Open-access O horizonte do espanto: perseverança, surpresa e apaziguamento na fenomenologia da percepção

The horizon of wonder: perseverance, surprise and appeasement in the phenomenology of perception

L’horizon de étonnement : persévérvance, surprise et apaisement dans la phénoménologie de la perception

El horizonte del asombro: perseverancia, sorpresa y apaciguamiento en la fenomenología de la percepción

Resumo:

A fenomenologia da percepção favorece atitudes de espanto, de perseverança, de tolerância à indeterminação, de abertura à interrogação e à surpresa e de apaziguamento da necessidade de tudo perceber, além de evidenciar nossa adesão antecipada às coisas e o anseio objetivista que permeia nossas práticas sociais. O propósito deste ensaio é examinar os termos fundamentais dessa condição de receptividade e crítica. Veremos que a estabilidade do campo perceptivo associa-se à sua natureza transformacional, desvelando o caráter existencial da percepção e os afetos que a perpassam. Nessa via, problemas de ordem psicossocial são levantados, a partir da descrição husserliana da estrutura de horizontes da percepção. Sobressai-se a temporalidade da percepção, orientada não só por expectativas, mas também pelo inesperado. Com base nisso, discutimos a antecipação na percepção, a possibilidade do espanto e o fenômeno da surpresa. Finalizamos com considerações, no plano epistemológico e social, a respeito de formas de denegação da indeterminação da experiência sensível.

Palavras-Chave:
fenomenologia; percepção; Husserl; expectativa; antecipação

Abstract:

The phenomenology of perception favors attitudes of wonder, perseverance, tolerance to indetermination, openness to surprise and inquiry, and appeasement of our need to perceive everything while highlighting our early adherence to things and the objectivist aspiration that permeates our social practices. This article examines the key terms of this condition of receptivity and criticism. Stability of the perceptual field is associated with its transformational nature, unveiling the existential character of perception and its affects. In this regard, we raised psychosocial issues based on Husserl’s description of the structure of horizons of perception. The temporality of perception stands out, guided by expectations and the unexpected. From there, we discuss anticipation in perception, the possibility of wonder, and the phenomenon of surprise. We close with epistemological and social considerations on ways of denying the indeterminacy of sensitive experience.

Keywords:
phenomenology; perception; Husserl; expectation; anticipation

Résumé:

La phénoménologie de la perception favorise les attitudes étonnement, de persévérance, de tolérance à l’indétermination, d’ouverture à l’enquête et à la surprise, et d’apaisement de notre besoin de tout percevoir, tout en soulignant notre adhésion précoce aux choses et l’aspiration objectiviste qui imprègne nos pratiques sociales. Cet article examine les termes clés de cette condition de réceptivité et de critique. La stabilité du champ perceptif est associée à sa nature transformationnelle, dévoilant le caractère existentiel de la perception et de ses affects. À cet égard, on soulève des questions psychosociales basées sur la description husserlienne de la structure des horizons de perception. La temporalité de la perception ressort, guidée par les attentes et l’inattendu. A partir de là, nous discutons de l’anticipation dans la perception, de la possibilité étonnement et du phénomène de surprise. Nous terminons par des considérations épistémologiques et sociales sur les moyens de nier l’indétermination de l’expérience sensible.

Mots-clés:
phénoménologie; perception; Husserl; attente; anticipation

Resumen:

La fenomenología de la percepción favorece una actitud de asombro, de perseverancia, de tolerancia a la indeterminación, de apertura a la sorpresa y de apaciguamiento de la necesidad de percibir todo, además de señalar nuestra adhesión anticipada a las cosas y el anhelo objetivista que impregna nuestras prácticas sociales. El propósito de este ensayo es examinar los términos fundamentales de esta condición de receptividad y crítica. La estabilidad del campo perceptivo está asociada a su naturaleza transformacional, desvelando el carácter existencial de la percepción y los afectos que la impregnan. Así, se plantean problemas de orden psicosocial a partir de la descripción husserliana de la estructura de los horizontes de percepción. Se destacan la temporalidad de la percepción guiada no solo por expectativas, sino también por lo inesperado. A partir de esto discutimos la anticipación en la percepción, la posibilidad del asombro y el fenómeno de la sorpresa. Por último, concluimos con consideraciones, a nivel epistemológico y social, sobre las formas de negación de la indeterminación de la experiencia sensible.

Palabras clave:
fenomenología; percepción; Husserl; expectativa; anticipación

Introdução

A fenomenologia atesta a incompletude incessante do percebido. Renaud Barbaras ( 2006 ), ao sintetizar os fundamentos da fenomenologia da percepção, afirma que “toda percepção é necessariamente lacunar” (p. 49). O percebido, anota Edmund Husserl (1966/ 1998 ), apresenta-se em meio a “multiplicidades infinitas de aparições possíveis” (p. 95), sendo que jamais se tem acesso integral a ele nem ao campo do qual faz parte. Vemos uma mesa, um edifício ou uma paisagem sempre desde um certo flanco, de um certo ângulo. Permanece havendo um verso invisível, outros lados, sem contar o interior das coisas, as suas propriedades, bem como o espaço e a situação que as envolve. Uma aproximação total ao objeto e ao seu ambiente é, pois, uma impossibilidade de princípio. O que se tem é, justamente, uma aproximação, no sentido forte, contínua e nunca completamente determinada, posto que ao descortinar um novo ângulo do objeto, a face antes percebida se oculta.

Ao mesmo tempo, não temos a experiência de perceber partes das coisas desconectadas do todo, como simplesmente o tampo da mesa, ou a fachada de um edifício. Percebemos a própria mesa, o próprio edifício, mas sempre a partir de um ponto de vista. Podemos estar interessados por particularidades das coisas, como o próprio tampo da mesa, ou um detalhe da fachada do edifício, mas ainda assim a complexão total do objeto e do seu ambiente continua presente para nós na forma de um contexto que amarra o sentido das partes, de um impercebido que não deixa de ser atuante na percepção. O objeto pertence a cada perfil percebido. A aparição de um objeto percebido implica, pois, sempre mais do que ela própria. É assim que os fenomenólogos resumem a relação dos perfis das coisas, percebidos propriamente, com a coisa própria. Tem-se, com isso, o desdobramento de uma profundidade. Eis a essência do aparecer como estrutura de horizontes , questão que se sobressai desde os esforços seminais de Husserl para descrever as condições de inteligibilidade da nossa experiência a partir da percepção.

A estrutura de horizontes remete-nos a totalidades que não podem ser totalizadas e, nessa medida, revela, no centro da nossa experiência, uma forma de manifestação que “desafia o princípio de identidade” (Barbaras, 2006 , p. 100). Abre-se, com isso, a possibilidade de nos atentarmos para contradições fundamentais, com implicações concretas em nossa relação com o mundo. São repercussões que se refletem nas respostas que damos às coisas com as quais nos deparamos (Waldenfels, 2019 ). É comum, por exemplo, que, em virtude do “já visto” – ou seja, da nossa experiência, do nosso passado, do nosso aprendizado e das coisas familiares em meio às quais nos movemos –, antecipemos e pré-capturemos o sentido das coisas com as quais lidamos. Nos termos da fenomenologia da percepção, pode-se dizer que nos contentamos, frequentemente, com os aspectos propriamente percebidos das coisas, e deixamos de avançar em determinações mais precisas dos objetos de percepção. Com isso, damos às coisas respostas repetitivas ou reprodutivas (Waldenfels, 2019 ). No sentido contrário, pode-se erigir a pretensão de realizar algo que não pode ser efetuado na experiência perceptiva: esgotar ou exaurir o percebido enquanto coisa sensível, conhecer todas as suas propriedades e possibilidades, consumi-lo, devorá-lo, quiçá destruí-lo. É o que se observa, de certo modo, na forma como a Ciência enfrenta os fenômenos naturais, ou na maneira com que as práticas capitalistas e as militares atêm-se aos objetos que exploram.

O exame fenomenológico da percepção, além de evidenciar nossa adesão antecipada às coisas e ao anseio objetivista que permeia nossas práticas de conhecimento, de produção e de extermínio, favorece uma atitude de espanto, de perseverança perceptual, de tolerância à indeterminação, de abertura à interrogação e à surpresa, e pode propiciar o apaziguamento da necessidade de tudo perceber. Gostaríamos de examinar, neste trabalho, os termos fundamentais dessa posição. Adotamos como ponto de partida a descrição husserliana da percepção (Husserl, 1989 , 1966/ 1998 ), que é fundamentada na dinâmica de horizontes. Dela sobressai, em meio à exploração dos campos percebidos, a temporalidade da percepção, orientada por expectativas e pelo inevitável contato com o inesperado, próprio da abertura do sujeito à alteridade. Com base nisso, e a partir do recurso ulterior a outros aportes fenomenológicos, pós-husserlianos, mais especificamente aos trabalhos de Renaud Barbaras ( 2006 ), Emmanuel Lévinas (1949/ 1997 ), Eugène Minkowski (1933/ 2005 ) e Paul Ricœur (1940/ 2013 ), respectivamente, discutimos o teor da antecipação na percepção e a possibilidade do espanto para, em seguida, assentes no fenômeno da surpresa e com base nas contribuições de Françoise Dastur ( 2016 ), Emmanuel de Saint Aubert ( 2013 , 2016 ) e Maurice Merleau-Ponty (1964/ 2003 , 2006 ), darmos contornos mais definidos à receptividade exigida de nós pelo campo de experiência. Finalizamos o ensaio com considerações, no plano epistemológico e social, a respeito de formas de denegação da indeterminação da experiência sensível.

O conceito de horizonte em Husserl

É conhecido o entendimento de que a origem da Filosofia repousa em uma emoção que podemos indicar pelo maravilhamento, pela admiração ou pelo espanto diante do aparecimento e da renovação de tudo que é. Isso sem perder de vista que renovação se refere tanto ao aparecer novamente quanto ao se modificar. Nessa medida, a fenomenologia pode ser associada à retomada da ideia antiga de Filosofia, posto cuidar da fenomenalidade, do acontecimento do aparecer. Contudo, a ideia precisa de espanto que temos em mente se relaciona com a forma que a fenomenologia caracteriza o movimento da percepção, e que está relacionada ao conceito de horizonte (Dastur, 2016 ).

Husserl (1966/ 1998 ), nas notas coligidas em Da síntese passiva , retoma os fundamentos do conceito de horizonte tal como elaborado a partir do exame fenomenológico da percepção. Segundo o filósofo, o objeto de percepção, a coisa completa, pode-se dizer, é aquilo que apresenta ainda outros lados não percebidos na percepção atual, mas que podem ser propriamente percebidos em percepções vindouras. Fundamental é observar o fenômeno da coconsciência dos perfis possíveis. Os lados invisíveis são “co-visados como co-presentes pela consciência”, afirma Husserl (1966/ 1998 , p. 96). Caso queiramos, somos capazes de desdobrar a cena perceptiva, desocultando faces antes encobertas das coisas, e vendo o objeto a partir de perfis sempre renovados. O lado das coisas efetivamente visto é caracterizado, assim, apenas como um simples perfil da coisa, e não como a coisa própria, por termos consciência de que o percebido transcende aquilo que vemos efetivamente. O lado exposto intuitivamente reenvia a um além não intuitivo e que abarca novas percepções possíveis. Na verdade, “cada aspecto singular do objeto” (Husserl, 1966/ 1998 , p. 96) reenvia à sua continuidade, a infindáveis novas percepções possíveis.

Apesar de aberta e indefinida, a continuidade da percepção na direção do horizonte intencional tem suas tendências. Há um sentido nesse halo de consciência, uma coesão, uma prefiguração que “prescreve uma regra” (Husserl, 1966/ 1998 , p. 96) às passagens atualizantes. Husserl fala, nesse sentido, em transmutação das intenções vazias em expectativa, ou espera ( attente , na versão em francês do texto husserliano). O invisível de um objeto qualquer permanece, de acordo com o léxico husserliano, consciente sob a forma de pré-indicação, ainda que bastante indeterminada. Trata-se da indicação de uma figura corporal, de uma cor etc. A pré-indicação vazia, ou seja, a preencher, pressupõe, de acordo com Husserl, o pressentimento do que está por vir. O mais comum é que aparições que melhor determinam o indeterminado insiram-se de maneira concordante na evolução do aparecimento do objeto idêntico, em um movimento que desloca o horizonte a cada aparição, posto que um novo horizonte vazio sempre se configura. Husserl (1966/ 1998 ) escreve: “Como vemos, os aspectos não são nada em si. Eles apenas são aparições-de devido aos horizontes intencionais que são inseparáveis deles” (p. 98).

Os horizontes intencionais abarcam não apenas as partes invisíveis das coisas, mas, igualmente, o campo perceptual em que os objetos se inserem. O campo está igualmente copresente, ainda que não atentemos a ele. Husserl, em seus cursos de 1907 recolhidos em Coisa e espaço ( 1989 ), observa que os objetos têm um ambiente coapreendido de coisas, na medida em que não pode ser abrangido em um único olhar. O campo perceptual recebe, na fenomenologia, o nome de horizonte externo, enquanto o horizonte próprio do objeto, que abarca seus perfis invisíveis, é chamado de horizonte interno. A tomada de consciência a respeito do horizonte externo corrobora a ideia de que a apreensão perceptiva vai além da percepção própria, intuitiva.

Atrelado a isso, destaca-se, na fenomenologia da percepção, a ideia das possibilidades abertas que vicejam na atividade perceptiva. No desenrolar fático das aparições perceptivas, afirma Husserl (1966/ 1998 ), “subsiste . . . uma consciência de possibilidades de aparições sempre novas que transcendem esses desdobramentos” (p. 95). Por mais persistentes que sejamos na exploração das cenas perceptivas, não nos retiramos do campo do possível que emana dos elementos situacionais envolvidos na relação dinâmica do sujeito da percepção com as coisas. Vale considerar, ainda, a possibilidade de que horizontes perceptivos sejam abandonados, de modo a permanecerem como “potencialidade morta” (Husserl, 1966/ 1998 , p. 103). No âmbito das possibilidades repousa, também, a ocasião de rever aquilo que já foi visto. “Na medida em que a percepção é originalmente aquisição de conhecimento, ela adquire também uma propriedade durável”, diz Husserl (1966/ 1998 , p. 101). A temporalidade da percepção envolve, com efeito, não apenas o porvir, mas, igualmente, o que já foi percebido, num jogo entre novas percepções e o que permanece conservado retencionalmente. Dando a volta ao redor do objeto, aproximando-nos dele, pegando-o e tocando-o com as mãos, podemos rever os lados já conhecidos, experimentá-los novamente; “eles estão prontos a ser percebidos” (Husserl, 1966/ 1998 , p. 101). Sem contar que, nesse caso, o objeto antes desconhecido adquire o sentido de algo conhecido, modificando o sentido dos horizontes perceptivos. Se vejo o fundo de um objeto e, depois, volto a olhá-lo desde a sua face dianteira, com o visível de há pouco voltando a ser invisível, a pré-indicação vazia do fundo é agora diferente de antes. Tem-se uma nova prefiguração do horizonte vazio, que já fora visto anteriormente. Constata-se, pois, na percepção, um processo constante de tomada de conhecimento, que alcança a permanência do objeto como presença, ainda que ele saia inteiramente do nosso campo de visão. O objeto, de algum modo, permanece à mão.

Husserl (1966/ 1998 ) lembra que a qualquer momento a apreensão perceptiva, ou seja, o sentido do percebido, pode ser modificada “por decepção das crenças de expectativas protencionais” (p. 119). Dá-se, então, a mudança do conjunto da efetuação intencional. O inesperado e o novo podem decepcionar uma intenção, configurando um contraevento da síntese de preenchimento, considera Husserl. No desenrolar do processo perceptivo em direção a outras faces das coisas pode ocorrer o desapontamento, pode se dar uma determinação diferente, de modo que, em vez de se conservar e de se enriquecer o sentido do percebido, tem-se a sua supressão. Husserl desenvolve suas análises a partir de um exemplo com força de generalidade: que se imagine um objeto unitário, esférico e vermelho; de repente, contra toda expectativa, a face posterior, agora visível, revela-se verde e angulada. Surge um conflito, a frustração da expectativa, uma ruptura da qual resulta um vivido de “diferente”. É preciso, então, abolir a intenção vazia “esférico e vermelho”, e reinterpretar a determinação. Pode haver, também, um “diferente” sem ruptura, uma decepção cujo estilo é regrado e prefigurado. O objeto pode tornar-se duvidoso, problemático, possível ou provável, e revelar-se como não sendo aquilo, ou sendo aquilo mesmo, ou sendo mesmo assim.

Na decepção, o que dizíamos acerca do circuito temporal da percepção permanece válido. Se o inesperado frustra uma expectativa, e um sentido prefigurado é anulado no curso da percepção, a mudança na significação irradia na forma de um apagamento retroativo na esfera retencional. Em um ato de rememoração, encontraremos não apenas a antiga estrutura de expectativa, mas igualmente a nova estrutura de percepção. Se o antigo sentido permanece consciente, ele passa, todavia, a ser recoberto pelo novo sentido. Husserl (1966/ 1998 ) fala em “recalque” ( refoulement , Verdrängung ) de um sentido e superposição de um novo (p. 118). Para o sujeito, o sistema da antiga apreensão perceptiva permanece conservado retencionalmente, embora marcado pelo caráter de algo suprimido, enquanto um novo sentido é imposto. Convém lembrar aqui que, segundo o saber psicanalítico, muitas vezes, o que é negado e recalcado na experiência é o próprio conflito e o sentido de decepção, caso a afecção da experiêncvia de desengano seja excessiva. É como se quiséssemos continuar presos ao tempo em que ainda não tínhamos dúvida ou ainda não havíamos nos deparado com o desapontamento. Aproximamo-nos, com isso, do caráter existencial da percepção, da dimensão de perda e de separação envolvida nela, além das reações e resistências que podem ser suscitadas em meio às vicissitudes da nossa relação com o mundo. Retornaremos a esse ponto mais adiante.

A antecipação na percepção e a possibilidade do espanto

A análise fenomenológica da percepção a partir do conceito de horizonte evoca questões acerca da qualidade da antecipação perceptiva, das relações entre espaço, tempo e corporeidade, e da postura exigida na experiência do mundo.

Barbaras ( 2006 ) problematiza a consciência de horizontes na obra de Husserl. Segundo o autor, Husserl teria permanecido prisioneiro da “aparição finita” (Barbaras, 2006 , p. 98), “da pontualidade da presença sensível” (Barbaras, 2006 , p. 99), de modo que o excesso do objeto que aparece, em relação ao seu perfil efetivamente dado ao sentir, não poderia ser vivido senão na forma de uma antecipação subjetiva, fruto de uma operação que faria da percepção o resultado de uma composição de vividos. No âmbito dessa “subjetivação do aparecer” (Barbaras, 2006 , p. 98), o pressentimento e a expectativa do que está por vir na experiência perceptiva permaneceriam atrelados a uma forma de prospecção representacional a propósito do objeto percebido. Segundo Barbaras ( 2006 ), seria preciso “reconhecer a autonomia do aparecer” em face do sujeito (p. 100). A percepção não constitui a ordem do percebido; ela é possível a partir do “ser-percebido como ser autônomo” (Barbaras, 2006 , p. 100).

Mas a própria descrição husserliana designa o antídoto a uma concepção subjetivista da percepção. No centro da intencionalidade perceptiva, há um deslocamento mais profundo; é no movimento para a coisa percebida que ela se constitui como tensão e aspiração. Emmanuel Lévinas (1949/ 1997 ), um dos autores a que se reporta Barbaras na construção da sua argumentação, afirma que o sensível, em Husserl, é cinestésico. “Os órgãos dos sentidos, abertos aos sensíveis, movem-se”, escreve Lévinas (1949/ 1997 , p. 169). O autor afirma, ainda: “A relação com outro que não o próprio é unicamente possível como uma penetração nesse outro, como uma transitividade. O eu não fica em si mesmo para absorver o outro na representação. Ele transcende-se verdadeiramente” (Lévinas, 1949/ 1997 , p. 171, grifos do autor). O sentido forte e, talvez, original do termo intencionalidade, especialmente a de percepção, é, pois, o de um ato, o de uma transitividade em direção aos diferentes perfis das coisas e aos horizontes de mundo.

Retornando às observações de Husserl, em Da síntese passiva , vemo-lo anotar que a motivação cinestésica configura-se em um aspecto essencial da constituição do sentido perceptivo. O desenrolar das aparições dos objetos percebidos coloca em cena o corpo vivo ( Leib ), e não de modo secundário ou contingente. “O corpo vivo co-funciona constantemente enquanto órgão da percepção”, assevera Husserl (1966/ 1998 , p. 104). As aparições, ou seja, os perfis perceptivos, constituem-se em uma unidade de sentido em meio ao movimento corporal, às suas possibilidades e limites. É elegante e repleta de indicações a passagem na qual Husserl descreve a percepção como uma resposta motora que damos ao chamado das coisas. Ele escreve:

O chamado: aproxima-te mais perto e sempre mais perto, considera-me e fixa-me agora mudando tua posição, teu olhar etc., encontrarás em mim mesmo ainda mais novidades para ver, sempre novas colorações parciais etc., estruturas antes incertas . . . que não havias visto senão de forma indeterminada e geral . . .

(Husserl, 1966/ 1998 , p. 98).

Husserl encarna, nessa passagem, a ideia, bastante difundida na fenomenologia, de que as coisas nos olham, de que o mundo nos toca. Estamos engajados no chamado que as coisas e os outros fazem. Esse engajamento realiza-se na ação, na atividade em direção ao mundo.

O psiquiatra Eugène Minkowski (1933/ 2005 ), sintonizado com os achados husserlianos, afirma que “a atividade não é um simples ‘olhar’; ela está no plano do eu que tende para alguma coisa; ela é assim um verdadeiro ‘caminhar’ para frente” (p. 76). O autor completa dizendo que esse é o único jeito real de avançar na vida. Ao tratar da atividade, Minkowski está interessado na questão da temporalidade e, mais especificamente, na dimensão do porvir, o que o faz recorrer à ideia de horizonte. Para ele, o horizonte revela a solidariedade entre espaço e tempo. O espaço, pensado em termos de horizonte, não imobiliza o tempo; ao contrário, diz o autor, é vivificado por ele com base em tudo que há de móvel e dinâmico na espacialidade.

A imagem do horizonte auxilia Minkowski (1933/ 2005 ) a responder a uma das principais questões de sua pesquisa: como vivemos o porvir independentemente e antes de qualquer saber? Seis fenômenos parecem centrais, aos olhos do autor, nesse estudo: além da própria atividade, a espera, ou expectativa ( attente ), o desejo e a esperança, a prece ou súplica ( prière ) e o ato ético. Não cabe aqui discutir em detalhes o modo como Minkowski desenvolve sua argumentação em torno desses pontos. Gostaríamos, apenas, de nos reportar à forma com que ele discute a relação entre o que chama de expectativa e de esperança. A esperança, afirma o autor, nos libera da pressão da expectativa, da atividade do desejo, mas não completamente. Toda esperança devotada a um acontecimento concreto nos mantém vigilantes, esperando algo. Mas o desejo é mais definido, é desejo de algo, enquanto a esperança apresenta qualquer coisa de sublime. A realização de algo desejado marca uma etapa que nos incita a continuar; a realização de algo esperado marca um tempo de parada.

O que nos importa nessa discussão é a afinidade, indicada por Minkowski (1933/ 2005 ), entre, de um lado, o desejo e a esperança e, de outro, a atitude interrogadora, que configura, para ele, um fenômeno intelectual. Quando me faço uma questão, enquanto não tenho uma resposta, encontro-me diante de algo inacabado e desconhecido, que deixa aberta uma variedade de possibilidades, uma perspectiva ampla, que acaba por se estreitar assim que a resposta é encontrada, afirma o autor. Algo parecido ocorre no caso do desejo e da esperança. Tal semelhança ajuda a entender o fundamento existencial do simples ato de formular uma questão. Colocamo-nos em posição de abertura às possibilidades de resposta. Além disso, talvez possamos distinguir uma das perguntas mais primitivas e naturais das nossas vidas: será que aquilo que desejo ou espero acontecerá?

Eis uma dúvida fundamental, capaz de rivalizar com a dúvida cartesiana. Se essa última indica o sujeito como substância pensante e está na raiz do racionalismo moderno, aquela, a que se refere ao que pode acontecer, introduz no centro da subjetividade nossa relação com o inacabado e com o incerto, e nos recoloca no traço dos fundamentos existenciais da nossa experiência.

As contribuições de Paul Ricœur (1940/ 2013 ) em torno da atenção são, igualmente, oportunas para a discussão da prefiguração perceptiva, tanto mais pelo fato de se alinharem aos preceitos husserlianos e pelas referências aos estudos de Minkowski. Segundo Ricœur (1940/ 2013 ), confunde-se facilmente a atenção com fenômenos de pré-percepção ou de antecipação, tais como a expectativa ( attente ) e a procura ( recherche ). Mas, pergunta o filósofo, a passagem daquilo que é esperado àquilo que se encontra e vê seria o melhor modelo para se caracterizar a atenção? Essa não seria, assim, distinguida de forma fundamentalmente cativa em relação a uma ideia, a uma expectativa e a um conhecimento prévios? Para Ricœur, é o contato com as coisas desapegado de preconcepções, voltado ao plano de fundo das coisas e apto a aguardar a sua mostração mais determinada que configura plenamente a busca atenta.

Não se trata, como mostra o autor, de adotar uma posição extrema. É Merleau-Ponty (1945/ 1999 ) quem afirma que uma atividade perceptiva desprovida de qualquer elo temporal ou é pobre demais, guiada tão somente por contingências mecânicas, ou remete a um exercício tão soberano de si que não se sente solicitado por nada, sendo, por isso, capaz de figurar uma atitude desinteressada. Diferente desses modelos, baseados no sujeito do empirismo e do intelectualismo clássicos, a percepção se desenrola em um campo vivo de determinações no qual, em razão da nossa situacionalidade, deparamo-nos com o inacabamento das coisas, o que reclama, para além do abandono à cotidianidade, a atitude denominada por Ricœur (1940/ 2013 ) de espanto, e que consiste em se colocar ativamente ao dispor dos fenômenos, “. . . em procurar uma inocência do olho e dos sentidos, uma abertura do espírito, um acolhimento ao outro enquanto outro” (p. 69).

O espanto, no âmbito da percepção e da atenção, coincide, portanto, com uma postura de observação paciente, de aprendizado com as coisas, e de abertura à dúvida, à interrogação e à surpresa. Tem-se a configuração de uma atitude que não faz economia da perseverança perceptual, e que se furta ao reconhecimento das coisas sem que se tenha aprendido a conhecê-las verdadeiramente (Gennart, 2011 ). Nessa atitude, o sujeito dispõe-se, igualmente, e conforme o tipo de voluntarismo requerido pela continuação de uma ação, ao “chamado” das coisas referido por Husserl (1966/ 1998 ). O campo perceptivo e os objetos com os quais nos deparamos nele incitam a ver mais, a contorná-los, a explorar sua profundidade, a dissecá-los.

A percepção apresenta, inegavelmente, um caráter antecipador, posto não se limitar à retenção dos perfis já percebidos das coisas, mas, antes, abarcar uma dimensão prospectiva, de relação com o que ainda não está propriamente presente. Isso não implica, todavia, a modelação antecipatória do que está por vir. O que chamamos de espanto reclama uma ação receptiva à reserva das coisas suscetível de explorações futuras (Dastur, 2016 ).

A surpresa

O fenômeno da surpresa reforça esse lugar do espanto entre a antecipação e a complacência diante da reserva das coisas. A discussão da surpresa nos leva, além disso, a uma aproximação com as dimensões existencial e afetiva implicadas na percepção e na própria noção de horizonte.

Para Françoise Dastur ( 2016 ), a fenomenologia da surpresa é o mesmo que uma fenomenologia do acontecimento inesperado, e pode ser elaborada com base na noção de horizonte. A autora parte do pressuposto de que a fenomenologia dá conta de investigar o tempo como abertura à contingência, à imprevisibilidade e ao acaso no mundo. Uma saturação da intencionalidade é um non sens , afirma ela. O desdobramento da intencionalidade não é capaz nem de cumprir a expectativa nem, vale acrescentar, de satisfazer a ação perseverante e paciente. A intenção jamais é totalmente preenchida, de modo que sempre permanece o teor de indeterminação e de inacabamento da experiência. Tal condição coincide com a abertura ao que se pode chamar de surpresa, quer dizer, o que nos pega de súbito, de imprevisto e que surge como algo que não poderia ser antecipado. Não se trata, com a surpresa, apenas de uma decepção no decurso intencional; que um objeto se manifeste diferentemente daquilo que prevíamos é algo comum na experiência intencional. A surpresa refere-se ao inesperado, e pode desorganizar a estrutura de horizontes na qual se sustentam as nossas expectativas. A crença na estabilidade do mundo, no seu estilo, pode, então, ser perturbada.

A condição de surpresa pode ser aproximada do espanto filosófico, por exemplo, da redução fenomenológica. Em ambos os casos, o sujeito vê-se afastado da “banalidade cotidiana” e da familiaridade com as coisas. Mas é na psiquiatria fenomenológica de Henri Maldiney que Dastur ( 2016 ) encontra uma teoria da surpresa. O que Maldiney ( 2007 ) chama de acontecimento (événement) é atrelado, conforme Dastur, à ideia de crise, de ruptura da existência, condição na qual o sujeito defronta-se com a possibilidade de desaparecer, mas também de renascer. O acontecimento tem o rosto da alteridade. O outro não pode ser encontrado a não ser que se mostre como é. O encontro efetivo com o outro não advém, portanto, da sua figuração no horizonte de um projeto, mas da sua vinda a nós, desvelando o lado não apresentado daquilo que é.

A existência que acolhe o acontecimento é, em essência, tão improvável ou imprevisível quanto o acontecimento. A rigor, despida dos seus hábitos, ela não tem o que esperar. Ela, nesse sentido, pode ser receptível ao desenrolar da experiência e testemunhar grande capacidade para suportar a surpresa. Ao mesmo tempo, é preciso considerar que nenhum encontro se dá fora das potencialidades projetadas por uma existência. Não se pode desconsiderar sua situacionalidade, jamais abolida por qualquer esforço suspensivo. Caso o evento desarranje em demasia o horizonte de possibilidades e se revele, por sua gravidade, inapropriável, estamos diante de um acontecimento traumatizante. O vivido perturbador é repentino, apresentando o caráter de novidade radical. Nesse caso, o presente pode deixar de coincidir consigo mesmo, e entrar em ruptura com o passado e o porvir. A receptividade ao campo de experiência deve ser entendida como a capacidade de tolerar e de suportar. Ela implica, portanto, uma atividade capaz de manter aberto o próprio campo da receptividade.

Vale invocar as contribuições de Emmanuel de Saint Aubert ( 2016 ) acerca da surpresa, ainda que não se pautem explicitamente na noção de horizonte, mas simplesmente na atitude perceptiva. Sua forma de problematizar a surpresa a partir da percepção reforça o papel da tolerância diante da indeterminação e da capacidade de suportar o novo, além de apresentar importantes considerações a respeito da conjugação, na experiência das coisas, de antecipação e interrogação.

Como seria possível nos surpreendermos no transcurso da experiência, caso não tivéssemos expectativa nenhuma, pergunta Saint Aubert ( 2016 )? Uma certa dose de antecipação e a capacidade de distinguir um desvio da experiência em relação ao que era esperado são pressupostos na surpresa. A antecipação aqui tratada não precisa ter a natureza da representação, criticada por Barbaras e Lévinas, ou do juízo. Raramente, com efeito, temos clareza, de caso pensado, do que esperamos das coisas e dos outros. A antecipação presente na experiência tem, antes, relação com o que Saint Aubert, baseando-se em Merleau-Ponty (1964/ 2003 ), chama de fé perceptiva. Essa refere-se ao mínimo de adesão confiante que perpassa nossa relação com o mundo e com o outro. Nosso acesso às coisas jamais é neutro. É com base em determinações, ou seja, naquilo que vemos, conhecemos, sentimos ou julgamos, que somos capazes de tolerar as indeterminações de toda cena vivida. Mas isso não é tudo. Tampouco haveria surpresa sem a disposição para ser deslocado e ultrapassado pelas coisas, sem, portanto, uma abertura à surpresa e mesmo sem a expectativa de ser surpreendido. A ambiguidade da surpresa pode, então, ser enunciada do seguinte modo: não podemos ser surpreendidos sem que nos apoiemos em determinações, mas tampouco a surpresa é possível sem que estejamos abertos à indeterminação (Saint Aubert, 2016 ).

A abertura à surpresa comporta uma complexão dinâmica concernente ao sentido duplo, passivo-ativo, de toda experiência perceptual: o sentir e o colocar à prova. Na surpresa, deparamo-nos com uma novidade que nos surpreende e nos coloca à prova, mas que, igualmente, pode ser experimentada e colocada à prova por nós. Caso sejamos capazes de acolher o imprevisto e a desestabilização que acarreta, podemos passar a interrogá-lo. Tal processo vai muito além de uma mera operação de conhecimento. Da mesma forma com que o afeto comparece na decepção, descrita por Husserl, ou no desejo, indicado por Minkowski, ele é mobilizado por Saint Aubert ( 2016 ) a partir de referências múltiplas, que conjugam Piaget e Melanie Klein, Freud e Merleau-Ponty. Retomando a ideia da dinâmica passivo-ativo, Saint Aubert afirma, principalmente, que a integração da novidade exige que o sujeito se deixe transformar, dando margem a um processo de acomodação, e que, igualmente, transforme as coisas em um processo de assimilação. A integração é uma incorporação, processo pelo qual o sujeito se deixa configurar pela novidade e a configura, ao mesmo tempo, fazendo-se corpo com ela. E nem tudo precisa ser introjetado. A aceitação completa consiste, segundo o vocabulário kleiniano, em uma posição depressiva. Vale surpreender a surpresa, negligenciando e rejeitando parte das novas determinações. A base desse processo é, de qualquer forma, o desejo, entendido como abertura e apetência em relação aos horizontes e à profundidade. Não é possível acolher e integrar a novidade sem desejá-la, isso em um nível estrutural, de tolerância à indeterminação e de disposição para o novo, e não em um plano da necessidade ou da vontade de ter isso ou aquilo, ou em um arranjo energético, pensado em torno da regulação de estados de tensão relativos às incertezas do campo de experiências.

A dimensão afetiva da surpresa e, de modo geral, da experiência perceptiva fica mais evidente quando se recorre à psicopatologia. Saint Aubert ( 2016 ) recorda a importância dada por Merleau-Ponty à psicologia dos métodos projetivos. O filósofo, nesse campo, interessou-se particularmente pelos estudos de Else Frenkel-Brunswick acerca do que foi chamado de rigidez psicológica. Segundo Merleau-Ponty ( 2006 ), leitor de Frenkel-Brunswick, a rigidez psicológica consiste em uma formação reacional cuja expressão mais relevante é a evitação de toda sorte de ambiguidade. A rigidez psicológica exprime-se na percepção, por exemplo, como lentidão para perceber mudanças nos cenários vividos ou até na insistência de não ver aquilo que contraria um primeiro modo de visão. Fenômenos de transição são recusados, inclusive em um simples aparato experimental, como no caso da imagem de um cachorro projetada em uma tela, que pouco a pouco se transforma na imagem de um gato. Aquele que dispõe de maturidade psicológica, ao contrário, aceita ver a ambiguidade, ou a mudança, e interioriza o conflito, afirma o filósofo. Um aspecto central no estudo de Frenkel-Brunswick é, segundo Merleau-Ponty, o interesse em problematizar as relações entre a maneira de perceber e a de viver socialmente. A baixa receptividade a nuances e a pouca disponibilidade para o reconhecimento de fatos discordantes já aparecia em texto que Frenkel-Brunswick dedicara ao estudo da personalidade antissemita (Saint Aubert, 2013 ).

A surpresa, como forma de espanto, situa-se, portanto, na junção da antecipação e da receptividade ao novo e, na dobra dessas dimensões, reclama tolerância. Sem a disposição ou o desejo de ser excedido pelos acontecimentos, é impossível aceitá-los e passar a interrogá-los, e a aprender com eles.

O apaziguamento da necessidade de perceber

A atenção fenomenológica à estrutura da percepção revela, igualmente, formas de negar a indeterminação da experiência sensível. Não se pode dizer que elas sejam externas à própria experiência sensível. Husserl (1966/ 1998 ) fala da contradição expressa na percepção. Malgrado a multiplicidade e parcialidade envolvidas em todo ato perceptual, um sentido perceptivo sempre se apresenta como unidade. Daí a tese célebre: “A percepção externa é uma pretensão permanente de efetuar alguma coisa que devido à sua essência ela não possui condições de efetuar” (Husserl, 1966/ 1998 , p. 95). A maior lição da perseverança perceptiva e da descrição que a acompanha é o reconhecimento da transcendência do percebido (Barbaras, 2006 ), quer dizer, da sua inesgotabilidade, mas, igualmente, da presunção de toda percepção de abarcar o campo inteiro, quiçá o mundo.

Essa contradição, principalmente em razão das determinações de que somos capazes no encontro com as coisas, sustenta o ideal do conhecimento objetivo, ou explícito (Merleau-Ponty, 1945/ 1999 ). A racionalidade científica, que alia a lógica abstrata e o método experimental, toma os aspectos não percebidos dos objetos como ausências provisórias a serem preenchidas mediante o aperfeiçoamento técnico de formas de exploração empírica e pela correção de modelos matemáticos e teóricos de expressão dos fenômenos naturais. Essa razão objetiva exige que o sujeito da percepção seja fixado como consciência racional, capaz de suplantar a unilateralidade dos objetos mediante o pensamento. O saber científico é calcado na pretensa passagem da apresentação perceptiva à representação mental, da coisa ao objeto de ciência. Nesse processo, não se ganha apenas saber, mas, do mesmo modo, acessibilidade e poder sobre as coisas. A descoberta científica evidencia, com efeito, o paradoxo de uma surpresa baseada no ideal do controle e da previsibilidade.

O processo de objetivação envolve a manipulação da coisa na sua ausência sensível, depois em contextos experimentais, em que se dão os testes de hipóteses relativas ao objeto ou ao fenômeno estudado. Em seguida, finalmente, dá-se a passagem à ação sobre as coisas no ambiente, quando a lógica industrial, ou tecnocientífica, entra em cena. De uma ponta à outra do processo, o objetivismo alia-se à aspiração de conhecer todas as facetas das coisas, de esgotar as suas possibilidades, o que acontece de fato. Há inúmeros exemplos de vegetais e minérios que, depois de descobertas algumas de suas propriedades físico-químicas e a sua aplicabilidade técnica, foram exauridos na natureza pela atividade exploratória.

Entretanto, é como forma de olhar que a racionalidade científica, combinada à tecnociência e à indústria, revela sua lógica de esgotamento. Pensemos, por exemplo, na Inteligência Artificial (IA), considerada por alguns como a única ciência do nosso tempo, capaz não simplesmente de desenvolver um atlas do mundo, mas de ser o próprio atlas, “um modo dominante de ver” (Crawford, 2021 , p. 11). No campo da IA, o intento explícito é a captura do planeta em uma forma computacionalmente legível, o mapeamento de todo o mundo de objetos, de movimentos humanos, de comunicação e de trabalho, numa espécie de olhar divino ( God’s-eye view ) (Crawford, 2021 ). A IA pensa alcançar “o ideal do conhecimento objetivo ou explícito”, de que fala Merleau-Ponty (1945/ 1999 , p. 446), e que visa elencar todos os horizontes espaço-temporais, fechar o sistema da experiência.

A confirmação do excesso perene do mundo percebido e as resistências à sua indeterminação contêm importantes implicações sociais no mundo contemporâneo. O percebido é possuidor de uma espessura que suscita constante exploração e que se vincula a uma “insatisfação irredutível” (Barbaras, 2011 , p. 73) por parte do percipiente. Na sociedade moderna, animada pelas formas de olhar que emergiram da combinação entre a racionalidade científica, a tecnociência e a indústria, sobretudo a indústria militar, constata-se uma hipertrofia da vontade de ver, cuja consequência mais clara repousa na proliferação histórica de imagens, baseadas nos mais diversos meios, desde o cinema até as telas de computador e smartphones. Tudo se passa como se retorquíssemos ao desejo de visibilidade com saturação quantitativa de imagens, como se respondêssemos à pergunta acerca do invisível “por uma multiplicação dos visíveis” (Barbaras, 2011 , p. 74). Gera-se, contudo, a contradição de querer tudo ver, de buscar esgotar os dados sensíveis, sem ter, contudo, condições de se deter neles. Passamos rapidamente de uma coisa à outra, em um movimento agitado e que se configura em distração, e não em cuidado ou atenção. A lógica, aqui, é pulsional, e não da ordem do desejo, da qual falávamos há pouco a partir de Saint Aubert.

O resultado são indivíduos saturados e cansados (Saint Aubert, 2016 ). O excesso de estímulos, sem possibilidade de abertura às indeterminações daquilo que aparece, inviabiliza a acomodação conjunta da multiplicidade de coisas que nos afetam. Se as coisas não se juntam, se não tomam forma e não adquirem profundidade, ou indeterminação, perdem-se as condições de aderência a elas. Não se constitui, portanto, o ciclo de engajamento que exige ou convida a uma experiência mais prolongada em termos espaço-temporais. Na fenomenologia, bem como no uso artístico das imagens, a incitação a “reaprender a ver” pode envolver, justamente, o apaziguamento do desejo de perceber. Desvela-se, antes, a “invisibilidade constitutiva do visível” (Barbaras, 2011 , p. 75), e admite-se a impossibilidade de preencher nossa frustração de ordem sensível. Convoca-se ao silêncio e à calma que a percepção também reclama.

Considerações finais

Vimos, em resumo, que, no seio da fenomenologia da percepção, favorece-se uma posição de espanto, de tolerância à indeterminação, de consentimento à surpresa, e de disponibilidade à interrogação e à perseverança perceptual. A fenomenologia revela, ao mesmo tempo, no âmbito da vida sensível, nossa ligação precipitada às coisas, bem como o apelo objetivista que fundamenta as práticas de conhecimento, de produção e de extermínio. Procuramos dar contornos mais definidos a esses princípios. Nosso ponto de partida foi a descrição husserliana da percepção, na qual se revela a dinâmica de horizontes que caracteriza a vida sensível. Espacialidade e temporalidade misturam-se no nosso contato com as coisas. Enfatizamos o fator temporal da percepção, trazendo à tona, na abertura do sujeito à alteridade, fatores como a expectativa e o contato com o inesperado. Em seguida, a partir de breves incursões em aportes devidos a Barbaras, Lévinas, Minkowski e Ricœur, reforçamos não o caráter subjetivista, mas o cunho existencial da antecipação na percepção, além de fundamentar a possibilidade do espanto. Com Dastur, Saint Aubert e Merleau-Ponty, dando prosseguimento ao nosso estudo, indagamos o fenômeno da surpresa, mediante o que esperamos ter configurado mais precisamente a discussão a respeito da receptividade exigida de nós pelo campo de experiência, além de caracterizar os afetos envolvidos na percepção. Ao final, tratamos do que podem ser consideradas formas de denegação da indeterminação da experiência sensível no plano epistemológico e social.

Pode-se afirmar, com base na argumentação desenvolvida, que a estabilidade do campo perceptivo associa-se à sua natureza transformacional. O acento sobre o seu caráter estável realça a fé perceptiva, tematizada por Merleau-Ponty (1964/ 2003 ). A confiança que temos na harmonia dos territórios de percepção faz parte da forma como nos voltamos às nossas tarefas do dia a dia, aos nossos projetos e à manutenção da vida em geral. Ao mesmo tempo, nosso campo de experiência está em condição de contínua recomposição e transformação. Essa transformabilidade do campo perceptivo apoia-se tanto no mundo quanto nos sujeitos. Sempre se passa algo no mundo; são infindáveis os horizontes de experiência. Por outro lado, as possibilidades de aderência do sujeito ao mundo percebido são continuamente transformadas pela sua própria ação em consonância com o mundo social. Na experiência, a reconfiguração do campo perceptivo, ou da inscrição do sujeito nele, faz-se ininterruptamente.

Em meio a esses princípios, algumas questões se sobressaem para estudos futuros. Destacamos os problemas relativos à condição social da percepção, e da percepção como espanto, especialmente seus aspectos mais diretamente relacionados à sociedade contemporânea, a partir de um enquadramento psicossociológico dos problemas filosóficos e científicos vinculados à percepção e à atenção.

No que se refere à condição social da percepção, é preciso analisar a dinamicidade da experiência sensível, sobretudo no que diz respeito a assuntos atinentes aos hábitos, a modos instituídos de ver e de agir, e ao ato de memória capaz de tensioná-los e de transformá-los. No tocante à percepção como espanto, cumpre abordar, principalmente, as vicissitudes da relação entre a atitude crítica da fenomenologia da percepção e os regimes de sensibilidade contemporâneos, conforme o esboçado na última seção deste ensaio. Pode-se, com isso, integrar as dimensões filosófica e psicossociológica, ou crítica, de uma teoria da percepção. Impasses envolvidos no desenvolvimento contínuo de tecnologias ópticas e midiáticas destacam-se nesse território interseccional. Trata-se de um ponto central para a investigação do estatuto da percepção e da atenção na sociedade contemporânea, bem como para desdobrar as indagações acerca das possibilidades críticas que a fenomenologia tem a oferecer no debate acerca da cultura visual e sensível do nosso tempo.

No plano da crítica social, parece relevante aprofundar os estudos acerca do envolvimento da tecnociência na captura do olhar, com destaque para o papel da psicologia e das ciências cognitivas nesse processo social. Quais transformações se constatam na experiência de horizonte de mundo sob a condição do olhar capturado pelas telas e pela virtualidade? Como os afetos da disponibilidade para ver, do espanto, da curiosidade, da surpresa, mas também os de reatividade à transformabilidade do campo perceptivo, são mobilizados?

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    Este artigo é resultado de pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Dez 2023
  • Aceito
    21 Fev 2024
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