Open-access Primeiras reflexões fenomenológicas para o aprofundamento da redução intersubjetiva em psicologia

Initial phenomenological reflections for further developing the intersubjective reduction on psychology

Premières réflexions phénoménologiques pour approfondir la réduction intersubjective en psychologie

Primeras reflexiones fenomenológicas para la profundización de la reducción intersubjetiva en psicología

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão crítica inicial sobre os fundamentos da transposição das operações metodológicas da filosofia fenomenológica para o campo das pesquisas qualitativas em psicologia. O objetivo é remover as obstruções pré-conceituais e interpretativas que encobrem as dimensões experienciais, teóricas e metodológicas indispensáveis ao aprofundamento e desenvolvimento, nesse campo, da redução fenomenológica fundamentada em suas operações filosóficas originais. Para tanto, adotam-se como referenciais o método fenomenológico de Edmund Husserl (1859-1938), compreendido como uma fenomenologia prática, concreta e experiencial, tal como desenvolvida por Natalie Depraz. A partir dessa perspectiva, são examinados os fundamentos teórico-metodológicos de algumas das propostas de fenomenologia aplicada à pesquisa qualitativa mais difundidas, reconhecidas internacionalmente e atuantes no campo da psicologia. Uma vez identificadas e suspensas as interpretações que obstruem a realização mais plena dessas operações, apontam-se possibilidades para o aprofundamento da redução fenomenológica na psicologia, com fundamento intersubjetivo e transcendental.

Palavras-chave:
fenomenologia; psicologia; pesquisas qualitativas; método fenomenológico

Abstract

This article proposes an initial critical reflection on the foundations of transferring methodological operations from Phenomenology to qualitative research in psychology. The goal is to remove pre-conceptual and interpretative obstructions that obscure the experiential, theoretical, and methodological dimensions essential to deepening and developing-within this field-the phenomenological reduction according to its classical formulation. Edmund Husserl’s (1859-1938) phenomenological method served as a reference, interpreted in light of Natalie Depraz’s conception of phenomenology as a concrete and experiential practice. From this perspective, it examines the theoretical and methodological foundations of some of the most widely disseminated and internationally recognized proposals of applied phenomenology in qualitative research in psychology. Once the interpretations that obstruct the fuller realization of these operations are identified and suspended, possibilities are outlined for deepening the phenomenological reduction in psychology on an intersubjective and transcendental basis.

Keywords:
phenomenology; psychology; qualitative research; phenomenological method

Résumé

Cet article propose une réflexion critique initiale sur les fondements de la transposition des opérations méthodologiques de la phénomenologie dans le champ des recherches qualitatives en psychologie. L’objectif est de lever les obstructions pré-conceptuelles et interprétatives qui recouvrent les dimensions expérientielles, théoriques et méthodologiques indispensables à l’approfondissement et au développement - dans ce champ - de la réduction phénoménologique fondée sur ses opérations philosophiques originelles. À cette fin, on adopte comme référence la méthode phénoménologique d’Edmund Husserl (1859-1938), comprise comme une phénoménologie pratique, concrète et expérientielle, telle que développée par Natalie Depraz. Dans cette perspective, les fondements théoriques et méthodologiques de certaines des propositions les plus répandues, internationalement reconnues et actives en matière de phénoménologie appliquée à la recherche qualitative en psychologie sont examinées. Une fois identifiées et suspendues les interprétations qui entravent la mise en œuvre plus aboutie de ces opérations, des pistes sont dégagées pour approfondir la réduction phénoménologique en psychologie, fondé sur une base intersubjectivité transcendantale.

Mots-clés :
phénoménologie; psychologie; recherche qualitative; méthode phénoménologique

Resumen

Este artículo propone una reflexión crítica inicial sobre los fundamentos de la transposición de las operaciones metodológicas de la filosofía fenomenológica al campo de las investigaciones cualitativas en psicología. El objetivo es eliminar las obstrucciones preconceptuales e interpretativas que ocultan las dimensiones experienciales, teóricas y metodológicas indispensables para el desarrollo y profundización en este campo de la reducción fenomenológica conforme su formulación clásica. Para eso, se adopta como referencia el método fenomenológico de Edmund Husserl (1859-1938), interpretado a la luz de la concepción de la fenomenología como práctica, concreta y experiencial, según Natalie Depraz. Desde esta perspectiva, se examinan los fundamentos teórico-metodológicos de algunas de las propuestas de fenomenología aplicada a las investigaciones cualitativas más difundidas y reconocidas internacionalmente en el campo de la psicología. Una vez identificadas y suspendidas las interpretaciones que obstaculizan la realización más plena de estas operaciones, se señalan posibilidades para el profundización de la reducción fenomenológica en psicología, con fundamento intersubjetivo y trascendental.

Palavras-chave:
fenomenología; psicología; investigaciones qualitativas; método fenomenológico

Introdução

Este artigo propõe uma reflexão crítica inicial sobre os fundamentos da transposição das operações metodológicas da filosofia fenomenológica para o campo das pesquisas qualitativas em psicologia. Para tanto, adotam-se como referenciais o método fenomenológico de Edmund Husserl (1859-1938), compreendido como uma fenomenologia prática, concreta e experiencial, tal como desenvolvida por Natalie Depraz. A partir dessa perspectiva, são examinados os fundamentos teórico-metodológicos de algumas das propostas de fenomenologia aplicada à pesquisa qualitativa mais difundidas, reconhecidas internacionalmente e atuantes no campo da psicologia. Entre elas, Amadeo Giorgi (2010, 2020) é uma das principais referências nessa área. Na década de 1960, ele percebeu a necessidade de uma psicologia fenomenológica cientificamente rigorosa capaz de apreender o ser humano em sua complexidade (Englander & Morley, 2021). Assim, recusando-se a aderir aos métodos reducionistas das ciências naturais, aplica-se a fenomenologia como um método fenomenológico descritivo à pesquisa em psicologia, referenciado predominantemente em Edmund Husserl (1859-1938) (Englander & Morley, 2021). Outra referência importante na área desde a década de 1980 é Max van Manen. Baseando-se em Husserl e outros, o autor desenvolveu, com finalidades epistemológicas semelhantes, um método fenomenológico hermenêutico aplicado às pesquisas qualitativas em educação, com extensões no campo da psicologia e das ciências humanas (Van Manen & Van Manen, 2021).

Além disso, diferentes autores que utilizam, em maior ou menor medida, operações metodológicas originalmente husserlianas (Burch, 2021; Halling, 2021; Melo, 2016) têm facetas de seus argumentos teórico-metodológicos trazidas ao debate. Desse modo, guardadas as diferenças entre esses autores, todos aplicam uma forma de Fenomenologia Qualitativa Metodológica (FQM) que busca seus fundamentos nos métodos da Filosofia Fenomenológica (FF)1. Entretanto, há outra proposta que vem sendo desenvolvida mais recentemente: a Fenomenologia Qualitativa Naturalizada (FQN), atuante em diversos campos científicos, inclusive o da psicologia. Assim, em vez do emprego do método, ela aplica conceitos oriundos da FF (Zahavi, 2019, 2020; Zahavi & Portugal, 2019). Nesse sentido, o exame da FQM não se dá apenas por meio dos textos teórico-metodológicos de seus autores, mas também por meio do exame da crítica realizada pela FQN a respeito da FQM. A tematização desse debate se revela importante, pois é por meio do conflito entre ambas que transparece mais claramente o modo como a FQM interpreta, modifica e fundamenta as operações metodológicas da FF em sua defesa. Assim, esse contraste permite uma visão privilegiada para a realização do objetivo deste texto: remover as obstruções pré-conceituais e interpretativas que encobrem as dimensões experienciais, teóricas e metodológicas indispensáveis ao aprofundamento e desenvolvimento, nesse campo, da redução fenomenológica fundamentada em suas operações filosóficas originais. Para tanto, sob a perspectiva da inseparabilidade fenomenológica entre método e tema (Depraz, 2011), os conceitos e operações metodológicas de Husserl são compreendidos “como guias, como indicações instrutivas, como pontos de orientação da ação em via de se realizar” (Depraz, 2011, p. 5, tradução nossa) e, portanto, “como suportes rigorosos de descrição de uma experiência (não de fins)” (Depraz, 2011, p. 5, tradução nossa).

As fontes filosóficas das operações fundamentais à FQM

É necessário, portanto, um pequeno recuo à fenomenologia husserliana e ao seu intento de investigar as estruturas das experiências vividas de algo: “aquele tão variado “ocupar-se-de”, “ter-como-objeto-temático”, “ser-consciente-de”, com todas as suas propriedades e seus eventuais “panos de fundo” (Husserl, 1928/2022, p. 147). Portanto, a “virada fenomenológica do olhar mostra que este ser-direcionado é um traço essencial das correspondentes vivências imanentes; elas são vivências ‘intencionais’” (Husserl, 1927/2022, p. 109). Assim, da perspectiva de Husserl (1928/2022), “viver como sujeito egoico significa viver através da multiplicidade do psíquico” (p. 147). Essa multiplicidade perfaz necessariamente a correlação entre percepção e objeto percebido, por meio da qual todo e qualquer objeto se manifesta (Husserl, 1927-1935/2022). Da mesma forma, nos termos de uma psicologia fenomenológica do mundo da vida, essa multiplicidade intencional constitui o “mundo circundante enquanto mundo histórico social e mundo de cultura” (Husserl, 1935/2022, p. 289).

Nesse sentido, tal intencionalidade constitutiva ao mundo vivido e “que transcorre através das vivências é, por assim dizer, anônima; ela transcorre, mas não estamos a ela direcionados” (Husserl, 1928/2022, p. 147). Assim, viver ou experienciar algo significa ocupar-se com ou voltar-se para algo “externo” (transcendente) à consciência, percebendo suas características como se estas fossem dadas de modo independente da atividade da consciência que as percebe (Husserl, 1913/2006). Portanto, quando se está perceptivamente ocupado com o mundo, tem-se “diante de si” tal mundo, mas não a experiência vivida - a percepção - desse mesmo mundo. Nesse sentido, ao se tematizar perceptivamente o mundo, não se pode, simultaneamente, tematizar a própria percepção dele: “não estamos a ela direcionados; ela não é experienciada, uma vez que experienciar significa captar algo enquanto tal” (Husserl, 1928/2022, p. 147). É justamente esse dirigir-se para o modo como a vida psíquica transcorre na percepção de algo o que caracteriza a reflexão fenomenológica: por meio de um “desvio do olhar daquilo que é imediatamente temático, é possível trazer ao nosso olhar temático a própria vida psíquica” (Husserl, 1928/2022, p. 147).

Tal orientação se realiza com a epoché: “uma libertação de todos os preconceitos e pré-compreensões que, oriundos de outras esferas de experiência geralmente privilegiadas pela ciência, poderiam nos tornar cegos para o que a reflexão fenomenológica realmente mostra” (Husserl, 1928/2022, p. 151). Essa reflexão, ao voltar-se para a experiência vivida, “procede inicialmente de forma puramente intuitiva, para uma explicação exemplar e segundo todas as dimensões dos elementos psíquicos aí implicados” (Husserl, 1928/2022, p. 151). Para Husserl, “um objeto não é conhecido, no sentido forte do termo, a não ser que ele me seja dado em uma evidência intuitiva que resulte de uma atestação em primeira pessoa” (Depraz, 2008, p. 28), é por meio dessas operações que se colhe a essência dos vividos psíquicos: essência designa “aquilo que se encontra no ser próprio de um indivíduo como o que ele é. Mas cada um desses “o que” ele é, pode ser “posto em ideia”. A intuição empírica ou individual pode ser convertida em “visão de essência (ideação)” (Husserl, 1913/2006, p. 35).

Esse processo de explicitação dos elementos psíquicos avança por meio da variação eidética ou imaginária, característica da redução: operação hipotética “pela qual eu percorro os traços de um objeto e distingo aqueles que fazem parte de sua forma intrínseca em contraste com aqueles que não lhes são mais essenciais” (Depraz, 2011, p. 207). É desse modo que se realiza um retorno “à intuição que faz experiência, a uma intuição que possa ser metodologicamente considerada e compreendida em todos seus aspectos” (Husserl, 1928/2022, p. 151). Assim, por meio dessas operações, são expostas as “estruturas essenciais dos tipos de vivência singulares, de suas formas de nexo e de suas formas de acontecer” (Husserl, 1928/2022, p. 109). De modo aproximativo, são essas estruturas as almejadas por diversas abordagens de FQM que, de formas distintas e não exclusivamente husserlianas, se apropriam dessas operações à sua maneira.

A retirada de circuito da orientação natural da transposição científica da epoché

De maneira geral, variadas vertentes de FQM utilizam, cada qual ao seu modo, os seguintes procedimentos, inscritos no decurso de tais noções metodológicas aplicadas: (1) entrevistas abertas e em profundidade ou semiestruturadas, visando acessar as experiências vividas de diferentes pessoas, próprias a um determinado fenômeno; (2) transcrição e análise de cada uma dessas entrevistas em separado, para descrever ou interpretar seus sentidos ou significados; (3) análise comparativa entre as unidades de sentido ou significado de cada entrevista, para identificar aquelas que se mostram invariáveis ou essenciais; e (4) aplicação da variação eidética (teste de hipótese), para assegurar e aprofundar a generalidade de seus resultados: variar a ausência ou presença de cada uma das características do fenômeno, para evidenciar quais delas são indispensáveis para sua manifestação como tal (Englander & Morley, 2021; Giorgi, 2020). Assim, para a FQM, a análise eidética faz emergir, “através da variação livre e imaginativa, as estruturas invariantes, as essências do objeto de estudo” (Giorgi & Souza, 2010, p. 85). Dessa forma, aqueles sentidos intuídos que se repetem entre os relatos transcritos de diferentes sujeitos são compreendidos como essenciais por meio dessas operações.

A virada fenomenológica do olhar, na FQM, surge como uma ampliação do domínio empírico sensorial ao subjetivo, rumo às estruturas invariantes das dimensões pré-reflexivas da vida humana ordinária (Englander & Morley, 2021; Van Manen & Van Manen, 2021). Porém, tal “virada qualitativa” da epoché configura uma interpretação. Nesse sentido, a interpretação científica deste projeto é praticamente idêntica à filosófica, exceto que certas diferenças críticas são introduzidas para estabelecer o status científico da práxis” (Giorgi, 2020, p. 27, tradução nossa). Já com relação a uma interpretação hermenêutica, compreende-se que “os escritos fenomenológicos exibem (implicitamente) uma reflexividade fenomenológica constitutiva à epoché e a redução” (Van Manen, 2017, p. 777, tradução nossa). Torna-se necessário então abordar tais interpretações científicas ou hermenêuticas da epoché.

No caso de a fenomenologia ser concebida como ciência das experiências exemplares, estas são compreendidas como “descrições da experiência vivida: anedotas, histórias, narrativas, vinhetas ou relatos concretos” (Van Manen, 2017, p. 814, tradução nossa). Assim, suas operações metodológicas implícitas alcançariam resultados que, embora de teor essencial, caracterizariam algo que “não é diretamente dizível - uma singularidade” (Van Manen, 2019, p. 919, tradução nossa). Nesse sentido, o modo como o autor extrai desses exemplares tais operações ou princípios, o modo como estes são praticados, bem como o modo como se dão os resultados dessa aplicação - singularidades indizíveis -, não são mais profundamente explicitados na FF: segundo ele, seus insights não podem ser teórica ou metodicamente produzidos (Van Manen, 2017). Portanto, sendo tais exemplares oriundos de FFs distintas entre si, o critério utilizado para delas extrair “princípios metodológicos” não considera as diferenças teóricas que os orienta e fundamenta. Trata-se, portanto, de uma interpretação teoricamente descontextualizada dos métodos e das práticas da FF (Zahavi, 2019)

Já a vertente científica afirma que “o rigor da abordagem fenomenológica exorta frequentemente a comparações com a perspectiva quantitativa, e, na verdade, poder-se-ia demonstrar uma profunda e fundamental unidade entre esses dois tipos de abordagem” (Giorgi, 2010, p. 388). Contudo, os critérios que orientam a percepção de tal unidade, segundo o próprio autor, mostram-se influenciados pelas ciências naturais: “meus critérios de pesquisa foram altamente influenciados pela tradição experimental e psicofísica na qual fui treinado na década de 1950” (Giorgi, 2010, p. 388). Assim, já em suas origens, a transposição científica do método fenomenológico procurou responder à seguinte questão: “Como eu sei que seus dados não estão inconscientemente a serviço de sua teoria do fenômeno?” (Giorgi, 2020, p. 77, tradução nossa). Para respondê-la, o autor desenvolve: “um método baseado em descrições em primeira pessoa fornecidas por outras pessoas, que não sabiam nada sobre meu ponto de vista, para que eu não pudesse ser acusado de usar dados simpáticos a ele” (Giorgi, 2020, p. 77, tradução nossa).

Mostra-se então a motivação da adaptação científica da epoché: manter “a salvo” o fenômeno dos “enviesamentos” provocados pela intrusão dos “pontos de vista” do pesquisador. Nesse sentido, “opta-se por se voltar para os outros, de modo a evitar a eventual objeção de que um viés foi introduzido” (Giorgi, 2010, p. 396). Revela-se nesse ponto a agência de uma objetividade científica que opera por meio do distanciamento da subjetividade do pesquisador e de seus vieses possíveis: essa objetividade configura o critério científico natural operante na interpretação que a FQM faz da FF. Junto à alegada unidade profunda entre esses procedimentos estatísticos e as operações fenomenológicas, opera outra convergência pressuposta: a epoché encontra-se equiparada a uma espécie de neutralidade - distanciamento subjetivo - científica: a “adoção de uma atitude neutra é, por assim dizer, particular à abordagem fenomenológica” (Giorgi, 2010, p. 399).

Outras vertentes hermenêuticas também, de modo geral, são orientadas por tal objetividade intuitiva científica: a abstenção de “suposições, intoxicações teoréticas, polêmicas e emocionais . . . em favor da linguagem discursiva e dos dispositivos interpretativos sensíveis que tornam possíveis a análise, explicação e descrição fenomenológica” (Van Manen, 2017, p. 908, tradução nossa). Nesse sentido, seja em favor de uma intuição científica ou hermenêutica, tal objetividade deve afastar as experiências prévias do pesquisador, sendo só “permitidas” as suas intuições dirigidas à subjetividade alheia. Portanto, a subjetividade do pesquisador, embora assumida em sua atividade intuitiva e reflexiva - variação eidética e manejo de preconceitos -, mostra-se de antemão compreendida como um veículo de obstruções pré-conceituais de variados tipos, que impedem a prática de um “modo de consciência receptivo ou de ‘descoberta’ - não um modo de aplicar ativamente idéias, teorias ou conceitos” (Englander & Morley, 2021, p. 11, tradução nossa). Trata-se assim de “ver e praticar uma consciência atenta às coisas do mundo como nós as vivemos, e não como nós as conceituamos ou teorizamos” (Van Manen & Van Manen, 2021, p. 1071, tradução nossa). E isso porque um fenômeno não é “uma ideia, uma atitude ou qualquer coisa abstrata e conceitual - mas uma experiência que é vivida diretamente” (Englander & Morley, 2021, p. 6, tradução nossa).

Assim, desponta na interpretação qualitativa da epoché a recondução das intuições de essências por uma objetividade científico natural associada com uma espécie de neutralidade científica, que deve subtrair os preconceitos teóricos e vieses subjetivos veiculados pela experiência do pesquisador em prol da aparição das características exclusivas ao fenômeno. Entretanto, Husserl alerta a respeito da epoché: “não se deve confundir a epoché em questão aqui com aquela exigida pelo positivismo” (Husserl, 1913/2006, p. 82), qual seja, aquela que apenas almeja “tirar de circuito todos os preconceitos de uma ciência ‘livre de teoria’ pela redução de toda fundação àquilo que se encontra de modo imediato” (Husserl, 1913/2006, p. 82). Nesse sentido, tal objetividade científica, ao reduzir a epoché a uma suspensão de teorias prévias rumo a um objeto dado em sua imediaticidade sem a “interferência” da subjetividade do pesquisador, opera por meio de uma metodologia já cientificamente pré-fixada não fenomenológica: “trata-se, no geral, de mero desenvolvimento de métodos especiais, que se adaptam ao estilo já prefixado de uma metodologia científica verificada e seguem esse estilo em suas descobertas . . . Quão diferente é na fenomenologia!” (Husserl, 1913/2006, p. 144)2. Cabe agora suspender tal metodologia pré-fixada, segundo a qual a FQM transpõe o método da FF.

Contudo, as lacunas teóricas da FQM impedem uma compreensão mais profunda do papel epistemológico da subjetividade e da experiência vivida daquele que pratica a epoché, bem como da inevitável participação destas na constituição do fenômeno que aparece por meio da intuição do sentido de uma experiência alheia. Assim, segundo Englander e Morley (2021, p. 25, tradução nossa): (1) o conceito de insight, por exemplo, ocorreria à maneira “de uma intuição fenomenológica direta”; 2) o padrão dele resultante - estrutura essencial ou invariante -, seria “intuitivamente reconhecido” a partir do “estoque de conhecimentos prévios do pesquisador (ou compreensão prévia)”. Nesse sentido, “porque esse processo de elucidação é em si um tanto pré-reflexivo, nunca se pode ter certeza absoluta sobre se era um dado intuitivo ou uma pré-compreensão” (Englander & Morley, 2021, p. 25, tradução nossa). Portanto, é porque a intuição é um modo de operação subjetivo (intencional) inseparável da experiência do pesquisador que, dessa perspectiva - mesmo após a suspensão deliberada das concepções prévias passíveis de serem percebidas por ele -, ela só pode ser concebida, em alguma medida, como uma espécie de interpretação pré-reflexiva, ou como intuição indireta ou não completamente objetiva3. Consequentemente, a participação das experiências que o pesquisador tem de um fenômeno, também são reduzidas à condição de conhecimentos prévios, pré-reflexivamente operantes na produção de tal intuição.

Assim, essa pré-concepção, que compreende parcialmente a intuição fenomenológica como uma espécie de interpretação pré-reflexiva, permite que algumas perspectivas hermenêuticas a reduzam a uma fonte de interpretações epistemologicamente positivas (Melo, 2016). Porém, o ato interpretativo, embora seja parte estruturante da intencionalidade, não a torna redutível a ele em suas atividades (Zahavi, 2019). Dessa forma, tal consideração parte já da assimilação inquestionada das concepções científico-naturais da intuição veiculadas pela FQM científica: “neste empenho, o acesso à experiência alheia é facultado pelo que o investigador tem como pré-compreensão a partir da própria experiência pessoal” (Melo, 2016, p. 302). Assim, sua tarefa não seria “manter a “objetividade” por intermédio da suspensão da experiência pessoal” (Melo, 2016, p. 303), mas conceber o fenômeno como objeto construído interpretativamente, tanto pelo pesquisador quanto pelos entrevistados que o descrevem por intermédio da linguagem, da cultura, das teorias etc. Nesse sentido, a experiência vivida por outros sujeitos é pré-concebida: como objeto construído interpretativamente e necessariamente dado através destas mediações, conferindo-se primazia à atividade interpretativa (Melo, 2016). Do mesmo modo, a experiência pessoal do investigador é reduzida à condição de mediação através da qual a experiência vivida alheia aparece já como objeto interpretativamente construído. Assim, aquele “torna-se ativa e pessoalmente envolvido com o fenômeno que se está investigando” (Melo, 2016, p. 298). Em suma, o restabelecimento hermenêutico da subjetividade do pesquisador na FQM científica corresponde ao restabelecimento dessas mediações interpretativas, autorizando a utilização de enxertos hermenêuticos (Melo, 2016).

Portanto, algo próximo ao que é diagnosticado a respeito da filosofia hermenêutica pelo filósofo Michel Henry (1922-2002) anuncia se repetir: uma orientação “que faz do texto um fim em si e passa alegremente a ignorar a experiência que o porta” (Depraz, 2009, p. 15). Nesse sentido e, pelo menos em grande medida, tal perspectiva deixa de levar em consideração a própria experiência através da e na qual todas essas mediações transcorrem, como fonte epistêmica legítima irredutível a uma atividade estritamente interpretativa: torna-se necessário, para restabelecer o seu potencial fenomenológico, a suspensão da “atitude hermenêutica que forma nosso habitus metódico espontâneo - nossa tendência natural - e praticar uma epoché da atitude interpretativa, para colocar em jogo a atitude experiencial em sua nudez” (Depraz, 2009, p. 14, tradução nossa). Em outras palavras, trata-se de restabelecer o polo subjetivo da FQM sem circunscrevê-la prévia e exclusivamente apenas dentro dos limites de uma atividade interpretativa, ou sem almejar excluí-la segundo pressupostos científico naturais inquestionados.

A retirada de circuito das obstruções lógico-hermenêuticas à prática da epoché e da redução fenomenológica em psicologia

A precariedade conceitual das interpretações da FF realizadas pela FQM não escapa aos olhos da FQN (Zahavi, 2020; Zahavi & Portugal, 2019). Nesse sentido, a FQN destaca a incompatibilidade de seus conceitos e métodos em relação aos da FF. Portanto, nos artigos de Dan Zahavi (2019, 2020; Zahavi & Portugal, 2019) ela é questionada no ponto em que reivindica o seu método como modelo empírico de investigação. Recomenda-se então a exclusão da operação metodológico-fenomenológica em seus procedimentos. Assim, a prática de um método originalmente filosófico, que, em última instância, se define pela investigação da natureza de todo e qualquer conhecimento empírico, se mostraria apenas possível quando exclusivamente orientado por tal propósito. Na definição oferecida pelo autor: “sua tarefa não é contribuir ou ampliar o escopo de nosso conhecimento empírico, mas sim recuar e investigar a natureza e a base desse conhecimento” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 332). Desse modo, tratar-se-ia apenas “de alcançar a nossa principal, se não a única, questão enquanto fenomenólogos, a saber, a de transformar “a obviedade universal do ser no mundo - para ele [o fenomenólogo] o maior de todos os enigmas - em algo inteligível” (Husserl, 1970, citado por Zahavi & Portugal, 2019, p. 334).

Tal concepção opera destacando a distinção entre as dimensões transcendentais4 e empíricas, fixando univocamente o destino da epoché e a redução apenas às primeiras. Mas essa fixação resulta de uma interpretação particular a respeito do projeto filosófico husserliano: Zahavi (2013) argumenta que, em sua primeira fase, impera o transcendental como uma instância da qual a realidade empírica depende inteiramente para se manifestar; em sua segunda, o fenomenólogo teria “se desviado” ao enfatizar a importância “da facticidade, passividade e da interdependência entre subjetividade, intersubjetividade e mundo” (Zahavi, 2013, p. 32, tradução nossa)5. Ao tornar visível o método fenomenológico apenas em função da resolução da “principal, senão única questão”, ele busca apresentá-lo como inapropriado à esfera empírica de investigação. Desse modo, o autor apela à falsidade filosófica das vias psicológicas da epoché e redução, contrastando-as com seus propósitos transcendentais: “não deveria ser surpresa que Husserl argumente que a redução psicológico-fenomenológica e a epoché são inautênticas e não-genuínas” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 335).

De fato, Husserl afirma que a psicologia fenomenológica não seria autêntica por não realizar a virada transcendental. Entretanto, para que a psicologia realize uma cientificidade fenomenológica, a prática da epoché e a redução são necessárias, mesmo que do ponto de vista transcendental não atinjam plenamente sua autenticidade (Husserl, 1927-1935/2022). Dessa forma, caso o psicólogo efetue “algum tipo de epoché vis-à-vis com o mundo . . . tanto a vida intencional que ele está investigando quanto os fenômenos psíquicos que ele está descrevendo permanecem fatos mundanos” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 335). Porém, sem indagar pela validade e fecundidade epistemológica do uso de tais operações no campo da FQM, o autor impõe uma impossibilidade ao psicólogo de ser genuinamente um fenomenólogo em sua práxis: por não ser um filósofo, “mas um cientista positivo que deixa algumas questões fundamentais não-questionadas” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 335), ele não poderia aplicar o método, sob pena da FQM “ser absorvida pela fenomenologia transcendental” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 335). Tanto a psicologia quanto o próprio pesquisador seriam então passivamente absorvidos ao plano estritamente universal. Assim, ao se almejar tal redução, haveria o perigo de um retorno ortodoxo à Husserl: “esse fato em última análise debilita a própria independência da psicologia fenomenológica” (Zahavi & Portugal, 2019, p. 336).

Nota-se, contudo, que tal ortodoxia opera antes na própria interpretação de Zahavi (2013), que descarta aquele Husserl “desviado”, no qual mesmo a via transcendental pode atuar no mundo e na prática do psicólogo. Por exemplo: (1) no caso de se permanecer em uma esfera mundana, na qual o psicólogo “se joga no homem real e na sua consciência de si humana . . . Para tal, basta o primeiro estádio da epoché e da redução” (Husserl, 1929/2012, p. 212); (2) porém, para uma aprofundamento adequado tematicamente dirigido para esta mesma esfera, “nenhuma Psicologia positiva que não disponha da Psicologia transcendental já em operação pode descobrir jamais tais determinações do homem e do mundo” (Husserl, 1929/2012, p. 268). Em resumo, não apenas os modos de operação, mas a própria redução mesmo em suas vias transcendentais não estão exclusivamente comprometidas com questões filosóficas. Portanto, a psicologia, sem ser absorvida nessas que estão fora do seu alcance, pode, voltando-se ao mundo e aos seus problemas específicos, realizar a epoché e a redução em seus diferentes níveis: trata-se da necessidade de uma compreensão adequada dos conceitos da FF para que a psicologia opere transcendentalmente (Barreira, 2017). Dessa forma, é justamente o “paralelismo e, de certo modo, a prodigiosa coincidência entre psicologia fenomenológica e fenomenologia transcendental” (Husserl, 1928/2022, p. 201), uma fonte legítima de transposição do método fenomenológico ao domínio da psicologia.

O retorno da FQM à experiência intuitiva contra as críticas a seu método

Para defender-se de tais críticas, a FQM busca legitimar seu método movendo-se no mesmo quadro das oposições epistêmicas entre o empírico e o transcendental: é “porque a redução transcendental ‘filosófica’ ocorre em um nível de reflexão não pessoal e não situado, que simplesmente ela não é apropriada para realizar pesquisas psicológicas qualitativas” (Englander & Morley, 2021)6. Desse modo, a FQM compreende que “ao invés da suspensão total do mundo da atitude natural realizada pelo filósofo, é exatamente por este mundo que o psicólogo tem forte interesse” (Englander & Morley, 2021, p. 9, tradução nossa)7. Destaca-se então, amplamente, entre diversas vertentes da FQM, os métodos da FF como inapropriados para suas investigações, pois rumam para domínios abstrato-conceituais, opostos ao lado científico psicológico, existencial ou natural (Burch, 2021; Englander & Morley, 2021; Giorgi, 2020; Van Manen & Van Manen, 2021).

Opera assim, na FQM, uma certa “dicotomia” entre método e conceito, entre “conceito” e “experiência do mundo”, entre projetos filosóficos e o estudo de fenômenos mundanos, a tal ponto que, ao invés de tal oposição ser identificada à FQN, ela é percebida como inerente ao projeto husserliano: “talvez uma dicotomia entre o estudo de fenômenos em seu próprio direito e os projetos gerais dos filósofos tenha alguma validade no contexto da filosofia de Husserl” (Halling, 2021, p. 345, tradução nossa). Mas isso não se dá por acaso: a exemplo dos variados estudos de filósofos especialistas em fenomenologia, estes são predominantemente praticados segundo uma perspectiva metateórica (Depraz, 2009, 2011). É nesse sentido que, por um lado, as críticas da FQM sobre a ausência de uma prática fenomenológica concreta nas obras de Zahavi não são casuais (Van Manen & Van Manen, 2021). Contudo, por outro lado, as lacunas nas fundações filosóficas da FQM a impedem de enxergar uma experiência concreta nas práticas conceituais da FF, associando a ausência de tal experiência nos estudos de Zahavi com a suposta ausência dela, nas próprias obras de Husserl: “nos textos de Husserl, raramente encontramos exemplos da prática da atitude fenomenológica” (Van Manen & Van Manen, 2021, p. 1073, tradução nossa).

Não demora para outros autores também demarcarem suas distâncias em relação a Husserl em defesa de suas abordagens: Giorgi “nunca reivindicou seu método idêntico ao de Husserl. Em vez disso, foi uma modificação da filosofia husserliana” (Englander & Morley, 2021, p. 4, tradução nossa); “a prática requer inovação na teoria e no método. De forma alguma é simplesmente uma extensão dos projetos de Edmund Husserl” (Halling, 2021, p. 345, tradução nossa). Cabe então, por um lado, identificar-se operacional e conceitualmente com Husserl em algum nível - uso da epoché e redução -, mas diferenciar-se dele, tanto fenomenológica quanto científica ou hermeneuticamente, por outro: a transposição do método da FF ecoa cada vez mais como mundanização dele, justificando descompassos conceituais para com ela, sem um exame mais profundo, mantendo encobertos seus pressupostos científico naturais e suas lacunas teóricas.

Como resultante temos um aprofundamento da falta de sustentação teórico-metodológica, buscada, em grande medida, naquilo que escaparia à fundamentação conceitual mais rigorosa de suas operações. Portanto, se estas não devem ser limitadas “à prática de técnicas argumentativas filosóficas e conceituais” (Van Manen, 2019, p. 911, tradução nossa) e se não podem se dobrar “a um aspecto qualitativo de um programa de estratégias determináveis” (Van Manen, 2017, p. 820, tradução nossa), resta à FQM fundamentar-se na experiência que ela mesma faz das operações que adaptou da FF e dos fenômenos que investiga8. Nesse sentido, sua fundamentação fica entre as interpretações filosoficamente descontextualizadas ou equivocadas da fenomenologia (Zahavi, 2019, 2020; Zahavi & Portugal, 2019) e as experiências analíticas e interpretativas teoricamente obscuras. Contudo, estas são reivindicadas como pedra angular de sua fenomenologia: o indescritível ou elusivo “significado originário ou inicial do insight qualitativo” (Van Manen, 2017, p. 813, tradução nossa). Assim, o fascínio de quem olha algo como se pela primeira vez, deparando-se com as “múltiplas camadas, as profundezas misteriosas e paradoxais da existência humana” (Finlay, 2011, citado por Halling, 2021, p. 26, tradução nossa); a explosão de significados durante a análise (Englander & Morley, 2021); a fruição de significações imprevistas produzidas pela compreensão tácita inerente ao uso das intuições e sua criatividade (Giorgi, 2010), tudo isso comparece justificando a precariedade teórica da FQM e, por outro lado, revela a necessidade de um retorno fenomenológico à experiência vivida de suas intuições.

Dos caminhos para o aprofundamento da redução intersubjetiva em FQM

Trata-se agora de expor, em linhas breves e gerais, aquilo que falta à epoché da FQM para que esta possa atingir uma plenitude fenomenológica em sua transposição: “sua reivindicação íntima e definitiva nos termos de uma descrição em primeira pessoa realizada por um sujeito singular” (Depraz, 2013, p. 335, tradução nossa). Antes de excluí-la ou admiti-la e desenvolvê-la científica ou hermeneuticamente a partir dos limites preestabelecidos pela incompletude de um distanciamento da subjetividade, é necessário compreender seu papel decisivo na realização do método fenomenológico. A operação essencial à epoché e à redução, seja em nível psicológico ou transcendental, revela-se justamente como um retorno à auto-experiência fenomenológica daquele que faz fenomenologia, tanto filosófica como cientificamente autêntica, constitutiva das suas intuições (Husserl, 1927-1935/2022)9.

Assim, mesmo uma epoché universal, ao contrário do que compreende a FQM, não perde o mundo concreto ou empírico: é “através da redução fenomenológica que se adquire uma clara visão do puro sujeito egoico em sua plena concreção, daquilo que sua vida egoica é concretamente” (Husserl, 1935/2022, p. 280). Nesse sentido, transparece o “ego afetado por seus objetos intencionais . . . deles se ocupando de modo puramente imanente, experimentando-os, pensando sobre eles, ou o que quer que seja” (Husserl, 1935/2022, p. 280). Para tanto, nenhuma imparcialidade subjetiva é requisitada entre o pesquisador e o fenômeno investigado: na “a psicologia fenomenológica, a epoché que descrevemos é o meio /129/ para reduzir os sujeitos egoicos que se encontram na vida mundana natural a relações reais com objetos mundanos reais” (Husserl, 1935/2022, p. 279) e, para tanto, “o psicólogo faz parte do seu tema e o compõe, e <por isso> ele deve praticar a redução também em relação a si mesmo” (Husserl, 1935/2022, p. 279). Atenção: reduzir a si mesmo não é excluir este si mesmo e suas experiências do fenômeno, mas desvendar eideticamente estas por meio da redução: “todos os demais objetos mundanos para os quais as pessoas estão intencionalmente dirigidas devem ser reduzidos a meros fenômenos - no sentido da fenomenologia -, assim também o psicólogo, ao refletir sobre si mesmo, deve se colocar no fenômeno” (Husserl, 1935/2022, p. 279). De modo simplificado, trata-se de uma prática fenomenológica “sempre mais determinada daquilo que é essencialmente próprio tanto a si mesmo quanto aos demais” (Husserl, 1935/2022, p. 280).

A redução fenomenológica então se revela como um autodesvendamento intersubjetivo que nos conduz “para uma forma de oni-temporalidade (allzeitlichkeit) que não mais permanece individual, mas joga já um papel transindividual” (Depraz, 2011, p. 110, tradução nossa). Nesse sentido: “o paralelo deste autodesvendamento transcendental de mim mesmo será o autodesvendamento psicológico” (Husserl, 1931/2013, p. 76). Em suma, tal desvendamento de si mesmo é, simultaneamente, um desvendamento das estruturas essenciais às experiências vividas por outras pessoas e tem, desse modo, a intersubjetividade como fundamento: ainda permanecendo no registro de uma positividade natural última - movendo-se sobre o solo do mundo pré-dado - , pode-se desenvolver “uma fenomenologia psicológica consequente acerca de uma intersubjetividade universal, uma eidética universal criada a partir da intuição puramente anímica” (Husserl, 1928/2022, p. 201). Trata-se de “um método de universalização concreta não indutiva, um modo de liberar uma invariante intersubjetiva da singularidade subjetiva” (Depraz, 2011, p. 99, tradução nossa). Portanto, a psicologia fenomenológica configura antes “uma eidética da intersubjetividade fenomenológica. E com a introdução da redução transcendental, também esta eidética intersubjetiva psicológica encontra seu paralelo transcendental” (Husserl, 1928/2022, p. 201).

Trata-se de desvelar a intersubjetividade e o mundo em suas participações constitutivas da autoexperiência psicológica que desvela, “numa necessidade e generalidade de essência estritamente intuitiva, as formas de mundos concebíveis e estes, de novo, no quadro de todas as formas de ser concebíveis em geral e de seus sistemas de níveis” (Husserl, 1931/2013, p. 192). Esse autodesvelamento da estrutura intersubjetiva do fenômeno pode ser realizado tendo como ponto de partida as operações analítico-qualitativas dos cruzamentos intencionais desenvolvidas por Barreira (2017), pois estas realizam um atravessamento intersubjetivo de todas as experiências dos entrevistados, delineando a estrutura essencial ao fenômeno. Assim, esse atravessamento pode ser percorrido por uma experiência em primeira pessoa intersubjetivamente constituída, obtida por meio do desvendamento da autoexperiência - no limite transindividual - estruturante das experiências dos entrevistados, do pesquisador e, consequentemente, do fenômeno investigado (Valério, 2021). Portanto, é no transcurso intersubjetivo por todas essas experiências que tal redução pode se aprofundar desdobrando seus horizontes intencionais. Nesse mesmo sentido, outras instâncias, para além das entrevistas transcritas, são eidética e intersubjetivamente atravessadas: as experiências etnográficas, autoetnográficas, perspectivas históricas, sociológicas, antropológicas entre outras, comparecem, fornecendo diversificações experienciais fáticas dos modos de aparição do fenômeno, ampliando e aprofundando o desvelamento de sua estrutura em nível intencional, genético e generativo (Valério, 2021).

Conclusão

Com essas reflexões críticas iniciais a respeito dos fundamentos teórico-metodológicos da FQM, foi possível suspender algumas obstruções: (1) à consideração fenomenológica adequada da positividade e potencialidade epistêmica de suas intuições analíticas; e (2) ao desvelamento da intencionalidade do pesquisador e de sua participação na constituição intersubjetiva do fenômeno e de sua estrutura essencial. A partir disso, a FQM pode atingir as intersubjetividades que constituem todo o arco das experiências vividas envolvidas em uma pesquisa. Em outras palavras, ela pode, por meio da redução intersubjetiva, chegar às estruturas essenciais do fenômeno e de todas as experiências por meio das quais ele se mostra. Do mesmo modo, ela pode percorrer também, mediante a redução intersubjetiva, os variados procedimentos de pesquisa de campo, sem desprezar aqueles desenvolvidos pela FQN ou por outras abordagens de FQM.

Referências

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os conjuntos de dados analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.
  • 1
    A FQM também se desenvolve no Brasil, em grande medida influenciada pela psicologia fenomenológica científica de Giorgi, sendo este artigo uma extensão de uma parte da problematização da FQM realizada em pesquisas anteriores (Valério, 2021; Valério & Barreira, 2015). Esta, ao retomar operações analíticas da psicologia fenomenológica clássica (Barreira, 2017) da perspectiva da fenomenologia como prática concreta fundamentada no empirismo transcendental (Depraz, 2011), realizou uma reformulação crítica da FQM, desenvolvendo-a e aplicando-a de modo inovador na investigação de fenômenos culturais em psicologia.
  • 2
    Assim, “as tarefas da análise intencional que pertencem à psicologia fenomenológica são na verdade infinitas, e tem um sentido totalmente distinto das análises habituais [realizadas] na esfera objetiva, ou seja, natural” (Husserl, 2022, p. 166).
  • 3
    É importante destacar aqui a oposição entre “intuição pura” ou “direta” e a pré-compreensão que se constitui a partir dos conhecimentos prévios do pesquisador. Essa oposição faz com que a associação inquestionada entre epoché e neutralidade científica conflite com o caráter inescapavelmente subjetivo dessa mesma intuição.
  • 4
    Transcendental se refere, grosso modo, às estruturas de condição de possibilidade para a manifestação de todo e qualquer fenômeno ou experiência de algo e, simultaneamente, a uma dimensão experiencial (Depraz, 2009, 2011).
  • 5
    Não por acaso, o autor sugere que a solução da questão metodológica das FQMs, estaria nas obras iniciais de Husserl, não nas tardias (Zahavi & Portugal, 2019).
  • 6
    Além de designar as condições de possibilidade para toda e qualquer experiência vivida de algo, “designa o próprio ego . . . que operou a redução e modificou seu olhar sobre o mundo” (Depraz, 2008, p. 120).
  • 7
    De outro modo, o critério científico aparece como aquele que asseguraria o acesso ao objeto - as experiências vividas naturais - e tornaria aptas ao mundo a epoché e a redução, modificando-as para investigá-las. Assim, ao lado da afirmação de que é preciso introduzir “algumas alterações no método filosófico” (Giorgi & Souza, 2010, p. 74), ecoa aquela de que a epoché e a redução operam em um “contexto diferente do que o da filosofia” (Englander & Morley, 2021, p. 7).
  • 8
    Não por acaso, a FQM recebe investidas críticas de um lado e de outro: os resultados de suas pesquisas seguem também sendo questionados em suas diferenças e contribuições originais, em relação aos obtidos por outras abordagens qualitativas (Burch, 2021; Halling, 2021).
  • 9
    Nesse sentido, “qualquer outra experiência do psíquico (sempre entendida como intuição experimentante, intuição que faz experiência) se funda nesta imediaticidade da experiência de si mesmo” (Husserl, 2022, p. 154).

Editado por

  • Editor responsável:
    Antonio Euzébios Filho

Disponibilidade de dados

Os conjuntos de dados analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2026
  • Aceito
    23 Mar 2026
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