Resumo
Objetivo Analisar o perfil de gestores responsáveis pela implementação das políticas de saúde da pessoa idosa.
Metodologia Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória, transversal e de abordagem quantitativa. Os dados foram coletados pelo pesquisador em 2024 junto aos gestores municipais da saúde da pessoa idosa. Utilizou-se a técnica de entrevista remota (síncrona) com a aplicação de um questionário on-line e o registro imediato das informações pelo próprio pesquisador durante o diálogo.
Resultado O estudo evidencia um perfil de jovens mulheres, com idade média de 40,4 anos de idade (±8,7), vinculados temporariamente com a Secretaria de Saúde, atuam em média a 2,5 anos (±3,1) na pasta e são Enfermeiros. Aponta ainda, que 89,2% dos entrevistados compartilham da gestão com outras ações em saúde, 65,7% desconhecem os marcos legais e outros documentos norteadores, 54,3% possuem experiência prévia em gestão bem como, 45,7% não participam de Conselhos Municipais de Direitos para Pessoa Idosa.
Conclusão O estudo evidencia fragilidades na gestão da pasta, expressadas por: baixa formação em envelhecimento e gestão das políticas públicas de saúde, vulnerabilidade de vínculo empregatício e a necessidade de desprecarização do trabalho a fim de que, não haja solução de continuidade nos processos de trabalho. Recomenda-se investir em estratégias de capacitação profissional contínua, evitar a rotatividade e sobrecarga laboral dos técnicos a fim de, assegurar uma gestão que impulsione uma linha de cuidado adequada às demandas específicas da população idosa amazônica.
Palavras-chave
Atenção Primária à Saúde; Idoso; Capacitação Profissional; Política de Saúde; Gestão em Saúde.
Abstract
Objective To analyze the profile of managers responsible for implementing health policies for older persons.
Methodology This is a descriptive, exploratory, cross-sectional study with a quantitative approach. Data were collected in 2024 from municipal managers responsible for older persons’ health care. A synchronous remote interview technique was used, involving the administration of an online questionnaire and real-time recording of responses by the researcher.
Results The study reveals a profile predominantly composed of young women, with a mean age of 40.4 years (±8.7), holding temporary positions within municipal health departments, with an average tenure of 2.5 years (±3.1) in their roles, and trained as nurses. The findings also indicate that 89.2% of respondents share management responsibilities with other health programs, 65.7% are unaware of legal frameworks and guiding documents, 54.3% have prior management experience, and 45.7% do not participate in Municipal Councils for Older Persons (CMPI).
Conclusion The study highlights weaknesses in the management of older persons’ health policies, expressed by limited training in aging and public health policy management, employment instability, and the need to improve working conditions to avoid disruptions in work processes. Investment in continuous professional development is recommended, along with strategies to reduce staff turnover and workload among technical staff, ensuring management capable of promoting care pathways aligned with the specific needs of the older population in the Amazon region.
Keywords
Primary Health Care; Aged; Professional Training; Health Policy; Health Management.
INTRODUÇÃO
Embora o Brasil possua uma legislação avançada para a pessoa idosa, sua aplicação prática ainda enfrenta desafios, exigindo maior esforço para garantir autonomia e envelhecimento saudável diante das mudanças demográficas. Pela primeira vez, o número de pessoas idosas supera o de jovens entre 15 e 24 anos de idade (14,8%)1. Nessa perspectiva, o cuidado é orientado pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) - alinhada à Organização Mundial de Saúde (OMS), que busca fortalecer a intersetorialidade, qualificar o cuidado e ampliar o acesso na Rede de Atenção à Saúde (RAS)1,2.
No Amazonas, barreiras geográficas, climáticas e socioeconômicas, impõem restrições multidimensionais. Superar essas distâncias e vazios assistenciais requer soluções inovadoras que atendam às necessidades específicas para o acesso à saúde e melhorias dos hábitos de vida2.
Tais singularidades territoriais demandam que os gestores apresentem potencial estratégico e político, capaz de atuar com a limitada capacidade institucional e adaptar o cuidado ao contexto ribeirinho e indígena, a fim de garantir que a PNSPI seja efetiva em territórios de difícil acesso.
Vale ressaltar que o ritmo de crescimento da população idosa no Amazonas, de acordo com o último censo, demonstrou um aumentou de 3,5%, chegando, em dez anos, a 8,8% da população total. Em Manaus, esse grupo representa 10% dos habitantes, o equivalente a 237 mil pessoas com mais de 60 anos1.
Mediante isso, percebe-se que o atual perfil epidemiológico no Brasil requer um modelo de atenção que atenda adequadamente às necessidades em saúde do usuário por meio de uma Rede de Atenção à Saúde (RAS) organizada e coordenada, com a elaboração de linhas de cuidado, definição de competências e interlocução entre os pontos de atenção3. Tais redes foram estabelecidas a fim de superar a fragmentação e garantir a integralidade do cuidado por meio de diferentes serviços bem como do envelhecimento ativo e saudável4.
Sob essa perspectiva, a Atenção Primária à Saúde (APS) assume papel estratégico como porta de entrada preferencial da RAS. Conforme suas normativas, a APS organiza o cuidado integrando promoção, prevenção e tratamento, além de articular as redes para ampliar longevidade e qualidade de vida. Esses atributos garantem atendimento integral e resolutivo à pessoa idosa no SUS - desde a entrada na RAS até o cuidado longitudinal – com uso eficiente dos recursos públicos, em consonância com o princípio da economicidade5,6.
Nesse contexto, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) desponta como importante aliado ao SUS na atenção à pessoa idosa, unindo o poder público e sociedade civil7. Essa articulação demonstra a necessidade de gestores qualificados, capazes de usar evidências e uma visão holística para superar os desafios do contexto amazônico e assegurar a efetividade das políticas públicas8.
Diante do exposto, analisar o perfil dos gestores das políticas de saúde para as pessoas idosas é essencial para melhorar o gerenciamento das ações, tornar visível a realidade vivida e reforçar a necessidade de qualificação contínua para promover o envelhecimento saudável.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, transversal e abordagem quantitativa, que utiliza como campo de pesquisa os municípios amazonenses. Elaborou-se um roteiro para coleta dos dados adaptado do projeto em andamento: “Qualificação de gestores municipais da política de saúde da pessoa idosa no estado de Pernambuco: uma pesquisa-ação”. Todas as questões fechadas foram configuradas como resposta única, resultando em uma versão final de 31 perguntas distribuídas em três blocos temáticos.
O cenário de investigação compreendeu os 62 municípios do Amazonas. Sua população, atualmente, é de 3.941.613 dos quais 4,2% possuem idade acima de 60 anos1. A população de estudo foi composta por gestores das ações de saúde da pessoa idosa municipais, indicados pela Secretaria de Estado de Saúde.
A amostra contemplou todos os profissionais ativos no período da pesquisa, com a adesão final de 35 gestores. Foram efetuadas, no mínimo, duas tentativas de contato (mensagem/ligação telefônica) com cada profissional. As ausências podem estar relacionadas às limitações operacionais, prioridades políticas divergentes, desconhecimento do impacto da pesquisa, obstáculos logísticos ou ainda, à uma possível resistência institucional em evidenciar vulnerabilidades.
Nesse sentido, a falta de adesão compromete a representatividade do estudo ao gerar um viés de seleção, que reflete apenas realidades dos mais engajados ou estruturados. Tal limitação restringe a análise da diversidade regional e socioeconômica e pode resultar em políticas públicas que não contemplem desafios enfrentados pelos municípios menores ou menor capacidade administrativa.
As ausências foram classificadas como perdas amostrais que seriam evitáveis caso a coleta ocorresse in loco; entretanto, tal estratégia foi inviabilizada pelas grandes distâncias intermunicipais, longa duração das viagens fluviais e pelo elevado custo do transporte aéreo.
Os dados foram coletados em 2024 junto aos gestores municipais da saúde da pessoa idosa por meio de técnica de entrevista remota síncrona, com a aplicação de um questionário on-line e o registro imediato das informações pelo pesquisador. Aos que aceitaram o convite, estabeleceu-se contato individual (áudio/vídeo), para apresentação do projeto e leitura integral do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Após manifestação de concordância e assinatura do TCLE, aplicava-se o questionário on line e as respostas registradas simultaneamente.
Para a caracterização do perfil de gestores, realizou-se análise exploratória de dados, do software JAMOVI na sua versão 2.3.28, com descrição de variáveis quantitativas (média e desvio-padrão), e as medidas de frequência absoluta (n) e relativa (%) das variáveis categóricas.
Para os dados qualitativos, utilizou-se o referencial da análise de conteúdo de Bardin9, seguindo as etapas de pré-análise (transcrição e organização), exploração do material (codificação) e categorização dos elementos semânticos. As etapas e procedimento analítico foi conduzido pela própria pesquisadora: leitura, codificação e agrupamento. A partir disso, aprofundou-se a reflexão para reconstrução teórica dos dados analisados.
Posteriormente, a pesquisadora realizou a revisão final para validação dos significados e construção das categorias temáticas. O processo de categorização, estruturado a partir das ideias centrais identificadas como Unidade de Registro (UR)9, possibilitou a emersão de três categorias analíticas no material pesquisado: déficit de capacitação profissional, precarização das relações de trabalho e fragilidade institucional.
O projeto de pesquisa foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas, (Parecer nº 7.175.387). Os aspectos éticos foram observados, respeitando-se à Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
Destaca-se que os dados deste estudo foram devidamente anonimizados, garantindo a proteção das informações individuais. Sua reutilização será autorizada apenas em condições previamente estabelecidas, direcionadas a finalidades científicas e institucionais.
DISPONIBILIDADE DOS DADOS
O conjunto de dados não está publicamente disponível devido à proteção da privacidade dos participantes, sendo disponibilizado apenas mediante solicitação ao autor correspondente.
RESULTADOS
À análise dos dados, identificou-se que dos 62 indivíduos elegíveis, 56,5% consentiram em participar. Contudo, mesmo após o mínimo de duas tentativas de contato, por mensagem ou ligação telefônica, registrou-se uma taxa de não resposta de 43,5% classificadas como perdas.
Com base em respostas de seleção única, os resultados foram estruturados em três eixos temáticos: 1. Identificação sociodemográfica; 2. Formação e profissionais e 3. Atenção integral à saúde da pessoa idosa.
A gestão municipal das ações de saúde da pessoa idosa do Amazonas revela-se com um perfil de jovens mulheres, onde 68,6% declararam-se do sexo feminino. Os resultados revelam ainda, que a média de idade dos participantes foi de 40,4 (±8,7) que se aproxima ao evidenciado noutro estudo10.
Em relação à faixa etária, evidenciou-se que a maioria estava entre 25-34 anos (46%). Contudo, cabe relatar que são escassos os estudos com gestores das ações de saúde da pessoa idosa. No que diz respeito ao local de residência e atuação, 100% dos entrevistados trabalham e moram no município estudado.
Os dados apontam que 100% dos participantes possuem o nível superior completo. Quanto à formação do nível superior, identificou-se o equivalente a 51,4 % Enfermeiros e os demais 48,5 % são profissionais de outras áreas, como descrito na Tabela 1. Em consonância a este resultado, um levantamento realizado pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), na região norte, no período de 2017-2020, evidenciou que 54,4% dos ocupantes de cargos de chefia eram Enfermeiros, enfatizando sua predominância nos processos decisórios do serviço público e contribuição com a gestão municipal do SUS10. Em relação ao tempo de formação em nível superior, a média calculada foi de 9,3 (±7,1) anos (Tabela 1).
Distribuição de gestores quanto ao nível de estudo, nível superior e de pós-graduação e área da última pós-graduação. Manaus, AM, 2025.
Dos entrevistados, 88,6% fizeram pós-graduação sendo que, deste grupo 62,9% concluíram uma especialização. Quanto à área da última pós-graduação 28,6% cursaram Saúde Coletiva ou área correlata (Tabela 1) no entanto, apenas uma pessoa se especializou na área de envelhecimento humano.
A realização de formação complementar em saúde coletiva ou envelhecimento humano foi citada por 71,4% dos profissionais. Destes, 1/3 das capacitações possuía carga horária menor que 20h. Observou-se, ainda, que a maioria dos municípios não costumava ofertar cursos regularmente, o que pode impactar negativamente na promoção do autocuidado e independência da pessoa idosa. A maioria dos profissionais que participou de formações, 54,3%, conseguiu identificá-las e destes 48,6% referiram terem realizados formações em envelhecimento humano (Tabela 2).
Distribuição de gestores quanto à realização de formação complementar, nome da formação, capacitação em saúde, periodicidade e nomenclatura da formação. Manaus, AM, 2025.
Evidencia-se ainda que, 42,9% dos participantes responderam que havia oferta de capacitações em saúde no município de atuação. Quanto à última 33,5% relataram que se tratava de avaliação multidimensional e 13,5% o cuidado integral à pessoa idosa. Em relação à periodicidade, 33,3% dos entrevistados indicaram que as capacitações eram realizadas semestralmente (Tabela 2).
No que tange ao vínculo trabalhista, o estudo revelou que 65,7% são servidores temporários, 17,1% ocupam cargos comissionados e 8,5% são estatutários. Os dados revelam ainda que, 82,9% dos participantes acumulavam a gestão com outras atividades, enquanto 8,6% eram exclusivos para as demandas, mas sem gratificação para a função e 5,7% eram gratificados e exerciam atividades exclusivas para a gestão (Tabela 3). Ressalta-se que a média de tempo de atuação na gestão da SPI é de 2 anos.
Quando categorizados os resultados sobre o tempo frente à gestão na SPI, os dados revelam que 34,3% dos profissionais atuavam há menos de um ano, enquanto 62,9% possuíam de 01 a 10 anos na referida ação. Quanto às áreas de gestões anteriores, observa-se que 51,4% desenvolveram atividades gerenciais na área da saúde (Tabela 3). Destaca-se, que 100% dos que responderam ao questionário respondiam pela gestão da ação no momento da entrevista.
Os dados revelam que, quanto ao conhecimento dos marcos legais 28,6% citou o Estatuto da Pessoa Idosa. Contudo, na autoavaliação sobre a PNSPI 51,4% afirmaram possuir um bom nível de conhecimento. No que tange ao conhecimento dos manuais norteadores da política, 74,3% declararam conhecê-los. (Tabela 4).
Distribuição quanto conhecimento das políticas, manuais e garantia do cuidado à pessoa idosa. Manaus, AM, 2025.
Em se tratando da existência de metas específicas para demandas da pessoa idosa, 45,7% dos profissionais informaram que tais objetivos estão contemplados no plano de saúde municipal. Quanto à existência de linha de cuidado, 40% destacaram que ela existe, mas não foi publicada oficialmente e 31,4% relataram sua inexistência. No que diz respeito ao programa de atenção domiciliar, 85,7% afirmaram existir somente na atenção básica/primária.
Quando indagados sobre a avaliação das ações de garantia do cuidado à pessoa idosa, 40% as avaliaram como boa e 22,9% como ótima. Referente à existência de Conselho Municipal da Pessoa Idosa (CMPI) e à participação da Secretaria Municipal de Saúde, os resultados mostraram que 45,7% referiram não haver CMPI em funcionamento no município (Tabela 4).
Na Figura 1 estão representadas as principais limitações para a implementação das políticas de saúde da pessoa idosa nos municípios. À análise de conteúdo segundo Bardin9, permitiu agrupar essas limitações em três categorias centrais: déficit de capacitação profissional, evidenciado pelo desconhecimento dos marcos legais e baixa formação específica em envelhecimento; precarização das relações de trabalho, marcada pela alta rotatividade e vínculos temporários, que comprometem a continuidade das ações e integralidade do cuidado; e fragilidade institucional, expressa na ausência de linhas de cuidado consolidadas, baixa representatividade nos conselhos municipais e dificuldades de articulação intersetorial. Esses achados indicam que os obstáculos identificados ultrapassam questões pontuais e refletem condicionantes estruturais da gestão em saúde.
No mesmo sentido, observa-se que as fragilidades da gestão não se restringem à dimensão técnica, mas resultam da combinação entre lacunas formativas, instabilidade contratual e insuficiência de mecanismos de governança. A análise evidenciou que tais fatores comprometem a efetividade e a sustentabilidade das políticas públicas voltadas à pessoa idosa. Assim, destaca-se a necessidade de investimento contínuo em formação profissional, da desprecarização dos vínculos de trabalho e do fortalecimento institucional, com vistas à consolidação de uma linha de cuidado capaz de responder às demandas do envelhecimento populacional no Amazonas.
DISCUSSÃO
A gestão das ações de saúde da pessoa idosa de municípios amazonenses revela-se com um perfil de jovens mulheres, evidenciando uma forte tendência da feminização da força de trabalho11. Tal acontecimento decorrente da associação histórica do cuidado ao gênero feminino, de padrões socioculturais consolidados e da expressiva presença de mulheres nas profissões da saúde tanto executando como coordenando políticas de saúde.
A média de idade dos gestores, nos municípios amazonenses, estimada em 40 anos, aproxima-se dos resultados de outro estudo10,12, reforçando a ideia de que a maturidade é um requisito para assumir cargos de gestão. Observa-se, contudo, que a faixa etária mais recorrente situa-se entre 25 e 34 anos, o que pode trazer inovação e dinamismo, mas também desafios relativos à menor experiência em políticas voltadas a este público. Ressalta-se, ainda, a escassez de pesquisas específicas sobre gestores das ações de saúde da pessoa idosa, o que limita comparações mais consistentes e aprofundadas.
Quanto à formação, este estudo aponta o predomínio de enfermeiros no gerenciamento das ações de saúde para pessoas idosas. Tais resultados enfatizam a predominância desta categoria nos processos decisórios do serviço público, o que se deve à sua formação ser voltada para liderança, organização de serviços e cuidado integral, especialmente na Atenção Primária à Saúde, tornando-os aptos às funções de coordenação e gestão de políticas de saúde13.
Em relação à formação complementar, os resultados demonstram que a maioria dos entrevistados possuem baixa formação em envelhecimento; apenas um participante declarou possuir especialização na área de envelhecimento humano. Além disso, a maioria dos municípios não costuma ofertar cursos para os profissionais, o que pode impactar negativamente a promoção do autocuidado e independência da pessoa idosa.
Com isso, percebe-se que, mesmo com todo avanço ocorrido na legislação por meio da elaboração de estratégias e instrumentos de cuidados da população idosa, tornam-se ineficazes sem a compreensão da importância e engajamento dos profissionais e órgãos governamentais - primordiais para efetividade das políticas públicas e garantia da assistência em saúde14.
Para viabilizar e concretizar tais políticas, é necessária a elaboração de metas específicas para definir e adequar planos, projetos e atividades do setor saúde, favorecendo o monitoramento periódico, elaboração de estratégias e intervenção oportuna nos resultados, a fim de que sejam sempre aceitáveis e constantes15. Com o estudo foi possível identificar municípios que já direcionam suas ações para a pessoa idosa no Plano Municipal, demonstrando preocupação no que se refere ao aprimoramento, manutenção e recuperação da capacidade funcional deste grupo.
Nesse contexto, destaca-se a relevância dos Conselhos Municipais da Pessoa Idosa (CMPI) fundamentais para garantir a efetividade das políticas públicas por meio da fiscalização e da participação social deste segmento16. Todavia, o estudo evidencia que a maioria dos municípios não possui conselho em funcionamento, o que resulta em uma lacuna de representatividade e fragilidade no controle social. Tal cenário limita a construção de políticas inclusivas demonstrando que, mesmo diante de diretrizes claras da PNSPI, observa-se influência do poder executivo sobre a criação e funcionamento, dificultando a execução de políticas intersetoriais17,18. Portanto, assegurar o seu funcionamento é essencial para consolidar a participação social e a inclusão do envelhecimento no planejamento municipal.
No que concerne ao tempo de experiência prévia em gestão, os dados revelam um predomínio de profissionais com menos de um ano na função, podendo ser decorrente da rotatividade na política, escassez de profissional especializado e perfil jovem da força de trabalho. Com isso, pode-se apresentar uma gestão fragilizada, risco de descontinuidade e redução na efetividade das políticas13.
Em se tratando da atuação em gestões anteriores, 45,7% não tinham experiência prévia em outras áreas. Ressalta-se, que a média de tempo de atuação na gestão da saúde da pessoa idosa é de dois anos, o que pode estar relacionado a baixa identificação das políticas de atenção à saúde da pessoa idosa pelos entrevistados. Cabe lembrar, que a PNSPI e o Estatuto para Pessoa Idosa orientam ações sociais e de saúde para garantir os direitos e a proteção, exigindo o compartilhamento de responsabilidades com outros setores e incentivando a autonomia e participação ativa das pessoas idosas na sociedade19.
Mediante isso, o tempo médio apresentado no estudo reflete uma alta rotatividade dos profissionais em sua maioria contratados de forma temporária ou comissionada. A ausência de vínculo empregatício permanente pode comprometer a longitudinalidade do cuidado, gerar desorganização do sistema de saúde e detrimento da qualidade da atenção ofertada. Ademais, os profissionais submetidos às relações de trabalho precarizadas, sem acesso a direitos e benefícios – tendem a apresentar menor engajamento na consolidação das políticas públicas de longo prazo20.
Outro ponto a ser evidenciado, é a variedade de vínculos trabalhistas desde o estatutário aos de regime de contrato pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), nas quais grande parte dos profissionais é contratado temporariamente ou ocupa cargo comissionado. A coexistência dos diferentes vínculos reflete uma complexidade regional, evidenciado pela dificuldade de estabelecimento do profissional, influência política e até restrição orçamentária como fatores para outras formas de contratação, o pode gerar precarização e fragilidade institucional21.
Diante disso, o estudo evidencia a necessidade de desprecarizar o trabalho no serviço público. As políticas nacionais de Humanização e de Saúde do Trabalhador orientam esse processo para assegurar o cumprimento dos preceitos constitucionais e a democratização do acesso aos serviços do Estado, permitindo ao trabalhador exercer seu papel de intermediador entre sociedade e Estado22.
No que se refere a execução da gestão exclusiva para essa demanda, a maioria dos participantes informou que desenvolvia atividades inerentes à sua profissão paralelamente ao cargo, o que pode gerar uma sobrecarga, bem como dificulta uma qualificação específica voltada à saúde da pessoa idosa. Dada a impossibilidade da existência de uma pessoa exclusiva para essas demandas - por se tratar de municípios em sua maioria de pequeno porte - uma formação voltada à compreensão dos ciclos de vida e suas especificidades pode contribuir para um olhar mais integral dos técnicos.
Este estudo revela que, embora a maioria dos municípios referiram ter uma de linha de cuidado desenhada, poucos a publicaram e implementaram oficialmente. Com isso, percebe-se fragilidade na articulação e integração das ações multidisciplinares, comprometendo o cuidado integral e longitudinal ao paciente. Na literatura destaca-se, que uma linha de cuidado bem estruturada influencia positivamente na reorganização do cuidado à pessoa idosa, na qualidade do envelhecimento saudável e sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro23.
Na linha de cuidado, a caderneta de saúde da pessoa idosa é uma ferramenta de baixa densidade tecnológica, que permite o registro individualizado, incentivo ao autocuidado, acompanhamento longitudinal, planejamento do cuidado, e avaliação multidimensional da pessoa idosa17. Apesar de citada por muitos gestores, a literatura atribui sua subutilização à falta de conhecimento, indisponibilidade do instrumento nas UBS e tempo reduzido para preenchimento podendo prejudicar a saúde e qualidade de vida da pessoa idosa24. Contudo, demonstram intencionalidade em aprimorar resultados sanitários e otimização dos recursos financeiros.
O acelerado envelhecimento populacional - impulsionado por avanços científicos, urbanização e o declínio da taxa de natalidade e mortalidade - impõe novos desafios à efetividade e a sustentabilidade das políticas públicas. Esse cenário exige reformulação de políticas públicas, que promovam ações intersetoriais de prolongamento de vida, mitigadoras de desigualdades sociais visando garantir o cuidado integral à pessoa idosa25
Nesse contexto, o predomínio de enfermeiros na gestão da saúde pública resulta da interação entre fatores organizacionais – como formação voltada para liderança, ausência de capacitação específica e vínculos precários – e fatores federativos como rotatividade política, descentralização do SUS e desigualdade territorial. Nos municípios amazônicos, essa combinação de fragilidade institucional e precarização compromete a implementação da PNSPI, dificultando logística, suporte técnico e educação permanente, além de enfraquecer a coordenação regional, gerando descontinuidade das ações e vulnerabilidade frente às condições adversas da região19.
Reconhece-se como limitações do presente estudo a aceitação voluntária de apenas 35 gestores (56,5%), mesmo após o mínimo de duas tentativas de contato telefônico. Tal limitação poderia ter sido minimizada pela coleta de dados in loco, alternativa inviabilizada pelas longas distâncias entre os municípios, tempo de viagem de fluvial e alto custo por via aérea na região.
CONCLUSÃO
Conclui-se que há fragilidades na gestão da saúde da pessoa idosa nos municípios estudados, expressadas por uma baixa experiência dos gestores na temática do envelhecimento e da gestão pública, sendo imperativo investir em capacitações contínuas, bem como implementar estratégias pare reduzir a rotatividade e sobrecarga dos técnicos garantindo uma gestão que impulsione uma linha de cuidado adequada às demandas da população.
No território amazônico, é essencial o conhecimento das particularidades contextuais como: a baixa densidade populacional, as populações tradicionais (indígenas, quilombolas e principalmente, ribeirinhos) e seu modo peculiar de viver às margens dos rios ou isolados - representam desafios estruturais. Superar tais barreiras é condição fundamental para que seja alcançada a universalidade, a integralidade da assistência e a continuidade do cuidado à pessoa idosa.
Entre os aspectos mais relevantes do presente estudo, destacam-se a baixa formação em envelhecimento, o desconhecimento das políticas públicas e a vulnerabilidade de vínculo empregatício. Tais fatores podem ocasionar a descontinuidade do cuidado longitudinal, comprometer a qualidade dos atendimentos e gerar desorganização do sistema de saúde.
Pode-se apontar como potencialidades, a presença de metas específicas nos planos municipais e a utilização de instrumentos de qualificação da atenção, que favorecem à organização do trabalho das equipes de saúde e acompanhamento pelos familiares. Contudo, a operacionalização das políticas públicas no SUS requer gestores em saúde com capacidade de aprendizado contínuo, que priorizem a soluções inovadoras, atendam às diferentes necessidades de saúde da população idosa urbana e rural e promovam a participação social visando uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária.
Recomenda-se investir em capacitação permanente e estratégias para evitar a rotatividade e sobrecarga dos técnicos, garantindo uma gestão que impulsione uma linha de cuidado adequada. Além disso, torna-se imperativo priorizar demandas políticas voltadas ao público acima dos sessenta anos. Espera-se que os conhecimentos gerados possam subsidiar estudos futuros e colaborar com a implementação das políticas de atenção à saúde de pessoas idosas consonantes à realidade local.
Cabe ainda reconhecer limitações metodológicas do estudo, como a utilização de amostra de conveniência, alta taxa de perdas (43,5%), autorrelato e o caráter descritivo da análise. Tais fatores podem restringir a generalização dos resultados e possível relações causais, sem diminuir a relevância das evidências produzidas como fonte geradora de reflexões e subsídio para o aprimoramento na gestão da saúde da pessoa idosa.
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Cristian Arnecke Schröder


