O número temático “Psicologia e Mudanças Climáticas: insurgências em defesa da vida na Terra”, da Psicologia & Sociedade, marca a importância de posições críticas e combativas no enfrentamento às incertezas e emergências da crise ecológica contemporânea. Reafirma a posição política da produção científica, e nesse movimento localizado e experiencial (Haraway, 1995), denuncia o caráter global e capilarizado das formas de precarização que incidem na contemporaneidade - na morte de sujeitos, mas também de epistemologias que resistem. Para além, em um movimento de reinvenção de saberes clássicos, na coalizão com cosmologias não ocidentais e atentando para as graves implicações do Antropoceno, os manuscritos apresentados mostram o engajamento e compromisso da Revista com essa pauta, na esteira de estudos que apontam para a necessidade de (re)afirmar conexões colaborativas com a terra (Krenak, 2019).
A escolha do tema é autoexplicativa, se mostra em um cotidiano marcado por secas duradouras, desertificações iminentes, enxurradas devastadoras, destruição de ecossistemas florestais e extinção de espécies da fauna e da flora. Do processo de acumulação capitalista, da afirmação de lógicas predatórias e neoextrativistas que veem na natureza um simples recurso humano, temos herdado acontecimentos graves. Compõe esse contexto dias encobertos por fumaça de queimadas, como no recente aumento exponencial do desmatamento amazônico em território brasileiro, enchentes em territórios intensamente urbanizados, ou a emergência da pandemia de COVID-19 - que, de modo inequívoco, demonstrou as interconexões entre as dinâmicas ecológicas e econômicas, revelando a vulnerabilidade de um sistema global que prioriza a acumulação monetária em detrimento da vida coletiva. Tais episódios materializam, de forma contundente, as contradições inerentes ao modelo dominante, pautado pela expansão do capital em detrimento da sustentabilidade ecológica e da justiça socioambiental.
É inequívoco o papel da ação humana na precarização dos sistemas naturais. No presente número temático estas mudanças globais são analisadas em seu caráter multifacetado e amplo, promovendo conexões analíticas que refletem um sistema globalmente interdependente. As promessas de progresso, derivadas do ideário moderno, afinal, não se concretizaram de maneira equânime e tiveram por resultados desigualdades estruturantes. Este cenário, marcado por conflitos e degradação ambiental, compõe um quadro de iniquidades posto, assim como de problemáticas iminentes das quais não se tem precedente. Trata-se de um processo de transgressão dos limites planetários cujas consequências se projetam de forma direta e profunda sobre as condições de vida, demandando posições ética e politicamente comprometidas.
A ineficácia de equipamentos institucionais contemporâneos, voltados ao enfrentamento dos impactos socioambientais, muitas vezes ancorados em paradigmas burgueses e individualistas, demonstra o tamanho do problema. Baseados em concepções abstratas de igualdade, ignoram as disparidades materiais e a matriz desigual de classe, gênero, raça, sexualidade, nacionalidade, territorialidade, espécie, que demonstram como a crise ambiental contemporânea é uma crise corporificada. Assim, a crise ecológica é um problema de caráter ético-político, que tensiona os fundamentos do projeto moderno de desenvolvimento - cuja história remonta a própria Psicologia. Como a Psicologia pode responder ao Antropoceno, este espelho de um modo de produção que subordina a natureza às lógicas do capital e ameaça os limites de sustentabilidade da vida planetária, é uma questão de ordem.
A Psicologia é convocada a responder a saberes e práticas que se mostram antagonistas da manutenção da vida, de formas de parentesco interespécies (Haraway, 2020) procurando a intensidade da ação humana em seu poder transformador. Na esteira desta discussão, compõem o número temático artigos de diferentes regiões do Brasil e de fora do contexto nacional, trabalhando com populações originárias e tradicionais, de centros urbanos, metodologias qualitativas e mistas de importante cunho dialógico com essas populações e intervenções que interpelam o próprio lugar da Psicologia como ciência e profissão. As produções do presente número apontam para uma multiplicidade de conjunturas, práticas e saberes, que se articulam na direção de redes ativas de cuidado, propiciando percepções e diálogos que estimulam ações sistêmicas imprescindíveis à vida.
Boa leitura!
Referências
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Haraway, Donna (1995). Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos pagu, 5, 7-41. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773
» https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1773 - Haraway, Donna (2020). Seguir con el problema: Generar parentesco en el Chthuluceno. Consonni.
- Krenak, Ailton (2019). Ideias para adiar o fim do mundo Editora Companhia das letras.
