RESUMO
Este estudo teve como objetivos descrever a saúde emocional materna, mais especificamente quanto aos indicadores de estresse, ansiedade e depressão; descrever a rede de apoio social de mães de crianças com deficiência; e correlacionar a percepção de rede de apoio com a saúde emocional materna. Participaram da pesquisa 25 mães de bebês entre três e 24 meses de idade atendidos em duas instituições especializadas. Foram aplicados instrumentos referentes ao estresse, com a Escala de Estresse Percebido (PSS); à ansiedade traço-estado, com o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE); à depressão pós-parto, com a Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS); e ao apoio social, com a Escala de Apoio Social (EAS). Os resultados apontam prevalência de indicadores clínicos de saúde emocional, principalmente ansiedade traço e depressão, presentes em mais da metade da amostra. Aproximadamente dois terços das participantes apresentaram pelo menos um indicador clínico de saúde emocional. Em relação à rede de apoio, a maioria relatou percepção positiva nas cinco dimensões avaliadas, porém cerca de 40% pontuaram abaixo da média do grupo, especialmente nas dimensões emocional e informacional. As análises de correlação mostraram associações negativas entre estresse, ansiedade traço e depressão e a percepção de apoio social, destacando-se a forte relação entre ansiedade traço e baixa percepção de apoio em todas as dimensões. Conclui-se que mães de bebês com deficiência apresentam vulnerabilidade emocional associada à percepção limitada de apoio social, evidenciando a necessidade de intervenções precoces voltadas ao fortalecimento da saúde emocional e da rede de suporte.
PALAVRAS-CHAVE:
Criança com deficiência; Ansiedade; Depressão; Estresse; Percepção de rede de apoio.
ABSTRACT
This study aimed to describe maternal emotional health, specifically indicators of stress, anxiety, and depression; to describe the social support network of mothers of children with disabilities; and to correlate perceived support network with maternal emotional health. The study included 25 mothers of infants between three and 24 months of age who were receiving care at two specialized institutions. Instruments were administered to assess stress, using the Perceived Stress Scale (PSS); statetrait anxiety, using the State-Trait Anxiety Inventory (STAI); postpartum depression, using the Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS); and social support, using the Social Support Scale (SSS). The results indicated a prevalence of clinical indicators of emotional health, particularly trait anxiety and depression, which were present in more than half of the sample. Approximately two-thirds of the participants presented at least one clinical indicator of emotional health. Regarding the support network, most participants reported a positive perception in the five dimensions assessed; however, approximately 40% scored below the group mean, especially in the emotional and informational dimensions. Correlation analyses showed negative associations between stress, trait anxiety, and depression and perceived social support, with a strong relationship between trait anxiety and low perceived support across all dimensions. It is concluded that mothers of infants with disabilities present emotional vulnerability associated with a limited perception of social support, highlighting the need for early interventions aimed at strengthening emotional health and support networks.
KEYWORDS:
Child with disability; Anxiety; Depression; Stress; Perceived support network.
1 INTRODUÇÃO
A saúde emocional é um constructo amplo que envolve a presença/ausência de estresse, ansiedade e depressão, que podem aparecer em conjunto ou separadamente (Guimarães et al., 2022). São avaliados em termos de indicadores clínicos e não clínicos, a partir dos resultados de instrumentos específicos (Cunha et al., 2022).
O estresse se caracteriza como qualquer tipo de alteração que cause desgaste emocional ou físico, sendo uma resposta do corpo às situações que exigem atenção ou ação (World Health Organization [WHO], 2026). Caracteriza-se por sentimentos de tensão, ansiedade, medo ou ameaça, que podem ter uma origem interna ou externa. Cada indivíduo irá desenvolver o processo de estresse de uma maneira diferente, pois um mesmo evento poderá ser classificado como aversivo ou não, dependendo de como a pessoa aprendeu a percebê-lo (Sanzovo & Coelho, 2007). Para os autores, o estresse está relacionado com a ontogênese, quer dizer, a história de vida da pessoa, uma vez que os sentimentos, pensamentos, regras e autorregras são aprendidos no decorrer da vida.
A ansiedade é descrita em termos de sentimentos de angústia e medo, podendo os sintomas variar de leves a graves (WHO, 2017). Em uma revisão de literatura sobre o constructo sob a óptica da Análise do Comportamento, Coêlho e Tourinho (2008) referiram-se a um consenso entre os pesquisadores quanto à ansiedade estar sob controle das relações comportamentais do indivíduo e das contingências que as produzem. Estão presentes alterações corporais produzidas por essas contingências, fruto dos processos pelos quais estímulos verbais participam dessas relações e dos ambientes sociais que favorecem a instalação e a manutenção da ansiedade. Os autores também afirmaram que, na ansiedade, diferentemente do fenômeno da depressão, há uma sinalização dos estímulos incontroláveis que, em geral, são aversivos, podendo-se dizer que essa sinalização seja um estímulo pré-aversivo.
A depressão se caracteriza por perda de interesse ou prazer, tristeza, sentimento de culpa, baixa autoestima, distúrbios do sono, falta de concentração e cansaço, podendo ser duradoura ou recorrente e interferir nas tarefas diárias do indivíduo (WHO, 2017). Dougher e Hackbert (2003) mencionam que, na literatura, é comum haver uma categorização dos sintomas depressivos como déficit comportamental (relacionado a atividades públicas, nas quais extinção e punição podem estar atuando), afetivo (relacionado a sentimentos) ou cognitivo (relacionado a pensamentos, como autocrítica persistente ou atenção seletiva para experiências negativas).
Muitos são os fatores que podem desencadear alterações negativas na saúde emocional da mulher. Entre eles estão a maternidade e, ainda, o nascimento de um filho com deficiência (Oliveira & Poletto, 2015). A saúde emocional de mães de crianças com deficiência está associada à sua história de aprendizagem, relacionada aos sentimentos, pensamentos e regras, bem como ao conceito de deficiência percebido pelo indivíduo (Paixão et al., 2022). Também é importante levar em consideração suas relações pessoais e ambientes sociais proximais, além das suas reservas e déficits comportamentais (Crisostomo et al., 2019).
Pesquisadores têm investigado o impacto da chegada de um bebê com deficiência para a família (Ferreira, 2021; C. C. T. Santos et al., 2018). Ferreira (2021), em seu estudo de revisão, encontrou resultados que indicaram que famílias de crianças com deficiência física e/ ou intelectual enfrentam problemas de saúde emocional, principalmente em relação a estresse, ansiedade, depressão e angústia. O autor destaca a importância de uma reestruturação familiar e da ressignificação da criança idealizada após o nascimento da criança com deficiência, com apoio de profissionais especializados, para que a família consiga lidar com as limitações da condição do bebê e com as demandas do processo de reabilitação.
C. C. T. Santos et al. (2018) mencionaram o período de adaptação pelo qual a família precisa passar, não só pela chegada do bebê com deficiência, mas também pela busca incessante de informações sobre a condição do bebê, por apoio médico e por outros serviços especializados. Tudo isso acrescido do fato de ter de lidar com todos os sentimentos envolvidos diante dessa nova condição, como medo, insegurança, tristeza e frustração. Os autores também apontaram a importância da rede de apoio para essas mães, afirmando que, como a preocupação e o medo sempre estão presentes, o apoio das pessoas ao seu redor pode reduzir o estresse emocional, já que são elas as cuidadoras principais, que muitas vezes abdicam da vida que tinham antes do nascimento do bebê. Culturalmente, há uma forte expectativa acerca do papel da mulher e, principalmente, da mãe na sociedade, como cuidadora dos filhos e da família, o que gera pouca preocupação dos demais quanto ao apoio de que ela necessita para cumprir esse e outros papéis, como o profissional, por exemplo, garantindo a sua saúde emocional (J. M. S. Silva et al., 2020).
A questão profissional também foi apontada por Lazzarotto e Schmidt (2013) em um estudo realizado com mães de crianças com paralisia cerebral, entrevistando-as sobre seus sentimentos e experiências com a maternidade. Os achados sugeriram um aumento da dedicação e do cuidado com a criança com deficiência, porém quase todas as mães precisaram interromper a vida profissional para se dedicarem exclusivamente ao filho. Os resultados do estudo sugerem, também, que essa abdicação é apenas um dos aspectos de cuidar de uma criança com deficiência, já que essas mães se percebem mais vivendo a vida dos filhos, com suas rotinas de tratamentos e necessidades específicas, do que cuidando de suas próprias vidas.
Christmann et al. (2023) avaliaram o estresse e o apoio social percebidos por mães de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os resultados mostraram que 86% das mães apresentaram indicadores clínicos de estresse e baixa percepção de apoio. Mães com mais estresse estimulavam menos seus filhos, o que aponta para a necessidade de atenção especial a elas, desde a identificação do estresse até o encaminhamento para programas ou serviços especializados. Os autores ressaltaram a importância de proposições e implementações de programas de intervenção em saúde emocional para famílias de crianças com deficiência.
Figueiredo et al. (2010) também avaliaram a saúde emocional de mães de bebês, crianças, adolescentes e adultos jovens com Síndrome de Down, com enfoque no estresse parental. Na amostra estudada, as mães eram as principais cuidadoras dos filhos e, em sua maioria, não trabalhavam fora de casa. Os resultados mostraram que seus níveis de estresse foram mais elevados em comparação com mães de filhos com desenvolvimento típico e com os próprios pais de seus filhos com deficiência. Além disso, apresentaram mais dificuldades em desempenhar seu papel parental quando na presença do filho com deficiência. As autoras também ressaltaram que 86,1% dessas mães não receberam apoio psicológico. Elas concluíram destacando a pouca atenção que o estresse parental, em famílias com pessoas com Síndrome de Down, tem recebido no mundo inteiro. Sugerem que um maior conhecimento sobre a saúde emocional dos pais permitiria melhorar os serviços existentes com o desenvolvimento de novas estratégias para auxiliar os profissionais da saúde na prevenção ou no tratamento dessa população.
A ansiedade e a depressão de mães de bebês com deficiência e/ou suspeita de deficiência também foram avaliadas por diversos estudos (Moreira et al., 2023; Pederro, 2018; Perosa et al., 2008; Vilaseca et al., 2014). Moreira et al. (2023) avaliaram o estresse, a depressão, a ansiedade e a percepção de apoio social de mães de crianças com baixa visão e cegas. Os autores encontraram alta incidência de indicadores clínicos entre as mães: 67% apresentaram depressão, 73%, ansiedade e 80%, estresse. Os resultados também indicaram que, quanto maior o indicador de qualquer um dos sintomas, menor a percepção de apoio social. Os autores indicam que políticas de cuidado a essa população podem melhorar a qualidade de vida de mães e seus filhos.
Para comparar a saúde emocional de mães que tiveram bebês com malformações visíveis, Perosa et al. (2008) aplicaram o Inventário de Depressão de Beck (BDI) e o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) para avaliar a depressão e a ansiedade, respectivamente. Essa aplicação ocorreu em dois momentos: logo após o nascimento do bebê, mais especificamente durante sua permanência na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e na Unidade de Cuidados Intermediários (UCI) Neonatal da maternidade, e após três meses de alta hospitalar. Resultados mais graves foram encontrados na primeira aplicação dos instrumentos, com diminuição dos indicadores clínicos na segunda avaliação. As autoras levantaram a hipótese da recenticidade da notícia e do ambiente hospitalar, com todos os seus desdobramentos, como fatores de aumento nos índices de saúde mental.
Lazzarotto e Schmidt (2013) também investigaram a possível presença de estresse, ansiedade e depressão em mães de crianças com paralisia cerebral. As mães responderam a uma entrevista semiestruturada, aos Inventários de Depressão e de Ansiedade de Beck e ao Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp. Como resultado, houve predomínio de níveis clínicos de estresse. Em relação à ansiedade, os indicativos distribuíram-se entre moderados e mínimos e, quanto à depressão, os achados apontaram para nível mínimo. As autoras justificaram os níveis elevados de estresse devido à falta de rede de apoio durante a maior parte de sua vida diária e à sobrecarga de responsabilidades.
Sintomas ansiosos e depressivos foram avaliados e comparados entre mães e pais de crianças com deficiência intelectual por Vilaseca et al. (2014). Os achados apontaram para escores mais altos de ansiedade e depressão em mães quando comparados com os pais. Segundo as autoras, esse resultado pode ser explicado por variáveis individuais, como a situação de emprego do pai, que se ausenta a maior parte do dia, e a responsabilidade da mãe pelas tarefas domésticas e de cuidado com o filho.
Outro estudo comparou o estresse, a ansiedade e a depressão de mães de bebês com suspeita de deficiência auditiva com mães de bebês sem suspeita de deficiência (Pederro, 2018). Os resultados apontaram alta prevalência de sintomas clínicos para depressão e ansiedade traço e estado no primeiro grupo. Tais dados sugerem a importância de intervenções junto às mães, especialmente quando em fase de diagnóstico.
Os estudos analisados apontaram os diversos desdobramentos na vida dos pais, em especial das mães, relacionados à saúde emocional, à percepção da rede de apoio e às dificuldades inerentes aos cuidados com suas crianças, agravadas, ainda, pelas condições apresentadas pelos filhos à medida que crescem. Um fator de proteção é a rede de apoio percebida pelos cuidadores. Todavia, foram encontrados apenas três estudos que avaliaram a percepção de rede de apoio e o estresse de mães de crianças com deficiência (Figueiredo et al., 2010; Matsukura et al., 2007; C. C. T. Santos et al., 2018).
Observou-se que os estudos têm avaliado a saúde emocional dos pais e, também, a rede de apoio, mas somente associada ao estresse, o que aponta para uma lacuna na literatura de estudos que avaliem a saúde emocional (estresse, depressão e ansiedade) e a relacionem com a rede de apoio percebida de cuidadores de crianças com deficiências já identificadas ou com suspeita de deficiência, caracterizadas por atrasos no desenvolvimento na primeiríssima infância. É nesse período de desenvolvimento, definido como de zero a três anos de idade, que ações preventivas devem acontecer, tanto visando ao melhor desenvolvimento da criança como à adaptação dos pais, especialmente das mães, ao novo papel (Núcleo Ciência pela Infância [NCPI], 2014). Portanto, identificar aspectos da sua saúde emocional, assim como da sua percepção da rede de apoio, pode fornecer informações importantes para futuras intervenções.
Os objetivos deste estudo são, por conseguinte, descrever a saúde emocional materna, mais especificamente quanto aos indicadores de estresse, ansiedade e depressão; descrever a rede de apoio social de mães de crianças com deficiência; e correlacionar a percepção de rede de apoio com a saúde emocional materna.
2 MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo e prospectivo sobre os efeitos da saúde emocional materna e da rede de apoio social percebida. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Faculdade de Ciências, da cidade de Bauru, São Paulo (Processo nº 3.509.816/2019). Para a coleta dos dados, foram tomadas todas as providências éticas cabíveis por ocasião do convite para a participação neste projeto, de acordo com a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), e com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).
As participantes foram informadas sobre o objetivo do projeto, as atividades pertinentes a ele, a ausência de qualquer ônus para a participação, o sigilo das informações por elas fornecidas quando da apresentação dos dados em eventos e publicações da área, assim como a manutenção dos demais serviços por elas usufruídos nas instituições parceiras, em caso de desistência, o que poderia ocorrer em qualquer fase desse projeto. A partir do aceite e dirimidas todas as dúvidas, as participantes ou responsáveis pelo bebê assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Cabe ressaltar que foram oferecidas e realizadas sessões de devolutiva dos dados individuais para as participantes ao final do projeto e, quando necessário, foram realizadas as orientações e os encaminhamentos apropriados para os serviços de Psicologia da rede pública da cidade.
2.1 PARTICIPANTES
Participaram 25 mães de crianças com deficiência, com idade de três a 24 meses, que foram identificadas em maternidades da região e encaminhadas para os Núcleos de Atendimento de Saúde que, via Central de Atendimentos, as direcionam a uma das instituições da cidade.
Quanto à idade materna, 56% estavam na faixa etária de até 30 anos, 48% das mães concluíram o Ensino Médio, 72% estavam em uma união estável e 56% tinham dois ou mais filhos. Foram 26 os bebês participantes, considerando que havia gêmeos na amostra. Quanto aos bebês participantes, a idade prevalente foi entre nove e 14 meses (34,61%), sendo 53,85% do sexo feminino. Dos bebês, 69,23% já possuíam diagnóstico da deficiência e, dos oito bebês restantes, sete eram bebês pré-termo, com comorbidades, porém estavam em fase de diagnóstico. O bebê restante, apesar de ter nascido a termo e com peso adequado, apresentou suspeita de atraso no desenvolvimento e, também, estava em fase de diagnóstico. Dos bebês com diagnóstico, prevaleceu a Síndrome de Down (CID Q90), com 19,23% da amostra. As demais crianças tinham diagnósticos variados, por exemplo, TEA, Síndrome de Turner e paralisia cerebral quadriplégica espástica, entre outros.
As avaliações de saúde emocional e de rede de apoio social foram realizadas nas instituições de serviços especializados Sorri-Bauru e Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), ambas na cidade de Bauru, interior do estado de São Paulo. A coleta de dados foi realizada em uma sala apropriada, sem ruído ou outros estímulos e garantindo a privacidade da mãe. Nos dois locais de coleta, em função da pandemia, os protocolos de cuidados foram rigorosamente seguidos pelas participantes e pela pesquisadora.
2.2 INSTRUMENTOS
Para a coleta dos dados sociodemográficos, foi elaborada uma entrevista inicial, elaborada para a presente pesquisa, que contempla os dados pessoais dos pais e dos bebês, informações sobre saúde emocional materna (se faz uso de medicação, se passa por acompanhamento psicológico e psiquiátrico), assim como informações anteriores ao nascimento do bebê, condições do nascimento e informações sobre o bebê atualmente.
Para avaliação do estresse, foi utilizada a Escala de Estresse Percebido (PSS). A PSS foi elaborada por Cohen et al. (1983) e validada em três estudos brasileiros (Faro, 2015; Luft et al., 2007; Reis et al., 2010), tendo consistência de Alpha de Cronbach de 0,83, 0,77 e 0,96, respectivamente (Faro, 2015). A escala é composta por 14 questões, seguindo o modelo Likert, com alternativas que variam de zero a quatro. Os escores podem variar de zero a 56, e o total é a soma das pontuações. Na presente pesquisa, foi utilizada pontuação acima de 30 pontos para considerar alto nível de estresse ou estresse em nível clínico (Faro, 2015).
Para avaliação da ansiedade, foi utilizado o IDATE, elaborado por Spielberger et al. (1970) e validado por Biaggio e Natalício (1979). O instrumento é composto por duas escalas, cada uma com 20 itens, que possibilitam a avaliação dos dois conceitos: traço e estado. Os escores podem variar de 20 a 80 pontos, indicando a baixa pontuação baixo nível de ansiedade e a alta, o oposto. Os pontos de corte escolhidos neste estudo foram de 48 pontos para cada escala, já utilizados em outros estudos para considerar ansiedade em nível clínico (Perosa et al., 2008; Perosa et al., 2009; Schiavo et al., 2018). A consistência interna da escala apresentou um Alfa de Cronbach de 0,82 na dimensão estado e 0,89 em traço para a população feminina (Fioravante et al., 2006).
A depressão foi avaliada com a Escala de Depressão Pós-parto de Edimburgo (EPDS), elaborada por Cox et al. (1987) e validada para a população brasileira por M. F. S. Santos et al. (1999) e por I. S. Santos et al. (2007). A escala é um instrumento de autorregistro, composta por dez questões relativas aos sintomas comuns de depressão no período pós-parto. Para cada pergunta, há quatro opções de respostas, associadas a uma pontuação que varia de zero a três. A somatória dos pontos das respostas resulta no escore da escala, que varia de zero a 30. Figueira et al. (2009) sugerem o ponto de corte maior ou igual a dez para identificar mulheres com provável depressão pós-parto ou depressão em nível clínico. O Alfa de Cronbach encontrado pelos autores foi de 0,87, demonstrando uma forte consistência interna.
Para avaliação da rede de apoio social, foi utilizada a Escala de Apoio Social (EAS), elaborada por Sherbourne e Stewart (1991) e traduzida para o português por Chor et al. (2001). O instrumento avalia a frequência com que o respondente pode contar com pessoas que o apoiem em diversas situações e é composto por 19 itens, cada um com cinco alternativas, variando de nunca (1) a sempre (5). Ela conta com cinco dimensões funcionais de apoio social: emocional, afetivo, interação social positiva, informação e material. A consistência interna da escala apresentou um Alfa de Cronbach de 0,81 na dimensão de apoio afetivo, 0,89 nas dimensões emocional e de informação, 0,93 na dimensão interação positiva e 0,76 na dimensão material (Chor et al., 2001).
2.3 PROCEDIMENTO
Após levantamentos periódicos realizados nas duas instituições sobre as mães de bebês de três a 24 meses de idade que estavam em atendimento, a pesquisadora realizava o convite via telefone, presencialmente, no momento de interconsultas, ou por meio de mensagem de texto.
Diante do aceite, um horário era agendado com as participantes, de acordo com sua disponibilidade nas instituições. No primeiro encontro, os procedimentos referentes ao projeto eram explicados e as dúvidas, resolvidas. Aceitando participar do estudo, a mãe assinava o TCLE. Era feita a entrevista inicial com a mãe e, em seguida, eram aplicados os instrumentos de saúde emocional e de rede de apoio social, de forma individual. A mãe recebia um instrumento e, após respondê-lo, devolvia-o à aplicadora e recebia outro. Em alguns casos, a mãe solicitava à aplicadora, que permanecia na sala para eventuais dúvidas, que a ajudasse no entendimento dos itens. A aplicação dos instrumentos durava, em média, 40 minutos.
2.4 ANÁLISE DE DADOS
A PSS, o IDATE, a EPDS e a EAS foram analisados e categorizados de acordo com seus respectivos manuais de correção. Para os dados obtidos com três dos instrumentos, o teste de Shapiro-Wilk atestou normalidade (PSS, p = 0,252; IDATE Traço, p = 0,724; EPDS, p = 0,604), e foi utilizado o teste t de uma amostra, assim como o teste de Pearson para a análise de correlação. Para as análises com os dados do IDATE Estado, utilizou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov, cujos dados, utilizando o teste de Shapiro-Wilk, não atestaram normalidade (p = 0,043).
Análises de frequência absoluta e relativa também foram utilizadas para verificar a incidência de participantes com e sem indicadores emocionais em nível clínico. A EAS foi descrita em termos de pontuação acima ou abaixo da média. Os dados do PSS, IDATE Traço e EPDS foram relacionados aos dados de cada uma das dimensões da EAS, utilizando o teste de correlação de Pearson. Para os dados do IDATE Estado, utilizou-se o teste de correlação de Spearman. O índice de coeficiência foi de 95%.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Inicialmente, serão apresentados os dados descritivos de saúde emocional materna em termos de frequência absoluta e relativa de mães com indicadores clínicos e a distribuição da amostra quanto ao número de indicadores clínicos. Também foram analisados os dados de saúde emocional considerando o esperado para a amostra de referência dos testes utilizados.
Quanto à percepção da rede de apoio, serão apresentados os dados médios obtidos pelo grupo em cada uma das dimensões avaliadas pelo instrumento. Correlações entre a saúde emocional e a percepção de rede de apoio também serão analisadas.
3.1 A SAÚDE EMOCIONAL DE MÃES DE BEBÊS COM DEFICIÊNCIA
A Tabela 1 mostra a frequência das participantes com indicadores clínicos para estresse, ansiedade e depressão. A ansiedade traço (60%) e a depressão (52%) foram os constructos de saúde emocional mais frequentes entre as participantes.
Distribuição da frequência absoluta e relativa das participantes com indicadores clínicos e não clínicos para saúde emocional materna avaliados pelo PSS, IDATE e EPDS
Os resultados obtidos demonstram que a depressão (65%) e a ansiedade traço (57,5%) foram os constructos de saúde emocional mais frequentes entre as participantes. Das participantes da amostra, 75% apresentaram níveis elevados em pelo menos um desses constructos (estresse, ansiedade e depressão). Os dados de depressão do presente estudo (52% das participantes) confirmam os identificados por D. R. Silva et al. (2020). Em uma revisão de literatura sobre a depressão em mães e pais de crianças com deficiência física, os autores identificaram que cerca de 57% dos participantes apresentaram níveis leves, moderados e severos de depressão. Eles concluíram que um fator preponderante é o tempo em que o diagnóstico de deficiência infantil foi estabelecido, assim como a reação e a elaboração dos pais após ele.
Moreira et al. (2023) também encontraram frequências altas de mães com depressão, ansiedade e estresse entre mães de crianças com deficiência visual. Dentre outras sugestões, destaca-se a necessidade de avaliação de depressão, estresse e ansiedade nessa população, o que possibilitaria a elaboração de programas ou o encaminhamento para serviços de saúde complementares, em casos mais graves (Benetti & Cunha, 2008).
Todavia, os dados indicam que as mães apresentaram indicadores clínicos em mais de um constructo (estresse, ansiedade traço, ansiedade estado e depressão pós-parto). A Tabela 2 mostra a frequência dos indicadores clínicos para a amostra toda.
Observa-se que, das participantes, 44% apresentaram dois ou mais indicadores clínicos para saúde emocional. A maioria das mães deste estudo apresentou indicadores clínicos para ansiedade traço, estresse e depressão, com níveis próximos aos da pontuação de corte dos instrumentos utilizados. Tal análise ocorreu por não contar com um grupo de comparação de mães de crianças sem deficiência, como nos estudos de Figueiredo et al. (2010), Matsukura et al. (2007) e Pederro (2018). Esses autores encontraram resultados piores entre as mães de crianças com deficiência. Da mesma forma, Vilaseca et al. (2014) encontraram resultados piores nas mães quando comparadas com os pais. Ainda que os constructos tenham sido avaliados com instrumentos diferentes, os resultados convergem na mesma direção, indicando a necessidade de atenção diferenciada para essa população desde o diagnóstico da deficiência da criança.
Os resultados do presente estudo também corroboram os achados de Ferreira (2021), que realizou uma revisão integrativa sobre a saúde mental de familiares responsáveis por crianças com deficiência intelectual e/ou física e identificou estresse, ansiedade, depressão e angústia como os principais sintomas relatados pelos membros familiares, constituídos predominantemente por mães. Outro aspecto mencionado pelo autor foi em relação à falta de apoio social a essa população, que, por vezes, tinha que abdicar de autocuidado, lazer e atividades laborais, o que também corrobora o fato de que 72,5% das mães da presente pesquisa não trabalhavam fora.
Na Tabela 3, apresenta-se a pontuação média do grupo comparada com o ponto de corte de cada um dos instrumentos, utilizando o teste t para uma amostra.
Observa-se que, comparando com o valor médio padrão dos instrumentos para o PSS e o IDATE Estado, as médias do grupo ficaram abaixo da pontuação de corte, ficando, no caso do IDATE Estado, significativamente abaixo da média do teste, porém com efeito pequeno. Para os resultados médios do grupo no IDATE Traço e no EPDS, observa-se que não houve diferença entre a nota de corte e a média do grupo, estando os resultados do grupo um pouco acima da média clínica (Tabela 3). Tais dados indicam que o grupo obteve médias próximas à linha de corte, predominantemente com indicadores clínicos nessas áreas.
3.2 A REDE DE APOIO SOCIAL E A SAÚDE EMOCIONAL MATERNA
A percepção da rede de apoio é avaliada a partir de cinco dimensões: material, emocional, informação, interação social e afetivo. A pontuação máxima do instrumento em todas as dimensões foi maior que 70, acima da pontuação média do instrumento, indicando uma percepção favorável em todas as dimensões (Tabela 4).
Tomando arbitrariamente a média do grupo como parâmetro, obteve-se o percentual de mães que, segundo sua percepção, relataram estar acima ou abaixo dela, como mostra a Tabela 5.
Distribuição das participantes de acordo com a percepção acima ou abaixo da pontuação média do grupo
Os dados mostram que, na dimensão emocional e na de informação, mais da metade das mães pontuaram abaixo da média. Observa-se que cerca de 40% das participantes percebem menos a presença de apoio em todas as dimensões. Esse dado corrobora os encontrados entre mães de crianças com deficiência visual (Moreira et al., 2023) e entre mães de crianças com TEA (Christmann et al., 2023).
Foi efetuada a análise de correlação entre os resultados das cinco dimensões de apoio social e os resultados de estresse, ansiedade traço e estado e depressão (Tabela 6).
Resultados da análise de correlação entre os constructos de saúde emocional e as dimensões da percepção de rede de apoio
Foram observadas correlações fracas negativas entre percepção de rede de apoio emocional (p = 0,040) e material (p = 0,015) e estresse. Para ansiedade traço, foram observadas correlações moderadas negativas com todas as dimensões da percepção de rede social, indicando que, quanto maior a ansiedade traço, menor a percepção de rede de apoio. A depressão correlacionou-se fraca e negativamente com percepção de rede de apoio emocional, material, social e afetivo. Não foram observadas relações significativas entre as dimensões de percepção de rede de apoio e ansiedade estado, analisadas utilizando o teste de correlação de Spearman.
A percepção de rede de apoio insuficiente é um fator de risco para a saúde emocional materna. Matsukura et al. (2007) também encontraram que mães de crianças com deficiência relataram menor percepção de apoio recebido. As mães de bebês com deficiência do presente estudo apresentaram correlações negativas e moderadas entre todas as dimensões da percepção de rede social (material, emocional, informação, interação e afetivo) com ansiedade traço, isto é, quanto maior a ansiedade traço, menor era a percepção de rede de apoio. Outra correlação fraca e negativa foi observada entre depressão e as dimensões emocional, social e afetivo, indicando que, quanto mais indicativos de depressão as mães apresentavam, menor era a percepção de rede de apoio nesses constructos.
Spinazola et al. (2018) avaliaram a rede de apoio social de mães de crianças com deficiência física (G1), Síndrome de Down (G2) e TEA (G3), constatando que as mães do primeiro grupo tinham menos pessoas com quem podiam contar, as do segundo grupo apresentavam necessidade de apoio e ajuda na dinâmica familiar e as do terceiro grupo tinham mais necessidade de auxílio na forma de explicar a condição do filho à sociedade e em como se comunicar com eles. Estudos recentes com mães de crianças com deficiência visual e com TEA também reforçam esses achados (Christmann et al., 2023; Moreira et al., 2023).
Os dados sobre a correlação entre depressão e rede de apoio em mães de bebês da presente pesquisa também corroboram os resultados de M. L. C. Santos et al. (2022), que identificaram associação entre sintomas de depressão pós-parto em puérperas e baixo nível de suporte social e afetivo. Resultados semelhantes também foram identificados por Morais et al. (2017). Associações entre traços de ansiedade em mães de bebês e baixa percepção de rede de apoio social também foram encontradas por Irurita-Ballesteros et al. (2019), ao avaliarem a saúde emocional materna tanto no período gestacional quanto no pós-parto. Com isso, ressalta-se a importância do encaminhamento dessa população para serviços de apoio à saúde emocional.
4 CONCLUSÕES
Os objetivos do presente estudo foram descrever e comparar a saúde emocional, assim como a rede de apoio social de mães de crianças com deficiência, e correlacioná-las. Os resultados indicaram que mais da metade das mães de bebês com deficiência apresentaram indicadores clínicos de estresse, ansiedade traço e depressão, o que reforça o encontrado em outros estudos da área e sugere a importância de serviços psicoterapêuticos para essa população. Provavelmente, um desdobramento dessas condições é que também percebem sua rede de apoio como desfavorável.
A limitação do estudo foi o baixo número de participantes e a ausência de um grupo controle composto por mães de crianças sem deficiência. Recomenda-se que estudos futuros sejam realizados com populações maiores, comparando-as com mães de crianças sem deficiência, e que também sejam desenvolvidas intervenções voltadas a essa população.
Disponibilidade de dados
Todo o conjunto de dados que deu suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
REFERÊNCIAS
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Editoras responsáveis
Aline Maira da Silva (Editora-chefe)Gerusa Ferreira Lourenço (Editora associada)
