Resumo
O presente trabalho busca aproximar temas como: agronegócio e os processos de subjetivação, principalmente através das mediações da indústria cultural musical, tendo o recorte do sertanejo universitário, em sentido lato, e a educação. Fundamentado na Teoria Crítica da Sociedade, partimos da compreensão de que a indústria cultural está intimamente relacionada aos poderes hegemônicos de uma sociedade e serve a eles, podendo forjar processos de subjetivação que, não sem contradições, buscam ajustar o sujeito a esses poderes. A educação, por sua vez, é entendida aqui como um meio mais direto para construir subjetividades e forjar visões de mundo. Para essa aproximação inicial, o texto parte da hipótese da correlação entre esses temas e, na sequência, apresenta dados de um levantamento bibliográfico e documental inicial e exploratório. Os resultados permitem indicar uma articulação entre os temas apresentados, sugerindo a emergência de uma adequação subjetiva à reedição neoliberal do colonialismo brasileiro.
Palavras-chave:
Subjetividade; Indústria cultural; Educação; Agronegócio; Determinantes sociais.
Resumen
Este trabajo busca conectar temas como la agronegocio y los procesos de subjetivación, principalmente a través de la mediación de la industria cultural musical, centrándose en el concepto más amplio de "sertanejo universitário" y la educación. Basándonos en la Teoría Crítica de la Sociedad, partimos de la comprensión de que la industria cultural está íntimamente ligada a los poderes hegemónicos de una sociedad y los sirve, forjando potencialmente procesos de subjetivación que, no exentos de contradicciones, buscan adaptar el sujeto a estos poderes. Aquí, la educación se entiende como un medio más directo para construir subjetividades y forjar cosmovisiones. Para este enfoque inicial, el texto parte de la hipótesis de una correlación entre estos temas y presenta datos de una investigación bibliográfica y documental exploratoria. Los resultados permiten indicar una conexión entre los temas presentados, lo que sugiere la emergencia de una adaptación subjetiva a la reedición neoliberal del colonialismo brasileño.
Palabras clave:
Subjetividad; Industria cultural; Educación; Agronegocio; Determinantes sociales.
Abstract
This work aims to connect themes such as agribusiness and the processes of subjectivation, mainly through the mediation of the musical cultural industry, focusing on the broader concept of "sertanejo universitário", and education. Based on Critical Theory of Society, this text starts from the understanding that the cultural industry is intimately related to the hegemonic powers of a society and serves them, being able to forge processes of subjectivation that, not without contradictions, seek to adjust the subject to these powers. Education, in turn, is understood here as a more direct means of constructing subjectivities and forging worldviews. For this initial approach, the text begins with the hypothesis of a correlation between these themes and then presents data from an initial, exploratory bibliographic and documentary survey. The results allow us to identify a connection between the themes presented, suggesting the emergence of a subjective adaptation to the neoliberal re-edition of Brazilian colonialism.
Keywords:
Subjectivity; Cultural industry; Education; Agribusiness; Social determinants.
1. Introdução
“No evolver da produção capitalista desenvolve-se uma classe de trabalhadores que, por educação, tradição e hábito, reconhece as exigências desse modo de produção como leis naturais e evidentes por si mesmas”.
(Karl Marx, A assim chamada acumulação primitiva)
Em meados de 2021, circulou pela internet o trecho de uma entrevista com Kamilla Fialho, ex empresária da cantora brasileira Anitta. Em um dos fragmentos que ganharam destaque, foi possível se atentar para a dimensão do impacto do agronegócio na construção da hegemonia cultural exemplificada pela música sertaneja, inclusive quando comparada ao impacto de uma artista pop com o alcance de Anitta. Em um momento da entrevista1, Kamilla diz: “tem muito dinheiro... Ali é boi. Eu pago pra tocar uma música na rádio, eles compram a rádio” (Magalhães, 2021). E indica que “nem mesmo uma Anitta” disputa com tranquilidade o espaço da indústria cultural com os senhores do agronegócio. Clemente Magalhães, o entrevistador nessa ocasião, comenta em seguida que os proprietários de terra são ricos há cinco gerações, destacando o poder de uma elite econômica vinculada à posse da terra - elemento central na configuração do Brasil.
Alguns anos antes, no final do ano de 2017, o jornal brasileiro Folha de São Paulo publicou um relatório2 que categorizava por volta de 134 bilhões de reproduções musicais executadas pelo YouTube, com a finalidade de mapear o que os brasileiros escutavam (Folha de São Paulo, 2017). O projeto de resgate e promoção de canções infantis populares intitulado “Galinha Pintadinha” apareceu em primeiro lugar, como um fenômeno hegemônico. Merece destaque também que a cantora Marília Mendonça - nascida em um município no interior de Goiás, Brasil, em 1995 e falecida tragicamente em 2021 - foi a artista mais ouvida do país, acumulando, até a data de coleta dos dados do relatório, uma média de 7,1 milhões de visitas a cada 48 horas no seu canal de Youtube. A artista poderia ser incluída no gênero “sertanejo” ou até no “sertanejo universitário”, ainda que no relatório da Folha ela aparecesse sob o rótulo de “feminejo”, em oposição ao predomínio masculino na cena da música sertaneja. Uma consulta às canções mais tocadas nos anos seguintes confirma a permanência da compositora entre xs artistas mais ouvidxs e uma progressiva substituição por nomes como o de Ana Castela, a Boiadeira, que podem, grosso modo, ser entendidos como oriundos de um mesmo nicho.
Na era dos algoritmos, dos serviços de streaming e das lives alavancadas e patrocinadas - com destaque para a intensificação sem precedentes desse cenário após a pandemia de covid-19 -, a aparência de liberdade de escolha do ouvinte parece se potencializar na mesma medida em que se ocultam os mecanismos de gestão do acesso às produções musicais (Santini, 2020; Seabrook, 2015). O avanço da tecnologia e da digitalização da vida convive com a intensificação de uma economia de base extrativista e predatória, que busca educar sentidos e sensibilidades para um cenário que busca conciliar desenvolvimento técnico e uma vida no campo. Essa vida no campo incorpora a forma empresa, a lógica meritocrática e o empreendimento de si em uma reedição neoliberal do colonialismo brasileiro, e procura livrar-se da pecha de atrasado aderindo ao maquinário e à tecnologia que modificam a representação do campo e tensionam a imagem campo-cidade, ainda que a velha exploração mantenha-se imperturbada (Souza, 2019).
É nesse contexto que a presente discussão pretende aproximar temas como: agronegócio e os processos de subjetivação, principalmente através das mediações da indústria cultural musical, tendo o recorte do sertanejo universitário, em sentido lato, e a educação. Fundamentado na Teoria Crítica da Sociedade, principalmente em autores da primeira geração como Theodor Adorno, Max Horkheimer, mas partilhando de uma concepção crítica de constituição da subjetividade com autores contemporâneos fundamentados no materialismo histórico e dialético, parte-se da compreensão de que a indústria cultural está intimamente relacionada aos poderes hegemônicos de uma sociedade e serve a eles, podendo forjar processos de subjetivação que, não sem contradições, buscam ajustar as pessoas a esses poderes, até mesmo contra os interesses e a sobrevivência delas. Nesse sentido, há uma convergência com autores contemporâneos que seguem construindo análises a partir da Psicologia com pretensões críticas e emancipatórias, como sintetiza Thomas Teo:
Penso que uma psicologia crítica envolve o entendimento de que a subjetividade individual é conectada a um contexto mais amplo, como sociedade, história ou política. Então, não podemos separar a subjetividade individual desses contextos maiores. Essa é uma característica central da psicologia crítica, como é a noção de que o conhecimento crítico tem algum tipo de relevância emancipatória. (Toassa & Teo, 2015, s/p)
A hipótese é que a pretensa hegemonia cultural, em sentido gramsciano, de elementos vinculados a uma estética do agronegócio, como é o caso da música sertaneja, não se dá em função de que as pessoas gostam. Entendendo que o gosto e o juízo estético são construídos e reconhecendo que segue havendo no Brasil uma riquíssima pluralidade cultural, trata-se de compreender os determinantes econômicos dessa ofensiva com pretensões de hegemonia cultural. Dito de modo mais direto, trata-se de estabelecer relações entre a opção por um modelo de negócio agrário, que busca desfazer-se da sua pecha de explorador e violento (Souza, 2019), e os processos de convencimento das pessoas para construção de um consenso. Argumenta-se que, de modo mais difuso, esse processo se dá via indústria cultural e, de modo mais direto, via uma ofensiva à educação.
Entende-se que esse movimento remete à história colonial do Brasil, aos processos de distribuição da terra e à manutenção de desigualdades. Nesse complexo de relações, a proposta de aproximar temas como agronegócio, indústria cultural musical, especialmente o sertanejo universitário e processos de subjetivação - construídos socialmente também pela mediação da indústria cultural e por processos educacionais - requer uma articulação interdisciplinar que acolha, no interior da Psicologia, análises acerca das múltiplas determinações das pessoas.
Os esforços para a construção de consensos sobre o agronegócio e para mudanças da imagem do latifúndio improdutivo, explorador, violento e colonial têm base econômica e material (Fernandes, 2010; Souza, 2019). Nesse sentido, a noção de hegemonia (Alves, 2010; Gramsci, 2024) implica também uma reflexão a partir do conceito de ideologia (Chauí, 2025), ambas recuperadas da tradição marxista e que se mostram relevantes tanto para compreender a ofensiva lançada pela reprimarização da economia quanto para somar esforços no sentido de diversificar as potencialidades produtivas do país em uma lógica que recupere o cultivo e a cultura em detrimento do negócio.
Para essa aproximação inicial entre os temas, o texto apresenta dados de um percurso exploratório realizado ao longo do ano de 2022 e que envolveu o levantamento de artigos acadêmicos, dissertações, livros e teses, artigos publicados em revistas de divulgação cultural, materiais de podcasts e vídeos publicados online e que parecem compor um caminho profícuo de aprofundamento da discussão que é introduzida aqui.
2. Agronegócio, indústria cultural musical e subjetivação: aproximações
Nem sempre foi possível afirmar uma hegemonia da música sertaneja no Brasil. Ela já enfrentou o desafio de ter que se desvincular de uma concepção rural e rústica do país, negligenciada diante do avanço da urbanização. Nesse movimento, fica claro que o sucesso de um gênero musical decorre de sua afinidade com determinados setores da elite econômica: “A expansão do público e a aceitação da música sertaneja pela ‘alta’ sociedade levou o pessoal do campo a tocar em novos cenários” (Alonso, 2015, p. 307) e também com uma atualização de uma base econômica que é escolhida como modelo prioritário de desenvolvimento do país e que requer, por sua vez, a construção de um consenso a seu favor que mascare também as contradições e problemas dessa escolha de desenvolvimento (Fernandes, 2010; Souza, 2019).
É nesse sentido que se chama a atenção para o quanto elementos externos à música, como a identificação com o latifúndio - não o trabalhador da terra, mas com o latifundiário - e a dedicação às elites, que tradicionalmente e historicamente permanecem neste lugar social em grande parte pela forma como dispomos das propriedades fundiárias (Chã, 2018), são legitimados e ganham espaço através das produções culturais. Há aqui uma base econômica fundamental na qual a manutenção do latifúndio colonial tornou-se um caminho de acesso a recursos públicos, créditos e isenção de impostos ao fazer crer que a lógica fundamentalmente mercantil do agronegócio é a responsável pela totalidade da produção agrícola brasileira e assim, seria responsável, sozinha, pela benevolência de “alimentar o mundo” (Fernandes, 2010; Souza, 2019). A música “Os menino da pecuária”, de Léo e Raphael representa de modo indisfarçável a dimensão de propaganda e construção de consenso almejada por esse setor da indústria cultural representante de um nicho econômico que concentra mais terras, mais financiamento público somado a mais isenção de impostos, ao mesmo tempo em que tem uma menor eficiência naquilo que alardeia ser seu grande mérito (Souza, 2019).
Adorno e Horkheimer já identificavam na década de 1940 que a indústria cultural é sustentada pelos setores mais poderosos da indústria, como os setores siderúrgico e petrolífero (Adorno & Horkheimer, 2006). Os monopólios culturais são menores em relação à indústria de base, no caso do Brasil, a agroindústria e o setor agroquímico. Articulada por esses setores, a indústria cultural, assim como as políticas e materiais educacionais (Chã, 2018), oferecem diferentes categorias de bens aos consumidores, apresentando-se como liberdade e espontaneidade, mas também forjando subjetividades e sensibilidades afeitas a uma certa visão de mundo que interessa aos patrocinadores: a patricinha vira boiadeira. A estandardização do material musical da indústria cultural corresponde a uma pseudo-individuação das pessoas, a uma limitação da consciência e uma manutenção dos ouvintes enquanto mero consumidos de músicas que apresentam-se já pré-digeridas (Adorno & Simpson, 1986), daí a assossiação de temas proposta aqui.
Não se trata de dizer que esta é uma relação simples ou esporádica, mas que resulta de uma complexa identificação psicológica das pessoas com os poderes nacionais que forjam paulatina e indiretamente a conformação a valores hegemônicos e ao status quo: “A indústria cultural é a integração deliberada, a partir do alto, de seus consumidores” (Adorno & Simpson, 1986, p. 92). E nesse sentido, ela não pode ser desprezada, sendo, ao contrário, um elemento fundamental de constituição e (de)formação dos sentidos, das sensibilidades e dos modos de ser e estar no mundo:
As histórias da imprensa e da subjetividade, enquanto experiências de liberdade individual, são correlatas. Podemos pensar a criação da imprensa como um dos fatores que possibilitaram o surgimento da experiência subjetiva e a valorização do espaço privado. Assim, a imprensa não só influencia nos modos de subjetivação, mas também cria ou contribui para a criação de subjetividades. (Moreira, 2010, s/p)
Ao vincular o desenvolvimento das mídias com o desenvolvimento e a criação das subjetividades, emerge a necessidade de seguir pensando as transformações do campo midiático tanto na dimensão de seu conteúdo quanto de seus meios de difusão, marcados cada vez mais por uma intensa digitalização. Chã (2018) escreve:
Não são raros os casos de publicidade e marketing do agronegócio nos quais o que está em jogo não é a promoção direta de uma marca ou produto, mas de um conceito ou imagem a ser lembrada e incorporada pelas pessoas da maneira mais “natural” possível, ou mesmo um projeto de país. (p. 86, grifo do autor)
Ao afirmar que “embora seja inegável que o agronegócio foi definidor de uma nova reconfiguração da riqueza no Brasil”, Gustavo Alonso (2015, p. 304) argumenta, em um trabalho dedicado a retomar a história da música sertaneja no Brasil, que “é problemático assumir a preponderância econômica como única vertente explicativa para a emergência de novos valores musicais” (Alonso , 2015, p. 304). De fato, a relação entre o sucesso do sertanejo e a aposta no agronegócio parece mais complexa, além de o primeiro ser reflexo do segundo, embora seja fundamental explicar essas relações. Além disso, se esse conjunto de elementos visa promover o ajuste psíquico e a formação no sentido da aceitação e da conformação a um projeto de país, é preciso revelar as implicações que estão vinculadas a esses recursos: “Através da ideologia da indústria cultural, o conformismo substitui a consciência” (Adorno & Simpson, 1986, p. 97). No Brasil contemporâneo talvez fosse já o caso de entender o conformismo denunciado por Adorno, muito mais no sentido de um esforço por conformar-se, ajustar-se à norma, do que meramente ser apático em relação a ela. A ideologia neoliberal (Chauí, 2025; Dardot & Laval, 2016;) traz em seu cerne noções como a meritocracia e lógicas como a da teologia da prosperidade, o que requer que se considere também um sujeito empreendedor e proativo em ajustar-se às ditas demandas do mercado.
As raízes desta associação ideológica parecem muito mais profundas e fundem-se na construção do país, engendrando diferentes formas de relacionar-se com os símbolos do poder e desdenhar, com desprezo, as lembranças da violência reiteradamente cometida. Parecem, ao mesmo tempo, afinar-se com um ‘espírito da época’ que ultrapassa fronteiras e funciona como compensações e justificativas fraudulentas para as crises do capital:
Em 1991, o jornal Folha de S. Paulo organizou uma matéria para entender quem eram, o que faziam e quais eram os hábitos de quem frequentava os leilões agrícolas do agronegócio brasileiro. A matéria denunciava que o novo-rico do interior gostava do sertanejo: “Pesquisa revela preferências e hábitos do frequentador de leilões: Ele tem terras em SP, viaja de picape, come carne, bebe uísque e curte Chitãozinho & Xororó”. Ainda segundo a reportagem, esses novos-ricos também seriam politicamente conservadores e partidários de candidatos herdeiros da ditadura: “Se houvesse hoje uma eleição para Presidente da República, o vencedor seria Paulo Maluf. E 64% são a favor da adoção da pena de morte no Brasil”, disse a Folha. (Alonso, 2015, p. 303)
A personagem descrita não é exatamente a do universitário, rótulo que se agrega ao gênero musical no movimento desses valores, e parece remeter mais à “massas de homens brancos frustrado contra as ameaças da vida e do tempo histórico, pesarosos que a crise do patriarcado produtor de mercadorias confirme a irrelevância de suas existências” (Menegat, 2024, p. 28). O acréscimo de “universitário” passa a qualificar as produções musicais a partir dos anos 2000, em oposição às composições que ocuparam as posições de sucesso até a década de 1990. Seu advento é condizente com os determinantes sociais, políticos e econômicos e também chama a atenção para a dimensão escolar e educacional desse cenário:
O termo universidade faz todo o sentido .... É uma indício de novos tempos no Brasil. Se na década de 1960 a bossa nova e a MPB eram os gêneros cantados nas universidades, a ascensão de novas classes sociais às universidades do país provocou mudanças no padrão de gosto coletivo. De certa forma, o sertanejo universitário também se explica pela democratização do saber universitário no Brasil nos anos 2000. (Alonso, 2015, p. 392)
No entanto, o termo universidade está repleto de ambiguidades. No Brasil de 2025 talvez seja menos ousado dizer que os debates e os resultados sobre esse novo Brasil que acessa a universidade estão envoltos em contradições - e talvez agora soe menos “apocalíptico” e mais realista apontar contradições nessa configuração, dada a notória vinculação entre expoentes do sertanejo universitário, a estética da agricultura e o avanço da extrema direita. Se o público universitário mudou nos anos 2000 com a expansão das universidades e se houve mudança no padrão de gosto, modificando a dimensão estética associada à universidade (Alonso, 2012), resta pensar como e por que isso aconteceu. Há razões para sugerir que isso não é apenas uma modificação inofensiva do padrão de apreciação estética. Afinal, é preciso discutir a construção do gosto e sua ligação com os determinantes econômicos, culturais e sociais de uma época e de uma sociedade bem como os processos formativos, formais e informais que são disputados em um cenário como esse.
Se na sociedade brasileira a educação formal aparece como o caminho óbvio para ascender na pirâmide social, tanto o acesso dos mais pobres é impedido, quanto são eles que apostam todas as suas forças nesse caminho - desafiando as grandes universidades brasileiras a repensarem sua finalidade ética e educacional, permitindo-lhes expandir seu público para além do pequeno corte elitista. O filho do proprietário que herda todos os recursos para o sustento da vida, lógica que vigora de modo peculiar nas sociedades de história colonial e escravocrata, liberta-se do fardo e da necessidade de estudar - ficando surpreendido e eventualmente ressentido por se encontrar sem instrução.
Sobre isso, Alonso (2015) traz um trecho de entrevista com o músico ícone de sucesso Luan Santana: “Esse negócio de sertanejo universitário já era. Além do mais, eu sou novo, tenho só o segundo grau, ainda não fiz universidade. E tomara que não precise, que o sucesso continue” (Alonso, 2015, p. 392). Como escreveu Heinz Bude (2017), vivemos tempos em que a promessa de ascensão é substituída pela ameaça de exclusão. Afinal, o passar do tempo mostrou que a caminhonete, o uísque e a posição a favor da pena de morte tiveram mais sucesso do que a universidade, que, aliás, deve ser compreendida e problematizada em sua expansão como universidade privada. A ideologia neoliberal que acompanha as reorganizações do mercado deve ser pensada em seu ataque direto às lógicas de comum, do democrático e do social, o que implica em ofensivas indisfarçadas aos esforços de socializar a educação. “O ataque neoliberal ao social”, escreve Wendy Brown, “é fundamental para gerar uma cultura antidemocrática desde baixo, ao mesmo tempo em que constrói e legitima formas antidemocráticas de poder estatal desde cima” (2019, p. 39, grifos no original). Se se concorda com a ideia de que a indústria cultural, afinada com a propaganda, é capaz de articular-se com um projeto de país - e a formulação de uma noção de mundo, que articule teoria e prática, ética e política, que tenha direção cultural e ideológica, estabelecendo compromissos com os interesses de um certo grupo social é elucidada a partir do conceito de hegemonia (Alves, 2010) -, surge a questão sobre qual projeto de formação humana é (in)diretamente proposto e defendido ali.
A articulação desses temas tem o potencial de lançar luz sobre os elementos que veiculam, também por meio da indústria cultural musical, a defesa de um determinado lugar que o Brasil deve ocupar no mercado global. A organização da Educação está fortemente ligada a esse contexto de precariedade no desenvolvimento das potencialidades individuais:
O papel de fornecedor de matérias-primas agrícolas e outros produtos agrícolas para exportação, especialmente para a China, continua sendo o lugar reservado ao Brasil na organização mundial do capital. Este espaço mantém a sua condição periférica e colonial de matriz agroexportadora, com uma economia em crescente processo de desindustrialização. (Chã, 2018, p. 42)
Ainda que essa possa parecer apenas uma defesa de modelo de agricultura, o que já seria razão para críticas, dado o contexto e a história do Brasil, trata-se de um projeto político e econômico que precisa forjar e limitar o imaginário social conforme o que interessa a esse setor, mesmo que isso implique limitar drasticamente formas de vida e chegar ao limiar da sobrevivência humana - vide o modo de mercantilização e uso da água, por exemplo. A cultura, as artes e a educação emergem como moeda de valor simbólico para essas grandes corporações (Wu, 2006), daí a relevância de compreender qual projeto está sendo lapidado através dessa força tarefa de ajustamento e de convencimento das pessoas (Chã, 2018).
3. Mapeando o território
O objetivo maior deste levantamento foi investigar e ampliar a compreensão das correlações entre o agronegócio e os processos de subjetivação principalmente por meio da indústria cultural musical e via processos educacionais. Para tanto, ao longo de 2022 foi realizada uma busca por materiais bibliográficos - artigos acadêmicos, artigos de divulgação e crítica cultural, textos em anais de eventos acadêmicos, livros, dissertações e teses - e, aproveitando a profusão de produções no ambiente digital, também foi coletado material publicado online, tanto escrito quanto em áudio ou vídeo, como no caso de podcasts e entrevistas. A proposta era realizar um mapeamento e uma atualização do estado da arte, investigar o que já havia sido publicado relacionando explicitamente os temas que são articulados aqui, a saber: o agronegócio, a construção de subjetividades, a indústria cultural musical e a educação.
Foram realizados diversos acessos na Plataforma Google Acadêmico ao longo de 2022 e foram utilizados, a princípio, os descritores “agronegócio” and “subjetividade” and “indústria cultural musical” and “educação”. Apesar da diversidade e grande quantidade de trabalhos indicados, o que se notou foi a prevalência de trabalhos tratando esses temas de modo separados, ainda que mais aprofundados, e recortados. Há, por exemplo, diversos trabalhos que articulam agronegócio e indústria cultural musical. Do mesmo modo, há trabalhos que articulam indústria cultural e educação, ou agronegócio e educação, principalmente a educação no campo. Há também trabalhos que, mesmo que não diretamente, articulam os temas em questão aqui por meio da discussão sobre a publicidade, que é entendida também como uma aliada da indústria cultural, ainda que não se refira diretamente à dimensão musical. Os descritores “agronegócio” and “indústria cultural” e “agronegócio” and “educação” também foram utilizados.
Outros materiais foram sendo buscados, também ao longo de 2022, na Plataforma Google e em redes sociais, como o Twitter, o Facebook e o YouTube. A ideia aqui era buscar por materiais que fizessem a relação entre os temas em questão visando atingir um público maior, não estritamente acadêmico e, nesse sentido, captar, em alguma medida, de que modo essa reflexão mais crítica acerca das interrelações entre base econômica, indústria cultural e formação de pessoas circula online em espaços não acadêmicos. Fortalecendo o argumento apresentado aqui, o material que mais emerge nessas buscas (e mesmo sem buscas são sugeridos) é de natureza propagandística favorável ao agronegócio e à estética do chamado sertanejo universitário. Isso fica mais evidenciado no YouTube, já que um acesso à essa rede sem que haja um login personalizado arremessa o usuário a uma seleção das músicas sertanejas mais tocadas. Nesses diversos acessos realizados ao longo de 2022, procurou-se levantar materiais mais críticos e reflexivos acerca dos temas propostos aqui.
Procurou-se fazer uma apreciação mais geral desses materiais escritos e áudiovisuais, selecionando uma amostragem por proximidade temática com o que é proposto aqui. Essa seleção foi apreciada de modo mais detido, sendo lida, assistida e/ou ouvida, com realização de fichamento e análise. A seleção não pretendeu esgotar o mapeamento e envolveu critérios de pertinência e relevância no confronto com o objetivo deste trabalho. É, então, uma amostragem desse levantamento que é apresentada aqui.
Primeiramente, são apresentados os materiais mais próxima aos do tema que se busca aqui desenvolver. Posteriormente, são apresentados textos organizados em três categorias: A. os que discutem a dimensão histórica desses temas, o que é coerente com a abordagem crítica defendida aqui e a necessidade de se conhecer os processos através dos quais as coisas se tornam o que aparentam; B. os que visam discutir a disputa do agronegócio pela hegemonia, ampliando a discussão sobre a pretensão de formação de consenso que emerge da escolha prioritária dessa base econômica, por via da indústria cultural e da publicidade, principalmente; e, por fim, C. textos que levantam questões sobre a educação no neoliberalismo somado às forças do agronegócio buscando evidenciar o esforço de captura das mediações dos processos de subjetivação. Se a indústria cultural é tida como uma forma mais difusa de construção de subjetividades e formação de pessoas, a educação, principalmente a educação escolar, por sua vez, é entendida como uma forma de incidir diretamente na formação da subjetividade e do psiquismo das pessoas (Adorno, 1995; Martins, 2013; Zamora, 2009). Desse modo, ela se torna campo de disputa no movimento de construção da hegemonia ideológica do agronegócio.
Dentre os livros encontrados no levantamento bibliográfico, destacam-se: (a) o de Gustavo Alonso, intitulado “Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira”. Foi publicado no Rio de Janeiro pela Editora Civilização Brasileira em 2015. Alonso não escreve a partir da Teoria Crítica e não partilha do entendimento acerca da indústria cultural. Entretanto, faz uma importante análise das transformações da música sertaneja no Brasil, fazendo também uma análise social e econômica do contexto da transformação histórica. Esse livro já havia aparecido em levantamentos anteriores de pesquisas afins e já está incorporado a este trabalho. O mesmo acontece com o seguinte; (b) o livro de Ana Manoela Chã, intitulado “Agronegócio e indústria cultural: estratégias das empresas para a construção da hegemonia”. Foi publicado em São Paulo, pela Editora Expressão Popular em 2018. Este livro analisa a hegemonia cultural do agronegócio a partir do conceito de indústria cultural. E também faz uma articulação entre publicidade, música e educação principalmente através da análise de materiais escolares e das disputas de conteúdos escolares. Ainda que a autora não aprofunde a dimensão musical da indústria cultural, trata-se de uma obra de relevante afinidade com a discussão aqui proposta, pois articula a noção de pretensão de hegemonia com a disputa pelas diversas mediações de construção de um consenso sobre o agronegócio no âmbito formativo e estético. (c) o livro “Formação Política do Agronegócio”, de Caio Pompeia, publicado pela Elefante em 2021 traz um panorama aprofundado tanto da história como da diversidade de elementos e movimentos do segmento político e econômico entendido como “agro”. Ele é selecionado pela articulação entre a dimensão política e econômica, que interessa ao argumento aqui desenvolvido evidenciar, e pela forma como traduz a complexidade dos elementos envolvidos historicamente nessa questão. Vale dizer que há uma série de artigos e outros trabalhos acadêmicos que contribuem com a elucidação e análise desse processo histórico de estruturação da atual conjuntura do agronegócio. Nessa amostragem eles não estão explicitados em função da repetição do tema e do elevado número de trabalhos dignos de destaque.
Dentre os artigos pesquisados, destaca-se, pela abordagem do tema a seguinte amostragem de trabalhos: (a) o texto de Luciana Schleder Almeida, intitulado “Pandemia, ‘agro’ e ‘sofrência’: jornalismo, publicidade e entretenimento no debate público sobre o modelo agrícola”. Foi publicado na revista Estudos Históricos, no Rio de Janeiro, vol. 34, nº 73, em 2021. O texto, nas palavras da autora, “demonstra o trabalho de atribuição de sentido ao agronegócio pela apologia economicista e pelo lançamento massivo de produtos culturais associados à agricultura moderna por meio de campanhas publicitárias e da indústria do entretenimento” (p. 368). Ao trazer a temática da sofrência, o texto articula algumas dimensões da indústria cultural musical, ainda que não de modo amplo, pensada enquanto entretenimento que não é inócuo ou ingênuo, mas vinculado a uma realidade material e econômica com disputas e tensões; (b) e o texto de Tássia Gabriele Balbi de Figueiredo e Cordeiro, intitulado “‘Agro sem partido’? Coerção e consenso - investida do agronegócio na educação brasileira”. Foi publicado em 2022 na revista Trabalho Necessário da Universidade Federal Fluminense, em seu volume 20, nº 41. Este artigo analisa a inserção do agronegócio na educação por meio da campanha “De olho no material escolar”, que se apresenta como uma iniciativa de mães autointituladas “mãe do agro” preocupadas em garantir que o material escolar seja também reflexo do viés sobre o agronegócio que se pretende defender. A análise da autora articula de modo direto a base econômica e a busca por controlar o modo como o conhecimento chega (ou não) até as pessoas. É um trabalho que evidencia de modo relevante a pretensão de construção de hegemonia através da disputa pelos meios mais diretos e efetivos de formar as pessoas. Não por acaso, a campanha angaria apoio da conhecida bancada ruralista. Nas palavras da autora:
observamos indícios de que o De Olho no Material Escolar compõe uma frente de expansão político-ideológica do agronegócio que busca, por meio da combinação entre força e consenso, interferir nos rumos da educação brasileira, reproduzindo de forma mais sofisticada os métodos desenvolvidos pelo Escola sem Partido. (Cordeiro, 2022, p. 1)
Nessas obras, o que temos são discussões que articulam os temas do agronegócio, da indústria cultural e das questões publicitárias e do entretenimento, de modo que sejam referências fundamentais para o desenvolvimento do pensamento crítico no Brasil contemporâneo. Outros textos secundários para o objetivo proposto aqui serão identificados mais à frente. Antes disso, alguns materiais são indicados a seguir, além de livros e artigos, mas que também articulam os temas em questão de forma crítica, uma vez que o avanço da extrema direita no Brasil fez com que artistas se posicionassem e, mais do que isso, indicassem patrocínios e projetos nacionais de financiamento da cultura e da educação no país. Nesse sentido, destaca-se o texto de Gabriel Albuquerque (2022), repleto de referências musicais e visuais sobre a estética do agro. A análise é intitulada “Agronejo: Como a música sertaneja tomou a frente da propaganda do agronegócio3” e foi publicada online em junho de 2022, quando já estava claro que alguns desses cantores-compositores estavam ligados ao governo de extrema-direita. Trata-se de um veículo não acadêmico, mas com uma importante análise crítica bastante afim a que é proposta aqui e traz discussões e análises sobre a dimensão estética imagética e musical do sertanejo universitário.
O jornalismo de “O joio e o trigo4”, que levanta questões e reportagens sobre alimentação, saúde e poder, também produziu matérias em áudio para o podcast “Tempo quente” e “Prato cheio”. Mais pertinente ao que se propõe aqui, o podcast “Prato Cheio” dedica um episódio à pesquisa sobre a guerra cultural do agronegócio. E o texto de apresentação diz que: “A guerra cultural do agronegócio vende a ideia de um lucro fácil e rápido. Sem isso, um modelo que esgota a água, o solo e a vida não conseguiria parar em pé. Cidades inteiras são tomadas pela febre da soja, enquanto um país inteiro é bombardeado com meias verdades e mentiras inteiras, como a ideia de que o Brasil alimenta o mundo”. A dimensão ideológica de convencimento necessária para a construção da preponderância do agronegócio (Souza, 2019), como discutida neste trabalho, é tratada nessa reportagem de modo a articular também a base econômica e a justificativa que é dada às pessoas, construindo opiniões, sentidos e entendimentos de mundo que interessam a um certo nicho econômico-político.
Ainda falando sobre essas questões e tentando articulá-las, existe um canal no Youtube que tem se dedicado a discussões contemporâneas, incluindo a questão da indústria cultural e a hegemonia do sertanejo universitário, pondo em pauta determinantes e mediações importantes para os processos contemporâneos de subjetivação. O vídeo5 feito por Laura Sabino articula essas ideias e denuncia as formas como a música sertaneja foi financiada a partir do modelo do agronegócio. É interessante notar que a digitalização da vida, acelerada pela pandemia, também fez com que mais análises fossem produzidas online e os formatos de acesso se multiplicassem. Esses citados são os materiais que mais se destacaram para a reflexão que aqui se propõe, mas outros trabalhos também são fundamentais, embora nem sempre falem diretamente ou compartilhem exatamente da fundamentação teórica a que se refere esta pesquisa. Mas, para fazer justiça à Teoria Crítica da Sociedade, parece necessário percorrer diferentes disciplinas e também agregá-las para uma compreensão crítica do presente. Que esses trabalhos circulem em diferentes formatos e não sejam restritos ao formato acadêmico é tanto interessante quanto necessário para somar esforços à ofensiva que se apresenta.
O que interessa aqui é a ideia de que a educação e a indústria fonográfica são fundamentais para esse processo de construção de subjetividades afinadas com uma visão de mundo que justifica um modelo econômico sob nenhuma perspectiva sustentável e que está ligado à expulsão dos povos originários do Brasil, à ameaça brutal da biodiversidade brasileira, à privatização e envenenamento da água, além de fornecer concepções afinadas à noções neoliberais de liberdade, de força e de mérito que são incompatíveis com ocupar o mundo de modo diverso e sem medo. Assim, alguns outros trabalhos, principalmente artigos acadêmicos que compõem os resultados preliminares desta pesquisa também são indicados a seguir.
Os trabalhos indicados a seguir são uma amostragem dos textos que trazem à tona a dimensão histórica da agroindústria. Destaca-se aqui o artigo que decorre da tese de doutorado de Rodrigo Sarruge Molina, intitulada “Ditadura e educação agrícola: a ESALQ/USP e a ‘gênese’ do agronegócio brasileiro”. Foi publicado em 2018 na revista Educação e Sociedade, de Campinas. O texto apresenta o objetivo de analisar as relações entre agricultura, ensino superior agrícola e a ditadura brasileira de 1964-1985. No período, ocorre uma modernização conservadora que traz tecnologia para o campo e ao mesmo tempo mantém as estruturas de exploração, o genocídio da população negra e indígena, a exploração da terra em latifúndios e os oligopólios político-econômicos.
Também dedicados a elementos históricos são os seguintes textos: (a) intitulado “Da música caipira ao sertanejo universitário: uma escalada de (de)formação cultural”. Os autores são Mateus Gervásio Brandão, Cristiano Aparecido da Costa e Eliton Perpetuo Rosa Pereira. Embora o objetivo do texto seja estabelecer uma comparação entre os gêneros musicais indicados por Adorno e Simpson (1986), os autores também fazem um percurso histórico para caracterizar os gêneros que desejam comparar e também merecem destaque para a análise estética que desenvolvem. Foi publicado em 2022 na Hodie Music Magazine; (b) Com a discussão de um momento histórico de acesso ao ensino superior no Brasil, o texto de Alonso intitulado “O sertão vai à faculdade: o sertanejo universitário e o Brasil dos anos 2000” também aparece aqui na categoria sobre história, pois retrata um momento particular em que o acesso ao ensino superior foi ampliado, embora este, como se pôde verificar posteriormente, se caracterizasse fundamentalmente pela matrícula e pela exapansão do setor privado. Foi publicado em 2012 e resulta de uma tese publicada em livro e já referida neste trabalho.
A seguinte categoria de textos levantados pode ser identificada como a disputa pela hegemonia. O destaque fica para o texto de Paola Fernandes e Valquíria Padilha, intitulado: “Por que o agro quer ser pop? Uma realidade por trás da construção ideológica do agronegócio como ‘indústria-riqueza’ do Brasil”. Publicado em 2020, o texto lança alguns conceitos importantes para a compreensão do modelo agrícola brasileiro e questiona os motivos para a agricultura se vender como hegemônica. Por meio da análise do discurso, o texto se dedica a uma revisão bibliográfica e apresenta ao leitor diferentes elementos que compõem a força do agronegócio, e o faz de forma crítica e defensora de outro modelo de produção agrícola. Assim, o texto explicita determinantes que somam força aos argumentos que são apresentados aqui e que articulam tanto a base econômica quanto a construção de uma popularidade sobre a visão de mundo que interessa a ela.
Ainda se dedicando criticamente a analisar os elementos da disputa pela hegemonia, mais três textos são indicados aqui: (a) o artigo de Anderson David Gomes dos Santos, Danielle Viturino da Silva e Kleciane Nunes Maciel, publicado em 2019 e intitulado “ Campanha publicitária ‘Agro é tech, Agro é Pop, Agro é Tudo’ da Rede Globo de televisão, como veiculadora de propaganda sobre o agronegócio no Brasil”. O texto considera o papel da publicidade apontado por Adorno e Horkheimer nos trabalhos sobre a indústria cultural e realiza a análise de 42 peças publicitárias vinculadas à televisão brasileira entre 2016 e 2017. Dessa forma, também contribui para a compreensão dos avanços do agronegócio na disputa pela hegemonia cultural, com ênfase na publicidade, mas de modo relacionado com a indústria cultural; (b) publicado em 2022, o texto de Thaís Ponciano Bittencourt, Jorge Osvaldo Romano e Carolina Aguiar Simões Castilho busca reconstruir e analisar o discurso político do agronegócio no Brasil. Intitula-se “O discurso político do agronegócio”. A dimensão política e discursiva aproxima a análise das discussões sobre hegemonia e ideologia conforme são pensadas aqui e explicitam como a base econômica não é neutra ou um destino, mas um campo de interesses e valores que precisam ser disputados; (c) o texto de Denise Elias intitulado “Mitos e nós do agronegócio no Brasil” foi publicado em 2021 e tem como proposta desfazer mitos sobre o agronegócio com vistas à construção de uma sociedade mais igualitária. Assim, ele recorre a diferentes elementos que compõem a força ideológica do agronegócio no Brasil, buscando formas de desconstruí-los.
A última categoria de organização dos materiais pesquisados i nclui textos sobre educação, a privatização da educação e as bases econômicas e ideológicas do agronegócio. Antes de mais nada, convém esclarecer alguns dados coletados de uma publicação que traz os números do ensino privado no Brasil nos últimos anos. O relatório foi publicado em 2022 pela Federação Nacional das Escolas Particulares e contém informações como as seguintes: em 2021 havia 46.668.401 alunos matriculados na educação básica no Brasil. Destes, 8.136.345 estavam em instituições privadas, o que representa 17,4% do total. No ensino superior, segundo o Censo 2020, havia 6.724.002 alunos matriculados no Brasil (56% em cursos presenciais e 44% em EAD). Mas a rede privada atendia 77,5% de todas as matrículas no ensino superior (Federação Nacional das Escolas Particulares - FENEP, 2022). Que o sertanejo carregue o rótulo de universitário parece relacionar-se mais francamente com um certo tipo de noção de universidade e de ensino superior.
Além disso, a publicação demonstra a relevância econômica do setor de Educação. Em 2019, por exemplo, a contribuição do setor para o PIB foi de 126,5 bilhões de reais e a educação privada correspondeu a 1,65% do PIB Nacional. A educação privada contribuiu com cerca de R$ 20 bilhões para a Previdência Oficial e para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço dos trabalhadores. O documento também mostra a importância do setor para o mercado de trabalho: a educação privada teve 1,25 milhão de vínculos formais em 2020. Esse número cresce para aproximadamente 1,5 milhão em 2022. Isso representa 3,4% de todos os empregos formais no setor privado no Brasil. Desses empregos, a maioria (aproximadamente dois terços) está na Educação Básica e somam cerca de 850 mil postos de trabalho. Nesses dez anos, o número de empregos nesse setor cresceu 34% (FENEP, 2022). Com isso pretende-se demonstrar a necessidade de se olhar para o caminho do dinheiro para que se compreendam as bases sobre as quais se planeja organizar a vida comum em sociedade e estruturar a formação das pessoas. Que a educação e a cultura sejam consideradas antes de mais nada mercadorias, está longe de ser inócuo.
Voltando ao levantamento bibliográfico, algumas correspondências entre o agronegócio e os modelos de educação, determinante fundamental de processos de subjetivação (Martins, 2013), são discutidas nas obras que seguem, além das já referenciadas acima: (a) Carolina Borghi Mendes e Jandira Liria Biscalquini Talamoni escrevem o artigo “Neoliberalismo e Educação Ambiental: uma leitura crítica sobre as relações público-privadas entre escolas e agronegócio”. Publicado em 2018, o texto aponta as relações entre o neoliberalismo e a privatização da educação. Também destaca a relevância política, econômica e cultural do agronegócio em sua face mais devastadora e alerta para a forma como ele entra nas escolas; (b) uma investigação mais completa sobre o tema foi realizada pela mesma autora, Carolina Borghi Mendes, em sua dissertação de mestrado em 2015. A investigação intitula-se “Influências de instituições externas à escola pública: privatização da educação a partir da educação ambiental?” e incluiu visitas, entrevistas e aplicação de questionários. Por ocasião da investigação, a autora analisou como se insere o programa “Agronegócio na Escola”;
(c) Também uma dissertação de mestrado, o texto de Maria Divina Lopes intitula-se “Interface entre o agronegócio e a oferta educacional nas instituições públicas de ensino superior da região sul maranhense”, e foi apresentado em 2017. Ele expõe as relações entre a expansão do agronegócio e o ensino universitário em uma região do Maranhão; (d) O último texto aqui indicado é o intitulado “Projetos Educacionais do Agronegócio: campo e cidade em questão”, de autoria de Victor Hugo Junqueira e Maria Cristina dos Santos Bezerra. Publicado em 2013 nas memórias do Seminário GEPEC, o texto visa compreender as políticas educacionais desenvolvidas pelo agronegócio e os processos e possibilidades contrárias a esse modelo no campo educacional. Para isso, os autores analisam os projetos educacionais desenvolvidos pelas entidades representativas do agronegócio, como a Associação Brasileira da Agroindústria de Ribeirão Preto (ABAG-RP), Sindicato da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), Confederação Nacional da Agricultura ( CNA) e a transnacional Syngenta para entender como o capitalismo agrário tem pensado e atuado na educação pública. Que haja uma ampla e articulada inserção do agronegócio na escola é um indício importante da pretensão de hegemonia e do entendimento do setor de que é preciso ajustar as pessoas para que elas sirvam ao que interessa para essa categoria.
4. Conclusões
Este trabalho acolheu como objetivo investigar correlações entre o agronegócio e os processos de subjetivação, principalmente através das mediações da indústria cultural musical e educação. Pensou-se a educação em um sentido amplo de formação de pessoas e construção de subjetividades, com um destaque para a educação escolar. O conceito de indústria cultural, de Adorno e Horkheimer, foi recuperado para essa discussão por conter tanto o entendimento acerca das bases materiais e econômicas dessa indústria quanto as lógicas de construção e difusão do material musical, no caso, da música sertaneja contemporânea. Esta música, geralmente chamada de universitária, teve um avanço ao mesmo tempo em que vimos a expansão da universidade privada no Brasil. Assim, é possível estabelecer correlações entre o agronegócio no Brasil e a fomentação de um consenso sobre esse modelo de produção que ocorre por meio da indústria cultural e suas inserções ideológicas e autoritárias na educação. As mudanças econômicas também se refletem no avanço da educação privada. Pode-se dizer que há uma constelação de ideias que compõem o cenário em torno de uma economia baseada na agroindústria extrativista e que por sua vez molda subjetividades e sensibilidades visando uma aceitação de sua visão de mundo e prescindindo de sujeitos autônomos. No limite, trata-se de uma visão de mundo que parece prescindir da vida no planeta no médio prazo.
Além disso, é possível indicar que, ao almejar a hegemonia, a base econômica do agronegócio mostra ter uma concepção de formação de tal forma que, controlando todas as mediações, pretende controlar todo um universo simbólico e subjetivo, visando o monopólio de todo um léxico e imaginário sobre o campo e sobre a economia extrativista. A perspectiva totalitária e integradora representada pelas potências econômicas do agronegócio deve ser entendida como um projeto de poder e manutenção de uma realidade baseada na exploração da natureza como se ela fosse infinita e cindida da vida em sociedade. O que merece ser destacado é que essa busca de hegemonia e pretensão de controle de todas as variáveis formativas tem como finalidade principal um projeto de sociedade que dispensa a individualidade e, portanto, renuncia e combate as finalidades formativas.
Nesse sentido, parece ser possível indicar que a agro-subjetivação tem uma dimensão antiintelectual, ao menos no sentido de se pensar uma educação crítica e emancipatória. O modelo de educação que parece vigorar, principalmente quando remete ao termo ‘universitário’ é aquele forjado pelas relações mercadológicas das instituições privadas de ensino, que se expandiram de modo inaudito na última década e que aderem a uma finalidade de educação para o mercado adequando-se, portanto, aos modelos neoliberais de empreendimento de si, proatividade e fim do comum ou do bem-estar social. Essa educação parece também articular-se com o consumo e o poder de compra do sujeito do campo, o que pretende reconfigurar a imagem do agrário como atrasado ou inculto. A imagem do campo que parece vigorar é mais vinculada à ostentação, à posse latinfudiária e até o acesso à faculdade privada, mas por merecimento e por trabalho duro. Procura-se com isso alterar a representação que se tem do campo e do sujeito do campo, a partir de um ideário publicitário, educacional e cultural que reconfigura essa aparência.
Com isso, parece ser possível atuar no sentido da construção de um salvo conduto que tem fundamento político-econômico e que ganha também a opinião pública: as eventuais destruições provocadas por esse modelo de negócio escolhido como preponderante são efeitos colaterais necessários e inevitáveis, compensados pelos supostos resultados para o mundo e pelo merecimento de seus agentes. Quando a publicidade que é bombardeada anuncia que “o agro é tudo”, ela contém tanto uma ameaça quanto uma mentira. Mas a agro-subjetivação parece fazer com que as pessoas se ajustem e sejam ajustados subjetivamente a tudo que decorre desse salvo conduto. Que defendam que movimentos sociais não atrapalhem o latifúndio - mesmo quando esses sujeitos estão mais próximos de estarem sem terra do que de serem latifundiários; que a escola não apresente contradições históricas, ecológicas e afins, mas eduque de modo a reproduzir aquilo que já se defende e acredita. Afinal, tudo é empresa, e o cliente que paga pela educação deve poder escolher a mercadoria que compra, e a mercadoria almejada não é a antiadaptativa educação com vistas à reflexão e à emancipação. Que as pessoas respirem fumaça e economizem água e atropelem animais segue sendo entendido como o preço necessário para um suposto desenvolvimento, para a competitividade no mercado, para que aquele que afinal mereceu vencer, possa exercer sua liberdade totalitária e individualista. É o preço necessário para supostamente alimentar o mundo - e também para recuperar a representação de alguma valia de si em tempos de crises radicais e sistêmicas do capital.
É preciso identificar a pretensão de controlar os processos de subjetivação por meio de propagandas que falsificam e justificam a realidade contraditória e desigual, que adentram os conteúdos escolares e ocupam hegemonicamente os espaços culturais e de lazer. Esses são espaços fundamentais de mediação entre o indivíduo e a sociedade, carecendo de uma reflexão ampla, crítica e responsável para que se identifiquem os mecanismos de captura e de colonização que persistem. Afinal, os lugares de poder são mantidos, as condições de vida e as pessoas são exploradas, dominadas e esgotadas, e tudo relacionado às possibilidades de cuidados daquilo que é vivo fica refém da potencialidade de monetização. Há que se lembrar que a forma empresa neoliberal é totalitária e considerar que a face brasileira dos autoritarismos contemporâneos parece reeditar o colonialismo, o patriarcado e a escravidão. Multiplicam-se os mecanismos de controle, de convencimento e de justificativa moral que se tornam cada vez mais precisos e com aparência de liberdade enquanto se adestram os afetos e a imaginação para que sejam mantidas relações de opressão. É uma questão de sobrevivência decidirmos por outros modos de vida.
Notas
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1
A entrevista completa pode ser assistida aqui: https://www.youtube.com/watch?v=_34TS18WiIc E o trecho citado pode ser encontrado a 1 hora, 28 minutos e 37 segundos da entrevista.
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2
Ele pode ser acessado na íntegra aqui: http://arte.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/musica-muito-popular-brasileira/introducao/
- 3
- 4
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5
As fontes citadas por ela, bem como o vídeo que ela produziu, podem ser encontrados aqui: https://www.youtube.com/watch?v=fftZLS_sV70
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Financiamento Não houve
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Consentimento de uso de imagem Não se aplica
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Aprovação, ética e consentimento Não se aplica
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS
Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.
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Editor científico
Dr. Adolfo Pizzinato
