RESUMO
A mentoria entre pares promove, por meio de um vínculo horizontal entre estudantes, o desenvolvimento de habilidades relacionadas à autonomia e à gestão pessoal dos estudos e da vida cotidiana. Um projeto-piloto de mentoria interprofissional entre pares foi desenvolvido na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), com o intuito de facilitar a transição acadêmica de discentes de Medicina e Enfermagem. Este estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, descreve como se deu a implementação do Projeto Mentoria da ESCS em 2022 e investiga o perfil sociodemográfico dos participantes, além de analisar a percepção deles sobre a experiência. Estudantes de graduação em Medicina e Enfermagem que participaram desta edição do projeto como mentores (veteranos) e mentorandos (calouros) compõem a amostra do estudo. Foram ao todo 14 mentores de Medicina e uma mentora de Enfermagem, bem como sete mentorandos de Medicina e seis de Enfermagem. O perfil predominante corresponde a estudantes do gênero feminino, com idade média de 23 anos, oriundas do Distrito Federal e que vivem com os familiares. Ocorreram encontros quinzenais em pequenos grupos mistos e encontros mensais com todos os participantes para discussão de temas de interesse coletivo. Os mentores e mentorandos afirmaram que a mentoria forneceu um ambiente de apoio mútuo e lhes proporcionou conhecimentos úteis para sua formação. A experiência oportunizou ainda a integração entre os cursos e permitiu uma troca de vivências que antecipa o futuro trabalho em equipe, promovendo o entendimento dos diferentes papéis profissionais e reforçando a importância da colaboração interprofissional. Os principais desafios relatados foram a dificuldade de agendar os encontros quinzenais e a limitação da participação de veteranos de Enfermagem. O projeto de extensão obteve êxito e confirma que a mentoria entre pares é uma ferramenta importante no acolhimento dos estudantes ingressantes e na sua adaptação ao contexto do ensino superior. O desafio que permanece é encontrar um formato (virtual, presencial, híbrido) de mentoria para a ESCS, com vistas a aumentar a participação e a aproximação de estudantes cujos cursos funcionam em campi diferentes, com agendas curriculares exigentes e distintas.
Palavras-chave:
Mentores; Educação Médica; Educação em Enfermagem; Educação Interprofissional; Saúde Mental
ABSTRACT
Peer-mentoring promotes, through a horizontal bond among students, the development of skills related to autonomy, self-assurance, and personal management in studies and daily life. A pilot project of interprofessional peer-mentoring was developed at Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS) aiming to facilitate the academic transition for medical and nursing students. This exploratory and descriptive study, with a qualitative approach, describes how the ESCS Mentoring Project was implemented in 2022 and investigates the sociodemographic profile of the participants, in addition to analyzing their perceptions about the experience. Undergraduate students from the medicine and nursing courses who participated in the 2022 edition as mentors (seniors) and mentees (freshmen) constitute the study sample. In total, there were 14 medical mentors and 1 nursing mentor, along with 7 medical and 6 nursing mentees. The predominant profile corresponds to female students, with a mean age of 23 years, from the Federal District and living with family members. Biweekly meetings were held in small mixed groups, besides monthly meetings involving all participants to discuss topics of collective interest. Mentors and mentees stated that mentoring provided a mutually supportive environment and offered valuable insights for their education. Additionally, mentoring facilitated integration between the courses and allowed an exchange of experiences that anticipates future teamwork, promoting the understanding of different professional roles and reinforcing the importance of interprofessional collaboration. The main challenges reported were the difficulty in scheduling biweekly meetings and the small participation of senior nursing students. The extension project was successful and confirms that peer-mentoring is an important tool in welcoming incoming students and adapting them to the higher education context. The remaining challenge is to find a mentoring format (virtual, in-person, hybrid) at ESCS aiming to reinforce participation and proximity between students whose courses operate on different campuses, with demanding and distinct curriculum schedules.
Keywords:
Mentoring; Nursing Students; Medical Students; Interprofessional Education; Mental Health
INTRODUÇÃO
Os primeiros programas de mentoria, ou mentoring, foram instituídos em contextos norte-americanos e europeus na década de 1970, e, desde então, vêm sendo estabelecidos também no Brasil. A mentoria pode ser caracterizada como uma relação de orientação e suporte entre uma pessoa mais experiente e outra iniciante, sendo sua dinâmica de acolhimento e compartilhamento de experiências especialmente importante nos meios acadêmico e profissional1. Trata-se de uma estratégia com potencial de suporte para estudantes em um momento de transição marcado por intensas mudanças2.
A saída do ensino médio se associa à incorporação de novas responsabilidades inerentes tanto ao ambiente acadêmico e às suas obrigações como à chegada à vida adulta. É um período de adaptação que costuma ser marcado por incertezas, ansiedade e sentimentos de frustração, com grande impacto na saúde física e mental dos estudantes3. Um programa voltado para a geração de vínculos interpessoais, bem como para a promoção de conhecimento, habilidades e postura ética4),(5, pode tornar o ingresso no ensino superior menos árduo. Além disso, essa estratégia tem o potencial de favorecer a exploração de aspectos não contemplados na grade curricular tradicional, como a promoção de relações de equidade ao incentivar maior integração entre estudantes não brancos, de orientação não heterossexual e que recebem bolsa de auxílio da universidade6.
No que se refere especificamente à graduação em Medicina, a extensa carga horária, as exigências de docentes e a competitividade entre estudantes trazem desafios desde o ingresso no curso. Além disso, os alunos de Medicina estão sujeitos a sofrimento e sentimentos de despreparo durante a graduação, devido, por exemplo, ao contato com pacientes graves e com possibilidade de desfecho negativo. Tais elementos se associam não somente à redução da qualidade de vida, mas também a prejuízos no rendimento acadêmico e ao comprometimento da esfera pessoal dos discentes7),(8.
Similarmente, o exercício da enfermagem nas instituições de ensino pode se associar a estressores emocionais constantes, na medida em que os estudantes se dedicam ao desenvolvimento de habilidades de cuidado, mas menosprezam sua própria saúde mental e física. Esse fenômeno também pode ser explicado pelo próprio sistema educacional, que não costuma oferecer estratégias para fortalecimento da esfera psicológica durante o percurso acadêmico9. Assim, é fundamental que os estudantes disponham de equipamentos que identifiquem dificuldades no aprendizado e promovam uma rede de apoio para sua formação10),(11.
Nesse contexto, a mentoria entre pares pautada na relação estudante-estudante é especialmente proveitosa para os discentes por permitir um vínculo simétrico e de compreensão recíproca. Os mentores, por serem alunos veteranos, estão em uma posição única para auxiliar no manejo de problemas diários enfrentados pelos estudantes devido às suas experiências compartilhadas e à natureza não hierárquica da relação que promovem12. Além disso, são compreendidos como mais acessíveis para certas conversas13),(14, criando um ambiente seguro para a abordagem de questões sensíveis. As relações de mentoria são consideradas mais funcionais quando envolvem valores compartilhados, comprometimento mútuo, clareza de expectativas e conexão pessoal5),(15.
A inclusão de experiências interprofissionais durante a graduação tem sido um desafio para a formação em saúde atualmente. Embora simples no seu conceito, sua implementação pode encontrar barreiras, como o grande número de estudantes, escassez de recursos e falta de disponibilidade ou preparação do corpo docente16),(17. Apesar disso, considerando que o cuidado integral destinado ao paciente envolve a participação de diferentes entidades profissionais complementares, é importante que os cursos contemplem oportunidades de trabalho em equipe, como parte de um aprendizado contínuo16. Uma estratégia educacional que promova o diálogo entre estudantes de diferentes áreas da saúde também permite que eles aprendam sobre o papel dos outros e colaborem em torno de uma agenda em comum18, o que é crucial em um ambiente de saúde cada vez mais complexo e interdependente.
Um projeto-piloto de mentoria interprofissional entre pares foi desenvolvido na Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), levando em conta as particularidades dos cursos de Medicina e Enfermagem, e visando à vivência solidária no ensino superior, assim como à identificação precoce e ao manejo inicial de situações de sofrimento psíquico entre os estudantes. Este estudo descreve e analisa a experiência de implantação do projeto de extensão “Mentoria da ESCS”, desenvolvido entre março e dezembro de 2022.
MÉTODO
Este estudo, de caráter exploratório e descritivo com abordagem qualitativa, apresenta como se deu o desenvolvimento do Projeto de Extensão Mentoria da ESCS ao longo de 2022, além de descrever o perfil sociodemográfico dos estudantes que participaram do projeto e analisar a percepção deles sobre a experiência.
A pesquisa se baseia na análise de documentos do projeto de extensão, incluindo fichas de inscrição e fichas de avaliação preenchidas pelos estudantes via formulários Google Forms no início e ao final do projeto, respectivamente. A coleta de dados foi realizada pelas coordenadoras do projeto de extensão após o encerramento dele, garantindo o sigilo dos participantes por meio da utilização de dados agregados. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde (CEP-Fepecs) da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES/DF): Parecer nº 5.556.704/2022.
Foram incluídos os dados de estudantes maiores de 18 anos que aceitaram participar da pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Excluíram-se as fichas com informações incompletas quanto às variáveis pesquisadas. As variáveis de interesse foram o perfil dos participantes do estudo (idade, gênero, curso, etapa da graduação, região de origem e moradia); as percepções de mentores e mentorandos sobre a experiência da mentoria, bem como sugestões para edições futuras.
RESULTADOS
Projeto de Extensão Mentoria da ESCS
O projeto de extensão teve a seguinte estrutura: encontros quinzenais em pequenos grupos mistos com estudantes (calouros e veteranos) de Medicina e Enfermagem, bem como encontros mensais com todos os participantes para discussão de temas de interesse coletivo. As atividades incluíram ainda a capacitação e supervisão de mentores, realizadas por duas psicólogas da instituição de ensino superior (IES), coordenadoras do projeto.
A divulgação do programa foi realizada pelas redes sociais da faculdade, em reuniões com as lideranças estudantis e em palestras na semana de acolhimento dos calouros. As inscrições ocorreram eletronicamente via formulário Google Forms. Todos os encontros aconteceram em formato on-line. Para obter a certificação do projeto de extensão, os participantes deveriam alcançar 75% de presença nas atividades previstas, bem como apresentar o “diário de bordo” - instrumento que visava acessar a percepção dos discentes sobre cada encontro ao longo do projeto, nos pequenos e grandes grupos.
A Figura 1 ilustra as atividades desenvolvidas. Inicialmente, ocorreram dois encontros de capacitação para mentores, com o intuito de fornecer ferramentas, informações e orientações antes do início das práticas de mentoria. A partir da chegada dos mentorandos, foram formados cinco grupos de mentoria de até oito estudantes, cada um com dois a quatro mentores de cursos distintos. Os encontros quinzenais em pequenos grupos abrangeram um total de 13 sessões (26 horas). Os temas de discussão eram propostos pelos próprios integrantes, que elegiam o assunto mais relevante para o momento. Esse formato objetivou promover a aproximação entre os estudantes e fortalecer os laços de apoio mútuo.
Os encontros mensais com todos os participantes, por sua vez, ocorreram em oito sessões, contabilizando 16 horas, com a intenção de promover a integração e a troca de experiências entre mentores e mentorandos de forma coletiva. Cada reunião contou com um profissional médico ou um enfermeiro convidado para discutir temas relevantes ao momento acadêmico ou ao futuro profissional. Os temas das reuniões foram: “Encontro de boas-vindas”; “O que é mentoria”; “Gestão de tempo e organização dos estudos”; “Trajetória profissional na medicina e na enfermagem pela visão de egressos da ESCS”; “Experiência de veteranos com o Programa de Iniciação Científica da ESCS”; “Saúde mental e prevenção ao suicídio”; “Saúde mental dos estudantes de Medicina e Enfermagem”; “Encontro de encerramento: avaliação do projeto de extensão”.
Quanto ao acompanhamento dos mentores, realizaram-se três encontros de supervisão com as coordenadoras do projeto ao longo do ano, totalizando quatro horas. A supervisão pretendia fornecer suporte ao processo de mentoria a partir da construção de um espaço de reflexão, discussão de desafios e troca de experiências entre os mentores. A atividade de “diário de bordo” individual possibilitou a avaliação contínua do projeto, já que os registros das percepções de todos os participantes em todos os encontros de mentoria puderam ser acompanhados pelas coordenadoras ao longo do ano.
A carga horária total dos participantes variou de acordo com seus papéis, com os mentores somando 71 horas, e os mentorandos, 63 horas de participação. Entre os estudantes que foram certificados, constatou-se um maior número de mentorandos de Enfermagem (12 para Enfermagem e sete para Medicina), com predominância feminina (nove de Enfermagem e quatro de Medicina). Já entre os mentores, 14 veteranos de Medicina (oito do gênero feminino e seis do gênero masculino) foram certificados, ao passo que apenas uma veterana de Enfermagem cumpriu os critérios de certificação.
Perfil dos participantes do estudo
Todos os participantes que cumpriram os critérios de certificação foram convidados a participar do estudo por meio da assinatura do TCLE, e, dos 19 mentorandos certificados, 13 (68,42%) concordaram em participar da pesquisa. Quanto aos mentores, os 15 certificados (100%) assentiram. Ressaltamos que esse foi o universo utilizado neste estudo para a análise qualitativa dos dados coletados do projeto de extensão. A Figura 2 ilustra a distribuição dos participantes conforme cursos e papéis desempenhados no projeto.
A Tabela 1 apresenta detalhes sobre o perfil dos participantes. Constatou-se predominante o seguinte: gênero feminino (53,57%), com idade média de 23 anos, sendo 14 mentores de Medicina e uma mentora de Enfermagem, sete mentorandos de Medicina e seis de Enfermagem. A maioria é oriunda do Distrito Federal (50%) e vive com os familiares (67,8%).
Percepção dos participantes sobre a experiência da mentoria
Ao final do programa, mentores e mentorandos responderam a um formulário on-line de avaliação do projeto. Os mentores relataram suas percepções sobre como o projeto de extensão contribuiu para a sua formação profissional e para o seu desempenho naquele ano letivo, além de contar como foi a experiência de ser mentor. Já os mentorandos relataram suas percepções sobre como a mentoria contribuiu para sua adaptação à ESCS e para o seu desempenho naquele ano letivo, além de avaliarem a atuação dos mentores. O Quadro 1 apresenta as categorias de respostas e exemplos de algumas falas dos estudantes.
Percepção dos mentores
O Quadro 1apresenta as categorias de respostas e exemplos de algumas falas dos veteranos. Os mentores avaliaram a presença de estudantes de Medicina e de Enfermagem no mesmo grupo como positiva e comentaram que o projeto viabilizou uma interação que não costuma acontecer entre os dois cursos em outras oportunidades. Além disso, relataram identificar nas demandas dos calouros questões que eles também enfrentaram no passado, sendo essa uma oportunidade para tranquilizar os recém-chegados a partir da perspectiva de alguém que já passou por eventos similares.
A percepção de terem exercido um impacto positivo para os mentorandos foi vista como um outro ponto importante. Alguns mentores relataram que a experiência com a mentoria oportunizou o “olhar para si mesmo”, assim como uma reflexão sobre o crescimento pessoal e amadurecimento profissional. A habilidade de escuta também foi citada pelos veteranos como um ganho positivo da experiência, representando uma aquisição fundamental para o exercício profissional.
Contudo, também foram relatadas experiências negativas dos mentores enquanto se esforçavam para manter o interesse do grupo pelas atividades. O sentimento de frustração foi citado por não conseguirem mobilizar os participantes a se engajar nas propostas de forma coletiva. Além disso, alguns mentores comentaram que se sentiram sobrecarregados ao organizarem os encontros em horários que fossem convenientes para todos do pequeno grupo, deixando como sugestão para futuros projetos a realização de grupos menores.
Quanto à possibilidade de retornarem ao projeto como mentores novamente em próximas edições, a maioria (sete) afirmou o interesse. Aqueles que não pretendem retornar (seis) citaram como razão o desejo de participar de outras experiências acadêmicas proporcionadas pelo curso ou a existência de outras prioridades exigidas pelo final do curso, no caso daqueles próximos da formatura. Uma menor parte (três) não tem certeza da resposta devido às incertezas quanto ao manejo de tempo para estudo e às sobrecargas de tarefas associadas.
Percepção dos mentorandos
As dicas de estudos e de manejo de tempo, bem como elucidações sobre o funcionamento da instituição, foram consideradas como importantes ferramentas na adaptação à faculdade. Os aspectos de compartilhamento de inseguranças devido às mudanças de rotina e às intensas exigências curriculares também foram compreendidos como pontos positivos da mentoria.
No que se refere particularmente à demanda dos mentorandos de Enfermagem, a ausência de mentores de seu próprio curso teve repercussão negativa nas discussões em alguns grupos. Contudo, em outros grupos, a formação de vínculos foi forte o suficiente para que essa discrepância fosse menos percebida.
As principais sugestões de mudança envolveram a realização de encontros em grupos menores e de alguns encontros presenciais; a participação mais balanceada de mentores dos dois cursos; e o planejamento prévio das atividades de cada encontro pela gestão do projeto, com temas preestabelecidos.
Quanto à possibilidade de retornarem ao projeto nas próximas edições, dessa vez no papel de mentores, sete estudantes manifestaram interesse. A participação desigual de mentores de ambos os cursos, inclusive, foi citada por alguns mentorandos de Enfermagem como condição motivadora para voltar a participar no futuro e suprir essa carência. As maiores resistências para o voluntariado envolveram a falta de tempo e de disponibilidade para se comprometer com essa responsabilidade, manifestadas por seis estudantes. Um mentorando não tinha certeza da resposta.
DISCUSSÃO
O peer-mentoring foi apontado em outras experiências como um instrumento que oportunizou relações horizontais entre estudantes, facilitando a construção de um espaço seguro para a exposição de medos, angústias e sofrimentos a seus pares11),(19)-(23. Segundo os estudantes, essa realidade se replicou no nosso projeto-piloto, visto que tanto veteranos como calouros vivenciaram situações na mentoria que os auxiliaram a lidar com o estresse emocional. A disposição dos mentores em contribuir novamente para o projeto, bem como de mentorandos em se tornar mentores em futuras edições, é um outro indicador positivo do sucesso da mentoria.
Além do suporte para questões de bem-estar e de saúde mental, o aprimoramento de habilidades como a comunicação foi percebido pelos nossos mentores. Nesse sentido, o projeto realizado em 2020 com alunos de Medicina da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)24 teve objetivos e resultados próximos aos deste trabalho, como o desenvolvimento de habilidades úteis para o desenvolvimento pessoal e acadêmico, incluindo a capacidade de escuta altruísta. Trata-se de uma competência que se amplia também para os cenários de prática clínica, pois se associa, por exemplo, à transmissão de um diagnóstico de forma compreensiva e ao reconhecimento do sofrimento emocional de pacientes, permitindo que o profissional responda de forma adequada25. Com isso, fica claro que, além de ser um aspecto essencial da mentoria, a comunicação efetiva é uma qualidade fundamental de um bom cuidador em saúde.
Por sua vez, o “peso” do compromisso com o projeto de mentoria em momentos de alta demanda dos cursos emergiu como um tema importante nas falas dos mentores, o que também foi identificado em outras experiências26),(27. Em relatos publicados, os mentores apontaram dificuldades em conciliar suas próprias responsabilidades acadêmicas primárias com as atividades de apoio aos calouros, o que pode ter resultado em aumento do estresse psicológico com consequente prejuízo no impacto positivo da mentoria. Ademais, a falta de compatibilidade de horários entre todos do grupo e a percepção de baixo engajamento dos mentorandos foram queixas trazidas pelos mentores deste e de outros estudos26),(28, o que pode ter reduzido o interesse pelo programa ao longo do tempo. Essa constatação ressalta a importância de reconhecer e mitigar o impacto do peso sobre os mentores em programas de mentoria entre pares, garantindo que o suporte oferecido seja sustentável e benéfico para todas as partes envolvidas.
A integração entre estudantes de Medicina e Enfermagem foi outra característica percebida como muito positiva pelos participantes, com relatos inclusive de um desejo de integração que era anterior ao projeto. Isso revela que, apesar dos inúmeros desafios relacionados à promoção da interprofissionalidade durante a graduação, há uma valorização desse aspecto formativo por parte dos próprios estudantes. A troca de saberes com relação aos diferentes papéis e modos de cuidado dos pacientes, por exemplo, incentiva que os graduandos prezem um ambiente de trabalho coeso, colaborativo e eficiente ao longo de sua carreira5),(16),(17. Destarte, a proposta da mentoria inclusiva a esses dois grupos pode encontrar ambientes férteis para implementação também em outras instituições de ensino.
Ainda sobre esse aspecto, foi citado que a interprofissionalidade do programa contribuiu para a compreensão dos desafios que cada curso oferece a seus estudantes, como a diferença de tratamento que médicos e enfermeiros recebem no hospital. Possíveis percepções negativas previamente estabelecidas sobre o trabalho de cada um se enquadram no que se reconhece como “currículo oculto”, o conjunto de experiências educacionais e profissionais ensinadas de forma não intencional29),(30. Trata-se de práticas com o potencial de orientar ações e valores que podem perpetuar relações de poder desiguais, evidenciando uma falha no currículo formal ao não abordá-las adequadamente. É importante que a graduação garanta a exposição desses aspectos de forma a minimizar seus efeitos deletérios, de modo a tornar o implícito explícito. A experiência de mentoria, nesse caso, se revela como uma estratégia de mudança educacional, ao confrontar antigos preconceitos, abordando aspectos de profissionalismo e promovendo empatia e sensibilidade diante das dificuldades e potenciais de cada profissão.
Um outro conceito subentendido durante a formação em saúde é a constante separação entre habilidades clínicas e qualidades humanísticas, essas últimas com frequência implicitamente entendidas como menos importantes do que as primeiras31. Isso pode corroborar cenários em que os estudantes não buscam ajuda em situações de vulnerabilidade, pois vivem inseridos em uma cultura de falsa autossuficiência dentro dos hospitais e demais serviços. A mentoria, por sua vez, oportuniza a identificação e o acolhimento do sofrimento emocional, além de fornecer um ambiente seguro para seu manejo, permitindo que o estudante identifique suas próprias “fraquezas e fortalezas”, como foi descrito por um mentor, e, assim, possa pedir ajuda adequada sempre que necessário. Essas atividades centradas na relação entre estudantes rompem com a noção de relações hierarquizadas, valorizam o trabalho em equipe e estimulam qualidades de profissionalismo30.
O fato de a maioria dos participantes ser do gênero feminino é compatível com o observado em projetos semelhantes1),(21),(24),(32. Tal perfil de adesão pode ser um reflexo da tendência de feminização da medicina, com aumento consistente da quantidade de mulheres na profissão33, bem como da manutenção de um perfil feminino nos cursos de Enfermagem. Embora as questões de gênero que envolvem a inserção dessas mulheres no contexto acadêmico ou nos serviços de saúde não tenham sido abordadas nas discussões de interesse coletivo, a forte representação feminina no programa abre margem para a inclusão desse tema em edições futuras.
A ausência de mentores discentes de Enfermagem, citada por mentorandos como um ponto negativo da experiência, foi uma frustração também para a coordenação do projeto. Apesar de, durante as inscrições, haver veteranos em igual número de ambos os cursos, ocorreu um esvaziamento de mentores de Enfermagem durante a capacitação e após o início das atividades, o que pode ser atribuído ao melhor entendimento do compromisso a ser assumido na mentoria. Uma outra justificativa pode envolver o choque de horário com outras atividades extracurriculares. A coordenação decidiu, mesmo assim, manter os calouros de Enfermagem no projeto, tentando suprir as demandas comuns desses calouros nos encontros de “Mentoria para Todos”.
Nossa experiência de mentoria desenvolvida na modalidade on-line foi inspirada em projetos semelhantes de outras instituições1),(24),(34. Os participantes deste estudo não mencionaram o formato on-line como desafio ou barreira, mas alguns sugeriram acrescentar encontros presenciais. Essa percepção dos estudantes sugere que um modelo híbrido seria interessante para a ESCS, pois, embora a modalidade on-line facilite o encontro de agendas entre estudantes de cursos e séries diferentes, o formato presencial poderia fortalecer os vínculos pessoais entre calouros e veteranos.
Este estudo reflete sobre a experiência de um projeto-piloto em uma escola que oferece apenas os cursos de Enfermagem e Medicina, não podendo ter seus resultados generalizados. As comparações com projetos similares se limitam a estudos com estudantes de apenas um curso, ou Medicina ou Enfermagem, já que não foram encontrados na literatura relatos de experiências com grupos de estudantes dos dois cursos em um mesmo programa de mentoria.
Um forte diferencial dessa proposta entre pares corresponde, portanto, à integração entre os dois cursos de saúde, aspecto considerado como um dos grandes ganhos da mentoria pelos próprios estudantes. Considerando que quase não há contato entre grupos que estudam em dois campi muito distantes entre si, a proposta interprofissional favoreceu uma aproximação acadêmica que não ocorreria de forma espontânea - apesar de serem graduandos da mesma instituição. Nesse sentido, a mentoria interprofissional pode antecipar a colaboração em equipe a partir do diálogo com outras disciplinas e modos de trabalho, com possível impacto inclusive nos ambientes de saúde.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os mentores e mentorandos afirmaram que o Projeto de Extensão Mentoria da ESCS lhes proporcionou aprendizados relevantes para sua formação, além de representar um ambiente que fomenta o apoio acadêmico e o bem-estar mental por meio do suporte mútuo. O interesse de ambos em participar de edições futuras reflete a valorização da experiência e o desejo de contribuir para o desenvolvimento de outros estudantes. Ademais, a mentoria oportunizou a integração entre dois cursos da área da saúde, possibilitando o compartilhamento de experiências que preparam para o trabalho colaborativo futuro.
O sucesso do programa de extensão comprova a relevância da mentoria entre pares como uma ferramenta importante para acolher os novos estudantes e facilitar sua transição para o ambiente universitário. O desafio que permanece é encontrar um formato (virtual, presencial, híbrido) de programa de mentoria para a ESCS que facilite a aproximação de estudantes de cursos que funcionam em campi diferentes, com agendas curriculares exigentes e distintas.
Para melhorar a adesão ao programa e maximizar seu impacto, podem ser implementadas estratégias como a formação de duplas ou grupos menores de mentorandos, o que facilita a personalização do acompanhamento e a construção de laços mais fortes entre os participantes. Também é importante flexibilizar horários e formatos de encontro, oferecendo alternativas que considerem as diversas demandas acadêmicas dos estudantes. Dessa forma, o programa poderia atender de forma mais eficaz às necessidades dos estudantes, promovendo uma experiência de mentoria ainda mais rica e inclusiva.
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Fonte: Elaborada pelos autores.
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