Mello e Oliveira (2019) descrevem tal perspectiva, ao abordar o preto-velho como aquela entidade ancestral africana que dá o colo, uma palavra de ‘carinho’, de ‘esperança’, de conforto, ajudando as pessoas a seguirem em frente e não desistirem de seus projetos de vida ou de sua própria vida em meio às dificuldades.

Dias (2011) salienta que descrever o preto-velho na umbanda não permite caminhos restritos que condensem características genéricas de submissão, cristianização, humildade, domesticação ou inserção em âmbito doméstico. O aspecto fundamental de sua representação está na ancestralidade que, por sua vez, agrega filiação, pertencimento e identidade afro-brasileira, afrodescendente ou, até mesmo, brasileira. Seu papel destaca-se pelos ensinamentos de convivência com a alteridade, harmonicamente, sem, contudo, por um lado, negá-la ou combatê-la, e por outro, assujeitar-se ou render-se a autoridades opressoras.

Nota-se, com isso, que os pretos-velhos têm sua função reapropriada, simbolicamente, dentro do universo reificado, por meio do papel do ‘psicólogo’, ao serem comparados com estes profissionais pelas semelhanças de sua atuação (Rezende, 2020). Firmes na escuta, na orientação, no aconselhamento, no amparo e no acolhimento, “[...] ‘psicólogos populares’ que são, cuidam das ‘mazelas do espírito’ [...]”. Sendo assim, “[...] os psicólogos da Umbanda por excelência são os pretos-velhos” (Dias, 2011, p. 260, grifo do autor). A cura e o aconselhamento são suas especialidades, sendo, portanto, reconhecidos como “[...] médicos e psicólogos da espiritualidade” (Dias, 2011, p. 256). E para melhor compreender as semelhanças entre os pretos-velhos e os psicólogos, em seus contextos de cuidado às pessoas, Dias (2011, p. 220, grifo do autor) acrescenta:

[...] quaisquer semelhanças (e são muitas) entre aquilo que os pretos-velhos elaboram pela via simbólica umbandista, com o que psicólogos e psicanalistas tentam elaborar, obviamente no bojo de um instrumental bastante diverso, junto a seus clientes em consultórios clínicos, certamente demonstram o valor e o refinamento da religiosidade popular em colocar-se a serviço das questões mais profundas e universais que tocam o real do ‘ser humano’.

Esta imagem do preto-velho que acolhe e cuida foi, inclusive, retratada pela cultura brasileira e reforçada pela atenção midiática, como a iniciativa da escola de samba Paraíso do Tuiuti, no RJ, que no carnaval de 2018 ilustrou pela encenação da sua comissão de frente, intitulada ‘o grito da liberdade’, o trabalho do preto-velho quando ainda era um negro escravizado, cuidando de outro negro escravizado que tinha sido açoitado (Rezende, 2020). Ali foram trazidos muitos símbolos que representavam a imagem e as características físicas, de personalidade e de atuação desta entidade, vivas no imaginário do povo brasileiro.

Além disso, percebe-se que reconhecer o papel do preto-velho na Umbanda, bem como as descrições e características expressas pelos fiéis ancoradas no período da escravidão, salienta a historicidade, a memória social, assim como as marcas sociais e culturais que a mesma deixou em seu povo, representadas pelos pretos-velhos e presentes no senso comum dos brasileiros.

Por outro lado, o arquétipo do velho caridoso acima discutido, reflete que a caridade, mais que uma prática, parece ser uma norma social acordada por seus fiéis, razão pela qual apresenta-se em lugar de destaque, no provável núcleo central, ou seja, tende a ser inegociável para o grupo e, portanto, representada em maior intensidade no trabalho do preto-velho na Umbanda. Sobretudo, a caridade intermediada pela relação dos pretos-velhos com os fiéis reforça sua característica de ‘psicólogo popular’, como já apontado por Dias (2011).

Dito isto, é relevante refletir sobre as contribuições de Jodelet (2001), especialmente acerca da estrutura social e das condições de partilha de uma RS em que os sujeitos estão inseridos, pois neste processo estão implicadas questões inerentes à inscrição, posição e pertencimento social dos atores sociais, condições que influenciam diretamente na elaboração e compartilhamento de uma RS, pois os constructos representacionais já prontos e pouco sensíveis ao processo cognitivo de um indivíduo traduzem-se em ideologias dominantes previamente definidas pela estrutura social.

Logo, entende-se acerca da ‘caridade’, que figura como norma social, assegura a inscrição e pertencimento social do grupo, o qual é formado por indivíduos que concordam com esses códigos, incluindo a função de orientar e justificar comportamentos e de assegurar identidades, a exemplo da prática da caridade, pois se não fosse o caso, os sujeitos não se identificariam como umbandistas. Reside aqui então, a grande diferença que, ao mesmo tempo que aproxima os pretos-velhos da imagem dos psicólogos, também os afasta, pois estes últimos, enquanto profissionais, devem ter seu trabalho remunerado, fazendo com que o aspecto caritativo se restrinja somente aos pretos-velhos.

Além disso, não se pode negar a influência da imagem do preto-velho, por tudo o que ele representa, desde sua história de vida, até sua posição em dimensão religiosa (Umbanda), no sentido de resistência e resiliência, a qual é corporificada nas lutas sociais por melhores condições de vida, igualdade, respeito, combate à intolerância em várias esferas, preconceito e espaço que foi roubado das ditas minorias, conforme parecem concordar Purificação et al. (2019) e Rezende (2020).

Em conjunto com todo o arquétipo do preto-velho acima discutido, Purificação et al. (2019) acrescentam que as giras de pretos-velhos são frequentadas por pessoas que procuram ‘paz’, saúde, força e alento, movidas principalmente, pela ‘fé’ que elas têm no sagrado e donde observa-se o ‘respeito’ à natureza e às entidades dos rituais de Umbanda. Sendo assim, percebe-se o quanto o preto-velho é capaz de aproximar as pessoas de uma dimensão transcendental, imaterial da existência, sem, contudo, negar a dimensão física e sua relação direta com a espiritualidade. Com isso, a saúde física e mental passa por cuidados específicos, espirituais e religiosos, que impactam objetivamente a vida das pessoas que depositam sua fé nessas possibilidades, em âmbito biopsicossocial e espiritual, isto é, integral.

Dentro deste universo, Rezende (2018) ainda evidencia que, embora seja muito forte a historicidade que remete o preto-velho à sua posição de ancestral africano, muito se fala pelos fiéis da Umbanda, sobre o caráter de familiaridade que se tem com estas entidades, fazendo com que sobressaia a questão da velhice e com que sejam vistos como avôs e avós, amorosos, carinhosos e pacientes, sustentando o ‘respeito’ e a ‘gratidão’ por eles e estreitando ainda mais os laços de afeto por encará-los como familiares. Há um processo de sacralização dos negros escravizados, simbolizados e ressignificados pelo preto-velho na Umbanda.

Assim, a dimensão conceitual da RS engloba as características que melhor descrevem os pretos-velhos, sócio-histórica, cultural e religiosamente, no contexto da Umbanda. A dimensão prática expõe a atuação dos pretos-velhos para os fiéis. A dimensão afetiva-atitudinal expressa o atravessamento do pensamento social do grupo pelas emoções enquanto características individuais, cujo potencial reflete-se no direcionamento dos comportamentos e no processo avaliativo do objeto pelo grupo, conforme apontamentos de Campos e Rouquette (2003).

A dimensão imagética é ilustrada em meio a uma encruzilhada, onde o universo reificado encontra-se e comunica-se com o teológico, fazendo emergir o papel do psicólogo à imagem do preto-velho e vice-versa. E a dimensão de ação humana insere-se em todo este contexto, plural, complexo e específico que permite aos sujeitos reconhecerem aspectos imateriais da vida, que inclusive dão sentido a ela.

Ainda em conformidade com a análise da estrutura representacional, a Figura 1 expõe graficamente pela árvore máxima de similitude, a conexidade entre os elementos do Quadro.

Figura 1
Árvore máxima de similitude das evocações do termo indutor ‘Preto-velho na umbanda’

Primeiramente, cabe salientar que os cognemas que possuem mais ligações e maiores índices de similitude favorecem a constatação da provável centralidade, juntamente com a análise prototípica exposta no Quadro de Quatro Casas. Logo, destacam-se amor e sabedoria, devido ao maior número de conexões, sendo ‘amor’ com nove, cujos maiores índices de similitude são com ‘sabedoria’ (0,20), ‘caridade’ (0,16), ‘ter-fé’ (0,06), ‘respeito’ (0,05), ‘psicólogo’ (0,05), ‘humildade’ (0,05), ‘acolhimento’ (0,05), ‘carinho’ (0,04) e ‘cuidado’ (0,03). E ‘sabedoria’ totalizando cinco ligações, cujos maiores índices de similitude são com ‘amor’ (0,20), ‘humildade’ (0,05), ‘acolhimento’ (0,05), ‘paz’ (0,05) e ‘gratidão’ (0,03). Além disso, ‘ter-fé’ também se ligou à ‘esperança’ (0,03) e ‘psicólogo à conselheiro’ (0,03).

Assim, a árvore de similitude tem aspecto linear, contudo pendente à esquerda, devido a maior concentração de conexões carregadas pelo cognema ‘amor’, o qual parece nortear a RS e conferir sentido à imagem do preto-velho na Umbanda, através da personificação do próprio sentimento, dando enfoque à dimensão afetiva-atitudinal anteriormente discutida.

De fato, tudo parece estar centrado no amor. Rezende (2020) aduz que o ambiente onde ocorre o trato dos pretos-velhos com os fiéis e consulentes, impregnado de amor, proteção, consolo e carinho, fomenta um suporte social de maneira recíproca, em que consulente e preto-velho conseguem se sentir cuidados. Daí também se entende o porquê da ancoragem do preto-velho no papel do psicólogo (e conselheiro), onde espera-se ter um cuidado pautado na escuta empática, no suporte emocional e no retorno da autonomia de vida por alcançar o equilíbrio, físico, mental e espiritual, na base do amor, do cuidado e do acolhimento.

Por outro lado, eles não são reconhecidos apenas como psicólogos. Eles também são considerados atuantes, por exemplo, nos casos de saúde e doença, utilizando as plantas e ervas medicinais curativas e, além de todo este contexto de cuidado, os laços evidenciados pela árvore de similitude apontam que estão intrínsecos na estrutura representacional, elementos que dão base aos principais fundamentos da Umbanda, como o amor e a caridade (Purificação et al., 2019).

Ainda, em relação ao uso de plantas e ervas medicinais, cabe elucidar que esta prática exercida pelos pretos-velhos converge para a construção contínua e compartilhamento intergeracional de um saber cultural valioso, cujas propriedades curativas das plantas vêm sendo cada vez mais investigadas, descobertas, utilizadas e confirmadas, mediante sua eficácia clínica, por estudos científicos no campo da saúde (Silva et al., 2019).

Retomando-se as discussões sob a esfera religiosa propriamente dita, é possível compreender as ligações entre ‘amor’ e ‘respeito’; ‘sabedoria’ e ‘gratidão’; ‘sabedoria’ e ‘paz’; e nas tríades ‘amor’, ‘ter-fé’ e ‘esperança’; ‘amor’, ‘humildade’ e ‘sabedoria’; e ‘amor’, ‘acolhimento’ e ‘sabedoria’. Por todo o arquétipo do preto-velho, vivo no imaginário do povo brasileiro e carregado de afeto pelos seus fiéis, a ‘caridade’ que eles, humildemente, prestam às pessoas necessitadas com ‘amor’ ensina o ‘respeito’, e sua peculiar ‘sabedoria’ em forma de ‘acolhimento’, fortalece o sentimento de ‘gratidão’ e a sensação de ‘paz’. Este movimento é fundamentado pela tríade ‘amor’, ‘ter-fé’ e ‘esperança’, pois a fé nos cuidados dos pretos-velhos e o amor entregue por eles e pela Umbanda são os combustíveis para ter esperança em superar as adversidades da vida.

Considerações finais

A RS dos pretos-velhos na Umbanda para seus adeptos e simpatizantes demonstra ser estruturada nas dimensões conceitual, prática, afetiva-atitudinal, imagética e de ação humana, destacando suas descrições ancoradas no processo de escravização dos ancestrais africanos durante o período afro-diaspórico brasileiro, presentes na memória social do povo brasileiro e nas representações sociais de umbandistas. Assim, é fortemente simbolizada nos valores afetivos do grupo, os quais ensejam atitudes de respeito e gratidão, além do reconhecimento de suas características principais de sabedoria, proteção e humildade.

Em razão disto, o preto-velho é representado por este grupo como um psicólogo, observando-se as funções descritas pela ótica do universo reificado, no ato de acolher, aconselhar, orientar e cuidar, de maneira empática e que, em conjunto com todo o contexto, possibilita reforçar a ação humana da fé e da esperança na vida. É possível, então, reconhecer o preto-velho como ‘psicólogo popular’ ou psicólogo de Aruanda, do Além, da Umbanda.

Logo, mediante a cosmovisão e cosmogonia umbandistas, a presente investigação contribui por descrever de que forma o preto-velho é compreendido pelos fiéis e simpatizantes, inclusive, apontando para formas de cuidados religiosos voltados à saúde nas esferas biopsicossocial e espiritual. Contudo, cabe salientar que o pensamento social do grupo investigado parece direcionar à compreensão do preto-velho como negro escravizado cristianizado, que carrega os valores da moral cristã, dentre as quais, destacam-se a humildade, a paciência e a caridade nas ações.

Por fim, entende-se plausível que a temática seja aprofundada por pesquisas futuras, contemplando a observação participante, a divulgação destas práticas religiosas de cuidado, vivas no senso comum do povo brasileiro, até mesmo em outros cenários que, inclusive, permitam ampliar o grupo social para não-adeptos, mediante as possibilidades de comparação de representações, se para estes houver relevância quanto ao objeto representacional.

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    Editor de seção: Eduardo Moura da Costa

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    02 Jun 2022
  • Aceito
    14 Jul 2023
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