Open-access PROMOÇÃO À SAÚDE MENTAL DE ADOLESCENTES: A ARTE -CULTURA COMO ESTRATÉGIA DE CUIDADO PSICOSSOCIAL

PROMOCIÓN DE LA SALUD MENTAL EN ADOLESCENTES: EL ARTE-CULTURA COMO ESTRATEGIA DE ATENCIÓN PSICOSOCIAL

MENTAL HEALTH PROMOTION FOR ADOLESCENTS: ART-CULTURE AS A PSYCHOSOCIAL CARE STRATEGY

Resumo

Considerando a relevância de estudos que produzam conhecimento de forma participativa com adolescentes, para a compreensão ampliada de problemáticas complexas, como a saúde mental e sua promoção, esta pesquisa objetivou explorar e refletir com adolescentes que frequentam projetos de arte-cultura a relação entre essa vivência e a própria saúde mental. Por meio da história oral de vida e grupos de discussão, produziram-se dados com seis adolescentes envolvidos em projetos artístico-culturais de contextos vulnerabilizados de um município de Minas Gerais. Os resultados revelaram que as relações familiares influenciam diretamente o envolvimento do adolescente nos projetos e, consequentemente, em sua saúde mental. Observou-se, também, que a participação em atividades de arte e cultura possibilita novas formas de se relacionar, com destaque para o papel dos coordenadores. Além disso, os projetos favorecem a mobilidade urbana, o sentimento de pertencimento e o resgate da cidadania, ampliando processos críticos e oferecendo novas oportunidades.

Palavras-chaves:
Saúde Mental; Adolescente; Promoção em Saúde Mental; Arte; Cultura.

Resumen

Considerando la importancia de los estudios que generan conocimiento de forma participativa con adolescentes para una comprensión más amplia de temas complejos como la salud mental y su promoción, esta investigación tuvo como objetivo explorar y reflexionar con adolescentes que participan en proyectos de arte-cultura sobre la relación entre esta experiencia y su propia salud mental. A través de historias de vida orales y grupos de discusión, se recopilaron datos de seis adolescentes involucrados en proyectos artísticos y culturales en contextos vulnerables de un municipio de Minas Gerais. Los resultados revelaron que las relaciones familiares influyen directamente en la participación de los adolescentes en proyectos y, en consecuencia, en su salud mental. También se observó que la participación en actividades artísticas y culturales facilitan nuevas formas de interacción, con especial énfasis en el rol de los coordinadores. Además, los proyectos promueven la movilidad urbana, el sentido de pertenencia y la recuperación de la ciudadanía, ampliando procesos críticos y ofreciendo nuevas oportunidades.

Palabras clave:
Salud Mental; Adolescente; Promoción de la Salud mental; Arte; Cultura.

Abstract

Considering the importance of studies that produce knowledge participatively with adolescents for a broader understanding of complex issues, such as mental health and its promotion, this research aimed to explore and reflect with adolescents who participate in art-cultural projects on the relationship between this experience and their own mental health. Through oral life stories and discussion groups, data were collected from six adolescents involved in art-cultural projects from vulnerable contexts in a municipality in Minas Gerais. The results revealed that family relationships directly influence adolescents’ involvement in projects and, consequently, their mental health. It was also observed that participation in arts and culture activities enables new ways of interacting, with a particular emphasis on the role of coordinators. Furthermore, the projects promote urban mobility, a sense of belonging, and the restoration of citizenship, expanding critical processes and offering new opportunities.

Keywords:
Mental Health; Adolescent; Mental Health Promotion; Art; Culture.

1 Introdução

Nos últimos quarenta anos, a Promoção em Saúde tem ganhado destaque como possibilidade estratégica, em meio aos debates sobre os custos elevados associados ao modelo biomédico de saúde e sua eficácia. Essas iniciativas são impulsionadas, principalmente, a partir de países como Canadá, Estados Unidos e algumas nações europeias (Buss, Hartz, Pinto, & Rocha, 2020).

Desde a divulgação da Carta de Ottawa, em 1986, o conceito de Promoção em Saúde tem sido desenvolvido e, atualmente, aproxima-se de uma série de princípios e valores, tais como qualidade de vida, solidariedade, equidade, democracia, cidadania, desenvolvimento, participação, entre outros. Ele engloba, também, uma gama de processos, incluindo iniciativas estatais, o fortalecimento da ação comunitária, o desenvolvimento de habilidades pessoais, a reorientação das estratégias no sistema de saúde e a colaboração em parcerias intersetoriais, como resposta à crescente medicalização da vida social (Buss et al., 2020).

Neste estudo, a noção de Promoção em Saúde se alinha à ideia de Paulo Buss e colaboradores (2020), na medida em que reconhece, de forma ampla, o conceito de saúde e suas variáveis de influência, como: os determinantes sociais de saúde, o território, a autonomia, a participação social e a intersetorialidade.

Entretanto, observa-se, no cenário internacional - sobretudo do hemisfério norte - que, quando se trata de promoção à saúde, essas abordagens frequentemente caracterizam-se por estruturas teóricas que enfatizam a responsabilização do indivíduo, guiadas por conceitos de riscos à saúde, pouco articulando com a ampliação do conceito a partir dos estudos críticos (Patel, Flisher, Nikapota, & Malhotra, 2008; Souza, Almeida, Fernandes, & Cid, 2021).

Em relação ao contexto brasileiro, desde 2005, se instituiu a Política Nacional de Promoção à Saúde (PNPS), a qual valoriza a integralidade do cuidado em saúde, a partir de uma abordagem que busca entender as necessidades individuais e coletivas, valorizando a autonomia e singularidade dos sujeitos e comunidades. Isso implica em uma mudança de foco do tratamento de doenças para o acolhimento das histórias e condições de vida dos usuários, por meio de uma escuta atenta e qualificada (Portaria de Consolidação nº 2, 2018).

Além disso, destaca-se que a PNPS reconhece a importância de responder a diferentes grupos sociais e da articulação com outras políticas públicas tais como Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), de forma participativa e compartilhada (Portaria de Consolidação nº 2, 2018).

Contudo, quando se trata de sua interlocução com o campo da Saúde Mental, observa-se fragilidade nesse diálogo com as políticas públicas - mesmo com a existência, no Brasil, da Atenção Psicossocial (APS) como modelo de cuidado e orientação político-ética-teórico-prática (Oliveira, 2021; Souza, Almeida, Fernandes, & Cid, 2021).

Diante das necessidades de avanços na temática, a produção científica sobre a promoção da saúde mental no Brasil tem se aproximado dos conceitos da saúde coletiva. No entanto, mesmo havendo convergências notáveis e uma clara afinidade com os princípios fundamentais da APS, essa definição ainda não abarca completamente a complexidade que envolve a saúde mental, suas redes de cuidado, ferramentas e especificidades previstas pelas políticas de Saúde mental (Lei n° 10.216, 2001; Oliveira, 2021).

Bruno Oliveira (2021) propõe que a promoção da saúde mental poderia transcender as ações isoladas frequentemente localizadas em um determinado nível de atenção em saúde, tornando-se um componente intrínseco a todas as iniciativas relacionadas à saúde mental. Considera, ainda, que a Promoção em Saúde Mental, conceito ainda em construção, quando direcionadas pela APS, não se circunscreveria a ações verticalizadas e clínicas que, por vezes, são limitadas a adequações comportamentais concentradas nos sujeitos. A proposta é que seja um cuidado com enfoque na transformação social, a partir do afeto, dos territórios, das diferenças, da criatividade, contemplando diversos atores, tanto de vertentes institucionais já instituídas, quanto da sociedade civil, comunidade, para além e apesar do sofrimento psíquico (Oliveira, 2021).

Diante desse cenário, quando se trata da promoção a saúde mental de populações específicas, tais como, adolescentes, os desafios se sobressaem, uma vez que, com frequência, as adolescências são patologizadas como uma “fase de risco” ou estágio humano com pré-disposição a comportamentos de risco, em decorrência da emergência da sexualidade e de seu comportamento contestador das normas sociais hegemônicas. São, ainda, alvo de mecanismos sociais com enfoque na disciplinarização e controle, de modo a medicalizar e patologizar comportamentos e expressões próprias da adolescência (Surjus, 2019).

No documento do Ministério da Saúde intitulado “Atenção psicossocial a crianças e adolescentes no SUS: tecendo redes para garantir direitos” (2014), é afirmada a importância da promoção em saúde mental como estratégia de cuidado no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS); no entanto, de forma inconsistente e sem um direcionamento claro de como a rede deve agir (Ministério da Saúde, 2014).

Podemos observar, ainda, na literatura científica que as práticas de promoção da saúde mental para essa faixa etária frequentemente se concentram em tópicos como educação sexual, incluindo questões relacionadas à gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, bem como no controle da violência e do uso de drogas. Essas abordagens, em grande parte, são guiadas exclusivamente pela epidemiologia e pela vigilância em saúde, deixando de lado considerações importantes relacionadas às necessidades de saúde e seus determinantes sociais específicos para os adolescentes (Rossi, Speranza, Marcolino, & Cid, 2019; Souza, Almeida, Fernandes, & Cid, 2021).

Se as práticas de promoção em saúde mental, que visam a emancipação e a autonomia, estão em processo de ganho de visibilidade e fortalecimento, ainda que com desafios eminentes, quando se trata de adolescentes e sua negativa histórica como sujeitos, e entrada tardia nas políticas de saúde mental, o caminho para essa população ainda está apenas iniciando, e as produções científicas voltadas à promoção de saúde mental de adolescentes corroboram com essa afirmativa (Souza, Almeida, Fernandes, & Cid, 2021).

Na revisão integrativa, que teve como objetivo identificar e analisar as produções acadêmicas sobre Promoção em saúde mental de adolescentes na América Latina, os/as autoras identificaram seis estudos sobre a temática. Destes, três foram desenvolvidos no Brasil e foi identificado um predomínio, principalmente no âmbito nacional, de metodologia de pesquisa do tipo experimental e quase-experimental com baixa participação dos adolescentes nos processos de pesquisa e intervenção. Além disso, vale destacar que nenhum dos estudos encontrados adotou como estratégia de promoção em saúde mental a dimensão artístico-cultural.

Na esfera da Atenção Psicossocial, a utilização da arte-cultura como estratégia de cuidado encontra-se dentro da dimensão sociocultural, que é reconhecida como um dos meios mais eficazes e criativos de promover saúde mental, assumindo também a relevância política de transformação social. Esse cenário suscita reflexões sobre o baixo número de iniciativas relacionadas ao tema quando dentro da APS, e pensadas a partir das políticas públicas de Saúde Mental, mesmo que ações semelhantes aconteçam em outras instâncias, campos, setores ou ainda de forma não sistematizadas (Amarante, Freitas, Nabuco, & Pande, 2012).

É importante destacar que os projetos artístico-culturais representam um ponto essencial dentro da rede de cuidado diferenciado para crianças e adolescentes, pois não são vinculados à obrigatoriedade e não se enquadram em instâncias institucionalizantes. Essa rede, de maneira geral, pode ser “escolhida” pelo próprio adolescente, considerando aqui todas as dificuldades de acesso e permanência a esses locais presentes em países periféricos da economia global, justamente pela escassez de políticas de favorecimento a participação em projetos dessa natureza. O que resulta em um engajamento muito específico dessa população, pois não pode ser unicamente permeado pela possibilidade do desejo e da autonomia, apesar dessa vontade ser uma força motriz importante para sua participação (Amarante et al., 2012).

Assim, compreende-se que a dimensão sociocultural compõe uma das perspectivas que ajudam a formar e sustentar um cuidado a partir da Atenção Psicossocial, oferecendo oportunidade para a diversidade, para a formação de diferentes perspectivas de vida, para a autonomia, para o engajamento político e para a produção de vida (Amarante et al., 2012).

Posto isso, e considerando a importância da arte-cultura como um instrumento político de transformação social e de seu potencial estratégico para a promoção em saúde mental, o presente estudo teve como objetivo explorar e refletir com adolescentes que frequentam projetos de arte-cultura a relação entre essa vivência e a própria saúde mental.

2 Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de abordagem participativa, que foi realizada durante o cenário pandêmico (2021) e aprovada sob o número 4.736.974 pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos.

A escolha pela metodologia participativa permitiu que os adolescentes participantes assumissem um papel ativo e protagonista no processo de construção de conhecimento sobre si (Dias & Rosa, 2016).

Os participantes foram indicados por três coordenadores de projetos de arte-cultura vinculados a diferentes coletivos localizados em uma cidade de grande porte do estado de Minas Gerais. Os/as coordenadores são conhecidos na RAPS do município justamente por trabalhar em diferentes frentes de projetos de arte-cultura da cidade.Destaca-se que a indicação dos adolescentes pelos/as coordenadores de projetos foi realizada a partir da história de participação em projetos artístico-culturais dos adolescentes, e não pela atividade artística em si ou pelo projeto vinculado, considerando que os/as mesmos coordenadores estavam vinculados a mais de um coletivo ao mesmo tempo.

Nesta perspectiva, foram ouvidas histórias de seis adolescentes (sendo três que se autodeclararam do gênero feminino e três do masculino) vinculados/as a projetos artísticos-culturais de naturezas diversas, tais como: (a) organização não governamental, situada dentro da comunidade com o objetivo de construção de cidadania, visibilidade de ações de arte e cultura, promoção de renda e acesso ao mercado cultural; (b) projeto de extensão universitária, com enfoque a diminuição da evasão escolar por meio da arte-cultura; (c) um serviço da RAPS do município, que, por meio da promoção de atividades artísticas e culturais, visa a reinvenção de possibilidades sociais, materiais e subjetivas.

Foram critérios de inclusão para este estudo possuir interesse em participar do processo de pesquisa; ter sido indicado pelo coordenador de projeto de arte e cultura destinado a adolescentes; ter idade entre 12 e 18 anos (considerando o que é estabelecido pelo ECA como adolescente); o/a responsável deve ter autorizado e assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE I), e o/a adolescente ter aceitado e assinado o Termo de Assentimento e de Consentimento Livre e Esclarecido (TALE). Os dados informativos sobre os/as adolescentes foram resumidos, e serão apresentados no Quadro 1. Os/as participantes foram convidados a escolher nomes fictícios de modo a preservar o anonimato:

Quadro 1
Caracterização dos/das participantes

Como estratégias de produção de dados foram utilizadas: a História Oral de Vida e os Grupos de Discussão. A História Oral de Vida objetivou apreender trajetórias significativas a partir de narrativas cotidianas com enfoque na participação de adolescentes em projetos de arte e cultura (Meihy, 2005). Já os Grupos de Discussão são ambientes democráticos para a expressão e construção de conhecimento. O objetivo é gerar um entendimento coletivo sobre um tema específico por meio da conversa (Sánchez-Pinilla & Legerén, 2008; Silvestre, Martins, & Lopes, 2018).

Para a produção das histórias, foi apresentado aos adolescentes um roteiro de entrevista aberto, com o intuito de facilitar a colheita das narrativas de história oral de vida, seguindo um padrão de blocos de perguntas amplas (Meihy & Ribeiro, 2011).

Cada adolescente teve a oportunidade individual de compartilhar suas experiências e História Oral de Vida relacionadas aos projetos de arte e cultura. Todas as entrevistas foram gravadas em vídeo, transcritas, e posteriormente devolvidas aos adolescentes para aprovação de suas versões finais, permitindo-lhes modificar elementos no texto conforme desejado. Após a aprovação dos participantes quanto à versão final, todos os/as adolescentes assinaram uma carta de cessão do texto.

De modo a fomentar uma discussão mais aprofundada sobre os temas durante os Grupos de Discussão, após a autorização de todos(as) participantes, os adolescentes puderam assistir às entrevistas dos demais colegas e, assim, conseguir aprovar, reprovar ou modificar os temas emergentes, além de propor novos. Os temas que surgiram após a análise foram discutidos coletivamente nos Grupos de Discussão. As etapas e processos de pesquisa foram ilustrados na Figura 2:

Figura 1
Etapas e processos de pesquisa

Foram realizados três Grupos de Discussão de forma remota, por meio de aplicativos de reunião online, em decorrência da pandemia, que foram gravados e transcritos na íntegra para utilização como dados. Os grupos tiveram, ainda, como objetivos: (a) validar os eixos e categorias temáticas produzidos pela pesquisadora na etapa da História Oral de Vida; (b) aprofundar as discussões sobre o tema arte-cultura e saúde mental; e (c) produzir um documentário sobre o tema com os/as adolescentes, como produto audiovisual da pesquisa, devolução social da pesquisa e encaminhamento dos grupos (O processo de produção do documentário não será focalizado neste manuscrito).

Todo o material coletado das Histórias Orais de Vida foi analisado com base na análise temática de Bardin. Os grupos de adolescentes participaram deste processo, contribuindo com a validação e sugestões para os eixos e categorias temáticas (Bardin, 2016).

3 Resultados

Após o processo de categorização e análise dos dados, emergiram três eixos temáticos, que serão apresentados nas seções a seguir, a saber: (a) Laços e nós: a família na tessitura de redes de apoio; (b) Transgressão e outras formas de liberdade e bem-viver; (c) Você não está sozinho, viu?, os quais serão descritos a seguir e exemplificados com alguns relatos:

3.1 Laços e nós: a família na tessitura de redes de apoio

O primeiro eixo trata da influência da família na vida dos adolescentes. Nas experiências relatadas, familiares são vistos ora como rede protetora, ora como fator de risco para a saúde mental. Nesse contexto, a mãe destaca-se unanimemente como incentivadora. Os irmãos aparecem como figuras significativas e presentes, porém com atuação oscilante entre proteção e risco. Já a figura paterna é marcada predominantemente pela ausência nos relatos dos adolescentes:

A minha mãe chegou a fazer capoeira também … ter ela fazendo capoeira comigo foi a coisa mais legal da minha vida. Ver ela feliz, animada, gingando do jeito dela, eu achava fofo, me deixava feliz também.” (Maçã - História Oral de Vida).

Eu tenho interesse nisso [aprender a tocar violão], mas o problema é minha irmã. Ela me desestimula, fala que não vou ganhar dinheiro com isso, que não deveria ter que trabalhar para outras pessoas...” (Lobinha - História Oral de Vida)

Minha irmã chegou a ir uma ou duas vezes, e ela abriu mão para eu poder participar. Ela foi muito legal comigo, porque apenas uma de nós duas poderia participar do projeto, alguém teria que ficar para cuidar do nosso irmãozinho.” (Maria - História Oral de Vida)

Minha mãe é muito presente na minha participação na capoeira, meu pai nem tanto, ele trabalha viajando. Na época, minha mãe percebeu que eu estava mal e me incentivou a continuar.” (Cebola - História Oral de Vida)

3.2 Transgressão e outras formas de liberdade e bem-viver

O segundo eixo enfoca os benefícios percebidos pelos participantes ao se envolverem em projetos de arte e cultura. Dentro dessa categoria, os adolescentes mencionam a oportunidade de exercer sua liberdade ao participar desses projetos, que são vistos como espaços de pertencimento e de desenvolvimento de uma visão crítica do mundo, da política, de identificação de violências, racismo e machismo. Além disso, eles relatam uma maior circulação nos espaços públicos e ganhos na contratualidade com a cidade. Os adolescentes também observam que, ao aumentar sua capacidade crítica, passaram a se expressar mais por meio de palavras consideradas inadequadas ou ofensivas (palavrões), e exibir mudanças comportamentais que causam estranhamento no núcleo familiar.

O local onde acontecia o projeto é lindo. Eu me sentia muito livre. É um espaço que, apesar das regras, a gente podia fazer o que quiser... ter um lugar que a gente é acolhido, onde a gente pode falar o que pensa, é muito importante ... a gente pode falar até um palavrão, que não somos julgados...Sinto também que com a participação no projeto eu fiquei mais crítica politicamente... Só que na minha casa ninguém fala muito sobre isso e eu não tinha onde recorrer... no nosso grupo só tinham mulheres e a gente conversava sobre a vida da mulher e as dificuldades, e eu aprendi muito sobre o machismo. (Maria - História Oral de Vida)

A rebeldia, ela faz parte de um descobrimento, a gente vai descobrindo novas coisas e a gente vai acabando se tornando rebelde...por exemplo, você começa a enxergar o mundo de outra forma: o que antes você fazia, você deixa de fazer, e começa a não tolerar mais certas coisas... Eu acho que é isso também que as pessoas acham que a gente é rebelde. O que antes a gente aceitava calado, hoje em dia, a gente tem mais poder de falar. Então, a gente vai se expressando. Eu acho que a rebeldia é se expressar. (Maria - Grupo de Discussão) pelo projeto, eu tive a oportunidade de conhecer muitos outros lugares... antes, o único lugar que eu conhecia era a escola, e lá não são feitos muitos passeios. Antes da pandemia, eu só ia ao supermercado. Se dependesse dos meus pais e de mim, eu nunca teria conhecido esses lugares, só conheci por causa do projeto. (Lobinha - História Oral de Vida)

3.3 Você não está sozinho, viu?

O terceiro eixo trata-se da referência que os coordenadores de projetos são para os/as adolescentes. Nesta categoria, os adolescentes referem sobre o papel e a importância desses profissionais, tanto para os adolescentes quanto para as famílias, influenciando, inclusive, nos projetos de vida. “Nesse período, o coordenador do projeto, que é um sábio gigantesco, me ajudou bastante [em relação a problemas familiares]. E com os ensinamentos dele eu me apaixonei pela capoeira” (Cebola - História Oral de Vida). “Depois que eu conheci um professor aqui na escola de música, que trabalha no Corpo de bombeiros, eu fiquei interessado em ser bombeiro também. Ele me levou lá e eu me identifiquei demais com aquele local” (King - História Oral de Vida).

4 Discussão

Os relatos dos/as adolescentes enfatizaram o papel crucial da família, destacando-a como um elemento que tanto pode promover a participação em projetos de arte e cultura quanto como pode representar um obstáculo para essa participação e permanência. A figura materna é apontada como principal incentivadora da participação, exercendo um papel de apoio consistente. Já o pai destaca-se pela ausência nos discurso dos adolescentes.

Para esse aspecto, destaca-se a relação entre gênero e a interseccionalidade com a raça no cuidado familiar. Mulheres, especialmente negras, são frequentemente responsáveis pelo cuidado gratuito de crianças e adolescentes no âmbito doméstico, tornam-se figuras de referência afetiva e protetiva - lugar que, nesta pesquisa, foi ocupado não apenas pelas mães, mas também pela irmã (Iagnecz, 2021). Já o pai não aparece ou fica ainda como uma figura secundária neste cuidado. Sob uma perspectiva decolonial e feminista, estudos vêm evidenciando como as violências estruturais, que por vezes se apresentam na falta ou ausência desses pais, moldam dinâmicas sociais, influenciando a construção de identidades e o acesso à cidadania e ajuda a compreender por que a figura materna, e feminina de modo geral, ainda ocupa lugar de destaque simbólico no cuidado na percepção dos/as adolescentes (Iagnecz, 2021).

Os irmãos também foram mencionados como personagens ambivalentes nesse contexto, ora facilitando, ora dificultando a participação. Esses resultados revelam que, apesar das diversas maneiras pelas quais a dinâmica familiar pode impactar a saúde mental dos/as adolescentes e em seu engajamento em projetos artísticos, a família desempenha um papel estrutural e determinante para essa população.

Estudos conduzidos no Brasil corroboram com essa percepção da natureza totalizante que a família representa para os adolescentes em contextos vulnerabilizados. Eles sugerem que a família pode ser meio de sobrevivência diante das adversidades impostas pelo Estado (Abramo, 2005; Gonçalves & Coutinho, 2008). Esses achados, e a partir das falas dos adolescentes, ressaltam a relevância da dimensão familiar como possível caminho para articulação, tornando-a um ponto de interesse para profissionais e organizações que atuam com adolescentes. Quando se trata de saúde mental, pela perspectiva da APS, reconhece-se hoje que o núcleo familiar tem o significativo papel no cuidado e representa também um importante local simbólico e social de convivência. Assim, cabe aos trabalhadores e dispositivos ligados à saúde mental a defesa e resgate da cidadania e fortalecimento e escuta desses familiares (Taño, Matsukura, Minelli, & Constantinidis, 2021).

Bruna Taño et al. (2021) propõem, em seu estudo, três dinâmicas resultantes da interação entre família e serviços voltados à criança e adolescente (a) “Familiares como agentes do cuidado”: esta proposição incentiva a valorização do conhecimento do grupo familiar, promovendo a participação ativa em iniciativas locais, estimulando construções participativas, emancipadoras e culturalmente congruentes; (b) “Famílias como sujeitos do cuidado”: os serviços apresentam a capacidade de reconhecer necessidades e desafios específicos das famílias e da realidade local; (c) Por fim, a perspectiva do espaço familiar como “agentes políticos”: Este ponto destaca a promoção da politização, autonomia, emancipação e engajamento social dos familiares.

Ao examinar os relatos dos/as adolescentes nesta pesquisa, destaca-se a importância da aproximação dos familiares na contribuição para a qualidade dos serviços e interesse dos/ as adolescentes, permitindo, ao mesmo tempo, que os familiares também fossem beneficiados pelos projetos de arte e cultura. Essa abordagem possibilitou criar uma rede solidária e expandida, fortalecendo esses espaços físicos e simbólicos como pontos de apoio.

Outro aspecto negativo destacado pelos participantes, desta vez sobre a dinâmica pragmática da família, é a impossibilidade de participar dos projetos por terem que cuidar dos irmãos. É importante destacar que esta característica familiar está fortemente associada à cultura e estratégias de sobrevivência em países do Sul global que influenciam a participação em atividades fora do âmbito familiar (Pérez & Silva, 2021).

Com frequência, a participação em projetos culturais e artísticos frequentemente requer negociações e adaptações no contexto familiar, diferentes de outros espaços já instituídos, como a escola, por exemplo (Pérez & Silva, 2021).

Por fim, sobre a questão familiar, merece destaque a forma que a família encara a participação dos/as adolescentes nos projetos de arte-cultura. Segundo os/as participantes, os familiares revelam uma visão positiva, reconhecem que os adolescentes adquirem novos conhecimentos e têm acesso a oportunidades únicas. No entanto, eles também expressam surpresa e estranhamento diante das mudanças comportamentais que emergiram com essa participação, considerando algumas atitudes dos adolescentes como “transgressoras”, como, por exemplo, falar muito “palavrão” e o aumento de posicionamentos políticos.

O uso de “palavrões”, como ato de transgressão se revela, para os/as adolescentes envolvidos neste estudo, como uma importante forma de exercer sua liberdade, de se autoidentificar por meio da expressão dessas palavras e de afetar o outro com a reação à sua fala. Essa atitude de “rebeldia” é percebida de forma positiva pelos/as adolescentes, no entanto, para os pais e familiares gera desconforto.

A ideia de transgressão é considerada, para Paulo Freire (Freire, 1968/2014), como um estágio inicial necessário que ocorre, de maneira geral, com o reconhecimento de violências. É possível avançar ainda sobre o legado de Paulo Freire e fazer correlações sobre o exercício da liberdade, a busca pela emancipação social e promover associações sobre os princípios freireanos e a Atenção Psicossocial (Taño et al., 2021).

Os princípios do pedagogo se harmonizam com as diretrizes da Atenção Psicossocial de maneira natural, pela valorização da crítica da realidade e injustiças sociais e oferecendo ferramentas de diálogo significativas para a interação entre o indivíduo e o coletivo. Merece destaque, nesta aproximação com a Atenção Psicossocial, o conceito da intersetorialidade que, por meio dessas articulações ampliadas com diferentes setores, pode promover a reflexão de forma criativa dos contextos locais e transformação social, principalmente quando relacionadas ao setor da arte-cultura. Quando aplicada à Promoção em Saúde Mental, os princípios Freireanos estariam ligados, principalmente, à possibilidade do desenvolvimento de novas estratégias sociais a partir do reconhecimento de violências e na resistência no existir (Taño et al., 2021).

Aprofundando essa relação, os/as adolescentes referem que os projetos de arte-cultura não apenas abrem novas oportunidades, mas também proporcionam espaços de acolhimento e pertencimento, mediada pelo afeto, a partir de uma interação horizontal que favorece a sociabilidade, reflexões críticas e reconhecimentos de novas possibilidades. Esses achados corroboram o que é desejado em ações com enfoque na promoção em saúde (Buss et al., 2020), a promoção em saúde mental (Oliveira, 2021), aos conceitos da Atenção Psicossocial e os princípios freireanos (Taño et al., 2021).

Essas novas oportunidades oferecidas pelos projetos de arte-cultura também foram ligadas, ainda, a um aumento das trocas sociais com a cidade e ganho de circulação. De acordo com Sabrina Savegnato (2018), o aumento da mobilidade urbana, com os passeios, apresentações e circulação dos/as adolescentes, mediados pelos projetos de arte-cultura, favorece a oportunidade de descobrir novos interesses, ganhar novas perspectivas sobre si mesmos e sobre seu papel no mundo. Além disso, no que se refere à sociabilidade, Clarice Cassab e Juliana Mendes (2011) argumentam que a criação desses encontros e o aumento da circulação estão diretamente relacionados à promoção da cidadania e da qualidade de vida, objetivos fundamentais da Atenção Psicossocial e são impulsionadores da promoção da saúde mental (Oliveira, 2021; Yasui, 2010).

Dando continuidade aos resultados, outro ator foi destacado nos relatos dos/as adolescentes: os monitores e coordenadores dos projetos de arte-cultura. Esses profissionais, de acordo com os/as adolescentes, ocupam um espaço subjetivo de construções e de transformação. É possível, ainda, de forma didática, organizar em duas perspectivas distintas a forma de influência desses profissionais na vida dos adolescentes: a primeira, através das semelhança; e a segunda, por meio da reflexão sobre as diferenças. Essas duas possibilidades, à primeira vista contraditórias, podem, na verdade, coexistir de maneira simultânea.

Nesse contexto, a primeira perspectiva se basearia na criação de um vínculo de familiaridade entre esses profissionais e os adolescentes, estabelecido pelo fator “identificação” e empatia com esses adultos referências (Abramo, 1994; Patel et al., 2008; Teixeira, Ferreira, & Couto, 2021). A relação entre os monitores e os adolescentes se desenvolve de forma mais horizontal, com níveis de limites e liberdades distintos, em comparação com outros espaços institucionais frequentados pelos adolescentes (Abramo, 1994). Alguns dos profissionais mencionados na pesquisa são originários do mesmo território e foram participantes dos projetos, tornando-se figuras de referência e apoio para os adolescentes e seus familiares. Isso lhes permite uma aproximação diferenciada em relação a outros ambientes.

A segunda perspectiva reside na valorização da diferença entre o monitor e o adolescente, ou seja, na identificação do que os diferencia e, com isso, atuam no papel de facilitadores na aproximação do novo. Ao reconhecer as diferenças em relação à sua socialização primária - os familiares - os adolescentes se sentem encorajados a se envolver em experimentações que não seriam possíveis em outros contextos ou com pessoas com as quais normalmente convivem.

Além de proporcionar novas oportunidades, possibilidades e agenciamento, os monitores também personificam e aderem a um princípio amplamente valorizado no campo da saúde mental e na Atenção Psicossocial: o acolhimento. As interações e diálogos como ferramentas de acolhimento, realizadas por esses profissionais, permitem que os adolescentes identifiquem tanto semelhanças quanto diferenças, capacitando-os a construir novos significados para si mesmos, além de promover apoio ao adolescente e sua família (Ministério da Saúde, 2014).

5 Considerações finais

Considerando a arte-cultura como um instrumento político de transformação social e seu potencial para promover a saúde mental, este estudo teve como objetivo explorar e refletir, com adolescentes participantes de projetos de arte-cultura, a relação entre essa vivência e sua própria saúde mental.

Os resultados foram apresentados em três eixos temáticos: (a) “Laços e nós: a família na construção de redes de apoio”; (b) “Transgressão e outras formas de liberdade e bem-viver”; e (c) “Você não está sozinho, viu?”. Estes sugerem que a participação de adolescentes oriundos de contextos mais vulneráveis em projetos de arte e cultura pode proporcionar: Estímulo à reflexão sobre diversidade; favorecimento à emancipação política e desenvolvimento do pensamento crítico; construção de uma rede solidária, para além da abordagem clínica; intercâmbio de narrativas, expressões e emoções; exploração criativa; e aumento da mobilidade urbana.

A pesquisa foi conduzida durante o período da pandemia de Covid-19, em meio a significativas fragilidades e retrocessos políticos e fiscais nos projetos artístico-culturais. Esses desafios prejudicaram os encontros, mobilidades e possibilidades de construção de pesquisas coletivas e presenciais. Espera-se que futuras investigações avancem e continuem a envolver os adolescentes vinculados a espaços artístico-culturais, tidos não só como locais de expressão cultural, mas também pontos de cuidado que vão além de uma abordagem clínica tradicional, viabilizando a promoção à saúde.

  • Financiamento
    Não houve financiamento.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica
  • Aprovação, ética e consentimento
    O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Seres Humanos da UFSCar

Referências

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  • Editoria científica
    Dra Carolina dos Reis

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Abr 2025
  • Revisado
    02 Jun 2025
  • Aceito
    03 Jul 2025
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