
Em janeiro de 1974, o professor e pesquisador norte-americano Lawrence Slodobdkin, um dos nomes mais influentes na história da ecologia moderna, iniciou sua resenha sobre Steps to an ecology of mind da seguinte maneira:
Gregory Bateson possui uma das mentes mais estimulantes das ciências sociais e biológicas. Aqueles que foram tocados por ela, seja pela literatura ou pessoalmente, são significativamente transformados. Ele tem o talento para encontrar uma inversão das abordagens normais de um problema, algo que pode ser tanto chocante quanto empolgante
(Slodobdkin, 1974: 67, tradução nossa).
Passados pouco mais de cinquenta anos desde a sua primeira edição em 1972, Steps..., após ter recebido traduções em italiano, francês, espanhol, alemão, tcheco e uma segunda edição em inglês, finalmente desembarca em solo brasileiro, recebendo o nome de Rumo a uma ecologia da mente, e continua a causar as mesmas sensações naqueles que se aventuram em percorrer suas páginas e explorar a ecologia de suas ideias.
Ao longo desse longo período de tempo entre a primeira edição e sua versão mais recente em língua portuguesa, muito já foi dito sobre Gregory Bateson (1904-1980), nas mais variadas áreas de conhecimento, seja na forma de resenhas críticas voltadas especificamente para esse livro (Gioscia, 1973; Nyberg, 1973; Velho, 2001) ou em comentários mais gerais envolvendo os principais aspectos de sua trajetória biográfica e produção intelectual (Lipset, 1980; Harries-Jones, 1995; Charlton, 2008). Transitando indisciplinadamente pelos campos da Antropologia, Biologia, Psicologia, Psiquiatria, Educação, Linguística, Ecologia, Comunicação, Cibernética e Ciência da Informação, Bateson atraiu leitores e interlocutores ávidos por desbravar novas formas de pensar e fazer ciência que desafiam o paradigma hegemônico ocidental.
Essa completa dissolução das fronteiras disciplinares é notadamente visível na coletânea de 34 ensaios reunidos no livro. Fruto de quatro décadas de pesquisas (entre os anos de 1930 e 1970), a obra aborda diversos assuntos e objetos de interesse, iniciando nas experimentações etnográficas de Bateson com sua então esposa, Margaret Mead, junto aos povos originários do Sudeste Asiático e Oceania, e passando, muitas vezes de forma concomitante, pelos estudos sobre processos evolutivos e morfológicos dos seres vivos, aprendizagem infantil, teoria de sistemas, esquizofrenia, alcoolismo, comunicação entre cetáceos e outros mamíferos, guerra e corrida armamentista, planejamento urbano e crise ecológica.
Mais do que se prender a um tema específico, o que Bateson estava desenvolvendo era, de fato, uma nova forma de pensar a vida. Percebe-se, entretanto, que aquilo que conecta todos esses assuntos, ou pelo menos a maioria deles, é precisamente a procura por uma “ordem” ou “padrão” nas relações e nas formas de comunicação estabelecidas entre os seres vivos (incluindo os humanos) e destes com o ambiente. Nessa busca pelo “padrão que conecta”, uma série de importantes conceitos – como os de cismogênese, duplo vínculo e deuteroaprendizagem – foram sendo gestados, não raro, de maneira intuitiva, nos distintos cenários de investigação por onde Bateson circulou. São novos conceitos, derivados de novos pensamentos, que nascem em um determinado contexto, mas que logo são transportados para outro, por meio de um criativo e deliberado esforço em estabelecer analogias e aproximações entre contextos, situações ou acontecimentos variados e aparentemente desconexos. Afinal, para “dizer coisas novas, precisamos desfazer as velhas ideias prontas e embaralhar as peças” (Bateson, 2025: 49).
Na tentativa de estabelecer algum tipo de sistematização entre esse conjunto variado de temas, assuntos e áreas do conhecimento, Bateson organizou sua coletânea de ensaios em seis grandes partes que, frequentemente, dialogam entre si e seguem, com algumas exceções, uma ordem cronológica de elaboração. São elas: I) Metálogos; II) Forma e padrão na antropologia; III) Forma e patologia nas relações; IV) Biologia e evolução; V) Epistemologia e ecologia; VI) Crise na ecologia da mente. Além dessas partes, o livro também conta com dois prefácios (um escrito por Mary Catherine Bateson – antropóloga e filha do casal Gregory e Margaret – e outro por Mark Engel – que foi aluno de Bateson e ajudou na seleção de ensaios para compor a obra), um breve preâmbulo e uma introdução intitulada “A ciência da mente e da ordem”.
Logo nas primeiras páginas dessa introdução, Bateson lança uma série de questionamentos que convidam o(a) leitor(a) a dar os primeiros passos em direção a uma ecologia da mente (ou das ideias): “como as ideias interagem? Existe uma espécie de seleção natural que determina a sobrevivência de certas ideias e a extinção ou morte de outras? Que tipo de economia limita a multiplicidade de ideias em determinada região da mente? Quais são as condições necessárias para a estabilidade (ou sobrevivência) de um sistema ou subsistema?” (ibidem: 25). Trata-se dos primeiros contornos de “uma ciência que ainda não existe enquanto corpo teórico ou conhecimento organizado”, um “novo território científico” a ser explorado a partir de um conjunto de “marcas” ou “pontos de referência” que o próprio autor apresentará ao longo de sua coletânea de ensaios.
Conceitos clássicos relacionados aos “fundamentos” do pensamento científico e filosófico são retomados por Bateson nesse texto introdutório, com destaque para a diferenciação entre forma e substância e raciocínio dedutivo e indutivo. Se a ciência convencional esteve historicamente interessada em conhecer e mensurar a “substância” ou a matéria-prima de que são feitas as coisas utilizando, para esse propósito, do método indutivo, Bateson proporá uma inversão desse pensamento ao enfatizar que seu interesse está localizado sobretudo nos contextos de interação, nos padrões de comunicação, nas estruturas e nos processos de organização e diferenciação; seu interesse está, portanto, na forma, e não na substância. E pensar sobre a forma exige necessariamente um outro tipo de raciocínio lógico, uma outra (e criativa) maneira de pensar, mais próxima da dedução, ou até da abdução, do que da indução.
Seu interesse pela forma, ou, mais exatamente, pelo conjunto de “padrões, informações e ideias que se encontram corporificados em coisas” (ibidem: 11), resultará na elaboração da própria ideia de “metálogo” – conceito-chave da primeira parte da coletânea –, que consiste em um tipo de conversa (no caso do livro, entre pai e filha) em que a própria estrutura (ou “forma”) da conversa possui uma relação direta com o assunto que está sendo discutido. O tema da forma, tal como se manifesta em diferentes domínios da vida, se faz presente não só em tais conversas, mas também em vários outros momentos do livro, especialmente nos ensaios que compõem a segunda e a terceira parte (como fica evidente em seus próprios títulos), e no capítulo intitulado “Forma, substância e diferença”.
O foco na forma e no contexto, e não necessariamente no conteúdo de uma interação, possibilitou que Bateson percebesse a emergência de um determinado “padrão de relações”, seja na vida orgânica, na dinâmica de grupos sociais ou no relacionamento entre indivíduos, que se diferenciam de maneira progressiva e compõem um sistema que tende, em alguma medida, à autorregulação. Para compreender esse processo de diferenciação cumulativa, derivado da mútua interação, Bateson cunhou o termo “cismogênese”. Significando literalmente “criação da separação”, tal conceito apresenta duas modalidades ou variações que podem ser percebidas, de forma isolada ou combinada, em diferentes contextos de interação. A primeira é a “cismogênese simétrica” e diz respeito a todos os contextos em que dois grupos (ou dois indivíduos) apresentam o mesmo padrão de conduta, gerando um processo de acentuada rivalidade e competição que, se não forem controladas de alguma maneira, resultará em uma extrema hostilidade e no colapso do sistema. Processos de corrida armamentista e tecnológica ou de tensão entre grupos políticos são exemplos dessa modalidade de diferenciação. O segundo tipo de variação consiste na “cismogênese complementar” e inclui “todos os casos nos quais o comportamento e as aspirações dos membros de ambos os grupos são fundamentalmente diferentes” (ibidem: 97). Exemplos desse padrão de relação podem ser percebidos nos casos em que o perfil dominante de um indivíduo (ou grupo) se adequa ao comportamento subserviente do outro ou, ainda, em situações em que o aumento da beligerância de um grupo social é contrabalanceado pelo pacifismo do grupo oposto. Esse aparente estado de equilíbrio entre posturas opostas e complementares pode, no entanto, alimentar uma crescente disfuncionalidade patológica nessa relação, devido à excessiva rigidez ou falta de flexibilidade no padrão de conduta de cada grupo ou indivíduo, o que novamente resultará no aumento da hostilidade e no colapso desse sistema de relações.
Em uma linguagem cibernética, tão cara a Bateson, pode-se dizer que a modalidade simétrica se assemelha ao “feedback positivo” – mecanismo em que uma determinada ação reforça o estímulo inicial, intensificando o seu “desvio” e amplificando a instabilidade do sistema –, ao passo que a diferenciação complementar apresentaria alguma relação com a noção de “feedback negativo” – em que a ação executada difere do estímulo inicial, visando corrigi-lo e contrabalanceá-lo e, assim, recuperar a “homeostase” original.
Em entrevista recente, Peter Harries-Jones apontou que “Bateson usou muito mais o conceito de cismogênese em seus escritos sobre o inverso de uma cisão, ou cisões, ao perceber interações que estabilizariam uma possível cisão, isto é, a flexibilidade em situações que requerem equilíbrio” (Bonet; Epele, 2024: 12). Nesse sentido, a potência desse conceito não estaria necessariamente na discussão sobre cisão ou separação, e sim na sua evitação por meio da “complementaridade interativa” que caracteriza os processos de “causalidade circular” ou recursiva.
O interesse de Bateson pelos distintos padrões de comunicação e relacionamento resultou no desenvolvimento não só da ideia de cismogênese e suas variações, mas também da noção de “duplo vínculo”, conceito central da terceira parte do livro. Inicialmente associado aos seus estudos sobre esquizofrenia, e posteriormente utilizado para compreender a própria comunicação humana em geral, tal conceito sinaliza uma situação social – normalmente atravessada por algum tipo de hierarquia ou relação de dependência – em que se apresenta um paradoxo metacomunicacional incapaz de ser solucionado ou acessado pelo sujeito (“vítima”) envolvido na ação. Em tal situação, a pessoa se coloca ou é colocada simultaneamente diante de duas proposições ou atitudes contraditórias e mutuamente excludentes, sem conseguir escolher qualquer uma delas ou escapar daquela situação. A contradição se manifesta em diferentes níveis ou tipos de comunicação quando, por exemplo, no âmbito da linguagem verbal (“digital”) é dito algo que contradiz frontalmente aquilo que se expressa no plano da paralinguagem ou comunicação cinestésica (“analógica”). O comportamento esquizofrênico adviria justamente da incapacidade do sujeito para questionar (ou revelar) essa contradição devido a um comprometimento em seu processo de desenvolvimento da habilidade para apreender as múltiplas camadas de informação e significado que permeiam a comunicação entre seres humanos. Trata-se, nesse sentido, de uma falha ou bloqueio na aprendizagem do próprio “enquadramento” onde a interação (paradoxal) está inserida, fato que o impede de discernir que tipo de mensagem está sendo comunicada.
No decorrer dos ensaios que integram a coletânea, Bateson apresentará o esboço de uma teoria da aprendizagem que é profundamente relacional ou comunicacional. Para ele, o processo de aprendizagem estaria estruturado em certos níveis de desenvolvimento, sendo que é sobretudo ao segundo nível – também chamado de “deuteroaprendizagem” ou “aprender a aprender” – que Bateson dedicará grande parte de sua atenção. Tal nível de aprendizagem é caracterizado por uma “meta-aprendizagem”, isto é, um processo de educação da atenção para o próprio contexto em que a aprendizagem ocorre, permitindo que o sujeito identifique adequadamente quais são os “marcadores” ou as “molduras” que definem cada contexto de interação e consiga transitar habilmente entre eles. Trata-se da habilidade para identificar padrões, perceber sinais ou solucionar problemas que resulta na formação de um “hábito”, ou seja, uma espécie de “atalho”, derivado da experiência direta e recorrente, que possibilita a adequada compreensão de um dado contexto. Nesse sentido, quando contextos semelhantes se apresentam, o sujeito cujo hábito foi introjetado (muitas vezes de forma não consciente) consegue realizar rapidamente uma leitura atenta daquela situação, adaptando-se a ela e se liberando para resolver outros problemas ou aprender novas coisas.
Especialmente na quarta parte do livro, Bateson amplia o uso da noção de deuteroaprendizagem e seu consequente processo de criação e introjeção de hábitos para pensar não só a aprendizagem de indivíduos ou de grupos sociais, mas também a própria evolução, transformação e adaptação criativa das espécies biológicas, em profunda conexão com seus ambientes de interação, num diálogo direto com Charles Darwin, Jean-Baptiste de Lamarck, Samuel Butler, William Bateson (pai de Gregory), entre outros pensadores evolucionistas.
Mas hábitos, acrescenta Bateson (2025: 284), “são famosos por sua rigidez”, e a eficiência e rapidez na forma como solucionam problemas “consiste precisamente em não reexaminar ou redescobrir as premissas do hábito toda vez que o hábito é usado”. Esse reexame dos próprios hábitos, ou das premissas e sistemas de valores que os sustentam, está diretamente relacionado ao desenvolvimento de um nível subsequente de aprendizagem que resulta em “uma profunda reorganização do caráter” (ibidem: 310). Tal processo, argumenta o autor, apesar de difícil e raro, é fundamental se quisermos nos libertar do “cativeiro do hábito” que define ou (de)limita o nosso “eu”. Esse processo de reexame e reestruturação de hábitos profundamente enraizados torna-se ainda mais essencial quando o seu conjunto de premissas pode colocar em risco a própria sobrevivência do indivíduo e do sistema de interações do qual ele faz parte.
Nos capítulos que integram as duas partes finais, Bateson apresenta alguns exemplos de premissas equivocadas ou “erros epistemológicos” que estruturam a visão de mundo hegemônica no Ocidente, ao menos desde a Revolução Industrial, e que, somados ao atual estágio do avanço tecnológico, podem provocar a completa “devastação no mundo em que vivemos”. Tais ideias são assim resumidas:
a) somos nós contra o meio ambiente; b) somos nós contra os outros homens; c) é o indivíduo (ou a empresa individual, ou a nação individual) que importa; d) nós somos capazes de controlar unilateralmente o meio ambiente e devemos lutar por esse controle; e) nós vivemos dentro de uma “fronteira” em expansão infinita; f) o determinismo econômico é senso comum; g) a tecnologia fará por nós (ibidem: 486).
Caminhar em direção a uma ecologia da mente é precisamente o método, ou melhor, a epistemologia que Bateson desenvolve para tentar corrigir essa perigosa e destrutiva visão de mundo dominante. Um dos primeiros passos dessa mudança epistemológica consiste em aceitar a premissa fundamental de que a criatura que destrói o seu ambiente destrói, inevitavelmente, a si própria. Rejeita-se, desse modo, a crença na noção de um “eu” separado do sistema total de relações do qual faz parte. Rejeita-se, além disso, a ideia de que esse “eu” seria de alguma maneira capaz de controlar conscientemente esse sistema maior, integrado e interativo a que Bateson dá o nome de “mente”.
Imanente à matéria, a mente ou sistema mental ultrapassa as barreiras internas de um organismo para compor uma extensa, criativa e dinâmica rede ecológica de relações, ideias, informações, padrões, mensagens que se manifestam ou se corporificam em distintas formas materiais. Trata-se, em suma, de uma mente imersa no mundo da vida: uma epistemologia da vida. Se a mente corresponde ao sistema total de relações, a consciência individual é, por outro lado, apenas uma parcela ou uma pequena amostra de diferentes partes ou localidades dessa rede. Nesse sentido, um dos maiores problemas (ou uma das “patologias”) que atravessam a epistemologia hegemônica na contemporaneidade consiste justamente em confundir a parte com o todo, acreditando que a compreensão fragmentada ou compartimentada da realidade que a consciência oferece seria capaz de apreender corretamente o amplo e delicado sistema de relações que constitui o mundo e todos os seres que nele habitam. Para Bateson (ibidem: 432), o eu consciente é “uma versão inconscientemente editada de uma pequena porcentagem” dos acontecimentos que nos afetam de alguma maneira. Tal percepção limitada da realidade será perigosamente responsável por guiar nossos propósitos, estabelecer nossos objetivos, resolver nossos problemas e obter rapidamente aquilo que desejamos. Cega à natureza sistêmica que constitui o eu e o mundo, a consciência imbuída de objetivos tem o poder – por intermédio das modernas tecnologias e do avanço de uma racionalidade mecanicista, reducionista, binária e fragmentadora – “para perturbar os equilíbrios do corpo, da sociedade e do mundo biológico ao nosso redor” (ibidem: 433).
Para sair desse “engano epistemológico”, Bateson receita alguns “remédios” que talvez nos auxiliem a levar a vida com mais humildade (epistemológica), sabedoria (sistêmica) e equilíbrio (dinâmico/saudável): sonhos (“o melhor atalho para o inconsciente”), criatividade artística/poética, contato com o mundo natural, com as filosofias orientais e, também, com “a melhor parte da religião”. Sem entrar em detalhes sobre os efeitos e benefícios de tais “fatores corretivos”, ele apenas sugere que, nessas atividades, o indivíduo “precisa necessariamente afrouxar a arrogância em benefício de uma experiência criativa na qual a sua mente consciente tem somente uma pequena participação” (ibidem: 437).
Sistêmica, relacional, dinâmica, flexível, holista, analógica, recursiva, não linear... são exemplos dos adjetivos que foram em algum momento utilizados para descrever a epistemologia ecológica de Gregory Bateson. Na produção dessa nova forma de conhecer as coisas são gestados os fundamentos de um novo paradigma, uma nova ciência, uma nova linguagem que nos aconselha a aprender a ver o mundo e a nós mesmos de uma outra maneira, com outros olhos, outras lentes (menos digitais, mais analógicas). Mais do que perceber o mundo de outra maneira, trata-se do convite para habitar um outro mundo, um outro planeta: o planeta Bateson.
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Referências Bibliográficas
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Editor-Chefe:
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