Open-access HISTÓRIA DO AUTISMO NO BRASIL: O ATIVISMO MATERNO EM UM CONTEXTO HISTÓRICO E FEMINISTA1

HISTORY OF AUTISM IN BRAZIL: MATERNAL ACTIVISM IN A HISTORICAL AND FEMINIST CONTEXT

Lopes, Bruna Alves. Não existe mãe-geladeira: uma análise feminista da construção. Brasil: Texto e Contexto, 2024. 272. 978-85-94441-74-4

Nesta resenha do livro Não existe mãe-geladeira: uma análise feminista da construção do ativismo de mães de autistas no Brasil (1940-2019)4, de Bruna Alves Lopes (2024), exploramos a análise feminista histórico-sociológica da autora sobre a história do ativismo materno no Brasil. O objetivo desta resenha é compreender como essa perspectiva crítica de gênero desmistifica a culpabilização materna - central ao mito da “mãe-geladeira” - e evidencia a agência política dessas mulheres. O livro é resultado da pesquisa de Doutorado concluída pela autora em 2019. Ela é uma das principais estudiosas brasileiras sobre a dimensão histórica do autismo em solo nacional.

As pesquisas que resultaram na obra em questão lançam mão da imprensa de periódicos (matérias em revistas e jornais e cartas enviadas), legislação, autobiografias e entrevistas. Nessa perspectiva crítica, Lopes (2024) desvenda a “mãe-geladeira”, que ela identifica como um mecanismo patriarcal de controle social e culpabilização feminina, o qual reforçava estereótipos de gênero. Como a autora argumenta, a culpa é “uma subjetividade distante do fazer político e, portanto, benéfica para a perpetuação do patriarcado” (p. 237). A autora apresenta a jornada dessas mulheres como força de transformação social em um contexto difícil.

O objetivo da obra é compreender o que os sujeitos entendiam em relação ao fenômeno no período estudado e observar as mudanças e permanências na imagem que as mulheres que se engajaram em prol de seus filhos autistas possuem sobre o tema e sobre seu papel como mães e mulheres. A análise percorre seis capítulos, da origem do discurso sobre o autismo à organização coletiva e à reivindicação de políticas públicas.

Os capítulos iniciais do livro exploram a intrínseca relação entre o autismo e a maternidade, destacando como o discurso médico historicamente influenciou a percepção das mães, atribuindo-lhes responsabilidade pela condição. O Capítulo 1, intitulado “A construção do autismo e o lugar social da mãe”, detalha o surgimento do termo “mãe-geladeira” nos trabalhos de Kanner e Bettelheim, uma teoria refutada que erroneamente vinculava o autismo a falhas afetivas maternas e reforçava estereótipos de gênero. É importante notar que, em 1969, “Kanner pediu, oficialmente, desculpas”, mas que Bettelheim nunca o fez (Lopes, 2024, p. 24).

O Capítulo 2 - “O ativismo em autismo na década de 1960” - volta-se para o ativismo materno das décadas de 1960 e 1970, ressaltando a influência de associações internacionais como a National Society for Autistic Children (NSAC), dos Estados Unidos, e a National Autistic Society (NAS), da Inglaterra, que inspiraram movimentos iniciais no Brasil, contestaram teorias psicogênicas e promoveram uma visão biológica do autismo, além de criarem redes de apoio. O Capítulo 3, denominado “Autismo no Brasil: primeiras notícias na imprensa escrita”, analisa a imprensa brasileira entre 1950 e 1970, mostrando como periódicos da época perpetuaram a imagem de pais “frios e intelectuais” como causadores do autismo (Lopes, 2024, p. 74), evidenciando a desinformação e o estigma difundidos.

Os capítulos seguintes - 4, 5 e 6 - descrevem o desenvolvimento do ativismo materno. O Capítulo 4, “O despertar do ativismo materno a partir da década de 1980”, destaca como a democratização no Brasil impulsionou a articulação de mães de autistas. Essa organização é evidenciada pela formação de associações pioneiras - Associação de Amigos do Autista de São Paulo (AMA-SP), Associação de Pais de Autistas do Rio de Janeiro (APARJ) e Associação Terapêutica Educacional para Crianças Autistas do Distrito Federal (ASTECA-DF) - e pela participação em audiências públicas. Nota-se que tal discussão se situa historicamente no complexo debate nacional sobre a transição de um modelo segregacionista para a busca por integração e inclusão na educação e na sociedade. A problematização do ativismo também remete ao debate sobre o papel atual das instituições especializadas.

A resenha aponta, assim, com base em França e Prieto (2021), para uma atenção à “lógica do mercado, na forma de gestão da educação pública que assume as diretrizes da gestão empresarial” (p. 366) no financiamento estatal dessas instituições. Torna-se necessário, portanto, levantar a crítica sobre a necessidade de que estas, ao receberem recursos públicos, passem por maior avaliação sistemática sobre a qualidade do ensino oferecido - um dilema importante para a efetivação dos direitos educacionais das pessoas público da educação especial, dentre elas as autistas, e para manter a defesa pela ampliação do fundo público às instituições públicas.

Na sequência, o Capítulo 5, “Histórias, relatos de si e autismo”, explora autobiografias e relatos pessoais. Essa dimensão íntima é fundamental, pois, ao lado da agência política, emerge a realidade da sobrecarga e do esgotamento das mães, enfatizando a necessidade de políticas públicas de suporte à saúde familiar. Infere-se a necessidade de ampliação de intervenções - como o suporte via Unidades Básicas de Saúde (UBS) - especialmente para as mulheres, que frequentemente são as mais atingidas pelo esgotamento derivado dos cuidados de seus filhos. Por fim, o Capítulo 6, “Ativismo e internet dos anos 1990 a 2019”, aborda a influência da internet na organização do ativismo, ressaltando como a conectividade trouxe novas possibilidades de engajamento e visibilidade, mas também desafios, como disputas internas entre diferentes visões do autismo.

Nas Considerações Finais, a autora responde ao objetivo ao descrever a trajetória do entendimento sobre o autismo - de uma patologia emocional causada pela mãe para uma questão de luta por direitos que exige corresponsabilidade. Simultaneamente, ela mostra a profunda transformação na imagem da mãe de autista, que, de figura culpabilizada e estigmatizada, emerge como uma protagonista política e ativista, redefinindo seu papel social e a própria maternidade. O livro aborda a história do autismo no mundo e no Brasil com uma análise bem fundamentada, citando psiquiatras como Léo Kanner, Hans Asperger e Lorna Wing como importantes na formulação do conceito desde 1940.

A obra é fundamental, pois, ao desnaturalizar a culpabilização materna e evidenciar a agência política feminina, oferece uma reflexão crítica sobre a intersecção entre gênero, saúde mental e políticas públicas. O ativismo estudado por Lopes (2024) torna-se um prisma para analisar o financiamento da Educação Especial e os dilemas da inclusão, ressaltando o associacionismo como um mecanismo fundante para a reivindicação de direitos. Não existe mãe-geladeira configura-se como leitura indispensável para entender essa intersecção, alcançando pesquisadores e todos os envolvidos na causa. Ademais, olhar para as produções maternas nesse contexto é entender o lugar de fala como “um mecanismo para exporem publicamente suas percepções acerca do fenômeno e criarem uma articulação entre autismo, advocacy e ativismo materno” (Lopes, 2020, p. 524).

Disponibilidade de dados

Não se aplica.

REFERêNCIAS

  • França, M. G., & Prieto, R. G. (2021). Disputa pelo fundo público no financiamento da educação especial: correlações de forças entre o público e o privado. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação, 37(1), 351-372. https://doi.org/10.21573/vol37n12021.106449
    » https://doi.org/10.21573/vol37n12021.106449
  • Lopes, B. A. (2020). Autismo, narrativas maternas e ativismo dos anos 1970 a 2008. Revista Brasileira de Educação Especial, 26, 511-526. https://doi.org/10.1590/1980-54702020v26e0169
    » https://doi.org/10.1590/1980-54702020v26e0169
  • Lopes, B. A. (2024). Não existe mãe-geladeira: uma análise feminista da construção do ativismo de mães de autistas no Brasil (1940-2019) Texto e Contexto.5
  • Editoras responsáveis
    Aline Maira da Silva (Editora-chefe)
    Débora Regina de Paula Nunes (Editora associada)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Jul 2025
  • Revisado
    19 Out 2025
  • Aceito
    21 Out 2025
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