Open-access Delirium em pessoas idosas hospitalizadas: influência de fatores sociodemográficos e clínicos em um estudo longitudinal

Resumo

Objetivo  Analisar os efeitos das características sociodemográficas e clínicas na ocorrência de delirium em pessoas idosas hospitalizadas.

Método  Estudo longitudinal prospectivo realizado com 427 pessoas idosas (≥60 anos de idade) sem ocorrência de delirium na admissão hospitalar, entre março de 2022 e julho de 2023. O delirium foi monitorado diariamente até alta ou óbito. Curvas de Kaplan–Meier estimaram a sobrevida, e a regressão de Cox calculou as razões de risco (IC95%), avaliadas pelo teste de Wald. A proporcionalidade dos riscos foi verificada pelos resíduos de Schoenfeld.

Resultados  O risco de <italic>delirium </italic>foi 5,47 vezes maior nos frágeis, 2,5 vezes maior em cuidados paliativos e 2,51 vezes maior em pessoas com demência. Renda superior a 3,1 salários mínimos foi fator protetor, reduzindo o risco em 71% em relação à faixa de 0 a 1 salário mínimo. Pessoas idosas com internações nos últimos 12 meses apresentaram risco de delirium 56% menor. Idade ≥80 anos (p=0,0007), viuvez (p=0,0142), baixo peso (p=0,0002), fragilidade (p<0,001), demência (p≤0,0001) e cuidados paliativos (p≤0,0001) associaram-se a menor tempo até o primeiro episódio de delirium.

Conclusão  A fragilidade, demência e necessidade de cuidados paliativos foram os principais fatores de risco para delirium em pessoas idosas, enquanto maior renda mostrou efeito protetor. Reconhecer esses fatores permite direcionar tratamentos e cuidados preventivos, individualizados e mais eficazes para delirium na população idosa hospitalizada.

Palavras-chave
Idoso; Hospitalização; Delirium; Estudo Observacional; Fatores de Risco.

Abstract

Objective  To analyze the effects of sociodemographic and clinical characteristics on the occurrence of delirium in hospitalized older adults.

Method  A prospective longitudinal study was conducted with 427 older adults aged ≥60 years without delirium at hospital admission, between March 2022 and July 2023. Delirium was monitored daily until discharge or death. Kaplan–Meier curves were used to estimate survival, and Cox proportional hazards regression was used to calculate hazard ratios (95% CI), assessed using the Wald test. The proportional hazards assumption was verified using Schoenfeld residuals.

Results  The risk of delirium was 5.47 times higher in frail individuals, 2.5 times higher in those receiving palliative care, and 2.51 times higher in individuals with dementia. Income greater than 3.1 minimum wages was a protective factor, reducing the risk by 71% compared with the 0–1 minimum wage category. Older adults with hospitalizations in the previous 12 months had a 56% lower risk of delirium. Age ≥80 years (p=0.0007), widowhood (p=0.0142), low body weight (p=0.0002), frailty (p<0.001), dementia (p≤0.0001), and palliative care (p≤0.0001) were associated with shorter time to first delirium episode.

Conclusion  Frailty, dementia, and the need for palliative care were the main risk factors for delirium in older adults, whereas higher income showed a protective effect. Recognition of these factors allow the implementation of targeted, individualized, and more effective preventive and therapeutic strategies for delirium in hospitalized older adults.

Keywords
Aged; Hospitalization; Delirium; Observational Study; Risk Factors.

INTRODUÇÃO

O delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda e multifatorial, considerada uma das condições mais prevalentes entre pessoas idosas hospitalizadas, devido à presença concomitante de múltiplos fatores de risco1. Caracteriza-se por alterações de consciência e atenção, pensamento desorganizado, flutuação do estado cognitivo, além de sintomas como alucinações, fala incoerente, labilidade emocional e distúrbios do ciclo sono-vigília2. Essas manifestações refletem a vulnerabilidade do sistema nervoso central frente a condições clínicas agudas, efeitos adversos de medicamentos (incluindo intoxicação ou abstinência), intervenções anestésico-cirúrgicas e desequilíbrios metabólicos ou eletrolíticos3.

A epidemiologia do delirium varia de acordo com o contexto clínico e assistencial. No ambiente hospitalar, o próprio processo de hospitalização funciona como estressor para a pessoa idosa, contribuindo para taxas de delirium de 18% a 35% nas admissões e de 11% a 29% durante a hospitalização4. Em uma análise mais detalhada, a prevalência chega a 26,2% nas enfermarias clínicas, sendo especialmente elevada em cuidados paliativos (55,9%) e em medicina interna (41%)5. Apesar de sua alta frequência, segue subdiagnosticado em cerca de um terço dos casos, comprometendo a segurança do paciente e a qualidade do cuidado6.

As consequências do delirium vão além do episódio agudo e sofrimento, estando associadas a aumento de morbidade e mortalidade7, prolongamento do tempo de hospitalização, declínio funcional e cognitivo persistente8, além de maiores taxas de institucionalização após a alta e custos elevados para os sistemas de saúde7.

Além disso, o delirium não é uma entidade uniforme; trata-se de uma síndrome heterogênea que engloba pacientes com diferentes perfis sociodemográficos, graus de vulnerabilidade, reservas cognitivas e apresentações clínicas. Abordar todos os casos como “um delirium único por todas as causas” dificulta a identificação de fatores de risco específicos, mecanismos fisiopatológicos subjacentes e estratégias personalizadas de prevenção e gerenciamento9. Ademais, estudos longitudinais recentes demonstraram que, mesmo em cenários específicos, o delirium está fortemente associado a aumento da mortalidade intra-hospitalar e após a alta10,11.

Dada a elevada prevalência na população geriátrica hospitalizada e o impacto funcional e cognitivo, torna-se imperativo compreender sua epidemiologia local, identificar fatores de risco modificáveis e aprimorar as estratégias de prevenção e gerenciamento12. Apesar disso, há escassez de estudos que integrem de forma sistematizada as características sociodemográficas e clínicas no contexto hospitalar brasileiro. Além dessas limitações, constata-se uma lacuna importante na análise do tempo até o surgimento do delirium, aspecto essencial para identificar períodos críticos de risco e orientar intervenções preventivas oportunas. Essa ausência de dados limita a identificação de perfis específicos de risco e dificulta a implantação de intervenções específicas.

Nesse contexto, o presente estudo objetivou analisar os efeitos das características sociodemográficas e clínicas na ocorrência de delirium em pessoas idosas hospitalizadas em instituição da região sul do Brasil.

MÉTODO

Para a construção sistematizada deste estudo, utilizou-se a ferramenta de orientação do STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology (STROBE)13.

Trata-se de estudo longitudinal prospectivo realizado com pessoas idosas, com idade maior ou igual a 60 anos, sem diagnóstico de delirium na admissão, hospitalizadas com condições clínicas passíveis de serem acompanhadas em enfermarias clínicas ou cirúrgicas de um hospital de média complexidade na Região Sul do Brasil. A coleta foi conduzida entre março de 2022 e julho de 2023, tendo como período de seguimento o tempo de hospitalização. Realizou-se avaliação diária da ocorrência de delirium como variável dependente. O delineamento longitudinal prospectivo permite a observação da incidência de desfechos ao longo do tempo no mesmo indivíduo, possibilitando a análise de mudanças e associações temporais com maior robustez metodológica14.

Para compor a amostra deste estudo, foram definidos os seguintes critérios de inclusão dos participantes: idade ≥60 anos, ter sido hospitalizado e ausência de delirium à admissão hospitalar. Foram excluídos aqueles que apresentaram instabilidade clínica, definida como a presença de alterações hemodinâmicas, respiratórias, metabólicas ou sintomas agudos associados a sinais de gravidade, observados no momento da avaliação ou que estivessem em precaução de gotículas.

Este artigo é um subprojeto do estudo matriz intitulado “Fragilidade física e os desfechos clínicos, funcionais, psicossociais, nutricionais e na demanda de cuidados em pessoas idosas hospitalizadas”. O recorte temporal utilizado para o cálculo do tamanho da amostra foi o período pré-pandêmico, ano de 2019. No cálculo, considerou-se a prevalência de 50% de delirium em pessoas idosas hospitalizadas, nível de confiança de 95% e erro amostral de 5%. Considerados os valores para cada parâmetro, obteve-se tamanho amostral de, no mínimo, 352 pacientes, ao qual foi adicionado 20%, tendo em conta possíveis perdas de seguimento.

Da amostra constituída por 547 pessoas idosas, 120 deles (21,9%) apresentaram diagnóstico de delirium, portanto, excluídos do seguimento longitudinal. Dessa forma, 427 indivíduos foram acompanhados diariamente durante o período de hospitalização. A ocorrência de delirium foi avaliada até a alta ou o óbito. As avaliações foram conduzidas por equipe treinada, integrante de um grupo de pesquisa, utilizando instrumentos validados para detecção do transtorno e validadas por médico geriatra.

Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário sociodemográfico e clínico elaborado com as seguintes variáveis de interesse: sexo, idade, cor/raça, estado civil, escolaridade, situação financeira, delirium, fragilidade física, morbidades, cuidados paliativos e histórico de quedas. O estado nutricional foi classificado utilizando o Índice de Massa Corporal (IMC), sendo 22 a 27 kg/m² eutrófico, valores abaixo foram classificados como baixo peso e acima como sobrepeso15. A fragilidade física foi classificada considerando-se os cinco componentes do fenótipo de Fried, a saber: força de preensão manual; velocidade da marcha; fadiga/exaustão; perda de peso e gasto energético. A partir da mensuração dos cinco marcadores, as pessoas idosas foram classificadas em três condições: frágil, quando obtivessem três ou mais marcadores; pré-frágil, quando identificado um ou dois marcadores; e não frágil, quando não apresentassem nenhum dos marcadores16. A variável dependente (delirium) foi avaliada diariamente por meio do Confusion Assessment Method (CAM), instrumento validado que investiga quatro características cardinais: início agudo e evolução flutuante, déficit de atenção, pensamento desorganizado e alteração do nível de consciência17.

Na baseline, os participantes tiveram coletadas variáveis sociodemográficas, histórico clínico, delirium e fragilidade física. Nas avaliações de seguimento hospitalar, o delirium foi monitorado diariamente, desde a admissão até a alta ou óbito, com o instrumento CAM. Na onda final (alta hospitalar), foram reavaliados fragilidade física e delirium, mantendo-se os instrumentos e procedimentos iniciais para essas variáveis, de modo a verificar mudanças no status desses participantes.

Com o objetivo de analisar a ocorrência do primeiro diagnóstico de delirium com as variáveis demográficas e de condições clínicas, comparou-se o perfil da população na admissão hospitalar e o diagnóstico de delirium. Foram apresentados Intervalos de Confiança de 95% (IC95%) estimados pelo escore de Wilson em detrimento dos valores-p, por fornecerem informações mais relevantes para interpretação clínica e epidemiológica, incluindo a magnitude do efeito e a precisão das estimativas. O pressuposto de proporcionalidade de riscos foi avaliado por meio dos resíduos de Schoenfeld.

Inicialmente, a análise de sobrevida foi explorada por meio das curvas de Kaplan-Meier. O teste log-rank foi utilizado para comparar as curvas de sobrevida entre os grupos, testando se os tempos de sobrevida eram estatisticamente diferentes. A hipótese nula desse teste assume que não há diferença significativa na sobrevida entre os grupos comparados. Visto que o teste log-rank não permite testar o efeito simultâneo de outras variáveis independentes sobre o tempo de sobrevida, foram conduzidos modelos semiparamétricos de riscos proporcionais de Cox.

Na etapa de modelagem, foram apresentadas as estimativas brutas de razões de risco (Hazard Ratio – HR), com respectivo intervalo de 95% de confiança (IC95%). Empregou-se a regressão de Cox multivariada para estimar as associações ajustadas entre as variáveis de interesse e o tempo até a ocorrência do desfecho. A significância dos coeficientes das covariáveis nos modelos de sobrevida foi avaliada por meio do teste de Wald.

A seleção das variáveis independentes para compor o modelo de regressão múltipla de Cox baseou-se em critérios teóricos e epidemiológicos, priorizando a plausibilidade biológica e a literatura prévia sobre fatores associados ao delirium e à sobrevida. Adotou-se a abordagem de modelo completo (full model), na qual todas as covariáveis de interesse e de ajuste (sociodemográficas, clínicas e laboratoriais) foram mantidas na análise multivariada simultânea, independentemente do nível de significância estatística (valor-p) observado na análise bruta. Essa estratégia foi utilizada para assegurar o controle irrestrito de fatores de confusão e para apresentar as estimativas ajustadas do efeito de cada variável na presença das demais, evitando vieses decorrentes da exclusão de variáveis baseada puramente em critérios estatísticos automatizados.

A adequação do modelo final foi confirmada pela análise dos resíduos de Schoenfeld, para verificação do pressuposto de proporcionalidade dos riscos. Todos os testes estatísticos adotaram nível de significância de 5%.

O projeto matriz recebeu parecer favorável pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (nº 7.913.461) e do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (nº 5.055.260). Todos os princípios éticos foram respeitados, incluindo a participação voluntária e consentida das pessoas idosas e acompanhantes, conforme as recomendações contidas na Resolução nº 466 do Conselho Nacional de Saúde, de 12 de dezembro de 2012.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

RESULTADOS

Na Tabela 1, observa-se que 14,05% das pessoas idosas acompanhadas apresentaram delirium. Houve predomínio do sexo feminino em indivíduos com delirium (53,3%) em comparação aos sem delirium (52,9%). A média de idade foi maior no grupo com delirium (79,5±9,79 anos) em comparação ao grupo sem delirium (73,6±8,25 anos). Dos participantes que apresentaram delirium, 48,3% deles eram viúvos e 45% declararam renda entre 0 e 1 salário mínimo.

Tabela 1
Distribuição de frequência das características sociodemográficas e ocorrência de delirium (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

Na Tabela 2 verifica-se que, nos indivíduos que apresentaram delirium, prevaleceram as morbidades: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, demência, Acidente Vascular Encefálico e câncer. Nas pessoas idosas sem delirium destacaram-se hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca congestiva e cardiopatia isquêmica.

Tabela 2
Distribuição de frequência das morbidades e ocorrência de delirium (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

Na Figura 1 verifica-se que pessoas idosas mais frágeis (p<0,0001), com idade superior a 80 anos (p=0,0007), viúvos (p=0,0142), em cuidados paliativos (p≤0,0001), com baixo peso (p=0,0002) e com diagnóstico de demência (p≤0,0001) apresentaram o primeiro episódio de delirium mais precocemente durante a hospitalização. Renda superior a três salários mínimos destacou-se como fator de proteção para delirium incidente (p=0,0106).

Figura 1
Curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier para características sociodemográficas e morbidades de pessoas idosas hospitalizadas até o desenvolvimento de delirium (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

A curva global de Kaplan-Meier (Figura 2) demonstra que a probabilidade acumulada de sobrevida livre de delirium manteve-se superior a 50% durante todo o período de observação. Consequentemente, o tempo mediano de sobrevida não foi alcançado na amostra total (IC95%: 12 dias – não alcançado). O tempo médio restrito de sobrevida livre de delirium foi de 13,1 dias (EP: 0,63).

Figura 2
Curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier de pessoas idosas hospitalizadas até o desenvolvimento de delirium (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

Constata-se na Tabela 3 que as pessoas idosas frágeis apresentaram risco 5,47 vezes maior de delirium precoce. Estar em cuidados paliativos apresentaram risco de 2,5 vezes maior, e apresentar quadro demencial apresenta risco 2,51 vezes maior de apresentar delirium precoce. A renda superior a 3,1 salários mínimos associou-se a um risco 71% menor de ocorrência, e o relato de hospitalizações prévias associou-se a redução de 58% do risco de delirium precoce.

Tabela 3
Modelos de riscos proporcionais de Cox para associação entre o primeiro diagnóstico de delirium e características sociodemográficas e morbidades de pessoas idosas hospitalizadas (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

Conforme apresentado na Figura 3, não foram identificadas violações da pressuposição de proporcionalidade. Essa evidência foi confirmada pelo teste da pressuposição de proporcionalidade das razões de risco, cujos valores de p foram superiores a 0,05, indicando que a hipótese nula não foi rejeitada. Assim, o modelo ajustado atende adequadamente aos pressupostos do modelo de riscos proporcionais de Cox.

Figura 3
Gráfico do resíduo de Schoenfeld – primeiro diagnóstico de delirium em pessoas idosas hospitalizadas (N=427). Curitiba, PR, 2022-2023.

DISCUSSÃO

As características observadas na amostra como fragilidade, demência e necessidade de cuidados paliativos, configuram marcadores clássicos de vulnerabilidade fisiológica e cognitiva associados ao delirium. A idade avançada está associada à redução da reserva homeostática, disfunção imunológica e maior carga de comorbidades, elevando o risco de resposta exacerbada a estressores agudos18. Dados populacionais da Espanha corroboram a importância da faixa etária avançada como fator predisponente à ocorrência de delirium. Da amostra de 4.628.397 pacientes hospitalizados, identificou-se aumento na prevalência de delirium com o avanço da idade, atingindo 48% entre aqueles com 81 a 90 anos19.

A fragilidade, definida como um estado de vulnerabilidade aumentada frente a estressores agudos16, destaca-se como considerável preditor clínico de delirium. Neste estudo, pessoas frágeis apresentaram risco 5,47 vezes maior de delirium em comparação às não-frágeis, em consonância com estudos anteriores que indicam aumento de risco entre duas e três vezes em populações hospitalizadas20,21. Em recente revisão da literatura, os autores afirmam que a fragilidade e o delirium compartilham mecanismos fisiopatológicos comuns, incluindo inflamação crônica, neurodegeneração, insuficiência metabólica e carga vascular aumentada, indicando que ambas podem representar manifestações inter-relacionadas de um processo de envelhecimento biológico acelerado22. Esses achados ressaltam a importância de estratégias sistemáticas para rastreio e gerenciamento da fragilidade como componente central na prevenção do delirium na população idosa hospitalizada.

Pessoas idosas frágeis tendem a desenvolver delirium mais precocemente do que as não frágeis. A relação entre fragilidade, delirium e tempo de hospitalização foi explorada em um estudo multicêntrico com o emprego da Clinical Frailty Scale 23. O delirium ocorreu de forma mais precoce em pacientes frágeis. Naqueles que apresentaram delirium, o tempo de hospitalização não variou conforme a condição de fragilidade, entretanto, em pessoas idosas sem delirium e com maior grau de fragilidade, observou-se aumento progressivo do tempo de hospitalização. Desse modo, o impacto do delirium pode suplantar o efeito incremental da fragilidade sobre a duração da hospitalização23.

O baixo peso também surgiu como fator de risco significativo, associado ao surgimento mais precoce de delirium, dado corroborado por estudo desenvolvido na Coreia do Sul com 5.622 pessoas idosas hospitalizadas, no qual a incidência geral de delirium atingiu 19%, com risco significativamente maior entre os pacientes com baixo peso (OR 1,51; IC95% 1,07–2,12)24. Apesar de a literatura contemplar fatores de risco para o desenvolvimento de delirium, constata-se uma lacuna em relação à análise do tempo até o surgimento da condição.

Quanto à demência, este estudo identificou um risco 2,51 vezes maior de delirium em indivíduos com esse diagnóstico, em consonância com a literatura que a aponta como relevante fator predisponente25,26. A redução da reserva cognitiva e a dificuldade de adaptação ao ambiente hospitalar reforçam essa vulnerabilidade. Outra variável explorada foi o tipo de acomodação, com menor risco de delirium observado em pessoas idosas hospitalizadas em quarto individual (HR 0,66; IC95% 0,48–0,93)24. Uma revisão sistemática objetivou avaliar instrumentos de estratificação de risco para o delirium. A síntese dos resultados apontou a demência como o fator mais frequente, com razões de chances variando entre 3,3 e 18,33 27.

Estudos longitudinais demonstram que a presença de demência está associada não apenas ao maior risco de delirium, mas também ao aumento do tempo de hospitalização (14,3 versus 7,7 dias) e aos custos hospitalares28. Assim sendo, evidencia-se a relevância dessa condição no planejamento do cuidado à pessoa idosa hospitalizada.

No domínio social, variáveis como viuvez e baixa renda evidenciam dimensões menos exploradas, porém críticas diante da vulnerabilidade ao delirium. A renda superior a três salários mínimos se mostrou como fator de proteção contra a ocorrência precoce de delirium, com redução relativa de risco de 71%. Esses achados são corroborados por estudo de coorte prospectivo desenvolvido em Boston (EUA), no qual populações residentes em bairros socioeconomicamente desfavorecidos apresentaram risco duplicado de delirium no pós-operatório (RR 2,0; IC95% 1,3–3,1; p=0,01)29. Esses resultados sugerem que os determinantes sociais devem ser interpretados considerando desigualdades contextuais, acesso a cuidadores capacitados e redes de apoio social. Nível socioeconômico mais baixo também se associou a maior incidência de fragilidade, maior chance de progressão para estados mais avançados de fragilidade e menor probabilidade de reversão30.

A viuvez, por sua vez, pode refletir perda de suporte social e emocional, favorecendo o isolamento e reduzindo a resiliência frente a estressores agudos. Estudos indicam que pessoas idosas que vivem sozinhas constituem um grupo heterogêneo, no qual alguns mantêm independência e redes de apoio diversificadas, enquanto outros apresentam maior risco de hospitalizações prolongadas e custos hospitalares elevados31,32. Tais achados ressaltam a importância de abordagens sociais integradas para mitigar vulnerabilidades que predispõem ao delirium.

No domínio clínico, estar em cuidados paliativos emerge como fator robusto associado ao risco aumentado de delirium. Neste estudo, as pessoas idosas em cuidados paliativos apresentaram risco 2,5 vezes maior de delirium em comparação àqueles fora dessa modalidade de cuidado. Revisões sistemáticas demonstram prevalência amplamente variável de delirium em cuidados paliativos, estimada entre 4% e 88%, com cerca de um terço dos pacientes hospitalizados em contexto paliativo apresentando essa ocorrência33, podendo atingir até 93% em estágios terminais34.

A elevada prevalência de delirium em cuidados paliativos reflete a interação complexa de múltiplos fatores precipitantes, incluindo polifarmácia, uso de medicamentos com efeito anticolinérgico, distúrbios metabólicos, infecções e sofrimento físico e psicológico exacerbados, tornando essa população particularmente vulnerável34. O reconhecimento desse risco elevado reforça a necessidade de estratégias sistemáticas para prevenção, identificação precoce e gerenciamento individualizado do delirium em cuidados paliativos, visando à redução do sofrimento e à melhora da qualidade de vida de pacientes e cuidadores.

De forma inesperada, observou-se que pessoas idosas com histórico de hospitalização nos últimos 12 meses apresentaram risco relativo 58% menor de diagnóstico de delirium em comparação àqueles sem hospitalização prévia. Uma possível explicação para esse achado reside no fato de que hospitalizações prévias podem ter favorecido o reconhecimento de fatores de risco e a implementação de estratégias preventivas multicomponentes, como demonstrado em programas como o Hospital Elder Life Program 35. Além disso, é relevante considerar um possível viés de seleção, ou seja, pacientes mais frágeis ou que tenham apresentado delirium prévio podem ter evoluído para óbito, caracterizando um efeito de “viés de sobrevivente”.

O delirium é um fator desafiador para a realização de estudos no ambiente hospitalar, tendo em vista que se apresenta de forma flutuante. Destaca-se como limitação deste estudo a escassez de pesquisas que incorporem de forma sistemática a variável “tempo até a ocorrência de delirium” em pessoas idosas hospitalizadas, o que dificulta comparações diretas e aprofunda o desafio de análise temporal dessa síndrome geriátrica complexa.

CONCLUSÃO

Os fatores de risco identificados são marcadores de vulnerabilidade multidimensional em pessoas idosas, os quais indicam menor reserva fisiológica, cognitiva e social para enfrentar estressores agudos, destacando-se a fragilidade, a presença de demência e a necessidade de cuidados paliativos como os principais fatores de risco independentes. Por outro lado, a renda mais elevada mostrou-se um importante fator protetor, evidenciando o papel dos determinantes socioeconômicos na ocorrência do delirium.

A análise da sobrevivência permitiu identificar diferenças significativas no tempo até o primeiro episódio, reforçando a relevância de estratégias de prevenção direcionadas a grupos de maior risco. Esses achados contribuem para o aprimoramento do rastreamento precoce e do gerenciamento clínico do delirium em populações idosas, com implicações para a prática clínica e para o planejamento de políticas de saúde.

Nesse contexto, o delirium não é apenas um evento episódico, mas um sinal de descompensação global e de risco aumentado para piores desfechos clínicos, como mortalidade e declínio funcional. A identificação e o gerenciamento dessas condições são fundamentais para prevenir a ocorrência de delirium e mitigar suas consequências.

  • Financiamento
    Não houve financiamento para a execução deste trabalho.

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Editado por

  • Editado por
    Maria Luiza Diniz de Sousa Lopes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Set 2025
  • Aceito
    12 Mar 2026
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