O volume 37 da Psicologia & Sociedade reafirma a força de uma Psicologia Social comprometida com o enfrentamento das desigualdades e com a invenção de novos modos de re-existir, sobretudo em nossos territórios latinoamericanos. Este número segue colaborando na divulgação e reflexão de uma construção de saberes que, no caso brasileiro, inicia com uma guinada teórico-epistemológica, resultante de um movimento que se iniciou no Congresso da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP) em 1976, em Miami e que resultou na criação e desenvolvimento da Associação Brasileira de Psicologia Social - ABRAPSO, após julho de 1980. Ainda que as pautas e as incorporações e eventuais inovações epistêmicas sigam ativas, é a partir de uma história crítica e engajada recente que se produz um presente ativo no compromisso que esta revista reitera, de divulgação e promoção do conhecimento produzido na área. As produções reunidas neste número emergem de diferentes territórios, das ruas, das universidades, dos corpos e memórias e convergem no gesto político de descolonizar o saber, a escuta e o cuidado. Entre arte, tecnologia, gênero, raça e subjetividade, o conjunto de artigos convoca a Psicologia a revisitar suas fronteiras epistemológicas.
Ao lermos as produções deste número, mais uma vez nos deparamos com a inseparável interface política entre a teoria e a prática em Psicologia Social - ou seja, como já propunha, em certa leitura de práxis, em nosso campo: “se parte do empírico, se analisa, se teoriza, se volta ao empírico e assim por diante, se aprofundando gradativamente para se captar o processo no qual o empírico se insere” (Lane, 1989, p.46). Nesta esteira, a forma como escrevem e abordam suas questões de pesquisa, as autoras e autores deste número, reiteram uma postura analítica indissociável de suas questões de estudo, tomam uma direção totalmente contrária ao radicalismo positivista, na medida em que quem pesquisa:
também é parte material da realidade em estudo, e quando a sua atuação, a sua presença é analisada não em termos de evitar vieses ou de se atingir uma objetividade, mas sim captar a não-neutralidade como manifestação de um processo que se está procurando compreender em toda a sua extensão (Lane, 1989, p.46).
Como reforçam Lima, Ciampa e de Almeida (2009) é justamente essa maneira de fazer pesquisa a que catalisa possíveis superações das violências e violações de direitos presentes na contemporaneidade. Assim, a Psicologia & Sociedade segue buscando para suas páginas, pesquisas que apontem para práticas de resistência. Nesse sentido, o panorama do número não ignora a colonialidade do saber e este desponta como eixo transversal em vários dos relatos: estrutura que modela corpos, existências, práticas e instituições, mas também campo de resistência e reexistência. Os textos nos lembram que não há neutralidade possível, nem na ciência, nem nas técnicas, nem nas relações sociais, e que pensar criticamente o presente é também reinventar as condições do humano.
As discussões sobre racismo e tecnologia revelam como a promessa de neutralidade científica mascara as lógicas coloniais que seguem operando nos algoritmos e nas políticas de vigilância. O debate sobre o reconhecimento facial, por exemplo, evidencia o que algumas autoras negras vêm denunciando há décadas: o olhar técnico também é político, e suas falhas não são neutras. Ao expor o racismo algorítmico, esses estudos tensionam o ideal de progresso e nos convocam a repensar as fronteiras entre técnica, ética e justiça.
Já os textos que abordam as experiências de travestilidades negras, as estilizações marginais e as práticas de cuidado em contextos de vulnerabilidade, evidenciam como o corpo e a linguagem se tornam territórios de luta e criação. A dor e a solidão, quando narradas desde o corpo que resiste, transformam-se em denúncia e em gesto político. Nesses escritos, a Psicologia é chamada a reconhecer os limites de suas categorias universais e a abrir-se ao inédito que pulsa nas margens.
Dentre as potentes reflexões sobre as epistemologias negras, feministas e decoloniais, em especial as que emergem de mulheres intelectuais e artistas, encontramos pesquisas que rompem com a lógica da representação, deslocando o lugar do saber para o da enunciação. Pensar desde o corpo, desde a experiência e desde o território passa a ser um ato de insurgência e reconfiguração da própria ciência.
Além disso, as análises sobre saúde mental, cuidado e trabalho docente completam este quadro com criatividade e compromisso, ao reafirmar o cotidiano como espaço de criação e resistência. Habitar, cuidar e ensinar tornam-se práticas políticas que desafiam a precarização e produzem vínculos em meio às ruínas coloniais e neoliberais.
Nesse sentido, nos somamos à leitura que Cordeiro e Spink (2014) fazem da defesa de Law, sobre a criação de imaginários ontológicos e epistêmicos múltiplos poderem ou não ser desejáveis a um determinado campo do conhecimento, uma vez que tal desejabilidade dependerá das circunstâncias e do conteúdo desses imaginários e de como nos posicionamos ao avaliá-los. Apesar disso, propor a proibição completa desses imaginários nunca seria desejável, mesmo quando essa monologia parece atender aos nossos campos identificatórios - pessoais ou institucionais - pois além da óbvia falha de alteridade acadêmica gera sempre um compromisso com algum regime de verdade, que não com uma verdade que não é a única possível, como apontam Cordeiro e Spink (2014). Assim como as referidas autoras propõem, a Psicologia & Sociedade, em seu número 37, reitera editorialmente um compromisso político: promover arranjos teóricos, metodológicos e práticos que permitam que a Psicologia Social brasileira continue a sonhar-se como múltipla e diversa.
Ao reunir essas múltiplas vozes, este número celebra uma Psicologia que se faz nas encruzilhadas, comprometida com a vida e com o comum. Como lembra Audre Lorde (1984), “as ferramentas do senhor nunca vão desmantelar a casa-grande”; é preciso criar outras ferramentas, feitas de palavras, arte e solidariedade. Que este volume inspire novas práticas de escuta, pesquisa e intervenção.
Referências
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Cordeiro, Mariana P., & Spink, Mary Jane P. (2014). A multiplicidade da Psicologia Social brasileira. Athenea Digital. Revista de Pensamiento e Investigación Social, 14(1), 289-300. https://doi.org/10.5565/rev/athenead/v14n1.1101
» https://doi.org/10.5565/rev/athenead/v14n1.1101 - Lane, Silvia T. M. (1989a). A Psicologia Social e uma nova concepção do homem para a Psicologia. Em Lane, Silvia. T. M. & Codo, Wanderley. (Orgs.) Psicologia Social: O homem em movimento. (8ª ed). São Paulo: Brasiliense.
- Lima, Aluisio Ferreira; Ciampa, Antonio da Costa., & Almeida, Juracy Armando M. (2009). Psicologia social como psicologia política?: A proposta de psicologia social crítica de Sílvia Lane. Revista Psicologia Política, 9(18), 223-236
- Lorde, Audre (1984). Sister Outsider: Essays and Speeches. Crossing Press.
