Resumo
O trabalho da/o psicóloga/o e a pesquisa sobre os impactos da COVID-19 no tocante à população indígena, contemplando ainda aspectos culturais, costumes e particularidades, tornam-se cruciais. Esta é uma pesquisa descritiva de abordagem qualitativa, utilizando como procedimento técnico a pesquisa documental e entrevista. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com psicólogas/os que atuam e/ou estudam a saúde mental indígena no Estado de Rondônia. Não se deve generalizar os impactos da COVID-19 e tampouco as contribuições da Psicologia para os muitos povos indígenas. É somente a partir de uma atuação contextualizada, considerando os saberes dos povos indígenas, que a Psicologia pode contribuir. Assim, o fazer psicológico deve estar comprometido com a população e considerar cada aspecto do bem viver indígena de cada população, para que não corra o risco de ser uma ciência generalista e com tão pouca efetividade para o bem-estar indígena.
Palavras-chave:
Bem viver; COVID-19; Psicologia social; Saúde indígena; Saúde mental.
Resumen
El trabajo de los psicólogos y la investigación sobre los impactos de la COVID-19 en la población indígena, considerando también aspectos culturales, costumbres y particularidades, se vuelven cruciales. Se trata de un estudio descriptivo con un enfoque cualitativo, que utiliza la investigación documental y las entrevistas como procedimientos técnicos. Se realizaron entrevistas semiestructuradas con psicólogos que trabajan o estudian la salud mental indígena en el estado de Rondônia. Los impactos de la COVID-19 y las contribuciones de la psicología a los numerosos pueblos indígenas no deben generalizarse. Solo a través de una acción contextualizada, considerando el conocimiento de los pueblos indígenas, la psicología puede contribuir. Por lo tanto, la práctica psicológica debe comprometerse con la población y considerar cada aspecto del bienestar de cada población indígena, para no correr el riesgo de convertirse en una ciencia generalista con poca efectividad para el bienestar indígena.
Palabras clave:
Vivir bien; COVID-19; Psicología social; Salud indígena; Salud mental.
Abstract
The work of psychologists and research on the impacts of COVID-19 on the indigenous population, also considering cultural aspects, customs, and particularities, becomes crucial. This is a descriptive study with a qualitative approach, using documentary research and interviews as technical procedures. Semi-structured interviews were conducted with psychologists who work in and/or study indigenous mental health in the state of Rondônia. The impacts of COVID-19 and the contributions of Psychology to the many indigenous peoples should not be generalized. Only through contextualized action, considering the knowledge of indigenous peoples, can Psychology contribute. Thus, psychological practice must be committed to the population and consider each aspect of the well-being of each indigenous population, so as not to risk becoming a generalist science with little effectiveness for indigenous well-being.
Keywords:
Living well; COVID-19; Social psychology; Indigenous health; Mental health.
1. Introdução
De forma primordial, faz-se necessário qualificar os sujeitos deste estudo e as formas como podemos nomeá-los de maneira respeitosa. Quando se trata de povos originários, o termo indígena é o mais apropriado para nomear esse sujeito, posto que seu significado “natural do lugar que se habita” ou “aquele que está ali antes dos outros” condiz mais com suas formas de (r)existência. O termo “índio” é ultrapassado e preconceituoso, por isso, sua utilização deve ser reduzida.
Estudiosos, especialistas e os próprios líderes de comunidades tradicionais concordam que o termo ‘índio’ é ultrapassado e preconceituoso. Já o termo ‘indígena’, além de mais atual, abrangente e respeitoso, está muito mais ligado ao significado que vem do latim: algo próximo do ‘povo original’. (AGÊNCIA CENARIUM, 2022)
Já existem literaturas sobre a temática indígena nos contextos da Psicologia, contudo são poucas e recentes quando se trata da saúde psicológica. Um exemplo disso é a publicação atual do livro “Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os junto aos povos indígenas”, produzido no âmbito do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), publicado em 2022 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Um avanço já que até então não existia um livro estruturado e pensado especificamente para as questões indígenas.
As referências técnicas propõem uma forma de atuação da/o profissional psicóloga/o mais respeitosa e considerando os saberes dos povos atendidos. Necessita-se de um olhar mais crítico e social, voltado para as questões concretas de existência e resistência. Uma forma de encontro do outro que valide as questões territoriais e de luta pela terra como fundamentais para entender a totalidade da existência dos povos indígenas (CFP, 2022).
Pesquisar sobre a saúde mental indígena especificamente no contexto de uma pandemia é uma tarefa desafiadora. É necessário romper com a visão estereotipada, primitivizada, exótica e racista da vivência indígena (CFP, 2022). A Psicologia, na condição de ciência que cuida da saúde mental, deve e está inserida nos órgãos de promoção à saúde indígena, especialmente nos dias atuais. A pandemia do Coronavírus (ou COVID-19) impactou não somente a população das cidades, como também - e de forma desoladora - as comunidades indígenas. No caso dos povos indígenas, a morte das gerações anteriores reflete na perda de histórias do próprio povo, uma vez que a oralidade é um dos meios mais utilizados para transmitir a memória de um povo.
Desse modo, a ancestralidade, responsável pela transmissão da cultura por meio da reminiscência, da narração de histórias da comunidade feita pelas/os mais velhas/os, pode ser perdida, porque a saúde das/os anciãs/aos está sendo ameaçada. Por isso, a importância da memória da comunidade, personificada na figura das/os mais velhas/os, que se conecta a sentimentos aflorados e nos permite sentir o clamor da identidade. A manutenção da memória indígena é, então, necessária para o fortalecimento do “ser indígena” (Batista, 2010, p. 37).
Esta pesquisa teve como referência a Psicologia Social e Comunitária, visto as aproximações existentes entre os conceitos de comunidade e sociedade desta área de conhecimento com a vida cotidiana dos povos indígenas. Portanto, é importante salientar que a construção da subjetividade das comunidades indígenas se vincula a vida social e comunitária. A Psicologia Social foi pensada por alguns autores, dentre eles, Kurt Lewin (1890-1947). Essa abordagem psicológica compreende a identidade como construção social por meio de processos sociais que lhe conferem sentido (Barros & Laurenti, 2000). Isso significa que a Psicologia Social também se preocupa em pesquisar e realizar intervenções em contextos de multiculturalidade e não urbanos, como é o caso das comunidades indígenas, o que a configura como uma vertente de pesquisa ideal para os objetivos do estudo.
O estudo das contribuições da/o profissional psicóloga/o se torna essencial, haja vista a possibilidade de auxiliar no processo de criação de espaços de fala e de rememorar as especificidades das várias culturas indígenas existentes no Brasil (Batista, 2010). Assim, o trabalho da/o psicóloga/o em meio a esse cenário de luto e perda da pessoa concreta e de suas particularidades, deve estar voltado para o resgate do ser simbólico. O resgate da memória da pessoa perdida, de valores, rituais, cantos e danças pode auxiliar no processo de luto. Dessa forma, esta pesquisa objetiva estudar quais as contribuições da Psicologia para a saúde mental indígena durante a pandemia da COVID-19.
2. Referencial Teórico
2.1. As redes que sustentam a saúde indígena
Os povos indígenas no Brasil sofreram, ao longo de sua história, inúmeras injustiças e violências institucionalizadas. Seja pela negação de sua humanidade e cultura ou pela limitação do exercício de seus direitos, os povos indígenas ainda sofrem ocultamentos e invisibilizações de vários aspectos de sua existência (Dantas, 2014).
O crescimento expressivo da população indígena nas últimas décadas, desperta a necessidade de diversas áreas de estudo, incluindo a psicologia, em se movimentar para a construção de modelos de atuação que contribuam significativamente com as comunidades indígenas, de forma respeitosa e valorizando suas tradições e culturas (IBGE, 2023). Assim, conforme a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 196, “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução de doença” (Constituição Federal, 1988, p. 118). É assegurado a todas/os cidadãs e cidadãos brasileiras/os o acesso aos sistemas de saúde, bem como aos serviços de proteção, promoção e prevenção da saúde.
No que se refere aos povos indígenas, tem-se uma rede de apoio à saúde diferenciada. A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) é o suporte para a existência de uma atuação coordenada, entre órgãos e ministérios, que garante a manutenção dos trabalhos junto ao povo indígena. Assim, nas aldeias indígenas atuam Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Saneamento (AISAN). A PNASPI foi estabelecida pela Lei nº 9.836, de 23 de setembro de 1999 - conhecida como Lei Arouca (Fundação Nacional de Saúde, 2002). Outro órgão que está intimamente ligado ao PNASPI sendo responsável por seu monitoramento é a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). E todo esse aparato governamental é fundamental para atender as especificidades dos indígenas.
Segundo dados do livro de Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas/os junto aos povos indígenas do CFP (2022, p. 68) trabalham “na saúde indígena 91 psicólogas/os, 81 não indígenas e 10 psicólogas/os indígenas”. Além disso, no “território Nacional são 34 DSEIs, 297 Polos-Base, 717 Unidades Básicas de Indígena e 55 Casas de Apoio à Saúde Indígena (CASAIS)”. Percebe-se que o número de profissionais não condiz com a realidade da demanda dos povos indígenas, posto que são 91 psicólogas/os para toda a população indígena brasileira. Contudo, estas profissionais estão inseridos na Saúde Indígena, o que colabora com a concepção de que a Psicologia tem lugar e importância nos processos de saúde e doença dentro das comunidades indígenas (CFP, 2022).
2.2. O Bem viver e a Psicologia Social: aproximações e seus significados de saúde
A Psicologia Social é fundamental para compreender aspectos relacionados à vida e a constituição do sujeito social. A Psicologia deve assumir um compromisso ético-político ativo com a causa indígena no Brasil. O percurso histórico de dominação, silenciamento e exclusão - que persiste independentemente de gestões governamentais - gera impactos profundos e permanentes na saúde mental, na dignidade e no conceito de ‘bem viver’ dessas populações (Silva & Macedo, 2023).
Ainda, para entender como a Psicologia pode contribuir para as preocupações de uma determinada população, deve-se sempre considerar quais os conceitos correlatos à saúde mental que estão disponíveis dentro desta sociedade. Necessário compreender quais os símbolos e significados que a população atendida dá para o conceito de saúde mental.
Quando se trata dos povos indígenas, os sentidos encontrados no termo Bem Viver se encaixam melhor na forma como entendem os processos de adoecimento mental. Assim, quando a Psicologia é chamada para contribuir com as demandas psicológicas das comunidades deve considerar e estabelecer diálogos interculturais e metodologias que façam sentido para as populações indígenas, posto que “os significados sociais e individuais conferidos à experiência do sofrer estão diretamente relacionados àquilo que cada sociedade considera como sofrimento.” (Ministério da Saúde, 2019, p. 17).
Contribuir para a potencialização dos projetos de Bem Viver das diferentes comunidades, famílias e indivíduos indígenas a partir de ações de promoção da saúde, prevenção e atenção a agravos relacionados à saúde mental, que compartilhem responsabilidades e ações com comunidades, profissionais de atenção primária e redes de apoio locais, incentivem o protagonismo indígena e a mobilização social valorizando e respeitando os saberes, modos de organização social, valores, economias e as tecnologias próprias de cada comunidade (Ministério da Saúde, 2014).
Bem viver é muito mais do que a concepção de saúde mental. Acontece que quando se trata de aspectos linguísticos de denominações e aproximações entre palavras de povos e contextos diferentes, se torna uma tarefa desafiadora qualificar, nomear e comparar palavras. Portanto, falar que Bem Viver significa saúde mental torna-se uma afirmação muito simplista e um tanto equivocada, contudo é o que mais se aproxima da realidade. O CRP SP (CRP, 2016, p. 242) afirma que os conceitos de Bem Viver “consideram a ‘saúde mental’ como um patamar de bem viver muito além de uma vivência estritamente pessoal, individualizada, incluindo o bem-estar comunitário como condição de bem-estar pessoal” (CRP SP, 2016, p. 242).
O conceito de Bem Viver não é específico das comunidades indígenas do Brasil, sendo introduzido em Constituições Federais de alguns países com um contingente grande de povos originários. O Bem Viver é uma forma de ver a vida diferente das sociedades capitalistas, já que promove o viver em comunidade e em harmonia com a natureza. O Bem Viver é mais que um conceito é uma visão de mundo e para uma Psicologia crítica e comprometida com o bem-estar dos povos indígenas é necessário que o Bem Viver seja cada vez mais conhecido, valorizado e inserido nos espaços.
3. Percurso metodológico
Esta foi uma pesquisa descritiva de abordagem qualitativa. Utilizou-se como procedimento técnico e para coleta de dados foram feitas entrevistas com psicólogas/os e a pesquisa documental, uma vez que esta se propõe a trabalhar com materiais que ainda não passaram por um tratamento analítico, podendo ser reestruturados de acordo com os objetivos do estudo (Gil, 2008).
Foram utilizados livros e artigos dentro da temática pesquisada com o objetivo de fazer revisão do que está sendo estudado sobre a Saúde Mental Indígena em Tempos de Pandemia. Para sistematização e organização dos dados utilizou-se à técnica de Análise de Conteúdo, utilizando os pressupostos formulados por Laurence Bardin (2011). Assim, foi feita a pré-análise cujo objetivo é tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais para guiar a análise, por meio da leitura flutuante das entrevistas. Foi constituído o corpus com a escolha do material analisado, obedecendo a quatro regras: exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência. A partir da pré análise, começou-se a exploração do material com a codificação e categorização do texto bruto, que foi transformado em unidades de análise, com as palavras-chave: Pandemia/Covid-19, Psicologia Social, Populações Indígenas, Bem Viver, Atuação Profissional das(os) psicólogas(os). Por fim foi feito o tratamento dos resultados a partir da inferência e interpretação sendo construídos três categorias gerais de análise: O Bem Viver e a COVID-19: Relações de cuidados, A práxis psicológica: Relações com o sagrado e O luto indígena e a Psicologia Social: Contribuições das(os) profissionais da Psicologia, os quais foram transformados em tópicos do artigo.
Para coleta dos dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas. Foram entrevistadas(os) psicólogas(os) que trabalham e/ou estudam a saúde indígena das comunidades indígenas no Estado de Rondônia. O tipo de entrevista mais adequada às necessidades deste estudo foi a entrevista semiestruturada, na qual se pretende ouvir os informantes, valorizando suas experiências.
A construção do roteiro da entrevista se pautou em desvendar questões relacionadas ao processo de vivência da pandemia e seus agravos pelas populações indígenas, na percepção das/os profissionais que trabalham com esse público. As entrevistas aconteceram por meio remoto devido à pandemia da COVID-19 e seguiram as Orientações para procedimento em pesquisas com qualquer etapa em Ambiente Virtual da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) de 24 de fevereiro de 2021. A pesquisa foi submetida ao CEP e aprovada (CAAE no 50711821.3.0000.5300). Foram entrevistadas/os quatro psicólogas/os que trabalham ou atuam com a saúde mental indígena em Rondônia, sendo duas pesquisadoras e duas que trabalham nos dispositivos de saúde mental indígena. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2021 e 2022 na capital de Rondônia, época em que estava ocorrendo o isolamento social e outras medidas de combate à Covid-19.
Os participantes da pesquisa foram selecionados a partir dos seguintes requisitos: psicólogas(os) que trabalham e/ou estudem com a saúde mental indígena no Estado de Rondônia. Além disso, os critérios de Inclusão foram: Atuar e/ou estudar a saúde Indígena e consentir em participar da pesquisa mediante o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Quanto ao critério de exclusão: Não ser psicóloga/o, não trabalhar ou estudar com saúde indígena.
4. Resultados e Discussão
4.1. Descrição das/os participantes
Foram entrevistadas/os quatro psicólogas/os entre 30 e 60 anos, que atuam no DSEI de Porto Velho e nas CASAIs do interior do estado de Rondônia, bem como psicólogas/os que pesquisam sobre a temática indígena. Duas psicólogas trabalham nos dispositivos de saúde indígena e duas psicólogas estudam a temática indígena.
À participante que atua na CASAI de uma das cidades do interior de Rondônia, daremos o nome de Iracema1. Iracema é psicóloga que se graduou em uma faculdade particular de Porto Velho, capital de Rondônia e trabalha na saúde indígena desde junho de 2022. Quanto ao participante do DSEI daremos o nome de Teko, que é psicólogo, estudou na Universidade Federal de Rondônia, se formando em 2012. Está atuando na Saúde indígena desde 2020.
À pesquisadora psicóloga que estuda sobre saúde indígena nomearemos de Yara, que se formou em Psicologia em 2011 e atua com a vertente da Psicologia Social, realizando ações com comunidades tradicionais, incluindo os povos indígenas. Ao pesquisador psicólogo daremos o nome de Aruá, que por sua vez, já fez trabalhos com a comunidade indígena.
4.2. O Bem Viver e a COVID-19: relações de cuidados
Como mencionado, o viver indígena é comunitário. Nas aldeias, ao ouvir os relatos das/os profissionais, torna-se evidente que a pandemia impactou os modos de vida e interação dentro das comunidades. Os povos indígenas e muitas outras culturas da América Latina possuem uma forma de pensar e ver o mundo chamada de Bem Viver. O Bem Viver trata-se de uma filosofia:
com reflexos muito concretos, que sustenta e dá sentido às diferentes formas de organização social de centenas de povos e culturas da América Latina. Sob os princípios da reciprocidade entre as pessoas, da amizade fraterna, da convivência com outros seres da natureza e do profundo respeito pela terra, os povos indígenas têm construído experiências realmente sustentáveis que podem orientar nossas escolhas futuras e assegurar a existência humana. (Conselho Indigenista Missionário, 2015)
Os rituais, a cultura, as formas de relacionar-se com outro passaram e passam por mudanças drásticas. Na fala de Cleirray Werá Fernando, liderança guarani m’bya da aldeia Paranapuã em São Vicente, SP, ao discursar no Congresso do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (2016, p. 44), deixa evidente que os processos de saúde e doença acontecem e são percebidos no coletivo: “Nossos povos já guerrearam no passado, mas a gente se vê no parente. Se encontrar um parente ruim, adoecido e tal. Ai não, parente, você está doente, a gente vai ficar doente junto. Então a gente vai procurar a cura”.
O Bem Viver atravessa a experiência indígena e se torna muito mais contextualizado se comparado ao nosso conceito de saúde mental. Saúde mental nos termos não-indígena e a grosso modo é prevenção de agravos, promoção de bem-estar e recuperação de doenças. A saúde mental indígena prescinde o estudo do termo Bem Viver e este mais se adequa aos objetivos do estudo. Muitos povos não entendem o significado da palavra saúde mental, contudo em seu meio há processos de promoção de saúde que culminam em bem-estar.
Para entender as cosmologias do viver indígena precisa-se aproximar os termos, sendo saúde mental um termo não-indígena e que ainda está distante das concepções de bem-estar das populações originárias, a opção mais correlata seria o Bem Viver. Outros aspectos que podemos analisar sobre o Bem Viver são as ferramentas que propiciam o bem-estar afetivo, e uma delas é a espiritualidade. Considerar a espiritualidade como ferramenta de Bem Viver e consequentemente saúde mental é aceitar que existem formas de tratamento em saúde que atravessam os aspectos fisiológicos do adoecer e consideram movimentos de cura da alma.
Intervenções em saúde que não consideram essas idiossincrasias estão fadadas ao fracasso. Uma vez tratada a alma (espírito), conseguimos também curar o corpo. Só assim, a Psicologia pode contribuir para a promoção do bem-estar individual e coletivo das comunidades indígenas. Importante salientar que o conceito de Bem Viver não necessariamente é uma forma que todos os povos indígenas percebem a saúde mental, contudo ao utilizar este termo tenta-se aproximar o conceito de saúde (não indígena) para o contexto indígena.
Como mencionado, o conceito de Bem Viver indígena significa o ser humano em harmonia consigo mesmo, com o outro e com a sociedade. A partir dessa visão de mundo vão sendo construídos espaços e estratégias de enfrentamento das questões da vida cotidiana. Por meio do Bem Viver podemos pensar nas práticas psicológicas junto as populações indígenas. É o que será tratado no próximo tópico.
4.3. A práxis psicológica: relações com o sagrado
Considerando as vulnerabilidades das várias Psicologias, parte-se para algumas considerações sobre a atuação do Psicólogo nos dispositivos de saúde mental. Iracema, por exemplo, ao descrever sua atuação menciona o quantitativo de aldeias atendidas por ela, confirmando a escassez de profissionais da Psicologia nesta área.
Primeiro momento a gente faz visita, só que, tem que ter disponibilidade para andar, porque muitas vezes tem uma reserva que é muito longe. Vou te dar o exemplo agora de Alta Floresta, eu acabei de chegar de lá. Em Alta Floresta nós temos 43 aldeias para 1 psicólogo, só Alta Floresta… Jaru nós estamos aí com 10 aldeias e a população é crescente, ela só vai crescendo. Não tenho os dados, os números agora para te passar, mas só Alta Floresta nós temos 13 etnias… e aí a gente desce, faz as visitas. (Iracema, 2022)
Para Yara que é uma pesquisadora da temática indígena, a Psicologia ciência e profissão deve seguir a vertente de auxiliar no fortalecimento dos saberes já construídos pelas diversas sociedades indígenas. Sugere também uma visibilização maior quanto à escrita, visto que é mais um elemento que pode contribuir na manutenção da cultura indígena.
Já Teko, que atua diretamente com as populações indígenas, percebe a contribuição da Psicologia de outra forma. Para ele, a importância da Psicologia se apresenta na concretude das ações. Sendo assim, a práxis psicológica estrutura e é estruturada pela cotidianidade das relações e é a partir disso que há intervenções efetivas. Aruá também percebe a importância da Psicologia nos espaços indígenas a partir de sua concepção enquanto pesquisador. Para que a Psicologia possa atender as demandas das populações indígenas, precisaria se ramificar e tornar se uma Psicologia para cada população, dada a complexidade das culturas. Sendo assim, a psicologia social, ao estudar identidade, pertencimento e sociedade contribui para a compreensão das formas de vivência desta população.
À Psicologia Social interessa, ainda, compreender como as atitudes e comportamentos sociais desenvolvidos contribuem para a construção dos processos de identificação individual e coletiva. A depender do indivíduo e do grupo ao qual pertença, essa identificação pode ser comprometida, podendo levar a uma negação de uma identidade originária e, ainda, a um preconceito com seu próprio grupo de origem. (Correa & Vianna, 2023, p. 2)
Iracema, na condição de psicologia da saúde indígena, fala de uma Psicologia ação, na medida em que, a partir da atuação constrói-se espaços de recuperação da memória, fortalecimento e preservação de muitos aspectos culturais. Interessante salientar que apesar de ocorrer uma certa comparação nas falas das/os quatro participantes, não significa que estas estão em lugar de desvalorização. A prática não supera a teoria e vice-versa. Contudo, a forma como cada pesquisador percebe a Psicologia Indígena tem interferência do seu lugar de fala e acaba por criar espaços de análise muito ricos.
Dentro dos espaços da pluralidade indígena necessita-se fazer uma negociação de sentidos entre os signos e seus significados, ou seja, a compreensão linguística de determinadas palavras sofrerá mudanças se analisadas por diferentes atores. Por exemplo, quando falamos de saúde mental para os não-indígenas teremos uma compreensão derivada dos processos de entendimento desta palavra no contexto de sociedades não-indígenas. Quando falamos de saúde mental, a compreensão dos sentidos desta palavra será diferente para os povos indígenas.
Ao analisar os discursos das/os participantes é possível distinguir diferenças, isso pode ter relação quanto ao local em que esta/este está inserido, visto que há duas estudiosas e duas psicólogas que atuam diretamente com a saúde indígena. Pode-se comparar, por exemplo, a percepção que as/os quatro participantes têm sobre o que é saúde mental indígena para os povos indígenas. Segundo, Iracema para levar assuntos como saúde mental indígena para as aldeias, deve-se considerar a linguagem mais adequada. Para Yara, deve-se levar em consideração uma linguagem mais adequada, além disso, necessita-se saber também quais as reais demandas daquela população. Yara enquanto pesquisadora tem uma postura mais teórica das formas de atuação do profissional psicólogo, enquanto Iracema, por estar diretamente com os indígenas percebe as necessidades mais urgentes das populações atendidas.
Yara também admite que a Psicologia, tal como a conhecemos, talvez não possa auxiliar os povos originários. Segundo ela, a Psicologia atual é ainda muito individual e prescinde de muita conexão com outros contextos diversos e plurais para atuações efetivas.
Veja, não sei se essa Psicologia tem algo pra contribuir. É que a Psicologia que a gente estuda tem de fato o sujeito, um sujeito que é muito distante da história, da realidade e é um sujeito muito individual. O que esses povos precisam de fato, acho que é fortalecer processos coletivos. É fazer aliança com outros povos do campo... é fazer aliança com povos da cidade, porque a luta deles e delas é a nossa luta. O que eles fazem não é só por eles é por nós também. Então o que a Psicologia tem para contribuir, eu tenho de fato muitas dúvidas. A Psicologia só conseguiria contribuir de forma coerente, se ela mudasse sua concepção epistemológica. No sentido de fazer mediações para entender o próprio avanço daquilo que produz sofrimento a esses povos e que está numa relação de tomada da natureza como um objeto de consumo, como algo ilimitado, mas também pra fazer frentes de resistência. E aí frentes de resistência pra mim está muito nessa aliança. (Yara, 2021)
Interessante a fala de Yara. Sua sinceridade nos alerta sobre os perigos do saber psicológico prepotente e descontextualizado. É necessário se despir das certezas absolutas do saber científico para que a intervenção psicológica faça sentido. Como mencionado o trabalho da/o profissional da Psicologia dentro da Saúde Indígena durante a Pandemia aconteceu e acontece de diferentes formas, seja na base com atendimentos individuais e coletivos nas aldeias, quanto pelo Matriciamento. O matriciamento é também importante pois, conforme CFP (2022, p. 30), “a função do apoio, com as equipes da Atenção Básica, objetiva aumentar a capacidade resolutiva dos problemas que afetam a vida da comunidade e almeja ampliar a clínica.” Teko (2022) realiza ações de matriciamento, bem como Iracema que participa desses momentos.
Teko (2022), apesar de agora atuar na coordenação do DSEI Porto Velho, relembra que o principal trabalho que teve durante a pandemia de COVID-19 foi a de estivador, devido à baixa no número de profissionais adoecidos pela doença. Estivador, segundo ele, seriam os profissionais de diversas áreas que auxiliaram na distribuição dos kits de proteção e de alimentos, além de outros produtos de sobrevivência, a fim de diminuir a ida dos moradores das aldeias nas cidades. É importante ressaltar que, conforme a Pandemia se agravava, muitas das ações em Psicologia não foram possíveis visto que as necessidades de subsistência e existência se tornaram prioritárias. Ações como entrega de mantimentos, tais como alimentação e água e kits de proteção (máscaras, luvas, álcool em gel) eram essenciais e demandaram a ação coletiva de todos os profissionais, incluindo as/os psicólogas/os.
Ao entrevistar as/os profissionais que atuaram durante a pandemia, fica possível perceber que o trabalho se pautou principalmente em ações de distribuição de mantimentos e medicações, apesar de não ter se restringido a isso. E é relevante dar ênfase para esse trabalho, porque, de fato, foi a realidade vivenciada. É uma outra forma de fazer Psicologia, configurada nas próprias relações cotidianas e sofrendo com as demandas do contexto em que a/o profissional se insere.
Iracema, ao ser indagada sobre sua prática, relata que esteve atuante na linha de frente entregando materiais de subsistência, mas conseguiu dar suporte emocional em vários momentos. Atualmente, Iracema contribui com sua prática dentro das aldeias e Teko também, contudo o trabalho deste último está diretamente ligado ao Matriciamento, dado sua localização como funcionário do DSEI. Teko relembra que o “trabalho do psicólogo é extremamente afetado pelo afeto, nas aldeias você cria relações mesmo não tem como” (2022).
Além disso, no cotidiano das/dos profissionais da saúde indígena, há desafios que perpassam a atuação, isto é, há demandas próprias do tipo de serviço que necessitam ser atendidas, tais como o preenchimento de planilhas que são importantes, mas tomam uma parte do tempo destes profissionais. Outro desafio é a barreira da língua, visto que muitas aldeias têm o português como segunda língua. Teko (2022) argumenta que os indígenas, em muitas ocasiões “não conseguem acessar por meio da nossa linguagem algumas emoções”, o que dificulta a comunicação.
O relato de Teko e Iracema permite inferir que o trabalho da/do psicóloga/o vai para além daquilo que é idealizado. Diferentes contextos constituem demandas próprias. Trabalhar de estivador não diminui a atuação de Teko enquanto promotor de saúde mental. Ao contrário, nos fornece percepções de uma Psicologia comprometida com o bem-estar físico e mental dos indivíduos. No fazer psicológico, nem sempre teremos espaços configurados para a clínica (um ambiente controlado) e por isso, a necessidade de formações mais integradas com a realidade da Psicologia Brasileira.
Falar que as/os indígenas não precisam que a Psicologia dê voz a eles, pois já tem, significa dizer que a atuação profissional deve ser promotora de espaços de escuta. Utilizar nossa mais poderosa ferramenta: escuta. Acolher e lutar. Lutar pela vida, pelo território, pela memória e pela cultura. É tentar entender o outro, reconhecendo as limitações do contato entre pessoas culturalmente diversas, mas indo adiante em busca de uma Psicologia de valorização das diferentes identidades étnicas.
As relações de cuidado na prática da psicologia devem estar em acordo com a ética e esta surge quando a/o profissional se preocupa com sua ação sobre o outro, como sugere Martins (2001). É necessário pensar em formas de diálogo com o outro que respeite suas tradições, conforme princípios da integralidade do cuidado.
4.4. O luto indígena e a Psicologia Social: contribuições das/dos profissionais da Psicologia
Pensar nos impactos da COVID-19 convém discorrer sobre as formas de relação que os indígenas têm com seus processos de saúde e doença. Vale sempre lembrar que a pandemia trouxe muitas mortes, modificando os processos de vivência de luto. É importante considerar que os povos indígenas sofreram inúmeros processos de luto, assim a psicologia escutar as comunidades indígenas é
reconhecê-las... como agentes da compreensão de suas próprias histórias, a possibilidade de restituição deles a si mesmos e a possibilidade de instauração de uma expectativa de futuro para os feridos pelo passado, por meio, sobretudo, do reconhecimento da memória dos seus ancestrais. (Tiverron & Bairrão, 2015, p. 14)
Durante a pandemia, protocolos foram implantados para proteção das comunidades e os modos de vida e subsistência ficaram comprometidos. Como exemplo tem-se o uso das máscaras, o distanciamento social e especialmente, os rituais de luto, que passaram a seguir os protocolos sanitários. Vale ressaltar que muitos aspectos da vida indígena sofreram modificações. A vida social, tão necessária para os processos identitários, de partilha de objetos e rituais dos povos originários foi comprometida e as/os psicólogas/os precisaram (re)inventar seus modos de atuação, como relata Teko, ao descrever momentos em que vivenciou o luto de determinadas famílias indígenas atendidas pelo DSEI.
Aí tinha uma senhora lá que a equipe referencia... Eu fui até essa senhora, conhecia um pouco essa comunidade... Mas quando vi que era questão de luto eu pensei: é cultural mesmo, questão de luto... ela falava do filho dela, caía no chão, chorava... E é isso, é cultural mesmo, cai no chão chora... Se você não fizer isso quando seu filho morre é porque você não ama ele… E aí o que a gente faz? É isso, é cultural mesmo... Para você explicar isso para um profissional? tem profissional que tem cabeça fechada mesmo... “Não, não é, porque ela tá com depressão, ela tá doente, você tem que fazer alguma coisa... você não pode referenciar uma pessoa dessa para um CAPS, porque é um comportamento cultural, mas como ela é idosa, é uma das últimas idosas da tribo tem os comportamentos que a equipe acha estranho… quando do luto… porque tem poucas pessoas que mantém essas características do luto, mas o fato é que o luto indígena vai se transformando e ele é extremamente duradouro. (Teko, 2022)
As formas de vivência desse luto são tão diferentes das nossas e Teko admite certo espanto ao se defrontar com cenas de parentes se atirando nos caixões, emocionados e em intenso sofrimento. Aos olhos da cultura não indígena, comportamentos como esses podem significar doenças psíquicas resultantes de processos traumáticos. Dependendo da etnia, é uma forma de homenagear e demonstrar amor àquele que faleceu, conforme relata Teko.
O estudo da identidade é central para a Psicologia Social, abrangendo desde a constituição do indivíduo em sua esfera pessoal até sua inserção e atuação em grupos ou categorias sociais (Correa & Viana, 2023). Sendo assim, o que antes era um evento social, tornou-se privado e distante. O luto não pode ser vivido e ressignificado, os indígenas não puderam se despedir de seus parentes. Aruá fala de adoecimentos outros que já vinham ocorrendo, pelo processo de incorporação em outras culturas. Isso se soma a morte de pessoas tão queridas e de forma tão abrupta e que pode ocasionar o desenvolvimento de doenças psicológicas.
O luto se não vivido pode gerar inúmeros adoecimentos e com a morte de vários indígenas de forma abrupta e inesperada ocasionou uma perda física e simbólica. Segundo Iracema, em sua prática profissional, vivenciou e ainda vivencia indígenas com sequelas de dores emocionais decorrentes de perdas não elaboradas.
Tem uma aldeia que eu fiz visita e, eu fiquei lá uns dias, que é visível a expressão do luto que não foi elaborado que ainda tem resquícios da fase dele com muita intensidade, principalmente a revolta, seja o luto em decorrência da COVID ou não, na COVID agravou-se um pouco mais. Eles têm uma cultura de enterrar os mortos em casa, eles levam para a casa, e na pandemia o que aconteceu? Não podia levar para casa, isso mexeu muito com os indígenas… aquele rompimento abrupto que eles não conseguiram digerir, que aos poucos eles estão tentando, mas eles não conseguiram e fica muito no imaginário que essa figura vai voltar, só que a figura não vai mais voltar, entende? [Vítima da COVID-19] Então é através da escuta psicológica, através do atendimento individual, através da fala no contexto em geral, que eles vão conseguir elaborar esse luto e se não tiver um psicólogo ou uma pessoa que tenha essa sensibilidade da escuta empática, esse processo do luto não elaborado traz como consequência as doenças ou transtornos mentais. (Iracema, 2022)
Com a COVID-19 e suas sequelas (luto, modificações de modo de vida, medos) o Bem Viver e práticas de promoção de bem-estar se tornaram cada vez mais necessárias, visto as inúmeras situações vivenciadas pelos indígenas durante esse período. Todos os participantes da pesquisa tiveram contato com povos indígenas, Iracema e Teko, por atuarem diretamente na saúde indígena, vivenciaram o cotidiano de enfrentamento da COVID-19 pelos povos originários. Yara e Aruá por meio dos estudos e projetos profissionais. Percebe-se que formas diferenciadas de manejo psicológico foram (re)criadas devido à evidente dificuldade da atuação no contexto de incertezas, luto, medo e vulnerabilidades.
Pode-se afirmar que ocorreram intervenções psicológicas em meio ao contexto pandêmico e que muitas/os profissionais, apesar do medo de uma doença quase desconhecida e altamente letal, se movimentaram para mediar e fortalecer medidas de proteção físicas e psíquicas das comunidades. Foram ações pequenas, mas, com certeza, auxiliaram na preservação de muitas vidas e é válido reconhecer a coragem e disposição destes profissionais que atuaram na linha de frente para a promoção do bem-estar indígena.
É somente a partir de uma atuação contextualizada, considerando os saberes dos povos indígenas, que a Psicologia pode contribuir. É se colocar no local daquele que escuta, pois estes povos já têm voz e necessitam ser ouvidos.
5. Considerações finais
O objetivo do estudo foi estudar os impactos da COVID-19 na saúde mental da população indígena do Estado de Rondônia e como as/os psicólogas/os poderiam auxiliar nesse processo. É um estudo desafiador visto a pouca disponibilidade de literatura específica sobre esse assunto, bem como as diferenças existentes entre as concepções sobre o que é saúde mental nas diferentes culturas.
Durante o estudo pode-se constatar que as/os psicólogas/os participantes da pesquisa não tiveram disciplinas específicas em sua formação sobre o assunto, o que impactou sua futura atuação profissional, uma vez que essa esteve voltada para os costumes e modos de vida da população indígena. Contudo, é notável os esforços das/os próprias/os profissionais em ofertar um serviço humanizado e contextualizado para tentar atender as demandas que surgem. Existem protocolos de atendimento oficiais aos povos indígenas, todavia o manejo psicológico ainda está em estudo e sendo construído no cotidiano das relações entre as/os profissionais da psicologia e os povos indígenas.
Historicamente, as populações indígenas são negligenciadas pelas teorias psicológicas que ainda não dão conta da complexidade das questões dos povos originários. Apesar disso, tem-se uma movimentação importante no sentido da aproximação da Psicologia nos espaços indígenas, isso se verifica com a publicação recente do livro do CFP. Este livro é de 2022 e foi construído em conjunto com psicólogas/os indígenas e demonstra que estão acontecendo aproximações para a construção de modos do fazer psicológico no contexto indígena.
Não se deve generalizar o viver indígena. Corre-se o risco de ser simplistas, reducionistas e preconceituosos se pensar o existir indígena como igual em todas as aldeias. São 305 etnias no Brasil e cada uma existe de forma diferente. Os processos de subjetivação não são iguais, mas alguns aspectos da vivência indígena convergem entre si. Um deles está presente nas concepções de território e sua importância na construção psíquica dos povos originários. Outro conceito de grande relevância para muitos povos é o Bem Viver, que também atravessa o cotidiano dos povos indígenas.
Com a análise dos dados coletados foi possível perceber que há um grande caminho a ser percorrido pela Psicologia, mas passos estão sendo dados. A psicologia pode e deve contribuir com o bem-estar psicológico dos povos originários, respeitando e adaptando suas técnicas e intervenções às idiossincrasias das diferentes populações e povos originários.
Não teve o estudo a pretensão de esgotar o assunto. Mais pesquisas precisam ser feitas a fim de contribuir para a construção de conhecimentos sobre a influência da COVID-19 para a subjetividade dos povos indígenas.
Notas
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1
Os nomes foram trocados no intuito de resguardar o sigilo dos participantes.
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Financiamento
A pesquisa foi desenvolvida com apoio da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES (Número do Processo 88887.604907/2021-00) por meio do Edital Regulamento DS (unificado) e Programa de Demanda Social. Bolsa de mestrado pelo Programa PPG Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente.
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Consentimento de uso de imagem
Não se aplica.
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Aprovação, ética e consentimento
A pesquisa foi submetida ao CEP e aprovada (CAAE no50711821.3.0000.5300).
DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS
Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.
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Editor científico
Dra. Sabrina Daiana Cúnico
