Open-access SUBJETIVAÇÕES DE PERDAS NA VELHICE: TENSÕES TERRITORIAIS COEXISTENTES

SUBJETIVACIÓN DE LAS PÉRDIDAS EN LA VEJEZ: TENSIONES TERRITORIALES COEXISTENTES

SUBJECTIVATION OF LOSSES IN OLD AGE: COEXISTING TERRITORIAL TENSIONS

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar as subjetivações de idosos institucionalizados, com foco nas potências de vida que emergem das resistências às perdas na senescência. Trata-se do desdobramento de uma tese de doutorado, realizada numa instituição de longa permanência para idosos, que adotou a cartografia como método. Para a análise, foram desmembradas falas de duas idosas participantes da pesquisa. Os resultados apontam que as subjetivações das perdas são influenciadas pelas dimensões culturais, econômicas e sociais que atravessam a invenção da velhice, implicadas por razões governamentais que naturalizam as perdas na senescência. Tais movimentos ocorrem em contextos diferentes do território físico das tensões coexistentes ao território-vivo da busca de sentido, deslocando as pessoas idosas institucionalizadas para um estado de morrimento social. Todavia, na contramão dessas tensões, coexistem potências de vida, que se configuram por desterritorializações próprias dos movimentos de resistências empreendidas pelas pessoas idosas.

Palavras-chave:
Subjetivações; Perdas; Pessoa idosa; Resistências; Cartografia

Resumen

Este artículo tiene como objetivo analizar las subjetivaciones de las personas mayores institucionalizadas, centrándose en las potencialidades vitales que surgen de la resistencia a las pérdidas en la senescencia. Este es el desarrollo de una tesis doctoral realizada en una institución de atención a personas mayores, que adoptó la cartografía como método. Para el análisis, se separaron las declaraciones de dos mujeres mayores que participaron en el estudio. Los resultados indican que las subjetivaciones de las pérdidas se ven influenciadas por las dimensiones culturales, económicas y sociales que permean la invención de la vejez, implícitas en las políticas gubernamentales que naturalizan las pérdidas en la senescencia. Estos movimientos ocurren en contextos distintos del territorio físico de tensiones coexistentes y del territorio vital de la búsqueda de significado, desplazando a las personas mayores institucionalizadas a un estado de muerte social. Sin embargo, en contraste con estas tensiones, coexisten potencialidades vitales moldeadas por las desterritorializaciones inherentes a los movimientos de resistencia protagonizados por personas mayores.

Palabras clave:
Subjetivaciones; Pérdidas; Anciano; Resistencias; Cartografía

Abstract

This article aims to analyze the subjectivations of institutionalized elderly people, focusing on the life potentialities that emerge from resistance to losses in senescence. This is the development of a doctoral thesis, carried out in a long-term care institution for the elderly, which adopted cartography as a method. For the analysis, statements from two elderly women participating in the research were separated. The results indicate that the subjectivation of losses is influenced by the cultural, economic and social dimensions that permeate the invention of old age, implied by governmental reasons that naturalize losses in senescence. These movements occur in contexts different from the physical territory of coexisting tensions to the living territory of the search for meaning, displacing institutionalized elderly people to a state of social death. However, in contrast to these tensions, life potentials coexist, configured by deterritorializations inherent in the resistance movements undertaken by elderly people.

Keywords:
Subjectivations; Losses; Elderly; Resistances; Cartography

Subjetivações de perdas na velhice: movimento introdutório

Problematizar as perdas enfrentadas por pessoas idosas institucionalizadas é um movimento ético, político e humano que envolve um retorno à invenção da velhice para compreender as tensões territoriais coexistentes que influenciam os modos de subjetivações do idoso. Ocorre que as subjetivações da pessoa idosa são marcadas por discursos excludentes e limitantes no que concerne ao lugar de fala enquanto sujeito político e social. Sendo assim, faz-se uma análise das dimensões histórico-culturais e socioeconômicas, refletindo sobre as implicações destas no território-vivo em que se dão as subjetivações do idoso institucionalizado.

Neste artigo, fazemos o desmembramento das falas de duas idosas participantes, para realizar uma análise com o olhar voltado para as linhas e dobras que envolvem a invenção da velhice e as implicações para as subjetivações das perdas da pessoa idosa institucionalizada, sob uma perspectiva foucaultiana.

Vale lembrar que, na cartografia, o pesquisador constrói o mapa acompanhando os caminhos que se tecem no percurso (Morin, 2005). Sendo assim, nesta pesquisa, o movimento cartográfico se deu pelo mapeamento de territórios atravessados por linhas sedimentares que compõem as vivências de idosos institucionalizados sobre perdas. Para tanto, acompanhamos os processos de subjetivações de perdas no envelhecimento e nos envolvemos nas tramas que compõem os movimentos de desterritorializações rizomáticas produzidas em ato pelos participantes e pela pesquisadora proponente deste estudo.

Cabe lembrar que se compreende por rizoma as linhas processuais que se movimentam de forma a não se prenderem pelo caminho, isto é, as pontas dessas linhas não se definem por início ou fim, uma vez que seguem agenciando novos arranjos processuais e procurando passagens, sendo as subjetivações produzidas nesse percurso o próprio território (Deleuze & Guattari, 1995), no qual as “... linhas ora se estratificam em formas, ora permanecem fluidas como potência” (Barreto et al., 2020, p. 52).

Nesse contexto, “o rizoma expressa-se nos territórios, que, apesar de dinâmicos e mutantes, permitem-se mapear e se deslocam pelas forças que o atravessam (Barreto et al., 2020, p. 52)”. É nesse movimento que se dá a desterritorialização, processo em que ocorrem os esforços de saída do território de subjetivações (Haesbaert, 2006) a fim de se permitir mudanças transformadoras agenciadas por potências que surgem em meio a resistências para se redesenhar, performando (re)existências (Vivar & Kawahala, 2017).

A pesquisa, realizada entre março e maio de 2023 em uma instituição de longa permanência para idosos em Teresina-PI, envolveu participantes com 60 anos ou mais, excluindo aqueles com sintomas de demência identificados pelo MEEM (Melo & Barbosa, 2015). O TCLE foi assinado após esclarecimentos.

A amostra incluiu 9 mulheres e 4 homens, distribuídos em três faixas etárias: 60-75 anos (5 idosos), 75-90 anos (6 idosos) e 90-105 anos (2 idosos). Para preservar o anonimato, foram usados nomes fictícios nas pistas cartográficas.

A produção dos dados ocorreu em duas etapas. Primeiro, aplicou-se o “Teste de Associação Livre de Palavras” (TALP), estimulando respostas criativas dos participantes (Nóbrega & Coutinho, 2003). Na segunda etapa, foram realizados 10 encontros intercalados, nos quais acompanhamos subjetivações e registramos observações em diário de campo. Seguindo esses passos, a cartografia mapeou vivências de 13 idosos, resultando em dois artigos. Este artigo destaca falas de duas idosas cujas experiências representaram potência de vida, em contraste com o morrimento social dos demais participantes.

A pesquisa foi aprovada pelo Conselho de Ética em Pesquisas (CEP) da Universidade de Santa Cruz do Sul/RS (parecer CAAE: 54477221.8.0000.5343).

O artigo articula dimensões histórico-culturais e socioeconômicas da subjetivação da velhice, situando o século XIX como marco das transformações culturais da invenção da velhice. Em seguida, analisa as tensões coexistentes às subjetivações, dialogando com os territórios físico, espaço-processo e existencial das perdas.

1. Movimento teórico metodológico

A pesquisa cartográfica carrega afetos e conhecimentos acerca do objeto e da transformação dos pesquisados e do pesquisador, havendo um imbricamento destes com o processo e com os resultados produzidos (Passos & Barros, 2015). Nesse movimento, o pesquisador não tem a pretensão de apontar verdades que se pretendem evidenciar, mas tão somente acompanhar as produções que se movimentam, se entrecruzam e se desterritorializam por linhas de fuga (Passos et al., 2015).

A análise feita neste estudo contorna o que Teixeira (2016) nomeou de morrimentos, a fim de problematizar as vivências no cenário de perdas. Do sentido dado a esse termo, ancoramo-nos em Teixeira (2016) para nomear de morrimentos sociais o que queremos localizar como sendo o rizoma raiz das perdas de pessoas idosas institucionalizadas, a partir da analítica que se faz dos atravessamentos dados por discursos das produções dos corpos velhos e do que cabe a eles, segundo a ótica neoliberal. Assim, na tentativa de “dar a ver” o que fomos capazes de perceber em nossa andança cartográfica, o que se faz é ficar atento às pontas soltas, aos movimentos tensionados pelos pesquisados, aos “nós” e aos “eus” que andam juntos no processo de subjetivações.

Nessa direção, para defender o termo morrimentos sociais, recorremos a Michel Foucault para buscar compreender as relações de poder tensionadas no rizoma das perdas no envelhecimento. Em “Do governo dos vivos”, Foucault refere que “por detrás de todas as relações de poder existe, em última instância, qualquer coisa como um núcleo de violência e que, ao se despir o poder de seus adornos, é o jogo nu da vida e da morte que se encontrará” (Foucault, 1979-1980/2009, p. 29).

Em busca de melhor compreender o território existencial das produções de subjetivações do idoso acerca das perdas, é importante lembrar que o poder produz corpos governáveis. “Quando se fala da cidade que se governa ... não é, portanto, a cidade como estrutura política, mas as pessoas, indivíduos ou coletividade. Os homens é que são governados” (Foucault, 1977-1978/2008, p. 164). Por isso, “invertendo a lógica das coisas, o propósito desta imanência desloca-se das condições ligadas à própria prática governamental para a população, objeto e meta privilegiada e singular das ações do governo” (Santos, 2010, p. 204).

Nessa trama, as “(bio)políticas atuam produzindo condições políticas, culturais e econômicas nas quais pessoas consideradas idosas vivenciam suas experiências, mediadas por noções de saúde, produtividade, sexualidade, família, independência e demais interfaces do sujeito” (Silva Pocahy, 2021, p. 328).

Assim, as biopolíticas se tornam objeto do exercício do biopoder e atuam sobre os corpos por lógicas econômicas, de modo a gerir suas produtividades por razões governamentais orientadas pelo sucesso individualizado, em que tem mais valor quem produz mais (Foucault, 2006; Schramm, 2014).

Nesses termos, a invenção da velhice é agenciada por relações de poder excludentes do corpo em desaceleração produtiva. Com base nas ideais de Foucault (1995), divulgadas em “O Sujeito e o Poder”, podemos dizer que a produção do sujeito idoso deriva das relações de poder circulantes e dos discursos de verdade sobre o envelhecimento.

O biopoder, dessa forma, controla os corpos e dita as suas limitações, nomeando o sujeito conforme a força produtiva e a saúde direcionada às fases de vida. Assim, a pessoa idosa cada vez mais se distancia do modelo de corpos servíveis aos interesses neoliberais e é empurrada às bordas da sociedade; além disso, aos poucos, é cooptada para um estado de morrimento social.

Nessa perspectiva, problematizamos os modos de subjetivações no contexto das perdas, com o olhar voltado para as razões governamentais implicadas; sem, no entanto, esquecermo-nos das potências de vida que emergem das resistências tensionadas no território das subjetivações (Vivar & Kawahala, 2017).

2. Território histórico-cultural das subjetivações da velhice

Historicamente, as transformações nas sociedades ocidentais se dividem em três momentos, quais sejam: (i) pré-modernidade – período em que a idade cronológica não assumia tanta importância do ponto de vista determinante do status familiar e que, portanto, o idoso não se mantinha à margem familiar; (ii) a modernidade – período em que ocorre a separação cronológica da vida e inicia a definição dos papéis sociais e familiares, conforme as faixas etárias e o poder produtivo de cada membro; e (iii) pós-modernidade – período em que se inicia a desconstrução dos valores da modernidade para ceder lugar à valorização do corpo, máquina produtora servível aos interesses capitalistas (Debert, 2020; Schneider & Irigaray, 2008) neoliberais.

Nesse cenário, a velhice começa a declinar socialmente em meados do século XIX (Schneider & Irigaray, 2008). Desde o capitalismo da Revolução Industrial — que emplacou as políticas e direitos trabalhistas no século XIX — à transição para o neoliberalismo que teve início no século XX, temos acompanhado transformações culturais nos modos de subjetivações do envelhecimento (Bernardinelli et al., 2023) que implicam em perdas.

Embora esses movimentos tenham garantido direitos trabalhistas, como a aposentadoria, também contribuíram para a morte social do “velho” (Bernardinelli et al., 2023), reforçando a imagem do declínio físico e da necessidade de descanso. Com isso, o idoso foi gradualmente deslocado para a periferia da sociedade produtiva (Schneider & Irigaray, 2008), excluído das dinâmicas do mercado capitalista.

Para compreender as transformações culturais na velhice, é essencial observar as relações entre os territórios físico, espaço-processo e existencial, que influenciam a subjetivação do idoso, não apenas no tempo, mas também na interação entre territórios e resistência em busca de sentido.

O território físico refere-se ao ambiente material e seus limites; o território espaço-processo abrange as relações socioculturais estabelecidas; e o território existencial compreende as conexões humanas que produzem subjetivações e o cuidado de si (Brasil, 2018).

Essas três dimensões territoriais coexistem e fazem parte da dinâmica de territorialização e de desterritorialização de subjetivações, que se dão por movimentos de resistências e (re) existências (Brasil, 2018). Para idosos institucionalizados, essas tensões não ocorrem com as mesmas dobras e linhas que compõem o rizoma existencial das subjetivações produzidas com a convivência de entes queridos. Afinal, o território físico “Instituição de Longa Permanência para Idosos” (ILPI) é diferente do território físico “residência familiar”, o que modifica o contexto micropolítico em que se dão as relações intersubjetivas que fazem composição com o território espaço-processo. Nessas condições, modificam-se as linhas e dobras que compõem o mapa do território existencial da pessoa idosa institucionalizada, implicando em subjetivações marcadas pela especificidade das tensões territoriais coexistentes, nas quais o território físico das tensões é estranho ao ambiente familiar.

Dessa forma, as subjetivações de idosos institucionalizados ocorrem em espaços micropolíticos diferentes. Para idosos em situação de vulnerabilidade que não tiveram outra opção senão utilizar os serviços dessas casas, as subjetivações coexistem em meio a tensões socioeconômicas, políticas e culturais alheias às suas vontades, considerando que não convivem em ambiente familiar.

As tensões coexistentes nos territórios físico, espaço-processo e existencial constituem o território-vivo das relações que atravessam as subjetivações e, nessas condições, sendo que, para idosos institucionalizados, as tensões ocorrem em território físico da ILPI, modificando o contexto do território-vivo das subjetivações. É nesta teia que se produzem as relações de exclusão, de violência, de vulnerabilidades, mas também de oportunidades, de potências e de resistências em busca de sentidos (Romagnoli & Silva, 2022).

3. Território socioeconômico das subjetivações da velhice

A invenção da velhice tem múltiplas faces. Se, por um lado, tem-se a ideia do direito ao descanso e ao envelhecimento saudável, dentre outras expectativas geradas com os programas de políticas de atenção ao idoso; por outro, o processo de envelhecimento seguiu direções contrárias aos interesses da sociedade capitalista, sendo a pessoa idosa empurrada ao descarte (Schneider & Irigaray, 2008).

As políticas de aposentadoria do século XIX contribuíram para a visão negativa da velhice, associando-a a perdas e dependências que afastam o idoso do trabalho (Debert, 1997, 1998, 2020). Com o avanço do capitalismo, surgiu a ideia de rejuvenescimento, onde envelhecer passou a ser visto como falta de cuidado de si (Debert, 2020), acessível apenas aos economicamente privilegiados (Castro, 2021).

Muitos idosos, sobretudo os mais vulneráveis e institucionalizados (Bernardinelli et al., 2023), enfrentam sucessivas perdas e dificuldades para acessar tecnologias do mercado. Com isso, foram sendo empurrados para a periferia dos interesses capitalistas (Debert, 1998, 2020), em um ciclo que os responsabiliza pela negligência ao próprio corpo e os exclui das políticas de envelhecimento ativo e saudável (Debert, 2020).

Com base nisso, as subjetivações do envelhecimento são atravessadas por discursos neoliberais que atuam como dispositivo naturalizante da pessoa idosa improdutiva e economicamente menos favorecida, aclarando as desigualdades sociais (Bernardinelli et al., 2023; Castro, 2021; Debert, 2020; Schneider & Irigaray, 2008), e naturalizando as perdas na senescência para maquiar exclusões do ponto de vista cultural, econômico e social (Debert & Simões, 1998).

Nesse sentido, para os idosos institucionalizados, as perdas ocorrem em contextos diferentes no que refere ao território físico das tensões coexistentes ao território-vivo da busca de sentido, influenciando, sobremaneira, as subjetivações.

4. Território existencial das subjetivações das perdas

Logo nos primeiros encontros, observamos dois casais de idosos namorando. Nesse contexto, o território existencial das perdas é analisado, nos subitens 4.1 e 4.2, a partir do recorte de vivências desses idosos.

4.1 O jardim de Tulipa

No segundo encontro, Tulipa nos convidou para um passeio no jardim. Era uma idosa cheia de vida. E o nosso pensamento voltou-se para como abordar as perdas com uma pessoa cheia de vida. Era necessário ficar atenta às linhas que se formariam no território existencial de Tulipa naquele momento.

Naquele dia, a coordenadora do abrigo nos avistou saindo para o jardim na companhia de Tulipa e proferiu a seguinte fala: “Essa idosa faz sua própria rotina e não aceita que lhe digam o que fazer. Hoje tem atividade com outro grupo de pesquisadores, mas ela parece não querer participar, então podem ir”.

Durante o passeio, Tulipa mostrava as plantas e flores como se tivesse em casa. O jardim era como um refúgio em que Tulipa acionava lembranças familiares, esquecendo, por alguns instantes, que estava longe de casa. Passado algum tempo, como se de repente novamente ela tivesse se dado conta de onde estava, disse: “Quero lhe dizer que estou bem triste porque meu filho me deixou aqui e nunca mais voltou para me pegar. Quero que você fale com esse pessoal daqui. Diga que sei onde moro e posso voltar sozinha”. Diante dessa fala, perguntamos: “Onde você mora, então?”. Tulipa informou sua cidade de origem e continuou com a seguinte fala: “Minha casa tem mais flores do que aqui, as plantas têm frutas para pegar no pé e eu sei a hora de colher”. Depois dessa declaração, encerramos o encontro. Isso nos fez pensar como aquelas informações iriam compor a tese.

No terceiro encontro, procuramos por Tulipa novamente. Nesse contato, ela disse: “Hoje, não estou disposta, porque estou a sofrer pelo namorado, ontem ele se declarou para outra, e eu pensei que ele gostasse de mim e até fosse me tirar desse lugar”. Tulipa namorava Astilbe.

Naquele momento, veio a lembrança do jardim e, prontamente, dissemos: “Vamos ao jar-dim, então”. Saímos. Conversamos cerca de uma hora na praça do jardim e, então, Tulipa nos convidou para regar as plantas. Ficamos observando-a puxar as folhas e os galhos secos no jardim, catar flores e regar as plantas. Era quase hora do almoço e precisávamos cumprir as regras da instituição parceira, para não interferir na rotina do abrigo. Em dado momento, convidamos Tulipa para retornar ao pátio principal. Então, ela disse: “Você precisa deixar de pressa, as flores escutam e sentem. Para elas, existe vida na morte, e elas agora estão felizes porque devolvi a vida quando retirei o que estava morto nelas. Vamos ficar aqui com as flores, aqui agora tem vida. Você nunca cuidou de planta? Como pensa que é doutora sem saber cuidar das plantas? Se você cuidar das plantas vai perceber que elas ensinam a viver. Quando chegamos aqui, estavam mortas, e agora estão vivas. É preciso conhecer a morte para saber da vida, e saber viver para não morrer”.

Diante daquilo que ouvimos, lançamos a seguinte resposta à Tulipa: “Não sou doutora, estou aqui para aprender”. Ela riu e foi logo dizendo que ia ensinar tudo sobre jardins.

Tinha um lado do jardim que não tínhamos passado ainda, então, ela nos indicou olharmos para o outro lado e disse: “Veja, aquelas flores de lá estão mortas porque não tem vida perto delas, e estas aqui estão vivas porque estamos dando vida a elas, e assim são as pessoas, se eu estivesse com a minha família, estaria viva para elas e iria tirar a morte de perto delas. É assim que é, mas não tenho mais a minha família, apenas as flores daqui”. Tulipa, em seguida, fez um instante de silêncio, seu semblante pareceu triste, e os olhos ficaram lacrimejantes. Restou-nos compreender que aquela era a forma que Tulipa havia encontrado para responder à nossa indagação sobre o que ela tinha a dizer sobre o luto.

Aquele jardim acionava muitas lembranças para Tulipa, e não dávamos conta de compreender toda aquela potência, tampouco se as linhas que traçamos em nosso mapa de pesquisa enganavam nossos olhos e sentidos. Era muito cedo, e precisávamos registrar os traçados complementares para chegar em algum lugar. Então, para Tulipa, era possível devolver vida ao que estava morto, e nós não entendíamos nada sobre a vida porque não entendíamos sobre a morte. Aquilo atravessou as linhas duras em nós, e começávamos a compreender que era melhor sermos bons aprendizes.

Anotamos tudo no diário. E nos veio vários pensamentos. Tulipa havia encontrado uma forma de desterritorialização, agenciando linhas de fuga que lhe permitiam os atravessamentos do território existencial emanado por linhas duras, e se movimentava por linhas fluidas para se fazer potência em ato. A resposta de Tulipa dizia que aquela era a forma que ela havia encontrado para o enfrentamento das perdas. Tulipa estava longe da família, mas lutava para retornar. E, enquanto este dia não chegava, ela seguia agenciando vida todas as vezes que ia ao jardim. Naquele momento, compreendemos que o “jardim de Tulipa” era também o lugar de não deixar morrer os sonhos, a vida e a família. Ela fazia viver os sonhos para não morrer a vida.

Tulipa era vaidosa e gostava de pintar as unhas, fazer penteados e falar dos pretendentes a namorados. Certo dia, ela nos mostrou as unhas pintadas com tanto orgulho e falou: “Quando eu sair daqui [ela falava do abrigo], quero voltar a apanhar frutas no pé, e ficar sempre pronta para quando um rapaz me procurar”. Ela namorava Astilbe, mas já estava de olho em outro, e falava sobre isso abertamente, de modo que os cuidadores sabiam dos planos de Tulipa e admiravam a idosa por isso. Astilbe sabia e tinha ciúmes, mas, para Tulipa, fazer ciúmes a ele fazia parte do seu plano para pressionar ele a tirar ela daquele local. A ILPI era vista por Tulipa como uma prisão, e o jardim era o único lugar para onde ela podia fugir. Era o seu refúgio. Importante registrar que a coordenação do local e todos os funcionários com quem tivemos contato se esforçaram para que os idosos/as se sentissem em casa. E isso ficava muito perceptível.

As contribuições de Tulipa para o nosso aprendizado foram muitas. Como ela mesmo referiu: “Tinha muito a me ensinar”. Imagina, o quanto foi interessante descobrir que a entrada no campo seria transformadora para mim. Alguns cuidadores que trabalham na instituição parceira haviam nos prevenido que Tulipa não respondia a perguntas no tempo de quem se dirigia a ela, mas sim que tinha uma resposta rebelde quando decidia. A aposta da coordenação era que nós não teríamos sucesso ao tentar nos aproximar de Tulipa com o intuito de adquirir respostas ao Teste de Associação Livre de Palavras ou a qualquer outro dispositivo que levassem às produções dos dados para a pesquisa.

Em “Vigiar e Punir”, Foucault (1975/2014) introduz o princípio da localização imediata para uma analítica do poder praticado sobre os corpos. Por esta dinâmica, mantém-se a disciplina do sujeito, ao tempo em que é delimitado o lugar de ocupação de cada um. Partindo desse princípio, e a partir do acompanhamento das vivências do idoso, é que a pesquisadora cartografa as linhas sedimentares, excludentes e aprisionantes, que, atravessadas por discursos de saber-poder, produzem “pretensas verdades a partir de espaços de quadriculamento marginal” (Borges, 2015, p. 110), que individualiza o sujeito idoso para separá-lo da parcela social produtiva, jovem e saudável. Visto por lentes foucaultianas, às práticas de quadriculamento,

... importa estabelecer as presenças e as ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico (Foucault, 1979/2010, p. 138).

Nessa perspectiva, recorremos a Foucault a fim de afirmar que Tulipa era o exemplo in-verso do que se pode dizer sobre sujeito que aceita o quadriculamento operado pelo biopoder. Após dias de tensionamentos em busca de descrever as linhas que compunham Tulipa, eis que chegamos à análise de que poderíamos descrevê-la como resistência, como potência de vida, como inquadriculável.

Estava claro que Tulipa havia encontrado outras formas de enfrentar as perdas. Lembrando que as perdas (tratadas aqui) não se localizam apenas no luto por perdas dos entes queridos, mas na soma diária das perdas que enfrentamos ao longo da vida. Tulipa era mistura de dor e amor, vida e morte, potência e desinvestimento, podendo ser compreendida pela perspectiva de que a vida, assim como o sofrimento, “é um devir, mudança constante” e, “... em meio às dores e ao sofrimento, a afirmação dela é necessária para o crescimento e manifestação da vontade de potência, instrumento de autossuperação de si” (Bianchini, 2022, p. 43).

Tulipa sofria as perdas dos familiares mortos, dos familiares vivos que estavam apartados dela pelo espaço vivencial e do namoro que não ia bem, mas encontrava vida, se fazia vida e devir de acontecimentos outros. Em outras palavras, Tulipa não cabia na caixa e resistia, tentando arrancar da vida tudo que lhe restava, e não aceitava o montante de regras impostas, nem mesmo as regras do abrigo. Era sábio dizer que, para Tulipa, “... se sofrer faz parte da vida, sofrer também é viver ...”, e “... viver a cada instante, com toda a intensidade, é a vontade de potência no seu mais alto grau” (Bianchini, 2022, p. 43). Assim, por resistência, Tulipa se fez potência e acreditava encontrar uma resposta no jardim para viver intensamente o sofrimento e a vontade de viver.

4.2 O luto pelos cabelos vermelhos de Girassol

Girassol namorava com o Agerato e relatava estar apaixonada. Os dois eram só alegria, sempre estavam juntos. Qualquer um que entrasse no pátio interno do abrigo via logo o casal sentado no banco da praça localizada na fronteira que separava o corredor masculino do corredor feminino. Por várias vezes, Girassol me falou que estava apaixonada e feliz por ter encontrado em Agerato um bom companheiro para os dias difíceis lá dentro. Parecia cheia de vida, estava sempre alegre, anunciando as boas novas do namorado.

Girassol era uma mulher de cabelos longos, ondulados, vermelhos e brilhantes, e se orgulhava disso. Era vaidosa e acreditava que os cabelos eram o que mais lhe assegurava o encanto que o Agerato tinha por ela. Desde o primeiro encontro, pudemos perceber que ela tinha muito orgulho das suas madeixas. Era ciumenta e sempre procurava oportunidade de reafirmar que o Agerato era o seu namorado.

Importa destacar que, no horário das visitas, não era permitido ficar com o celular. Nesse sentido, já havíamos agendado com a coordenação da instituição parceira um dia para as fotos e mais dois encontros para as gravações de entrevistas. Segundo a coordenadora, a entrada de celulares alterava a rotina dos idosos, pois alguns deles se mostravam ansiosos querendo telefonar para os familiares e ficavam frustrados quando não conseguiam.

O fato é que aguardávamos a oportunidade de tirar fotos da Girassol com os seus lindos cabelos naturalmente vermelhos, sendo que a ideia surgiu a pedido da Girassol. Ela queria uma sessão de fotos com o Agerato. Certo dia, chegamos para mais uma visita e encontramos Girassol triste, desolada, isolada e distante do Agerato. Logo percebi que tinha algo diferente, pois os cabelos de Girassol estavam repicados e bem curtos, à altura do pescoço.

Ao me aproximar de Girassol, ela relatou que seu namoro com o Agerato estava arranhado. Diante dessa informação, perguntamos: “O que houve? Percebi que vocês estão distantes hoje (eles costumavam ficar sempre juntos). Você quer falar sobre o ocorrido?”. Girassol baixou a cabeça, lacrimejou e disse: “Agerato resolveu cortar o meu cabelo. Foi num vacilo de uma tesoura que deixaram aqui, e ele cortou meu cabelo porque acha que mulher não pode andar por aí com cabelos soltos. Agora está zangado comigo porque a coordenadora brigou com ele. Sabe, eu gosto dele, mas não queria cortar o cabelo. Não gosto desse cabelo assim. Estou feia”. A coordenadora do abrigo percebeu a nossa conversa e se aproximou, e disse: “Realmente, o Agerato cortou os cabelos da Girassol. Eu falei com ele que não concordamos com esse tipo de comportamento aqui. Foi um descuido da equipe de ontem que deixou uma tesoura perto dele durante uma atividade. Ele tem ciúmes da Girassol”.

Não cabia a mim interferir na gestão da instituição parceira. Portanto, focamos na análise dessas produções. Eis o poder produzindo corpos. Girassol tinha em sua marca os cabelos vermelhos e longos que a faziam se sentir única, e enlutou pela perda dos cabelos. O que aconteceu quando Agerato cortou os cabelos de Girassol deixa claro que “os discursos que articulam significados ao gênero ao longo da vida não cessam no envelhecer”, pelo contrário, “... são redefinidas a partir da relação com esse marcador”, evidenciando o “... aprofundamento de uma relação de desigualdade” (Silva & Pocary, 2022, p. 48). Agerato não mais que reproduzia o papel reservado ao homem pela sociedade, na qual “as relações de gênero não apenas são reproduzidas ou se aprofundam na velhice, mas são, de fato, reconfiguradas a partir de outros discursos sobre masculinidade e feminilidade e outros modos de experimentar o tempo e de viver as relações sociais” (Silva & Pocary, 2022, p. 48). Em outras palavras, se a convivência no abrigo não permitia que Girassol assumisse o papel de mulher, dona de casa, submissa ao marido, o Agerato encontrou outra forma de exercer o seu poderio de homem.

É o poder sendo produtor de subjetivações que se faz perceber pelo exercício binário homem/mulher, incidindo na escolha do lugar social de cada um, fazendo-o acreditar na normalidade do que lhe é imposto pelo dispositivo do poder (Foucault, 1995).

Tais relações são percebidas nas subjetivações do envelhecimento, fazendo existir um lugar para a idosa e para o idoso que atravessa as subjetivações, e no normativo daquilo que se decidiu ser bom para a pessoa idosa, instalando-se como raiz rizoma, dando a ver que as produções de corpos dos idosos são escolhas dadas pelo envelhecimento e, assim, devem ser aceitas. No entanto, ao se aproximar do território em que se dão as subjetivações, qualquer um percebe que o lugar social do idoso encontra razão governamental nas teias do neoliberalismo. Para acompanhar as linhas de fuga que costuram esse mapa, é necessário compreender que,

com as intensas e aceleradas mudanças sócio-político-econômicas ocorridas na contemporaneidade, cada homem e cada mulher foi e continua sendo protagonista, espectador e autor de rupturas e transformações nos costumes e estilos de vida, atingindo cada um em diferentes gerações. A geração mais velha, por exemplo, experimentou, por maior espaço temporal, relações de poder e também naturalizou, mais intensamente, noções sobre papéis masculino/feminino calcadas num modelo tradicional de relações de gênero, em que havia o exercício da autoridade dos homens sobre as mulheres e os filhos no seio das famílias, ou seja, vivenciou uma assimetria relacional, o que pode influenciar, também de modo diferencial, o modo do idoso perceber e vivenciar sua velhice, conforme a marca do seu gênero (Fernandes, 2009, p. 706)

No último encontro, Girassol e Agerato sentaram no banco da praça apenas para a foto que tanto ela queria (e a pesquisadora também). Mas ela não tinha mais os cabelos longos. As madeixas vermelhas com pontas amarelas girassol para fazer rizoma na foto, a alegria e a autoestima da estética de si não puderam mais ser registradas na imagem de Girassol. Os dois se abraçaram, e ele disse para Girassol: “Você está mais bonita assim, mulher não precisa de cabelo grande”. Agerato era um homem de poucas palavras, tendo sido estas as únicas palavras dele nesse dia, mas dava para perceber que ele acreditava que ia reatar o namoro com Girassol. O idoso acreditava que ela finalmente havia se rendido aos caprichos do homem amado. O comportamento de Agerato para com Girassol reafirma para nós que

... as diferenças biológicas de sexo são acompanhadas das diferenças de estatutos, de papéis, de responsabilidades e do lugar dos homens e das mulheres em todos os setores da sociedade e em todos os níveis, mas, igualmente, naquilo que é característico (ou que se espera que seja) do comportamento e das atitudes dos homens e das mulheres no seio da sociedade (Fernandes, 2009, p. 706).

Por outro lado, se deslocarmos a analítica para o território das resistências, Girassol resistiu ao biopoder quando, à sua maneira, também retirou algo do homem Agerato, posto que negou a ele a sua presença, o namoro e a amizade; e, mesmo que temporariamente, as suas linhas de fuga percorreram caminhos que não compunham mapa com o Agerato, fazendo ele perceber que não estava disposta a embarcar em tamanha submissão.

Diante do exposto, as subjetivações da pessoa idosa são atravessadas por razões governamentais que atendem à lógica do biopoder, deixando marcas naturalizantes das perdas na senescência, ao tempo em que conduz os idosos institucionalizados à periferia enquanto corpos sociais produtivos, deslocando-os para um estado de morrimento social.

Todavia, na contramão dessas tensões, foi possível mapear potências de vida, que se configuram por desterritorializações próprias dos movimentos de resistências empreendidas pelas pessoas idosas.

Assim, quando falamos em estado de morrimento social, falamos em processo que vem evoluindo no contexto das transformações culturais ocorridas na circularidade da invenção da velhice e que atravessam as subjetivações do idoso. Os movimentos cartografados no território-vivo em que se dão as subjetivações de idosos institucionalizados, dessa forma, nos fornecem um mapa em que as pessoas idosas se fazem potências pelas resistências empreendidas para não se configurar meramente como produto desse processo.

Considerações finais

Diante das reflexões suscitadas, defendemos a tese de que as subjetivações do idoso institucionalizado acerca das perdas são atravessadas por relações de poder excludentes, biologizantes e disciplinares, que gradualmente deslocam o envelhecimento para um estado de morrimento social.

Nessa perspectiva, as políticas públicas seguem um modelo social excludente que naturaliza as perdas na senescência, afastando o idoso da população produtiva e impactando suas relações sociais e familiares. Para reverter esse cenário, é necessário repensar as políticas, valorizando o idoso e reconhecendo suas contribuições, seja no mercado de trabalho, na formação de familiares e amigos ou na participação econômica e social na sociedade.

Por outro lado, também foram identificadas potências de vida, expressas por desterritorializações que refletem movimentos de resistência das duas idosas analisadas neste artigo.

Por fim, reconhecemos as limitações da pesquisa, como o tamanho da amostra e possíveis vieses da pesquisadora. Novas investigações podem aprofundar o debate sobre as subjetivações das perdas na velhice, assim como sobre as evidências acerca de potências de vida marcadas por tensões territoriais coexistentes às subjetivações das perdas.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.

  • Financiamento
    Não houve financiamento
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica
  • Aprovação, ética e consentimento
    O estudo foi aprovado pela Fundação Abrigo São Lucas, localizada em Teresina, Piauí, e pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), no Rio Grande do Sul.

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  • Editora científica
    Dra. Camilla Fernandes Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    18 Dez 2023
  • Revisado
    02 Ago 2025
  • Aceito
    04 Abr 2025
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