Open-access A obra visionária de Antonin Artaud

The visionary work of Antonin Artaud

L’œuvre visionnaire D’Antonin Artaud

La obra visionaria de Antonin Artaud

Resumo

O presente estudo buscou compreender a obra de Antonin Artaud a partir do modo visionário de criação artística, conforme delineado por Carl Gustav Jung. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, teórica e documental, fundamentada na psicologia analítica, baseada na análise de cartas e textos literários de diferentes períodos da obra de Artaud. Conclui-se que a compreensão da obra de Artaud como visionária apresenta elevada relevância teórica, metodológica e interpretativa, contribuindo para o desenvolvimento de pesquisas futuras no campo acadêmico e interdisciplinar dos estudos sobre arte e cultura. Essa ampliação interpretativa favorece um olhar para além de abordagens estritamente biográficas ou psicopatológicas, reconhecendo a obra em seu valor simbólico e culturalmente significativo, bem como sua possível função compensatória diante da consciência coletiva de sua época, cujas problemáticas permanecem atuais na cultura contemporânea.

Palavras-chave:
Antonin Artaud; psicologia analítica; modos de criação artística; obra visionária

Abstract

This study discusses the work of Antonin Artaud through the lens of the visionary mode of artistic creation, as outlined by Carl Gustav Jung. Methodologically, this is a qualitative, theoretical, and documentary study grounded in Analytical Psychology, based on the analysis of letters and literary texts from different periods of Artaud’s work. Understanding Artaud’s work as visionary holds high theoretical, methodological, and interpretative relevance, contributing to the development of future research in both academic and interdisciplinary fields of art and cultural studies. This interpretative expansion fosters a perspective beyond strictly biographical or psychopathological approaches, recognizing the work’s symbolic and culturally significant value and its possible compensatory function in relation to the collective consciousness of its time, whose underlying issues remain relevant in contemporary culture.

Keywords:
Antonin Artaud; analytical psychology; modes of artistic creation; visionary work

Résumé

Cet étude vise à comprendre l’œuvre d’Antonin Artaud à partir du mode visionnaire de la création artistique, tel que défini par Carl Gustav Jung. Sur le plan méthodologique, il s’agit d’une recherche qualitative, théorique et documentaire fondée sur la psychologie analytique, reposant sur l’analyse de lettres et de textes littéraires issus de différentes périodes de la production d’Artaud. Comprendre l’œuvre d’Artaud comme visionnaire présente une forte pertinence théorique, méthodologique et interprétative, contribuant au développement de recherches futures dans les champs académique et interdisciplinaire des études sur l’art et la culture. Cette élargissement interprétatif favorise un regard allant au-delà des approches strictement biographiques ou psychopathologiques, en reconnaissant la valeur symbolique et culturellement significative de l’œuvre, ainsi que sa possible fonction compensatoire face à la conscience collective de son époque, dont les problématiques demeurent actuelles dans la culture contemporaine.

Mots-clés :
Antonin Artaud; psychologie analytique; modes de création artistique; œuvre visionnaire

Resumen

Este estudio buscó comprender la obra de Antonin Artaud a partir del modo visionario de creación artística, tal como lo delineó Carl Gustav Jung. Metodológicamente, se trata de una investigación cualitativa, teórica y documental, fundamentada en la Psicología Analítica, basada en el análisis de cartas y textos literarios de diferentes períodos de la obra de Artaud. Se concluye que la comprensión de la obra de Artaud como visionaria presenta una elevada relevancia teórica, metodológica e interpretativa por contribuir al desarrollo de futuras investigaciones en el ámbito académico e interdisciplinario de los estudios sobre arte y cultura. Esta ampliación interpretativa favorece una mirada que va más allá de enfoques estrictamente biográficos o psicopatológicos, reconociendo el valor simbólico y culturalmente significativo de la obra, así como su posible función compensatoria frente a la conciencia colectiva de su época, cuyas problemáticas permanecen vigentes en la cultura contemporánea.

Palabras clave:
Antonin Artaud; psicología analítica; modos de creación artística; obra visionaria

Introdução

Antoine Marie Joseph Artaud nasceu em Marselha, na França, em 1896, e morreu em Ivry-sur-Seine, nos arredores de Paris, em 1948. É autor de uma obra extensa e diversificada. Atuou no teatro, no cinema e na literatura, expressando, por meio de suas produções, inquietações profundas diante dos impasses socioculturais que atravessavam a Europa no início do século XX. Artaud foi uma personalidade marcante nas vanguardas artísticas, especialmente entre 1924 e 1926, quando esteve vinculado ao surrealismo. Sua obra se insere, portanto, no contexto de ruptura com os modelos tradicionais de representação e de crítica à supremacia da racionalidade, em favor de novas formas de expressividade.

Nesse contexto, em 1936, Artaud realizou uma viagem ao México com a finalidade de conhecer os ritos dos povos nativos tarahumaras, que utilizavam o cacto peyote. Essa viagem é marcada pela indignação e pelo cansaço em relação ao excesso de racionalismo europeu, à esterilidade cultural, ao esvaziamento simbólico, e trouxe a esperança de encontrar no solo mexicano um novo conceito de cultura e de ser humano, capaz de revolucionar a fragmentária cultura europeia (Artaud, 1924/2020).

A obra de Antonin Artaud configura-se, portanto, como um campo expressivo perceptivelmente não linear e sempre se manteve comprometida com o rompimento de enquadramentos. Nas décadas de 1920 e 1930, apesar da opinião controversa entre os críticos literários, sua obra apresentava-se em um formato mais estruturado, ainda que emblemático. No final da década de 1930 e na década de 1940, seus escritos passaram por modificações. Os últimos anos de vida de Artaud, conforme destaca Fernandes (2022), são marcados por uma produção intensa e acelerada, como se pressentisse o final de sua existência. Nesse novo momento, seus poemas trazem imagens de mutações corporais, glossolalias e neologismos. A partir desse léxico singular, sua expressão se materializa carregada de afetividade e, às vezes, de intraduzibilidade.

A obra de Artaud é, essencialmente, de vanguarda e facilmente pode ser considerada, a partir da psicologia analítica, como visionária (Jung, 1930/2013a). Essas características fizeram com que o autor e a obra fossem incompreendidos por seus contemporâneos. Assim, Artaud foi exposto a tratamentos psiquiátricos desumanos, características do contexto institucional de sua época. Suas expressões artísticas foram ocasionalmente marginalizadas e interpretadas, a partir de uma ótica medicalizante, como sintomas psicopatológicos. No entanto, esse artista visava ao devir, à esperança de que algo novo pudesse “nascer e vir a ser”. A despeito do enorme rechaço social em seu tempo, as ideias de Artaud foram fundamentais para fomentar os movimentos da antipsiquiatria e da contracultura, além de contribuir para o pensamento crítico em diversas áreas artísticas (Willer, 2019).

Os escritos de Artaud geram estranheza por sua obscuridade e por sua gênese inconsciente. Sua manifestação escapa às formas consagradas, apresenta temas desconhecidos e aspectos grotescos. Situa-se no âmbito invulgar, atípico e, por vezes, é equivocadamente elevada à categoria da anormalidade. Leva à dimensão do desconhecido e possui um substrato psicológico não explicitado. Tem uma fenomenologia fora do comum; daí, decorre a necessidade de buscar interpretações, já que nada se revela por si só. Segundo Jung (1930/2013a), esse modo de criação coloca o artista diante do que ainda não está completamente formado: o terreno das potencialidades inconscientes. É como se o artista fosse conduzido por sua obra, como se algo estranho impulsionasse o ato criativo. A obra se torna, nesse contexto, maior que o artista, a quem não cabe direcioná-la. Não se delibera sobre a forma e o conteúdo; por isso, muitas vezes, soa estranho. O artista é inundado por um mar de imagens que se apresentam. Nessa situação, mesmo que queira, não há como recusar a direção que lhe é imposta.

Nesse sentido, o presente estudo busca compreender a obra de Antonin Artaud a partir do modo visionário de criação artística, não de maneira dogmática e esquemática, mas buscando a profundidade do texto em seu significado sócio-histórico e cultural, tendo em vista a importância da obra de Artaud na atualidade e, principalmente, a veemência com que afirmou o seu compromisso com o processo criativo pautado na espontaneidade, garantindo o vínculo entre obra e mito pessoal (Dawson, 2011).

Este trabalho justifica-se pela necessidade de investigar a obra de Artaud para além das abordagens biográficas e psicopatológicas, ampliando o olhar ao trazermos a função simbólica de suas produções. Dessa maneira, evitamos reduzir as concepções de Artaud aos aspectos individuais e aos seus sofrimentos, favorecendo o reconhecimento do valor cultural de suas proposições, bem como da possível função compensatória frente à consciência coletiva de sua época. Como veremos adiante, as problemáticas de seu contexto histórico de forma alguma se extinguiram, mas permanecem como questões ainda não resolvidas na cultura contemporânea.

Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, teórica, documental de caráter exploratório, fundamentado na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. O corpus analítico foi constituído pelas seguintes obras de Antonin Artaud:

  • (1) Artaud, A. (2020). Correspondência com Jacques Rivière. Belo Horizonte, BH: Moinhos. (Trabalho originalmente publicado em 1924);

  • (2) Artaud, A. (2022a). Rosto Humano. In A nota fervorosa (pp. 39-44). São Paulo, SP: n-1 edições. (Trabalho originalmente publicado em 1947);

  • (3) Artaud, A. (2022b). 50 desenhos para assassinar a magia. In A nota fervorosa (pp. 17-28). São Paulo, SP: n-1 edições. (Trabalho originalmente publicado em 1948);

  • (4) Artaud, A. (2023a). Interjeições. In Meus desenhos não são desenhos (pp. 19-30). São Paulo, SP: n-1 edições. (Trabalho originalmente publicado em 1978);

  • (5) Artaud, A. (2023b). Meus desenhos não são desenhos. In Meus desenhos não são desenhos (pp. 49-54). São Paulo, SP: n-1 edições. (Trabalho originalmente publicado em 1978).

Essas obras representam diferentes momentos de sua produção. A seleção do primeiro corpus teórico, Correspondência com Jacques Rivière, se deu pela possibilidade de acessar observações de Antonin Artaud sobre o seu processo criativo, bem como a recepção de suas obras por parte da crítica literária. As demais obras fazem parte dos últimos anos de vida de Artaud, quando suas criações ganham maior complexidade. Período em que se observa a intensificação de características associadas ao modo visionário de criação artística.

A análise foi conduzida a partir de uma leitura integral e aprofundada por releituras sistemáticas das obras selecionadas, seguida da identificação de unidades simbólicas recorrentes, tais como imagens, temas, elementos linguísticos. Essas unidades foram interpretadas à luz do referencial teórico da Psicologia Analítica, sobretudo da categoria visionária dos modos de criação artística, conforme delineadas por Jung (1930/2013a) no ensaio Psicologia e poesia, e das considerações de Terence Dawson (2011) no texto “A crítica literária e a Psicologia Analítica”. As interpretações foram conduzidas de modo comparativo e articulado, considerando a interlocução entre os diferentes textos de Antonin Artaud e o referencial teórico adotado, de modo a assegurar consistência analítica e rigor conceitual. É importante ressaltar que as interpretações apresentadas devem ser compreendidas como uma leitura possível, fundamentadas teoricamente, e não como explicações absolutas da obra de Artaud. A seguir, serão apresentados e discutidos os principais resultados decorrentes dessa análise.

Antonin Artaud e a crítica literária

O ponto de partida da análise é o livro Correspondência com Jacques Rivière (Artaud, 1924/2020), que traz à luz a troca de cartas entre Antonin Artaud e Jacques Rivière, crítico literário e diretor da Nouvelle Revue Française (Nova Revista Francesa), uma influente revista de literatura e crítica literária. A correspondência entre Artaud e Rivière começou em maio de 1923 e terminou em junho de 1924 (Carvalho, 2020).

Já no início dessa troca de cartas, Artaud teve os seus poemas rejeitados pela revista por meio do seguinte parecer do diretor: “Sinto muito não poder publicar seus poemas na Nouvelle Revue Française. Mas eles me interessaram o suficiente para que eu deseje conhecer seu autor” (Rivière, 1924/2020, p. 9). Apesar da rejeição dos poemas de Artaud, o diretor se interessou pelo autor. Essa situação ilustra como a obra literária desse artista era percebida pela crítica e pelo público. Seus escritos pareciam despertar uma ambivalência: eram, ao mesmo tempo, admirados e rechaçados, em virtude de seu caráter singular.

Acerca dos poemas de Artaud, Rivière (1924/2020) aponta: “Há em seus poemas, foi a primeira coisa que lhe disse, desleixos e sobretudo estranhezas desconcertantes” (p. 15). Assim, Rivière continua a argumentar: “Evidentemente (é o que me impede por enquanto de publicar na Novelle Revue Française qualquer um de seus poemas) o senhor não consegue dar a impressão de uma unidade satisfatória” (Rivière, 1924/2020, p. 15).

Pode-se observar uma abordagem crítica de Rivière em relação à obra de Artaud:

. . . estou suficientemente acostumado a ler manuscritos para entrever que seu temperamento não impede a concentração de suas capacidades em um objeto poético simples, e que com um pouco de paciência, ainda que isso envolva a simples eliminação de traços divergentes, o senhor conseguirá escrever poemas perfeitamente harmoniosos. (Rivière, 1924/2020, p. 15)

Rivière aborda Artaud, sugerindo que, apesar das características frequentemente desordenadas de sua escrita, existe a possibilidade de alcançar um estilo poético mais refinado, caso ele se esforce para tal. Por outro lado, Artaud, busca repetidamente ser compreendido a partir da natureza autônoma dos seus processos criativos. Ou seja, a abordagem crítica de Jacques Rivière em relação ao estilo literário de Antonin Artaud aponta para uma preocupação com uma coesão poética que se acomode aos moldes tradicionais. Desse modo, a sugestão de “eliminação de traços divergentes” vem com o desejo de encontrar uma uniformidade na expressão artística de Artaud. Esse conselho aponta o contraste entre a forma visceral e intensa que caracteriza as criações de Artaud e a aspiração de Rivière por uma expressão literária mais convencional. Em outros momentos, o editor caracteriza a escrita de Artaud como “atormentada”, “cambaleante” e “crepuscular”.

Artaud (1924/2020) aponta a Rivière: “Um homem só se apossa de si mesmo por meio de lampejos, e mesmo quando se possui, ele não se encontra plenamente. Ele não realiza essa coesão constante de suas forças, sem a qual toda verdadeira criação é impossível” (p. 43). Rivière (1924/2020) oferece uma abordagem conciliatória, onde reconhece seus próprios preconceitos e as negações acerca dos estados internos de Artaud, considerando as dificuldades existenciais relatadas pelo artista: “O Senhor afirma ‘que um homem só se apossa de si mesmo por lampejos, e mesmo quando se possui, ele não se encontra nem se realiza plenamente’. Este homem é o senhor, mas eu posso dizer que também sou eu” (p. 49). Rivière demonstra uma aceitação compartilhada da complexidade das experiências humanas e se coloca numa postura mais empática a respeito da perspectiva de Artaud.

No entanto, Rivière nunca ofereceu a Artaud um parecer de seus poemas e jamais aceitou publicá-los na revista (Carvalho, 2020). Oferece a possibilidade de publicação das cartas em formato de um romance literário. A respeito disso, Artaud (1924/2020) responde: “Por que mentir, por que procurar colocar no plano literário uma coisa que é o próprio grito da vida, por que dar aparência de ficção ao que é feito da substância inextirpável da alma, que se assemelha a uma denúncia da realidade?” (p. 43).

Artaud buscou preservar a autenticidade de sua arte; apesar de aceitar o convite de Rivière, questionou a tentativa do parecerista de transformar sua expressão em ficção, argumentando que suas palavras são um “grito da vida”, uma denúncia direta da realidade, cuja essência não comporta idealizações e romantizações. Artaud se mostrou comprometido com a essência visceral da sua experiência expressiva, sendo assim, a sua abordagem busca romper as limitações estéticas formais.

De certa forma, Artaud deixa em evidência seu anseio pela possibilidade de se expressar e que sua obra literária encontre lugar, mesmo diante do que foi enquadrado como falhas e obscuridades:

Não espero que o tempo ou o trabalho remedeiem tais obscuridades ou falhas, por isso exijo com tanta insistência e inquietação, essa existência mesmo fracassada. E gostaria de receber uma resposta para a seguinte questão: O senhor pensa que podemos conceder menos autenticidade literária e menos poder de ação a um poema defeituoso mas semeado de grande beleza do que a um poema perfeito mas sem repercussão interior? Admito que uma revista como a Nouvelle Revue Française exija um certo rigor formal, e uma grande pureza material, mas afora isso, a substância do meu pensamento é tão entremeada pela desordem e sua beleza geral se torna tão pouco ativa perante as impurezas e indecisões que a permeiam que ela não consiga existir literariamente? É toda a questão do meu pensamento que está em jogo. Não se trata de nada menos do que saber se eu tenho ou não o direito de continuar a pensar, em verso ou prosa. (Artaud, 1924/2020, p. 13)

Uma questão muito importante levantada por esse artista é a necessidade de respeito à autenticidade e ao curso inerente à criação artística. Coloca em discussão o custo do enquadramento, de ter uma obra perfeita, porém destituída de impacto emocional e beleza. Pondera sobre a essência de seu pensamento e luta para que tenha o direito de continuar a expressar-se poeticamente.

Antonin Artaud: uma obra que desafia a compreensão

A correspondência entre Artaud e Rivière, bem como a diferença de suas perspectivas, espelha as especificidades subjacentes à criação artística, relacionadas aos modos, propósitos e limites desta. As peculiaridades da escrita de Artaud, bem como seu estilo artístico pouco convencional, podem ter sido os elementos que provocaram a admiração, mas também hesitação por parte dos críticos e do público. É importante ressaltar que a participação de Artaud no movimento surrealista é um dado histórico muito relevante, permitindo considerar a influência do programa estético e ideológico desse movimento em suas obras. No entanto, essa vai além da influência do surrealismo, mas permite refletir sobre a origem psíquica do material criativo, ponto que esbarra na questão das obras visionárias. Nesse sentido, a obra de Artaud excede uma intencionalidade estética consciente. Seus escritos frequentemente exploravam temas profundos, revelando um mergulho no inconsciente. Embora os surrealistas explorassem a dimensão inconsciente, havia técnicas deliberadas para acessar tais experiências, enquanto Artaud parece remeter a algo que é da ordem de um imperativo, ou seja, de algo que se impõe à sua intencionalidade. Nesse sentido Susan Sontag (1986) argumenta:

Em Artaud, o artista como visionário cristaliza-se, pela primeira vez, numa figura do artista como pura vítima de sua consciência. O que está prefigurado na rancorosa poesia em prosa de Baudelaire e no relato de uma estadia no inferno de Rimbaud torna-se a afirmação de Artaud, de sua infatigável e agonizante consciência da inadequação de sua própria autoconsciência - os tormentos de uma sensibilidade que se julga irreparavelmente alienada do pensamento. Para a qual, pensar e usar a linguagem torna um perpétuo calvário. (p. 18)

A obra de arte, muitas vezes, transcende o artista, assumindo sua própria vida e direção. Nesse caso, o artista atua como um instrumento por meio do qual a obra de arte se manifesta. Esse processo criativo é descrito como sendo impulsionado por algo que está além do controle consciente do artista. Não é possível deliberar sobre a forma e o conteúdo da obra, o que pode resultar em algo que soa estranho para os padrões convencionais (Jung, 1930/2013a).

Rivière aponta um aspecto que julga caracterizar os poemas de Artaud: “estranhezas desconcertantes”. Essa é uma característica comum às obras visionárias, pois desafiam as convenções, explorando novas formas de expressão que podem parecer desordenadas ou estranhas à primeira vista, especialmente por transmitir visões singulares e profundas das dimensões inconscientes (Jung, 1930/2013a). O fato de a obra de Artaud ter sido objeto de atenção e discussão, mesmo diante da recusa em publicar seus poemas, indica que ele já estava deixando uma marca significativa no cenário literário da época.

O desconhecimento sobre as características de obras visionárias pode conduzir a desafios em compreendê-las e aceitá-las em sua essência. Essas composições literárias ocupam um território invulgar e atípico. Embora essas obras sejam muito frequentemente associadas, de modo errôneo, à anormalidade devido à sua manifestação desafiadora das formas estabelecidas, é mais frutífero pensar que elas nos convidam à exploração do desconhecido e à aceitação das incertezas, abrindo caminho para potencialidades inconscientes. É importante ressaltar que a sugestão de Rivière para a coesão na expressão de Artaud pode ser vista como incompatível com a própria natureza insólita e disruptiva das obras visionárias.

Enquanto Rivière atuava como uma figura relevante no âmbito literário, sua interação com Artaud oferece um vislumbre da complexa relação entre o criador de uma obra visionária e a crítica literária estabelecida. Isto é, a tensão entre o desejo de coesão exigido pelo mundo externo e a necessidade de expressar as complexidades do mundo interior. As divergências entre eles refletem o eterno conflito entre a tradição e a vanguarda. Essa troca não diz respeito apenas a dois indivíduos, mas também a uma representação simbólica das tensões presentes no ambiente artístico e cultural da época. Além disso, mostra a capacidade da arte de inspirar debates importantes sobre a natureza dos processos criativos.

Ainda que essas obras possam ser inicialmente desconcertantes, elas desafiam a percepção convencional do mundo e encorajam a expandir espaço para novas perspectivas. É justamente a capacidade de transportar a um terreno psicológico mais complexo que torna essas obras tão importantes. Portanto, a relevância do estudo das obras denominadas visionárias reside em sua capacidade de estimular a reflexão e a compreensão mais profunda dos processos criativos em seu caráter simbólico. Por meio dessas obras, é possível rememorar que há um campo vasto e inexplorado de experiências interiores, onde os anseios, sonhos, receios, esperanças se entrelaçam de maneira única, tendo o poeta, por exemplo, como porta-voz da coletividade. No entanto, conforme já destacado, os possíveis significados imersos em uma obra visionária não se manifestam de maneira evidente; daí, decorre a necessidade de buscar pelo significado de seus símbolos e temas subjacentes:

Quando nos defrontamos com o tema da obra de arte psicológica nunca sentimos a necessidade de inquirir em que consiste e o que significa. Mas no tocante às experiências visionárias, essas questões se impõem por si mesmas. Há uma exigência óbvia de comentários, explicações; sentimo-nos surpreendidos, desconcertados, confusos, desconfiados ou, o que é pior, chegamos a experimentar repugnância. Elas nada evocam do que lembram a vida cotidiana, mas tornam vivos os sonhos, as angústias noturnas, os pressentimentos inquietantes que despertam nos recantos obscuros da alma. O público, em sua grande maioria, recusa-se a tais temas, a não ser que respondam às sensações mais grosseiras; o próprio crítico literário sente-se às vezes embaraçado diante desses temas. (Jung, 1930/2013a, p. 92)

Dessa maneira, a obra de Antonin Artaud torna-se fonte de conteúdo simbólico. De acordo com Penna (2009), a presença de um símbolo, normalmente é marcante, provoca estranheza e inquietação, seja pela apreciação ou pela aversão. É considerado símbolo aquilo que mobiliza a atenção de um indivíduo ou grupo. Assim, afirma: “[…] os fenômenos/símbolos são aqueles que têm grande repercussão no contexto em que eles ocorrem em razão de seu alto valor de significado e sentido […]” (p. 88). É importante ressaltar que o fenômeno/símbolo é apreendido por uma combinação da ótica causal e prospectiva. Desse modo, sob o ponto de vista da causalidade são observados os fatores pessoais, históricos e culturais. E, sob o ângulo prospectivo, é dada atenção à dimensão futura que se relaciona com finalidade do símbolo (Jung, 1916/2013b). A obra artaudiana é constantemente observada a partir de uma ótica causal. Percebe-se na literatura uma ênfase no aspecto biográfico de Artaud para pensar a sua obra. O que, em certa medida, é importante, porém a inclusão da dimensão prospectiva do símbolo pode ser bastante relevante. A integração desses diversos aspectos contribui para que a obra seja observada de forma mais abrangente, em camadas de significação, evitando interpretações lineares e literais. Interpretar a obra de Artaud de forma estritamente pessoal pode aumentar a possibilidade de patologizar algo tão emblemático e autêntico, que transcende categorizações simplistas. Observa-se o quanto seus escritos criticam o espírito de sua época e apontam para um tempo que ainda está por vir.

Em seu processo criativo, Artaud encontrava inspiração em estados psíquicos. Sua preocupação não era apenas estética, mas uma exploração de sua profunda interioridade. De acordo com Sontag (1986), Artaud não registrou apenas suas angústias psíquicas, mas foi ela mesma um componente essencial em sua obra. Por meio de seu sofrimento, também se conectou àquela esfera humana que transcende as barreiras individuais. E, nesse sentido, o artista pode ser um intermediário das dores coletivas, trazendo à superfície os conflitos negligenciados pela sociedade.

A influência das obras visionárias é como uma semente em constante maturação, não se detém ao momento presente, mas impacta a coletividade de maneira duradoura, requerendo, de tempos em tempos, um novo olhar, uma nova pesquisa que se movimenta para uma compreensão renovada de seus temas simbólicos.

Estranhar, desaprender, desfazer: esboços de Antonin Artaud

Enquanto a Correspondência com Jacques Rivière permite observar a interlocução estabelecida por Artaud, na qual ele relata os processos internos relacionados à sua produção e dialoga com a crítica literária, que se posiciona a partir dos pontos estéticos e técnicos, as obras de seus últimos anos de vida possibilitam identificar, de modo mais acentuado, a intensificação de elementos característicos do modo visionário de criação artística.

De acordo com Kiffer (2022), de 1946 a 1948, que corresponde aos três últimos anos de criação de Artaud, ele produziu uma obra complexa e vasta de desenhos, retratos e escritos e ainda de desenho-escritos que culminou em 503 cadernos, os quais foram escritos por ele e outros ditados à sua amiga Paule Thévenin. Nesses cadernos, as frases são compostas de maneira a precipitar imagens, revelando os processos criativos desse artista. Como bem aponta Kiffer, estes textos tinham “[…] a sua destinação a agir e não apenas a atuar ou a representar, envolvendo esse período e esses textos numa atmosfera mágica, feita ela mesma de endereçamento e de destinação. Quer dizer, de desejo de atingir a si mesmo e ao outro e de abrir caminho […]” (p. 9).

Nessa fase, Artaud não fala em obra, mas em esboços. Há um rompimento com as perspectivas formais da arte e da estética, bem como a necessidade de polidez e tratamento. Além disso, a criação de novos termos e glossolalias ganham destaque. No texto “Interjeições”, que compõe o livro Meus desenhos não são desenhos, expressa:

Maloussi toumi
Tapajouts hermafrot.
Emajouts pamafrot
Toupi pissarot
Rapajouts erkampfti

Não é a fragmentação da linguagem, mas a pulverização arriscada do corpo pelos ignorantes que:

Lokalu durgarane
Lokarane aleni tapenim
Anempfti
Dur geluze
Re geluze
Re geluze
Tagure
Rigolure tsipi. (Artaud, 1978/2023a, p. 21)

Há uma profunda exploração da plasticidade, como uma poética das infinitas possibilidades de combinação, conjunção, transformação e dissolução das formas e dos materiais. No texto “Rosto Humano” escrito em 1946 para a ocasião da abertura de sua única exposição em vida, que ocorreu em 1947, Artaud expressa:

Não procurei tratar meus traços ou meus efeitos,
mas manifestar formas de verdades lineares
patentes que valem tanto para as palavras, as
frases escritas quanto para o grafismo
e a perspectiva dos traços.
É desse modo que vários desenhos são
misturas de poemas e retratos,
de interjeições escritas e de evocações
plásticas de elementos, de materiais,
de personagens, de homens ou de animais.
É assim que é preciso aceitar estes desenhos
na barbárie e na desordem de seus grafismos,
“que jamais se preocupam com a arte”, mas
com a sinceridade e a espontaneidade do traço. (Artaud, 1974/2022a, p. 44)

Nessa fase, sua expressão se configura em processos fluidos, espontâneos, não lapidados, como esboços, algo que se constitui em devir. Estes esboços agem, provocam e, pela força do estranhamento, deslocam, desfazem. Nesse aprofundamento de plasticidade criativa torna-se relevante a escuta sensível do diálogo entre a emoção e o gesto. Em seus desenhos, Artaud se atentava à emoção geradora da imagem, esta deveria ser transmitida e posteriormente somada à emoção daquele que a recebe.

Isso constitui uma emoção a mais,
Algo como a moldura do cabelo da emoção
Produzida naturalmente
(como se diz: há aí um cabelo)
quero dizer da emoção geradora do desenho
e que esse que olha deve somar essa emoção primeira. (Artaud, 1978/2023b, p. 52)

Nesse sentido, seus desenhos-escritos são carregados de ação, destinação e o desejo de afetar e se deixar afetar. A respeito de seus escritos, os esboços, notas e traços são carregados de visceralidade, a força e os atravessamentos do corpo logo tomam corpo. São escritos espontâneos, jorrados, escassos em pontuações, sem preocupações estéticas se tornando uma “nota fervorosa, efervescente, ardente” (Artaud, 1948/2022b, p. 20). Os quais estavam, segundo este artista, criando corpos de sensibilidade. Este corpo-território que, em um nível micro, em devir convoca a recriação de si e, em nível macro, à plasticidade mundo. Desse modo, expressa no seu escrito, 50 Desenhos para assassinar a magia:

mas esqueci de
dizer que essas
consonâncias
têm um sentido,
eu sopro, canto,
modulo
não ao acaso
não!
eu sempre tenho
como que um objeto prodigioso
ou um mundo
a criar e convocar. (Artaud, 1948/2022b, p. 25)

A obra de Antonin Artaud pode ser compreendida como portadora de um caráter simbólico e compensatório em relação à consciência coletiva europeia do século XX, marcada pelo esgotamento de seus paradigmas culturais e civilizatórios. Após o período de contribuição e posterior ruptura com o movimento surrealista, Artaud vai ao México em busca das forças originárias presentes nas culturas dos povos indígenas. Nesse sentido, faz duras críticas aos valores hegemônicos europeus. Tal movimento vai além de uma motivação estritamente individual, inscrevendo-se como uma tentativa de revitalização cultural e de recriação simbólica da realidade, em oposição ao racionalismo, ao tecnicismo e à decadência espiritual que caracterizavam o contexto europeu de sua época. Em sua obra, Artaud parece convocar a criação de um novo mundo com uma linguagem diferente, uma nova anatomia que seja capaz de reconfigurar e cultivar o humano. Uma nova forma de produção de conhecimento, uma forma diferente de estruturar as instituições, um novo olhar para o sagrado. Artaud convoca novos meios de vida e de vivência. Apesar de todas as suas dores existenciais, a sua obra se eleva ao domínio de algo que é suprapessoal. Torna-se uma obra compensatória à rigidez, às dificuldades e fixações de seu tempo, questões que continuam muito atuais. Nesse sentido, trazer vivacidade ao pensamento artaudiano é ainda uma necessidade deste tempo. É uma maneira de lembrar, tomando aqui as suas próprias palavras: “Todas as ideias sobre a vida devem ser retomadas numa época em que nada mais adere à vida” (Artaud, 1938/2023c, p. 3).

Sua obra se torna, sobretudo, um verdadeiro trabalho de lavoura, em um sentido profundo, o qual se conecta à ideia de cultura e de cultivo, como um diálogo com a terra. Os golpes da enxada que tocam o chão são esperança e devir. Afrouxar as amarras, os endurecimentos, as fixações para descortinar possibilidades. Sobre a própria obra, ele comenta:

Todos são esboços, quero dizer que são
golpes de sonda ou de batente dados
em todos os sentidos do acaso, da possibilidade,
da sorte, do destino. (Artaud, 1974/2022a, p. 44)

Estar em contato com a obra artaudiana é como receber esses golpes, os quais não podem ser racionalizados, explicados, mas sentidos, vivenciados, saboreados, tal qual o sal. Sendo a própria experiência vivida e sentida, o sal sapientia. Em janeiro de 1948, Artaud escreve um de seus últimos textos, “50 Desenhos para assassinar a magia” e, em março daquele ano, falece:

parede vulcânica
artéria em fusão
de um vulcão,
muralha de lava em
direção a uma
reviravolta
imediata do devir,
meus desenhos então reproduzem
essas formas
assim emergentes,
esses mundos de
prodígios,
esses objetos
onde o Caminho
está feito
e o que se
chamava de Grande Obra.
alquímica, doravante
pulverizada, porque nós não
estamos mais na
química,
mas na
natureza.
E acredito,
que a natureza,
vai falar. (Artaud, 1948/2022b, p. 27)

Como um vulcão carrega a natureza crua em si, em um momento qualquer que não se controla, traz a erupção, o magma do interior da terra, sem previsibilidade e inevitavelmente, como um retorno ao caráter mais elementar da natureza, já não se fala mais por procedimentos manipulados, controlados, categorizados, mas a própria natureza, com suas forças vivas e imprevisíveis, fala por si em uma expressão indomável e conectada ao devir. De igual modo, o artista criador de uma obra visionária é impelido por essa força, cujo jorro criativo não se pode direcionar, mas se torna como um instrumento onde a natureza vai falar, pulsar e criar mundos prodigiosos, reviravoltas e o vir-a-ser. A força do inconsciente se equipara à força da natureza que pulsa em seu ritmo próprio. No entanto, nada disso ocorre suspenso no ar, mas no corpo, incorporado na experiência que saboreia o sal.

Considerações finais

A obra de Antonin Artaud revela um complexo processo de criação que transcende as fronteiras da expressão convencional e, em muitos momentos, foi considerada insólita. A abordagem incomum de seus escritos reflete a natureza das obras visionárias, que desafiam as tradições e, em sua originalidade e instintividade, são imprevisíveis como a natureza, portanto se aproximam do inconsciente. A obra artaudiana transcendeu as reações ambivalentes de seu tempo e, até os dias de hoje, continua a inspirar e provocar reflexões sobre a natureza das criações artísticas, sobre aspectos inerentes à cultura e à necessidade de transformação do ser humano para que provoque em si uma revolução de consciência. Muito mais do que um obra que está “desconcertada” como se costumava considerar em sua época, é uma obra que “desconcerta”, no sentido de causar profundo impacto naqueles que a apreciam, para quem sabe, em devir, encontrar novas configurações. Antonin Artaud tornou-se influente no mundo das artes, especialmente no teatro e na literatura. Sua capacidade de transcender os enquadramentos e revelar aspectos mais profundos da condição humana continua sendo motivo de interesse. Sua obra exerce um profundo impacto no estudo das complexidades do processo criativo. Seu legado vai além do âmbito literário e artístico, influenciando áreas como a psicologia, a filosofia e os estudos culturais.

O entendimento da obra de Antonin Artaud como visionária é de grande relevância teórica, metodológica e interpretativa. Algo bastante comum acontecer em relação às interpretações da obra artaudiana é analisá-la sob o ponto de vista redutivo-causal, buscando simplificá-la a elementos retrospectivos de cunho pessoal. A compreensão dessa obra como visionária requer também o seu caráter prospectivo. Além disso, prioriza um olhar mais simbólico e menos literal.

Os escritos referentes ao primeiro momento da obra artaudiana mantinham uma organização e um formato mais estruturado, enquanto em um segundo momento, como os escritos do período final de sua vida, já são evidentemente desprovidos de forma, estruturas definidas. Nessa fase, em que a obra se apresenta de difícil entendimento, já pressupõe a necessidade de um olhar mais atento e uma abordagem mais cautelosa na formulação de conclusões, pois sua complexidade exige tempo para ser compreendida em suas múltiplas facetas. Por outro lado, na primeira fase, em que a obra aparentemente demonstra fácil compreensão, pode induzir a erros interpretativos justamente por sua aparente transparência, já que, ao misturar elementos de assimilação imediata com conteúdos simbólicos, corre-se o risco de tomar o que é evidente como a totalidade do significado, ignorando nuances simbólicas que demandam uma leitura mais profunda.

A polissemia do símbolo, em si mesma, é algo importante, pois a vivacidade simbólica está justamente em sua parte desconhecida ou no espaço que há neste símbolo para se encontrar novos sentidos. No entanto, uma interpretação simbólica não pode ser considerada a única possível, como se pudesse dar uma palavra final. Pelo contrário, indica a necessidade de que novas pesquisas sejam empreendidas para contribuir com o aprofundamento e a compreensão da obra de Antonin Artaud que, por apresentar características de uma obra visionária, sempre será permeada por diferentes níveis de significação.

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Editado por

  • Editor responsável:
    Antonio Euzébios Filho

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Maio 2025
  • Aceito
    13 Fev 2026
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