Open-access Remodelamento costal estético em adultos: Revisão sistemática de eficácia e segurança

Resumo

Introdução  O remodelamento costal estético objetiva reduzir a circunferência da cintura e remodelar o arco costal, mas a evidência disponível permanece limitada.

Objetivo  Avaliar a eficácia, segurança e viabilidade técnica do remodelamento costal estético em adultos saudáveis.

Materiais e Métodos:  Revisão sistemática nas bases Public Medical Literature (PubMed)/Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Cochrane Library até 28 de abril de 2025. Dois revisores conduziram triagem independente. Onze estudos atenderam aos critérios de inclusão, contemplando rib-extension or Costari (RibXcar), ultrasound-assisted indentation surgery of the torso (UUAIST), rib osteosynthesis stabilization (RIBOSS), ultrasonic ostemodeling for body contouring (ORUS), waistline esthetic slimming by puncture (WASP) e abordagem paralela, fratura greenstick e ressecção de costelas flutuantes.

Resultados  A redução documentada da cintura variou entre 6 e 13 cm, sendo a maior magnitude associada à RIBOSS. As complicações registradas incluíram queimaduras cutâneas (n = 2), atelectasias (n = 2), pneumotórax (n = 2 intraoperatórios + 1 tardio), derrame pleural prolongado (n = 1 ), deiscência leve (n = 1 ) e assimetrias (n = 3).

Conclusão  As técnicas demonstram benefício estético de curto prazo; porém, a qualidade metodológica dos estudos é baixa e não há avaliação funcional em longo prazo, limitando conclusões sobre segurança, durabilidade e indicações ideais.

Palavras-chave
cirurgia plástica; cirurgia estética; cirurgia torácica; ressecção de costela; contorno corporal

Abstract

Introduction  Esthetic rib remodeling reduces waist circumference, but available evidence remains scarce.

Objective  To assess the efficacy, safety, and technical feasibility of esthetic rib remodeling in healthy adults.

Materials and Methods  Systematic review of Public Medical Literature (PubMed)/ Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), and Cochrane Library on April 28, 2025. Two reviewers independently selected the studies. Eleven clinical studies met the inclusion criteria, covering rib-extension or Costari (RibXcar), ultrasound-assisted indentation surgery of the torso (UUAIST), rib osteosynthesis stabilization (RIBOSS), ultrasonic ostemodeling for body contouring (ORUS), waistline esthetic slimming by puncture (WASP) and parallel approach, greenstick fracture, and floating-rib resection.

Results  Waist reduction ranged from 6 to 13 cm, being higher for RIBOSS. Reported complications included minor burns (n = 2), atelectasis (n = 2), pneumothorax (n = 2 [intraoperative] + 1 [delayed]), prolonged pleural effusion (n =1), mild dehiscence (n = 1), and contour asymmetries (n = 3).

Conclusion  Although these techniques provide short-term cosmetic benefit, the low methodological quality of the studies and absence of long-term functional outcomes prevent definitive conclusions regarding safety, durability, and ideal indications.

Keywords
plastic surgery; cosmetic surgery; thoracic surgery; rib resection; body contouring

Introdução

Nos últimos anos, o remodelamento costal tem emergido como uma abordagem inovadora dentro da cirurgia estética do contorno corporal, especialmente entre pacientes que buscam afilamento da cintura, maior definição torácica e harmonia da silhueta. Entre as técnicas descritas, destacamse a fratura monocortical guiada por imagem (ultrasound-assisted indentation surgery of the torso - UUAIST, em inglês), a osteotomia estabilizada com placas (rib osteosynthesis stabilization - RIBOSS, em inglês) e a ressecção seletiva das costelas flutuantes.1,2,3

Além da busca por aprimoramento estético, há um número crescente de pacientes que recorrem a essas intervenções com finalidades específicas, como a feminilização corporal ou o alinhamento do contorno torácico à identidade de gênero. Nesse contexto, técnicas de redução ou remodelamento costal têm sido utilizadas para reduzir a relação cintura-quadril (RCQ) e realçar características consideradas femininas.4 Apesar da crescente adoção clínica dessas técnicas, a literatura permanece limitada, composta majoritariamente por séries de casos e sem avaliação integrada de eficácia, segurança e impacto funcional em adultos saudáveis submetidos a procedimentos exclusivamente estéticos.2

Estudos recentes sugerem boa aceitação por pacientes e cirurgiões, com elevada satisfação estética e taxas reduzidas de eventos graves em curto prazo;1,2,3 porém, a heterogeneidade metodológica, a ausência de controle comparativo e a falta de padronização dos desfechos clínicos, funcionais e estéticos limitam a interpretação dos resultados disponíveis e dificultam a consolidação dessas técnicas como práticas baseadas em evidência.1 Aspectos como a qualidade de vida pós-operatória e a percepção subjetiva de melhora ainda são pouco abordados, embora existam escalas validadas (ex.: BODY-Q) recomendadas para mensurar desfechos psicossociais.5 Além disto, dados objetivos sobre impacto funcional, como parâmetros espirométricos em longo prazo, ainda são escassos.1

Esta revisão sistemática é a primeira, até onde identificamos, a sintetizar exclusivamente evidências referentes ao remodelamento costal com finalidade puramente estética em adultos saudáveis, comparando técnicas, apresentando faixas objetivas de redução (quando reportadas) e organizando complicações segundo incidência documentada. Diferentemente de revisões anteriores que incluíram populações heterogêneas ou contextos reconstrutivos, o presente estudo concentra-se apenas em procedimentos estéticos, permitindo uma avaliação mais precisa de eficácia e riscos. Nesse contexto, buscamos preencher uma lacuna crítica, oferecendo uma síntese sistematizada capaz de subsidiar decisões clínicas, orientar práticas cirúrgicas e apoiar o desenvolvimento de diretrizes futuras.

Materiais e Métodos

Trata-se de uma revisão sistemática da literatura desenvolvida em consonância com as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)6 e de acordo com as orientações do International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) para elaboração de manuscritos científicos.

A pergunta norteadora foi formulada com base na estratégia população, intervenção, comparação, desfechos (PICO):7 P (população): adultos sem doenças torácicas; I (intervenção): técnicas de remodelamento costal com finalidade estética; C (comparação): quando aplicável, ausência de intervenção ou comparação entre diferentes técnicas cirúrgicas; O (desfechos): redução da circunferência da cintura, RCQ, satisfação estética, complicações cirúrgicas e viabilidade técnica.

A busca sistematizada foi realizada nas bases Public Medical Literature (PubMed)/Medlars online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Cochrane Library, compreendendo publicações desde o início dos registros até 28 de abril de 2025, data da última busca, utilizando termos livres e descritores combinados por operadores booleanos, como: rib remodeling, esthetic rib resection, floating rib removal, waist reduction surgery, “rib contouring”, “body contouring surgery, greenstick fracture, rib osteotomy, rib reshaping e thoracic feminization. A estratégia completa de busca, com descritores e operadores booleanos utilizados em cada base, está detalhada no Material Suplementar 1.

Os critérios de inclusão foram: estudos que descrevessem procedimentos realizados exclusivamente para fins estéticos, sem finalidade reconstrutiva; população composta por indivíduos adultos (≥ 18 anos), independentemente de sexo ou identidade de gênero, sem histórico ou diagnóstico de doenças torácicas. Foram considerados elegíveis artigos que abordassem técnicas de remodelamento costal, incluindo fratura greenstick, osteotomia monocortical, piezotomia ou ressecção de costelas flutuantes, desde que com finalidade estética, com desenho de estudo do tipo ensaio clínico (randomizado ou não), coorte prospectiva ou retrospectiva, ou série de casos com ≥ 5 pacientes.

Foram incluídos artigos que relataram pelo menos um dos seguintes desfechos: redução da circunferência da cintura, alteração da RCQ, avaliação da simetria corporal, satisfação do paciente e taxa de complicações. Foram considerados apenas estudos publicados em inglês ou espanhol e disponíveis em texto completo. Os critérios de exclusão compreenderam: estudos com finalidade reconstrutiva; população inadequada (pacientes menores de 18 anos, com doenças torácicas, alterações pulmonares significativas ou submetidos à reconstrução torácica funcional); séries de casos com menos de cinco pacientes; artigos sem acesso ao texto completo ou disponíveis apenas como resumo.

A triagem foi conduzida por dois revisores independentes, em duas etapas: leitura de títulos e resumos e, posteriormente, leitura integral dos textos potencialmente elegíveis. Foi calculado o coeficiente de concordância interavaliadores Kappa de Cohen (Κ = 0,82), indicando concordância quase perfeita.

Os métodos de avaliação foram classificados como objetivos (por exemplo, mensuração de circunferência abdominal, razão cintura/quadril, imagens padronizadas) ou subjetivos (autorrelato, opinião do cirurgião, satisfação espontânea). Além disso, quando aplicável, foram identificadas e registradas ferramentas padronizadas de avaliação psicossocial em cirurgia estética, como o BODY-Q.

Cada estudo foi agrupado conforme a técnica descrita e os principais desfechos clínicos. Foi realizada uma análise qualitativa dos resultados, com os estudos classificados em três categorias: (a) positivos (+), quando demonstravam resultados consistentes de redução da cintura, baixa taxa de complicações e elevada satisfação estética; (b) neutros (0), quando os resultados eram inconclusivos, inconsistentes ou limitados por falhas metodológicas; e (c) negativos (-), quando os resultados não foram satisfatórios.

A avaliação da qualidade metodológica foi realizada de acordo com o delineamento de cada estudo. Estudos observacionais foram avaliados por meio da escala de Newcastle-Ottawa (Newcastl-Ottawa Scale, NOS, em inglês),8 e séries de casos seguiram critérios adaptativos de Murad et al.9

A síntese final dos achados foi realizada de forma narrativa, sem metanálise, em razão da heterogeneidade dos métodos, populações, intervenções cirúrgicas e instrumentos de avaliação. A triagem e seleção dos estudos é descrita de acordo com o modelo PRISMA, conforme ilustrado no fluxograma (►Fig. 1). Para assegurar transparência no rigor metodológico, a classificação da qualidade dos estudos incluídos segundo as ferramentas NOS e Murad encontrase organizada na ►Tabela 1.

Fig. 1
Fluxograma descritivo do processo de seleção dos estudos segundo as diretrizes da declaração Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).

Tabela 1
Qualidade metodológica (NOS/Murad)

Para a análise descritiva e síntese qualitativa, os dados extraídos dos estudos incluídos foram organizados nas ►Tabelas 2 3, que detalham as características dos estudos e a classificação de seus principais desfechos clínicos.

Tabela 2
Características clínicas, técnicas e desfechos dos estudos incluídos na revisão
Tabela 3
Síntese qualitativa da eficácia, segurança e viabilidade das técnicas de remodelamento costal estético

O protocolo desta revisão não foi registrado na plataforma International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO), uma vez que se trata de revisão sistemática de caráter descritivo, com síntese narrativa e sem metanálise pré-planejada, não se enquadrando nos critérios prioritários de registro.

Resultados

A busca sistemática resultou em um total de 163 artigos identificados nas 3 bases eletrônicas consultadas: PubMed/MEDLINE (109), LILACS (31) e Cochrane Library (23). Após a remoção de 16 duplicatas, restaram 147 registros únicos para triagem por título e resumo. Dentre esses, 122 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade. Assim, 25 artigos foram avaliados na íntegra, dos quais 14 foram excluídos por motivos diversos, como ausência de dados clínicos, amostra inferior a cinco pacientes ou exclusivo de técnicas reconstrutivas. Ao final do processo, 11 estudos preencheram os critérios de inclusão e compuseram a amostra final da presente revisão sistemática. A síntese dos estudos está apresentada na ►Tabela 2, e o fluxograma PRISMA encontra-se na ►Fig. 1.

A técnica RibXcar (fratura monocortical guiada por ultrassom - USG) foi avaliada em 3 estudos, com amostras de 30, 100 e 220 pacientes. No maior deles (n = 220), observou-se redução documentada entre 6 e 11 cm. Foram relatadas 2 queimaduras leves, e a satisfação estética foi alta em todos os estudos 10 a satisfação foi referida, porém não há escala numérica objetiva.10 Um estudo adicional avaliou o marcador intraoperatório clack e demonstrou que apenas a ultrassonografia confirmou a fratura monocortical (100% dos casos), reforçando a necessidade de imagem em tempo real.11

O estudo de maior amostra (n = 220) apresentou redução mensurável, porém a ausência de grupo controle e a possível associação com outros procedimentos limitam a interpretação isolada do efeito.12 Com proposta semelhante, a técnica de UUAIST, (n = 131), apresentou redução documentada de até 8 cm, com satisfação superior a 97% e registros de 3 assimetrias como eventos pós-operatórios.13

Entre as técnicas estruturais, destaca-se a RIBOSS (osteotomia com placas), com redução de até 13 cm (maior redução entre os estudos disponíveis). Foi relatado um caso de deiscência leve, porém não há relato de seguimento funcional para estimar impacto.14 Em uma série retrospectiva, UUAIST e RIBOSS foram realizados frequentemente em associação a high-definition liposculpture (HDL) e outras intervenções, impossibilitando mensurar o efeito isolado.15

Seguindo a linha de intervenções ultrassônicas, a técnica ORUS (n = 120) apresentou redução de medidas em proporções amplas entre o pré- e o pós-operatório, com duas atelectasia relatadas.16 A fratura greenstick com uso de colete (n = 93) relatou redução documentada em subgrupo de 14 pacientes e 1 caso de não consolidação, sem impacto funcional reportado.17 A ►Tabela 4 apresenta comparação direta de segurança entre técnicas, demonstrando variação na incidência de eventos: RibXcar (2 casos de queimadura), ORUS (2 atelectasias), UUAIST (3 assimetrias), RIBOSS (1 deiscência), WASP (1 pneumotórax + 1 derrame pleural), fratura greenstick (1 não consolidação).

Tabela 4
Complicações pós-operatórias

Dando continuidade à linha de cirurgias minimamente invasivas, a técnica WASP (n = 15) reduziu a lateralização do rebordo costal e foi associada a alta satisfação, sem complicações significativas. A técnica de ressecção completa (n = 104) relatou 2 pneumotórax intraoperatórios, sem mensuração objetiva de circunferência, o que limita avaliação de eficácia.18

Com o objetivo de reduzir a RCQ, uma série com 5 pacientes avaliou ressecção estética com redução média documentada de 7,7% na RCQ, porém o tamanho amostrai limita interpretação.19

Em síntese, as técnicas apresentaram reduções documentadas variando entre 6 e 13 cm, com maior magnitude reportada em RIBOSS; porém, a ausência de grupo controle, a heterogeneidade metodológica e a falta de avaliação funcional padronizada limitam conclusões definitivas.

Síntese Qualitativa dos Estudos Incluídos

A síntese comparativa evidencia maior redução em RIBOSS (até 13 cm) e menores reduções em técnicas minimamente invasivas (6-8 cm), enquanto o maior número de eventos respiratórios ocorreu em WASP (1 pneumotórax e 1 derrame pleural). A UUAIST apresentou o maior número de assimetrias (três casos). A maioria dos estudos relatou alta satisfação, porém poucos utilizaram instrumentos validados (ex.: Body-Q), e não houve avaliação objetiva funcional em longo prazo.

Classificação geral dos estudos

Dos 11 estudos avaliados, 9 (81,8%) foram classificados como positivos,10,11,12,13,14,15,16,17,20 demonstrando resultados em termos de segurança, viabilidade técnica e satisfação. Dois estudos (18,2%) foram classificados como neutros,18,19 e nenhum negativo, sugerindo um panorama inicialmente favorável para o remodelamento costal estético, embora limitado por fragilidades metodológicas

Segurança e satisfação dos pacientes

Todos os estudos positivos relataram alta segurança, sem registro de complicaçoes graves10,12,20 e apenas eventos leves, como deiscência leve (1 caso),14 atelectasia leve (2 casos)16 e seroma (1 caso).15 Um único caso de nño consolidação ocorreu na técnica com colete, sem impacto funcional.17 A satisfação dos pacientes foi alta em 100% dos estudos classificados como positivos.

Já entre os estudos classificados como neutros, dois pneumotóraces leves foram descritos18 associados à ressecção completa. Um estudo relatou alta satisfação com redução da RCQ.19

Viabilidade técnica e aparência estética

A maior parte dos estudos (n = 9) relatou alta viabilidade técnica, com técnicas descritas como seguras, reprodutíveis ou, fácil execução ou, minimamente invasivas.10,11,12,13,14,15,16,19,20 Houve uma exceção, que observou complexidade anatômica elevada na ressecção das costelas (11-12).18

Quanto à aparência estética, todos os estudos positivos relataram reduçoes objetivas da cintura ou, medidas clínicas e estéticas significativas. Nos estudos neutros, os resultados foram mais variáveis ou subjetivos.

Recuperação e métodos de avaliação

Nos estudos positivos, o tempo de recuperação foi curto e sem intercorrências.10,13,17,20 Dois outros estudos14,16 indicaram necessidade de acompanhamento mais prolongado devido à implantação de placas ou uso de ultrassom. Na ressecção completa, a melhora foi descrita visualmente em 40 dias, porém sem medidas objetivas.18 A maioria dos trabalhos (n = 6) utilizou avaliação objetiva (circunferência, imagem padronizada).10,11,12,13,14,15,16

Qualidade metodológica e lacunas

Sete estudos10,11,12,13,16,17 foram avaliados com alta qualidade metodológica, enquanto três14,15,20 foram avaliados como moderados e apenas um,18 foi parcial.

Entre as principais lacunas identificadas, destacam-se a ausência de grupo controle,10,15,16,17,20 o curto tempo de seguimento (na maioria dos estudos) e a ausência de avaliação funcional padronizada.

Os principais desfechos antropométricos de circunferência de cintura e RCQ dos 11 estudos estão sintetizados na ►Tabela 5. Quando disponíveis, foram extraídas as médias, medidas de dispersão (desvio padrão [DP] ou intervalo interquartílico [IIQ]) e faixas de redução; nos estudos que nao apresentaram dados numéricos, isso esta indicado como não relatado (NR).

Tabela 5
Resultados antropométricos (circunferência de cintura)

Discussão

A presente revisão demonstra que, embora o remodelamento costal estético tenha ganhado espaço como alternativa de definição corporal, a base científica disponível permanece limitada e metodologicamente frágil. Os estudos incluem desenho observacional, majoritariamente séries de casos, ausência de grupo-controle e com amostras pequenas, o que dificulta conclusões definitivas sobre eficácia e segurança em longo prazo (> 12 meses).1,2 A interpretação dos achados é dificultada também pela heterogeneidade entre técnicas– RibXcar, UUAIST, RIBOSS, ORUS, WASP, fratura greenstick e ressecção das costelas flutuantes–com resultados imediatos variáveis e desfechos não padronizados.1,2,21

A eficácia observada se concentra no curto prazo (≤ 6 meses). A redução documentada da circunferência abdominal varia de 6 a 13 cm, sendo a maior redução associada à técnica RIBOSS.21 A RCQ, quando avaliada, apresentou redução média de 7,7%, embora esse desfecho tenha sido mensurado apenas em um dos estudos.1 A ausência de avaliações funcionais objetivas–como espirometria, dor crônica, mobilidade torácica–constitui lacuna crítica, particularmente considerando que outros procedimentos envolvendo manipulação costal apresentam repercussões respiratórias mensuráveis, e que o remodelamento pode envolver osteotomia e ressecção.22,23,24,25

A segurança, embora aparentemente aceitável no curto prazo, baseia-se em dados fragmentados e de qualidade heterogênea. Os eventos adversos relatados incluem: 2 queimaduras com RibXcar; 3 assimetrias com UUAIST; 1 deiscência em RIBOSS; 2 atelectasias em ORUS; 1 pneumotórax e 1 derrame pleural com WASP; 0 complicações na série de fratura greenstick; e 2 pneumotórax intraoperatórios na técnica de ressecção costal 11-12.1,2,21 Em várias publicações, a informação sobre complicações é insuficiente ou ausente, impedindo cálculo de incidência real e comparação de risco-benefício. Com base nas informações extraídas dos estudos, a ►Tabela 6 resume os eventos adversos registrados para cada técnica.

Tabela 6
Complicações extraídas dos estudos incluídos

A ausência de mensuração psicossocial representa outra limitação importante. Embora existam instrumentos validados como o BODY-Q-capaz de mensurar satisfação, autoimagem e impacto na qualidade de vida–nenhum dos estudos incluídos aplicou escala psicométrica estruturada para avaliar benefício psicológico real em pacientes saudáveis submetidos a remodelamento costal estético.26 Assim, não é possível afirmar se os resultados estéticos percebidos correspondem a melhora emocional ou apenas à resposta a expectativas sociais.

No campo bioético, o remodelamento costal se encontra no grupo de procedimentos irreversíveis potencialmente realizados em indivíduos saudáveis. A literatura sobre ética em cirurgia estética alerta que a autonomia pode ser vulnerável, modulada por fatores socioculturais, especialmente em procedimentos que envolvem modificação corporal para atender a ideais estéticos.27,28,29 Ao mesmo tempo, não existem diretrizes formais–nem nacionais, nem internacionais– para regular indicações, técnica ou seguimento, gerando uma zona cinzenta que transfere ao cirurgião o ônus exclusivo do julgamento clínico e da proteção do paciente.27,28,29

Sob a perspectiva brasileira, a cirurgia plástica ocupa papel de protagonismo internacional, inclusive como destino para turismo médico.30 Entretanto, a ausência de normatização do procedimento por parte do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) abre espaço para sua realização fora de ambiente habilitado, o que pode ampliar risco de complicações e comprometer a reputação institucional da especialidade.31 Os textos sugerem, ainda, que o Brasil tem oportunidade estratégica para liderar a criação das primeiras diretrizes ético-técnicas globais para remodelamento costal estético, padronizando indicação, qualificação profissional e segurança perioperatória.30,31

Em síntese, o remodelamento costal demonstra benefício estético imediato, porém sustentado por evidência científica frágil, com ausência de seguimento funcional, inexistência de avaliação psicossocial, pouca padronização de técnica e lacuna regulatória integral. O avanço do campo depende da realização de estudos prospectivos, avaliação objetiva funcional, uso de instrumentos psicométricos, construção de registro multicêntrico e definição ética e normativa–idealmente lideradas pela cirurgia plástica brasileira.

Conclusão

As técnicas de remodelamento costal estético disponíveis demonstram resultados satisfatórios em curto prazo, com redução objetiva da circunferência e alta satisfação dos pacientes; contudo, a ausência de estudos controlados, de avaliação funcional padronizada e de seguimento prolongado impede conclusões definitivas sobre segurança, durabilidade e indicações ideais do procedimento.

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Disponibilidade dos Dados

Os dados serão disponibilizados mediante solicitação à autora correspondente.

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Editado por

  • Editor-chefe:
    Dov Charles Goldenberg.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Ago 2025
  • Aceito
    13 Jan 2026
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