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Open-access Respeito como núcleo central: representações sociais de futuros professores de Educação Física sobre a inclusão

Respect as a central core: social representations of future Physical Education teachers about inclusion

El respeto como eje central: representaciones sociales de los futuros docentes de Educación Física respecto a la inclusión

RESUMO

O estudo investiga indícios de representações sociais sobre inclusão no curso de Educação Física a partir da perspectiva de 243 estudantes de diferentes instituições. A coleta de dados ocorreu por meio do Teste de Associação Livre de Palavras, com tratamento pelo software IRaMuTeQ, utilizando Análise Prototípica e Árvore de Similitude. Os resultados indicam “respeito” como o elemento central das representações sociais, associado à valorização da dignidade e do reconhecimento da diversidade. A inclusão é compreendida principalmente como ações de adaptação e suporte, envolvendo aspectos físicos e atitudinais. O estudo contribui, sob uma perspectiva psicossocial, para reflexões sobre a formação docente e os desafios na consolidação de práticas pedagógicas inclusivas.

Palavras-chave:
Educação Física; Formação inicial; Prática educativa; Formação docente

ABSTRACT

This study investigates evidence of social representations of inclusion in Physical Education courses from the perspective of 243 students from different institutions. Data collection was carried out using the Free Word Association Test, processed using the IRaMuTeQ software, employing Prototypical Analysis and Similarity Tree Analysis. The results indicate "respect" as the central element of social representations, associated with the valuing of dignity and the recognition of diversity. Inclusion is understood primarily as actions of adaptation and support, involving physical and attitudinal aspects. From a psychosocial perspective, the study contributes to reflections on teacher training and the challenges in consolidating inclusive pedagogical practices.

Keywords:
Physical Education; Initial training; Educational practice; Teacher training

Resumen

Este estudio investiga la evidencia de las representaciones sociales de la inclusión en los cursos de Educación Física desde la perspectiva de 243 estudiantes de diferentes instituciones. La recopilación de datos se realizó mediante la Prueba Libre de Asociación de Palabras, procesada con el software IRaMuTeQ, empleando Análisis Prototípico y Análisis de Árboles de Similitud. Los resultados indican que el respeto es el elemento central de las representaciones sociales, asociado con la valoración de la dignidad y el reconocimiento de la diversidad. La inclusión se entiende principalmente como acciones de adaptación y apoyo, que involucran aspectos físicos y actitudinales. Desde una perspectiva psicosocial, el estudio contribuye a la reflexión sobre la formación docente y los desafíos para consolidar prácticas pedagógicas inclusivas.

Palabras clave:
Educación Física; Formación inicial del profesorado; Práctica educativa; Formación del profesorado

INTRODUÇÃO

As Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Educação Física (Resolução CNE/CES nº 6/2018) e a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores (Resolução CNE/CP nº 2/2019) evidenciam, em seus textos, o compromisso com a inclusão nas práticas pedagógicas. A Resolução nº 6/2018 assegura que a formação do professor de Educação Física, tanto no bacharelado quanto na licenciatura, deve contemplar a preparação para a atuação junto a pessoas com deficiência, além de tornar obrigatório o componente “Educação Física Escolar Especial/Inclusiva” na licenciatura (Brasil, 2018).

De modo complementar, a Resolução CNE/CP nº 2/2019 estabelece que a formação inicial docente deve abranger conhecimentos sobre educação especial, atendimento a estudantes com deficiência e estratégias pedagógicas voltadas à eliminação de barreiras de acesso ao conhecimento (Brasil, 2019). Esse compromisso é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que determina a obrigatoriedade de conteúdos sobre educação especial e inclusão nos currículos de formação de professores (Brasil, 1996).

Nesse contexto, a formação inicial de professores de Educação Física tem sido desafiada a incorporar, de forma efetiva, os princípios da educação inclusiva em seus currículos e práticas. Diante das transformações sociais e das políticas educacionais voltadas à valorização da diversidade, torna-se necessário compreender como os futuros profissionais da área percebem e se posicionam frente à temática da inclusão (Santos, 2023). Entretanto, estudos apontam entraves nesse processo, como a fragmentação curricular, o distanciamento entre teoria e prática e o tratamento pontual da inclusão, geralmente restrito a poucas disciplinas, o que evidencia a necessidade de uma formação mais integrada e sensível à diversidade escolar (Bonfat e Sá, 2023).

As políticas públicas exercem influência direta na organização curricular dos cursos de Educação Física, orientando conteúdos e abordagens pedagógicas que enfatizam a valorização da diversidade e a promoção de práticas inclusivas. Esse movimento tem impulsionado, nas últimas décadas, uma reestruturação curricular que busca equilibrar aspectos biológicos, esportivos e pedagógicos, incluindo disciplinas como “Educação Física Adaptada”, com vistas à formação de professores capazes de atuar de forma crítica e inclusiva no contexto escolar (Bonfat e Sá, 2023).

Para além da política públicas, importante ressaltar que a formação identitária do futuro profissional é um processo relevante, pois interfere em sua conduta para com a inclusão. A formação inicial é fator preponderante para a construção da identidade profissional dos professores de Educação Física, moldando suas crenças, disposições e práticas, além de delimitar seu pertencimento ao campo disciplinar (Gariglio, 2010).

Diante desse cenário, compreender o perfil dos estudantes que ingressam nos cursos de licenciatura em Educação Física torna-se relevante. Pesquisas indicam que esses estudantes são majoritariamente jovens, provenientes de escolas públicas, sem outra graduação e, em sua maioria, sem ocupação remunerada, elementos que contribuem para a compreensão de seus processos formativos e expectativas profissionais (Sontag et al., 2021).

Para aprofundar a análise desse contexto, a Teoria das Representações Sociais (TRS), proposta por Moscovici, constitui um referencial teórico-metodológico relevante para investigar como saberes, crenças e valores são socialmente construídos e compartilhados, influenciando práticas e compreensões sobre a inclusão no campo educacional. Este estudo fundamenta-se na abordagem estrutural da TRS, a partir da Teoria do Núcleo Central, que permite identificar os elementos centrais e periféricos das representações, conferindo coerência e estabilidade aos significados socialmente partilhados (Sá, 2002; Triani et al., 2024).

Dessa forma, o presente estudo busca responder à seguinte questão: quais as representações sociais dos alunos de Educação Física, em formação inicial, sobre a inclusão, relacionado com a sua futura prática profissional? Assim, o objetivo do manuscrito é analisar os indícios dessas representações no curso de Educação Física, a partir da perspectiva dos discentes, contribuindo para reflexões e possíveis direcionamentos nos processos de formação docente em uma perspectiva inclusiva.

METODOLOGIA

O presente estudo adota uma abordagem qualitativa, adequada à investigação de fenômenos educacionais complexos e à compreensão das experiências dos participantes em seus contextos. De acordo com Cusati (2024), essa metodologia é eficaz para analisar aspectos subjetivos e contextuais que influenciam a formação e o desenvolvimento profissional docente, possibilitando uma compreensão aprofundada das práticas e interações no ambiente educacional.

A Teoria do Núcleo Central (TNC) propõe que as representações sociais se organizem em dois níveis: o Núcleo Central e o sistema periférico. O Núcleo Central reúne elementos estáveis e compartilhados pelo grupo, fundamentados em valores e crenças que conferem identidade e sentido às representações sociais. O sistema periférico, por sua vez, apresenta maior flexibilidade, permitindo adaptações às vivências individuais e às mudanças contextuais sem comprometer a essência da representação (Sá, 2002).

Segundo Sá (2002), o Núcleo Central exerce três funções básicas: a função geradora, responsável por atribuir sentido aos demais elementos; a função organizadora, que estabelece os vínculos entre os elementos e garante a coerência da representação; e a função estabilizadora, que assegura resistência às mudanças ao longo do tempo. O sistema periférico atua como espaço de adaptação às demandas e contextos específicos, preservando a estrutura central.

O grupo amostral foi composto por 243 estudantes regularmente matriculados em cursos de graduação em Educação Física (Licenciatura e Bacharelado), de ambos os sexos e em diferentes semestres. A inclusão das duas habilitações considerou o entendimento de que a Educação Física, independentemente da formação, deve ser praticada em uma perspectiva inclusiva. A escolha desse grupo justifica-se por estarem em processo de construção da identidade profissional, contribuindo significativamente para a análise das práticas pedagógicas e dos desafios da formação inicial (Triani e Novaes; Telles, 2023).

Como critérios de inclusão, os participantes deveriam estar regularmente matriculados nos cursos de Educação Física e concordar com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos estudantes que não responderam integralmente ao questionário ou que se encontravam com matrícula trancada. Para caracterização do público, aplicou-se um questionário sociodemográfico, contemplando variáveis como raça, gênero, idade, escolaridade e dependência financeira, fundamentais para compreender diferenças, vulnerabilidades e recursos dos grupos pesquisados (Ferreira et al., 2021).

A coleta de dados utilizou o Teste de Associação Livre de Palavras (TALP), técnica que explora a estrutura psicológica dos indivíduos por meio de associações verbais a partir de um termo indutor. Neste estudo, os participantes evocaram cinco palavras relacionadas ao termo “inclusão”, revelando suas representações sociais e significados atribuídos ao conceito (Andrade e Triani, 2024). O instrumento também incluiu um campo para narrativas explicativas, no qual os participantes atribuíram sentido às palavras evocadas, favorecendo análises mais contextualizadas.

Para o tratamento dos dados, utilizou-se o software IRaMuTeQ, ferramenta gratuita voltada à análise de dados qualitativos e quantitativos em pesquisas sobre representações sociais. Foram realizadas a Análise Prototípica, que identifica a hierarquia dos elementos evocados, e a Análise de Similitude, que evidencia as conexões entre os termos produzidos (Batista e Andrade, 2023). Antes das análises, realizou-se a lematização do corpus, com padronização lexical das evocações, garantindo maior consistência e precisão nos resultados.

A Análise Prototípica organiza os elementos centrais e periféricos das representações sociais em quatro quadrantes, permitindo identificar o Núcleo Central a partir de palavras de alta frequência e baixa ordem de evocação. Já a Análise de Similitude organiza os termos conforme suas conexões e coocorrências, identificando os elementos mais centrais da estrutura representacional. Fundamentada na teoria dos grafos, essa análise estabelece vínculos entre os termos por meio do maior índice de coocorrência, evidenciando a centralidade dos elementos (Andrade e Triani, 2024).

Por fim, destaca-se que o estudo seguiu todos os preceitos éticos da pesquisa com seres humanos, tendo sido submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme parecer nº 7.511.825, de 16 de abril de 2025.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No presente estudo, participaram 243 estudantes, sendo 167 do sexo masculino e 76 do sexo feminino. A maioria encontrava-se nos semestres iniciais do curso de Educação Física (1º ao 4º semestre: n = 147), enquanto 99 cursavam do 5º ao 8º semestre, indicando a predominância de discentes em fase inicial de formação, momento relevante para a construção da identidade profissional e das representações sociais sobre inclusão.

O total de palavras registradas pelos participantes foi de 1.215 evocações que passaram por um primeiro tratamento chamado lematização, processo de agrupamento de palavras com o mesmo radical, ou pelo critério semântico, que reúne termos de sentido semelhante, utiliza-se o infinitivo para verbos e do masculino singular para substantivos e adjetivos Wolter et al. (2022). Na ação com o IRaMuTeQ foram descartadas as palavras que tinha frequência igual ou menor a 3 e por não terem nenhuma ligação com os grupos formados, conforme sugere Carmo et al. (2019).

Após esse processo os dados lapidados foram inseridos no software IRaMuTeQ no qual foram gerados dois elementos que serviram para fazer a análise: a Análise Prototípica e a Árvore de Similitude.

No Quadro 1 encontram-se os grupos semânticos que, segundo Wolter et al. (2016), constituem elementos fundamentais do pensamento e integram a estrutura das representações sociais. Esses grupos são compreendidos como unidades mínimas de significado, ou seja, cognemas, que funcionam como blocos de construção utilizados pelas pessoas para elaborar suas ideias e percepções acerca do mundo social.

Quadro 1
Análise Prototípica das evocações dos estudantes de Educação Física sobre inclusão.

Pode-se observar no primeiro quadrante ou Núcleo Central que estão alocadas as palavras com frequência (F) maior ou igual a 18,62 e com uma ordem média de evocação menor que 2,9, as palavras que foram prontamente evocadas. A principal palavra apresentada foi “respeito” (F= 119; OME= 2,3), em seguida apareceu “acessibilidade” (F= 82; OME= 2,7), “igualdade” (F= 63; OME= 2,6), “acolhimento” (F= 37; OME= 2,5) e por último no quadrante o termo “adaptação” (F= 29; OME= 2,5) fechando o primeiro quadrante.

A palavra “respeito” aparece no primeiro quadrante, como sendo a mais evocada, apresentando uma frequência de 119 e tendo uma OME baixa, ou seja, na escala das 5 palavras elas apareceu quase sempre entre as primeiras, próxima ao um, sendo prontamente evocada, quando foi registrada pelos estudantes. Pode-se dizer que “respeito” é o conteúdo mais central e significativo das representações sociais do grupo de estudantes de Educação Física.

De acordo com Santos et al. (2025), o respeito é um elemento fundamental para a efetivação da inclusão de pessoas com deficiência. A construção de uma cultura inclusiva exige a superação de preconceitos, estereótipos e atitudes preconceituosas que ainda persistem na sociedade, configurando barreiras atitudinais que dificultam a participação plena desses indivíduos. Para promover a inclusão, é imprescindível cultivar uma postura de respeito, valorizando as diferenças e reconhecendo a diversidade como um elemento enriquecedor do ambiente escolar.

Ainda sobre o respeito à pessoa com deficiência e seu processo de inclusão, Lisboa (2020) afirma que ao longo da história, os direitos fundamentais das pessoas com deficiência, como o respeito e a dignidade da pessoa humana, têm sido reconhecidos por meio de movimentos sociais e leis que regulamentam sua inclusão na sociedade, embora ainda haja um caminho a percorrer para valorizar plenamente a diversidade humana e assegurar uma convivência baseada na igualdade e no reconhecimento da sua cidadania.

Nessa pesquisa percebe-se que foram levantados conceitos diferentes e na sua maioria os estudantes entendem que para que a inclusão possa acontecer o respeito ao próximo deve ser primordial, como se pode observar nas seguintes narrativas:

  • Estudante 1: Ter respeito pelas necessidades especiais.

  • Estudante 25: Sem respeito, não existe inclusão de verdade.

  • Estudante 53: Respeitar o indivíduo independente do problema.

Sobre as narrativas apresentadas, destaca-se a configuração do universo consensual descrito por Moscovici (2015), uma vez que algumas falas expressam compreensões sobre a inclusão que se afastam da literatura especializada e da base científica. Conforme Triani (2021), o universo consensual caracteriza-se pelo compartilhamento de valores e normas socialmente construídos, em contraste com o universo reificado, no qual os conceitos são tratados de forma mais sistematizada e institucionalizada.

Em contrapartida, ainda há um obstáculo a ser transposto, que é quando os direitos dos alunos com deficiência são desrespeitados, seja pela escola, políticas públicas ou a sociedade.

  • Estudante 12: A inclusão depende do reconhecimento e valorização das pessoas.

  • Estudante 135: Respeito é importante, pois cria um ambiente onde as pessoas se sentem seguras, valorizadas e capazes de contribuir plenamente.

Resende et al. (2024), evidenciam que o desrespeito à inclusão das pessoas com deficiência se manifesta por meio de atitudes de desinformação, preconceito e resistência cultural, que reforçam a exclusão desses indivíduos do convívio social pleno. Muitos educadores e membros da sociedade ainda demonstram receio diante da diversidade, alimentando o estigma e a estigmatização, o que dificulta a implementação de práticas inclusivas eficazes.

No segundo lugar temos o termo “acessibilidade”, ainda no Núcleo Central, com frequência de 82 e com OME de 2,7, apontando a significância desse cognema para o grupo. Conforme preconiza a Lei Brasileira de Inclusão/Lei nº 13.146/2015 (LBI), no seu Art. 3º, inciso I, a acessibilidade refere-se às condições que garantem às pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida o uso seguro e autônomo de espaços, serviços, transportes, informações e tecnologias, em contextos urbanos e rurais (Brasil, 2015).

Com base nos termos acima, pode-se notar nas narrativas registradas pelos alunos que a acessibilidade é um tema importante quando se trata de inclusão:

  • Estudante 31: Acessibilidade é a chave da inclusão.

  • Estudante 36: Possibilidade de todos participarem.

  • Estudante 72: Importante para a inclusão.

A acessibilidade contribui de fora decisiva na promoção da inclusão, uma vez que possibilita a eliminação de barreiras que dificultam o acesso, a participação e o envolvimento de todos os estudantes. Por meio do conceito de design universal, a criação de ambientes acessíveis contribui para a realização de uma educação equitativa, no qual a diversidade é respeitada e valorizada, garantindo que as condições de aprendizagem sejam compreensíveis, utilizáveis e favoráveis à autonomia de cada pessoa (Souza, 2022).

  • Estudante 21: Permite as pessoas participarem de todas as atividades sociais.

  • Estudante 240: É necessário remover barreiras físicas e sociais.

Embora seja apontada pelos estudantes como sendo importante, a acessibilidade, é entendida apenas como um recurso técnico ou operacional, pois ela se distancia da dimensão política e epistemológica necessária para a inclusão. Embora seja importante para garantir o acesso físico e comunicacional a espaços e recursos, a acessibilidade sozinha não basta para promover uma inclusão. Inclusão exige ir além da acessibilidade, transformando práticas pedagógicas, ambientes e relações sociais, e construindo uma cultura de diversidade em que as diferenças são valorizadas como essenciais e complementares, conforme propõe a ideia de um ecossistema escolar inclusivo (Freitas, 2023).

Na terceira posição aparece o cognema “igualdade”, com frequência de 63 e OME de 2,6, o grupo entende que os alunos com deficiência precisam ser tratados de forma igualitária em relação aos alunos sem deficiência para que a inclusão possa existir.

  • Estudante 30: é tratar todos da mesma forma.

  • Estudante 69: igualdade sem discriminação.

  • Estudante 188: Direito igual para todos.

Sobre o tema, Posso et al. (2024), evidenciam a igualdade é apontada como um dos pilares da inclusão, já que assegura a todos o direito de acessar as mesmas oportunidades de aprendizagem, sem que diferenças físicas, intelectuais ou sociais se tornem barreiras. Quando a escola valoriza as singularidades e reconhece a diversidade presente em seu cotidiano, cria condições para que cada estudante possa desenvolver suas capacidades em um ambiente de justiça e respeito. Esse movimento favorece uma convivência rica e colaborativa, beneficiando toda a comunidade escolar. Assim, a busca pela igualdade colabora para a construção de uma educação mais inclusiva, em que o reconhecimento das particularidades de cada pessoa se torna indispensável para garantir o exercício pleno da cidadania e a participação efetiva de todos no processo educativo.

Se contrapondo a esse conceito, Cordeiro e Ribeiro (2024), discutem que é importante reconhecer que as tratar de forma igualitária muitas vezes resulta em exclusão ao desconsiderar suas diferenças e necessidades específicas. A igualdade, enquanto tratamento idêntico para todos, pode acabar por ignorar que indivíduos com diferentes capacidades exigem modalidades de apoio distintas, sob pena de sobrecarregá-los ou de impedir sua formação. Nesse sentido, a inclusão não está em simplesmente garantir a presença desses indivíduos no ambiente escolar, mas em oferecer condições que respeitem seu ritmo, potencial e singularidades, promovendo uma abordagem de equidade que trata os desiguais de forma desiguais, favorecendo a participação efetiva de todos na sociedade.

  • Estudante 136: Oferecer as mesmas oportunidades a todos.

  • Estudante 2: É essencial para garantir que todos tenham acesso às mesmas oportunidades e recursos.

A igualdade na educação consiste em tratar todos de forma idêntica, oferecendo as mesmas oportunidades e recursos, independentemente das diferenças individuais. Já a equidade busca garantir justiça social ao reconhecer essas diferenças e criar condições diferenciadas para que todos possam alcançar os mesmos objetivos, promovendo uma inclusão mais efetiva. Na prática, a igualdade oferece o mesmo tratamento a todos, como aulas padronizadas, enquanto a equidade ajusta recursos e apoios para atender às necessidades específicas de cada estudante, como adaptações curriculares ou recursos especiais, garantindo que todos tenham chances reais de sucesso (Iacono et al., 2025).

Na sequência está alocada, na penúltima posição do Núcleo Central, a palavra “acolhimento”, foi evocada 37 vezes e teve OME de 2,5, sendo uma das menos importantes do presente quadrante analisado.

O acolhimento como é uma prática fundamental na construção de uma cultura escolar inclusiva, destacando sua importância como primeira etapa para a efetivação da inclusão. O acolhimento é visto não apenas como uma ação de recepção, mas como um momento estratégico para conhecer as especificidades de cada estudante, estabelecer uma relação de respeito e confiança, e promover a participação social. Essa prática contribui para a superação de barreiras estruturais, arquitetônicas e atitudinais, além de incentivar a reflexão e a revisão de práticas pedagógicas, visando garantir o acesso, a permanência e o sucesso de todos os alunos, de forma realmente inclusiva e não reativa (Monteiro et al., 2020).

  • Estudante 71: Afeto.

  • Estudante 133: Fazer com que eles se sintam bem.

  • Estudante 225: Todos juntos, compartilhando.

Na contramão do que apontam os estudantes, Voltolini (2024) problematiza a compreensão do acolhimento na inclusão quando reduzido a uma dimensão exclusivamente afetiva, alertando que essa perspectiva pode limitar a relação professor-aluno a um cuidado superficial. Segundo o autor, tal abordagem desconsidera os processos inconscientes e as resistências presentes nessa relação, reforçando posturas protetivas que dificultam uma formação crítica e reflexiva, razão pela qual o acolhimento deve ser articulado a uma escuta ativa e a uma compreensão mais ampla das dinâmicas envolvidas no processo inclusivo.

  • Estudante 16: É preciso acolher todos, todo mundo precisa se sentir se sentir pertencente a algo

  • Estudante 30: Acolhimento é sentir parte do grupo é fazer a pessoa se sentir bem-vinda ao grupo

No último lugar, do primeiro quadrante, tem a palavra “adaptação”, essa foi evocada 29 vezes e tendo 2,5 de OME. Sobre adaptar, os estudantes compartilham que deve existir adaptação curricular e de outros meios para que as pessoas com deficiência possam participar de todos os processos.

A adaptação curricular é fundamental para o processo de inclusão, pois possibilita o atendimento às necessidades específicas de cada estudante, promovendo um ensino mais equitativo e acessível. Ao ajustar os conteúdos, metodologias e recursos pedagógicos, a adaptação garante que todos os alunos, especialmente aqueles com deficiência, possam participar ativamente e de forma significativa do ambiente escolar. Essa prática contribui para a formação das habilidades dos estudantes, reforça sua autonomia e valoriza as diversidades, além de estimular a empatia, a cooperação e o respeito à pluralidade na comunidade escolar. Assim, a adaptação curricular não apenas possibilita a participação de todos no processo de aprendizagem, mas também promove uma sociedade mais justa e inclusiva (Silva e Souza, 2025).

Ainda sobre o tema, Pinheiro et al. (2024), revisitam que as adaptações na sociedade são essenciais para promover a inclusão e garantir que as pessoas com deficiência tenham acesso às mesmas oportunidades que as demais. Essas mudanças envolvem não apenas recursos físicos, como rampas e sinalizações táteis, mas também atitudes e estratégias que considerem as diferentes limitações. Ao criar ambientes acessíveis e promover ações inclusivas se pode construir uma sociedade mais justa, igualitária e respeitosa, onde todas as pessoas possam participar ativamente, formar suas habilidades e alcançar seu potencial.

  • Estudante 32: Dar o suporte que cada um precisa.

  • Estudante 70: Criar meios par a inclusão.

  • Estudante 108: É importante adaptar atividades para que todos consigam participar.

Para além das adaptações curriculares e físicas é importante haver uma conscientização em relação às adaptações atitudinais. Em busca de uma inclusão efetiva, é fundamental que as pessoas promovam uma mudança atitudinal que envolva a superação do capacitismo e a valorização da diversidade. Essa transformação exige empatia e reconhecimento de que todas as pessoas, independentemente de suas diferenças, têm direito à educação de qualidade e a ambientes acolhedores. As atitudes preconceituosas, silenciosas e até inconscientes que perpetuam o estigma e a exclusão devem ser combatidas por meio de um olhar mais sensível, que considere as potencialidades de cada indivíduo (Santos et al., 2023).

  • Estudante 68: Com o número grande de pessoas que necessitam de um cuidado maior, devemos nos adaptar a essas situações.

  • Estudante 224: Precisa estar aberto a adaptação com novas culturas (costumes).

Diante do exposto pode-se conhecer quais são os conteúdos da estrutura das representações sociais do grupo de estudantes de Educação Física sobre inclusão. Destaca-se a palavra “respeito”, que conforme a análise realizada é a mais significativa para o grupo, pois foi evocada 119 vezes, tendo 2,6 de OME, ou seja, foi prontamente lembrada pelo grupo e por aparecer como umas das primeiras na ordem de importância, passa a ser central nas representações sociais dos estudantes sobre a inclusão.

Na sequência é apresentada e analisada a Árvore de Similitude, como forma de confirmar os achados da análise Prototípica, a fim de apresentar resultados mais robustos.

Na Figura pode-se observar as evocações dentro dos vértices (círculos), que quanto maior a frequência de evocações, maior sua circunferência, indicando a quantidade maior ou menor de vezes que a palavra foi evocada. No caso dessa pesquisa, a palavra “respeito” foi mais registrada, 119 vezes, sendo o maior vértice e centralizada. Na Árvore de Similitude, importa o número total de participantes que citaram ao menos um dos termos em comum. Além disso, a espessura das arestas (linhas) que conectam os conceitos mostra o quanto eles aparecem juntos, quanto mais espessa a linha, maior a frequência dessa associação. Nesse caso a palavra “respeito” teve alta conexidade com a palavra “acessibilidade”, foram evocadas juntas 57 vezes (Ortiz et al., 2021).

Na Árvore de Similitude, os círculos formam ramificações agrupadas em diferentes cores, que Segundo Veras et al. (2022), isso é útil porque permite visualizar tanto os pontos comuns entre os textos quanto as características próprias de cada grupo. Esses agrupamentos, chamados de “halos” ou “comunidades”, representam conjuntos de ideias que se relacionam de forma próxima dentro da análise.

Analisando a Figura 1, nota-se que os estudantes da graduação compartilham representações sociais que colocam o respeito como o elemento mais central quando o assunto é inclusão. Martins e Pieczkowski (2024), discutem que o respeito e a acessibilidade são essenciais para criar espaços inclusivos. Embora garantida por lei, a acessibilidade muitas vezes é tratada de forma superficial, o que acaba reforçando a exclusão. Respeitar significa reconhecer e valorizar as diferenças, entendendo que a presença de pessoas com deficiência não se resume a adaptações físicas, mas ao reconhecimento de seus direitos. Quando a acessibilidade é ignorada, nega-se a equidade e reforça-se a ideia de que só quem se encaixa nos padrões é valorizado.

Figura 1
Árvore de Similitude – representação gráfica das evocações. Fonte: Elaborado pelos autores.

Percebe-se a importância do termo “empatia” com o alto grau de conexidade com o termo “respeito”, com uma aresta mais espessa (36) - é a segunda palavra que mais foi combinada com “respeito”. De acordo com Stockmann e Dantas (2025), a empatia desempenha um papel necessário no processo de ensino e aprendizagem de crianças com deficiência, pois permite ao professor compreender e reconhecer as necessidades e potencialidades de cada aluno de maneira mais sensível, respeitando suas individualidades. Ao se colocar no lugar do educando, o docente consegue criar vínculos afetivos sólidos, o que favorece um ambiente mais acolhedor, seguro e motivador. Essa postura empática contribui para a construção de uma relação de confiança e respeito.

Os autores evidenciam, ainda, que embora a empatia seja importante, ela pode atrapalhar a relação docente-discente se for confundida com paternalismo ou condescendência. Essas atitudes podem limitar a autonomia do aluno e prejudicar a formação de uma relação baseada no respeito e na confiança (Stockmann e Dantas, 2025).

A análise das evocações dos graduandos em Educação Física evidencia que a palavra “respeito” constitui o Núcleo Central das representações sociais do grupo sobre a inclusão. Essa centralidade é confirmada pela alta frequência de ocorrência (f=119) e pela baixa ordem média de evocação (OME=2,3), indicando que foi prontamente lembrada e possui forte valor simbólico para os participantes. O “respeito” é compreendido como a base para a convivência inclusiva, aparecendo nas narrativas dos estudantes como condição indispensável para o reconhecimento da diversidade e a superação das barreiras atitudinais. Nesse sentido, as representações sociais compartilhadas refletem um senso comum sobre inclusão que ultrapassa o âmbito técnico da acessibilidade, situando-se no campo das relações humanas, em que o respeito é visto como princípio ético e atitude necessária à valorização das diferenças e à promoção da igualdade de oportunidades.

Os resultados evidenciam uma combinação das representações sociais dos estudantes, que oscilam entre os elementos do modelo médico e do modelo social da deficiência. Essa coexistência reflete uma compreensão ainda ambígua e, por vezes, híbrida, desses modelos. Enquanto o modelo médico enfatiza as características biológicas, muitas das expressões utilizadas pelos estudantes, como "adaptação" e "acessibilidade", indicam uma aproximação com as propostas do modelo social, que busca reduzir as barreiras estruturais e promover a inclusão. No entanto, a menção ao "respeito" como elemento central sugere uma transição, um movimento rumo a uma perspectiva mais relacional e emancipatória (Foresti e Bousfield, 2022).

Ainda de acordo com Foresti e Bousfield (2022), as críticas aos modelos médico e social da deficiência, presentes na literatura e refletidas nas expressões dos estudantes, apontam para os limites de uma visão unidimensional. O modelo médico, por sua vez, tem sido alvo de críticas por sua abordagem patologizante, que reduz a pessoa à sua deficiência, reforçando estigmas e exclusões. Já o modelo social, embora tenha promovido avanços ao reconhecer as barreiras sociais, pode às vezes negligenciar as experiências individuais e as necessidades específicas de quem vive a deficiência. Assim, a menção ao respeito e à superação da visão patologizante indica uma busca por uma compreensão mais ampla, que integra aspectos sociais e subjetivos, promovendo uma perspectiva mais emancipatória e humanista. Essa integração é fundamental para avançar na construção de políticas públicas e práticas educativas mais inclusivas e sensíveis às diversidades.

Os achados deste estudo também permitem estabelecer implicações diretas para a organização curricular na formação inicial em Educação Física. A centralidade do termo “respeito”, associada a elementos como acessibilidade, adaptação e acolhimento, evidencia que os estudantes mobilizam predominantemente uma compreensão atitudinal da inclusão, ainda que, por vezes, limitada em sua dimensão pedagógica e crítica. Nesse sentido, torna-se necessário que os currículos de formação inicial avancem para além de abordagens pontuais ou restritas a disciplinas específicas, promovendo a integração transversal da inclusão ao longo do curso (Augusto et al., 2025). De modo complementar, destaca-se a necessidade de articular teoria e prática na formação docente, por meio de experiências concretas, como estágios e vivências em contextos inclusivos.

Ademais, no campo da Educação Física, Rodrigues e Rodrigues (2017) reforça que a formação deve contemplar estratégias pedagógicas que considerem as diferenças dos estudantes, superando a lógica da igualdade formal e avançando em direção à equidade. Assim, os resultados indicam a necessidade de um aprofundamento conceitual e prático nos currículos, de modo a formar professores capazes de planejar e implementar práticas pedagógicas inclusivas, sensíveis às singularidades dos alunos e comprometidas com a participação efetiva de todos.

As análises empregadas indicam o “respeito” como núcleo das representações sociais do grupo. No quadro de quatro quadrantes, ele aparece no centro da estrutura. Já na árvore de similitude surge como o termo mais conectado, especialmente a “acessibilidade” e “empatia”. Essa convergência reforça a consistência dos dados e indica que o respeito é o eixo que organiza a compreensão dos graduandos de Educação Física sobre a inclusão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo revela a importância de compreender as representações sociais de estudantes de Educação Física acerca da inclusão, especialmente no que tange à valorização do respeito como elemento central. Os principais achados indicam que esse conceito ocupa uma posição de destaque na construção do senso comum do grupo, sendo prontamente evocada e naturalmente relacionada a aspectos como acessibilidade, empatia e igualdade. Essa forte centralidade revela não apenas uma compreensão teórica sobre a inclusão, mas também uma expectativa de uma convivência pautada pelo reconhecimento e pela valorização das diferenças, aspectos essenciais para a promoção de ambientes mais inclusivos e humanos.

O estudo mostra que embora haja o entendimento acerca da necessidade de adaptação e suporte, persistem obstáculos atitudinais que dificultam a implementação de práticas inclusivas. Os dados sugerem que a formação inicial dos estudantes de Educação Física deve ir além do aspecto técnico, incorporando de forma mais efetiva a dimensão ética e atitudinal, reforçando valores de empatia, responsabilidade social e respeito às diversidades. Essas reflexões reforçam que a mudança das representações sociais é um passo fundamental para transformar a cultura escolar, promovendo a inclusão e contribuindo para uma sociedade mais igualitária.

A principal contribuição deste estudo reside em revelar que o “respeito” configura-se como Núcleo Central das representações sociais da inclusão para os futuros professores de Educação Física. Esse achado inova ao enfatizar a dimensão simbólica e relacional da inclusão, evidenciando que a formação docente não se constrói apenas por meio de conteúdos técnicos, mas também por valores que orientam atitudes e práticas pedagógicas. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre os processos formativos voltados à inclusão, ao aproximar a análise das representações sociais das discussões contemporâneas sobre ética, diversidade e justiça social.

Por fim, considera-se que os resultados deste estudo evidenciam a necessidade de esforços contínuos na formação e na sensibilização dos futuros profissionais de Educação Física, de modo a desconstruir representações sociais que reforçam a exclusão e construir conhecimentos alinhados aos princípios legais e éticos de inclusão. É possível afirmar, que, ao promover essa mudança cultural, é possível construir para uma sociedade mais justa, empática e igualitária, em que o respeito seja a base de todas as práticas educativas.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Não se aplica.

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Editado por

  • Editores(as) responsáveis:
    Editor-Chefe: Ari Lazzarotti Filho
    Editor executivo: Pedro Otavio Pimpim Bezerra
    Editora associada: Christiane Macedo
    Editor assistente: Eduardo Klein Carmona

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    18 Dez 2025
  • Aceito
    05 Mar 2026
  • Corrigido
    03 Jun 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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