Open-access VÍNCULO PATERNO: PERSPECTIVA DE PAIS DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA1

VÍNCULO PATERNO: PERSPECTIVA DE LOS PADRES DE NIÑOS CON TRASTORNO DEL ESPECTRO AUTISTA

RESUMO

Entre as condições de desenvolvimento atípico mais estudadas atualmente destaca-se o Transtorno do Espectro Autista (TEA). No contexto da parentalidade de crianças com TEA, as mães têm sido o foco das pesquisas ao longo dos anos, e pouco se tem relatado sobre a paternidade dessas crianças da perspectiva dos próprios pais. Diante disso, este trabalho teve por objetivo investigar as percepções de genitores masculinos quanto ao vínculo paterno no exercício da paternidade de crianças com TEA e suas implicações para o desenvolvimento infantil. Participaram da pesquisa 15 pais de crianças entre seis e nove anos, diagnosticadas com TEA, que coabitavam com seus pais. A amostra se deu por conveniência, a partir da divulgação da pesquisa nas redes sociais. Os dados foram coletados por meio de videoconferências com os participantes, tendo por instrumento um roteiro de entrevista semiestruturado. O tratamento dos dados priorizou o método de análise de conteúdo. Os resultados evidenciaram que os participantes apresentam uma percepção positiva quanto ao vínculo que estabelecem com seus filhos, e enfatizam suas concepções sobre vínculo paterno principalmente no senso de envolvimento na vida do filho. Sobre as implicações do vínculo paterno para o desenvolvimento infantil, os pais ressaltaram sua importância para o bem-estar emocional dos filhos, para orientar a conduta da criança, e para influenciar a percepção infantil quanto aos papéis sociais e morais da figura masculina. Os resultados desse estudo contribuem para o conhecimento científico sobre o exercício da paternidade de crianças no contexto do TEA, tema ainda pouco explorado na literatura.

Palavras-chave:
Autismo; relacionamento pai-criança; paternidade

ABSTRACT

Among the most studied atypical development conditions currently, Autism Spectrum Disorder (ASD) stands out. In the context of parenting children with ASD, mothers have been the focus of research over the years, and little has been reported on the paternity of these children from the perspective of the fathers themselves. Therefore, this study aimed to investigate the perceptions of fathers regarding the paternal bond in the exercise of paternity of children with ASD and its implications for child development. Fifteen fathers of children between six and nine years old, diagnosed with ASD, who lived with their fathers participated in the research. The sample was given for convenience, from the dissemination of the research on social networks. Data were collected through videoconferences with the participants, using a semi-structured interview script. Data treatment prioritized the content analysis method. The results showed that the participants have a positive perception of the bond they establish with their children, and emphasize their conceptions about the paternal bond, mainly in the sense of involvement in the child's life. Regarding the implications of the paternal bond for child development, fathers highlighted its importance for the emotional well-being of their children, to guide the child's behavior, and to influence children's perception of the social and moral roles of the male figure. The results of this study contribute to the scientific knowledge about the exercise of paternity of children in the context of ASD, a topic still little explored in the literature.

Keywords:
Autism; parent child relations; paternity

RESUMEN

Entre las condiciones de desarrollo atípico más estudiadas en la actualidad, destaca el Trastorno del Espectro Autista (TEA). En el contexto de la crianza de niños con TEA, las madres han sido el centro de la investigación a lo largo de los años y se ha informado poco sobre la paternidad de estos niños desde la perspectiva de los propios padres. Por lo tanto, este estudio tuvo como objetivo investigar las percepciones de los padres varones sobre el vínculo paterno en el ejercicio de la paternidad de los niños con TEA y sus implicaciones para el desarrollo infantil. Participaron de la investigación quince padres de niños entre seis y nueve años, diagnosticados con TEA, que vivían con sus padres. La muestra se dio por conveniencia, a partir de la difusión de la investigación en redes sociales. Los datos fueron recolectados a través de videoconferencias con los participantes, utilizando un guión de entrevista semiestructurada. El tratamiento de datos priorizó el método de análisis de contenido. Los resultados mostraron que los participantes tienen una percepción positiva del vínculo que establecen con sus hijos, y enfatizan sus concepciones sobre el vínculo paterno, principalmente en el sentido de involucramiento en la vida del hijo. En cuanto a las implicaciones del vínculo paterno para el desarrollo infantil, los padres destacaron su importancia para el bienestar emocional de sus hijos, para orientar el comportamiento del niño e influir en la percepción de los niños sobre los roles sociales y morales de la figura masculina. Los resultados de este estudio contribuyen al conocimiento científico sobre el ejercicio de la paternidad de los hijos en el contexto del TEA, tema aún poco explorado en la literatura.

Palabras clave:
Autismo; relaciones padres-niños; paternidad

Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido um tema amplamente estudado no meio acadêmico e bastante enfatizado na sociedade. Este cenário deve-se principalmente ao aumento da prevalência do diagnóstico na população, passando de 1 em 54 para 1 a cada 44 crianças (Center for Desease Control and Prevention - CDC, ver Maenner et al., 2021).

O diagnóstico de autismo leva a família a viver rupturas por interromper atividades sociais regulares, e repercute nas emoções, gerando os mais diversos tipos de sentimentos, como tristeza, culpa, frustração, estresse e depressão (Fontana et al., 2020; Pereira, 2017). Além disso, a dinâmica familiar é afetada reverberando em muitas exigências e readaptações para todos os membros da família, pois há o convívio com um quadro crônico sem perspectiva de cura (Smeha, 2010).

O impacto do diagnóstico, os desafios da parentalidade e as estratégias de coping adotadas por cuidadores de um filho com TEA, têm sido objetos de estudo circundantes na literatura, frequentemente investigados sob a ótica materna, em contraste com a baixa representatividade dos pais (genitores masculinos) em amostras de pesquisas que versam sobre estes temas (Aguiar & Pondé, 2020; Brown et al., 2021; Cunha et al., 2018).

Uma revisão sistemática da literatura publicada em 2012 identificou 90 estudos nacionais e internacionais a respeito da paternidade no contexto das necessidades especiais. Do total, menos de 25% dos estudos empíricos envolviam somente o pai na amostra ocupando o papel central das investigações, e apenas 13 estudos abrangiam a paternidade de indivíduos com TEA (Henn & Sifuentes, 2012).

A partir da data de divulgação desta revisão, observou-se um crescente aumento nas publicações sobre paternidade no contexto do TEA, com foco, principalmente, em investigar a repercussão do diagnóstico em um filho na saúde física e mental dos pais, bem como na identificação das estratégias de enfrentamento e as necessidades percebidas por estes genitores (Frye, 2016).

Dessa forma, embora o desenvolvimento de pesquisas envolvendo os pais de maneira mais representativa esteja ampliando, há ainda uma lacuna na literatura no que tange ao relacionamento socioafetivo entre os genitores e seus filhos com TEA (Pereira, 2017; Pereira et al., 2018, Jorge et al., 2021). A investigação a esse respeito faz-se especialmente relevante diante dos prejuízos encontrados nesta condição, cujos principais déficits situam-se na comunicação e interação social. Consequentemente, tais déficits podem afetar a capacidade da criança em corresponder aos investimentos paternos, levando os pais a experimentarem sentimentos recorrentes de frustração, impactando na qualidade da relação entre a díade (Perzolli et al., 2021; Smeha, 2010).

Apesar do estigma paterno de ‘cuidadores secundários’, pais ainda são parte integrante e importante de uma díade parental, cujas experiências, ações e escolhas são importantes por si mesmas e refletem em uma série de outros resultados relevantes, e, portanto, carecem de ser investigadas (Burrell & Unwin, 2017).

Conforme pontua Henn e Sifuentes (2012), o papel do pai deve ser analisado dentro do grupo familiar e de forma interrelacional, uma vez que seu exercício parental é considerado importante para o desenvolvimento da criança, trazendo contribuições únicas que se diferenciam daquelas da mãe.

À vista dessas ponderações, este estudo teve por objetivo investigar as percepções de genitores masculinos quanto ao vínculo paterno no exercício da paternidade de crianças com TEA e suas implicações para o desenvolvimento infantil.

Método

Participantes

Este estudo possui natureza exploratória descritiva, de abordagem qualitativa, cujo propósito é observar, descrever, explorar e gerar interpretações de uma vivência ainda pouco estudada (Gil, 2002).

Participaram desta pesquisa 15 pais (genitores masculinos) de crianças entre seis e nove anos com diagnóstico médico de TEA. Todos coabitavam e conviviam diariamente com os filhos. Os participantes apresentaram média de idade de 42 anos, variando de 32 a 57 anos. Sete participantes possuíam ensino superior completo, outros sete possuíam ensino médio completo, e apenas um possuía ensino médio incompleto. Oito participantes possuíam apenas um filho; cinco possuíam até dois filhos, e outros dois pais possuíam respectivamente quatro e nove filhos. A maioria dos filhos dos participantes diagnosticados com TEA eram do sexo masculino (n=12), e somente dois participantes eram pais de meninas (filhas únicas). Apenas um pai era genitor de mais de uma criança de ambos os sexos com diagnóstico confirmado. Oito pais informaram o diagnóstico precoce de seus filhos, até os dois anos de vida, e 11 relatam a classificação do TEA em grau leve. A maioria dos participantes (n=13) possuíam renda superior a três salários-mínimos, e somente dois pais possuíam renda inferior a um salário mínimo.

Instrumentos

Para a coleta de dados foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturado elaborado com base em Pereira (2017), Smeha (2010) e Souza (2015), com o objetivo de verificar as percepções dos participantes a respeito do vínculo paterno suas implicações para o desenvolvimento infantil.

Procedimentos

Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, sob número de CAEE 32947220.1.0000.5542, procedeu-se com as demais etapas deste estudo.

Para a captação dos potenciais participantes foi elaborado um convite digital contendo os objetivos da pesquisa, os critérios de inclusão (ser pai de uma criança com TEA entre seis e nove anos e residir com ela) e as formas de contactar a pesquisadora. Os potenciais participantes sinalizaram o interesse em contribuir com esta pesquisa entrando em contato com a pesquisadora, a qual, após a verificação da adequação dos interessados aos critérios de inclusão, agendou um encontro virtual por videoconferência de acordo com a possibilidade de cada participante a fim de se efetuar a coleta de dados. Esta estratégia foi adotada em respeito às medidas de isolamento social estabelecidas mundialmente a fim de se controlar a transmissão comunitária do vírus SARS-CoV-2, já que esta etapa ocorreu no auge do período pandêmico (Aquino et al., 2020).

Previamente ao encontro agendado, os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em formato digital para melhor compreensão dos objetivos da pesquisa, verificação dos possíveis riscos e desconfortos, garantia de confidencialidade, bem como dos benefícios de sua participação, oportunizando o levantamento de possíveis dúvidas, que seriam prontamente esclarecidas pela pesquisadora. Haja vista a impossibilidade do contato social imposta pela circunstância da Pandemia por Covid-19, optou-se pelo registro verbal do consentimento dos voluntários para formalizar a participação destes na pesquisa, no ato da videoconferência agendada, antes do início da entrevista propriamente dita.

Para a videoconferência foi utilizada uma plataforma on-line, gratuita, sem limite de tempo para até dois usuários por reunião, e que permitia a gravação dos encontros em áudio e vídeo. Desta forma, as entrevistas foram registradas no formato de vídeo, e posteriormente transcritas em sua íntegra.

Análise dos dados

Os dados obtidos por meio das entrevistas foram analisados qualitativamente, utilizando-se como método a análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), na modalidade de Análise Temática, que implica “[...] descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação, e cuja presença ou frequência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido” (Bardin, 2011, p.135). Este modelo de análise preconiza três etapas principais, iniciando pela pré-análise, seguido da exploração do material e por último o tratamento dos resultados, que inclui a inferência e a interpretação.

Resultados e discussão

A análise de conteúdo gerou três categorias temáticas, a saber: ‘concepção de vínculo paterno, mudanças no vínculo após o diagnóstico e implicações do vínculo paterno para o desenvolvimento infantil’. A partir de cada uma destas categorias, outras subcategorias foram identificadas. Na sequência, destacadas em itálico, serão apresentadas tomando-se por critério a frequência em que o tema foi verificado no discurso dos participantes. Logo, a ordem de apresentação das subcategorias no texto representa as percepções mais comumente relatadas pelos pais.

Em primeiro lugar os participantes expuseram suas concepções de vínculo paterno, determinando a primeira categoria. Sobretudo, a maioria dos pais (n=9) definiram vínculo paterno como atitudes/ações de ‘envolvimento na vida do filho’, traduzidas em disponibilidade e preocupação (cuidado) em atender às necessidades da criança. O uso dos verbos ‘estar’ e ‘dar/doar’ marcou as falas dos participantes nesta subcategoria, sendo exemplificado na fala do Pai 4.

Eu acho que é o cuidado, né?! Tipo, o vínculo paterno maior que eu coloco aí é o cuidado. Cuidado com os meus filhos mesmo. De estar ali, tentando preservar o máximo. Ajudar o máximo. Saber o que está acontecendo. Estando ali em qualquer situação difícil que ocorrer (Pai 4).

Uma outra dimensão do vínculo paterno abordada pelos pais nesta categoria diz respeito à ‘afetividade’, evidenciada nas falas de três participantes e pode ser exemplificada pelo relato a seguir.

Eu particularmente acho que vínculo é a relação emocional entre eu e minha filha, né? [...] O vínculo, é a relação afetiva entre eu e ela. É demonstrar afeto e eu conseguir passar isso pra ela, e ela entender. Acho que hoje seria isso. Antes não tinha isso. A gente passava e ela não entendia (Pai 3.)

Em menor escala, dois participantes mencionaram a ‘transmissão de valores’ para conceituar vínculo paterno em suas visões, conforme explicitada na fala do Pai 5. E um participante definiu vínculo paterno como “[...] ‘um amor incondicional’ que te move a lutar por aquilo que você acredita ser o melhor para o seu filho” (grifo nosso).

[...] de poder dar uma criação boa pros meus filhos, não em termos materiais, mas, valores, né? Então eu acho assim, que vínculo paterno pra mim é tudo isso. É [...] passar valores e preparar os seus filhos para o futuro. Pra que eles tenham uma vida próspera também. Não de dinheiro, né? (Pai 5).

De modo geral, as percepções dos participantes sobre o construto vínculo paterno revelam um entendimento baseado em suas responsabilidades sobre o filho. Tais concepções refletem uma postura atenta e preocupada em identificar e satisfazer as necessidades da criança, sejam elas de ordem material, emocional, afetiva e moral, visando sua integridade e desenvolvimento.

Essa compreensão de um vínculo paterno prático, que se estabelece por meio de atitudes dos pais frente às necessidades dos filhos, aproxima as percepções dos participantes do modelo de envolvimento paterno, proposto por Lamb e colaboradores em 1985, revisado por Pleck em 2010. Tal modelo propõe a existência de três componentes primários que conceituam e operacionalizam o envolvimento paterno em atividades de engajamento positivo; calor emocional/afeto e responsividade; e controle. E inclui ainda outros dois domínios auxiliares, sendo eles o cuidado indireto e a responsabilidade do processo (Pleck, 2010).

Considerando os comportamentos que discriminam essas cinco dimensões do envolvimento paterno, supõe-se que as visões da maioria dos participantes sobre vínculo paterno se assentam no componente ‘responsabilidade do processo’, que se refere a tomar a iniciativa e monitorar o comportamento, as atividades e os demais aspectos relativos à vida da criança. Esta dimensão verifica se as necessidades da criança para os quatro componentes de envolvimento anteriores estão sendo atendidas, e pode ser descrita como uma consciência parental que enxerga a necessidade, e não somente a preenche (Pleck, 2010).

A segunda categoria que emergiu do discurso dos participantes diz respeito ao impacto do diagnóstico de TEA no vínculo com o filho. Os participantes foram unanimes em avaliar positivamente o vínculo que estabelecem com seus filhos atualmente, e a maioria (n=8) relatou ‘mudanças positivas’ no vínculo entre a díade após o diagnóstico. Tais mudanças se evidenciaram na forma em que os pais enxergavam o comportamento do filho, na intensificação do investimento afetivo e no aumento do engajamento positivo com a criança.

Esse achado concorda com Silva et al. (2017), que acreditam que em situações de desenvolvimento atípico o envolvimento paterno tende a ser maior do que em situações de desenvolvimento típico. Os relatos a seguir exemplificam as melhoras identificadas pelos pais.

Olha, a única coisa que eu posso dizer que melhorou é que a gente se entende mais agora, né. Antes não tinha, assim [...] Muitas vezes eu não entendia ele, o sofrimento dele, entende? Às vezes eu via muita coisa ele sofrendo, e eu não sabia resolver, né (Pai 6).

Olha, eu acho que sim. A primeira coisa que eu defini com a C. (mãe da criança), quando a gente soube do autismo, e que me preocupava muito, era de prevenir essa coisa da aversão ao contato, né, porque eu tinha muito o autista como essa pessoa que não se permite ser tocada. Então eu falei pra C.: ‘C., agora já era! A gente vai ter que pegar esse menino, beijar esse menino, apertar ele. Ele não vai poder ter a menor chance de não querer ser tocado’. Então eu acho que eu acabei desenvolvendo uma relação muito física com o R (Pai 8, grifo nosso).

Eu acredito que após o diagnóstico eu passei a ser mais presente ainda. Estar mais junto, de querer fazer mais as coisas, de querer fazer mais aquilo que ele gosta mesmo, de estar sempre interessado naquilo que ele quer fazer, no que ele quer falar (Pai 15.)

De maneira geral, as ‘mudanças positivas’ identificadas nas falas dos participantes dizem respeito às adaptações no comportamento dos pais para compensar, minimizar e prevenir a evolução dos déficits característicos do TEA. Tais mudanças são concernentes ao período de ajuste e aceitação das novas circunstâncias familiares e das necessidades futuras de seu filho (Brown et al., 2021).

Estes resultados vão ao encontro dos estudos de Pereira et al. (2018) e Brown et al. (2021), que também detectaram mudanças positivas nos comportamentos paternos e em suas autopercepções quanto seus papeis e responsabilidades diante da confirmação do diagnóstico de TEA do filho.

Além disso, como se revela na fala de alguns pais (Pais 4 e 6), a melhora no relacionamento com o filho após o diagnóstico, se deu a partir da sua compreensão de que alguns comportamentos do filho eram resultantes do transtorno em si, e não ocorriam pela vontade própria da criança. Este resultado também foi encontrado por Pereira et al. (2018) e Rafferty et al. (2020) em genitores masculinos de crianças com TEA. Rafferty et al. (2020) observaram ainda que alguns de seus participantes experimentaram sensação de alívio após receberem o diagnóstico de TEA, uma vez que a partir do diagnóstico puderam obter uma melhor compreensão a respeito dos comportamentos dos seus filhos, resultando em mudanças no seu estilo parental e no nível de envolvimento.

A ‘ausência de mudança’ no vínculo paterno também foi referida, segundo os relatos de quatro participantes, e se exemplifica na fala do Pai 13.

Acho que não, porque o diagnóstico foi muito precoce, né [...] Mas assim, o dia a dia a gente começou a viver nesse mundo, assim, de terapia e de clínica, não sei o que, e tal. Isso aí que foi a grande mudança, né. Mas não a minha relação com o C (Pai 13).

Nessa subcategoria, pode-se inferir que os participantes basearam suas respostas na dimensão afetiva do vínculo paterno, já que não observaram alterações no modo de se relacionarem com o filho. No estudo de Rafferty et al. (2020) a ausência de mudanças após o diagnóstico de TEA também foi referida por alguns participantes, os quais relataram que não detectaram mudanças em vários aspectos das suas vidas após o diagnóstico e que estavam tão envolvidos na vida de seus filhos quanto esperavam, reforçando a hipótese de que a ausência de mudança referida por esses dois genitores diz respeito ao relacionamento socioafetivo propriamente dito, especialmente no que tange ao investimento paterno em relação ao filho.

Embora alguns pais tenham relatado a ausência de mudanças no relacionamento com os filhos, por outro lado revelaram adaptações em outros âmbitos, como a adequação das perspectivas com relação ao futuro do filho, e ajustes na rotina e dinâmica familiar para incluir o tratamento terapêutico, geralmente de longa duração.

Acerca da adequação das perspectivas paternas, Brown et al. (2021) encontraram resultados semelhantes ao revisarem a literatura, e afirmaram que as mudanças nas atitudes e expectativas dos pais são fruto de uma ressignificação de suas aspirações a respeito da vida de seus filhos. Tal atitude se configura como uma estratégia de enfrentamento decorrente do processo de reavaliação/planejamento cognitivo, sendo adotada pelos pais em face do diagnóstico irreversível do filho, que o acompanhará por toda a vida (Aguiar & Pondé, 2020).

Segundo Franco (2009), os pais de crianças com deficiência ou transtornos graves no desenvolvimento precisam passar pelo processo de reidealização do filho, pois isso dará lugar ao filho real, e permitirá aos pais se envolverem emocionalmente com eles; caso contrário, acabam tornando-se pais funcionais, e se envolvem apenas em nível instrumental, de recursos terapêuticos e educacionais, cuidando da criança pela responsabilidade e não pelo vínculo afetivo (Franco, 2009).

Quanto à necessidade de ajustes na rotina, as constantes idas aos centros especializados de (re)habilitação e as mudanças no cotidiano da família para atender às demandas do filho podem gerar uma sobrecarga nos cuidadores, e representar agentes estressores para os pais (Duarte, 2019). Sem mencionar o impacto na situação econômica familiar, já que frequentemente um dos genitores (na maioria das vezes a mãe) abre mão do trabalho para cuidar da criança (Cunha et al., 2018).

Em contrapartida, a ‘mudança negativa no vínculo’ entre a díade foi relatada por dois participantes, os quais observaram mudanças no comportamento afetivo da criança, e pode ter relação com o autismo regressivo, condição em que os sintomas são precedidos por um período de desenvolvimento aparentemente típico seguido da perda de habilidades previamente adquiridas (Boterberg et al., 2019).

Vou dizer que [o vínculo mudou] sim, porque no início [...], teve aquela questão do vínculo de quando era muito pequenininha, que quando cresceu, como eu te falei que até um ano e sete meses ela era completamente normal. E aí ela era muito carinhosa, muito tudo. Depois diminuiu muito! Cessou o [...] a gente via que ela gostava da gente, mas parecia que ela não se importava, entendeu? Chegou ao ponto de eu viajar e ficar quase um mês fora e ela nem sentir falta, entendeu? (Pai 3).

A percepção negativa desses pais quanto às mudanças no vínculo com o filho, tem relação com a quebra de expectativa do filho idealizado e com o sentimento de luto resultante dessa circunstância (Duarte, 2019). Apesar de ser comum o luto em situações de perda por morte de entes queridos, os mesmos estágios ocorrem ao enfrentar qualquer perda, doença crônica ou condição médica (Frye, 2016).

No caso do TEA, aproximadamente 50% das crianças apresentam sinais sugestivos durante o primeiro ano de vida e 80% o fazem durante o segundo ano de vida (Frye, 2016). Entretanto, nos quadros em que o Transtorno do Espectro Autista se manifesta de forma regressiva, a criança apresenta um desenvolvimento aparentemente típico até por volta dos dois anos de idade, e sofre uma perda abrupta das habilidades previamente adquiridas, repercutindo de maneira muito dolorosa e até traumática para os pais (Boterberg et al., 2019). Tal efeito se confirma nas falas desses participantes, que possivelmente vivenciaram a especificidade do autismo regressivo em seus filhos.

Após discorrerem a respeito do vínculo pessoal estabelecido com o filho, os pais expressaram suas percepções quanto a importância do vínculo paterno para o desenvolvimento infantil, determinando a terceira categoria. As respostas dos participantes geraram seis subcategorias diferentes.

Quatro participantes referiram a importância do vínculo paterno para o desenvolvimento do ‘sentimento de segurança na criança’, como demonstrado no relato a seguir.

Olha, eu acredito que seja muito essa questão da sensação de segurança. Você receber amor de um pai. Eu acho também que é algo que te traz uma segurança para vida, né, te fortalece. As pessoas que sabem que que são amadas elas costumam ser mais fortes mais resilientes, assim. E se você tem um pai e uma mãe por trás de você, eu acho que a vida fica mais fácil de ser encarada. Você tem a confiança de que mesmo quando você não der conta você vai ter um pai ali pra te dar esse suporte, até que você consiga dar conta sozinho (Pai 8).

O tema levantado por estes participantes sugere uma articulação com a Teoria do Apego, proposta por Bowlby, que conceitua o comportamento de apego como as ações de uma pessoa para alcançar ou manter proximidade com outro indivíduo, claramente identificado e considerado como mais apto para lidar com o mundo - a quem se denomina figura de apego, e tem por pressuposto básico o entendimento de que as primeiras relações de apego, estabelecidas na infância, afetam o estilo de apego do indivíduo ao longo de sua vida (Dalbem & Dell’Aglio, 2005).

Com base nessa teoria, é tácita nos discursos destes genitores a autopercepção de figuras de apego para o filho, cujo principal papel é oferecer-lhe suporte em todas as áreas e etapas da vida, gerando neste confiança para explorar as circunstâncias e desafios à sua frente a partir da certeza de que terá o apoio do pai em caso de quaisquer imprevistos com os quais ainda não esteja preparado para lidar de maneira independente. O apego garante a proximidade entre as crianças e as figuras de apego e, portanto, a proteção, enquanto a exploração garante a aquisição de conhecimento ambiental e a adaptação às variações do ambiente (Paquette, 2004).

Em referência à teoria do apego, Paquette (2004) sugere o emprego do termo ‘relação de ativação’ para designar o vínculo de apego que promove a abertura das crianças ao mundo, e preconiza o uso desse termo para diferenciar a relação de apego exercida pelo pai, daquela exercida pela mãe. Essa especificação constitui o pilar de sua Teoria de Relação de Ativação Pai-Criança, a qual defende que pais e mães podem exercer funções diferentes, mas que se complementam para a promoção do desenvolvimento da criança. Assim, o conceito de ‘relação de ativação pai-filho’ vai ao encontro das percepções dos pais relatadas neste estudo, uma vez que toma o vínculo paterno como o responsável por satisfazer a necessidade da criança de ser estimulada a superar limites e de aprender a arriscar em contextos em que se sente confiante por estar protegida de perigos potenciais, permitindo-lhe a autodescoberta das próprias capacidades, facilitando sua exploração do ambiente e favorecendo o desenvolvimento de uma autoimagem positiva e de confiança no pai (Paquette, 2004).

Os pais também consideraram a importância do vínculo para ‘estabelecer referência de figura masculina’ para o filho. Este tema apareceu no discurso de quatro participantes e pode ser representado nas falas a seguir.

O vínculo paterno serve assim, tanto pra menina, quanto pro menino. Pra estabelecer principalmente a referência do que é o homem. O homem e o pai. É seu o vínculo paterno que define assim: esse é um homem bom, esse é um homem ruim. Entendeu? Te dá a referência do que é bom. É o ‘como’ que a gente vê. É a sua referência de pai. É a sua referência de pessoa, de homem. Porque eu vejo que isso influencia tanto na escolha do marido, de aceitar […] de tolerar o que um homem faz com você, como que um homem age, o que é certo, o que é errado. Acho que o vínculo paterno inicialmente mostra isso (Pai 3, grifo nosso).

Ah, é porque eu acredito que apesar dele, dele ser autista, se ele estiver vendo a figura do pai ali […] Eu digo isso até por causa do meu pai, né? Quando um pai é um pai presente e você tem alguém para se inspirar; alguém que te inspira a ser um bom pai, um bom chefe de família, um bom profissional, uma pessoa honesta, né? (Pai 14).

O relato do participante 3 revela uma preocupação em ser para os filhos um parâmetro de comportamentos masculinos que consideram ser social e moralmente positivos. Na perspectiva dos pais, em se tratando de um filho homem, o estabelecimento desse parâmetro se configura como um prisma a partir do qual o filho poderá colocar em julgamento as condutas masculinas observadas em outros indivíduos, enquanto explora o mundo à medida que se desenvolve. Verifica-se, portanto, a intenção do pai em exercer influência sobre as decisões do filho a respeito dos comportamentos sociais e morais que este incorporará ou não à própria conduta. A literatura classifica esta prática parental como positiva e geradora de comportamentos pró sociais, pois utiliza o exemplo como forma de ensinar valores que ajudarão os filhos a discriminarem condutas corretas e erradas (Santos & Wachelke, 2019).

De outro ângulo, verifica-se ainda na fala representada pelo Pai 14 uma expectativa de que seu filho reproduza papeis tradicionalmente atribuídos ao sexo masculino, como a visão de provedor, recreador e figura autoritária. Essa concepção pode significar que esses pais exercem suas funções paternas com base em modelos que tiveram na infância, estando de acordo com estes ao desejarem sua perpetuação (Campeol & Crepaldi, 2019).

Ao considerarem a paternidade de meninas, a aplicação dessa prática parental se dá em caráter protetivo. O desejo de serem uma referência masculina para as filhas se assenta no receio de que futuramente estas se envolvam em relacionamentos conjugais malsucedidos, que lhes representem ameaças. Essa preocupação também foi observada no discurso paterno em Silva e Piccinini (2007).

Um terceiro tema levantado por outros três participantes quanto à importância do vínculo paterno para o desenvolvimento infantil se relaciona à subcategoria anterior, e diz respeito à ‘orientação de conduta’, conforme a fala do Pai 4 a seguir.

[...] Demonstrar situações que deram errado na minha vida, né. Tento me demonstrar como homem, como pai, como responsável pra colocar isso na mente deles. Pra que eles possam ter essa possibilidade de estar crescendo cidadãos, né. [...] Como cidadãos, como homens que vão ser futuramente. Mostrar caráter. Pessoas que possam ajudar, que possam contribuir, não possam ser egoístas (Pai 4).

Os discursos dos participantes remetem ao senso de responsabilidade em orientar a conduta dos filhos. Para esses participantes o vínculo paterno exerce importância fundamental em influenciar a formação do caráter dos filhos, habilitando-os ao convívio em sociedade pela apreensão de valores sociais e morais que estes lhes transmitem.

Essa percepção encontra apoio na literatura, que afirma a importância do pai para a internalização de regras, limites e conceitos de certo e errado por parte da criança (Paquette, 2004; Campeol & Crepaldi; 2019). Esses autores salientam ainda que uma adequada interação entre pai e filho contribui positivamente para maior competência e habilidades sociais da criança, baixo registro de problemas externalizantes, como dificuldade de controlar impulsos, hiperatividade, agressividade e presença de raiva e delinquência.

O tema ‘disciplina’ também marcou o discurso paterno e também possui relação com o papel do pai em orientar a conduta do filho. A referência a este tema pode ser verificada na fala dos Pais 7 e 15.

Porque às vezes ela faz certas coisas com a minha esposa que eu não gosto, aí eu sou muito mais duro. Então acho que o meu vínculo com ela, eu acho que é pra dar um pouco mais de segurança, assim - Não, você faz assim que tá certo. Faz assim que tá [...] Não faz assim que tá errado (Pai 7).

A criança necessita da figura paterna, né. Aquela figura de impor o limite. De determinar as obrigações. Principalmente essa questão do limite mesmo, das regras. De ter mesmo a segurança, de ter a proteção, de ter aquela pessoa com quem você pode contar [...] que seja pra ouvir coisa boa, pra ouvir coisa ruim, mas que vai fazer você evoluir na vida (Pai 15).

Embora os relatos dos participantes sobre este tema tenham sido breves, pode-se verificar indícios de uma parentalidade positiva, com uma possível referência ao estilo parental autoritativo, que se caracteriza pelo equilíbrio entre exigência e monitoramento, correção e gratificação, demonstração de afeto e responsividade às necessidades de seus filhos, comunicação clara, abertura ao diálogo e encorajamento à liberdade e a autonomia (Santos & Wachelke, 2019). A literatura aponta que pais autoritativos adotam práticas parentais indutivas, por meio das quais explicam às crianças seus valores, ações e métodos de disciplina (Santos & Wachelke, 2019). A questão da proximidade afetiva e da responsividade às necessidades dos filhos foram referidas por estes dois participantes em outros momentos, reforçando a hipótese de que ambos os participantes adotam o estilo parental autoritativo na disciplina dos filhos.

Dois temas apareceram somente uma vez nas falas dos participantes, e se referem a importância do vínculo paterno para ‘estabelecer comunicação’ com a criança (Pai 2) e para seu ‘aprendizado/cognição’ (Pai 1).

[...] Mas esse vínculo é importante porque a criança jamais vai te ouvir ou te dar atenção se você não tiver esse vínculo. [...] Um exemplo: se acontecer algo comigo hoje, eu vir a falecer, né, se [...] qualquer um da família [extensa] tentar chegar perto de um deles, tentar ficar com eles, eles não vão dar atenção. Não vão nem olhar. Por que? Porque não veem a pessoa, não vê o rosto da pessoa lá em casa o tempo todo, não vê brincando com a criança o tempo todo... não tem ninguém (Pai 2).

O tema suscitado pela fala do Pai 2 traz consigo o entendimento de que as trocas comunicativas com uma criança com TEA dependem não só da convivência, mas da responsividade e sintonia do interlocutor. Geralmente, estes construtos são empregados no contexto da parentalidade, com significados equivalentes, e podem ser entendidos como a capacidade dos pais de serem sensíveis aos sinais de seus filhos, de compreendê-los e respondê-los adequadamente, adaptando-se às suas necessidades (Di Renzo et al., 2021). Depreende-se, portanto, que um vínculo paterno responsivo e sintonizado aos comportamentos de um filho com TEA abre canais comunicativos entre a díade. Di Renzo et al. (2021) afirmam que pais sintonizados podem reconhecer e reparar momentos de falha de sintonização na interação, além de serem capazes de atuar como reguladores das emoções de seu filho quando este mostra-se inábil em fazê-lo sozinho.

Quanto à subcategoria ‘aprendizado/cognição’, a fala do Pai 1 transmite a ideia de um aprendizado prático, baseado na observação e imitação de seus comportamentos, que contribui para a autonomia da criança em atividades da vida diária.

[...] porque às vezes, muitas das coisas que ele aprende é pelo que ele está vendo no dia a dia. O vínculo da gente é assim, o nosso dia a dia, as conversas, brincadeiras [...] Aí vai montando, e vai desenvolvendo ele (Pai 1).

A importância que este participante atribui ao vínculo paterno para desenvolvimento infantil se aproxima dos preceitos da teoria sociointeracionista de Vigotsky (1988), que postula que o desenvolvimento cognitivo se dá por meio da interação social, e ocorre na zona de desenvolvimento proximal, que corresponde à distância entre aquilo que o sujeito já sabe (conhecimento real) e o seu conhecimento potencial. Na qual ‘o outro’ medeia a aproximação entre o conhecimento real e o conhecimento potencial, até que o conhecimento potencial seja convertido em conhecimento real pela criança, pronunciando a internalização de um novo aprendizado (Rego, 2013).

Considerações finais

A partir da retomada dos objetivos propostos, é possível concluir que os pais que participaram deste estudo enfatizam suas concepções de vínculo paterno principalmente no senso de envolvimento na vida do filho, o qual se traduz em preocupação e disponibilidade em atender às necessidades da criança. Esta visão se aproxima do componente de ‘responsabilidade do processo’, um dos domínios que compõem o modelo de envolvimento paterno de Lamb-Pleck, o qual se refere ao monitoramento das atividades e demais aspectos relativos à vida da criança, verificando se as necessidades quanto aos demais componentes de envolvimento estão sendo atendidas (Pleck, 2010).

Os participantes foram unânimes em avaliar positivamente o vínculo com os filhos atualmente, e relataram as mudanças positivas que ocorreram após o diagnóstico, as quais refletiram na forma em que passaram a enxergar e tratar os comportamentos do filho, na intensificação do investimento afetivo e no aumento do engajamento positivo com a criança.

Com relação às implicações do vínculo paterno para o desenvolvimento infantil, os pais apontaram sua importância principalmente para o bem-estar emocional do filho, propiciando sentimento de segurança na criança. Além disso, os participantes consideraram o vínculo paterno importante para orientar a conduta da criança, contribuir para construção do senso de certo e errado, e influenciar suas percepções quanto aos papéis sociais e morais da figura masculina.

Os resultados desse estudo contribuem para a construção do conhecimento científico sobre o exercício da paternidade no contexto do TEA, tema ainda pouco abordado na literatura, mas que vem sendo alvo de investigações atualmente (Jorge et al., 2021).

Embora esses resultados não possam ser tomados como parâmetros de comparação, por razões de quantidade e representatividade da amostra, bem como pela abordagem metodológica adotada, eles atestam sua relevância ao trazerem uma reflexão a respeito de como os pais percebem o vínculo com um filho com TEA, e suas implicações para o desenvolvimento da criança. Tal reflexão é especialmente importante para os profissionais que lidam diretamente com crianças com TEA, pois oportuniza um olhar diferenciado para esses genitores, desconstruindo a imagem estigmatizada de um pai coadjuvante, alheio às necessidades do filho. Além disso, contribui para a prática clínica na medida em que pode fomentar um maior empenho dos profissionais que atuam junto a crianças com TEA em se aproximarem mais dos pais, dando a estes uma maior visibilidade ao considerarem suas necessidades, pontos de vista, e potencialidades, atribuindo-lhes relevância e participação nos processos terapêuticos e educacionais de seus filhos.

Ademais, a entrevista em si possibilita aos pais uma experiência autorreflexiva, permitindo-lhes entrar em contato com os sentimentos, concepções e percepções que orientam suas ações enquanto pais. Esta pode ser uma ferramenta útil na prática clínica para promover uma maior aproximação dos pais mediante a tomada de consciência de seu papel, além de fornecer informações preciosas aos terapeutas quanto às práticas parentais que podem ser ajustadas de maneira personalizada, e respeitosa, aos objetivos terapêuticos, produzindo ganhos no desenvolvimento da criança e no vínculo estabelecido entre a díade.

Referências

  • Aguiar, M. C. M. D., & Pondé, M. P. (2020). Autism: impact of the diagnosis in the parents. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 69, 149-155. https://doi.org/10.1590/0047-2085000000276
    » https://doi.org/10.1590/0047-2085000000276
  • Aquino, E. M. L., Silveira, I. H., Pescarini, J. M., Aquino, R., Souza-Filho, J. A., Rocha, A. S., Ferreira, A., Victor, A., Teixeira, C., Machado D. B., Paixão, E., Alves, F. J. O., Pilecco, F., Menezes, G., Gabrielli, L., Leite, L., Almeida, M. C. C., Ortelan, N., Fernandes, Q. H. R. F., ... & Lima, R. T. R S. (2020). Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 25(1), 2423-2446. https://doi.org/10.1590/1413-81232020256.1.10502020
    » https://doi.org/10.1590/1413-81232020256.1.10502020
  • Bardin, L. (2011). Análise de conteúdo Edições 70.
  • Boterberg, S., Charman, T., Marschikf, P. B., Bölte, S., & Roeyers, H. (2019). Regression in autism spectrum disorder: a critical overview of retrospective findings and recommendations for future research. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 102, 24-55. https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2019.03.013
    » https://doi.org/10.1016/j.neubiorev.2019.03.013
  • Brown, M., Marsh, L., & McCann, E. (2021). Experiences of fathers regarding the diagnosis of their child with autism spectrum disorder: a narrative review of the international research. Journal of Clinical Nursing, (30): 2758-2768. https://doi.org/10.1111/jocn.15781
    » https://doi.org/10.1111/jocn.15781
  • Burrell, A., Ives, J. & Unwin, G. (2017). The experiences of fathers who have offspring with autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders, 47(4), 1135-1147. https://doi.org/10.1007/s10803-017-3035-2
    » https://doi.org/10.1007/s10803-017-3035-2
  • Campeol, Â. R., & Crepaldi, M. A. (2019). A (nova) relação pai-filhos: uma revisão integrativa da literatura nacional entre 2000 e 2019. Psicologia Argumento, 36(94), 501-526. http://dx.doi.org/10.7213/psicolargum.36.94.AO05
    » https://doi.org/10.7213/psicolargum.36.94.AO05
  • Cunha, J. H. S., Pereira, D. C., & Almohalha, L. (2018). O significado de ser mãe ou pai de um filho com autismo. Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, 6(1), 26-34. https://doi.org/10.18554/refacs.v6i1.1971
    » https://doi.org/10.18554/refacs.v6i1.1971
  • Dalbem, J. X., & Dell’Aglio, D. D. (2005). Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 57(1), 12-24. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-52672005000100003&script=sci_abstract
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-52672005000100003&script=sci_abstract
  • Di Renzo, M., Guerriero, V., Pagnacco, A., Petrillo, M., Racinaro, L., D’Errico, S., & Bianchi di Castelbianco, F. (2021). Attunement and paternal characteristics in care relationships in the presence of children diagnosed with autism. International Journal of Environmental Research and Public Health, 18(4), 2010. https://doi.org/10.3390/ijerph18042010
    » https://doi.org/10.3390/ijerph18042010
  • Duarte, A. E. O. (2019). Aceitação dos pais para o transtorno do espectro autista do filho. Revista Internacional de Apoyo a la Inclusión, Logopedia, Sociedad y Multiculturalidad, 5(2), 53-63. https://doi.org/10.17561/riai.v5.n2.5
    » https://doi.org/10.17561/riai.v5.n2.5
  • Fontana, L. B., Pereira, D. S., & Rodrigues, T. P. (2020). O impacto do transtorno autista nas relações familiares. Brazilian Journal of Health Review, 3(3), 6336-6340. https://doi.org/10.34119/bjhrv3n3-185
    » https://doi.org/10.34119/bjhrv3n3-185
  • Franco, V. (2009). A adaptação das famílias de crianças com perturbações graves do desenvolvimento-contribuição para um modelo conceptual. Psychology, Infad-International Journal of Developmental and Educational Psychology, 21(1-2), 25-37. https://scholar.google.pt/citations?view_op=view_citation&hl=pt-PT&user=SS_XZLgAAAAJ&citation_for_view=SS_XZLgAAAAJ:qjMakFHDy7sC
    » https://scholar.google.pt/citations?view_op=view_citation&hl=pt-PT&user=SS_XZLgAAAAJ&citation_for_view=SS_XZLgAAAAJ:qjMakFHDy7sC
  • Frye, L. (2016). Fathers' experience with autism spectrum disorder: nursing implications. Journal of Pediatric Health Care, 30(5), 453-463. 10.1016/j.pedhc.2015.10.012
    » https://doi.org/10.1016/j.pedhc.2015.10.012
  • Gil, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa (4a ed.). Atlas.
  • Henn, C. G., & Sifuentes, M. (2012). Paternidade no contexto das necessidades especiais: revisão sistemática da literatura. Paidéia, 22(51), 131-139. https://doi.org/10.1590/S0103-863X2012000100015
    » https://doi.org/10.1590/S0103-863X2012000100015
  • Jorge, G. H., Santos, Y. L. C. M., Portes, J. R. M., & Bossardi, C. N. (2021). Envolvimento paterno de pais de crianças com o Transtorno do Espectro Autista. Boletim-Academia Paulista de Psicologia, 41(101), 175-184. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1415-711X2021000200004
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1415-711X2021000200004
  • Maenner, M. J., Shaw, K. A., Bakian, A. V. (2021). Prevalence and characteristics of autism spectrum disorder among children aged 8 years — autism and developmental disabilities monitoring network, 11 sites, United States, 2018. MMWR. Surveillance Summaries, 70(11), 1-16. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36952288/
    » https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36952288/
  • Paquette, D. (2004). Theorizing the father-child relationship: mechanisms and developmental outcomes. Human Development, 47(4), 193-219. https://doi.org/10.1159/000078723
    » https://doi.org/10.1159/000078723
  • Pereira, L. D. (2017). Relacionamento socioafetivo de mães e de pais com crianças com transtorno do espectro autista (Dissertação de mestrado). Universidade Federal do Espírito Santo.
  • Pereira, L. D., Canal, C. P. P., Corrêa, M. C. C. B., Silva, A. L. P., & Pimentel, S. G. (2018). Dificuldades de mães e de pais no relacionamento com crianças com Transtorno do Espectro Autista. Contextos Clínicos, 11(3), 351-360. https://doi.org/10.4013/ctc.2018.113.06
    » https://doi.org/10.4013/ctc.2018.113.06
  • Perzolli, S., Bentenuto, A., Bertamini, G., Falco, S., & Venuti, P. (2021). Father-child interactions in preschool children with asd: a systematic review. Brain Sciences, 11(9), 1202. https://doi.org/10.3390/brainsci11091202
    » https://doi.org/10.3390/brainsci11091202
  • Pleck, J. H. (2010). Paternal involvement: revised conceptualization and theoretical linkages with child outcomes. In M. E. Lamb (Ed.), The role of the father in child development (5th ed., pp. 58-93). John Wiley & Sons.
  • Rafferty, D., Tidman, L., & Ekas, N. V. (2020). Parenting experiences of fathers of children with autism spectrum disorder with or without intellectual disability. Journal of Intellectual Disability Research, 64(6), 463-474. https://doi.org/10.1111/jir.12728
    » https://doi.org/10.1111/jir.12728
  • Rego, T. C. (2013). Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação Vozes.
  • Santos, E. B., & Wachelke, J. (2019). Relações entre habilidades sociais de pais e comportamento dos filhos: uma revisão da literatura. Revista Pesquisas e Práticas Psicossociais, 14(1), 1-15. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-89082019000100012
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-89082019000100012
  • Silva, M. R., Gabriel, M. R., Cherer, E. Q., & Piccinini, C. A. (2017). Os conceitos de envolvimento e experiência nos estudos sobre paternidade. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 69(3), 116-132. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672017000300009
    » http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672017000300009
  • Silva, M. R., & Piccinini, C. A. (2007). Sentimentos sobre a paternidade e o envolvimento paterno: um estudo qualitativo. Estudos de psicologia (Campinas), 24, 561-573. https://doi.org/10.1590/S0103-166X2007000400015
    » https://doi.org/10.1590/S0103-166X2007000400015
  • Smeha, L. N. (2010). Vivências da paternidade em homens que são pais de um filho com diagnóstico de autismo (Tese de doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. https://hdl.handle.net/10923/4874
    » https://hdl.handle.net/10923/4874
  • Souza, A. C. (2015). Famílias de crianças autistas: compreendendo a participação e os desafios por meio do olhar paterno (Dissertação de mestrado). Universidade Federal de São Carlos. https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/7551
    » https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/7551
  • Vigotski, L. S., Cole, M., John-Steiner, V., Scribner, S., & Souberman, E. (Orgs.). (1988). A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores (2a ed.). Martins Fontes
  • Disponibilidade de dados:
    Os dados não podem ser disponibilizados publicamente, devido ao acordo de confidencialidade entre as pesquisadoras e os participantes da pesquisa.

Editado por

  • 1
    Editor seção: Saulo Luders Fernandes

Disponibilidade de dados

Os dados não podem ser disponibilizados publicamente, devido ao acordo de confidencialidade entre as pesquisadoras e os participantes da pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    02 Jun 2022
  • Aceito
    10 Jan 2024
location_on
Universidade Estadual de Maringá Avenida Colombo, 5790, CEP: 87020-900, Maringá, PR - Brasil., Tel.: 55 (44) 3011-4502; 55 (44) 3224-9202 - Maringá - PR - Brazil
E-mail: revpsi@uem.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro