Open-access UMA EXPERIÊNCIA, UMA SEMENTE: DESAFIOS À PSICOLOGIA NO CONTEXTO DAS URGÊNCIAS CLIMÁTICAS

UNA EXPERIENCIA, UNA SEMILLA: DESAFÍOS A LA PSICOLOGÍA EN EL CONTEXTO DE LAS URGENCIAS CLIMÁTICAS

AN EXPERIENCE, A SEED: CHALLENGES TO PSYCHOLOGY IN THE CONTEXT OF CLIMATE EMERGENCIES

Resumo

Este artigo é escrito a partir da experiência de ação realizada junto a famílias agroecologistas durante os eventos climáticos extremos que atingiram o estado do Rio Grande do Sul em maio e junho de 2024. Na ocasião, a pedido da associação que envolve agricultores e universidade, iniciamos tratativas para o desenvolvimento de uma ação extensionista emergencial tendo como objetivo oferecer escuta e cuidado em saúde mental. O objetivo deste escrito é discutir acerca dos desafios ao campo das práticas em Psicologia no âmbito das ruralidades, enfrentando notadamente as problemáticas globais, mas que assumem contornos e especificidades locais. Traçamos uma cartografia dos processos vividos naqueles e a partir daqueles dias, levantando questões de ordem epistemológica, conceitual e metodológica à Psicologia, de modo a nela investirmos como campo de conhecimento aberto às problemáticas do presente, a saber: ruralidades, urbanidades, Capitaloceno e o Novo Regime Climático.

Palavras-chave:
Psicologia; Saúde mental; Ruralidades; Novo regime climático; Mudanças climáticas.

Resumen

Este artículo se escribe a partir de la experiencia de acción realizada junto a familias agroecologistas cuando los eventos climáticos extremos alcanzaron el estado de Rio Grande do Sul en mayo y junio de 2024. En esa ocasión, a petición de la asociación que involucra agricultores y universidades, iniciamos negociaciones para el desarrollo de una acción extensionista de emergencia con el objetivo de ofrecer escucha y atención en salud mental. El objetivo de este escrito es el de discutir sobre los desafíos al campo de las prácticas en Psicología en el ámbito de las ruralidades, notablemente enfrentando las problemáticas globales, pero que asumen contornos y especificidades locales. Trazamos una cartografía de los procesos vividos en aquellos y a partir de esos días, planteando cuestiones de orden epistemológico, conceptual y metodológico a la Psicología, para que en ella invirtamos como campo de conocimiento abierto a las problemáticas del presente, a saber: ruralidades, urbanidades, Capitaloceno y el nuevo régimen climático.

Palabras clave:
Psicología; Salud mental; Ruralidades; Nuevo régimen climático; Cambios climáticos.

Abstract

This article is based on the experience of actions carried out with agroecologist families when extreme weather events reached the state of Rio Grande do Sul in May and June 2024. On the occasion, at the request of the association involving farmers and the university, we initiated negotiations for the development of an emergency extensionist action aimed at offering listening and care in mental health. The objective of this paper is to discuss the challenges to the field of practices in Psychology within the scope of ruralities, especially facing global problems, but that assume local contours and specificities. We draw a cartography of the processes lived in those days and from those days, raising questions of epistemological, conceptual, and methodological order to Psychology, so that it is invested as a field of knowledge open to the present problems, such as ruralities, urbanities, the Capitaloceno, and the New Climate Regime.

Keywords:
Psychology; Mental health; Ruralities; New climate regime; Climate change.

1. Introdução

Este artigo propõe-se a discutir os desafios postos ao campo da Psicologia no que tange aos problemas a serem colocados e às estratégias de ação a serem implementadas, visando analisar-intervir em tempos de urgências climáticas. Trata-se de colocar em discussão aspectos que vêm emergindo por entre nossos corpos perplexos e ávidos por um agir em composição, em meio aos cada vez mais frequentes eventos climáticos extremos, discutindo a respeito da especificidade de um encontro: aquele entre psicologia e pessoas que vivem e trabalham no segmento rural. Diante deste cenário, produzimos um texto-dispositivo que, ao traçar a memória de uma ação de cuidado em saúde junto a essas pessoas, ação que estamos chamando de “cultivando cuidado”, possibilita, por meio da análise de nossas implicações, forjar as estratégias de que necessitamos neste momento de peculiar dificuldade.

Quando recebemos o pedido para propor uma ação de cuidado em saúde mental no contexto da urgência climática que se apresentou nas enchentes de 2024 no sul do Brasil, ação essa a ser realizada junto a trabalhadoras e trabalhadores agroecologistas, nosso primeiro movimento foi o de receber tal pedido como uma perturbação ao próprio exercício da psicologia a partir da catástrofe que se vivia. O cenário era de devastação, desolação e perplexidade. Corpos humanos e não humanos foram arrastados pelas águas, assim como práticas cotidianas e modos de vida naqueles, e a partir daqueles dias, foram radicalmente modificados. Estávamos vivendo certa suspensão de nossas habitualidades, de maneira que tudo nos parecia ser regido pelo signo da excepcionalidade.

Para escutarmos pessoas que haviam perdido muito do tanto que tinham, e até mesmo tudo o que tinham, era preciso situar-se na linha transversal, na tangente de uma experiência-limite, na circulação por certa impossibilidade de “tudo ver” e de “tudo fazer”, para que assim pudéssemos agir transversalmente por entre o colapso climático que se impunha, mobilizando forças coletivas. A configuração de um dispositivo coletivo, como roda de conversa, propiciou a narrativa pormenorizada das circunstâncias da inundação, dos resgates e dos dias subsequentes. Roda de conversa aqui é tomada como um dispositivo, por onde, a partir de encontros dialógicos, é possível assumir posições, compartilhar experiências, fazer negociações e co-produzir sentidos outros (Brigagão et al., 2014, pp. 73-74). Um modo de atenção foi sendo ativado, este que dá suporte a uma narrativa que traz consigo - ao escutar, narrar e escutar-se - a perplexidade do que foi vivido e de como, surpreendentemente, foi possível subsistir e sobreviver.

Colapso, era disso que se tratava, então como experimentá-lo também, como colapso do pensamento? Afinal, há no colapso uma natureza ambígua (Passos, 2018), uma vez que por onde nos desesperamos também pode se fazer um ponto de inflexão que nos anima a criar outro mundo e outros modos de nele viver. No colapso, um novo plano de possível se efetiva e, do ponto de vista da Psicologia e dos desafios a ela colocados diante das urgências climáticas, haveríamos de deslocar-nos de nossos “objetos psi” já constituídos, para transitarmos pelos “atos psi” em processo de fazimento pelo agir em uma cidade, região, Estado, tomados pelas águas. Foi preciso fazer “corpo anfíbio”, de certo modo desajeitado, para transitar pelas ruas ainda alagadas e para reunirmo-nos em uma edificação que, ao guardar na parede as marcas que as águas haviam atingido, fazia-nos sentir como que habitando um certo “fundo de rio”. Visamos uma tessitura de memória com aquelas pessoas que esperavam algo de nós, memória que, se tomada enquanto meio para fazer durar no presente o que resta na história, pode servir de caminho para o encontro nas forças que permitem visualizar as lutas travadas, os fracassos e as vitórias já antes experimentadas, a converterem-se em meio para seguir fazendo mundos e futuros.

A vida ultrapassa a ciência e é por isso que ela, a ciência, se move! Que fazer psi poderíamos afirmar diante do colapso climático que se apresentava por excesso das águas e por descaso, do ponto de vista da gestão pública que havia deixado bombas de escoamento sem manutenção na capital gaúcha? Afinal, consta em inúmeras reportagens divulgadas pelos veículos de imprensa que as casas de bombas que compõem o sistema de proteção contra cheias falharam em sua função durante a grande enchente de maio de 20241, bem como que houve alerta em anos anteriores dos riscos que se corria dado o estado crítico de seu funcionamento.

Diante da revolta do planeta ante nossos modos de viver no campo e na cidade, e nosso modo de fazer da terra apenas um recurso para a existência dos humanos, em lugar de se fazer território a ser habitado e alimentado pela recriação incessante das existências, quais (re)voltas caberia à Psicologia operar?

Mobilizadas por tais questões, traçamos nas linhas que seguem considerações a partir desta experiência, que consistiu em uma ação de extensão promovida por professoras e estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)2 realizada durante os meses de junho a setembro de 2024, junto a pessoas moradoras de um assentamento rural na região metropolitana de Porto Alegre/RS, totalizando aproximadamente 30 participantes da comunidade rural. Uma equipe formada por duas professoras, dois estudantes de graduação e uma de pós-graduação deslocou-se até essa localidade em cinco ocasiões, para realizar as Rodas de Conversa com as pessoas que haviam, mais uma vez, sido atingidas drasticamente por eventos climáticos. As histórias contadas diziam de dores antigas, de dramas e até mesmo de situações traumáticas infantis, de situações de desamparo experimentadas ao longo da vida, da falta de confiança no poder público e na população em geral para recomeçar mais uma vez. Diziam ainda de desesperança, em meio, contudo, a relatos de muita solidariedade vivida naquela situação e em tantas outras, bem como da incerteza quanto ao futuro. Assim chegávamos àquele território, àquelas pessoas e suas histórias, com o desafio de estarmos à altura de escutar o que nos seria endereçado.

A escuta atenta às diferentes formas de narrar as experiências vivenciadas possibilitou que, na relação entre os componentes do grupo, professoras e estudantes, houvesse um roçar das discrepâncias, uma desconfiguração dos sentidos dados ao que se viveu durante os eventos já citados, e assim emergiram sentidos inéditos, a partir da construção de um plano comum da experiência. Uma escuta pautada nas construções teóricas bakhtinianas e de Yves Clot, de enunciação como um ato, que como tal opera transformações no mundo e nas subjetividades, nos permitindo visualizar através da atividade dialógica a própria vida desdobrando-se (Tedesco & Pinheiro, 2016).

Viver/Fazer/Narrar esta ação extensionista possibilita-se pela orientação cartográfica que a compõe, considerando aqui o método cartográfico como uma prática e uma atividade orientada por uma diretriz de natureza ético-estético-política, onde se delineia um plano da experiência, acompanhando os efeitos, os caminhos, os desvios possíveis ao se colocar lado a lado, professoras, estudantes, trabalhadoras e trabalhadores rurais, a vida multiespécies, os efeitos dos nossos tempos, através de corpos atentos e sensíveis, abertos à surpresa, ao imprevisto, àquilo que faz questões, tendo como horizonte o acesso/produção do plano de forças que possibilitará a criação/transformação de experiências. Orientação essa que nos guia por pistas ao invés de nos oferecer regras pré-determinadas do caminho a seguir (Passos et al., 2013).

2. Andando por entre o que as águas arrastaram

Ao longo de aproximadamente 40 dias, todos nós, residentes do Rio Grande do Sul, convivemos com cenas, imagens e momentos muito duros, que nos exigiram encontrar estratégias para existir em um contexto muito adverso. Dias que pareceram anos deixaram nítido que esta vivência nos afetou distintamente, pois partimos de lugares diferentes, falamos de territórios diversos, porém com “um comum”, a experiência de dor e até mesmo traumática diante da urgência climática.

Em meio às múltiplas intempéries, com as chuvas extremas, muitos estabelecimentos tiveram que ser fechados e muitas atividades estavam suspensas ou ocorrendo na modalidade online. Pessoas não estavam mais em seus lugares, moradias, espaços de trabalho. Chega então ao Curso de Psicologia da UFRGS, a partir de uma Associação de Agroecologistas, um convite à composição junto a famílias agroecologistas assentadas na região metropolitana.

Em um primeiro momento, a demanda era sobre a necessidade de apoio às pessoas que retornavam aos poucos para as suas casas e espaços de trabalho, vivenciando momentos de impacto e comoção, tendo em vista que habitavam um território em um município atingido em mais de 90% e encontrava-se em estado de calamidade pública, conforme o Decreto nº 57.646, de 30 de maio de 2024.

Um dia de sol, após tantas chuvas que inundaram nosso estado, proporciona uma primeira ida da equipe da universidade até, e por entre, lugares marcados pelos transbordamentos das águas, chamando a atenção no percurso e de forma urgente, para as consequências de uma política de “exaurimento” do Planeta pelas investidas capitalísticas e neoliberais. As incertezas sobre o que nos esperava e os caminhos a serem percorridos marcaram este início. As cenas vistas pelo trajeto davam-nos pistas sobre algo difícil de descrever, indicavam-nos um encontro com vivências, histórias, intensidades que nos exigiriam mais do que palavras, especialmente a nós, profissionais da psicologia, forjadas em uma experiência urbana e por certos privilégios, que nos permitiram vivenciar este desastre com certa proteção.

Rapidamente tivemos que nos deparar com uma sensação de que nada, ou muito pouco, das experiências que trazíamos conosco nos preparavam para aquela escuta. Como escutar habitantes de uma cidade tomada pelas águas? Que território seria esse depois da inundação? Que vidas e espécies haviam sobrevivido nessa comunidade distante cinco quilômetros do leito do rio, onde as pessoas saíram de suas casas com a água no pescoço, chegando a aproximadamente três metros de altura? Como escutar sobre perdas mais-que-humanas de mudas, fermentos, plantações, construções, transmitidas entre muitas gerações? Escutar sobre aspectos que a sociedade capitalista e neoliberal não é capaz de atribuir valor. Como escutamos? Que psicologia forjamos ao intervir?

Diante de um cenário como o vivenciado neste território, inúmeras são as possibilidades de intervenção e análise, porém nos propomos a problematizar neste momento os possíveis de uma ação realizada entre professoras e estudantes, ora extensionistas da Universidade, e trabalhadoras e trabalhadores rurais interseccionados pelos eventos climáticos, que em sua verve laboral fazem(-se), justamente, na busca por um relacionamento com o Planeta na perspectiva da comunhão e não de recurso a ser extraído. Nossa relação precisava também ser pautada por uma peculiar relação de comunhão, por uma escuta capaz de acolher os inusitados de uma situação que faria à Psicologia, enquanto campo de saber contingenciado por relações de poder, provocações capazes de fazê-la devir-outra, devir-com, em ato, na situação de intervenção.

O caminho até lá nos perturba, pelo volume de entulho nas laterais da via por onde passa nosso carro, montanhas de escombros, fazendo-nos perguntar: o que mesmo produzimos quando trabalhamos? Para que temos trabalhado? Para quem? Atravessadas pelas repercussões de encontros e desencontros, buscamos cultivar uma intervenção que se fizesse semente que, cultivada, regada, adubada, com seu tempo necessário, crescesse, florescesse, frutificasse através da proliferação de cuidado e da (re)composição dos territórios de existência. Entretanto, se nos orientarmos por uma perspectiva crítica ao antropocentrismo, será necessário reconhecer que nossa ação não era a única a ofertar cuidado naquele contexto.

Assim, conforme proposto por Daniela Dell’Aglio e Paula Sandrine Machado (2025), nos somamos a uma “ecologia do cuidado” já em curso naquele território. Dentro dessa perspectiva, compreende-se “cuidado” como “uma atividade/prática constante e cotidiana que inclui tudo que fazemos para manter, continuar e reparar nosso mundo para que possamos viver nele tão bem quanto possível” (Tronto & Fisher, 1990, como citado em Dell’Aglio & Machado, 2025, p. 8). Tal ecologia do cuidado é composta não só por uma forte rede de seres humanos solidários aos afetados pelas enchentes - que logo se organizaram para efetuar resgates, arrecadar suprimentos e roupas, e realizar mutirões de limpeza - mas também por todos aqueles entes e existentes mais-que-humanos que oferecem contribuições significativas à recomposição de tais territórios existenciais, fato que se torna evidente para nós mais adiante.

Certa manhã, em uma das rodas de conversa realizadas no território, uma das participantes compartilha conosco uma história sobre um evento anterior às enchentes, que materializa a compreensão trazida acima. Ela nos conta que foram distribuídas algumas mudas de árvores frutíferas e, ao final, depois que todos já tinham pegado suas mudas, ainda sobraram duas mudas de amoreira que, para sua surpresa, ninguém mais queria. Eis então que essa pessoa nos apresenta o motivo pelo qual decidiu levar as mudas esquecidas: “ninguém quis levar porque ninguém mais queria amora, mas se eu plantar lá em casa eu sei que os passarinhos vão querer”. A alegria dos passarinhos, por ela imaginada, se alastrou por seu corpo enquanto ela refletia que, tendo as águas voltado ao seu curso, “os passarinhos estão voltando” ao território - favorecidos pelo seu ato de fazer-se espécie companheira. Assim, a vida multiespécie, que mostrava seu rastro pela dimensão subjetiva presente nessa narrativa, era também o que tornava aquele território passível de ser habitado novamente.

“Nossos tempos confusos”, nos diz Haraway, “transbordam de dor e alegria - com padrões vastamente injustos de dor e alegria, com matanças desnecessárias da continuidade, mas também com o necessário ressurgimento” (2023, p. 9). O potencial do necessário ressurgimento, nossa participante antecipava, dependia dessa capacidade de realizarmos conexões inventivas e parentescos se quisermos viver e morrer bem uns com os outros. Assim, em conversa com o pensamento de Haraway (2023), essa experiência nos convidou a “ficar com o problema” e a especular sobre a multiplicidade de possíveis para os fazeres em Psicologia a partir do encontro entre diferentes corpos, tempos e territórios.

Criar problemas e suscitar respostas aos eventos devastadores de nosso tempo seriam as pistas para afirmarmos um método de (re)existir nesse mundo complexo, investindo de vitalidade o meio, o inacabado das relações e das realizações. Tal plano inacabado, o Chthuluceno, seria como que um lugar-tempo para ficarmos com o problema de viver-morrer em respons-habilidade. Respons-habilidade que implica, no coração dos movimentos empreendidos, a produção de respostas hábeis que só se fazem possíveis, no entre-corpos multiespécies do planeta. Respostas hábeis que apenas se fazem possíveis quando assumimos uma espécie de lealdade com a continuidade, criadora, daquilo que recebemos das mãos de outros e que tomamos como tarefa prosseguir (Haraway, 2023, pp. 62-69).

Nas situações de catástrofes e nas urgências climáticas que cada vez mais vivemos, os efeitos nefastos do Antropoceno - essa articulação de espaço-tempo que serve de sustentação à globalização que avança sustentada em lógicas de extinção e em modos de relação pautados no individualismo utilitarista da natureza tomada como recurso - e também do Capitaloceno - como formas de mundificações relacionais historicamente situadas marcadas pela submissão ao progresso e a modernização que vêm transformando o planeta através da lógica produtivo-econômica que retroalimenta o ideário antropocêntrico - demonstram que as conflitivas subjetivas parecem requerer novos exercícios de pensamento (Haraway, 2023, pp. 89-104). Assim entendemos, tendo em vista que o limite extremo ao qual chegamos desafia o próprio modo de fazer existência na Terra e até mesmo, de fazer a própria Terra sustentar-se em existência.

De certo modo, é isso que os extremos climáticos têm nos feito enxergar e foram esses desafios de existência que inundaram nossas angústias. Dramas psicológicos no presente guardam peculiaridades tais, que a própria noção de saúde como expansão da potência da vida precisa ser redimensionada na direção de um cuidado multiespécie, sob pena de investirmos nos tecnosolucionismos que, no máximo, podem nos ajudar a “enxugar gelo”. Dizemos com isso que atentar para a esfera das subjetividades no presente requer uma drasticidade nas estratégias de ação que passam pela urgência de remundificação, já que é de ameaça à vida no Planeta que falamos. As relações e as conexões precisam ser refecundadas, novos modos de ser precisam ganhar existência, e novas Psicologias também precisam florescer.

Além de recusar os tecnosolucionismos, como sugere Haraway (2023), precisamos ativar outras duas linhas de ação: recusar a perspectiva de que o jogo está perdido e praticar, incessantemente, a produção de novos mundos e conhecimentos oriundos de uma certa tática de fecundação entre os corpos, em uma certa dinâmica relacional “tentacular”, como diz a autora. Dinâmica essa marcada pela operação de uma inventividade responsiva e hábil capaz de gerar vida por parentescos infamiliares compostos por relações multiespecíficas. A dimensão de parentescos infamiliares, ou estranhos, indicados pela autora parece-nos desafiar os próprios limites do conceito de coletivo, tão caro ao campo da Psicologia e da Psicologia Social, em especial, que mobiliza a ideia de forças em curso de atualização de algo, invés de ser definido pelo critério quantitativo de pessoas reunidas. A perspectiva do coletivo, quando pensada pela via dos parentescos raros, parece-nos complexificar certo regime sígnico relacional até então familiar para nós, chamando-nos a agir por entre a multiespecidade do mundo. Pensar “tentacularmente” é ao que ela nos convoca, um pensamento que procede por toque e sensação, por certo contorno de uma ética-erótica dos corpos capaz de gerar humusidades em lugar de humanidades. Humusidade como certo Universo de Devires por uma Terra que se (re)volve, que eternamente retorna plena de germens de novas relações e modos de vida no Planeta (Haraway, 2023).

Em confluência com a convocação de Haraway, Sofia Favero (2020), ao tencionar os modos psis de operar a clínica com pessoas trans e travestis, afirma que é preciso superar a despatologização do gênero e caminhar em direção a uma despatologização epistemológica, tornando imperativa uma (des)epistemologização, ou seja, a produção de diferentes saberes, a partir e por corpos, vidas e histórias destes sujeitos. O que aqui nos leva a pensar sobre como as vidas e as histórias multiespecíficas podem ser produtoras de agenciamentos a modos outros de operarmos com a psicologia.

Recusar o antropocentrismo e afirmar a vida multiespécies comprometida com as humusidades, a partir da experiência aqui posta em análise, implica em movimentos de acolhimento das histórias escutadas por entre as itinerâncias neste percurso, bem como reconhecer e nomear que a escuta produzida é constituída a partir de um ethos urbano, que diz de saberes situados, para a partir disso, ficar com o problema da psicologia no encontro com a vida multiespécies.

Questionamentos emergiam dos movimentos deste e neste mundo multiespécies, onde um rio que vai e volta exigia travessias por ruas e BR(s) com barcos furados, onde nos cinco minutos, ou talvez 22 dias, todos desabam… choram… vivem a indeterminação de não saber ou não ter para onde ir. Exigindo escolhas, que são enunciadas: “éramos, nós, uma mochila, a BR e um sonho… precisamos continuar…”. E como se continua? Devemos ficar ou sair de um território marcado por este e outros eventos climáticos anteriores? Que nos convoca a constantes reinvenções de fazeres e lutas? Ou ainda a necessidade de voltar rapidamente a plantar e cultivar a terra?

A itinerância de algum modo foi prevista como um andar junto, cuidar caminhando lado a lado e, sendo assim, em alguns momentos dos encontros, de fato ocorreram caminhadas para que conhecêssemos o território, com todas as suas marcas, vestígios, peculiaridades e variedades. A presença de alguns animais, a cor da terra e, especialmente, o sol radiante daqueles dias, traziam à memória pequenas histórias, do que fora levado e já não existia mais, como pomares, plantações e canteiros, porém, entremeados com os planos por vir. Ali havia um trabalho de recuperação de solo e um conjunto de caixas de doação de mudas para o plantio, ensejando expectativas. E receios. Este dispositivo de itinerância, pisando o mesmo chão, deu certa dimensão do vivido, ao compartilharem as suas angústias, dúvidas e também forças para “seguir”.

Caminhando por entre as diferentes áreas de cultivo do assentamento, com diferentes gerações que compõem este território, observamos o solo tentando encontrar meios de seguir existindo, as plantas crescerem, bem como escutamos histórias que parecem dizer de constantes movimentos que atravessam suas vidas nas diferentes temporalidades, na luta pela terra ou nas itinerâncias provocadas pelas exigências do presente. Histórias que dizem de suas vivências, mas que também indicam que os caminhos se traçam em movimento, com as diferenças, as contradições, os limites, as possibilidades, onde alguns chegam antes, outros depois, alguns saem, morrem, outros nascem, em um cultivo que tem seus objetivos e suas dores individuais, mas também coletivas.

É preciso apostar em relações, em encontros, marcados por variações de intensidades, de composições e decomposições que aumentem nossa potência de viver junto, o que implica uma aposta constante em outros modos de viver, de existir, de se relacionar. Um anúncio se faz ouvir: “Existem diferentes pontos de vista… diferentes formas de entender e significar as coisas…” Quando a chuva compõe com a terra? E quando não? O que determina isso? E o sol, que é vida?! Mas pode não ser? Tudo depende do ponto de vista?! São muitas perguntas-afirmações, que parecem dizer de saberes-não-saberes singulares.

“A natureza se regenera com muita facilidade, nós não, assim como as plantações está nossa saúde, a mercê do clima…” essa fala em composição com a afirmação de que é possível voltar a ver a vida no território, pois as plantas voltam a florescer, ouvidas em nossos momentos compartilhados dizem de uma compreensão da composição cosmológica entre os humanos e os outros viventes com quem compartilham o mundo, e parecem falar de uma chave para a vida/saúde tanto dos humanos quanto dos não humanos, em um sistema de trocas, de reciprocidade e de mutualidade (Mbembe, 2020). Compreensão essa que, a partir da experiência analisada, faz questões, provoca estranhamentos aos modos de agir e aos saberes da psicologia, nos movimentando a um exercício de pensamento que busque, quem sabe, uma psicologia outra que reconheça suas fundações e a urgente necessidade de afirmar modos de agir, práticas que digam de respons-habilidades, mas que principalmente estejam assentadas nos saberes multiespécies, apostando assim em uma ética outra.

3. Espécies companheiras e saúde mental, psicologia e ruralidades: desafios ético-epistemológicos

Não é novidade que a Psicologia é uma disciplina hegemonicamente urbana, formada e sustentada por corpos urbanos e, em grande medida, voltada para o público urbano. No Brasil, foi apenas a partir da constituição do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que progressivamente esse campo do saber e suas práticas foram sendo possibilitadas aos habitantes de cidades menores, geralmente compostas por uma maior porcentagem de moradores de áreas rurais. Apesar disso, Kátya Silva e João Macedo (2017) destacam que há “certa ausência de um corpo organizado de conhecimentos que situe as várias discussões envolvendo aspectos teóricos, metodológicos e analíticos dos estudos rurais, no sentido de qualificar o olhar e atuações profissionais dos(as) psicólogos(as) que atuam nessas realidades” (p. 816).

Este talvez tenha sido o primeiro desafio experimentado na experiência que aqui abordamos: como compor uma escuta e uma conversa quando os profissionais da saúde que se deslocam até o território afetado levam consigo seu ethos urbano e desconhecem, talvez por isso mesmo romantizando e/ou idealizando, aquilo que compõe o ethos rural, ou seja, os “níveis de organização social, política e comunitária, trabalho, formas de adoecimento, processos educativos, relações familiares, cultura, regras sociais, atitudes, valores, sociabilidades etc.” (Silva & Macedo, 2017, p. 816).

Consideramos este aspecto importante por duas razões. A primeira é pelo fato de o universo simbólico estar organizado de formas distintas a partir desses dois ethos, que informam/conformam modos distintos de habitar a cidade e/ou o campo. Pensemos a partir dos ritmos. Notadamente, podemos concluir que o ritmo da cidade se sobrepõe ao ritmo da natureza. De forma que os citadinos, até então, não deixavam de estudar ou trabalhar, de realizar seus ofícios, quando chovia um pouco mais ou quando estava muito quente - algo que vem mudando exponencialmente nos últimos anos por conta dos efeitos desse Novo Regime Climático que já nos impõe uma outra lógica à qual ainda precisamos aprender a nos adaptar. Já no campo e nas áreas rurais e ribeirinhas, é o ritmo da natureza que determina o ritmo dos afazeres. Este aspecto contribui para que, na nossa percepção de sujeitos urbanos, julguemos que os habitantes de áreas rurais tenham mais conexão com a sazonalidade e os ritmos e - justamente por isso - com as mudanças nas condições climáticas que recém começamos a atinar e sentir, mas que há anos vêm impondo diversas perdas e desafios para o povo do campo. Poderíamos dizer, com Antônio Bispo dos Santos (2023), que as cidades são humanizadas demais, ou seja, feitas apenas para os humanos, o que podemos ler como um signo de nossa cosmofobia, termo por ele cunhado, que certamente dificulta e/ou nos dessensibiliza para questões de cunho ambiental, climático e de sofrimentos de outros seres vivos que atravessam a experiência compartilhada pelas pessoas nas áreas rurais e seus cultivos.

A consideração pelo choque entre distintos ethos decorre também de uma segunda questão, relativa à comunicação e às formas de expressão que nós trazemos conosco de nossas formações acadêmicas e que podem se colocar como barreiras a partir da linguagem. Facilmente nos permitimos a utilização de termos “complexos” ou derivados de línguas estrangeiras (métier, expertise, entre outras) para nos referir a questões que bem poderiam ser descritas por palavras mais acessíveis. Estamos advertidos de que precisamos adaptar nossas linguagens ao contexto a fim de favorecer a compreensão mútua, mas deparar-se com o estranhamento evocado ao enunciar uma palavra estrangeira a um grupo de pessoas evoca uma desterritorialização necessária à Psicologia e seus atores.

O estranhamento, para Jorge da Cunha e Joana Röwer (2014, p. 28), “não é somente do outro, mas também de si. O espanto também acontece em situações que vivenciamos e diante de nossas próprias atitudes”, considerando que este é o movimento que pode gerar outros modos de se relacionar e de trabalhar. Este estranhar, colocado em movimento, nos acompanha para experimentar os encontros, levando-nos a nos depararmos com a incerteza a respeito de como podemos intervir nestes contextos e, ao mesmo tempo, vislumbrando a necessidade de uma composição. Logo tivemos indícios de que havia muito a conversar, a partir dos nossos diferentes lugares.

A escuta, portanto, foi a via para propiciar a composição entre agricultoras, agricultores e profissionais da saúde que se aproximavam e, desse modo, ofereceu-se como acesso aos afetos, às palavras, à memória do que se tecia naqueles e a partir daqueles dias. Memória que trazia a perplexidade, a solidariedade e também as circunstâncias traumáticas da inundação e de suas águas que só há poucas semanas retornavam ao seu curso regular. Nesse difícil período, outras memórias ressurgiram, de décadas de luta pela terra, de conflitos, de alegrias e de muito trabalho. Registros postos em palavras: falar e trazer como testemunho também pode possibilitar a ressignificação dos modos de sentir e estar nesse mundo em destruição. Walter Benjamin (1987) já nos indicou que trazer memória e testemunho sobre o que nos aconteceu é o modo de possibilitar um novo conceito de história afeito ao trânsito por certa inconclusão, e também à certa revolução por permitir uma confrontação com o presente - muitas vezes, intolerável. Podemos, assim, investir em uma história como testemunho de um pensamento que se apresenta como “arborescência de alternativas” (Löwy, 2005, p. 147); abertura a possibilidades indefinidas, criação de possíveis a ser privilegiada.

Testemunhar as histórias das vidas multiespécies arrastadas pelas águas na calamidade que nos atingira, fez-se então, caminho para contribuir no cultivo de uma herança. Herança que trabalhadoras(es) rurais guardam de suas batalhas travadas ao longo de mais de 30 anos de luta pela terra e de infortúnios climáticos, entre outros. Testemunho que se fez por meio da narração de como os enfrentaram, de suas estratégias empregadas para continuarem “vivos” na vida. Testemunhas de aspectos de uma história não oficial capaz de fortalecer um certo sentido de coletividade na catástrofe, como indica Jeanne Marie Gagnebin (2013), justamente por fazer-se ali, no limiar preciso, de um invivível narrado que era possibilitado pela abertura de histórias nas itinerâncias pelas áreas de cultivo.

Transversalizando o pensar sobre esta inserção da psicologia em um contexto rural, é necessário demarcarmos as raízes históricas e os inúmeros conflitos articulados ao campo no Brasil. A realidade nos diz sobre um dos maiores índices de desigualdade social e de concentração de terra do mundo, que tem em sua origem a história colonial de constituição do país, onde a implantação de um modelo de produção, que visava alimentar o mercado europeu, baseado na apropriação dos bens naturais, visando a mercantilização, o lucro e a acumulação de capital, promoveu a concentração da produção e consequentemente das riquezas. Além disso, o exercício do monopólio das terras, inicialmente pela Coroa Portuguesa e, em seguida, pelos grandes latifundiários, teve como objetivo a exploração econômica e tornar a terra um produto de difícil acesso (Ronzani et al., 2021).

Ainda que o campo das ruralidades possa e deva trazer questões à Psicologia, é necessário atentarmos ao manejo que fazemos desse constructo binário urbano-rural em nossas análises. Segundo os autores, na virada do século XIX para o XX, quando o rural emergiu como um objeto de estudo, ele surgiu como sinônimo de algo “atrasado, tradicional, selvagem, incivilizado, resistente a mudanças” (Moreira, 2005, p. 19, citado por Silva & Macedo, 2017) - em contraposição ao meio urbano, que era tido como o centro da civilidade e da modernidade (Carmo, 2019, citado por Silva & Macedo, 2017). Apesar de que, aos poucos, essa dicotomia venha sendo contestada, podemos indagar o que resta em nós e no imaginário social dessa concepção dualista que coloca o urbano como superior? Superior em quê? Em consumo desenfreado como critério de desenvolvimento?

De algum modo, podemos considerar que a população para a qual se direcionou nossa ação de extensão é uma população que não pode ser simplesmente definida pelo termo “rural”. Trata-se de uma comunidade bastante heterogênea, com pessoas vindas de diversos contextos e cidades do Rio Grande do Sul, algumas mais alinhadas à lógica do cultivo agroflorestal, mas todas com uma preocupação ecológica e uma aversão aos modos tradicionais de agricultura com a utilização de insumos químicos. Talvez pudessem ser melhor identificadas a partir da categoria dos “novos rurais”, ou ainda a partir de uma concepção relacional entre urbano-rural em que ambas as partes, apesar de manterem suas especificidades, são compostas por uma continuidade que se manifesta através de questões de cunho transversal. Dentre as questões transversais que perpassam tanto a experiência urbana quanto a rural, talvez a principal delas seja os desafios que o Novo Regime Climático nos impõe, como diz Bruno Latour (2020). Ou seja, mais do que buscar colocar sob o domínio da análise da Psicologia o âmbito rural, interessa-nos olhar para o necessário estranhamento da urbanidade constituinte da Psicologia e de nossas perspectivas enquanto psicólogas(os) quando esta vai ao encontro de uma determinada ruralidade (agroecologistas assentados); e como os modos de vida urbanos compõem parte do arranjo de coisas que contribuem para a produção desse Novo Regime Climático, junto aos impactos hegemônicos já mapeados dos setores produtivos da agropecuária e da agricultura extensiva.

Latour (2020) indica que não deveríamos nos referir ao que estamos vivendo como “crise climática”, visto que o termo poderia nos conduzir a uma suposição de que se trata de algo passageiro. Assim, o autor defende que vivemos um Novo Regime Climático, momento em que o solo supostamente estático no qual se desenrolaram as narrativas modernas torna-se instável, exigindo que, a partir de então, seja incluído “na política o que antigamente pertencia à natureza” (Latour, 2020, p. 18). Trata-se, portanto, de uma nova política que nos exige pensar as mutações climáticas como um problema central para a nossa existência.

Migrantes, refugiados climáticos e demais afetados, direta ou indiretamente pelos eventos climáticos extremos constituem uma nova intersecção que reforça e complexifica os marcadores sociais da diferença já constituídos. Curiosa paradoxalidade apontada por Latour (2020, p. 67): os elementos relativos ao dito “meio ambiente” apenas se tornaram problema em nossas análises quando se viram ameaçados de desaparecer. Estamos, aos poucos, dando-nos conta de que os elementos ditos “externos” ou “extrapsíquicos” exercem uma força intra-ativa, no sentido de Karen Barad (2017), na constituição dos sujeitos psíquicos, ao ponto de as externalidades serem imprescindíveis em nossas análises. Porém, ainda estamos tentando nos livrar dos impasses das dicotomias modernas que definiram termos opostos: sujeito e objeto, natureza e cultura, interno e externo, urbano e rural, entre outras. Dentro da contestação e desestabilização dessas categorias, a relacionalidade surge como alternativa à oposicionalidade. Dessa maneira, Haraway, inspirada em Alfred North Whitehead e Marilyn Strathern, vai sustentar que nenhum ser preexiste às suas relações: “Não existem sujeitos e objetos pré-constituídos nem fontes únicas, atores individuais ou finais definitivos” (2021, p. 15). Existem seres que constituem uns aos outros e a si mesmos através de suas “preensões”, ou seja, espécies que se produzem mutuamente, aquilo que a autora define como “espécies companheiras”. As espécies companheiras estabelecem “conexões parciais” com suas alteridades significativas, “padrões nos quais os atores não são nem todo nem parte” (p. 17).

No contexto do livro Manifesto das Espécies Companheiras, Haraway busca explorar como poderíamos aprender através da relação entre humanos e cachorros “uma ética e uma política comprometidas com o florescimento de alteridade(s) significativa(s)” (p. 11). Inspirados nessas reflexões, questionamos aqui quais os efeitos em termos dos processos de saúde e adoecimento mental, de sustentarmos uma ética comprometida com o florescimento de alteridades significativas - e para além de alteridades canídeas, até o dito inanimado, se quisermos - frente aos desafios colocados por um Novo Regime Climático. O que se configura enquanto alteridade significativa para humanos citadinos afetados por eventos climáticos extremos e para humanos rurais que trabalham na perspectiva agroecológica? E como isso afeta a saúde mental? O luto se torna um desafio ainda maior para aqueles que sustentam relações que comportam alteridades significativas, o luto passa a ser também pelas árvores, pelas mudas, pelo fermento, pelo porco, pelas galinhas, pela terra.

Em contrapartida, de que modo estabelecer relações de alteridade significativa mais restritas (a pequenos círculos afetivo-familiares, por exemplo) nos “protege” do sofrimento? E em que medida tal posição poderia ser lida como um fechamento narcísico que, inclusive, contribui para o desastre climático-antropocêntrico? Talvez a consideração pela abrangência do que é tido como alteridade significativa possa ser um analisador para pensarmos em que medida nossas subjetividades participam de arranjos afetivos indiferentes às catástrofes ancestrais e cotidianas.

Para fazer frente ao Capitaloceno - que codifica todas as relações existentes a partir da lógica do lucro - e ao Antropoceno - essa era cujos efeitos decorrem de velhas máximas da filosofia ocidental, como excepcionalismo humano e outras criações modernas (Haraway, 2023) - será necessário narrar as histórias das relações em que humanos e não-humanos constituem-se como alteridades significativas que vivem e morrem juntos. Curiosamente, em nossa ação, por mais que tivéssemos essas ideias em mente, as narrativas que foram sendo trazidas pelos participantes pareciam partir desse pressuposto. Era nítido que um dos desafios que afetam a saúde mental desse grupo de pessoas tem a ver com o fato de eles terem sido obrigados a deixar espécies companheiras para trás no momento em que foram resgatados - cenas como essa surgiram reiteradamente nos nossos encontros. Nesse sentido, nossa aposta foi que, para aquelas pessoas, falar sobre essas relações multiespecíficas - embora não utilizassem esses termos - era parte fundamental do trabalho em saúde mental a ser realizado.

4. Uma experiência, uma semente: considerações finais

Este texto-dispositivo tem em sua tônica os afetos mobilizados pelo recente abalo sofrido pela população gaúcha que enfrentou a maior calamidade climática de sua história, nas enchentes ocorridas em abril, maio e junho do ano de 2024. Esses emergem dessa calamidade e por meio de uma ação mobilizada entre Universidade e segmentos envolvidos com Movimentos Sociais, vinculados à agroecologia na cidade de Porto Alegre e região metropolitana. Trabalhadoras e trabalhadores rurais sofreram fortemente as consequências de uma política de “exaurimento” do Planeta pelas investidas capitalísticas e neoliberais que só fazem robustecer, a despeito de que sua verve laboral seja, justamente, a de se relacionar com ele, com o Planeta, na perspectiva da comunhão e não de recurso a ser extraído. Casas, centros de produção, cooperativas de alimentos, hortas, histórias e sonhos foram arrastados pelas águas transbordantes que, ao escoarem furiosamente, gritaram a falta de manutenção, pelas gestões municipal e estadual, dos equipamentos que deveriam funcionar para contê-las em seu curso amistoso pelos rios. Compartilhamos elementos, em tom ensaístico, a respeito de uma estratégia de intervenção na qual estamos apostando, para colocar em questão elementos pertinentes à especificidade do segmento rural que fazem questão aos fazeres da psicologia.

No percurso da ação, escutamos vozes humanas e não humanas, pois as dores contadas por aquelas pessoas não eram apenas delas, eram do meio multiespécie que habitam. O choro dos animais tentando se salvar do afogamento iminente convertia-se no próprio choro e desespero por sobrevivência. Essa escuta se fez, também, pelo som das folhas eclodindo da terra através das mudas replantadas em meio ao solo castigado, essas composições nos educaram: se produz saúde quando (re)floresce e se compartilha o mundo com outros viventes. Voltar a plantar, a cultivar é quase um imperativo para aquelas pessoas que, em “esforço psíquico-terreno”, colocam-se a se movimentar, ainda que por entre incertezas, até mesmo se esse território pode continuar a ser considerado hospitaleiro. Os fluxos migratórios devido às condições climáticas já são uma realidade, histórias de vida e de luta pela terra começam a sofrer injunções que carecem de nossa atenção, já que produzir uma memória desses trajetos nos permitirá robustecer as lutas que virão, alimentando uma ideia da Terra como algo que nos é comum, nossa condição comum.

Cartografar esses trajetos de luta e recomeço, na tentativa de continuar a fazer um mundo para existir, haverá de indicar para a Psicologia enquanto campo de saber, o que ela pode. Basta que se abra a sua própria crítica, a sua própria porosidade para emergir por entre os desafios de nosso tempo.

Notas

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.

Referências

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  • Editor científico
    Dr. Cristiano Hamann

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Jul 2025
  • Revisado
    20 Out 2025
  • Aceito
    25 Out 2025
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