Open-access Plano Real e o debate de ideias: das disputas ideacionais à centralização da autoridade monetária no Brasil

“Plano Real” and the Debate of Ideas: From Ideational Disputes to the Centralization of Monetary Authority in Brazil

Resumo

Resumo: Este artigo investiga como ideias econômicas moldaram o processo de estabilização no Brasil entre as décadas de 1980 e 1990, culminando no Plano Real e na centralização da autoridade monetária no Banco Central. Argumentamos que as ideias formuladas por economistas da PUC-Rio foram decisivas não apenas como justificativas ex post, mas como recursos centrais de ação política em um contexto de elevada incerteza. Reconstruímos, com base em fontes primárias (artigos acadêmicos, entrevistas e declarações públicas), a trajetória dos diagnósticos sobre a inflação e dos planos de estabilização, desde os primeiros modelos de conflito distributivo e indexação até a formulação de reformas institucionais nos anos 1990. Mostramos que tais ideias operaram como plantas institucionais, ao fornecerem mapas causais sobre a inflação e suas possíveis terapias; como armas discursivas, ao legitimarem diagnósticos e disputas de agenda no espaço público por economistas e atores políticos; e como travas cognitivas, ao delimitarem as alternativas concebíveis de política econômica após a estabilização. O caso brasileiro evidencia, de forma exemplar, como ideias importam para estruturar interpretações da crise, orientar escolhas políticas e contribuir para a consolidação de arranjos institucionais duradouros.

Palavras-chave
ideias econômicas; mudança institucional; política monetária; Plano Real; Banco Central


Abstract

Abstract: This article investigates how economic ideas shaped the stabilization process in Brazil between the 1980s and 1990s, culminating in the “Real Plan” (Plano Real) and the centralization of monetary authority in the Central Bank. We argue that the ideas formulated by PUC-Rio economists were decisive not merely as ex post justifications, but as central resources for political action in a context of heightened uncertainty. Drawing on primary sources (academic articles, interviews, and public statements), we reconstruct the trajectory of inflation diagnoses and stabilization plans, from the early models of distributive conflict and indexation to the formulation of institutional reforms in the 1990s. We show that these ideas operated as institutional blueprints, by providing causal maps about inflation and its possible remedies; as discursive weapons, by legitimizing diagnoses and agenda disputes in the public sphere by economists and political actors; and as cognitive locks, by delimiting the conceivable alternatives for economic policy after stabilization. The Brazilian case exemplifies how ideas matter in structuring interpretations of crisis, guiding political choices, and contributing to the consolidation of enduring institutional arrangements.

Keywords
economic ideas; institutional change; monetary policy; Plano Real ; Central Bank


1. Introdução

Após décadas convivendo com inflação elevada e uma sucessão de planos de estabilização que não foram capazes de controlar o nível dos preços de maneira duradoura, o Brasil adota oficialmente, entre 1993 e 1994, um plano que resulta em uma queda persistente da inflação. Frequentemente celebrado como produto de uma formulação técnica sofisticada por economistas com diagnóstico acertado sobre as causas da inflação brasileira, é possível interpretar o fim da inflação crônica no Brasil, alternativamente, como o ponto culminante de um longo processo de maturação ideacional e de uma engenharia institucional reformista em um processo no qual ideias econômicas desempenharam papel central na redefinição do arranjo institucional da política monetária.

Este trabalho analisa a mudança na condução da política econômica brasileira a partir dos anos 1980, tomando os debates de ideias econômicas como momentos de contestação política e disputa institucional entre economistas de distintas orientações teóricas. Em perspectiva neoinstitucionalista, buscamos mostrar como essas ideias estruturaram propostas de reforma e planos de estabilização que culminaram, nos anos 1990, na redefinição do modelo macroeconômico brasileiro. Argumentamos que essas reformas, impulsionadas por novos atores emergentes na redemocratização (1979-1988), alteraram a forma de pensar e fazer política econômica no país - transformação visível na consolidação de um novo arcabouço institucional, cuja principal expressão é a centralização da autoridade monetária no Banco Central.

O escopo deste artigo se restringe às ideias econômicas sobre a natureza inercial da inflação brasileira nas décadas de 1980 e 1990, formuladas pelos economistas da PUC-Rio,1 em especial Persio Arida, André Lara-Resende, Francisco Lopes e Edmar Bacha. A escolha dos autores se justifica porque, além de formularem os diagnósticos que culminaram nos planos bem sucedidos em reduzir o patamar inflacionário, todos eles participaram ativamente do debate público e estiveram envolvidos em múltiplos esforços de estabilização ao longo do período.

Inspirando-nos em Blyth (2001, 2002), analisamos como essas ideias específicas - uma combinação original entre diagnósticos sobre a indexação da economia brasileira, propostas de criação de uma moeda paralela e prescrições de centralização da autoridade monetária - funcionaram sucessivamente como plantas institucionais (oferecendo mapas causais em contexto de incerteza), armas discursivas (legitimando posições na disputa política) e travas cognitivas (delimitando o horizonte de possibilidades pós-estabilização). Não se trata de uma história das reformas econômicas, mas, antes, de uma análise do papel estruturante de um determinado conjunto de ideias em um processo de mudança institucional.

Considerando a dimensão ideacional como central para processos de policy change, adotamos uma posição intermediária, ou seja, não tratamos ideias como causas únicas, nem as reduzimos a justificativas ex post de políticas já implementadas. Seguimos a ênfase de Peter Hall (1993) nas políticas knowledge-intensive, em que conhecimento especializado e produtos intelectuais têm papel constitutivo, como ocorre na política macroeconômica e monetária. Metodologicamente, analisamos diretamente esses produtos intelectuais (artigos, working papers, entrevistas e declarações públicas) evitando inferir o papel das ideias apenas a partir das políticas efetivamente adotadas.

Para organizar a exposição, a próxima seção apresenta o arcabouço teórico sobre o papel das ideias em processos de mudança de políticas públicas, com ênfase nas ideias econômicas. A terceira seção revisita o Plano Real, oferecendo uma breve reconstrução histórica e discutindo interpretações correntes, destacando seus limites para uma abordagem ideacional. A quarta seção explicita a estratégia metodológica, detalhando os critérios de seleção do material e os procedimentos analíticos adotados. A quinta seção constitui o núcleo empírico: reconstituímos a trajetória ideacional dos economistas da PUC-Rio e analisamos como suas formulações operaram, ao longo do tempo, como plantas institucionais, armas discursivas e travas cognitivas. Por fim, sintetizamos os argumentos, discutimos limitações e apontamos os desdobramentos para pesquisas futuras.

2. Ideias e policy change

O argumento de que “ideias importam” para a elaboração de políticas é suficientemente consolidado na literatura, muitas vezes acompanhado da questão subsequente de como e em que medida elas são importantes (Berman, 2013; Béland, 2009; Blyth, 2001). Desde a formulação do modelo de paradigma de políticas (Hall, 1993), sucessivos estudos avançaram em direção a abordagens ideacionais mais robustas, ampliando o repertório conceitual e metodológico dessa agenda (Daigneault, 2014; Berman, 2013). Parte relevante dessa literatura buscou qualificar limitações do arcabouço original, sobretudo a concepção monolítica de ideias e sua internalização passiva pelos agentes, o que obscurecia a agência e dificultava reconstruir a atuação estratégica em disputas ideacionais (Baumgartner, 2013; Berman, 2013; Schmidt, 2008). Os desenvolvimentos posteriores enfatizaram a dimensão política das ideias, concebendo-as como recursos mobilizados por atores, seja como “armas discursivas” (Blyth, 2001, 2002), seja como dispositivos (Henriksen, 2013) ou, ainda, como artifícios para consolidar coalizões mais amplas entre atores (Béland e Cox, 2016).

A dificuldade persistente das teorias institucionalistas está em explicar por que atores em posições estruturais semelhantes seguem trajetórias institucionais divergentes. Os modelos de mudança gradual de Mahoney e Thelen (2010) deslocaram o foco das rupturas críticas para processos incrementais em que atores reinterpretam regras existentes e mobilizam recursos para transformá-las por dentro. Contudo, esses modelos ainda carecem de uma chave explicativa capaz de mostrar como atores constroem interpretações alternativas da conjuntura e por que certos diagnósticos ganham tração política enquanto outros fracassam. Como demonstra Berman (1998), crenças distintas, mesmo sob constrangimentos equivalentes, moldam a definição de interesses, a formação de coalizões e os outcomes possíveis, evidenciando o peso das ideias em processos de mudança institucional.

A literatura sobre o impacto causal das ideias, amplamente consolidada no debate internacional desde os anos 1990, teve recepção lenta e heterogênea no Brasil. Perissinotto e Stumm (2017) produziram a primeira sistematização dessa agenda no país, reconstruindo o percurso da chamada virada ideacional e explicitando seus ganhos teóricos frente aos limites identificados nos principais institucionalismos (histórico, escolha racional e sociológico). O ensaio demonstra como o institucionalismo discursivo ampliou a capacidade explicativa das abordagens neoinstitucionalistas, ao conferir às ideias autonomia analítica e especificar condições sob as quais elas produzem efeitos causais.

No caso do Plano Real e da estabilização monetária no Brasil, sustentamos que, compartimentando o processo de mudança institucional em termos de design, contestação e reforço institucionais, seguindo Blyth (2001, 2002) em seu modelo tributário da leitura institucionalista de Hall, é possível desenvolver uma primeira esfera de interação, que se manifesta no papel de ideias como plantas institucionais, armas discursivas e travas cognitivas.

O modelo prevê que, diante da incerteza inerente a processos de mudança institucional, como a produzida pela redemocratização e pela crise inflacionária, a identificação de interesses pelos agentes econômicos deixa de ser imediata, pois os atores enfrentam imprevisibilidade quanto à relação entre estratégias e resultados. Nesses contextos, interesses passam a ser derivados das causas que as próprias ideias apontam como responsáveis pela incerteza: elas funcionam como mapas causais, ou plantas institucionais, que dão conteúdo às alternativas relevantes de policy e tornam possível a construção de novos arranjos distributivos (Blyth, 2001). Em sentido próximo, ideias operam como armas discursivas quando são mobilizadas por atores para criticar arranjos existentes e defender reformas institucionais. Uma vez consolidadas, podem ainda projetar-se como novo mainstream, produzindo resultados duradouros que ultrapassam as intenções originais de seus formuladores. Esse enraizamento institucional explica a trajetória de path dependence assumida pelas instituições reformadas, seja sob a forma de travas cognitivas (Blyth, 2001), seja simplesmente como promotoras de estabilidade e coordenação entre agentes (Blyth, 2002).

A centralização da autoridade monetária no Brasil, refletida nas sucessivas etapas de consolidação do novo arranjo de política econômica pós-Real com uma sequência de leis, criação de instrumentos de política e definição de atribuições, já está devidamente mapeada na literatura. Resta ainda explorar o processo de debate ideacional subjacente a essas reformas, com particular atenção às suas raízes no processo de redemocratização. Leituras restritas ao artifício político de atores individuais ou à expertise acadêmica de determinados grupos de técnicos se provam largamente insuficientes em explicar não o sucesso do Real em produzir a estabilização monetária no Brasil - mérito já devidamente atribuído -, mas quais os determinantes responsáveis por aquilo que distintamente emergiu da estabilização: o arcabouço de política econômica que ainda prevalece no Estado brasileiro, o chamado “tripé macroeconômico”, e o consenso político que o sustenta.

3. O que mudou e como tem sido interpretado: diagnósticos correntes, avanços e lacunas

O Plano Real consistiu em um conjunto articulado de medidas destinado a derrotar a inflação crônica e a reorganizar o regime monetário brasileiro. Pré-anunciado em dezembro de 1993, seria implementado em três etapas. A primeira envolveu o reequilíbrio fiscal imediato, obtido pela Emenda Constitucional de Revisão nº 1/1994 (Brasil, 1994a), convertida no Fundo Social de Emergência (FSE), que recentralizou cerca de 3% do PIB em receitas. O ajuste era indispensável para evitar o “efeito Oliveira-Tanzi às avessas”, que eliminaria o ganho fiscal da inflação, exigindo um ajuste estrutural (Bacha, 2003). A segunda etapa consistiu na introdução da Unidade Real de Valor (URV), unidade de conta estável indexada ao dólar. A terceira, em julho de 1994, converteu a URV em moeda circulante, sustentada por uma âncora cambial até 1999.

A estabilidade duradoura do Real, em contraste com os sucessivos fracassos de planos anteriores, costuma ser explicada por uma combinação de fatores econômicos: acúmulo de reservas internacionais na primeira metade dos anos 1990; entrada de capitais; condições favoráveis à adoção de uma âncora cambial; e, posteriormente, a transição para o regime de metas de inflação, câmbio flutuante e metas fiscais. Essa leitura, embora essencial, é insuficiente para explicar a emergência e consolidação de um novo regime macroeconômico (Sola e Kugelmas, 2006).

Sob esse prisma político-institucional, o Plano Real inaugurou um processo de centralização da autoridade monetária, associado à criação e ao fortalecimento de novos instrumentos de política econômica e à redefinição das relações entre o Banco Central, o Executivo e o Congresso Nacional. O Banco Central deixou de atuar como executor técnico subordinado à Fazenda e tornou-se ator político central, cuja autoridade passou a derivar não apenas de competências formais, mas da legitimidade produzida pela própria estabilização (Sola, Garman e Marques, 1998). Esse movimento foi acompanhado por reformas institucionais (o fim da conta-movimento,2 saneamento dos bancos estaduais, criação do COPOM,3 reforma do Conselho Monetário Nacional, entre outras) que centralizaram os instrumentos de política monetária e reduziram a dispersão decisória característica do período anterior. O Plano Real configura, assim, uma critical juncture na trajetória institucional do Banco Central, marcada por forte alinhamento entre Executivo e autoridade monetária e elevado apoio político e social à estabilização (Albuquerque e Perissinotto, 2024; Taylor, 2009).

A literatura sobre o Plano Real produziu interpretações variadas sobre as condições de seu sucesso. Economistas envolvidos na formulação enfatizaram a superioridade técnica do diagnóstico inercialista e a engenharia institucional do plano, marcada por um sequenciamento virtuoso entre ajuste fiscal, reforma monetária e desindexação (Bacha, 2003). Cientistas políticos e sociólogos, por sua vez, destacaram o papel das coalizões sociais nas reformas (Kingstone, 1999), a construção de apoio parlamentar e a gestão política da incerteza por lideranças políticas (Sola e Kugelmas, 2006), bem como o papel das elites técnicas na formulação e implementação do plano no interior do Ministério da Fazenda (Loureiro e Abrucio, 1999).

Complementarmente, uma agenda de pesquisa sobre o Banco Central tem reconstruído sua trajetória institucional sob diferentes perspectivas. Parte dos trabalhos enfatiza o insulamento burocrático e os riscos de déficit de accountability democrática (Loureiro e Abrucio, 2004). Outra vertente destaca o papel do Estado nas reformas econômicas, situando o Banco Central em um processo mais amplo de reorganização estatal liderado pelo Executivo (Sola, Kugelmas e Whitehead, 2002; Sola, Garman e Marques, 1998). Mais recentemente, estudos têm analisado sua evolução institucional sob a ótica da mudança gradual e endógena (Taylor, 2009) e da dependência de trajetória desencadeada pelo Plano Real enquanto conjuntura crítica (Albuquerque e Perissinotto, 2024), bem como examinado perfis e trajetórias de diretores e presidentes por meio de abordagens prosopográficas (Codato e Albuquerque, 2023; Perissinotto et al., 2017; Loureiro, 1997). Uma dimensão ainda pouco explorada diz respeito ao processo ideacional subjacente à construção das instituições monetárias brasileiras. Exceções recentes começam a preencher essa lacuna, seja ao examinar a presença de orientações ideológicas distintas entre os integrantes do Conselho Monetário Nacional (Albuquerque, 2023), seja ao mapear a circulação de ideias entre formuladores da política monetária e think tanks (Albuquerque e Alves, 2023).

As interpretações existentes explicam com competência o timing político, os arranjos institucionais e as condições macroeconômicas que viabilizaram o Plano Real e a subsequente centralização da política monetária. Falta, contudo, incorporar ferramentas analíticas da literatura internacional sobre o institucionalismo discursivo, capazes de reconstruir como ideias econômicas específicas foram produzidas, legitimadas, apropriadas por atores políticos e consolidadas como referência dominante. Compreender a emergência e estabilização do arranjo macroeconômico pós-Real (metas de inflação, superávit primário, câmbio flutuante e centralização da autoridade monetária) exige reconstituir não apenas coalizões e constrangimentos estruturais, mas também os mecanismos pelos quais diagnósticos sobre inflação inercial estruturaram interesses, delimitaram alternativas concebíveis e legitimaram reformas institucionais profundas.

Para preencher essa lacuna, reconstruímos sistematicamente o processo ideacional que precedeu a estabilização, mostrando como as ideias sobre inflação inercial operaram como plantas institucionais, armas discursivas e travas cognitivas, mobilizando o modelo de Blyth (2001, 2002). Sustentamos que compreender a centralização da autoridade monetária no Brasil exige situar as reformas na interseção entre constrangimentos estruturais e controvérsias ideacionais - dimensão ainda pouco explorada. A singularidade do Plano Real evidencia essa articulação: um conjunto de propostas não convencionais, formulado sem apoio externo ou paralelos comparáveis, que produziu um legado institucional próprio consolidado nas décadas seguintes. Reconstruir como esses diagnósticos foram produzidos, disputados e apropriados ao longo de quase duas décadas ilumina tanto a mudança de policy quanto a consolidação de um arranjo institucional que ainda molda os limites da política econômica brasileira.

4. Estratégia metodológica e desenho de pesquisa

Como observam Perissinotto e Stumm (2017), estudos que atribuem centralidade explicativa às ideias enfrentam desafios metodológicos específicos, visto que é preciso demonstrar que elas operam como variáveis substantivas e explicitar os mecanismos pelos quais influenciam decisões políticas. Para enfrentar esses desafios, a pesquisa combina dois procedimentos complementares: a descrição sistemática do conteúdo das ideias e a análise de congruência entre formulações teóricas e o desenho institucional efetivamente adotado.

A descrição sistemática busca identificar com precisão o conteúdo ideacional dos textos produzidos pelos economistas da PUC-Rio entre 1979 e 1993, mapeando como formularam diagnósticos sobre as causas da inflação, prescreveram instrumentos de política econômica e justificaram teoricamente suas propostas. Seguindo Béland (2005), o primeiro passo de uma análise ideacional consiste em demonstrar que há formulações distintas em disputa e que essas diferenças têm efeitos concretos no desenho de políticas públicas. No nosso caso, isso significa caracterizar o núcleo das propostas da PUC-Rio em contraste com as alternativas presentes no debate brasileiro.

A análise de congruência busca identificar a correspondência entre as formulações acadêmicas dos anos 1980 e a arquitetura institucional do Plano Real. Operando de forma dedutiva, o método fortalece a inferência causal ao mostrar que decisões políticas concretas refletiram ideias previamente articuladas pelos mesmos atores, especialmente quando essa correspondência se estende no tempo (Perissinotto e Stumm, 2017; George, 1979). A estratégia de seleção e seu escopo se justificam, assim, pelo papel desempenhado pelos autores na elaboração teórica do plano e em sua sedimentação institucional, ao lado de policymakers de trajetórias acadêmicas e políticas semelhantes.

O corpus principal da pesquisa consiste em 52 artigos produzidos por economistas da PUC-Rio entre 1979 e 1993. Sua construção seguiu dois procedimentos complementares. Primeiro, a coleta sistemática de todos os textos publicados na série Textos para Discussão da PUC-Rio4 pelos autores centrais desta investigação: Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha. Em seguida, a complementação desse material por meio de triangulação, localizando textos ausentes do acervo institucional, mas referenciados pela literatura primária ou secundária mediante buscas por autoria no Google Scholar. Os 52 textos foram codificados em uma planilha analítica contendo informações sobre ano, autoria, tipo de publicação, idioma, escopo do diálogo (nacional ou internacional), presença de modelagem formal, tipo de intervenção (diagnóstico, proposta ou crítica), natureza da proposta, conteúdo substantivo, alvos de crítica e circulação externa. Essa codificação permitiu identificar a evolução das formulações intelectuais, do foco do diálogo acadêmico e do padrão de intervenção dos autores ao longo do tempo.5

Esse material foi complementado por evidências secundárias. As evidências incluem: i) entrevistas e depoimentos publicados dos formuladores-chave, especialmente Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha e Fernando Henrique Cardoso; ii) documentos oficiais do período de implementação do Plano Real, incluindo exposições de motivos, medidas provisórias e pronunciamentos públicos; e iii) literatura secundária consolidada sobre a história econômica e política do período, que contextualiza o ambiente institucional e político em que as ideias circularam. Essa triangulação de fontes permite reconstituir não apenas o conteúdo das formulações acadêmicas, mas também os mecanismos de sua difusão e apropriação por atores políticos.6

O objetivo da pesquisa é refinar a compreensão do papel das ideias econômicas na mudança institucional associada à estabilização do Plano Real, em contraste com explicações estritamente institucionais. Ideias nunca atuam isoladamente, mas em interação com variáveis contextuais (Perissinotto e Stumm, 2017; George, 1979). Assim, não buscamos estabelecer nexos causais que ignorem interesses materiais ou constrangimentos institucionais, mas mostrar em que medida as formulações acadêmicas dos anos 1980 influenciaram o desenho da estabilização dos anos 1990 e contribuíram para o paradigma de política subsequente.

5. Ideias como plantas institucionais e armas discursivas: trajetórias de legitimação e projeção política

5.1. Construção de autoridade e delimitação de campo: economistas da PUC-Rio e o debate sobre inflação inercial

Na virada dos anos 1980, economistas da PUC-Rio mobilizaram um diagnóstico próprio para a crise econômica brasileira, contestando interpretações hegemônicas, projetando-se academicamente por meio de legitimação técnica internacional e criticando tanto os arranjos de política econômica do regime militar quanto as alternativas então propostas. Essa estratégia de legitimação científica sustentou suas intervenções posteriores no debate público e na formulação de políticas, no que Schmidt (2008) denomina como discurso coordenativo, ou seja, aquele que ocorre no interior do processo de formulação da policy, entre especialistas e atores diretamente envolvidos.

Para sistematizar a trajetória analisada, o Quadro 1 cruza a evolução das ideias com a conjuntura política e econômica. Observamos uma evolução em quatro momentos: a fase de diagnósticos e primeiras propostas (1979-1983); a maturação das plantas institucionais (1984-1985); o período pós-Cruzado (1986-1992), marcado pelo aprendizado institucional que viabilizou a síntese do Plano Real; e o período de desenho e implementação do Plano Real (1993-1994).

Quadro 1
Trajetória das Ideias: Conjuntura, Diagnósticos e Instrumentos

Entre 1979 e 1983, Persio Arida, André Lara-Resende e Edmar Bacha publicaram 15 textos sobre inflação, estabilização e temas correlatos de macroeconomia e economia internacional, dos quais nove dialogavam explicitamente com a literatura internacional e oito empregavam modelagem matemática formal. A estratégia era demonstrar inadequações do receituário ortodoxo no país utilizando seu próprio instrumental - formalização matemática, testes econométricos - em diálogo permanente com a literatura internacional.7

Lopes e Lara-Resende (1979) exemplificam essa estratégia ao reestimarem as equações da Curva de Phillips calculadas por Lemgruber (1973) e Contador (1977). Incorporando dimensões omitidas por outros estudos, demonstraram que “a inclusão de variáveis que captam os efeitos dos choques e da política salarial na equação de preços industriais faz desaparecer o trade-off entre inflação e hiato de produto” ( Lopes eLara-Resende, 1979, p. 6). A implicação era direta: o trade-off era mobilizado para “justificar a necessidade de políticas recessivas para a obtenção de sucessos no combate à atual inflação brasileira” (p. 6).

Bacha (1982) contrapunha dois diagnósticos sobre a inflação brasileira: para a ortodoxia neoclássica, inflação e déficits em conta corrente eram sintomas de excesso de demanda, enquanto para a heterodoxia, a “inflação brasileira era predominantemente inercial (…) e flutua principalmente conforme a direção e [a] intensidade dos choques de oferta experimentados pela economia” (Bacha, 1982, p. 12).8 As críticas não eram meramente negativas e, aos poucos, passaram a conter elementos propositivos sobre políticas econômicas alternativas que o país poderia adotar. Arida (1982) advoga por um ajuste estrutural da economia para lidar com a crise de balanço de pagamento enfrentada pelo país à época: “as políticas de austeridade realizam o ajustamento da economia diante da restrição externa reduzindo o nível de atividade sem alterar a estrutura; a heterodoxia altera a estrutura para poder responder à restrição externa aumentando o nível de atividade” (Arida, 1982, p. 12).

Simultaneamente à crítica da ortodoxia, os textos estabeleciam afinidade seletiva com o estruturalismo cepalino. Lara-Resende e Bacha adotavam vocabulário explicitamente estruturalista ao afirmar que “o conflito distributivo é entendido como causa motora da inflação” (Lara-Resende, 1979, p. 1) e que “a ideia básica é que a inflação reflete o conflito entre capitalistas e trabalhadores na disputa do produto social” (Bacha, 1979, p. 1). Essa proximidade inicial manifestava-se nas primeiras propostas - pouco sistemáticas - de estabilização. Bacha e Lopes (1979) ofereciam “apoio qualificado” à “prescrição política favorita dos empresários para acabar com a inflação: aumentar a produção” (Bacha e Lopes, 1979, p. 17).9 Arida (1982), por sua vez, criticava a “política oficial” propondo medidas que incluíam a diminuição do diferencial entre juros interno e internacional, racionalização do investimento público, controles de preços, desvalorização cambial, “estimular a demanda efetiva” e aumentar imposto de renda “de modo socialmente justo” (Arida, 1982, p. 9-10).

A projeção dessas ideias em políticas implementadas dependeu de sua dimensão propositiva e reformista: a tradução de diagnósticos sobre inflação inercial em efetivos planos de estabilização com engenharia institucional operacionalizável. Essa mudança de ênfase na produção intelectual é clara: dos 13 textos publicados até 1982, apenas um continha propostas explícitas; entre 1983 e 1985, cinco dos 19 textos já apresentavam planos de estabilização detalhados.

Persio Arida esboçou a proposta da moeda indexada que inspiraria o Plano Real no artigo “Neutralizar a inflação, uma ideia promissora”, ganhando visibilidade em setembro de 1984 com o artigo de Lara-Resende na Gazeta Mercantil, “A Moeda Indexada: uma proposta para eliminar a inflação inercial”, como aponta Bresser-Pereira (2010). A partir daí, os economistas passaram a demarcar o campo de alternativas de estabilização. Lara-Resende (1984b) identificou três propostas principais: choque ortodoxo, descartado como “politicamente inviável”; gradualismo ortodoxo, rechaçado pela ineficácia; e choque heterodoxo, proposta por Francisco Lopes, ao qual a moeda indexada, embora compartilhasse o diagnóstico inercialista, distinguia-se ao propor reforma monetária sem congelamentos. O Quadro 2 sintetiza essas alternativas.

Quadro 2
Alternativas de estabilização: diagnósticos, instrumentos e críticas

A proposta da moeda indexada previa uma sequência operacional clara: i) criação de uma nova moeda indexada à ORTN como unidade de conta, mantendo o cruzeiro como meio de pagamento; ii) tabelas diárias de conversão entre as duas moedas; iii) conversão automática de contratos, preservando posições relativas; iv) transição gradual e voluntária dos agentes; e v) eliminação do cruzeiro após adesão generalizada (Lara-Resende, 1984b). Ao detalhar mecanismos de conversão, timing e coordenação de expectativas, os economistas ofereciam um roteiro operacionalizável que reduzia a incerteza dos atores sobre a viabilidade da reforma, condição que Blyth (2001) identifica como necessária para que ideias deixem de ser apenas recursos retóricos e se convertam em plantas institucionais.

Essa engenharia institucional idiossincrática distanciava a proposta da PUC-Rio das pressões e referências internacionais predominantes à época. Em contraste com soluções então debatidas no cenário global, sobretudo o receituário recessivo do FMI (Williamson, 1989), a moeda indexada expressava um diagnóstico doméstico específico sobre a natureza da inflação brasileira. A opção por uma reforma monetária ancorada na convivência temporária de duas moedas resultava menos de alinhamento a modelos externos e mais da formulação de um caminho próprio, derivado da leitura inercialista produzida pelos economistas da PUC-Rio ao longo dos anos 1980.

Reagindo às críticas, Lara-Resende (1984a) agrupou-as em três posições: os “monetaristas radicais”; os “monetaristas ilustrados”, com quem concordava quanto à necessidade de disciplina fiscal e autonomia do Banco Central; e os defensores do “conflito distributivo”. Citando Hirschman (1981), argumentava que ambos os extremos se equivocavam ao vincular a inflação a amplas transformações sociopolíticas: a moeda indexada tratava o problema como questão técnico-institucional solucionável por reforma monetária. Arida (1984) acrescentava que a viabilidade da proposta exigia mudanças institucionais que centralizassem a autoridade sobre a política monetária e a protegessem de pressões conjunturais - núcleo informativo das reformas que seriam implementadas na década seguinte.

Entre 1984 e 1985, o plano circulou intensamente em múltiplas arenas. Arida e Lara-Resende (1985, p. 18)10 alertavam, em seminários nos Estados Unidos, contra “a postura imobilista que domina debates de política no Brasil”. Embora a “inflação aparentemente estável em 230%” (p. 18) parecesse tolerável, “processos de inflação inercial são muito sensíveis a choques adversos de oferta” (p. 18), levando à projeção de que “aqueles que ainda veem com suspeita a reforma monetária a 200% serão forçados a apoiá-la quando a inflação chegar a 2000%” (p. 18).

A trajetória analisada demonstra como os economistas da PUC-Rio produziram ideias que ofereciam potencial simultâneo de armas discursivas e plantas institucionais. Construíram legitimidade científica internacional, delimitaram campos de disputa e especificaram engenharia institucional detalhada que reduzia incerteza sobre viabilidade prática de reformas. Essas ideias, contudo, teriam permanecido como recursos intelectuais sem efetividade causal caso não fossem apropriadas e mobilizadas por atores com capacidade decisória. Como pontuam Béland e Cox (2016), uma condição necessária para que ideias funcionem como coalition magnets é seu endosso por atores-chave no processo político. A entrada de FHC no Ministério da Fazenda e o apoio da cúpula tucana ao plano cumpriram precisamente essa função, transformando diagnósticos acadêmicos em orientação de governo.

5.2. Apropriação política e tradução institucional das ideias

A projeção das formulações inercialistas às arenas decisórias não foi resultado automático de sua circulação acadêmica, mas de mecanismos concretos de mobilização, credenciamento e apropriação política dessas ideias. Como argumenta Pio (2001), a ascensão dos economistas da PUC-Rio ao núcleo decisório dos governos Sarney e, mais tarde, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, decorreu da combinação entre reconhecimento técnico e vínculos político-partidários.

O Plano Cruzado representou o primeiro momento em que diagnósticos inercialistas foram mobilizados de forma sistemática no interior do governo. Embora o desenho final tenha seguido de perto o choque heterodoxo formulado por Francisco Lopes, e não a engenharia monetária do Plano Larida,11 a justificativa pública do programa já refletia elementos centrais da leitura inercialista: Dilson Funaro, Ministro da Fazenda, afirmava que a inflação brasileira “extraía forças do seu próprio movimento” e precisava ser enfrentada sem recorrer a políticas de “crueldade social”, insistindo na compatibilização entre estabilização e crescimento (Plano de Estabilização Econômica, 1986).

A experiência do Cruzado gerou aprendizagens institucionais decisivas que redefiniram como os economistas da PUC-Rio avaliariam a viabilidade da estabilização, destacando a ausência das condições fiscais, monetárias e institucionais necessárias para derrubar a inflação (Sola e Kugelmas, 2006). A produção intelectual do período reforça essa leitura: embora continuassem ativos - com destaque para Edmar Bacha e um deslocamento temático para a economia política internacional, especialmente a renegociação da dívida externa -, não formularam novos planos de estabilização, nem revisaram substancialmente o diagnóstico original. Bacha (1987, p. 6-7) reafirmava a necessidade de “aliar políticas de supressão da inércia inflacionária às políticas de controle monetário-fiscal”, enquanto Lara-Resende (1988, p. 15) sustentava que o Cruzado havia consolidado consenso sobre a estratégia adequada, cuja implementação dependia de “se alterar o impasse da atual configuração política”. Em textos posteriores, o mesmo autor defendia reformas institucionais profundas, como um currency board independente, para conferir credibilidade à autoridade monetária (Lara-Resende, 1992). Arida (2019, p. 35) sintetiza esse processo ao afirmar que o Cruzado reforçou sua “convicção sobre a importância de construir as instituições corretas”: era necessário revisar a arquitetura decisória do Estado, reformar o Conselho Monetário Nacional, conferir independência operacional ao Banco Central e assegurar controle efetivo dos instrumentos de política, de modo a administrar expectativas e evitar a reindexação precoce.

A recomposição da equipe econômica no governo Itamar Franco abriu um segundo ciclo de projeção dos economistas da PUC-Rio, agora ancorado na clivagem partidária criada pela cisão do PMDB e pela fundação do PSDB. Diversos deles já integravam o partido desde sua criação, o que facilitou sua entrada quando Fernando Henrique Cardoso assumiu o Ministério da Fazenda em 1993 (Pio, 2001). Antes de avançar, a equipe apresentou o plano em reuniões fechadas à cúpula tucana, buscando aferir sua viabilidade política. Embora persistisse certo ceticismo, sobretudo pela ausência de apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela fragilidade do governo Itamar, a liderança partidária reconheceu a autoridade técnica do grupo e decidiu apoiá-lo apesar dos riscos eleitorais (Bacha, 2003). Os economistas atuaram, assim, como verdadeiros policy entrepreneurs (Béland e Cox, 2016), mobilizando suas ideias para enquadrar interesses e construir o apoio político necessário à implementação da reforma.

A arquitetura institucional do Plano Real retomou a lógica formulada por Arida e Lara-Resende nos anos 1980. A estabilização exigia uma reforma monetária em etapas, capaz de reduzir expectativas inflacionárias por meio de uma reorganização institucional da moeda. As Exposições de Motivos de lançamento do plano de estabilização12 e de criação da URV13 descrevem a substituição da moeda como uma transição em fases. Primeiro, a criação de uma unidade de conta estável para ordenar preços, contratos e salários; depois, a conversão em moeda plena, ecoando a estrutura sequencial das propostas da PUC-Rio. Ao mesmo tempo, o plano rejeitava explicitamente o choque heterodoxo e introduzia duas mudanças decisivas: a exigência de um ajuste fiscal como uma etapa prévia adicional e a adoção de uma moeda virtual, e não de duas moedas físicas em circulação simultânea.

A continuidade entre as propostas formuladas nos anos 1980 e o desenho do processo de estabilização foi reconhecida explicitamente pelos próprios formuladores. Arida afirmou que “na essência, o Plano Real foi uma variante do Larida” (Arida, 2019, p. 68), ainda que adaptada às restrições jurídicas e à exigência de ajuste fiscal identificadas desde o Cruzado. FHC também atribuiu a adesão ao plano ao contato com as ideias desenvolvidas por Arida e Lara-Resende - ideias que, segundo ele, alteraram sua percepção sobre a viabilidade de uma estabilização baseada na reorganização institucional da moeda (Cardoso, 2006). Essas referências diretas revelam que a planta institucional arquitetada pelos economistas não foi apenas inferida retrospectivamente pelos policymakers, mas funcionou como matriz cognitiva mobilizada para comunicar, defender e operacionalizar a reforma monetária de 1994, permitindo que atores políticos reconhecessem sua coerência e a tomassem como base para a tomada de decisão.

Além de estruturarem o desenho institucional do Plano Real, as formulações inercialistas foram mobilizadas como armas discursivas por diferentes grupos políticos, desde o primeiro governo civil pós-redemocratização até as comunicações oficiais de 1994. Desde os anos 1980, os economistas da PUC-Rio afirmavam que a estabilização poderia ocorrer sem recessão profunda ou congelamentos generalizados - distinção presente nas propostas originais de 1984-1985 e reiterada na Exposição de Motivos de criação da URV, que sustentava que austeridade fiscal e monetária, isoladamente, não bastariam para preservar emprego e atividade. A URV rejeitava explicitamente o choque heterodoxo e apresentava a reforma monetária como estratégia transparente, previsível e baseada na eliminação gradual da memória inflacionária. Essa dimensão discursiva aparece com ainda maior nitidez no pronunciamento de FHC ao apresentar o programa em fevereiro de 1994: ao contrapor o plano aos “choques, confiscos e congelamentos” dos governos anteriores e afirmar que não se deveria “enganar o país pulando etapas”,14 o ministro traduziu para o debate público a lógica sequencial formulada pelos economistas da PUC-Rio.

A adesão da elite política à estratégia gradualista não se explica apenas por cálculo eleitoral. A sobrevivência do governo Itamar e a ambição presidencial de FHC abriram a janela de oportunidade, mas a racionalidade de curto prazo colocava um dilema: congelamentos de preços estavam desmoralizados pelos fracassos anteriores, enquanto a dolarização imediata, amplamente defendida por setores empresariais e midiáticos e vista como alternativa formal no próprio debate econômico (Franco, 1993), parecia oferecer resultados rápidos e inteligíveis ao eleitorado. Ainda assim, a equipe optou pela desindexação gradual via URV. A rejeição do “atalho” da dolarização em favor de uma solução tecnicamente sofisticada indica que as ideias inercialistas funcionaram como balizadores decisivos, vetando a importação mecânica de modelos externos e oferecendo uma saída viável para um impasse político. A presença dos formuladores da PUC-Rio no núcleo decisório assegurou que o diagnóstico da inércia e a proposta de reforma via moeda indexada orientassem o desenho do plano, enquanto a disputa discursiva de 1994 transformou essa complexidade técnica em sinal de responsabilidade política - encapsulada no mote de “não pular etapas”. Essa convergência entre formulação intelectual e tradução política permitiu que o Real se consolidasse não apenas como plano de governo, mas como novo paradigma de estabilização.

5.3. Travas cognitivas: a institucionalização do paradigma pós-Real

A consolidação do paradigma pós-Real não se limitou à estabilização de 1994, mas produziu efeitos duradouros sobre o conjunto de alternativas concebíveis para a política macroeconômica brasileira em torno da reforma da autoridade monetária. O plano, inspirado por um conjunto específico de ideias econômicas, tem como principal reflexo institucional a concentração da autoridade no Banco Central, o que representa a cristalização da nova estrutura teórica de condução da política econômica. Embora tenha havido uma convergência global em torno de novos instrumentos de policy a partir da década de 1990, notavelmente os regimes de meta de inflação (Bernanke e Mishkin, 1997), argumentamos que as reformas econômicas subsequentes no Brasil reforçaram o desenho institucional do Bacen herdado pelo Real e seu papel central. Isso carrega o traço distintivo da estabilização brasileira sob a forma de novas travas cognitivas: a sedimentação da política econômica centrada no Bacen traz a impressão digital das ideias por trás do Plano.

Ideias vitoriosas tendem a se institucionalizar como “travas cognitivas”, delimitando o horizonte de políticas consideradas tecnicamente e politicamente aceitáveis. Para observar esse fechamento, o artigo concentra-se em dois mecanismos empiricamente observáveis: i) reformas institucionais apresentadas como condições necessárias para a estabilização, que eliminaram alternativas anteriores; e ii) a reconfiguração da circulação de economistas no núcleo decisório da política macroeconômica, que restringiu o acesso de correntes alternativas e consolidou um novo mainstream econômico.

O diagnóstico da inflação inercial não se limitava a identificar a indexação como causa do problema, mas frequentemente alertava para o risco permanente de reindexação e a consolidação de um estado de hiperinflação (Lara-Resende, 1988). Essa concepção exigia que a estabilização não terminasse com a reforma monetária do Plano Real, mas demandasse um esforço contínuo de reformas institucionais que impedissem a reativação dos mecanismos inerciais, cabendo ao Banco Central o controle dos instrumentos de política monetária. Na análise retrospectiva de Persio Arida sobre o Plano Cruzado, essa preocupação se tornou explícita:

o ajuste fiscal tem que ser feito antes e não depois. Corrigimos isso no Plano Real. O Banco Central tem que ter independência para colocar a taxa de juros no valor adequado para controlar a demanda agregada. A equipe econômica precisa ter controle da máquina pública ou ao menos dos seus elementos centrais como os bancos públicos (Arida, 2019, p. 34).

As reformas institucionais pós-Real, embora apresentadas como imperativas para manter a estabilização, eliminaram caminhos alternativos de política econômica, centralizando a autoridade no Banco Central. Inicialmente, a reforma da estrutura decisória concentrou a coordenação macroeconômica: a reforma do CMN (1995) reduziu o colegiado para apenas três membros, enquanto a criação do COPOM (1996) institucionalizou a lógica centrada na taxa de juros como instrumento anti-inflacionário primário, restringindo políticas de renda, controles diretos ou intervenções cambiais frequentes.

Reformas adicionais reestruturaram a economia para adequá-la aos novos instrumentos do Bacen. O saneamento dos bancos estaduais (1997-2001) removeu instrumentos de crédito subnacional, usados para fins anticíclicos ou distributivos, concentrando a política monetária sob alçada federal exclusiva (Gama Neto, 2011; Garman, Leite e Marques, 2001). Complementarmente, o saneamento do setor financeiro privado (Proer/Proes) disciplinou a operação da política monetária. Por fim, o regime de metas de inflação (1999) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (2000) fixaram limites permanentes à política fiscal, consolidando o novo arcabouço. Essa sequência de reformas expressa a notável convergência do sistema político rumo à aceitação do novo paradigma. Reformas de alto custo político inicial, como a privatização dos bancos estaduais, implementada perante forte oposição, tornaram-se paulatinamente difundidas, culminando na aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, reconhecida como necessária até pela oposição (Leite, 2005).

Vistas sob o legado do Real, as reformas pós-estabilização introduziram consequências percebidas como tecnicamente necessárias, pois o fracasso dos planos anteriores havia centralizado no discurso político a necessidade de condições fiscais e institucionais para sustentar a estabilização. A solução foi institucionalizar essa blindagem através de leis e normas que reduziram drasticamente a discricionariedade sobre os instrumentos macroeconômicos. Contudo, essa blindagem não operava apenas legalmente, mas consolidou-se, simultaneamente, um padrão de circulação de elites econômicas que reforçou o fechamento cognitivo, restringindo o acesso de diagnósticos alternativos às posições centrais de policy.

Quanto aos atores executores da política econômica, o que se observa é um processo similar de convergência ideacional. Embora a redemocratização dos anos 80 tenha gerado expectativa de pluralização nos espaços decisórios - com economistas de orientações diversas, como Luiz Gonzaga Belluzzo (Secretário de Política Econômica) e João Manuel Cardoso de Mello (assessor especial no Ministério da Fazenda), ocupando o centro decisório -, o sucesso do Plano Real operou um movimento inverso ao consolidar um novo mainstream que passou a dominar as instituições centrais. Reportagem da época documentou que “13 economistas originários da PUC-Rio ocuparam os mais importantes cargos da área econômica” durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, levando José Serra a supostamente reclamar: “mas tudo gente da PUC-Rio” (Oliveira, 2002).

A concentração de economistas vinculados à PUC-Rio em posições-chave foi notável também no período pós-Real. Dos cinco presidentes do Banco Central que conduziram a instituição entre 1995 e 2010, quatro tinham vínculos significativos com a PUC-Rio: Pedro Malan, Pérsio Arida, Gustavo Franco e Armínio Fraga. Quando Lula assumiu a Presidência da República em 2003, nomeou Henrique Meirelles à presidência do Bacen e o manteve no cargo por 8 anos, evitando alterar drasticamente a direção da política monetária. Entre diretores do Banco Central, chama atenção um perfil de recrutamento muito similar entre os governos do PSDB e do PT, o que sustenta a hipótese da manutenção geral na orientação da política monetária entre os governos FHC e Lula (Codato et al., 2016).

O desenho institucional herdado pelo Banco Central ao final desse processo representa, derradeiramente, a sedimentação dos traços preconizados pelos autores da PUC-Rio durante a estabilização e sua subsequente reforma, reforçada pela atuação dos próprios quadros na gestão da política monetária nos anos subsequentes. A crescente aceitação do sistema político da agenda de reformas econômicas, desenvolvidas consistentemente na direção de consolidar um novo arcabouço de condução da política econômica - e, especificamente, monetária - de acordo com o receituário preconizado na estabilização, denota o papel de travas cognitivas das ideias da equipe econômica.

6. Conclusão

Este artigo analisou o papel das ideias econômicas na reordenação da política macroeconômica brasileira entre 1979 e 1994. Demonstramos que a estabilização com o Plano Real e a subsequente centralização da autoridade monetária no Banco Central resultaram de um processo ideacional de longo prazo, no qual diagnósticos acadêmicos moldaram tanto o desenho institucional quanto os limites do debate político subsequente.

à luz de Blyth (2001, 2002), demonstramos como o diagnóstico inercialista e a proposta da moeda indexada operaram sucessivamente como plantas institucionais, armas discursivas e travas cognitivas. O aprendizado acumulado após os fracassos anteriores evidenciou os obstáculos fiscais, monetários e institucionais à estabilização, permitindo que tais ideias funcionassem como mapas causais para orientar reformas e como recursos de legitimação no espaço público.

A estabilização só foi obtida quando esses gargalos institucionais foram superados através de reformas que centralizaram instrumentos de política macroeconômica. Uma vez implementado o plano, o diagnóstico subjacente se consolidou como um novo mainstream, se enraizando nas instituições oriundas do processo de estabilização e delimitando o horizonte de alternativas concebíveis para a condução da política econômica.

Este estudo focou especificamente nas ideias dos economistas da PUC-Rio, deixando em segundo plano outras correntes do debate sobre inflação no período, como os estruturalistas da UNICAMP e os ortodoxos vinculados ao regime militar. Além disso, embora nosso recorte temporal privilegie o período formativo das ideias e sua institucionalização inicial, a investigação sobre a evolução dessas travas cognitivas nas décadas seguintes abre uma agenda relevante. O que este artigo demonstra, de modo central, é que compreender o papel das ideias não apenas ilumina os caminhos da estabilização brasileira, mas também ajuda a explicar a persistência de arranjos institucionais que moldam, até hoje, os limites e possibilidades da política econômica no país.

Declaração de uso de IA

Todas as ideias e argumentos do artigo foram elaborados exclusivamente pelos autores. Foi utilizado o Claude (Anthropic, Sonnet 4.6) para revisão gramatical e organização das referências.

  • Declaração de disponibilidade dos dados
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no repositório Harvard Dataverse através do link: https://doi.org/10.7910/DVN/KRE03X.
  • Financiamento
    Este artigo não recebeu financiamento externo para a sua realização.
  • 1
    O Departamento de Economia da PUC-Rio foi fundado por egressos da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-Rio). Sua emergência nos anos 1970 logo o consolidou como um dos principais centros de formação de economistas no Brasil, caracterizado pela ênfase na formalização matemática e pela proximidade com a academia norte-americana, sobretudo nomes filiados a linhas de pesquisa neo-estruturalistas, como Lance Taylor e Rudiger Dornbusch. Para uma análise da trajetória institucional do departamento e de seus quadros, ver Loureiro (1997)
  • 2
    A conta-movimento era, em síntese, um mecanismo que permitia a emissão de moeda sem a interferência direta do Banco Central. Qualquer passivo do Banco do Brasil era automaticamente coberto pelo Banco Central, que não podia, porém, interferir em suas operações. A extinção da conta-movimento, em julho de 1986, durante o Plano Cruzado, é reconhecida como decisiva para alterar o perfil de atuação do Bacen, então ainda próximo de um “banco de fomento” de crédito (Loyola, 2019)
  • 3
    O Comitê de Política Monetária (COPOM) foi instituído em junho de 1996, centralizando as decisões sobre a política monetária em um colegiado formado pelo presidente do Banco Central e seus diretores. Já o Conselho Monetário Nacional (CMN), hoje responsável por definir a meta de inflação perseguida pelo Banco Central, teve sua composição drasticamente reduzida: de cerca de 20 membros nos anos 1980 e início dos anos 1990 para apenas três - Ministro da Fazenda, Ministro do Planejamento e Presidente do Banco Central - a partir de 1995 (Raposo e Kasahara, 2010)
  • 4
    Disponível em: https://www.econ.puc-rio.br/pesquisa/textos-para-discussao/. Acesso em: 02 abr. 2026.
  • 5
    O banco de dados completo com os textos está disponível no link a seguir: https://doi.org/10.7910/DVN/KRE03X
  • 6
    Todas as fontes orais utilizadas neste artigo se referem exclusivamente a depoimentos, entrevistas e pronunciamentos previamente publicados, não havendo realização de entrevistas originais pelos autores. Por essa razão, não há a necessidade de obtenção de consentimento específico ou aprovação por comitê de ética
  • 7
    Dos 52 textos selecionados, 27 (52%) foram publicados originalmente em inglês, evidenciando uma estratégia de internacionalização que se manifesta ao longo de todo o período analisado
  • 8
    Tradução nossa
  • 9
    Tradução nossa
  • 10
    Tradução nossa
  • 11
    A opção pelo choque heterodoxo não decorreu unicamente de uma preferência técnica da equipe. Segundo Persio Arida, Sarney demonstrou simpatia pelo Larida, mas o consultor-geral da República, Saulo Ramos, considerou a moeda indexada “flagrantemente inconstitucional” por implicar a circulação de duas moedas simultaneamente (Arida, 2019, p. 26)
  • 12
    Exposição de motivos nº 395, de 7 de dezembro de 1993
  • 13
    Exposição de motivos nº 47, de 27 de fevereiro de 1994
  • 14
    Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/2/08/brasil/45.html. Acesso em: 02/04/2026

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Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no repositório Harvard Dataverse através do link: https://doi.org/10.7910/DVN/KRE03X.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2025
  • Aceito
    01 Fev 2026
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