Sr. Editor,
Paciente do gênero feminino, 42 anos, admitida no pronto-socorro com cefaleia intensa e urgência hipertensiva (pressão arterial: 220 × 110 mmHg), evoluindo com hemiparesia à esquerda, anisocoria à direita e rebaixamento do nível de consciência, com escala de coma de Glasgow igual a 4. A tomografia computadorizada de crânio mostrou hemorragia subaracnoide aguda Fisher 4, decorrente de ruptura de aneurisma da circulação anterior. Além disso, mostrou sinais de hemorragia intra-ocular bilateral (Figura 1). Tais achados são compatíveis com o diagnóstico de síndrome Terson.
A: TC demonstrando sinais de hemorragia subaracnoide e hemorragia intraocular direita, como foco espontaneamente hiperatenuante na porção posterior do globo ocular direito. B: TC mostrando hemorragia intraocular à es- A B querda.
A síndrome Terson foi descrita inicialmente como hemorragia vítrea secundária a hemorragia subaracnoide aguda, mas publicações recentes também demonstram que pode resultar de traumatismo cranioencefálico ou mesmo de hemorragia intraparenquimatosa cerebral não traumática(1). Descrita originalmente em 1900 por Albert Terson, a síndrome tem incidência variando entre 2,6% e 27% no contexto das hemorragias subaracnóideas por ruptura de aneurismas(2-4). Sua etiologia, apesar de controversa, tem sido atribuída ao rápido aumento da pressão venosa ou intracraniana, que rompe os capilares peripapilares ou causa compressão da veia central da retina, o que resulta em diminuição da drenagem venosa retiniana, provocando estase e hemorragia(5).
O diagnóstico de hemorragia intraocular é confirmado com mais precisão por meio de avaliação fundoscópica, mas a tomografia computadorizada pode sugeri-lo, com sensibilidade estimada de 66%. As alterações mais encontradas são espessamento da retina e nódulos hiperatenuantes recobrindo o disco óptico(6).
A síndrome Terson é mais frequentemente encontrada em pacientes com doença neurológica grave, escala de coma de Glasgow menor ou igual a 8 e Fisher maior ou igual a 3 no momento da apresentação. Ressalta-se ainda que a morbidade e a mortalidade têm sido elevadas nesses pacientes. Na série de Fountas et al., a mortalidade foi 2% para os pacientes que não apresentavam hemorragia ocular e 28,6% para os que a apresentavam(7).
A síndrome Terson não é uma condição infrequente, sendo possivelmente subdiagnosticada. Dadas as implicações de prognóstico para a morbidade e mortalidade, bem como o potencial de lesão ocular secundária, este diagnóstico é de extrema relevância ao radiologista e aos demais profissionais assistentes, principalmente no cenário da hemorragia subaracnoide aguda(8), mas também em outras formas de hemorragia intracraniana.
Referências bibliográficas
- 1 Czorlich P, Skevas C, Knospe V, et al. Terson syndrome in subarachnoid hemorrhage, intracerebral hemorrhage, and traumatic brain injury. Neurosurg Rev. 2015;38:129-36.
- 2 de Vries-Knoppert W. Vitreous findings in a patient with Terson's syndrome. Doc Ophthalmol. 1995;90:75-80.
- 3 Vanderlinden RG, Chisholm LD. Vitreous hemorrhages and sudden increased intracranial pressure. J Neurosurg. 1974;41:167-76.
- 4 Pobereskin LH. Incidence and outcome of subarachnoid haemorrhage: a retrospective population based study. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2001;70:340-3.
- 5 Ogawa T, Kitaoaka T, Dake Y, et al. Terson syndrome: a case report suggesting the mechanism of vitreous hemorrhage. Ophthalmology. 2001;108: 1654-6.
- 6 Avila M, Cialdini AP, Crivelin M, et al. Vitrectomia na síndrome de Terson. Arq Bras Oftalmol. 1997;60:67-71.
- 7 Fountas KN, Kapsalaki EZ, Lee GP, et al. Terson hemorrhage in patients suffering aneurysmal subarachnoid hemorrhage: predisposing factors and prognostic significance. J Neurosurg. 2008;109:439-44.
- 8 Wajnberg E. Síndrome de takotsubo após hemorragia subaracnóidea. Radiol Bras. 2012;45:132-4.

