Open-access Radiografia de tórax em unidade de terapia intensiva neonatal: um exame transecular, mas ainda essencial no manejo clínico dos recém-nascidos

As causas mais comuns de internações em uma unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) são prematuridade e/ou baixo peso ao nascer, correspondendo a até 69% das internações em UTINs de referência, inclusive no Brasil1-4. Complicações respiratórias são causas importantes de mortalidade nas UTINs, notadamente relacionadas ao desconforto respiratório do prematuro3,4.

No manejo das doenças pulmonares do recém-nascido que necessitam ir para UTIN, a radiografia de tórax tem papel fundamental no diagnóstico inicial, quando ocorre alteração clínica importante do quadro respiratório e é o procedimento padrão para se verificar o posicionamento de sondas, tubos e cateteres5. Apesar dos avanços tecnológicos do diagnóstico por imagem, com a inclusão nas últimas décadas de diferentes modalidades de exames, a radiografia torácica continua sendo o exame radiológico mais utilizado nas UTINs6.

As atelectasias pulmonares são alterações pulmonares frequentes e podem determinar piora súbita do quadro clínico do neonato com predisposição a complicações infecciosas e necessidade de maior suporte ventilatório7. A atelectasia pulmonar é um sinal de doença e, de forma isolada, não é sugestiva de um diagnóstico específico, por isso a necessidade da correlação clínica. O tratamento da atelectasia depende da causa, duração e da sua gravidade8,9. Os principais mecanismos para formação de atelectasias pulmonares são obstrução das vias aéreas, compressão extrínseca e aumento da tensão superficial entre alvéolos e bronquíolos decorrente de deficiência de surfactante9. As principais doenças que acometem os recém-nascidos cursam com atelectasia pulmonar, dentre elas síndrome do desconforto respiratório, aspiração meconial, pneumonia, derrame pleural e pneumotórax8. A atelectasia pulmonar também pode ser consequência de complicação relacionada ao posicionamento inadequado da cânula endotraqueal, impedindo assim a adequada ventilação do recém-nascido10. Portanto, a detecção de falhas de posicionamento da cânula endotraqueal deve suscitar pronta correção11.

Neste número da Radiologia Brasileira, Alvares et al.12 discutem o papel da radiografia de tórax na avaliação da atelectasia pulmonar em recém-nascidos com doenças pulmonares clinicamente tratáveis, suas principais formas de apresentação, fatores causais e condições relacionadas, como posicionamento da cânula endotraqueal. Os autores mostram que a cânula endotraqueal estava inadequadamente posicionada em 87% dos pacientes e houve associação entre o mau posicionamento da cânula endotraqueal com prematuridade e peso ao nascer inferior a 1000 g12. Ainda, houve uma tendência de associação entre o aparecimento de atelectasia pulmonar do lobo superior e o posicionamento da cabeça. Estes resultados corroboram outros estudos que relataram que recém-nascidos de extremo baixo peso ao nascer são mais vulneráveis a falhas de posicionamento de cânula endotraqueal11. Além disso, o posicionamento da cabeça do neonato durante a realização da radiografia simples também é fator predisponente à intubação traqueal inadequada e, consequentemente, atelectasia e desfechos pulmonares adversos11,13. A cânula endotraqueal em posição mais distal ocorre com a cabeça fletida, e a cânula proximal, com a cabeça estendida13.

As radiografias realizadas nas UTINs levam a um aumento de exposição à radiação ionizante para os recém-nascidos, que apresentam maior radiossensibilidade quando comparados a adultos, e para a equipe profissional. Aumentam também o risco potencial de remoção acidental de dispositivos como cateteres e tubos e, consequentemente, falhas de intubação14. Durante a investigação diagnóstica é necessário estar atento às técnicas de redução de dose de radiação ionizante ou mesmo considerar o uso de outras modalidades de exame como a ultrassonografia15. É preciso garantir a qualidade do exame para evitar novas exposições, com atenção adequada para penetração, expansão pulmonar, posicionamento do neonato e, principalmente, colimação16. A avaliação do posicionamento de tubo endotraqueal com ultrassonografia vem se mostrando uma opção à radiografia simples, porém, a radiografia de tórax continua sendo o exame de referência14,17. Atenção para o correto posicionamento do recém-nascido durante a realização de radiografias e pronta detecção de possíveis falhas de intubação como causa de atelectasias pulmonares são fatores variáveis e relacionados diretamente ao radiologista. Se cuidados, podem contribuir para o melhor desfecho dos neonatos.

Referências bibliográficas

  • 1 Damian A, Waterkemper R, Paludo CA. Perfil de neonatos internados em unidade de tratamento intensivo neonatal: estudo transversal. Arq Ciênc Saúde. 2016;23:100-5.
  • 2 Granzotto JA, Mota DM, Real RF, et al. Análise do perfil epidemiológico das internações em uma unidade de terapia intensiva neonatal. Rev AMRIGS, Porto Alegre. 2012;56:304-7.
  • 3 Jacob J, Kamitsuka M, Clark RH, et al. Etiologies of NICU deaths. Pediatrics. 2015;135:e59-65.
  • 4 Feria-Kaiser C, Furuya ME, Vargas MH, et al. Main diagnosis and cause of death in a neonatal intensive care unit: do clinicians and pathologists agree? Acta Paediatr. 2002;91:453-8.
  • 5 American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria - Intensive Care Unit Patients. [cited 2018 Jan 2]. Available from: https://acsearch.acr.org/docs/69452/Narrative/
    » https://acsearch.acr.org/docs/69452/Narrative/
  • 6 Wilson-Costello D, Rao PS, Morrison S, et al. Radiation exposure from diagnostic radiographs in extremely low birth weight infants. Pediatrics. 1996;97:369−74.
  • 7 Thomas K, Habibi P, Britto J, et al. Distribution and pathophysiology of acute lobar collapse in the pediatric intensive care unit. Crit Care Med. 1999;27:1594-7.
  • 8 Alvares BR, Pereira IMR, Mezzacappa MA, et al. Atelectasia pulmonar em recémnascidos: etiologia e aspectos radiológicos. Sci Med. 2012;22:43-52.
  • 9 Peroni DG, Boner AL. Atelectasis: mechanisms, diagnosis and management. Paediatr Respir Rev. 2000;1:274-8.
  • 10 Kuhns LR, Poznanski AK. Endotracheal tube position in the infant. J Pediatr. 1971;78:991-6.
  • 11 Thayyil S, Nagakumar P, Gowers H, et al. Optimal endotracheal tube tip position in extremely premature infants. Am J Perinatol. 2008;25:13-6.
  • 12 Alvares BR, Dominguez MC. Atelectasia pulmonar em recém-nascidos com doenças clinicamente tratáveis submetidos a ventilação mecânica: aspectos clínicos e radiológicos. Radiol Bras. 2018;51:20-5.
  • 13 Rost JR, Frush DP, Auten RL. Effect of neck position on endotracheal tube location in low birth weight infants. Pediatr Pulmonol. 1999;27:199-202.
  • 14 Ioos V, Galbois A, Chalumeau-Lemoine L, et al. An integrated approach for prescribing fewer chest x-rays in the ICU. Ann Intensive Care. 2011;1:4.
  • 15 Dalmazo J, Elias Jr J, Brocchi MAC, et al. Radiation dose optimization in routine computed tomography: a study of feasibility in a University Hospital. Radiol Bras. 2010;43:241-8.
  • 16 Souza RM, Baldisserotto M, Piva JP, et al. Uso da radiografia de tórax na unidade de tratamento intensivo pediátrico. Sci Med. 2013;23:191-8.
  • 17 Hiles M, Culpan AM, Watts C, et al. Neonatal respiratory distress syndrome: chest X-ray or lung ultrasound? A systematic review. Ultrasound. 2017;25:80-91.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Feb 2018
location_on
Publicação do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem Av. Paulista, 37 - 7º andar - conjunto 71, 01311-902 - São Paulo - SP, Tel.: +55 11 3372-4541, Fax: 3285-1690, Fax: +55 11 3285-1690 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: radiologiabrasileira@cbr.org.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro